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Print version ISSN 0103-6513On-line version ISSN 1980-5411

Prod. vol.18 no.1 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65132008000100015 

Cooperação e localidade: uma análise no contexto do agronegócio de flores

 

Cooperation and locality: an analysis in the context of flowers agribusiness

 

 

João Pedro de Castro Nunes PereiraI; Marly Monteiro de CarvalhoII

IUESC
IIEPUSP

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta um estudo sobre a cooperação e o papel da localidade no contexto do agronegócio de flores e plantas ornamentais. Para tanto, traz seu arcabouço teórico estruturado no tripé: localidade, cooperativismo e ações conjuntas. Essa pesquisa foi desenvolvida em duas importantes regiões de produção e comercialização: Holambra e Mogi das Cruzes. A abordagem metodológica utilizada foi de pesquisa exploratória com a condução de um levantamento do tipo survey. A pesquisa de campo obteve 90 questionários válidos, cujos entrevistados foram produtores rurais, que pertencem a pelo menos uma das cooperativas e/ou associações presentes nas localidades estudadas. Os resultados mostram que há uma prática de ações de parcerias entre os produtores pesquisados e que a etnia aparece como um dos fatores indutores dessa cooperação.

Palavras-chave: Cooperação, agronegócio de flores, localidade, cluster


ABSTRACT

This paper presents a study about cooperation and the locality role flowers and ornamental plants agribusiness. Thus, the theoretical framework is based on: locality, cooperatives and joint actions. This research was developed in two important regions of production and commercialization: Holambra and Mogi das Cruzes. The methodological approach was based on an exploratory research in which a survey was performed. The field research got 90 valid questionnaires from producers, related at least to one of the cooperatives and/or associations in studied localities. The results show that there are partnership actions among the interviewed producers, which have strong influences of the ethnic factor on this cooperation.

Key words: Cooperation, flower production, agribusiness, clusters


 

 

INTRODUÇÃO

Os trabalhos sobre as concentrações geográficas de empresas fazem parte do cenário acadêmico há tempos, desde os estudos sobre os primeiros distritos industriais, realizados por Marshall na década de 1920 (MARSHALL,1984). A partir de então, as concentrações foram estudadas sob diferentes perspectivas e denominações como clusters, aglomerações industriais, sistemas produtivos locais, sistemas locais de produção, arranjos produtivos locais, dentre outras, que são comumente observadas na literatura. Independentemente da forma como a concentração tenha sido caracterizada, estudos têm mostrado que elas apresentam um papel de destaque no desenvolvimento econômico de vários países. No presente estudo este fenômeno é denominado "concentração geográfica de empresas".

Assim, o presente trabalho trouxe como objetivo estudar especificamente o papel das ações conjuntas de cooperação, da localidade e do cooperativismo na geração dessas externalidades ao conjunto de empresas pertencentes a duas concentrações geográficas relacionadas aos agronegócios de flores e plantas ornamentais do Brasil. Para tanto, traz seu arcabouço teórico estruturado nesses três pilares.

A justificativa para o desenvolvimento do presente trabalho se fundamenta em três vertentes de argumentação: a importância dos agronegócios para o atual contexto socio-econômico do Brasil, a importância crescente da floricultura no contexto dos agronegócios brasileiros e a carência de estudos em concentrações geográficas de empresas neste ambiente.

Este estudo considera como floricultura a atividade relacionada à exploração de plantas para finalidades ornamentais e estéticas. Assim, estão englobadas nesta abordagem as seguintes atividades: cultivo de flores, folhagens de corte, mudas em geral, plantas em vasos, gramas e forrações.

Este trabalho tem como objetivo contribuir para uma melhor compreensão da dinâmica das ações de cooperação em empresas localizadas em concentrações geográficas relacionadas aos agronegócios de flores e plantas ornamentais, raramente abordada nos estudos empíricos. Além disso, a pesquisa visa entender o papel das cooperativas/ associações e do poder local como indutor das ações conjuntas de cooperação, partindo da percepção dos produtores rurais.

O estudo de campo foi desenvolvido em duas das principais regiões paulistas de floricultura: Holambra e Mogi das Cruzes. A opção metodológica caracterizou-se pela aplicação de uma pesquisa exploratória quantitativa do tipo levantamento (survey) com 90 produtores dessas localidades.

O presente trabalho encontra-se estruturado em seis seções, a considerar esta, onde estão apresentadas as informações referentes à caracterização do problema estudado. Na segunda seção encontra-se a revisão bibliográfica referente ao arcabouço teórico utilizado para sustentação deste trabalho. Na terceira, encontra-se detalhado o procedimento metodológico proposto para o desenvolvimento desta pesquisa. A quarta seção caracteriza o ambiente de estudo, com uma breve discussão sobre os agronegócios de flores e plantas ornamentais e sobre as duas localidades pesquisadas. Os resultados da pesquisa (survey) são apresentados na quinta seção, que apresenta também a discussão à luz do quadro teórico proposto. Finalmente, na sexta e ultima seção, são apresentadas as conclusões do trabalho, com base nos objetivos e nas hipóteses da pesquisa.

 

ARCABOUÇO TEÓRICO

Esta seção traz a síntese do arcabouço teórico da pesquisa estruturado no tripé: localidade, ações conjuntas e cooperativismo.

