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Bolema: Boletim de Educação Matemática

Print version ISSN 0103-636X

Bolema vol.26 no.42A Rio Claro Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-636X2012000100018 

RESENHAS

 

 

Marco Aurélio Kistemann Jr.

Doutor em Educação Matemática, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Rio Claro, SP. Professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Juiz de Fora, MG, Brasil

Endereço para correspondência

 

 

SOUZA, M. C. R. F.; FONSECA, M. C. F. R. Relações de Gênero, Educação Matemática e discurso - enunciados sobre mulheres, homens e matemática. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

Já na introdução, as autoras discutem as relações entre gênero e matemática, afirmando que esses estudos são uma novidade no campo da Educação Matemática no Brasil. Revelam, ainda, que ao voltarem seus olhares para essas relações de gênero e matemática, procuram não deixar capturar-se, ao focar tais relações, por armadilhas que possam comprometer a elaboração de argumentos que contradigam as asserções que defendem a matemática como própria ao masculino, como aquelas que afirmam que é parte da natureza masculina ser sempre bom em matemática, que a razão é intrínseca aos homens e a desrazão vinculada ao feminino.

Nesse sentido, o principal objetivo desse livro, entendemos, é mostrar que essa pseudoverdade, qual seja a de que homens são melhores do que as mulheres em matemática, constitui-se numa série de produções discursivas, engenhosamente articuladas aos modos como se tem atribuído significado, na presente sociedade, às feminilidades, às masculinidades e à matemática. O texto tem como objetivo, ainda, refletir sobre os discursos que conformam as relações entre homens, mulheres e matemática numa sociedade fortemente marcada por intensas desigualdades, dentre as quais as definidas pelos gêneros.

Ancoradas teoricamente no conceito de discurso de Michel Foucault, as autoras operacionalizam suas análises a partir das contribuições desse pensador, enfatizando que as relações de gênero e matemática são produzidas em discursos que tensionam as práticas de numeramento, nelas se constituindo, e as constituindo, como práticas generificadas. As autoras entendem que identidades de gênero, diferenças, matemática, relações homens/mulheres, relações homens/mulheres/matemática são produzidas discursivamente, e, nessa perspectiva, consideram e tomam as práticas de numeramento como práticas discursivas, dispondo-se a operar com esse construto teórico. Para Souza e Fonseca (2010), é preciso refletir sobre como a adoção do conceito de gênero como categoria analítica traz para o campo da Educação Matemática uma série de implicações que repercutem nas perguntas que se fazem, na(s) metodologia(s) de investigação ou no trabalho pedagógico que elegemos, nas maneiras como narramos esses procedimentos, e nos modos como produzimos e avaliamos os resultados a que acreditamos chegar.

No primeiro capítulo há um resgate histórico do surgimento e do desenvolvimento das discussões sobre gênero nas Ciências Sociais e na pesquisa em Educação e em Educação Matemática para, nesse processo, situar o modo como se tem operado com o conceito de gênero e as implicações da adoção desse conceito na investigação e na análise da prática pedagógica em Educação Matemática. Destacamos que, bem enfatizam as autoras, a incorporação do conceito de gênero aos estudos das mulheres é bastante recente no campo das Ciências Sociais e das pesquisas em Educação.

No capítulo 2, relata-se que pesquisadoras e pesquisadores do Grupo de Estudos sobre Numeramento têm adotado o conceito de práticas de numeramento como uma ferramenta, considerando as contribuições que tal uso emprestaria para a compreensão das relações e dos modos como o conhecimento matemático, tomado como produção cultural, se configura nas - e configura as - práticas sociais que se estabelecem em uma sociedade forjada por culturas escritas.

Para Souza e Fonseca, o ponto chave é propor uma compreensão das relações de gênero que permeiem a constituição de práticas de numeramento de mulheres e de homens, fabricando modos de ser mulher e de ser homem, de modo a não reduzir as análises de gênero na Educação Matemática à estreiteza de um estudo da relação das mulheres com a matemática. Nessa perspectiva, o conceito de práticas de numeramento auxilia, de acordo com as autoras, na problematização da concepção de matemática, na medida em que promove o questionamento sobre de qual matemática estamos falando.

Ao proporem a adoção das relações de gênero como categoria de análise - uma opção política, portanto -, as autoras optam por operar com o conceito de numeramento, compreendendo as práticas de numeramento como espaços de correlações de força, de jogos estratégicos, de lutas, de fabricações, de enfrentamentos entre mulheres, homens e matemática. Tal opção política, entendemos, procura expor as tramas das relações de gênero nessas práticas, que acabam por configurar-se como produtoras e legitimadoras de desigualdades entre homens e mulheres.

