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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564versão On-line ISSN 1678-5177

Psicol. USP v. 8 n. 1 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641997000100008 

PIAGET: NOTAS PARA UMA TEORIA CONSTRUTIVISTA DA INTELIGÊNCIA1

 

Leandro de Lajonquière
Departamento de Filosofia e Ciências da Educação
Faculdade de Educação - USP

 

 

Constata-se que boa parte dos comentadores da obra de Piaget afirma que a inteligência é originariamente de natureza individual e que, portanto, a socialização seria o efeito de um processo de evolução cognitiva. Essa interpretação substancializa a inteligência, recorre a explicações reducionistas e considera o processo de construção epistêmica como uma simples atualização de possíveis cognitivos pré-formados. Uma série de investigações tem sugerido a existência de uma interdependência causal entre as dinâmicas sociais e o desenvolvimento cognitivo, que nos alerta da necessidade de rediscutir o estatuto da interação.
Descritores: Piaget, Jean, 1896-1980. Inteligência. Interação. Construtivismo.

 

 

Mas o que é a criança em si mesma?
Existem crianças sem relação a certos meios

coletivos bem determinados?
(Jean Piaget, Études Sociologiques).2

 

 

Parece-nos que no âmbito da psicologia da inteligência, as teses piagetianas são objeto de duas interpretações que têm se tornado hegemônicas.

Por um lado, encontramos aquela leitura que fez de Piaget o representante de uma psicologia monádica. Ou seja, aquela que, realizando uma interpretação, tanto naturalista quanto pré-formista do processo psicogenético, conclui que a inteligência é uma espécie de mônada leibniziana que evolui conforme um desígnio vitalista. Como sabemos, o próprio Piaget reagiu surpreso a essas interpretações maturacionistas.

Por outro, encontramos uma outra forma de ler os textos piagetianos que, ao contrário, acaba fazendo de nosso autor o representante de uma psicologia diádica. Assim, nesta perspectiva, a inteligência é pensada como uma mônada biológica que possui portas e janelas e acaba evoluindo na proporção da ação solicitante do meio físico e/ou social (sic). Ao nosso ver, esta interpretação, em primeiro lugar, reifica a inteligência, pois a considera uma substância interna ao organismo; em segundo, incorre num reducionismo biológico nada piagetiano, uma vez que confunde as estruturas cognitivas com as orgânicas; em terceiro, naturaliza o" coletivo", visto que degrada a dita interação com o outro em uma estimulação comportamental e, por último, reduz o processo de construção epistêmica a uma simples atualização de possíveis cognitivos pré-formados, desconhecendo, assim, a natureza constitutiva da interação. Essa leitura define, no campo da psicologia da inteligência, uma postura kantista evolutiva, uma vez que sustenta o caráter genético de uma inteligência detentora de anterioridade não só lógica quanto, principalmente, cronológica e de nível a respeito da experiência epistêmica do sujeito (Cf. Piaget, 1972b, p.82). Por sinal, na tentativa de justificar a pertinência dessa interpretação, lembra-se que o próprio Piaget (1960) declarou-se, em certa oportunidade, partidário de um kantismo evolutivo. Entretanto, mais uma vez as aparências enganam, pois, embora Piaget tenha usado essa expressão para marcar sua oposição a um empirismo à moda de Le Dantec (Cf. Piaget, 1960, p.58), suas teses psicogenéticas definem, ao contrário, uma espécie de kantismo construtivo.3 Ao nosso ver, esse kantismo evolutivo não deixa de ser mais uma versão do clássico pré-formismo psicológico que Piaget tanto criticou.

Para Piaget, o esquema mínimo de todo raciocínio pré-formista é o seguinte: há uma coisa mais ou menos já dada que se atualiza, isto é, que evolui graças ao simples contato gratificante ou frustrante com uma realidade pensada como seu exterior (Cf. Piaget, 1970b, p.20). Em outras palavras, é inerente a todo evolucionismo vitalista estabelecer um começo a partir do "conjunto de todos os possíveis" factível de concreção e rebaixar o processo construtivo a ser apenas o "conjunto das condições de ascensão." (Cf. Piaget, 1970a, p.110 e ss.).

