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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564versão On-line ISSN 1678-5177

Psicol. USP v. 9 n. 1 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641998000100053 

MINHA CHEFE, DONA CAROLINA

 

Isaias Pessotti
Faculdade de Medicina - USP, Ribeirão Preto

 

 

Ela jamais aceitou que a chamasse de "minha chefe". Isso começou em Rio Claro, quando ela me contratou para seu departamento, em 1960. Depois, foi de novo minha chefe, quando me contratou à revelia, enquanto eu estava em Milão, desempregado e com medo dos militares, para o departamento na Universidade de Brasília. E até hoje, bem depois que a ditadura dispersou o grupo de Brasília, e que nossas carreiras e instituições de trabalho se separaram, ainda a chamo de "minha chefe". Recentemente, os muitos compromissos tornaram raros e breves os nossos encontros. Mas não parei de chamá-la "minha chefe".

Por que chamá-la assim? Para manter uma relação de respeito, nada mais que isso. Embora, nos últimos anos, isso tenha virado também uma provocação, amistosa. Mas ali está o nó da questão: virou provocação, porque ela rejeita o papel, ou pelo menos o tratamento de chefe. Porque sabe que o respeito está assegurado, independentemente de qualquer formalidade, porque sabe que lhe reconheci sempre a autoridade. Não a que vem dos cargos, do poder. A que vem da conduta respeitável. É, respeitável, porque digna, leal, competente. E isto é, até prova em contrário, o que conquista o respeito genuíno dos outros, subordinados ou não.

Também a chamo "minha chefe" por outra qualidade rara, raríssima nestes tempos em que a universidade perdeu a bússola. Ela sempre me impressionou por sua lealdade institucional. Explico: os interesses institucionais do" seu" departamento, ou instituto ou faculdade, são assumidos quase como interesses pessoais. Essa identificação com as instituições em que trabalha são, talvez, a marca profissional mais nítida de sua trajetória na Psicologia brasileira. Quem já trabalhou com ela sabe: ela "briga" pelos projetos de seu departamento ou instituto. Nisso, é uma chefe. É a pessoa que responde pelo que administra, pelo que dirige ou coordena. E nesse responder se reconhece a lealdade institucional e a dedicação à própria equipe e seus projetos.

Eu presenciei inúmeras ocasiões em que essa dedicação se mostrou. Ela implica, é claro, competência de liderar, mas implica também lealdade, coerência e, muitas vezes, coragem. Um exemplo: a decisão de montar um Departamento de Psicologia modelar em Brasília, em plena ditadura, sabendo que, se não ousasse então, talvez nunca mais se poderia fazê-lo. A organização desse departamento na Universidade de Brasília foi uma demonstração cabal de competência e ética: de autêntica chefia, como a defini acima. Mais ainda, quando foi preciso defender a obra começada, e o nosso ideal de Universidade e liberdade de pensamento, durante o cerco militar e a desativação da UnB.

Então eu a vi, nas comissões e colegiados, assumir por inteiro o seu papel de chefe. E, numa contraprova de tudo isso, quando a vi esconder algumas lágrimas, no momento em que nosso sonho realmente acabou: quando era preciso administrar a derrota amarga ante a prepotência do poder e a subserviência de quem deveria estar na primeira linha de defesa numa Universidade.

Ademais, ela tem sido até hoje a chefe da nossa Psicologia, em quase todas as muitas instituições de que fez e faz parte. Continua, por isso, a ser a" minha chefe". Mesmo não gostando (ela sabe que é provocação).

Quanto a "dona Carolina", que também uso até hoje, a história é mais remota. Começou em 52, quando fui aluno dela, na Maria Antônia. Ninguém, naquele tempo, ousava chamar um professor de "você". Era intimidade demais, falta de respeito. Hierarquia era coisa séria. e como ela ainda não era doutora, ficou "professora Carolina" ou "dona Carolina". Até hoje.

Quando a pós-graduação trouxe para a Universidade de São Paulo estudantes de outras plagas, onde a hierarquia é mais fluída, talvez porque os níveis de competência são, ali, menos desiguais, era comum que, na USP, qualquer principiante a chamasse de "você". Eu, ainda não. Ela é a dona Carolina. Não doutora Carolina (se a chamasse de doutora, começaria a rir, achando que é ironia; depois de tantas lutas juntos, ia parecer ofensa).

O motivo é o seguinte. Em 1952, ela foi minha professora na Maria Antônia. Ensinou Psicofísica, era gestaltista e lewiniana. E assim comecei eu: gestaltista e, sobretudo, para assegurar algum treino prático, tive que fazer diversos experimentos de Psicofísica; depois outros, sobre solução de problemas. Tudo com prazos estreitos. Assim trabalhava a Dona Carolina, muito séria, quase temida. Era exigente, muito. Exemplo: para um dos experimentos de Psicofísica os alunos foram divididos em duplas. Cada uma devia fazer dois experimentos (um cada aluno) que confrontassem dois métodos da Psicofísica clássica. O sobrenome da minha parceira é o nome do maior rio brasileiro. O nome é o da rainha mãe da Inglaterra. Jamais esqueci o nome dela. Isto se explica: eu fiz a minha parte, coleta de dados, tabelas, discussão, relatório muito caprichado, entregue dentro do prazo. Dona Carolina olhou para o trabalho, achou bom, perguntou sobre a outra metade, sobre o outro método psicofísico. "Minha parceira não fez a parte dela". "Isso não é o trabalho pedido, é meio trabalho. Eu quero o trabalho inteiro". "Mas eu não tenho mais tempo, Dona Carolina. O prazo acaba hoje. A culpa não é minha". "Então lhe dou o prazo adicional. Espero até amanhã à tarde".

Corri para casa, catei alguns vizinhos, apliquei as escalas, rascunhei as tabelas, na manhã seguinte escrevi a discussão e passei tudo a limpo, já depois do almoço. No meio da tarde levei à Maria Antônia. Missão cumprida.

Na correção, ela foi minuciosa, como sempre. A lápis, marcou tudo que era supérfluo, algumas imprecisões de termos. O comentário final, escrito, apontava as qualidades do trabalho, elogiando a discussão. Visto, além disso, todo meu heroísmo para completar o trabalho, poderia esperar, no mínimo um nove ou nove e meio. A nota que me deu foi quatro, com uma anotação: "Trabalho entregue fora do prazo".  

Foi uma lição dura, mas fecunda. Aprendi a cumprir prazos. Moldou minha visão do que deveria ser o trabalho universitário: um compromisso: A lição foi: compromisso se cumpre. Compromisso com quem? Com a instituição, com a Universidade. Era um estilo muito distante do paternalismo acadêmico deletério dos anos setenta e oitenta. Professor formava, além de informar. Como não chamá-la Dona Carolina, depois disso? Por que não chamá-la assim ainda hoje?

Com essa lição inicial, de 1952, e muitas outras que me deu nos anos seguintes, aprendi algo muito importante. Aprendi que a permissividade acadêmica gera o descompromisso, a auto indulgência. Que hoje está custando à sociedade e à academia preços altíssimos. Faltaram, nas duas últimas décadas, algumas, muitas "Dona Carolina".

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