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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol. 9 n. 1 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641998000100054 

A CONFIANÇA DE DONA CAROLINA

 

Wilma Santoro Patitucci
Universidade de Guarulhos

 

 

Desde Março, quando fui convidada para participar desta homenagem à Professora Carolina, me vejo com esse pedido "atravessado na garganta". Pediram-me um depoimento técnico sobre a atuação da Professora Carolina em programação de ensino individualizado.

Desejava ardentemente colaborar nessa homenagem à Professora Carolina por quem tenho o maior carinho e apreço e a quem devo o maior respeito e gratidão por tudo que representou na minha formação pessoal e profissional. Dona Carolina sempre despertou minha admiração pela tenacidade, competência e desprendimento com que sempre se dedicou à ciência, ao treinamento de professores, à formação de pesquisadores, especialmente em Psicologia. Contudo, apesar do desejo de colaborar não via como fazê-lo pois estou afastada da área há muito tempo.

Eis porque optei por um depoimento pessoal.

Revendo todos os anos em que convivi mais de perto com Dona Carolina, como sua aluna, monitora e orientanda, várias coisas imediatamente me acodem à memória. Uma das mais fortes é o comprometimento irrestrito de Dona Carolina com os problemas político-sociais de nosso país, principalmente aqueles que afetam a pesquisa científica e o ensino de ciências.

Outra característica que sempre me impressionou muito é a enorme capacidade de trabalho e de auto-reciclagem de Dona Carolina. Dotada de uma enorme disposição e energia física, é capaz de trabalhar horas a fio, organizando pastas e arquivos, montando equipamento, participando ou dirigindo reuniões, trabalhando no laboratório, discutindo as pesquisas de seus alunos, corrigindo minuciosamente os rascunhos de teses e dissertações... E não apenas sua capacidade de trabalho físico, mas principalmente intelectual. Lembro-me que sempre que ia discutir com ela um artigo que acabara de descobrir e que poderia ser relevante para meu trabalho, ela já o lera! Sempre que levantava o nome de um autor cujas idéias, mencionadas por alguém, poderiam úteis para o problema em questão, ela era capaz de recomendar e/ou emprestar obras dele.

A esse respeito jamais esquecerei seu discurso por ocasião da cerimônia de outorga do titulo de Professor Emérito pela Universidade de São Paulo, após sua aposentadoria compulsória por idade. Indaga ela em dado momento:

Mas que país é este que se dá ao luxo de dispensar, continuando a pagar por, os serviços de um profissional que teria muito ainda a contribuir para a Universidade e para o país?

Dona Carolina jamais foi de criticar alguém; quando não concorda, se cala, mas quando concorda se joga inteira na tarefa. É uma dessas raras pessoas que primam pela coerência entre o "pregar" e o "fazer". Talvez tenha sido essa coerência que a tenha levado a criar e a aplicar, com alguns colegas de profissão, uma técnica de ensino que fosse, mais do que as disponíveis até então, coerente com a metodologia e os princípios da Análise Experimental do Comportamento.

Mas o que mais fortemente permeia minhas lembranças de Dona Carolina durante aqueles anos todos é o extremo respeito que sempre demonstrou para com seus alunos, e a extrema confiança que sempre neles depositou. Quantas vezes eu me via perdida, incapaz de realizar uma tarefa, de encontrar uma solução ... e ela, tranqüila, sossegada, me assegurando que eu chegaria lá. Jamais deu uma resposta ou mostrou um caminho para alguém, pelo menos não para mim. Mas sempre deu todas as condições para que achássemos a resposta, para que encontrássemos as soluções e os caminhos corretos.

Talvez daí se origine o sentimento de sua confiança. Ela sabia, profissional da Análise Comportamental que é, analisar nossos repertórios e nossas necessidades, e sabia identificar as condições que facilitariam a ocorrência das respostas necessárias. Sua dedicação, sua capacidade de trabalho, sua competência acadêmica cuidavam para que essas condições fossem dispostas. Sua confiança em todos nós era fruto de sua confiança na tecnologia que ajudara a criar, a programação de ensino, e nos princípios e leis em que esta se baseava, os da Análise Comportamental.