Não há dúvidas que esse modo de raciocinar acaba se endereçando pelos caminhos que, como Piaget dizia, "não há que seguir". Em Biologie et Connaissance encontramos desmascaradas as duas "tendências naturais ao espírito ... capazes de falsear toda análise": projetar o superior no inferior e reduzir o superior ao inferior (Piaget, 1967, p.64-5). Por um lado, todos os vitalismos pré-formistas respondem, em princípio, à primeira forma de análise, inadmissível sob todos os pontos de vista, pois acarretam necessariamente a idéia de um finalismo não-cibernético e a substancialização da inteligência. Por outro, o reducionismo resulta indefensável, já que ao considerar que o superior não passa de um epifenômeno, perde de vista que "a neurologia, por exemplo, nunca explicará porque 2 e 2 fazem 4" (Piaget, 1967, p.78). Justamente, o dito kantismo evolutivo professa essas duas tendências no momento em que a reificação dos processos epistêmicos adquire a forma de um neurônio. Assim sendo, não devemos nos surpreender que alguns se imolem no moderno altar das neurociências apesar de o simpático patron ter dito que, para além dos isomorfismos, matéria de seus desvelos, "os neurônios não raciocinam" (Piaget, 1967, p.312).

Chegados a este ponto detenhamo-nos, para maior clareza, primeiro, na suposta substancialidade orgânica da inteligência e rediscutamos, depois, o estatuto da interação.

*

Piaget nunca confundiu as estruturas intelectuais com as orgânicas, em particular, as neuronais. Sempre assinalou que se tratava de analogias qualitativas, isomorfismos parciais, bem como de comparações sistemáticas entre as coordenações cognitivas e a problemática da relação genoma-meio. Mais ainda, referiu-se aos esquemas cognitivos como "formas da organização vital, ou seja, formas funcionais de estrutura dinâmica e não material." (Piaget, 1967, p.58). Neste sentido, não devemos nos confundir: uma coisa é a remissão à temática da adaptação vital, enquanto estratégia argumentativa ou pré-texto para Piaget poder escrever seus textos epistemológicos a fim de concluir que o real é, em última instância, racional; outra, muito diferente, é a pergunta acerca da natureza qualitativa da inteligência. 

Cabe acrescentar que para Piaget, como para nós também, embora as funções cognitivas pressuponham a materialidade neuronal, essa última não determina o funcionamento auto-regulado das primeiras. A respeito da problemática da pressuposição, podemos ler em Biologie et Connaissance que "o sistema nervoso" é" o instrumento da inteligência" (Piaget, 1967, p.49). Nesse mesmo sentido, em Adaptation vitale et psychologie de l'intelligence, Piaget afirmou, a propósito da coordenação das ações, o seguinte: 

essas coordenações se apóiam elas mesmas sobre as coordenações nervosas que derivam enfim das coordenações orgânicas. Em outras palavras, embora essas estruturas não sejam propriamente hereditárias, constituem uma prolongação das regulações orgânicas. (1974, p.74).

Como podemos ver, temos que a coordenação das ações se apóia nas coordenações nervosas, que essas últimas derivam das orgânicas e, por último, que as estruturas lógico-matemáticas prolongam as regulações orgânicas.

Deste modo, concluimos, em primeiro lugar, que o fato de as coordenações neuronais derivarem das orgânicas significa que entre ambas medeia uma relação de derivação, isto é, qualquer variação de magnitudes em uma delas não pode não se trasladar à outra; em segundo, que a forma que possa oportunamente adotar a coordenação das ações se apóie na coordenação nervosa não significa que, por isso, elas se confundam; e em terceiro lugar, que as estruturas epistêmicas prolonguem as regulações orgânicas, ou seja, que estendam ou continuem realizando aquilo que estas últimas já realizavam, não nos obriga a cair nas garras de um vitalismo orgânico e teleológico.

No nosso entender, o fato de afirmar simultaneamente a pressuposição, a heterogeneidade material e a correspondência funcional, acaba obrigando Piaget a recorrer à idéia das "reconstruções convergentes com ultrapassagens" para assim sustentar seu edifício epistemológico. Assim, entre a vida e os processos epistêmicos há, por um lado, uma continuidade funcional a ponto tal que é possível identificar, num e noutro campo, o império de certas correspondências e, por outro, um isomorfismo parcial, derivado de uma série de reconstruções convergentes e não de uma filiação direta. Como vemos, em primeiro lugar, as reconstruções convergentes são responsáveis por certo ar familiar que compartilham entre si o organismo e a inteligência e, em segundo lugar, como qualquer processo de filiação, ele precisa também apoiar-se em alguma outra coisa. Em poucas palavras, as funções cognitivas, para poderem realizar seu trabalho, apóiam-se nas regulações orgânicas e dessa forma não fazem mais do que prolongar a autoregulação inerente à vida.

