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Bolema: Boletim de Educação Matemática

versión impresa ISSN 0103-636Xversión On-line ISSN 1980-4415

Bolema vol.26 no.44 Rio Claro dic. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-636X2012000400016 

RESENHAS

 

Trilhas na construção de versões históricas sobre um Grupo Escolar

 

 

Silvana Matucheski

Mestre em Educação em Ciências e em Matemática pelo Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e em Matemática (PPGECM) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora da EJA II (5ª a 8ª série), Prefeitura Municipal de Rio Claro, São Paulo, Brasil. Endereço para correspondência: Silvana Matucheski. Rua 15 B, nº 1004, casa 4, Bela Vista. CEP 13506-750, Rio Claro, São Paulo, Brasil
E-mail: silmatucheski@yahoo.com.br

 

 

SOUZA, L. A. Trilhas na construção de versões históricas sobre um Grupo Escolar. 2011. 420f. Tese (Doutorado em Educação Matemática) - Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), Universidade Estadual Paulista (UNESP), Rio Claro, 2011. Orientador: Antonio Vicente Marafioti Garnica.

A proposta de Souza, em sua tese, foi questionar as potencialidades de uma metodologia de pesquisa que aposta na mobilização da comunidade estabelecida como interlocutora para a construção de versões históricas sobre o Grupo Escolar Eliazar Braga - localizado na cidade de Pederneiras (SP).

Para realizar sua pesquisa, Souza buscou documentos - atas de reuniões, livros de visitas, livros de ponto, fichas de alunos, fotografias e jornais - do Grupo Escolar e criou documentos a partir de entrevistas com dez pessoas que trabalharam ou estudaram nessa escola.

Souza optou por apresentar sua tese de forma diferente da usual: seus textos foram elaborados, de modo independente, em forma de artigo. Alguns desses textos foram escritos em coautoria com seus orientandos de iniciação científica - alunos do curso de Licenciatura em Matemática da UNESP - Bauru1 e membros do Grupo de Iniciação Científica vinculado ao Grupo de História Oral e Educação Matemática (IC - GHOEM). Já as textualizações das entrevistas são apresentadas como textos em coautoria com os colaboradores da pesquisa. Cada texto apresentado na tese constitui-se como uma leitura possível sobre o Grupo Escolar Eliazar Braga e, portanto, cada texto constitui um Grupo Escolar Eliazar Braga com tons e marcas diferentes.

Em Uma pesquisa e suas tramas, Souza faz uma análise narrativa da sua própria pesquisa. Assim, Souza conta uma história do seu projeto de doutorado e do desenvolvimento de sua pesquisa.

No texto Discussões metodológicas: observando a construção de versões históricas sobre o Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza escreve sobre o trabalho de higienização, recuperação, organização, cadastro e estudo de documentos2 do Grupo Escolar Eliazar Braga, enfatizando sua importância para a pesquisa. Ainda nesse texto, Souza descreve alguns procedimentos da metodologia da História Oral, que se preocupa, principalmente, com a oralidade, mas que valoriza também outras fontes3. Além disso, a autora aborda, brevemente, os temas infância e velhice e aponta que a oralidade, utilizada como recurso na construção e narração de versões históricas, permite que crianças e idosos sintam-se como participantes da história que está sendo recontada por eles.

Já em Um arquivo, uma instituição e suas práticas: contribuição para a construção de versões históricas de um Grupo Escolar, Kakoi4 e Souza apresentam uma discussão sobre a história das instituições escolares e relatam o trabalho que eles realizaram - higienização, recuperação, organização e sistematização de documentos - no Grupo Escolar pesquisado. Pode se dizer que esse texto constitui um catálogo para consulta do acervo organizado durante a pesquisa.

No texto Crianças e oralidade: iniciativas e possibilidades na construção de versões históricas, Menezes5 e Souza abordam questões referentes à história local e relatam um projeto realizado com quarenta e sete crianças da Escola Municipal Eliazar Braga (escola que ocupa o prédio do antigo Grupo Escolar Eliazar Braga). Neste projeto exploraram-se noções de história local e oralidade, com a finalidade de trabalhar a historicidade próxima, formar narradores e evidenciar que, mesmo em um trabalho realizado com crianças, podem aparecer elementos trabalhados pela História da Educação.