A localidade e a Concentração Geográfica de Empresas

Diversos estudos têm mostrado que a concentração geográfica de empresas apresenta um papel de destaque no desenvolvimento econômico de vários países. Nos Estados Unidos, os estudos relativos às pequenas e médias empresas de base tecnológica, situadas na região do Vale do Silício, mostram a relevância deste tipo de organização industrial para a promoção e contribuição ao desenvolvimento local. Na a Itália os estudos referentes aos distritos industriais revelam a importância das concentrações geográficas de empresas para o desenvolvimento nacional, especificamente para a região conhecida como "terceira Itália" (SCOTT; STORPER, 1988; PORTER,1998; IGLIORI, 2000; AMATO NETO, 2000; CARVALHO; LAURINDO, 2003). Além da importância relativa aos países considerados desenvolvidos, o estudo das concentrações geográficas de empresas também exerce importante papel no contexto econômico de países em desenvolvimento. Schmitz (1997) destaca uma série de estudos que buscaram entender como esse tipo de organização industrial, nos países em desenvolvimento, pode criar condições para competição no mercado externo, principalmente quando formadas por pequenas e médias empresas.

Porter (1998) traz, de maneira detalhada, a discussão de uma série de vantagens proporcionadas por esse tipo de arranjo organizacional (cluster), baseadas no acesso a insumos e pessoal especializado; no fluxo de informação; na complementaridade; na eficiência de compra; no incentivo e medição de desempenho; na disponibilização de mão-de-obra especializada; na redução das atividades oportunistas; na redução dos custos de transação e na formação de novas empresas.

Num estudo realizado no setor calçadista na cidade mexicana de Guadalajara, Rabelotti (1997) analisou o impacto da liberação comercial sobre o setor e seus reflexos no comportamento cooperativo. Nesse estudo ficou evidenciado também um aumento na quantidade de fornecedores no cluster, após a liberalização comercial, o que trouxe benefícios como a diminuição nos custos de transporte de insumo. De maneira geral, esse estudo enfatiza que houve uma contribuição significativa das ações cooperativas, frente ao desenvolvimento das empresas estudadas.

Perez (1999) desenvolveu um estudo no Chile, que constatou dois tipos diferentes de dinâmica cooperativa nas concentrações geográficas de setores distintos. Num estudo também voltado para indústria de calçados, essa autora identificou uma dinâmica muito fraca nesse setor, predominado pela presença de associações locais voltadas apenas para a representação dos empresários em negociações com o Estado. Já em uma outra concentração, relacionada à fruticultura, a pesquisadora chilena identificou uma dinâmica muito mais acentuada. Nesse caso, os produtores rurais contavam com a presença de uma associação que mantinha controle direto do processo de produção e buscava sempre a construção da capacidade competitiva de seus associados, enquanto que o Estado atuava como agente facilitador do processo de aprendizagem coletiva.

Ações Conjuntas no Contexto das Concentrações Geográficas de Empresas.

Cassiolato e Lastres (2001) ressaltam que as concentrações geográficas de empresas propiciam, entre outras coisas já destacadas anteriormente, condições para que haja o estabelecimento de ações conjuntas, entre os atores que nela se relacionam e a conseqüente geração de externalidades positivas sustentáveis. Segundo Awuah (2001), as relações interfirmas são um recurso que pode ser explorado para o desenvolvimento de competências, outro fator de significativa importância para a criação de vantagens competitivas, sustentáveis, conforme Prahalad e Hammel (1990).

A importância das ações conjuntas foi reforçada no estudo publicado por Schmitz (1995a) e mais tarde, em Porter (1998). Em ambos, para caracterizar a vantagem competitiva gerada pelas economias externas e pela ação conjunta dos agentes locais.

Schmitz (1997) definiu quatro tipos de ações conjuntas, divididas em duas dimensões (número de envolvidos no processo e direção da cooperação). Sob a dimensão da quantidade de atores envolvidos na ação conjunta, esta pode ser bilateral, onde duas empresas trabalham juntas, ou multilateral, onde grupos de empresas trabalham em conjunto. No que se refere à direção das ações, o autor destaca que esta pode se dar em caráter horizontal (entre os competidores) ou vertical (nos diversos estágios da cadeia de produção/ distribuição).

No estudo já mencionado de Rabelotti (1997), no setor calçadista no México, a autora analisou o impacto da liberação comercial sobre o setor e seus reflexos no comportamento cooperativo. Segundo a autora os resultados mostraram que houve um maior fluxo na troca de informações, trazendo, além dos benefícios observados por Schmitz (1995), o controle da qualidade e a rapidez na entrega dos produtos além de uma expressiva troca de informações referentes ao desenvolvimento conjunto de produtos.

Também estudaram uma concentração mexicana Bair e Gereffi (2001), na cidade de Torreon, de empresas do setor têxtil exportador de jeans. Os autores observaram que a relação entre as empresas ainda é distante e restrita, longe de uma relação cooperativa e a estrutura de exportação da região ainda é precária. A região não apresenta associações comerciais, instituições de treinamento profissional ou de apoio, o que indica que o crescimento da exportação é que gerou o crescimento das empresas local. Os autores alertam ainda que as conexões globais tanto produzem crescimento quanto rupturas, tornando a economia local extremamente sujeita às turbulências externas.

Schmitz (1995b, e 1999) também estudou o setor calçadista, no Vale dos Sinos, região sul do país, e identificou que a chegada de clientes externos resultou no aumento do valor agregado das atividades de desenvolvimento de produtos, marketing e qualidade, bem como introduziu pressão por aumento de preços dentro do cluster. Assim como Bair e Gereffi (2001), o autor alertou para o fato de que os empreendedores mais influentes se identificavam mais com seus clientes externos do que com seus parceiros de cluster.

Humphrey e Schmitz (2000) argumentam que a literatura sobre clusters enfatiza a importância dos atores locais de governança no processo de aprendizado por interação (learning-by-interactions), que resulta em maior eficiência coletiva e evolução nas cadeias produtivas (upgrading).

