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Bolema: Boletim de Educação Matemática

Print version ISSN 0103-636XOn-line version ISSN 1980-4415

Bolema vol.29 no.52 Rio Claro Aug. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1980-4415v29n52r02 

Resenhas

Abrindo a caixa preta da escola: uma discussão acerca da cultura escolar e da prática pedagógica do professor de Matemática

Thiago Donda Rodrigues *  

1*Mestre em Educação Matemática pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP), Rio Claro/SP. Professor do Curso de Matemática da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Paranaíba, Mato Grosso do Sul, Brasil.

BOVO. A., A. Abrindo a caixa preta da escola: uma discussão acerca da cultura escolar e da prática pedagógica do professor de Matemática. 2011. 195fp. Tese(Doutorado em Educação Matemática) -, Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2011.

Audria Alessandra Bovo fez Licenciatura em Matemática na Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" - UNESP, campus de Rio Claro, e é Mestre e Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da mesma instituição. Atua como professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, campus de Piracicaba/SP. A tese de Doutorado, objetivo dessa resenha, foi defendida em 2011 e orientada pelo Prof. Dr. Antonio Carlos Carrera de Souza.

Na tese, Bovo apresenta como motivação inicial do trabalho entender como alguns fatores inerentes à rotina escolar podem contribuir para a constituição da prática pedagógica do professor de Matemática. No entanto, ao compreender que a hipótese poderia ser bem mais complexa do que a considerada inicialmente, o primeiro problema de pesquisa foi: Quais as relações entre cultura escolar e prática pedagógica do professor de Matemática? Após a qualificação, por contribuição da banca, concluiu-se que a utilização da palavra relações na questão pressupunha que cultura escolar e prática pedagógica seriam elementos separados. Deste modo, definiu-se a pergunta de pesquisa: Como é a tessitura cultura-escolar-prática-pedagógica-do-professor-de-matemática?. O uso dos hifens, segundo Bovo, destacam a indissociabilidade de cultura escolar e práticas pedagógicas.

Para abordar a questão de pesquisa, a tese foi organizada em três capítulos, apresentados na seguinte ordem: (1) Tecendo os primeiros fios, que traz considerações sobre "cultura escolar" e "práticas pedagógicas", sobre a metodologia de pesquisa usada no trabalho e o aporte teórico para a tese; (2) O que há na caixa preta?, que apresenta os participantes da pesquisa e os dados produzidos. Este capítulo foi dividido nas seguintes "Narrativas Temáticas": "Precarização do Trabalho Docente", "Geografia do Espaço Escolar", "Realização de Poder na Escola" e "Cartografando Resistências"; (3) Mais que uma proposta: um exercício de autonomia, no qual são tecidas as considerações finais acerca de "transformar a sociedade disciplinar em uma sociedade autônoma" (p. 173).

Buscando abrir a caixa preta da escola, ou seja, acessar as práticas cotidianas silenciosas ocorridas nela, a pesquisadora, sob a perspectiva da Pesquisa Qualitativa, optou por fazer uma Investigação Narrativa. Esta metodologia pretende permitir a compreensão da experiência dos participantes da pesquisa por meio de histórias vividas e contadas. Para tanto, foi organizado um Curso de Extensão Universitária intitulado Práticas educativas em Matemática e cotidiano escolar. As atividades realizadas com os professores participantes desse curso forneceram as informações para a produção dos dados. Bovo optou por trabalhar com Mapas Narrativos, que consiste em interpretar, a partir de desenhos feitos pelos entrevistados, os espaços vivenciados por eles. A pesquisadora entende a metodologia usada por ela como híbrida, pois combina Investigação Narrativa e Mapas Narrativos.

Pesquisando O que há na caixa preta, Bovo apresenta indícios de como a escola funciona, quais as práticas corriqueiras, quais os acontecimentos silenciosos, quais as formas de pensar e fazer escolares, de que modo esta cultura escolar está relacionada à prática do professor de Matemática, questões que a pesquisadora considera relevantes para responder o problema de pesquisa. Para isso são apresentados, para cada "Narrativa Temática", excertos dos dados produzidos entremeados com comentários baseados na experiência e pensamentos da pesquisadora e à estas ponderações é dado o nome de "Pontos de Alinhavo". Ao final de cada "Narrativa Temática" a pesquisadora aprofunda e discute teoricamente as questões levantadas em um momento chamado de "Ponto de Arremate"1.