Nesse sentido, cabe afirmar que, se estamos decididos a deixar de lado a tese da suposição causal, então, deve-se concluir que a relação de pressuposição que a inteligência mantém com a materialidade neuronal é de caráter epistemológico. Mais ainda, no nosso entender, apelando à idéia duma pressuposição epistemológica, conseguimos resolver o impasse no qual se cai na hora de fazer referência às possibilidades orgânicas.

A esse respeito, é sabido que Piaget se referiu, por um lado, ao contra-senso lógico de falar do "conjunto de todos os possíveis" (Piaget & Garcia, 1983, p.26) e, por outro, à impossibilidade de conhecer "o conjunto das condições possíveis ... ainda não observáveis, mas realizáveis" (1974, p.18). Justamente, em L'épistémologie génétique afirma que "o possível é reconhecido de forma autêntica apenas retroativamente, uma vez realizado" (Piaget, 1970a, p.111), ou seja, temos acesso ao possível quando ele deixou de sê-lo.

Entretanto, é nos Études sociologiques que encontramos uma sugestiva e polêmica referência a essa problemática: 

entre uma maturação orgânica fornecedora de potencialidades mentais, mas sem uma estruturação psicológica pronta, e uma transmissão social fornecedora dos elementos, bem como do modelo de uma construção possível, mas sem impôr essa última em bloco, existe uma construção operatória que traduz4 em estruturas mentais as potencialidades oferecidas pelo sistema nervoso. (Piaget, 1965, p.25).

No entanto, cabe lembrar que em L'épistemologie génétique sustenta que o inferior/anterior encerra em si as potencialidades do superior/posterior, embora a passagem de um para o outro não possa se calcular a priori, enquanto resultado necessário de uma construção efetivamente constitutiva (Cf. 1970a, p.100 e ss.). Ora pois, sobre esse particular se deve tirar duas conclusões: por um lado, a reflexão piagetiana merece ser pensada como uma epistemologia dos efeitos de uma gênese, tanto imprevisível quanto não-aleatória; por outro, o organismo só entra na história epistêmica a título de limite e não de potência causal, como se pensa no contexto de uma leitura kantiano-evolutiva.

*

Analisemos agora o estatuto da interação. Como assinalamos, se as teses piagetianas são interpretadas em uma perspectiva diádica, então nega-se o caráter constitutivo da interação, pois consideram-se, tanto a inteligência quanto o dito meio, como duas realidades pré-constituídas que mantêm entre si uma relação de exterioridade.

Assim sendo, cabe afirmar que a versão diádica das teses psicogenéticas é o produto de uma confusão e de três esquecimentos.

Por um lado, confunde-se o fato de Piaget ter relativizado a transmissão social e pensado a equilibração em oposição à clássica enumeração dos fatores do desenvolvimento, com uma postura que reduziria a interação a ser uma simples estimulação de coisas externas. Por outro, esquece-se, em primeiro lugar, a tese da continuidade qualitativa entre a inteligência e as interações interindividuais, norteadora tanto dos Études Sociologiques quanto dos estudos experimentais sobre a interação social de Doise, Mugny e Perret-Clermont, dentre outros; em segundo, o fato de a interação ser solidária do caráter re-construtivo das fenocópias, conforme Piaget o assinalou em Adaptation vitale et psychologie de l’intelligence; em terceiro, da impossibilidade de considerar separadamente as caraterísticas de sistema aberto e de ciclo fechado da inteligência, enquanto um sistema auto-regulado. Como sabemos, essa última tese perpassa obras como Biologie et connaissance e Psychologie de l’intelligence et adaptation vitale, bem como é explicitamente tratada em L’équilibration des structures cognitives.

Embora esses assinalamentos sejam suficientes para contestar a suposta pertinência de uma interpretação diádica, detenhamo-nos na problemática da natureza do objeto de conhecimento, pois nos parece solidária da discussão acerca da interação.

Com efeito, se o objeto fosse apenas um ente físico, então faria sentido falar de uma maior ou menor quantidade de estímulos ambientais; porém se ele é, ao contrário, um fragmento de cultura a ser reconstruído, então passa a ter sentido falar das possibilidades interativas ofertadas ao sujeito, na direção apontada pelas pesquisas de Inhelder, Sinclair e Bovet (1974) sobre a aprendizagem.

