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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol. 8 n. 2 São Paulo  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641997000200014 

ESTADO DE CONSCIÊNCIA ONÍRICA

 

Therezinha Moreira Leite
Instituto de Psicologia - USP

 

 

Neste trabalho discuto os processos oníricos na continuidade de consciência durante o ciclo sono-vigília, levando em conta as diferentes relações a nível consciente-inconsciente. O sonho, por suas características, se presta a uma análise a partir dessa referência, e especialmente por oferecer subsídios ao estudo da consciência. A consideração desta última no processo onírico peculiar ao sonho é ressaltada diante da emergência do Outro. O papel e sentido do sonho são indicados sob a perspectiva pessoal e coletiva, na relação que o mesmo mantém com o pensamento e a linguagem, nos processos de desenvolvimento de personalidade e do grupo. Não obstante as imagens concretas de caráter acentuadamente sensorial, o processo onírico revela e favorece uma articulação em encadeamento de dados significativos do desenrolar da história do sujeito. Nesse processo, dimensões de tempo e espaço se revelam abstraídas da sua realidade factual, indicando a necessidade de serem levadas em consideração questões concernentes à ampliação da consiência e ao papel do sonho na corrente psíquica, assim como na existência humana. Como ocorre com o estudo de muitos outros fatos, deve-se ter presente que as considerações expostas sobre o sonho derivam de fontes, observações, reflexões sobre adultos de proveniência ocidental.
Descritores: Consciência. Inconsciente. Ciclo sono-vigília. Sonho. Criatividade.

 

 

A emergência de conteúdos imagéticos como integrando a corrente de consciência pode contrapor-se ao conceito até há pouco tempo vigente, de consciência dada como instância e faculdade mental à qual se atribuiriam funções, como percepção, discriminação, julgamento, orientação para a ação, controle, e outras, valorizadas como operações por excelência constituintes da vida de relação. Em consequência, seria explicada a construção do eu e da identidade, unos e únicos, garantia de manutenção do sujeito. Colocado o foco sobre a consciência (distinta de afeto), esta exerceria o contato verdadeiro com a realidade, portanto, o mais válido e ao qual toda ação deve retornar. Decorrentemente, colocado o foco igualmente sobre a vigília, o estado de consciência vigil e a atuação da consciência desperta são relevados nessa abordagem como princípios determinantes da existência humana.

Sem dúvida as indicações de Freud e da psicanálise trouxeram substratos fundamentais à explicação de fatos inerentes às chamadas formações do inconsciente, na medida em que puderam delas abstrair sentido e significado encontrados através da lógica que lhes é própria, ademais comprovada empiricamente e em especial na clínica.

Realmente, não obstante a aparente ruptura do discurso quando da emergência de processos de tipo onírico, pode-se atestar a continuidade do sujeito durante todo o ciclo vigília-sono constituinte da vida humana; exatamente pela presença que mantém em momento de formulação de pensamentos através de imagens, seja quando delas se apodera e utiliza, seja quando é submergido por elas, tornando-se delas cativo em maior ou menor grau. Sonhos, alucinações, ilusões, fantasias, jogos, criações artísticas e científicas, pensamentos, ocorrem como em fluxo nem sempre contínuo quanto à forma, mas em estreita conexão com conteúdos inconscientes e representações de ordem pré-consciente. Revelam consciência em processo tendendo à organização e atribuindo-lhe conotação de atividade cognitiva, na qual importa relevar a relação entre conteúdos conscientes e inconscientes, mais do que determiná-los como essencialmente conscientes ou inconscientes

O tema, priorizando a abordagem sobre sonhos, poderá trazer perplexidade colocado dessa forma, ou seja, por deliberadamente inserir a discussão sobre consciência referida a período de vida ao qual habitualmente está associado o estado de sono. O que se tenta tematizar aqui é a subjetividade, questão que se torna epistemológica, quando se trata de conhecimento e posse de si próprio por parte do sujeito. E o que fundamenta esta proposta poderá estar na frase do poeta, sobre "a realidade de que são feitos nossos sonhos", o que nos traz de volta às experiências comuns de vida tão bem retratadas na literatura, e tão arduamente perseguidas pelo filósofo.