Cooperativismo Agrícola

A história do cooperativismo agrícola no Brasil data do final do século XVIII e ao longo de sua história se consolidou. Essa importância teve seu melhor momento no decorrer da primeira metade do século XX, não só em termos de número de cooperativas e volume de negócios gerado, mas também como um dos principais responsáveis pela disseminação da cultura e dos princípios cooperativos pelo País (OCB, 2007).

A Figura 1 representa a evolução da participação dos setores no cooperativismo no cenário nacional. Até a década de 1960 o ramo agrícola congregava cerca de 50% do total das organizações cooperativas do Brasil e finalizou a década de 1990 representando cerca de 25%.

 

 

Embora as cooperativas agrícolas tenham perdido parcela em números relativos (ver Figura 1), sua importância no contexto socioeconômico do Brasil pode ser observada na Figura 2, onde é possível observar também que é o ramo responsável por mais da metade dos empregos gerados pelo sistema cooperativo brasileiro.

 

 

Especificamente com relação ao ambiente estudado (floricultura), em ambas as localidades a organização cooperativista se mostra fundamental no desempenho atual dos negócios locais, conforme pode ser observado nos resultados descritivos apresentados nos itens "A localidade de Holambra" e "A localidade de Mogi das Cruzes".

A Cooperativa Agropecuária Holambra teve um papel relevante no contexto histórico-cultural da cidade. No final da década de 1980 a maioria dos cooperados, imigrantes holandeses e seus descendentes, concentrava-se prioritariamente numa área que abrangia quatro municípios distintos: Artur Nogueira, Cosmópolis, Jaguariúna e Santo Antonio de Posse. Devido a questões de infra-estrutura como saneamento básico, limpeza pública, estradas, água, escolas entre outras, que não eram resolvidas a contento nessas localidades, a Cooperativa Agropecuária de Holambra desembolsava somas significativas (o equivalente a cerca de US$ 2 milhões/ ano na década de 80) com essas questões para atender a demandas de seus cooperados, além dos recursos destinados a impostos municipais e estaduais. Tal atitude, por um lado, atendia seus cooperados, mas por outro, estava comprometendo a eficiência de seus negócios e no longo prazo sua sobrevivência, pois os recursos, já escassos, não eram destinados à obtenção de vantagens competitivas sustentáveis. Tal situação levou a comunidade dos cooperados a desejar a criação do município de Holambra, abrangendo a área em que se concentrava a maioria dos sócios da cooperativa, o que resultou, no início da década de 90, na criação do município de Holambra.

 

ABORDAGEM METODOLÓGICA

Dada a complexidade do fenômeno estudado, optou-se por mesclar diferentes estratégias de pesquisa. Em uma primeira etapa de investigação, utilizaram-se alguns aspectos da pesquisa bibliográfica, de arquivos e pesquisa histórica.

Para a caracterização dos agronegócios, do segmento de flores e plantas ornamentais e sobre as duas localidades foram levantados dados junto aos órgãos de governo e fundações/ institutos especializados em estudos socioeconômicos. As principais fontes foram a Fundação SEADE, o IPEA e o IBGE, alguns desses dados disponíveis nos sítios oficiais destes órgãos públicos.

Em uma segunda etapa da pesquisa empírica, de caráter mais exploratório e descritivo, foi feito um levantamento de campo, do tipo survey, em que foram aplicados questionários em ambas as localidades.

Conforme sugerem Alvez-Mazzotti e Gewandsnadjer (1998), para esse tipo de análise torna-se necessária à definição de hipóteses a serem investigadas. Com base no arcabouço teórico apresentado nas seções anteriores e na caracterização do setor e da localidade, foram levantadas quatro hipóteses a serem testadas:

H01: Não existe diferença na percepção da importância da identidade étnico-cultural como um fator determinante nas relações de cooperação / HA1: Existe diferença na percepção da importância da identidade étnico-cultural como um fator determinante nas relações de cooperação.

H02: Não existe diferença na percepção da importância das cooperativas-associações como um fator determinante para o sucesso dos negócios / HA2: Existe diferença na percepção da importância das cooperativas-associações como um fator determinante para o sucesso dos negócios

H03: Não existe diferença na percepção da importância do papel do poder público local para a construção das bases competitividade das empresas do agronegócio /HA3: Existe diferença na percepção da importância do poder público local para a construção das bases competitividade das empresas do agronegócio

H04: Não existe diferença na percepção da importância de estar localizado em uma concentração geográfica de agronegócio de flores (Holambra/ Mogi) para a competitividade das empresas nela situadas. / HA4: Existe diferença na percepção da importância de estar localizado em uma concentração geográfica de agronegócio de flores (Holambra/ Mogi) para a competitividade das empresas do agronegócio nela situadas.

Adicionalmente à análise das hipóteses, foi utilizada a análise fatorial, cujo objetivo é reduzir o número de dados a serem analisados (Costa, 2006). Destaca-se no entanto que nessa análise os fatores são formados exclusivamente pelo resultado do tratamento estatístico aplicado à amostra e, por isso, não se pode esperar a plena adequação de todos os fatores gerados ao objeto-alvo do estudo realizado.

As análises estatísticas dos resultados foram feitas utilizando-se os softwares Minitab e Excel 2003. Com estas ferramentas, essas hipóteses foram testadas através do teste do Qui quadrado.

Protocolo de Pesquisa

A abordagem estatística adotada apresenta características de pesquisa exploratória, com plano de amostragem não probabilística e, utilizando critério de elegibilidade para selecionar as respostas válidas a partir das informações coletadas (HAIR Jr. et al., 2005; BABBIE, 1999). Este estudo também se caracteriza por um corte transversal, tendo como unidade de análise as organizações, ou seja, cada questionário corresponde a uma unidade agrícola.