Em Grupo Escolar Eliazar Braga: esboçando elementos para uma história a partir de fotos e jornais, Batagello6 e Souza apresentam um exercício de leitura, baseado em fotos e jornais7, com o objetivo de identificar a imagem que o Grupo Escolar utilizava para falar de si mesmo. Concluiu-se, que o Grupo Escolar mostrava-se à sociedade como uma instituição portadora do saber, que trabalhava com seriedade e disciplina.

No texto Do arquivo, um Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza traz considerações gerais sobre grupos escolares e, em seguida, baseada nos documentos do arquivo do Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza conta uma história daquele Grupo Escolar. Souza apresenta informações referentes a: diretores, relação entre corpo docente e direção, impressões de inspetores escolares e delegados de ensino em relação às atividades desenvolvidas naquela instituição, funções dos professores e diretores, ensino de matemática (e Movimento da Matemática Moderna), material didático, avaliação, inclusão, punições, evasão escolar, preocupação com o civismo, entre outros. Esse texto traz trechos dos documentos do acervo e procura provocar o leitor a questionar e perceber outras possibilidades de temáticas para novas investigações.

Na sequência, Souza apresenta as textualizações das entrevistas realizadas em sua pesquisa. Na primeira textualização, Ana, Leontina e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Simões8, Chacon9 e Souza contam alguns detalhes sobre o trabalho docente e o trabalho da diretora Ana no Grupo Escolar. Sobre avaliação, ressalta-se que as provas eram elaboradas pela diretora da instituição e as provas aplicadas ao final de cada ano, para saber se o aluno seria aprovado ou não naquele ano, eram elaboradas pela Delegacia de Ensino. Além disso, entre os assuntos abordados na entrevista destacam-se: civismo, disciplina, evasão escolar, higiene e recursos pedagógicos.

Na segunda textualização, Isabel P. e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Pisani10 e Souza contam algumas histórias do cotidiano escolar no tempo em que Isabel foi professora no Grupo Escolar Eliazar Braga... Entre outras coisas, Isabel falou sobre: material didático, disciplina, organização das aulas, ensino de matemática, Movimento da Matemática Moderna e avaliação.

Na terceira textualização, Maria, Laura e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Felicio11, Souza e Ruiz12 contam episódios sobre o trabalho docente no Grupo Escolar. Alguns dos assuntos abordados na entrevista foram: material didático, ensino de matemática, Movimento da Matemática Moderna e avaliação.

Na quarta textualização, Isabel M. e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Maturana13 e Souza contam como Isabel alfabetizava seus alunos e como ela trabalhava alguns conteúdos matemáticos com as crianças.

Na quinta textualização, Diva e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza e Minguili14 contam como Diva trabalhava com seus alunos e destaca-se que era necessário ser enérgica pois os alunos eram agitados.

Na sexta textualização, Manoel e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza e Barro15 contam algumas experiências de Manoel como professor de alguns grupos escolares. Além disso, Manoel relembra o tempo que seu pai foi diretor do Grupo Escolar Eliazar Braga.

Na sétima textualização, Thereza e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza e Oliveira16 contam lembranças de Thereza como aluna do Grupo Escolar. Thereza ressalta que, naquela época, o ensino era seletivo e os alunos respeitavam os professores e, principalmente, o diretor do Grupo Escolar.

Na oitava textualização, Rinaldo e o Grupo Escolar Eliazar Braga, Souza e Razuk17 contam sobre o interesse de Rinaldo pela história da cidade de Pederneiras e como ele começou a pesquisar sobre esse assunto. Além disso, contam-se lembranças de Rinaldo enquanto aluno do Grupo Escolar.

Na sequência, no texto, Do ensino de matemática: discursos, contra-discursos, apropriações, Souza apresenta um exercício de pesquisa que busca compreender apropriações e subversões relativas aos movimentos da Escola Nova e da Matemática Moderna - movimentos que têm sua força expressa em documentos escritos e orais. O exercício é elaborado a partir de: a) leitura de documentos produzidos por pessoas vinculadas ao Grupo Escolar Eliazar Braga; b) criação/elaboração de documentos a partir de entrevistas que seguem os pressupostos da história oral; c) interpretação da literatura existente sobre História da Educação e História da Educação Matemática. Evidencia-se que tanto as ideias da Escola Nova quanto as ideias do Movimento da Matemática Moderna foram discutidas no Grupo Escolar Eliazar Braga. No entanto, as entrevistas realizadas mostram que alguns professores não aderiram completamente a essas ideias - no caso da Matemática Moderna, novos conteúdos foram trabalhados, mas a metodologia (ou estratégia) de ensino utilizada pelos professores não foi alterada. Nesse texto, percebe-se a intenção de mostrar que os termos Escola Nova e Matemática Moderna não possuem significados em si, mas, sim, pelo seu uso na prática. Percebe-se que os movimentos discutidos na literatura, os movimentos disseminados por integrantes do Serviço Regional de Orientação Pedagógica (SEROP) e Delegacia de Ensino (atuais Diretorias de Ensino) e os movimentos entendidos/implementados pelos professores eram fundamentalmente diferentes.