O relato de M. (sexo feminino, 30 anos) surpreendida pelo conteúdo, pela imagem, e pela qualidade emotiva a que o sonho a conduz pode ser tomado como protótipo para aspectos que aqui se desenvolvem:

Três cavaleiros em túnica branca, turbante branco na cabeça, montados em cavalos, aproximam-se lentamente beirando a praia ... as ondas espraiam suavemente sua orla branca na areia cinza compacta e úmida ... uma aragem se desvela dos tecidos esvoaçantes ... possivelmente tostados do sol tem a pele enrugada, o olhar firme, as feições marcadas pelo tempo e pela história ... adiantam-se em diagonal ao canto inferior direito da tela e dirigem seus rostos para a sonhadora entre passiva e atenta, sem fixá-lo no entanto, como se disso não se tratasse ...

Esse o relato, o sonho, tentando manter-se o mais próximo da cena. É necessário acrescentar, "então, tudo toma tom verde musgo, em nuances, em tons transferindo profundidade à imagem da qual se desprende emoção estética intensa. O movimento se dilui subitamente, a cena se fixa, como num quadro, numa peça da memória." O relato varia, se reformula na tentativa da sonhadora de expressar em inteireza o fato vivido com tanta realidade. A sequência igualmente, não obstante obedeça a transmissão que faz a narradora como lhe vem na corrente do discurso e possivelmente captando os elementos tais como a impregnaram durante o sono e ainda a impregnam quando do relato. A palavra, aparentemente precisa, vacila na incerteza da adequação dos termos utilizados.

*

A associação do sonho com o sono merece ser ressaltada, quanto à correlação do estado onírico com o estado de consciência rebaixada característica à sequência de tempo em que o sono se instala. Ao adormecer o sujeito, a consciência esmaece, perde a conotação de presença como orientação corporal e ambiental da vigília; nesse momento, perdem-se também a orientação e o controle para a ação; e não é sem motivo que a metáfora da morte tem-se prestado tão bem a designar esse periodo de tempo.

O fato de os termos "acordado" e "dormindo", marcados por maior ou menor grau de consciência desperta característicamente vigil, estarem respectivamente identificados com vigília e sono, possivelmente acrescente confusão ao tema da consciência. Atualmente, no entanto, a observação de Kubie (1966) pode sem dificuldade continuar a ser confirmada. Ou seja, nunca estamos totalmente acordados, nem totalmente dormindo, numa ou noutra fase: estados diversos de consciência se revelam comuns em momentos diversos durante o sono e a vigília, mantendo correspondência entre si quanto a conteúdo e forma.

Cabe lembrar que as pessoas, enquanto adormecidas, respondem à estimulação ambiental através de ruídos vocais ou frases elaboradas, até mesmo mantendo diálogo com um interlocutor; especialmente quando este menciona fatos de sua vida que revestem com maior grau de emoção; surpreendente também é a resposta à enunciação a seu nome próprio. Condições corporais e físicas vivenciadas durante o sono, ou transtornos e sintomas orgânicos, podem ser figurados em diferentes imagens e símbolos em sonhos. Todas essas manifestações revelam caráter e estilo próprios a cada um.

Por outro lado, é flagrante o fato de que o pensamento de vigília continue durante o sono, o cochilo, o adormecimento, enfim. O período de vida em sono noturno é detectado como um contínuo processar de conteúdos, informações, idéias, que em alguns momentos podem-se constituir sob a forma dos pensamentos comuns à vigília. Tais formulações relacionadas a preocupações, atuações, ampla gama de manifestações, enfim, do período de vida alerta durante o dia transfiguram-se em sonhos de uma mesma noite: dessa forma, ainda que habitualmente não sejam todos recordados ao despertar pela manhã, o material em tramitação na corrente de pensamento nesse momento se revela à consciência em linguagem pré-verbal característica ao processo onírico.

Estas reflexões levam-nos mesmo a outro aspecto paradoxal, ou seja, à questão da responsabilidade do sonhador pelas imagens e pelos conteúdos em sonhos, desde que em estado de suposta inconsciência durante o sonhar. A serem tomados como inconscientes e, por vezes, até sem sentido, se imagens e conteúdos oníricos não revelam a orientação possível à consciência vigil nessas condições, constituem-se como pessoais e integrantes da estrutura subjetiva de base afetivo-cognitiva, portanto, dizem respeito a uma ética própria.

Aprofundamentos dessa questão e de questões correlatas podem estar na base de trabalhos efetuados tendo em vista o discernimento da linguagem inserida no pensamento onírico em sonhos; ademais, substancial contribuição à elaboração da consciência pode advir de discussões concernentes a essa temática em diversas abordagens e dentro da própria psicanálise. As obras de Pin e Echeverria "Límites de la conciencia y del matema" (1983) e de Foulkes "Gramática de los sueños" (1982) constituem tentativas de definir, a primeira, uma lógica ao pensamento do sonho; de atribuir-lhe, a segunda, caráter proposicional. Uma e outra favorecem o levantamento de constatações importantes para a temática das relações inerentes ao continuum consciente-inconsciente na realização humana, prosseguindo, no que refere à linguagem do sonho, o esforço de Freud em caracterizá-la na substância de suas propriedades ao desvelar pulsões e desejos.