A população considerada para a pesquisa foram as unidades agrícolas formalmente filiadas às associações de produtores e as cooperativas nas duas localidades estudadas. A escolha dessas duas localidades pautou-se na sua importância tanto regional como em âmbito nacional para o agronegócio de flores e plantas ornamentais (ver seção "O ambiente de estudo").

Desta forma, fizeram parte deste estudo, duas das três associações de produtores rurais existentes na localidade de Holambra: Associação de Agricultores Familiares de Holambra (AAFHOL) e Associação de Agricultores Familiares de Artur Nogueira (AAFAN). Nas duas associações foram feitas entrevistas com um de seus diretores. Além disso, foi entrevistado o coordenador da Associação Comercial e Empresarial (ACE) de Holambra e um representante do corpo gerencial e um diretor da Cooperativa Veiling de Holambra (CVH). Em Mogi das Cruzes os produtores concentram-se em uma cooperativa e uma associação, SP Flores e Associação dos Floricultores da Região da Via Dutra (AFLORD), respectivamente. No entanto, a cooperativa SP Flores originou-se nas dependências da Aflord, havendo grande sobreposição no quadro de associados de ambas, além disso a criação da SP Flores ocorreu para viabilizar a atuação em atividades comerciais, o que não era permitido na Aflord. Portanto, optou-se por entrevistar um gerente da Aflord.

Na pesquisa organizacional, a pesquisa exploratória requer que a coleta de dados seja feita por meio de questionários auto-aplicáveis, entrevistas estruturadas ou semi-estruturadas (BRYMAN,1995). Nesta pesquisa optou-se por utilizar entrevistas estruturadas realizadas por ocasião da realização de reuniões e/ou assembléias das cooperativas ou associações de produtores elencadas anteriormente. Esta opção se justifica à medida que existem restrições operacionais associadas à dificuldade de acessar produtores rurais dispersos geograficamente, conforme sugerem Selitiz et al. (1975) a respeito das condições para a coleta e análise dos dados: "... que procure combinar o significado para o objeto de pesquisa, com a eficiência e economia do processo".

Conforme sugere a literatura, a aplicação dos questionários foi feita após um pré-teste realizado com dois produtores rurais do município de Holambra, o que possibilitou uma revisão do instrumento, que resultou em sua redução e na adequação da redação para facilitar a compreensão dos produtores rurais (COOPER; SCHINDLER, 2003).

A partir das indicações das associações e da participação em reuniões e assembléias foi possível fazer o levantamento do tipo survey que resultou na aplicação de 120 questionários, dos quais foram obtidas 90 respostas válidas.

A coleta dos dados foi efetuada através de questionários desenvolvidos com base no levantamento bibliográfico apresentado nas seções anteriores. Este questionário é composto por questões fechadas, com 29 variáveis, distribuídas em quatro blocos (Anexo A). O primeiro bloco é voltado para a caracterização do entrevistado e da unidade agrícola de produção. O segundo conta com 7 questões relacionadas às ações de parceria desenvolvidas pelos entrevistados. O terceiro bloco traz 13 questões voltadas para a importância da localidade e os recursos que oferece. O último bloco apresenta 9 questões relacionadas ao papel do cooperativismo na promoção das externalidades positivas locais. Todas essas questões foram apresentadas de forma que o respondente pudesse apresentar sua percepção, segundo uma escala de Likert, pontuada da seguinte forma: Discordo (-2), Indiferente (-1), Não sei ou não tenho opinião (0), Concordo Parcialmente (1) e Concordo (2).

Destaca-se finalmente que a utilização de amostragem não probabilística traz limitações para a generalização dos resultados obtidos. No entanto, dadas as restrições operacionais da pesquisa, lembrando-se da dificuldade de acessar produtores rurais, o caráter exploratório se justifica, pois é capaz de trazer informações relevantes de um contexto pouco estudado, o agronegócio de flores e plantas ornamentais, em que existe significativa carência de dados empíricos.

 

O AMBIENTE DE ESTUDO

Nesta quarta seção optou-se por caracterizar o ambiente de estudo, incluindo a importância dos agronegócios para o contexto socioeconômico brasileiro. Ainda nesta seção é feita uma caracterização das duas localidades estudadas.

O Agronegócio de Flores e Plantas Ornamentais

A balança comercial brasileira traz uma série histórica com mais de quinze anos consecutivos com superávit das atividades agroindustriais (ALIMANDRO et al., 2001). Historicamente os agronegócios representam um dos setores que mais divisas geram para o País (CARVALHO; SILVA, 2006), sendo responsável por cerca de um terço do PIB nacional (ALIMANDRO et al., 2001; IPEA, 2004; MAPA, 2006), há mais de 20 anos. Além disso, cerca de 37% da população economicamente ativa estão relacionados aos agronegócios, o setor que mais gera empregos na economia brasileira, depois da construção civil (MAPA, 2006).

Esse cenário positivo também se reflete para o setor de flores e plantas, que vem mantendo, desde 1997, saldo positivo na balança comercial. A partir de 2002, esta tendência se acentuou, apresentando em 2004 um crescimento de 33,2% em relação a 2003, que já apresentava à época um patamar histórico de exportação (KIYUNO et al., 2003). Esses autores estimaram o valor da produção nacional de flores, para o ano de 2002, em R$ 500 milhões ao nível dos produtores, implicando num valor próximo a R$ 750 milhões ao nível de atacado e de R$ 1,5 bilhão na esfera do varejo.

A floricultura é uma das atividades agrícolas que gera um número elevado de empregos fixos, o que não é comum dentre as mais importantes atividades agrícolas do País. O índice de utilização de mão-de-obra está em torno de 15 a 20 pessoas/hectare (CLARO, 1998; KIYUNO et al., 2003), resultando em mais de 120 mil empregos diretos. Segundo Anefalos e Guilhoto (2003) para cada R$ 1 milhão investido, a floricultura gera 404,24 novos empregos, quase quatro vezes maior que a geração de empregos observada nos agronegócios brasileiros como um todo. Vale ressaltar ainda que essa mão-de-obra tem um melhor nível de qualificação se comparada com as demais atividades agrícolas e apresenta, segundo Francisco et al. (2003), uma importância crescente nos processo de geração de valor desse setor em termos nacionais.

