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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.10 n.1 São Paulo  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641999000100007 

CAMINHOS DA INTERSUBJETIVIDADE: FERENCZI, BION, MATTE-BLANCO

 

Ignácio Gerber
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

 

 

A Intersubjetividade é inerente à concepção freudiana de Psicanálise, mas foi Ferenczi, seu discípulo mais próximo, o pioneiro na investigação das emoções que tomam o analista na presença do analisando. Esse artigo retoma aspectos dessa investigação das próprias emoções em Ferenczi, Bion e Matte-Blanco, discutindo as relações entre a lógica racional consciente e essa outra lógica emocional e contraditória do Inconsciente.
Descritores: Subjetividade. Inconsciente. Linguagem. Psicanálise. Ferenczi, Sándor, 1873-1933. Bion, Wilfred Ruprecht, 1897-1979.

 

 

Introdução

E xiste hoje um quase consenso acerca do pioneirismo de Ferenczi na longa história psicanalítica da intersubjetividade. Perguntamos, então, como foi possível que suas idéias fecundas tenham sido literalmente reprimidas ou negadas pelo "establishment" psicanalítico?

Ferenczi foi vítima, em nível institucional, dos mesmos mecanismos de defesa que ajudou a investigar em nível pessoal. Poderíamos descrever esse ataque às suas idéias e à sua sanidade mental através de uma seqüência de movimentos:

l Primeiro movimento – seus pares não estavam preparados para compreendê-lo.

l Segundo movimento – Teme-se o que não se compreende; ele passou a ser temido.

l Terceiro movimento – Reprime-se o que se teme; ele foi então reprimido.

l Quarto movimento – Ao reprimi-lo tentaram esquecê-lo, mas o reprimido retorna sempre.

Assim, a Psicanálise, na história vivida de suas relações pessoais e institucionais, confirmava seus próprios pressupostos teóricos.

A incompreensão culminou com a insidiosa alegação de Jones, na sua clássica biografia de Freud, de que Ferenczi não estaria em seu "perfeito juízo" quando escreveu seus textos finais. Uma tentativa póstuma de descartar suas idéias inovadoras. Surpreendentemente para nós, hoje, a comunidade psicanalítica de então aceitou essa versão sem maiores reações. Balint, uma honrosa exceção, luta por décadas para conseguir a publicação do Diário Clínico, obra essencial que só veio à luz meio século mais tarde.

Perguntamo-nos, então: o que havia de tão disruptivamente novo nas idéias de Ferenczi para justificar tamanha resistência?

Lembremos que em 1897 Freud dá uma guinada fundamental em sua obra – Minha Neurótica me Engana- abandonando a ênfase no trauma real pelo trauma imaginário. Com isso, embora sem desconhecer em nenhum momento as relações inter-subjetivas, Freud dá ênfase aos processos intra-psíquicos, o que vai resultar na teoria estrutural de 1923 com Id, Ego e Superego. Quando Ferenczi retoma a teoria do trauma, embora sem desconhecer em nenhum momento as fantasias intra-psíquicas, ele dá ênfase às relações intersubjetivas.

Tudo isso se dá num momento histórico quando, na Europa, predominava a ilusão iluminista do reinado da razão, do observador imparcial, embora os desenvolvimentos da matemática dos espaços virtuais e da física quântica já colocassem francamente em questão essa neutralidade olímpica: o observador passava a integrar-se no fenômeno observado.

A utilização da contratransferência como instrumento de compreensão psicanalítica, que Ferenczi prenuncia com suas experiências de análise mútua e técnica ativa, surpreende uma comunidade psicanalítica ainda não disposta a abrir mão de sua pretensa neutralidade científica. A mesma resistência vai se contrapor a Melanie Klein, sua analisanda, quando ela privilegia a intersubjetividade através das relações de objeto primárias.

Insistimos no fato de que as diferenças teóricas, clínicas e pessoais entre Freud e Ferenczi se referiam tão somente a questões de ênfase, mas, no calor das disputas político-institucionais, suas posições comuns foram sentidas como potencialmente opostas. E, no entanto, já nessa época, o físico Niels Bohr postulava que "contraria sunt complementa".

Imaginemos, então, um resumo esquemático (certamente reducionista) dessas posições intercambiáveis:

 

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No seu texto The Analytic Third, Ogden (1995) rastreia detalhadamente a literatura psicanalítica da intersubjetividade.

Reordenando cronologicamente os textos por ele citados, constatamos que após o artigo pioneiro de Ferenczi, em 1921, as citações seguintes (25 anos depois) abrangem o período de 46 a 53 com Melanie Klein, Winnicott, Paula Heiman, Bion, Lacan e muitos outros, e retoma nova força a partir da década de 70 até a atualidade.