Pin e Echeverria (1983) levando em conta a indagação sobre a possível formalização do discurso nos sonhos, aprofundam a discussão sobre a temática do inconsciente especialmente no sentido de verificar a pertinência de uma lógica sem negação, o que deporia contra o domínio estabelecido da consciência.

Foulkes (1982) insiste sobre o aporte cognitivo passível de ser atribuido ao sonho e sobre a necessidade de reinstituir o lugar que Freud dera ao sonho na corrente de pensamento. Adotando a teoria de Chomsky sobre a linguagem, declara que o" enfoque cognitivo-linguístico dos sonhos é compatível com, e realmente recolhe da maneira mais assombrosa, os melhores insights do modelo freudiano da formação dos sonhos e de seu método de interpretação" (p.20). Atribuindo aos sonhos caráter de variedade do pensamento humano complexo (mais do que fenômeno perceptual), como" realização conceitual humana de primeira magnitude", defende que o sonhar precisa ser reconhecido como central para o estudo da mente de forma a trazer contribuições significativas para a psicologia cognitiva, assim como para as ciências cognitivas. Mantendo a convicção de que o enfoque proposto coloca em relevo a" íntima interrelação dos constructos motivacionais", como "núcleo evidente da teoria freudiana dos sonhos", sendo "as representações e operações mentais consideradas como temas centrais da psicologia cognitiva", defende que tanto a teoria dos sonhos seja enriquecida com conceitos atuais da teoria cognitiva, como esta seja ampliada com fenômenos ricos em motivações.

Tendo em vista garantir uma posição epistemológica pertinente e em elaboração de uma teoria cognitivista que leve em conta as capacidades da consciência humana, alguns fatos poderiam atestar a necessidade de dar lugar à operação consciente em processos de representação na linguagem de tipo primário. Em estudo longitudinal, Foulkes (1952) estudou o surgimento e acompanhou o estilo de sonhos em crianças e adolescentes de 03 a 15 anos, indicando que estariam correlacionados com o desenvolvimento da capacidade de representação, mais do que determinados por comportamento de vigília ou por pulsões inconscientes. A possibilidade de atuação cognitiva na formação de sonhos, tendo em vista tratarem-se de processos de representação em condições de consciência rebaixada do sono, faz lembrar a observação de Freud a respeito dos experimentos "promissores" de Silberer (1909) para o estudo da formação de símbolos. Neste caso, o estudo objetivava a observação de imagens de tipo hipnagógico surgindo no sujeito quando solicitado a continuar desenvolvendo pensamentos em condições de relaxamento e em vias de adormecer.

A reunião, a que se refere Foulkes, de dados da teoria psicanalítica e da teoria fenomenológica à qual geralmente se dedica, não se realizaria no entanto simplesmente se se considerarem critérios de ordem lógica e epistemológica.

 

O sonho na corrente de consciência.

Trata-se aqui do sonho em seu sentido estrito, ocorrência comum, supostamente possível a todas as pessoas, e seu consequente relato em vigília. Distingue-se de outras experiências em que se diz ter sonhado apenas porque o relato se refere a fato ocorrido durante o sono. Bastante variado em sua forma (conteúdo, cor, época, tipo de imagem), sua representação de ordem sensorial e especialmente visual, mantém uma trama através de cenas e conteúdos temáticos: objetos, animais, pessoas protagonizam a ação, articulados de maneira às vezes mais, às vezes menos lógica, tomando-se como termo de comparação a lógica ordenada característica ao pensamento de vigília.

A grande maioria estando a ele familiarizada e ocorrendo durante o sono, o sonho mantém uma regularidade no ciclo vigília-sono; esses fatos o colocam como constituinte da condição humana (para não falar também animal, de que não se trata aqui), de tal maneira que pesquisadores se perguntam se "dormimos para poder sonhar", contrariamente à hipótese levantada por Freud na "Interpretação dos sonhos" (1900).

Levando-se em conta o lugar e estatuto que ocupa no campo psíquico, o sonho toma caráter peculiar e específico na corrente de pensamento, assim como frente à existência consciente. Ocupando boa parte da vida humana, revela elementos do sujeito a nível de sua temática pessoal e constituição de ego. Ainda que fosse considerado resultado de conteúdos mentais em reverberação, ressalta o fato de tomar sentido e de promover desenvolvimento em elaborações pessoais e grupais em vigília.