A localidade de Holambra

A localidade de Holambra considerada no presente estudo se encontra delimitada pelos municípios de Holambra, Mogi-Mirim, Arthur Nogueira, Cosmópolis, Jaguariúna e Santo Antonio de Posse. Todos são integrantes da Região Metropolitana de Campinas, conforme Braga (2002).

A localidade conta hoje com cerca de 300 unidades agrícolas de produção, voltadas em sua maioria para as atividades relacionadas ao agronegócio de flores. Além de sediar empresas que atuam em todos os segmentos da cadeia de flores, a localidade de Holambra conta com a participação de diversas empresas sediadas em outros municípios mas que atuam de maneira intensa com a localidade no desenvolvimento de seus negócios.

A localidade conta com três cooperativas de produção e comercialização de flores e plantas ornamentais: Cooperplantas; Cooperflora e Cooperativa Veiling de Holambra (CVH). Dentre elas a CVH é a mais importante em termos de quantidade de cooperados (243) e do volume de comercialização (aproximadamente 40% de toda a produção nacional). As outras duas cooperativas são de porte similar no tocante ao número de cooperados (cerca de 50 a 70 sócios) e na movimentação de negócios na localidade.

A localidade de Holambra conta ainda com uma Associação Comercial e Empresarial, um posto de SEBRAE, a Associação Brasileira de Comércio de Sementes e Mudas e uma entidade, denominada ABAFEP – Associação Brasileira do Agronegócio de Flores e Plantas, que trabalha diretamente na distribuição de grande parte dos produtos comercializados na Cooperativa Veiling de Holambra.

Esse cenário acaba por concentrar no município os principais fatores para o desenvolvimento das competências locais de produção e comercialização de flores, onde se concentram os principais fornecedores de mão-de-obra especializada, insumos e infra-estrutura de produção, conforme pode ser observado no estudo realizado por Braga (2002). Nesse estudo o autor revelou que somente as empresas de insumo como agroquímicos e embalagens, se encontram predominantemente sediadas fora do município, concentrando-se nas capitais ou grandes centros urbanos, como São Paulo, Ribeirão Preto e Rio de Janeiro.

A localidade de Mogi das Cruzes

A localidade de Mogi das Cruzes considerada no presente estudo engloba os principais municípios produtores de flores da região, que compreende: Guarulhos, Santa Izabel, Arujá, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes e Guararema. A maioria desses municípios apresenta identidade histórica e cultural relacionada à imigração japonesa e à presença marcante da Cooperativa Agrícola de Cotia – Cooperativa Central (atualmente em processo de liquidação judicial).

Além do Município de Mogi das Cruzes (o maior e mais importante em termos socioeconômicos da região) nesta localidade existem atualmente dois municípios que vêm se destacando como agentes importantes na criação de valores para o agronegócio de flores local: Arujá e Itaquaquecetuba. São municípios geograficamente muito próximos e que apresentam boa estrutura viária nas proximidades das Rodovias Presidente Dutra (BR 116) e Rodovia Ayrton Senna (SP-070).

Em Arujá está sediada a Associação dos Floricultores da Região da Via Dutra (AFLORD), uma importante (e atualmente a única) associação de floricultores da região.

No município de Itaquaquecetuba está sediada a única cooperativa de floricultores da região: a SP Flores. Essa cooperativa surgiu da necessidade identificada pelos associados da Aflord em melhorar suas condições de comercialização e acesso aos grandes mercados. A cooperativa conta hoje com cerca de 119 produtores, que na grande maioria são também associados da Aflord. Esta cooperativa traz como diferencial a promoção de cursos específicos para capacitação técnica em arranjos florais e uma equipe técnica especializada para acompanhar o desenvolvimento das atividades de seus principais clientes (AFLORD, 2006).

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Os resultados do levantamento (survey) são apresentados nesta quinta seção, bem como a discussão dos resultados.

Caracterização Geral da Amostra

A amostra foi constituída de 90 entrevistados dos quais 40 são holandeses ou descendentes de holandeses, 16 japoneses ou descendentes de japoneses, 34 apresentam outra ascendência que não holandesa nem japonesa. A maioria desses produtores possui mais de quinze anos de experiência na produção de flores e plantas ornamentais.

No cômputo geral, os produtores apontaram que a capacitação para o desenvolvimento do negócio foi adquirida através do estudo próprio, conforme pode ser observado no Gráfico 1. Em seguida, foram destacados os fatores convívio com outros produtores da localidade e aprendizado em propriedade onde trabalhava, em segundo e terceiro lugares, respectivamente.

 

 

Destaca-se, no entanto, que, ao se estratificar as respostas por etnia/ ascendência, ocorre inversão nesta classificação. Por exemplo, a opção denominada tradição familiar, que não aparece entre as primeiras colocadas no cômputo geral, é classificada em segundo lugar pelos produtores holandeses ou descendentes e empatado em primeiro lugar no caso dos produtores japoneses ou descendentes. Já para os produtores sem ascendência holandesa ou japonesa (outros), observa-se que os fatores mais importantes foram aprendizado em propriedade onde trabalhava e convívio com outros produtores da localidade, o que é um indício da existência de externalidades incidentais e spin offs.

Validade da Hipótese 1

O teste do Qui-quadrado para esta hipótese foi baseado na relação entre as diferentes etnias que compunham a amostra, agrupadas em: descendentes de holandeses ou holandeses; descendentes de japoneses ou japoneses e outras ascendências.