Buscando subsídios teóricos para o trabalho, a partir de uma visão deleuze-foucaultiana, Bovo define prática como um conjunto de alternâncias de uma teoria a outra e a teoria como uma alternância de uma prática a outra (FOUCAULT, 1990). Nesta perspectiva, a pesquisadora entende que a ação do professor de Matemática deve ser olhada considerando o seu trabalho em sala de aula, seus pensamentos, suas ideias, suas opiniões e seus discursos.

Em consonância com esta visão de teoria-prática, Bovo considera a definição de Cultura Escolar apresentada por (VIÑAO FRAGO, 2006):

A cultura escolar /.../ estaria constituída por um conjunto de teorias, idéias, princípios, normas, pautas, rituais, inércias, hábitos e práticas [...] sedimentadas ao longo do tempo em forma de tradições, regularidades e regras de jogo não postas em dúvida e compartilhadas por seus atores e no seio das instituições educativas.

Buscando entender experiência, Bovo encontra em Larrosa (2002) base para definir que "experiência é uma relação com algo que se experimenta, que se prova e requer um 'parar para pensar' um 'parar para refletir'. A experiência é aquilo que marca o sujeito, aquilo que o modifica, que o constitui" (BOVO, 2011, p.14; grifos da autora).

Admitindo que a cultura é dinâmica e está sempre em movimento, a partir do hibridismo cultural de Peter Burke (2006), Bovo discute a primeira proposição: A cultura é um processo histórico, em constante construção, e não existe em seu "estado puro". Sua segunda proposição, interligada à primeira, concebe, baseado em Homi Bhabha (2007), que: A produção da cultura ocorre no terceiro espaço. O conceito de terceiro espaço desloca a lógica binária eu/outro para uma região de fronteira, onde não se tem o eu ou o outro puros, mas híbridos.

A partir da conjectura de que a cultura ocorre nos "entre lugares", no hibridismo, Bovo disserta a terceira proposição, A escola fabrica sujeitos. Na busca de compreender a interligação dessas três proposições, a pesquisadora recorre aos conceitos foucaultianos de disciplina, alcançada a partir de ações de vigilância e punição; relações de poder e pontua os aspectos positivos do poder que produz saberes e sua face negativa que exclui, reprime, recalca, censura, abstrai, mascara, esconde.

Considerando os conceitos abordados acima, a pesquisadora traz à tona a quarta proposição: A escola é uma instituição criada em defesa da sociedade. Neste aspecto, a escola é o lugar no qual se modelam pessoas segundo o padrão de normalidade, e os que não se adaptam a este padrão, os anormais, são excluídos.

A quarta proposição leva a pesquisadora a indicar, baseada em Deleuze (1997), sua quinta proposição: A escola é uma máquina de guerra do Estado. Para definir "máquina de guerra", Bovo usa conceitos como agenciamento, linhas de fuga, espaço liso, nomadismo.

Utilizando-se do conceito de discurso de Foucault - que consiste em entender que todo discurso pretende estabelecer uma verdade, controlar comportamentos e dominar pessoas -, a pesquisadora discute a sexta proposição: O discurso institucional da escola produz efeitos de verdade em Educação, em particular, em Educação Matemática.

Com base no aporte teórico, Bovo traz as análises dos dados em dois momentos, nos "Pontos de Arremate", localizado ao final de cada "Narrativa temática", e em parte do capítulo Mais que uma proposta: um exercício de autonomia, também destinado às considerações finais.Para a "Narrativa Temática" da Precarização do trabalho docente, Bovo tece considerações sobre como a função cultural da escola está comprometida diante das condições econômicas e sociais. Para a pesquisadora, a precarização do trabalho docente é corroborada, segundo os dados produzidos, pela má formação matemática e pedagógica do professor; o fato dos professores substitutos trabalharem todas as disciplinas, tendo ele o papel de apenas tomar conta dos alunos e fazer com que o calendário escolar seja cumprido; a questão do baixo salário dos professores que os impede de investir em sua formação continuada; a carga excessiva de trabalho do professor; a rotatividades destes pelas escolas; os HTPC´s com caráter administrativo; a falta de infraestrutura, de recursos humanos e de materiais; o esvaziamento e desvalorização da profissão docente. Segundo Bovo esses fatores incidem na constituição da prática dos professores.