Em conclusão, se percorrermos a vasta bacia hidrográfica da intersubjetividade psicanalítica, navegando a partir dos afluentes em direção aos rios principais, e ao longo desses até suas nascentes, lá certamente re-encontraremos Ferenczi.

 

De Ferenczi a Matte-Blanco

Os escritos finais de Freud e Ferenczi sempre me emocionam. Parece-me que neles a antevisão e proximidade da morte elevam os dois mestres a uma transcendência: uma visão abrangente da própria obra, de si e do mundo. Um desapego de certezas transitórias em direção a um tempo mais generalizante. No limite, a vida e a morte sentidas como um contínuo quântico.

É assim que Ferenczi, afrontando a atitude reticente de Freud, apresenta publicamente seu ensaio Confusão de língua entre os adultos e as crianças: a linguagem da ternura e a linguagem da paixão, em 1932, um ano antes da morte, e talvez já impregnado de sua transcendência.

Tento imaginar as reações de Freud ao ler esse texto que soa como um contraponto à sua própria obra; contraponto que amplia possibilidades, mas introduz dissonâncias em um código harmônico que busca se estabelecer.

Ferenczi apresenta então ao Congresso de seus pares relutantes um quase manifesto das relações de objeto: "... um curto resumo (...) do tema bastante vasto da origem exógena da formação do caráter e da neurose ..." (Ferenczi, 1932, p.347).

Quero sublinhar a importância concedida recentemente ao fator traumático, tão injustamente negligenciado nestes últimos tempos, na patologia das neuroses. O fato de não aprofundar suficientemente a origem exterior comporta um perigo, o de recorrer a explicações prematuras invocando a predisposição e a constituição. (Ferenczi, 1932, p.347).

Dois temas importantes se imbricam nesse texto: o processo das identificações e a clivagem do Ego. Ferenczi estabelece então uma conexão essencial entre estádio da identificação e linguagem da ternura:

Devemos nos referir aqui às idéias que Freud desenvolveu há muito quando sublinhou o fato da capacidade de experimentar um amor objetal ser precedida de um Estádio de Identificação. Eu qualificaria esse estádio como sendo aquele do amor objetal passivo ou estádio de ternura. (Ferenczi, 1932, p.353).

Quando Ferenczi associa a linguagem da ternura a um estádio, seja na acepção de um período de tempo delimitado, seja na de uma posição recorrente no eixo do tempo, parece-me que as sprachen (línguas, falas, linguagens ...) se tornam um fator, determinante mas específico, de um conceito mais amplo: modos de ser do homem.

Assim podemos pensar a linguagem da ternura como um código comunicativo de um modo de ser – "o estádio da ternura" – que, como indica sua característica relacional básica através da identificação, sente o mundo e a si mesmo indivisivelmente, numa continuidade decorrente de um sentimento de pertinência – somos uma mesma coisa, unitária mas infinita. Um possível sentido para amor objetal passivo seria então estar aberto e receptivo ao acolhimento amoroso já pré-concebido. O objeto pré-existe no sujeito, continente e conteúdo intercambiáveis.

E que coisa é essa que nos arrebata da Linguagem da Ternura para a Linguagem da Paixão? Responde Ferenczi: "mas a mudança significativa, provocada no espírito da criança pela identificação com o parceiro adulto, é a introjeção do sentimento de culpa do adulto." (1932, p.352). "Formas de amor passional e recheadas de culpa, em um ser ainda imaturo e inocente. A conseqüência só pode ser a confusão de línguas a que eu fazia alusão no título dessa conferência." (1932, p.353).

É, pois, o sentimento de culpa que se coloca entre essas duas linguagens. E do que é esse sentimento de culpa o sintoma talvez mais evidente?

... no erotismo adulto, o sentimento de culpa transforma o objeto de amor em um objeto de ódio e de afeição, isto é, um objeto ambivalente. Enquanto essa dualidade ainda falta à criança no seu estádio de ternura, é justamente este ódio que surpreende, espanta e traumatiza uma criança amada por um adulto. (Ferenczi, 1932, p.356).

O que era sentido como uma unidade indivisa passa por uma divisão radical. Radical, pois no antes, nem a idéia de divisão poderia ser concebível. Ou seja, o sentimento de culpa é o sintoma da clivagem, determinante da linguagem da paixão, e é essa diferença essencial entre vivências de indivisibilidade e de divisão que Ferenczi talvez vislumbre através das linguagens.

Na coda do seu Post-Scriptum, um Ferenczi prospectivo nos instiga à busca da essência:

Esta seqüência de reflexões apenas aborda de maneira descritiva o que há de terno no erotismo infantil e o que há de apaixonado no erotismo adulto; deixa em suspenso o problema da própria essência de sua diferença. (Ferenczi, 1932, p.355).