Ao grupo étnico, foram relacionadas as respostas dadas pelos entrevistados à questão "A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu da comunidade étnica da qual sou descendente".

Este teste mostrou os seguintes resultados: Qui-quadrado = 24,798 e o valor de P< 0,001. Desta forma, rejeita-se a hipótese H01, ou seja, há indícios de que existem diferenças na percepção da importância da etnia como um fator determinante nas relações de cooperação, de acordo com a categoria étnica considerada.

As médias das respostas em função da categoria étnica dos produtores estão representadas no Gráfico 2. Por esse gráfico é possível observar a nítida diferença entre as categorias consideradas. Enquanto os japoneses se mostraram mais influenciados por esse fator, os produtores de outras etnias mostram-se menos influenciados por esse fator. Os produtores de etnia holandesa apresentam-se praticamente neutros.

 

 

É curioso observar que, para a etnia japonesa, houve diferenças expressivas nos valores das médias de concordância, quando estratificadapor localidade. Os japoneses da localidade de Mogi das Cruzes (que refletem o cenário da hipótese 1) obtiveram média de 1,5 (concordância quase plena), já os japoneses cujas unidades produtivas estão localizadas em Holambra obtiveram média -0,17 (discordância próxima da neutralidade). Assim, pode-se observar que, como em Holambra a etnia predominante na cooperativa é a holandesa, a comunidade japonesa dessa localidade bem como a categoria outros, se comporta de maneira homogênea à percepção da localidade de Holambra como um todo.Esses resultados estão representados no Gráfico 3.

 

 

Validade da Hipótese 2

O teste do Qui-quadrado para esta hipótese foi baseado na relação entre as respostas da percepção dos entrevistados de cada localidade sobre a importância das cooperativas para o sucesso de seus respectivos negócios. Este teste foi baseado na questão "A cooperativa/ associação é importante no sentido de promover o desenvolvimento dos agronegócios de flores e plantas para seus associados" e mostrou os seguintes resultados: Qui-quadrado = 0,139 e o valor de P= 0,933.

Esse resultado significa que essa hipótese (H02) deve ser aceita, ou seja, não há indícios de que as localidades pesquisadas tenham percepção diferente a respeito desta questão. Em ambas as localidades houve concordância de que a cooperativa é um fator importante para o sucesso dos negócios, dado que a média de concordância foi 1,18 para a localidade de Holambra e de 0,90 para a localidade de Mogi das Cruzes.

Validade da Hipótese 3

O teste do Qui-quadrado para esta hipótese foi baseado na relação entre as respostas da percepção dos entrevistados de cada localidade sobre a importância do poder público local para o sucesso de seus respectivos negócios. Este teste foi baseado na questão "O governo local é atuante no sentido de promover o desenvolvimento dos agronegócios de flores no município e/ou região" e mostrou os seguintes resultados: Qui-quadrado = 2,755 e o valor de P= 0,252.

Esse resultado significa que essa hipótese (H03) deve ser aceita, ou seja, não há indícios de que as duas localidades apresentem percepção diferente a respeito da governança local. Destaca-se, no entanto, que em ambas as localidades o poder público local não é reconhecido como um ator atuante no sentido de promover o desenvolvimento das atividades da floricultura, uma vez que a média foi de -1,18 para a localidade de Holambra e de -0,90 para a localidade de Mogi das Cruzes.

Validade da Hipótese 4

O teste do Qui-quadrado para esta hipótese foi baseado na relação entre as respostas da percepção dos entrevistados de cada localidade sobre a importância da localidade para o sucesso de seus respectivos negócios. Este teste foi baseado na questão "O município (região) onde desenvolvo meus negócios apresenta as melhores condições para o desempenho da floricultura, se comparado a outros municípios e/ou regiões do Brasil" e mostrou os seguintes resultados: Qui-quadrado = 17,050 e o valor de P< 0,001. Esse resultado implica na rejeição dessa hipótese H04, sendo válida a hipótese alternativa (HA4).

Conseqüentemente, há indícios de que a percepção das condições apresentadas pela localidade para o desempenho dos negócios é distinta entre os produtores de Mogi das Cruzes e Holambra. Embora em ambas as localidades tenha havido concordância no sentido de que lá as condições para o desenvolvimento dos negócios são privilegiadas, pois a média foi de 0,65 para a localidade de Holambra e de 1,60 para a localidade de Mogi das Cruzes, observou-se que existe diferença significativa entre essas médias, para o intervalo de confiança 1%. Portanto, para os produtores da localidade de Mogi das Cruzes, as condições oferecidas pela localidade são consideradas muito mais expressivas (média de 1,60 – forte concordância) do que para os produtores da localidade de Holambra (média de 0,65 – fraca concordância).

Resultado da Análise Fatorial

A análise fatorial resultou na consolidação de 3 fatores e a análise de cluster resultou em 5 grupos associados à temática deste artigo, conforme ilustra a Tabela 2. Nas subseções seguintes serão apresentados os fatores analisados.

 

 

Fator 1

As questões que compõem o fator 1 são relacionadas à disponibilidade para o compartilhamento de informações e a observação.

A análise da Tabela 1 mostra que apenas o Grupo 3 apresenta uma média positiva elevada com relação aos demais grupos. Conclui-se que os produtores deste grupo apresentam com mais freqüência ações conjuntas, mas o que os distingue é a existência de ações com seus clientes, entidades de apoio e de pesquisa, mais do que o restante da amostra pesquisada. Esse grupo é composto exclusivamente por produtores sediados na localidade de Holambra, sendo que somente um pertence à categoria holandês ou descendente de holandeses e os demais não têm qualquer vínculo de ascendência (categoria outros). Uma característica marcante desse grupo é que a maioria dos seus componentes relatou que o convívio com outros produtores e a experiência como empregado foram as origens principais do conhecimento necessário para o desenvolvimento de seus negócios.