Os dados da pesquisa também encaminharam a pesquisadora para os espaços que os professores querem habitar. Ela pode perceber, pelos mapas narrativos, que o jardim da escola, os espaços abertos e livres são alguns desses espaços. Segundo Bovo, esses espaços foram apontados pelos participantes por serem ambientes bonitos, agradáveis e de liberdade. Baseada em Deleuze e Guattari, (BOVO, 2011, p.141; grifos da autora) diz:

Os professores-nômades querem ocupar o espaço livre, o aberto, o múltiplo, o fora, o liso, para caminharem quando quiserem. O ar do fora parece ser mais leve e puro. [...] o dentro é linear e pesado e, ao contrário do rizoma, segue o modelo árvore, no qual seus ocupantes têm um único caminho a seguir, porque nele não há multiplicidades, desejos, aberturas. Este é um local com ar rarefeito, de difícil sobrevivência.

Outro ponto levantado por Bovo fala das relações de poder imersas no cotidiano e na cultura escolar. Para a pesquisadora fica claro que, diante do aparato de poder, os professores são subjetivados por vários motivos, são eles: os regimes de verdade impostos por testes pré-determinados pelo Estado; a definição de um currículo únicoimposto pelas apostilas que devem ser cumpridas; o bônus oferecido; o controle e vigilância aos professores; a disciplinaexigida em toda escola; a obrigatoriedade do HTPC; o autoritarismo da direção e coordenação; os mecanismos de autovigilância.

Entretanto, para Bovo, é possível perceber resistências a essas forças presentes na cultura escolar. A resistência à imposição pode ser vista no fato do professor usar materiais alternativos, de sua escolha, concomitantemente à apostila cobrada e o uso de abordagens, aos conteúdos, diferentes do proposto pelo material oficial. Entretanto, por questões de sobrevivência os professores não ignoram totalmente o que lhes é cobrado.

Bovo conclui que, apesar da escola sofrer um "problema crônico", pode haver outra possibilidade. Segundo a pesquisadora "pensar a autonomia como uma possibilidade de enfrentar os problemas da Educação na atualidade. Trata-se de um modo de vida: um exercício diário e constante do cuidado de si." (BOVO, 2011, p. 179)

O cuidado de si, definido pela pesquisadora, que se baseia para isso em Foucault, é um exercício do poder sobre si próprio, sem se subjetivar a qualquer tipo de poderes, zelando por si e pelos outros, na prática da liberdade. Neste prisma, a pesquisadora acredita que um possível caminho é fazer aparecer na escola o funcionamento dos mecanismos de poder e de saber, para que o professor tenha a possibilidade de fazer suas escolhas pessoais e pedagógicas, de modo que o poder seja adequadamente exercido.

Outro elemento importante do trabalho é o apontamento sobre a constituição da prática do professor que, seja ele de Matemática ou não, é composta não só de formação inicial e continuada, mas também pelas experiências por eles vivenciadas.

A pesquisa também chama a atenção para a necessidade de o professor não adotar o conformismo como modo de lidar com as "forças" existentes na escola, e mostra possibilidades de resistência a essas "forças".

Assim, ao abrir a caixa preta da escola, Bovo mostra, com riqueza de detalhes, o espaço escolar estriado, repleto de leis, regras, hierarquia, inspeções. O trabalho dá uma importante contribuição ao permitir a compreensão da problemática que permeia a educação, mostrando que a prática do professor não é constituída apenas de formação inicial e continuada, mas também das experiências vividas na escola. A pesquisa também mostra que há possibilidades de enfrentar os problemas do cotidiano escolar, fazendo, como bem diz a autora, "Um belo modo de viver a vida na escola: a vida como obra de arte!".

REFERÊNCIAS

BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 4ª reimpressão, 2007. [ Links ]

BURKE, P. Hibridismo Cultural. São Leopoldo: UNISINOS, 2006. [ Links ]

DELEUZE, G., GUATTARI, F., Mil Platôs - Capitalismo e Esquizofrenia, São Paulo: Editora 34, v. 5, 1997. [ Links ]

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 9º ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1990. [ Links ]

LARROSA, J. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução de João Wanderley Geraldi. In Revista Brasileira de Educação, nº19, 2002. [ Links ]

VIÑAO FRAGO, A. Sistemas educativos, culturas escolares y reformas: continuidades y câmbios. Madri: Morata, 2006 [ Links ]

1"Ponto de Alinhavo" e "Ponto de Arremate" são expressões inspiradas no livro Manual de Tapeçaria, de Nilma Gonçalves Lacerda.

Endereço: Av. Pedro Pedrossian, 725, Bairro Universitário, CEP: 79500-000, Paranaíba, Mato Grosso do Sul, Brasil. E-mail: thiago.rodrigues@ufms.br.

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