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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol. 9 n. 1 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641998000100006 

A afirmação da Psicologia na Universidade e na sociedade

 

 

Em sua atuação inicial como Professora Assistente, Carolina lecionava Psicologia para vários outros cursos, já que o curso de Psicologia ainda não tinha sido implantado. Em 1952 defendeu sua dissertação de mestrado, sob orientação da Dra. Tamara Dembo, na New School for Social Research em Nova Iorque. Em 1954 defendeu, na Universidade de São Paulo, sua tese de doutorado, sob orientação da Dra. Annita de Castilho e Marcondes Cabral, titular da cadeira de Psicologia, responsável por disciplinas de psicologia no curso de Filosofia. Durante alguns anos colaborou como pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Por ocasião da criação do curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em 1958, criação esta proposta pela Dra. Annita Cabral, Carolina estava envolvida principalmente com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, onde seria contratada como Professora Titular de Psicologia em 1959. A essa ocasião remontam alguns dos laços mais antigos com colegas e alunos (alguns dos quais posteriormente a acompanharam a Brasília, depois a São Paulo, quer na qualidade de orientandos, quer de colegas ou futuros professores universitários): Nilce Mejias, Herma Drachemberg, Luís de Oliveira, Isaías Pessotti e outros. Trabalhava também junto à Cadeira de Psicologia Educacional dando aulas de Psicologia Social para alunos de Pedagogia e, enquanto nesta cadeira, posteriormente veio a ministrar aulas de Psicologia da Personalidade para alunos do curso de Psicologia.

Se não esteve à frente do processo de criação do curso de Psicologia na USP, Carolina o fez em Brasília e, posteriormente, na Universidade Federal de São Carlos. Mas a história da Universidade de Brasília, a universidade sonhada como centro de excelência de ensino e pesquisa por Darcy Ribeiro, tem que ser destacada em um item à parte, já que está intrinsecamente ligada a um aspecto fundamental da atuação de Carolina: a implantação e crescimento da Análise Experimental do Comportamento no Brasil.

Nesses primeiros anos da década de 60 Carolina teve um papel vital para a consolidação da Psicologia no país como ciência e como profissão. Foi sua atuação, inicialmente à frente da Associação Brasileira de Psicologia, e depois à frente da Sociedade de Psicologia de São Paulo, que garantiu a regulamentação da profissão de psicólogo no país e o decreto-lei que determina o currículo mínimo para a formação em Psicologia. No final dessa década, durante a tumultuada reforma universitária desencadeada a partir de 1968, participou ativamente da transformação da antiga Cadeira de Psicologia no pioneiro Departamento de Psicologia Social e Experimental. O primeiro aspecto é relatado por Maria Amelia Matos. O segundo, por Walter Hugo Cunha, César Ades e por alguns dos alunos que participaram do movimento pela democratização da Universidade em 1968. Mas, sobre este último evento, gostaríamos de dizer ainda alguma coisa.

Até a reforma universitária, a estrutura da universidade tinha uma característica autocrática, tutorial: o catedrático detinha a autoridade e seus assistentes ocupavam cargos de confiança, sem estabilidade nem direito a participar de decisões. Estas eram tomadas pelos órgãos colegiados (congregações), aos quais apenas os catedráticos tinham acesso. Tanto as atribuições como as opções de carreira dos assistentes eram fortemente determinados pelos catedráticos e pelo jogo de forças políticas entre eles. Foi em decorrência de um momento particular desse jogo que, em 1969, Carolina Bori optou por retirar sua inscrição à Livre-Docência, ameaçada de ser frustrada por conflitos de poder dentro da Universidade. Altiva - e altivez é outro dos adjetivos que mais de um dos depoentes utiliza para descrevê-la - decidiu encerrar aí sua carreira de titulação: esse não era o tipo de militância que caracterizava a personalidade de Carolina. Talvez por isso mesmo, aplicou sua militância em outras direções: lutou pela transformação no ensino da Psicologia e pela formação científica do psicólogo; abriu, a faca, espaço para atividades de laboratório já a nível do ensino de graduação em Psicologia. Criou o primeiro, e talvez o único, projeto para o planejamento e construção de equipamento nacionais para uso em laboratórios didáticos em Psicologia. Consolidou o ensino da Psicologia Experimental em nossas escolas e, com isso, garantiu definitivamente um espaço considerável para a pesquisa em Psicologia no Brasil.

Obtida a transição, passa a existir o Departamento de Psicologia Social e Experimental, o primeiro a ser criado, e "que ninguém sabia se seria reconhecido, pois fora criado à revelia do catedrático."1 Carolina assumiu sua chefia até o final de 1969, quando a reforma universitária criou o Instituto de Psicologia e desdobrou o antigo departamento nos atuais Departamento de Psicologia Experimental e Departamento de Psicologia Social e do Trabalho. A exigência de titularidade para a chefia de departamentos autônomos deslocou Carolina da atuação administrativa a nível de Departamento para outros setores do Instituto, especialmente, e felizmente, para a pós-graduação.