Fator 2

As questões que compõem o fator 2 são relacionadas aos agentes indutores das ações de parcerias e/ou cooperação destacando-se o papel da cooperativa e/ou associação de produtores e/ou da consolidação das relações comerciais, com o tempo.

De maneira geral, a análise da Tabela 1 mostra que podem ser destacados dois grupos, 1 e 4, que apresentaram a mesma média de discordância (-0,89). Ambos os grupos são formados pelos produtores da localidade de Holambra e pertencem a uma das associações de agricultura familiar. O Grupo 1 é composto pelos produtores sediados em Arthur Nogueira e o Grupo 4 em Holambra.

O resultado encontrado para os dois grupos mostra que para os agricultores pertencentes a essas duas associações, as ações de parceria não se relacionam a uma ação mais direta das entidades das quais participam (incluindo as cooperativas às quais são associados) e nem à consolidação das relações comerciais com o tempo.

Fator 3

As duas questões componentes desse Fator 3 relacionam-se ao fenômeno descrito por Porter (1998) e denominado co-opetição (Co-opetition), ou seja, parceria entre produtores. Foram identificados dois grupos que se destacam; o primeiro pela maior intensidade de ações conjuntas entre si (Grupo 2), e outro com menor intensidade (Grupo 5).

O Grupo 2 é pequeno, formado apenas por quatro produtores, dos quais três estão sediados no município de Holambra. Esse grupo apresentou uma média de concordância nas questões de parceria entre produtores superior aos demais da amostra (média 1,53, forte concordância).

Com relação aos produtores do Grupo 5, é formado por dez produtores localizados no município de Holambra e apenas um localizado no município vizinho de Campinas, com unidades de produção de maior porte e mais consolidadas. A maioria dos componentes deste grupo (oito) é da categoria holandês ou descendente de holandeses. Neste grupo, as respostas com relação às parcerias com outros produtores estão na faixa de forte discordância (média de – 1,43, forte discordância).

 

CONCLUSÕES

As duas localidades estudadas, Holambra e Mogi das Cruzes, têm papel relevante no contexto do agronegócio de flores e plantas ornamentais tanto no contexto regional como brasileiro, sendo a primeira o maior produtor e centro de comercialização do País. Ambas as localidades apresentam forte tradição cultural oriunda de imigrantes holandeses e japoneses, respectivamente.

De maneira geral os resultados mostram que há uma prática de ações de parcerias entre os produtores entrevistados e que há forte influência do fator étnico em alguns grupos da amostra, sobretudo na comunidade de origem japonesa da localidade de Mogi das Cruzes. Ambas as localidades foram destacadas pelos produtores como importantes para o desenvolvimento das externalidades positivas locais, apesar da participação pouco efetiva do poder local. Em ambas as localidades o cooperativismo se mostrou relevante para o desenvolvimento de ações conjuntas e o sucesso dos negócios.

No entanto, alguns resultados que emergiram das análises das hipóteses e da análise fatorial merecem destaque.

Na análise da hipótese 1, relacionada à identidade étnica como indutora das relações de cooperação entre produtores, observou-se que para a categoria étnica formada por japoneses e seus descendentes, localizados em Mogi das Cruzes, houve diferenças significativas nos valores das médias de concordância, apresentando concordância quase plena (média de 1,5), apontando um comportamento distinto das outras categorias consideradas: holandeses e seus descentes e outros. Para esses dois grupos a etnia não aparece como um fator indutor de cooperação. Nas entrevistas com os representantes das associações e cooperativas de Holambra, foi relatado que as questões de cooperação baseadas na etnia foram mais fortes na formação dessa concentração geográfica de produtores de flores e na emancipação do município de Holambra. Com a consolidação das associações e cooperativas e a maior profissionalização esses fatores se diluíram. Para a categoria outros esse resultado já era esperado.

A influência do fator étnico também se manifestou na questão da capacitação para o desenvolvimento dos negócios, dado que a opção denominada tradição familiar, que não aparece nas primeiras colocações do cômputo geral, é classificada em segundo lugar pelos produtores holandeses ou descendentes e empatado em primeiro lugar para a categoria japoneses ou descendentes. Já para a categoria outros, observou-se que os fatores mais importantes foram aprendizado em propriedade onde trabalhava e convívio com outros produtores da localidade, o que é um indício da existência de externalidades incidentais e spin-offs.

No que concerne à importância das cooperativas para o sucesso dos negócios (hipótese 2), observou-se que em ambas as localidades houve concordância, sem diferenças significativas nos resultados. Desta forma conclui-se que tanto para os produtores de Holambra (média de 1,18) como de Mogi das Cruzes (média de 0,90) as cooperativas são importantes para o sucesso dos negócios.

Vale destacar que o poder público local não é reconhecido pelos produtores da amostra como um ator atuante no sentido de promover o desenvolvimento das atividades da floricultura (hipótese 3). Não houve diferença significativa na média de discordância, em ambas as localidades.

Conforme comentado, os produtores reconhecem que as condições oferecidas pelas localidades são privilegiadas para o desenvolvimento dos negócios. No entanto, há indícios de que a percepção dos produtores de Mogi das Cruzes (média de 1,60 – forte concordância) sobre a localidade é mais positiva do que a dos produtores de Holambra (média de 0,65 – fraca concordância), pois existe diferença significativa nas médias para o intervalo de confiança 1%. Em entrevista com os representantes das associações locais, pôde-se observar que na localidade de Holambra começam a surgir alguns efeitos de trancamento bem como assimetrias, como por exemplo, aumento dos custos.