Flagrante ainda é que seu conteúdo e alguns de seus elementos servem como resíduos noturnos para o dia seguinte ou para dias futuros, assim como, segundo a observação freudiana, os resíduos diurnos servem à sua formação durante o sono. Considerando esses dados, podemos falar do processo onírico como favorecendo orientação na corrente de consciência, constituindo-se também como determinante na cadeia de caráter consciente-inconsciente.

Apesar das relações que mantém com outros processos na corrente de consciência, a análise realizada a partir de seu interior provê a possibilidade de verificar relações de elementos nele próprio, de forma a permitir a construção de conceitos concernentes ao seu conteúdo e gênese. As coordenadas de tempo e espaço se distanciam das dimensões físicas atuais do sonhador, apresentando encadeamento em que a temática vivida ou experienciada frequentemente em alto grau de emoção, mais atesta ser determinada pelo afeto que pelo "raciocínio".

Ressalta o aspecto de consciência concreta com que se depara o sonhador enquanto paradoxalmente assiste ao desenrolar de fatos diante de si, ao mesmo tempo em que é envolvido como personagem ativo. O conteúdo, na realidade referindo-se a êle próprio, revela-o simbolica e metaforicamente. A frase "Es träumte mir ..." tão discutida por Medard Boss (1979) em seu livro traduzido por "Na noite passada eu sonhei ...", indica bem a condição a que é assujeitado o sonhador, ou seja, "um sonho me teve ...", "fui sonhado ..." (as reticências são do autor).

Sob o enfoque existencial, Boss ressalta a idéia de que o sonho, como as demais manifestações humanas, constitui uma forma de estar-no-mundo que lhe é própria. Na realidade, direta ou in-diretamente concernente ao sonhador, seu caráter afetivo remete frequentemente ao conflito na sua base, do que nos dá conta especialmente a ocorrência de sonhos de angústia. Quanto aos pesadelos, os aspectos característicos, sua formação, representação, nível de emoção, e correspondente caracterização das imagens, indicam bem a possibilidade de distinção em relação ao sonho.

Para Kramer (1991), por exemplo, o pesadelo ocorre quando o estado emocional alterado do sonhador excede os limites da capacidade integrativa do sonhar; pode-se acrescentar, excede a capacidade integrativa do sonhar do sonhador em questão, e também no momento em questão. O pesadelo parece mais ser índice da impossibilidade por parte da atividade onírica de atingir sua finalidade: ou seja, da impossibilidade de, congregando as capacidades de articulação e de ressignificação no sonhador, possibilitar a integração do conteúdo relativo a si próprio e de ordem especialmente simbólica e metafórica.

O sonho repetitivo remete igualmente à impossibilidade de integração assim considerada, enquanto o sonho típico estaria apontando para condições comuns diante de experiências vitais semelhantes com que nos defrontamos. Coloca-se aqui a tentativa de indicar o processo onírico em suas potencialidades, quando exercendo sua trajetória em duração de tempo em sono: a integração de que se fala neste momento refere a articulação expressa e constitui índice do processo subjacente.

Ainda que a representação onírica configure uma estória em sequência muitas das vezes não desordenada de fatos, a passagem de uma a outra cena, ação ou personagem, parece seguir uma lógica que não pode ser apenas explicada pelas regras reconhecidas como válidas na construção do pensamento de vigília. A percepção por parte do sujeito de vacuidade e distorsão nas imagens de objetos o surpreendem pela diversidade em relação aos objetos que representam. Sua perplexidade se intensifica diante da questão aberta transitando no espaço desse teatro interior.

O contraste entre a consciência de realidade das imagens e a dificuldade de seu relato, que experimentam as pessoas ao tentarem reproduzi-las verbalmente, permite algumas discussões importantes. Por um lado argumenta-se sobre a impossibilidade de atestar a ocorrência de sonhos, por outro, argumenta-se que o relato refere fato diverso daquele sonhado. Realmente, como outras expressões e manifestações da consciência, os sonhos constituem experiências subjetivas não partilháveis e nem mesmo passíveis de comunicação ao outro com exatidão. No entanto, a veracidade de sua existência é atestada pelo sujeito que relata, mas também por relatos e experiência da maioria, o que torna possível o consenso sobre sua constituição como fato material.