Ferenczi deixa em suspenso o mistério dessa essência da diferença entre a linguagem infantil da ternura e a linguagem adulta da Paixão e com isso nos convida a um mergulho no processo de humanização do ser.

Apoiado nos desenvolvimentos posteriores de Bion e Matte-Blanco, proponho que a essência dessa diferença tenha a ver com vivências de generalização e de restrição. Não pretendo dar uma definição formal desses dois termos; parafraseando Bion, quero manter disponível toda a infinita "penumbra de associações" que eles possam nos sugerir.

Assim, numa descrição impressionista, mais metonímica mas também metafórica, eu diria que a generalização, característica básica da linguagem de ternura, conota um sentimento de pertinência. Tudo tem a ver com tudo, ou seja, nenhum gesto é isolado do mundo e, portanto, ninguém está só.

É uma vivência de fusão com o outro. Uma acepção de fusão – bastante diferente da usual em psicanálise – onde prevalece a completude e não a alienação de si. Os interesses são comuns a todos nesse território – ou modo de ser – onde tudo é nosso.

Já a linguagem da paixão conota uma vivência de restrição. A delimitação da individualidade pela exclusão do outro; a separação. É o território, ou o modo de ser onde vigora o meu e o teu; meu interesse capturando o teu mediante os mecanismos da sedução. A individuação e a vida defendidos com unhas e dentes. Um rito de passagem da infinitude para a finitude.

A generalização e a restrição são fatores inseparáveis e inerentes ao processo de humanização.

Podemos imaginar que o ego da criança seja modelado nesse trânsito confusional de línguas. Esse modelo inerentemente conflituoso seguirá seu curso "natural" através das seqüências traumáticas que o re-significam, desembocando enfim num ego cindido onde convivem dois modos de ser: um deles será restrito, auto-centrado, individualizado; o outro conterá infinitas possibilidades generalizantes. Evocando Bion, diremos que esses dois modos de ser se alternam como continente e contido em busca da unidade transcendente do "at-one-ment". Busca que passa por uma relativização dos vértices que possa conduzir a uma atitude de sem memória sem desejo.

*

Ao cunhar a expressão "sem memória sem desejo" Bion levou às últimas conseqüências a "atenção flutuante" de Freud. Por que teria ele escolhido palavras tão evocativas da atitude de desapego contida na tradição oriental milenar que passa pelo Vedanta, pelo Tao, pelo Zen, mas dificilmente compreendida se não nos descentrarmos de uma maneira de pensar e ser a que fomos habituados dentro de nossa tradição ocidental.

Bem, parece que, embora um pouco contrafeitos, começamos a aceitar o fato de Bion ser natural da Índia e lá ter vivido até os oito anos de idade, sob maternagem compartilhada pela sua babá hindu. Como disse Meltzer lindamente em seu Studies on Extended Metapsychology:

[Essas concepções] ... são profundamente estranhas à tradição filosófica e teológica do ocidente, mas não o são em relação à tradição oriental na qual a infância de Bion o mergulhou, qual Aquiles, pelas mãos de sua "ayah." (p.26).

Penso sempre essa expressão "sem memória sem desejo" no singular, conotando uma atitude, e não no plural – "sem memórias, sem desejos"- conotando conteúdos. Claro que não se trata de recordar ou não uma sessão, um dado biográfico, ou o que quer que seja. Trata-se de desapegar-se de nossa memória e desejo emocionais para poder se abrir para o desconhecido – o outro. Talvez algo como recuperar uma quase utópica linguagem da ternura ferencziana.

Os vértices bionianos podem ser pensados como pontos de vista simultâneos e multidirecionais assestados sobre um evento; evento definido por nossa percepção desse conjunto infinito de relações que nos remetem à pré-concepção: a criança e seu mundo preconcebidos num interjogo onde ambos são continente e contido. Posições sutilmente mutáveis, onde continente torna-se contido e vice-versa; assim, o filho torna-se continente da "maternidade" de sua mãe. Falando em termos de vértices, a conjugação de nossos dois modos de ser através de uma atitude de sem memória sem desejo talvez decorra de uma atitude de desapego de qualquer vértice, uma atitude de não–vértice.

O modelo bioniano parece-me prenhe de esperança. Faz pensar em compaixão, um sentimento da unidade possível pelo abandono de posições estabelecidas, ou como diria Freud, desinvestimento de bezetzungen.1

Relembro o poema número treze do TAO-TE-KING, onde Lao-Tse nos fala quase literalmente da ausência de memória e desejo:

Favor e desfavor geram angústia
Honras geram dissabores para o ego.
Por que é que o favor e desfavor geram dissabores?
Porque, quem espera favor paira na incerteza.
Sem saber se o receberá.
Quem recebe favor, também paira na incerteza:
Não sabe se o conservará.
Por isto causam dissabor
Tanto o favor como o desfavor.
Por que é que as honras geram dissabor?
Todo dissabor nasce do fato
De alguém ser um ego.
E não é possível contentar o ego.
Se eu pudesse libertar-me do ego,
Não haveria mais dissabores.