Para discutir as relações de gênero, produzidas discursivamente em práticas de numeramento (e produtoras dessas práticas), as autoras trazem acontecimentos discursivos capturados por elas a partir de relativos e situações vividas por alunas e alunos da Educação de Pessoas Jovens e Adultas (EJA), trabalhadoras e trabalhadores pertencentes a uma associação de catadoras e catadores de materiais recicláveis; buscando, também, contemplar acontecimentos discursivos na vida de outras mulheres e outros homens que se apresentam em notícias de jornal, pesquisas de opinião e anedotas que circulam em mídia eletrônica.

Souza e Fonseca, deixando claro que os discursos são constituídos por enunciados, nomearam, nesse processo, quatro enunciados: Homem é melhor em matemática (do que mulher); Mulher cuida melhor...mas precisa ser cuidada; O que é escrito vale mais; Mulher também tem direitos.

No terceiro capítulo, o que mais nos chamou a atenção foi a ênfase dada pelas autoras ao fato de que, quando se contemplam as relações entre gênero e matemática, a primeira e inevitável questão que se coloca é a do reforço ou do questionamento à pretensa superioridade masculina para matemática. A análise do enunciado Homem é melhor em matemática (do que mulher), desenvolvida por Souza e Fonseca, tem como objetivo justamente discutir a produção de relações de gênero envolvida na circulação desse discurso. No espaço da Associação de catadoras e catadores de materiais recicláveis, relatam as autoras, acontecia um projeto de extensão universitária, funcionando no local uma turma de EJA da primeira etapa do Ensino Fundamental. Uma única professora desenvolvia, simultaneamente, um trabalho específico para aquisição do código de leitura e escrita com um grupo em processo de alfabetização, e outro trabalho, que envolvia atividades também de matemática, com os catadores e as catadoras que já tinham um pouco mais de intimidade com o sistema de escrita. Esses são os cenários que, nessa pesquisa, são atravessados pelo enunciado Homem é melhor em matemática (do que mulher). De acordo com Souza e Fonseca, o enunciado não se encontra nos signos linguísticos: ele atravessa as situações discursivas, mostrando o funcionamento desse discurso. Assim, o enunciado da superioridade masculina, como natural e universal para as contas, circula também nas enunciações femininas. Por diversas vezes, as mulheres enfatizam a maior capacidade masculina para atividades matemáticas socialmente valorizadas. Destacamos que também ecoa nas enunciações femininas o discurso da dificuldade das mulheres para entender questões matemáticas da vida cotidiana. A análise feita leva as autoras a reconhecer o pertencimento desse enunciado ao campo discursivo da racionalidade cartesiana. Um ponto de destaque, nesse capítulo, encontra-se no momento em que revelam que o discurso da superioridade masculina em matemática, que produz a racionalidade como própria do masculino e a irracionalidade como própria do feminino, multiplica-se em nossa sociedade moderna, associando-se a enunciados de outros campos. Ao analisarem a relação entre relações de gênero e matemática, Souza e Fonseca compreendem a necessidade de voltar-se para as práticas cotidianas não-escolares de mulheres e homens, que podem oferecer elementos para compreender tais relações.

No capítulo 4, discutem-se práticas não ligadas diretamente à sala de aula, nas quais a alusão à matemática não adquire centralidade, mas que são instauradoras de relações desiguais de gênero e produzem práticas matemáticas femininas e práticas matemáticas masculinas. Dessas, são exemplo as que atam discursivamente as mulheres às práticas do cuidado. O enunciado de que Mulher cuida melhor... mas precisa ser cuidada foi capturado, no material empírico que as autoras analisaram, em práticas de numeramento que se relacionam à vida de mulheres e homens no espaço da casa, especialmente as constituídas nas preocupações femininas no cuidado com o outro.

Destacamos que, até esse capítulo, as autoras mostram dois enunciados que produzem desigualdades nas relações de gênero e matemática: a matemática como um campo de domínio masculino e o cuidado como pertencendo à natureza feminina.

Estudos no campo da Educação Matemática têm discutido a tensão provocada pelo recurso a uma matemática oral, aproximada e que continuamente desafia e é desafiada por uma matemática escrita, controlável, padronizada, exata. Ao olhar essas tensões entre escrito e oral como tensões generificadas, elas se complexificam, pois envolvem, além da hegemonia da escrita, a pretensa supremacia masculina em matemática, produzida discursivamente, seja nas práticas matemáticas que utilizam a escrita, seja nas que mobilizam apenas os recursos da oralidade.