Reconhece-se bem que a tentativa de formulação da linguagem, tendo em vista o relato, confronta o sujeito desperto com a impossibilidade de preencher as exigências de representação de conteúdos e imagens oníricas em construções de pensamento de vigília. O preenchimento dessa falta, através de conexões possíveis no momento, é responsável por expressão de articulações típicas aos processos secundários, mas ainda padecendo interferência de processos primários. Dessa forma, o relato do sonho constitui fato de linguagem, com todo caráter que venha a apresentar de ruptura no discurso, sem dúvida, considerá-lo na relação que mantém com a experiência noturna poderá contribuir para entendimento de um e outro.

As várias determinações de ruptura por conteúdos irrompendo no ego, na linguagem, no discurso, afinal, no fluxo de pensamento e de consciência, evidenciam o caráter de não-totalidade e a divisão no sujeito. As representações oníricas no sonho, ao contrário, preservam o caráter de totalidade no espaço alargado e ampliado que lhe é próprio, caracterizando o suspense de tipo narcísico. Evidenciadas as correspondências com conteúdos próprios em estados outros de consciência, no entanto, a continuidade de temática e de estilo sugere e possibilita a integração de maneira a subsidiar a construção no sujeito e a manutenção de sua identidade. Consequentemente, a veracidade do relato se colocará pelo sentido de verdade no sujeito; a realidade, esta, será a realidade do fato psíquico inerente às representações.

 

Consciência no sonho: elementos para a discussão do conceito.

A consciência durante o sonho é "tão consciência de si mesma que recria o mundo à sua imagem." (Hobson citado por Alvarez, 1995, p.100). Nesse sentido, a imagem percebida durante o sono é a tela onde representações estarão sendo reportadas e, dessa forma, o sonhador toma consciência de seus conteúdos, em aparência. Todas as imagens, ações, personagens, representações oníricas, enfim, se referem ao sonhador. Este, enquanto capta o sonho, é captado por ele e seu desenrolar, de tal forma que passa a ser o captado; é a cena que o olha, enquanto é submetido a ela. Na multiplicidade de elementos que o identificam e representam, a multiplicidade de espelhos lhe reenvia imagens de si, de forma que aspectos diversos se revelam, portando possivelmente diversos eus. No jogo que aí se estabelece, explica-se bem a evanescência constituinte do material onírico.

Essa consciência de caráter intrasubjetivo constitui-se experiência única, não passível de ser compartilhada, ainda quando relatada. A operação mental a esse momento, no entanto, tem sentido além do nível puramente subjetivo, pois o sujeito é confrontado com aspectos eles próprios marcados pelo sentido a nível grupal e cultural de símbolos e imagens; da mesma forma os dados constituintes do material onírico estão marcados por sua relação com conteúdos passados e atuais, igualmente se projetando em perspectivas futuras no grupo familiar e cultural. Os símbolos, as metáforas e as imagens constituidos por dados da memória pessoal podem, portanto, ser tomados como material supra-pessoal; a temática sem dúvida de caráter próprio, se encontra expressa especialmente na representação assegurada pela inserção do sujeito na sua história, no grupo e na cultura.

Estabelecido o fato de que o caráter sensorial e concreto de imagens do sonho corresponde a representações e não apenas a signos, resta elaborar como entender a atuação consciente no sonho para além da presença que se coloca à percepção durante o seu desenrolar. Quanto às possibilidades de tomada de consciência durante seu relato e, mais ainda, no trabalho analítico, os fatos oferecem evidência suficiente. Necessário, no entanto, ressaltar que não se trata de tornar consciente o material inconsciente.

Utilizando palavras de Imbasciatti (1991, p.12-3), o processo mental" é sempre inconsciente, não cognoscível a não ser sob a forma de alguma tradução, inclusive aquela operada pela consciência"; e a consciência, esta," não conhece totalmente o sujeito que a porta." Por outro lado, os símbolos, e as imagens são dados à consciência como integrantes de uma rede da qual não conhecemos toda a extensão e articulação; indicam sentido e significação adquiridos no tempo, por vezes reformulados pela própria intervenção do sujeito segundo seus métodos estruturadores a nível afetivo-cognitivo, de maneira que importa menos interpretá-los que deixá-los a suas associações próprias.

Se o sonho, em si, não é para ser comunicado, nem para ser interpretado, resta o fato de que o outro, aquele com o qual se defronta, revela o sujeito e permite sua construção. O Outro no sonho, o Outro na consciência desperta, no grupo social e cultural. Mais ainda, a significação e ação decorrentes reverterão não apenas para o sujeito mas também para o grupo. A tal ponto que à afirmação tantas vezes utilizada de que a sociedade muda, as invenções ocorrem porque sonhamos, poderíamos contrapor a questão de se não deveriam inverter-se os termos, ou seja: sonhamos para que a sociedade possa mudar.