Em primeiro lugar, o objeto não pode ser um ente físico, pois isso seria negar as heterogeneidades epistêmicas, isto é, o fato de os conhecimentos lógico-matemáticos e físicos, bem como dos relativos à língua escrita, estudados pioneiramente à luz da teoria da equilibração por Ferreiro e Teberobsky (1979), serem irredutíveis entre si. Em segundo lugar, seria tratar de uma forma um tanto simplista os resultados das pesquisas interculturais realizadas, por exemplo, por Bovet, Dasen e Inhelder (1972) a propósito das crianças Baoulé, por Zemplini e Zemplini (1972) sobre o lugar dos objetos em outras culturas africanas, bem como por Seagrin5 citado por Montangero (1980, p.268-9), acerca dos nômades australianos. Ou seja, seria simplista demais afirmar que as diferenças epistêmicas constatadas obedecem a uma diferença na capacidade solicitante dos meios. Ao contrário, essas pesquisas assinalam a impossibilidade de reduzirmos o objeto de conhecimento a uma coisa, capaz de estimulação na proporção de sua presença empírica.

A esse respeito, lemos em Psychogenèse et histoire des sciences que 

as situações nas quais a criança age são engendradas pelo contexto social (...) A criança não assimila objetos puros, definidos por seus parâmetros empíricos. Ela assimila situações nas quais os objetos cumprem certas funções e não outras. (Piaget & Garcia, 1983, p.274).

Mais ainda, constatamos que, em La naissance de l’intelligence chez l’enfant, Piaget se refere ao objeto nos termos de "uma realidade intelectual." (1970b, p.169).

Nesse sentido, cabe afirmar que o objeto a ser assimilado, isto é, o outro pólo da interação ou ponto de fuga de acomodações possíveis, não é uma coisa. Ele é um objeto situado ou intelectualizado por outras inteligências (sic); mais ainda, ele é, por sua vez, um fragmento de interação sujeito-objeto.

Pois bem, essa idéia piagetiana nos leva a pensar no seguinte: em primeiro lugar, quando dizemos que um sujeito constrói o conhecimento devemos ter claro que, na verdade, o sujeito o re-constrói, tanto no sentido de construir sobre uma construção anterior quanto de construir o já construído por outros. Inhelder e colaboradores se referiram, precisamente, a esse último sentido do termo reconstruir quando comentaram suas pesquisas sobre as estratégias de resolução de problemas (Cf. Inhelder, Ackermann-Valladão, Blanchet, Karmiloff-Smith, Kilcher-Hagedorn, Montangero & Robert, 1976). Em segundo lugar, quando sustentamos que a realidade do objeto não é empírica, mas intelectual, devemos ter claro que o ser do objeto, enquanto o outro pólo da interação, é por sua vez uma situação interativa.6 Isso pode soar em princípio estranho, porém encontramos em Psychogenèse et histoire des sciences uma outra afirmação nesse mesmo sentido. Piaget sustenta que os intemporais conhecimentos lógico-matemáticos devem sua existência à "iteração ilimitada de um ato." (Piaget & Garcia, 1983, p.27). Como vemos, o objeto é uma espécie de algoritmo interativo. Por conseguinte, o objeto a ser reconstruído e a ferramenta a ser utilizada na tarefa, na proporção de sua mesma auto-construção, são de uma mesma e única natureza, isto é, uma porção de interações virtuais.

Desta forma, cabe concluir que aquilo a ser re-construído não é um conhecimento enquanto cópia de um coisa pré-constituída nem a própria coisa, enquanto realidade heterogênea à inteligência, mas um conjunto de interações responsáveis pela existência intelectual dos objetos de conhecimento. O objeto é, em si mesmo, um fragmento das interações no seio das quais um sujeito, na medida de sua participação não-egocêntrica, poderá vir a dar sustento ao próprio ser do objeto em questão. Em suma, o objeto e a inteligência do sujeito constituem uma mesma e única realidade interativa e não, como às vezes se pensa, duas materialidades heterogêneas onde uma delas possuiria a capacidade de vir a complementar a evolução potencial da outra. Como Piaget sempre sustentou, o objeto e o sujeito são os dois pólos da interação ou de uma realidade intelectual que se auto-constrói.

*

Finalizando, retomemos a oposição kantismo evolutivo-kantismo construtivo.