Concluindo sua tese, em Algumas considerações, Souza ressalta a importância das parcerias que teve durante o período do seu doutoramento: alunos de iniciação científica, Departamento de Educação da Prefeitura Municipal de Pederneiras, rádios, jornais, agências de fomento, além da comunidade pederneirense. Além disso, Souza argumenta que a organização de sua tese aposta no hibridismo, na pluralidade de temas e nas possibilidades que o trabalho permite vislumbrar. Souza conclui que os textos apresentados não definem o Grupo Escolar Eliazar Braga, mas mostram facetas de uma instituição plural e em movimento.

O texto de Souza é rico em detalhes e utiliza linguagem simples - o que facilita sua leitura. No entanto, Souza utilizou algumas notas de rodapé extensas, que podem dificultar a compreensão do seu texto quando seus leitores optam por ler tais notas de rodapé.

Em síntese, pode-se dizer que a tese de Souza diferencia-se do usual por apresentar textos em coautoria com os parceiros e/ou colaboradores da pesquisa. Em cada textualização apresentada é possível perceber um olhar e uma instituição específica - com uma dinâmica também específica. É preciso ressaltar, ainda, a importância do reconhecimento de que não foi apresentada uma história do Grupo Escolar Eliazar Braga, mas, sim, versões da história do referido Grupo Escolar. É conveniente explicitar que acreditamos que não existe uma história única e verdadeira, mas, sim, versões da história, pois pessoas diferentes - ou a mesma pessoa em épocas diferentes - narram suas versões da história. Assim, tanto no contexto do trabalho analisado quanto do ponto de vista da autora da resenha, não há como falar sobre a história sem incorrer em erro de perspectiva, pois entendemos que existem diferentes versões legítimas a serem contadas.

 

 

1 Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho - Campus de Bauru.
2 Cerca de 890 documentos.
3 No caso desta pesquisa, o acervo de documentos do Grupo Escolar Eliazar Braga.
4 Márcio Éderson Kakoi, na época, aluno do curso de Licenciatura em Matemática da UNESP-Bauru e membro do IC-GHOEM.
5 Vanessa Lopes Menezes, na época, aluna do curso de Licenciatura em Matemática da UNESP-Bauru e membro do IC-GHOEM.
6 Letícia Batagello, na época, aluna do curso de Licenciatura em Matemática da UNESP-Bauru e membro do IC-GHOEM.
7 Foram utilizados, neste estudo, os seguintes jornais: O Estímulo - impresso da escola - , Folha de Pederneiras e A Praça - jornais do município de Pederneiras.
8 Ana Murça Pires Simões, colaboradora da pesquisa (e primeira diretora concursada do Grupo Escolar Eliazar Braga).
9 Leontina Burgo Chacon, colaboradora da pesquisa (e ex-professora do Grupo Escolar Eliazar Braga).
10 Isabel de Barros Chagas Pisani, colaboradora da pesquisa (e ex-professora do Grupo Escolar Eliazar Braga).
11 Laura Ruiz Felicio, colaboradora da pesquisa (e ex-professora do Grupo Escolar Eliazar Braga).
12 Maria Usó Ruiz, colaboradora da pesquisa (e ex-professora do Grupo Escolar Eliazar Braga).
13 Isabel Maturana, colaboradora da pesquisa (e ex-professora do Grupo Escolar Eliazar Braga).
14 Maria Diva de Lima Minguili, colaboradora da pesquisa (e ex-professora do Grupo Escolar Eliazar Braga).
15 Manoel Elias de Barro, colaborador da pesquisa (filho de um ex-diretor do Grupo Escolar Eliazar Braga, ex-aluno do mesmo Grupo Escolar e ex-professor de outros grupos escolares).
16 Thereza Hilário Silva de Oliveira, colaboradora da pesquisa (e ex-aluna do Grupo Escolar Eliazar Braga).
17 Rinaldo Toufik Razuk, colaborador da pesquisa (e ex-aluno do Grupo Escolar Eliazar Braga).

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