O sonho e os fenômenos por ele desencadeados fornecem subsídios para indicar a consciência em processo. Sistema de relações onde os elementos, tomando papel ora de figura, ora de fundo, indicam conexões outras que as conhecidas ou supostas, trocam de posição continuamente conforme interferências as mais diversas, seja de ordem ambiental, seja de ordem subjetiva. No relato e nas associações se continúa, como ademais em diversificada proporção em sonhos, um processo que o sujeito não tem condição de abranger na sua totalidade, inserido num fluxo que poderíamos associar ao que se chama de corrente de consciência.

Deve-se aqui indicar a representação no que comporta de apresentação conceitual do objeto, correspondendo em realidade a outro objeto ou conceito. Mesmo que o sonho não seja considerado como linguagem além da pré-verbal, a associação da palavra à imagem nos permite apreender sentido nesta última. A palavra, utilizada no relato de sonhos, nos faz bem remontar ao conceito que a imagem concreta e sensível da própria representação refere, ainda que encerre a negação e a falta. Ou seja, apenas por aproximação - por generalizações e diferenciações, atestadas por deslocamentos e substituições na representação, o objeto e o conceito" ocultos" se revelam.

Ao mesmo tempo, a palavra faz remontar a um conjunto de sentidos no próprio sujeito; a imagem e a palavra, mais do que signos, remetem à rede de significantes no sujeito. A polissemia de sentidos de que são portadoras, favorecem muitas possibilidades de articulação de conteúdo, assim como as imagens oníricas. Por isso, importa favorecer a associação no e pelo sujeito, de maneira que se processe a corrente que dará margem à articulação pessoal e construtiva.

Os elementos apontados acima como característicos ao sonho e ao sonhar podem ser indicativos do conceito que se constrói através dos constituintes desses processos. Ressaltam ainda os aspectos de tempo e espaço extrapolando a terceira dimensão. Para além do plano concreto, o sujeito desliza por pontos virtuais de cruzamento de coordenadas na rede de representações imaginárias, vinculadas ao real e ao simbólico.

A condição de "abertura" a esse espaço, ou se se quiser, a capacidade de sonhar está associada à capacidade de colocar-se à distância, deixar-se" abstrair" do espaço físico e psíquico atual, ceder lugar à articulação imagética, de forma a favorecer ao sonhar tomar as rédeas e abrir vias à fantasia: favorecer espaço e abertura às associações em linguagem pré-verbal. As relações temporo-espaciais inseridas no intrincado da cena permitem o surgimento do conteúdo e a recuperação da história/estória através de dados de memória, da mais recente até a mais remota.

As relações de significado, assim como as potenciais ações futuras são reveladas pelo movimento temporal (ritmo) no interior do espaço psíquico no sujeito. Movimento e diversidade de relações entre os objetos, as personagens, ou outros elementos, em ação ou passividade, indicam diferentes perspectivas atribuídas aos mesmos, o sujeito sendo então colocado em posições variadas em momentos sucessivos. Ao mesmo tempo permanece a qualidade de instantaneidade da cena e a categoria de um tempo abstrato, presente mas eterno.

Aí ressalta o conceito tanto de espaço como de tempo em terceira e em" quarta dimensão": a abstração do plano concreto coloca o sujeito em pontos virtuais de cruzamento de coordenadas na rede de representações imaginárias, mas também vinculados ao real e ao simbólico, desde que marcados por sua história. Dessa forma, o sonho veicula para além da tridimensionabilidade um caráter abstrato, aberto às realizações futuras, o que relativiza a verdade do momento atual e opera no sentido da elaboração criativa em vida de vigília, na realização artística e científica, assim como na evolução pessoal.

Uma abordagem levando em conta aspectos criativos como foco, terá que lidar, por um lado, com o fato da criação e a capacidade de criar que revelam a possibilidade de novas articulações para além da repetição no ser humano; e, por outro lado, terá que considerar questões relativas à constituição do sujeito dada especialmente por sua estória e por seu desenvolvimento: sem dúvida traspassadas não somente pelo conflito emergencial, mas pelo conflito latente, pela angústia e pela ansiedade, assim como pelas estruturas adquiridas para manutenção da individualidade e da subjetividade.

Postula-se que a qualidade do sono assim como o despertar descansado após sono diurno ou noturno possam estar correlacionados à capacidade de sonhar. Proporcionando integração a nível psíquico e corporal, esta última possibilitaria desenvolvimento saudável, a nível pessoal e social. No extremo oposto, incapacidade de aceitar a frustação e sobrepor-se a condições conflituosas e ansiógenas poderia determinar a insônia: impossibilidade de distanciar-se do fato concreto pelo medo de sonhar que poderia suceder a esse abandono de si próprio ao sono e ao incurso da fantasia.