A nosso ver, o professado kantismo evolutivo está mais para um kantismo platonista. Por um lado, possuiria apenas de kantiano o fato de afirmar que o conhecimento é o resultado do encontro de duas realidades pré-constituídas enfrentadas entre si - as formas a priori, enquanto condição de possibilidade, e o conteúdo bruto - e, por outro, seria platonista, uma vez que reifica a condição de possibilidade, bem como postula simultaneamente sua eternidade.7 Assim, da conjunção de ambos temos que o a priori se substancializa e passa a conter em si mesmo proto-conhecimentos que ao encontro de um meio estimulante, evolucionaria segundo um télos natural.

Pelo contrário, com nossa idéia do kantismo construtivo8 tentamos: primeiro, assinalar que o conhecimento não é cópia, como bem afirmara Kant (1950) a contrapelo da tradição metafísica; segundo, ressaltar que as condições epistêmicas prévias, por sua vez, constróem-se no sentido piagetiano, isto é, são o produto de uma "construção efetivamente constitutiva" no seio mesmo da experiência social de interação, ao ponto tal que se revelam a posteriori como um suposto formal (Piaget, 1970a, p.116); terceiro, lembrar que se esse a priori epistêmico revela-se de fato a posteriori como um suposto formal, então ele é de direito apenas um "apriorismo funcional" (Piaget, 1970a, p.120); quarto, assinalar que para Piaget esse apriorismo funcional é uma auto-regulação cibernética (Cf. Piaget, 1975) que, na medida em que perpassa todo sistema de interações, acaba expandindo as fronteiras do sujeito epistêmico até os confins do vivente (Cf. Piaget, 1967); quinto e último, resgatar a idéia piagetiana do objeto enquanto "conquista epistêmica" (Piaget, 1974, p.73), ou seja, produto do encontro trabalhoso entre esse apriorismo funcional e realidades mais ou menos inteletualizadas no decorrer da historicidade própria das interações (Cf. Piaget & Garcia, 1983).

 

 

LAJONQUIÈRE, L. Piaget : Notes for a Constructivist Theory of Intelligence. Psicologia USP, São Paulo, v.8, n.1, p.131-142, 1997.

Abstract: A great many commentators on Piaget’s work nowadays, still take it for granted that intelligence is of an individual nature, and therefore that its socialization is nothing but a mere effect of the cognitive evolution process. This interpretation consists of substantializing intelligence, resorting to reductional explanations and considers the epistemological constructive process a simple actualization of possible pre-established cognitives. A series of investigations have suggested the existence of a casual interdependence within social dynamics and the cognitive development. These researches call attention to the necessity of re-discussion on the status of interaction.
Index terms: Piaget, Jean, 1896, 1980. Intelligence. Interaction. Constructivism.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Versão corrigida e aumentada do texto: Piaget: intelligence et interaction sociale apresentado nas sessões de comunicação oral da IInd Conference for Socio-Cultural Research, Université de Genève, 1996.

2 As citações dos textos de Piaget foram traduzidas pelo autor.

3 Tratamos do problema da leitura em A inteligência piagetiana

4 Lembrando a clássica expressão traduttore traditore, cabe assinalar que toda operação de tradução é constitutiva de um outro texto.

5 Communication at the International Center for Genetic Epistemology, 1978.

6 Em outras palavras, o objeto não é esse puro real que sempre resta enquanto limite intransponível além das fronteiras da interação, e que, no reino da natureza, encoberta-se sob a concretude das coisas. 

7 Cabe esclarecer que não é, em absoluto, necessário apelar a Kant para distinguir epistemologicamente um a priori, enquanto condição de possibilidade, dos conteúdos brutos sensoriais. Se se tratasse apenas disto, então seria suficiente apelar a Aristóteles. Com efeito, se Piaget fez de Kant uma espécie de precursor foi para sublinhar o fato de que o conhecimento se produz, se constrói, ou seja, que ele não é, sob qualquer ponto de vista, uma cópia. 

8 Talvez caiba dizer que o kantismo construtivo é, na verdade, um kantismo re-construtivo. Em Kant, a produção epistêmica resulta do "encontro" harmônico entre a forma vazia a priori e o conteúdo bruto. Ao contrário, em Piaget trata-se do encontro entre um apriorismo funcional e realidades mais ou menos inteletualizadas. Assim, a matéria-prima sobre a qual se realiza o processo epistêmico acaba se revelando como segunda. Desta forma, enquanto para o filósofo de Königsberg o objeto bruto - o real - não impõe resistência ao trabalho de in/formação, para o epistemólogo suiço o objeto cognitivo não só não pode ser construído facilmente, senão que também da própria operação (re)construtiva sempre acaba restando um pouco, a ser creditado novamente na conta do real. 

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