São essas tensões que Souza e Fonseca apresentam no quinto capítulo, ao discutirem o enunciado - o que é escrito vale mais. O enunciado - o escrito vale mais - contribuirá, dessa forma, para estigmatizar aqueles e aquelas que não se apropriaram de práticas de numeramento escritas. Nesses campos, o questionamento da supremacia do escrito fragiliza, conforme creem as autoras, as práticas hegemônicas, o que acirra as tensões e as disputas de legitimidade e valorização entre as práticas orais e as práticas escritas. Souza e Fonseca identificam o enunciado - O que é escrito vale mais - como pertencendo ao campo do discurso pedagógico escolar, de modo que, conforme salientam, com fortalecimento da instituição escolar, as práticas orais foram se tornando marginais, valorizando o uso da escrita em detrimento do recurso à oralidade.

Há, de acordo com Souza e Fonseca, uma deslegitimação e desautorização das práticas de numeramento femininas, e tentativas constantes de normalização de tais práticas que se acirram no espaço escolar, trazendo efeitos maiores para as mulheres do que para os homens, por esse duplo silenciamento que as sujeita, e ao qual elas também, se sujeitam.

No penúltimo capítulo as autoras explicitam e analisam mais um enunciado que disputa espaço com o enunciado do cuidado e tensiona o enunciado da superioridade masculina em matemática. Trata-se da recorrente afirmação de que Mulher também tem direitos. Os comentários das catadoras da associação remetem a uma conquista de diretos forjada na necessidade de assumirem responsabilidades antes atribuídas aos homens. Quando se referem ao fato de os homens terem deixado as mulheres fazerem tudo, não falam de permissão concedida ou conquistada, mas de abstenção e espaço vazio, que convoca a força feminina para tomar as rédeas de sua vida e da vida de seus familiares. Também permeia o relato o modo como realizam seus negócios, adentrando num mundo antes restrito à ação masculina, reafirmando sua desenvoltura e independência para se locomover nesse mundo.

Fica claro, ao longo deste capítulo, que a produção discursiva sobre feminilidades e direitos desestabiliza discursos masculinos e hegemônicos que permeiam os campos da economia, da justiça, da medicina, das comunicações, das leis. Dessa maneira, não apenas promove a ocupação pelas mulheres de atividades antes destinadas exclusivamente aos homens, mas, também, atingem o tecido social, ao estabelecer relações de gênero menos desiguais, produzindo outras feminilidades e outras masculinidades. As autoras ressaltam ainda, que, ao analisarem as práticas de numeramento de mulheres e homens foi possível constatar que tais práticas se produzem, também, marcadas pela violência contra a mulher.

No capítulo final intitulado Relações de gênero, tensões discursivas e práticas de numeramento, as autoras discutem as tensões e suas repercussões para a compreensão das relações de gênero e matemática no campo da Educação Matemática. Os capítulos que descrevem os enunciados: Homem é melhor em matemática (do que mulher); Mulher cuida melhor, mas precisa ser cuidada; O que é escrito vale mais e Mulher também tem direitos foram escritos com o propósito de mostrar as disputas discursivas que envolvem as práticas de numeramento num movimento permanente de tensão entre discursos.

As condutas de mulheres e homens nas práticas de numeramento mostraram, segundo relatam as autoras, que o espaço escolar é um espaço de produção de identidades hegemônicas de gênero. Assim, no espaço da escola e pelo aparato discursivo que nela circula, que ela produz e nela se produz, a matemática continua sendo, constantemente, veiculada como própria a um reduto masculino, ao mesmo tempo em que se fabricam como naturais a razão como posse do homem, e a falha, a dificuldade ou a dedicação feminina frente a essa matemática como inerentes à condição feminina. "Como a vida é convocada na escola a servir ao "domínio da razão", o que prevalece como verdade é que homens são naturalmente melhores em matemática do que mulheres" (SOUZA; FONSECA, 2010, p.135).

Este instigante livro, ao discutir relações de gênero e matemática, quer ser um convite à produção de subjetividades mais livres, configurando-se para as autoras como uma forma de luta, "contra o que nos ata a nós mesmas e a nós mesmos; contra o que nos aprisiona; contra os modos como temos sido constantemente capturadas e capturados, em nossa própria história, por tantas verdades que não cansam de se produzir e de nos convocar a nos produzirmos" (SOUZA; FONSECA, 2010, p.138). Em suma, é uma leitura obrigatória para que entendamos as relações de gênero, as arbitrariedades e os discursos que permeiam as práticas do universo masculino e feminino nas práticas escolares e extra-escolares.

 

 

Endereço para correspondência:
Marco Aurélio Kistemann Jr.
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CEP: 36036-330. Juiz de Fora, MG, Brasil
E-mail: marco.kistemann@ufjf.edu.br, twitter: @MARCOKISTEMANN