O espaço do sonho se revela "área interior de jogo" (Winnicott citado por Racamier, 1976, p.189), onde se estabelece a "liberdade" de sonhar, "advinda da liberdade de o sujeito representar tanto os objetos como a si mesmo." Realizações de caráter criativo trazem confirmação a respeito das potencialidades inerentes ao processo onírico, desde que se podem citar produções musicais, poéticas, inspiração para a criação tendo por gênese material onírico. Articulações típicas à operação consciente estariam em jogo, incluindo especialmente o encontro de novos dados ou de novas soluções. Observações em pesquisa, fatos anedóticos e a prática clínica tem indicado elaboração onírica como substancialmente criativa, ainda que se admita que a produção final venha a ocorrer em momento posterior de vigília: a sonata de Tartini, a fórmula do benzeno, são exemplos bem conhecidos. O trabalho com sonhos em sessões terapêuticas favorece o desenvolvimento da temática de ordem ansiógena a par de encontro de soluções, "insights", orientação para novos projetos, seja a nível de composições artísticas, seja a nível de personalidade. No espaço alargado e ampliado do sonho, portanto, o encontro com a realidade metafísica inserida na questão ser-e-não ser subjazendo à polaridade vida-e-morte, se delineia no suceder de associações, nas substituições e transformações, nos "insights" posteriores.

A consciência alargada, ampliada, correlata a esse espaço, seria responsável pelos chamados estados de consciência alterada correspondentes a experiências de caráter parapsicológico? Sonhos lúcidos, em que o sonhador tem oportunidade de dirigir a sequência, e sonhos de premonição, muito cuidadosamente comprovados, estariam nessa categoria. Bem mais próxima fica a explicação de previsões em sonhos; articulações entre percepções em vigília podem evidenciar-se em momentos de retirada da atenção dirigida: devido a associações possíveis são reconhecidas em pensamento onírico durante o sono. Afinal, os sonhos em grande parte podem carregar essa tonalidade: articulação de fatos que se tornam conhecidos dada a possibilidade de focalização da atenção durante o sono em aspectos subliminares à consciência de vigília.

A tomar por base o caráter potencialmente criativo do sonho continuando-se pela vida desperta, poderíamos supor o exercício de suas funções durante o próprio sono, assim como se evidenciam outros processos atuantes na corrente de consciência de vigília: o sonho, o seu relato, as imagens e os "insights" escapam à apreensão num fluxo de que, como dissemos acima, não se tem controle total; no entanto, apresentam-se através de substituições e transformações em construções outras, em materiais outros, e em produções de pensamentos, elaborações, criações científicas e artísticas. Além disso, o despertar descansado após a noite de sono pode ser correlacionado a uma noite bem dormida "com a cabeça em sonhos".

Kahn (1972) diferencia os processos do sonho que articulam os conflitos do espaço em que o sonho os atualiza. O espaço do sonho seria uma conquista na evolução pessoal, "o equivalente psíquico interno do que Winnicott conceituou ao invocar o espaço transicional, que a criança institui para descobrir-se a si própria, assim como a realidade exterior." (Rallo Romero, Ruiz de Bascones & Zamora de Pellicer, 1974, p.895). Para estes últimos, o espaço de sonho tem início em periodo muito precoce da vida, no qual as capacidades do ego são adquiridas em processo seletivo de identificação e especialmente subsidiado pelos pais. Em condições de análise e psicoterapia, o surgimento de sonhos indica a capacidade de sonhar e a configuração do espaço de sonho ao qual corresponde o espaço psíquico, em que o paciente tem condições de construir-se e reconhecer-se como sujeito.

Racamier (1976) argumenta que a falta do espaço do sonho pode indicar a impossibilidade de exercício lúdico com as representações e a incapacidade de sonhar; a exemplo do que ocorre no "acting out", pode levar ao "dreaming out", ao transonhar que constitui o fenômeno psicótico (alucinatório e delirante): este seria o substituto extraviado do sonho que não se pode sonhar. Dessa forma, fica delineada a semelhança, assim como a oposição do ponto de vista clínico e estrutural entre o processo do sonho e o da psicose. Seguindo essa linha de pensamento, os esquizofrênicos seriam "sonhos incarnados de seu objeto, e vivem da existência insistente e entretanto aleatória de que vivem os sonhos" (p.192).