É nesse mesmo contexto que se dá a criação do regime novo de pós-graduação, no qual Carolina também teve um papel de destaque. Até então, existia o doutorado em regime tutorial, sob controle praticamente exclusivo do catedrático orientador, além de cursos de especialização existentes por lei estadual. Na expectativa da reforma universitária, a Professora Annita Cabral, então chefe da Cadeira de Psicologia, criou um mestrado na Psicologia, como forma de transição entre o curso de especialização e o novo regime.

Foi uma iniciativa muito feliz de Da. Annita. O que havia antes encaminhava muito para o profissionalizante, foi no momento certo que ela começou a desenvolver um programa com disciplinas ... Na Psicologia Educacional também realizaram uma tentativa, mas não com o mesmo rigor com que ela o fez. Isso nos deu experiência para o que viria depois, a pós-graduação de acordo com as regras da universidade ... 2

Foi Carolina, juntamente com alguns outros docentes já vinculados ao Departamento a essa altura - Walter Cunha, Maria Amelia Matos, Dora Ventura, Margarida Windholz, Arno Engelmann, César Ades, Rachel Kerbauy e Mário Guidi - quem liderou a implantação do novo regime. A esse respeito, ela comenta:

(Foi uma alteração) muito grande ... de uma situação que era uma experiência para uma situação que tinha que dar certo porque tinha regras ... Eu acho que a Universidade teve muita sorte por ter como coordenador o Dr. Paschoal Américo Senise, porque uma das regras que era subentendida é que a Universidade instalara a pós-graduação sem regras fixas gerais, as áreas é que iriam estabelecer o que seria importante ... Ele ficou mais de 10 anos como coordenador geral da pós-graduação na USP, e tudo ele conversava com os coordenadores de área. A primeira regra era essa: não há regra geral, os regulamentos específicos devem rechear as regras gerais... E a outra é a que se seguia em todos os cursos: se o aluno é bom, que vá. Isso ampliou a liberdade das coordenações.3

Indicada como coordenadora da pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP, Carolina lutou para que a regulamentação do curso enfatizasse a pesquisa através da valorização diferencial de créditos em disciplinas teóricas e de disciplinas com trabalho de laboratório e/ou de campo.

Eu achei que isso foi um ganho ... Hoje se vê muita pesquisa, naquela época não tinha ... E também se colocou a monitoria ... nem hoje se consegue fazer essa união de ensino e pesquisa ... Os cursos de graduação eram muito animados com os monitores ... Nós conseguimos o (reconhecimento do) mestrado, o reconhecimento como centro de excelência, logo no começo ... Isso ajudou muito a criar um clima ... A pós-graduação exigiu muito dos professores, mas o lado gostoso é que ela apareceu numa época difícil, a universidade mutilada, ver alguma coisa aparecendo ... Eu tenho a impressão de que a gente se agarrou a ela por esse lado ... Discutíamos constantemente, todo mundo estava correndo com seus doutorados (regime antigo, de transição), trabalhando ... Como uma colméia ... Fazia-se reunião de departamento constantemente, mesmo depois, quando passamos a ter chefes de departamento impostos.4

Carolina Bori coordenou a pós-graduação do departamento durante quase 15 anos. É controvertido se isso representou uma concentração de autoridade, ou a expressão do fato de que ela era, naquele momento, a alternativa mais eficiente para a consolidação do programa e sua interação com a universidade e com as agências de fomento. Foi durante suas gestões que se implantou a prática da avaliação CAPES, e foi certamente seu trabalho, a nível do departamento, no sentido de se reformular a apresentação e a definição do programa que contribuiu para as primeiras descrições adequadas de áreas e linhas de pesquisa, resultando em avaliações predominantemente positivas ao longo da última década.5

 

Figura 1: Posse da IV Diretoria da Sociedade de Psicologia de São Paulo, 1948. Da esquerda para a direita, em pé: Osvaldo de Barros Santos, Roberto Mange e Carolina Martuscelli (os três últimos não foram identificados). Sentados: Virginia Leone Bicudo, militar não identificado, Annita de Castilho e Marcondes Cabral, Mario Yahn (foto cedida por Zelia Ramozzi Chiarottino).

 

 

 

1 Excerto de entrevista com a Professora Carolina M. Bori, concedida a Ana M. A. Carvalho em 1994.

2 Excerto de entrevista com a Professora Carolina M. Bori, concedida a Ana M. A. Carvalho em 1994.

3 Excerto de entrevista com a Professora Carolina M. Bori, concedida a Ana M. A. Carvalho em 1994.

4 Idem.

5 Cf. Manual do Curso de Pós-Graduação - área de concentração Psicologia Experimental, 1985.

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