A análise do Fator 5 pode ser um indício do surgimento de assimetrias, pois foi identificado um grupo de dez produtores (Grupo 5), 9 localizados no município de Holambra, com unidades de produção de maior porte e mais consolidadas, que apresentaram forte discordância (média de – 1,43) nas respostas relacionadas às parcerias com outros produtores.

Com relação à adoção de instrumentos de coleta de dados com base na percepção dos entrevistados, não se pode deixar de considerar que os resultados assim obtidos são restritos a essas percepções, o que em muitos casos, pode dificultar a generalização dos resultados obtidos dentro do próprio estudo.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem ao CNPq pelo apoio financeiro e aos revisores anônimos pelas contribuições.

 

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Artigo recebido em 29/06/2007
Aprovado para publicação em 02/01/2008

 

 

Sobre os autores
João Pedro de Castro Nunes Pereira

Prof. Dr. Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC
Doutor pela Depto. de Eng. Produção – Escola Politécnica da USP
End.: Rod. Ilhéus Itabuna – Km 16,5
E-mail: jpcnpereira@uesc.br

Marly Monteiro de Carvalho
Profa. Livre-docente do Depto de Eng. Produção – Escola Politécnica da USP
End.: Av. Prof. Almeida Prado, 128, Tr. 2 Biênio, 2º andar – 05508-900 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: (11) 3091-5363 Fax 3091-5399, r. 303
E-mail: marlymc@usp.br

 

 

ANEXO A

Bloco 1

1.1 Dados Gerais do Respondente (Nome;Telefone para Contato; E-mail)

1.2 Perfil da Propriedade (Município; Ano de início na floricultura)

1.3. O responsável pela produção de flores nesta propriedade é: Holandês ou descendente de holandês; Japonês ou descendente de japonês; Brasileiro sem vínculo de ascendência holandesa ou japonesa; Outra origem (favor especificar)

1.4. O seu conhecimento técnico para a produção de flores/plantas vem: Da tradição familiar; Do convívio com produtores da localidade; Do estudo e desenvolvimento próprio; Aprendizado em propriedade que trabalhava como empregado; De outra origem (favor especificar)

1.5 Assinale o principal meio de comercilização de seus produtos: Cooperativa; Ceasa Local; Atacadista, varejista ou vendedor independente; Direto para o consumidor final; Outros (favor especificar)

Bloco 2

" A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu através de laços familiares."

" A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu do convívio com outros produtores da cooperativa e/ou associação de produtores a que sou filiado."

" A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu da comunidade étnica da qual sou descendente."

" A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu da consolidação das relações comerciais, com o tempo."

A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu pelo incentivo ou intermediação da cooperativa e/ou associação de produtores à qual sou filiado."

" A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu pelo incentivo/intermediação do Sindicato Patronal, e/ou Sindicato de trabalhadores; entidades como SEBRAE, SENAR, associação comercial local, etc."

" A maioria das ações de parcerias e/ou cooperação com outros produtores, clientes, fornecedores ou outras empresas da floricultura que estabeleci surgiu por que sei da importância delas para o fortalecimento da estrutura de produção e/ou comercialização da qual dependo."

Bloco 3

O governo local é atuante no sentido de promover o desenvolvimento dos agronegócios de flores no município e/ou região.

A cooperativa/associação é importante no sentido de promover o desenvolvimento dos agronegócios de flores e plantas para seus associados.

Não conheço nenhum tipo de política pública relacionada à promoção do desenvolvimento dos agronegócios de flores e plantas nesta região.

O município (região) onde desenvolvo meus negócios apresenta as melhores condições para o desempenho da floricultura, se comparado a outros municípios e/ou regiões do Brasil.

Esta região onde estou sediado é reconhecida especificamente pela produção de flores e plantas.

Esta região onde estou sediado é reconhecida pela comercialização de flores.

Esta região onde estou sediado é reconhecida pelo cultivo protegido.

Uma das vantagens em estar localizado neste município e/ou região é sua infra-estrutura e assistência técnica

Uma das vantagens em estar localizado neste município ou região é que facilita a contratação de mão-de-obra especializada no cultivo de flores e treinamento.

Uma das vantagens em estar localizado neste município e/ou região é que me proporciona a aproximação com outros produtores de flores, o que ajuda na solução de problemas relacionados ao meu negócio (produção e venda).

Uma das desvantagens em estar localizado neste município (região) é que existe uma saturação das possibilidades de produção local, pois atrai produtores de outras regiões.

Uma das desvantagens em estar localizado neste município e/ou região que a localidade está sofrendo com a atração de novos produtores, que está deteriorando as fortes relações entre os produtores locais mais antigos.

Uma das desvantagens em estar localizado neste município e/ou região é que a alta concentração de produtores e de outros agentes de negócios aqui pressiona os custos de produção para cima.

Bloco 4

O número de espécies que o senhor pode cultivar é definido pela cooperativa ou associação a que pertence.

A maior parte (ou a totalidade) de sua produção vai para a cooperativa ou associação de produtores que participo.

A cooperativa distribui e comercializa seus produtos de maneira mais eficiente do que se não estivesse associado a ela.

A associação a que pertence, apesar de não atuar diretamente na comercialização dos seus produtos, auxilia bastante nessa etapa.

A cooperativa estabelece os preços de venda e as condições para recebimento das vendas de seus produtos.

A cooperativa estreita os laços de relacionamento e confiança entre os produtores.

A cooperativa promove com freqüência o treinamento/ capacitação dos produtores e/ou seus empregados.

A cooperativa divulga com freqüência os agentes e as linhas de financiamentos disponíveis.

O cooperativismo e/ou associativismo é fundamental para o bom desempenho de meus negócios (flores e plantas) nesta região.

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