Neste último caso, a tela do sonho não teria condições de conter o material de tipo onírico. O conceito de tela do sonho deve ser aqui entendido como o" quadro" em que se inserem imagens e representações constituintes da cena. Nesse sentido as imagens e representações seriam conteúdos projetados na tela cuja presença o "sonho com a tela branca" atesta. Isakower (1938) associou as imagens hipnagógicas arredondadas e brancas que pacientes seus percebiam aproximar-se de si durante o sono, como forma diferenciada de tela branca, às experiências da criança no seio materno. Lewin (citado por Bergeret, 1974) indica, com base nesses dados, que a tela do sono se constitui de afetos e a ela corresponderia o seio materno; dessa maneira, o adormecer estaria correlacionado à satisfação oral. Racamier (1976), numa abordagem de nível fenomenológico, considera a tela como membrana fluida no limite entre mundo pulsional e mundo externo, em que consistiria o ego e que em sua permeabilidade permaneceria como revestimento ao mesmo tempo acolhedor e reverberante.

A fonte da tela, no entanto, seria de ordem bastante arcaica para Bergeret (1974). O autor prefere trabalhar com a "hipótese de mitos originais e pré-edipianos", assegurando "as bases da organização fantasmática ulterior" (p.975). Levando em conta o espaço do sonho que se abre em ampla dimensão através das conexões possibilitadas pela palavra e pelo símbolo, assim como a dimensão de sua subsistência em fontes tão arcaicas, pode-se levantar os múltiplos pontos de encontro nas coordenadas da história passada e atual em sua projeção para o futuro a cada momento específico, ao mesmo tempo oferecendo-se à operação cognitiva no homem.

No que se refere ao tema aqui tratado, perguntaríamos: se há determinação na elaboração do sonho, de que ordem e até onde o seu limite? Uma questão se coloca a respeito da atuação consciente, também no sentido de discriminação, controle, orientação. Sem dúvida informada, teríamos que considerar, inconscientemente. O ponto temático a ser colocado em relevo torna-se, então, muito mais o da relação consciente-inconsciente e não a preponderância ou a exclusividade do consciente ou do inconsciente na explicação dos processos a nível psíquico.

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Em síntese, os aspectos apontados acima indicam a operação da consciência no sono e no sonho, assim como referem características básicas da qualidade da consciência no processo onírico. As considerações se encaminham no sentido de múltipla operação da consciência. Ressalta o fato de podermos considerá-la como processo em que a flutuação decorre da alternância de operação e conteúdos caracteristicamente conscientes com operação e conteúdos caracteristicamente inconscientes, tanto em periodos de vida de vigília como de sono. Nessa corrente, periodos de tempo são tomados por processos oníricos que se estabelecem como possibilidade de formulação e elaboração, estando o sujeito em estado de inconsciência do sono, mas paradoxalmente confrontado com a consciência" desperta" inerente ao sonho; assim como, por outro lado, periodos de tempo são tomados por processos de tipo onírico colocados à consciência em vigília. A consideração de conteúdos inclusive em sua tonalidade afetiva, a diversidade na caracterização de seus elementos durante o processo onírico e, ainda, as representações cambiantes em estados diversos da vigília e do sono, advogam por uma operação multiplicada da consciência indicando características do sujeito, seu estilo e personalidade. Questões próprias à conceituação da consciência humana se tornam questões também próprias ao estudo e à caracterização do processo onírico, especialmente no que diz respeito ao sonho que é do que se trata neste ensaio.

 

 

LEITE, T.M. Oniric Consciousness State. Psicologia USP, São Paulo, v.8, n.2, p.287-304, 1997.

Abstract: In this paper I discuss oneiric processes in consciousness continuous stream having the sleep-wake cycle as reference and the relationship consciousness-unconsciousness as focus. Dreaming seems to be a suitable event for this type of analysis, since it may contribute to the understanding of consciousness. Consciousness in oneiric process and specially in dreaming, is considered as emerging from cultural and social elements in subjective construction. Dream role and meaning are considered from both personal and collective points of view in what the dream mantains relation to thinking and language, to personality and group development. In spite of the highly sensory and concrete characteristic of the oneiric process, it reveals and favors an articulated chain of meaningful personal history data. In dreams, time and space are abstract dimensions related to factual reality, pointing to the necessity of taking into account questions about the widening of consciousness, the role of dreaming in the psychic process as well as in human existence. As it occurs with other phenomena, one must keep in mind that these reflexions derive from references, observations about occidental adults.
Index terms: Consciouness. Unconsciouness. Sleep wake cycle. Dreaming. Creativity.

 

 

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