Tao-Te-King Poema 13
(Versão de Humberto Rohden)

Desapegar-se da memória emocional do próprio nome, das origens, da posição, das perdas e desfavores. Desapegar-se do desejo emocional do poder de cura, da fama, dos títulos, dos ganhos e favores. Proponho o sem memória sem desejo não apenas como atitude técnica ou metodológica, mas antes de tudo, uma atitude ética do analista. Sugiro até uma forma mais coloquial de dizê-lo: sem preconceito sem expectativa.

*

O tema da generalização-restrição permeia também toda a obra de Ignácio Matte-Blanco.

Na sua tentativa de compreender como se constitui o homem e seu mundo, Matte-Blanco parte das características do inconsciente conforme postuladas por Freud e investiga, então, quais seriam os princípios lógicos desse código enigmático para que, como conseqüência natural, dele resultem as manifestações do inconsciente freudiano: substituição da realidade externa pela psíquica. Deslocamento, condensação, ausência de temporalidade e, talvez, como característica abrangente, a ausência de contradição.

Desde as origens, os escritos de Matte-Blanco voltam-se para a linguagem, a fala. Seu primeiro objeto de estudo é a esquizofrenia, através do enigma da sua linguagem ou anti-linguagem. Esta anti-linguagem é por ele pensada como efeito da invasão da articulação consciente por outra lógica com características próprias, irredutíveis ao pensar consciente (como disse Ibn'Arabi, "toda causa é o efeito de seu próprio efeito"). Esta outra lógica, tão próxima do inconsciente, é responsável também pelos sonhos, atos falhos e efeitos expressivos estruturais, estéticos e estilísticos do discurso. Matte-Blanco define-a como lógica simétrica.

A busca desse código simbólico evanescente leva Matte-Blanco a duas direções a serem percorridas simultaneamente. Uma delas conduz à lógica matemática, com a utilização da teoria dos conjuntos infinitos, o que coloca o código matemático como um pré-código lingüístico – uma schemata estrutural do discurso.

Usando este instrumental lógico-lingüístico-matemático, ele chega à sua proposição do homem e seu mundo como constituídos por dois modos de ser: o homogêneo-indivisível e o heterogêneo-divisor. Cada um dos quais impregnado por um código lingüístico próprio e irredutível ao outro: a lógica assimétrica, inerente ao modo de ser heterogêneo-divisor e a lógica simétrica, inerente ao modo homogêneo-indivisível. Esta é a outra direção a que nos leva o pensamento de Matte-Blanco: da língua para algo mais abrangente - um modo de ser no mundo.

O conceito de "modo de ser" é mais amplo que o de "lógica"... A lógica lida com a estrutura onde se desenvolve o pensar. Um modo de ser se refere a todos os aspectos do "ser", um dos quais, mas somente um, é o pensar. (1988, p.77).

O modo de ser heterogêneo-divisor nos é familiar: atém-se à lógica clássica, aristotélica, predominante em nossa lógica usual consciente, ou naquilo que podemos apreender através dela. Está solidamente ancorada numa tetra-dimensionalidade espaço-tempo que determina nossos limites de apreensão imaginária, de visualização de eventos. O mundo assimétrico é analítico, dividido em partes que se relacionam segundo uma lógica que se propõe conhecida.

Já o modo de ser homogêneo-indivisível refere-se a uma outra lógica – lógica simétrica – onde não vigora o princípio da não-contradição e como conseqüência, não há ordenação de tempo ou espaço, nem relação entre partes distintas: a lógica do inconsciente.

O mundo simétrico é sintético: nele estamos imersos na totalidade indivisível, desconhecida, além do nosso pensar habitual; ele nos será eternamente estranho e familiar – essência do unheimlich. Matte-Blanco sugere a possibilidade do inconsciente simétrico ser fruto de uma lógica multidimensional que escapa aos nossos limites tridimensionais.

A lógica simétrica, que explicaria esse modo de ser homogêneo, é regida por dois princípios: o princípio de simetria e o princípio de generalização.

Pelo princípio de simetria, o sistema inconsciente trata o inverso de qualquer relação como idêntico à relação. Assim, se João é pai de Pedro e Pedro é filho de João, para esta lógica, João é também filho de Pedro, Pedro é pai de João e todas as relações possíveis são válidas sem contradição. Da mesma maneira, se o evento A antecede o evento B, também B antecede A, excluindo-se assim seqüências temporais.

O princípio de generalização, que a rigor está contido no princípio de simetria e vice-versa, é assim formulado por Matte-Blanco:

O sistema inconsciente trata a coisa individual (pessoa, objeto, conceito) como se fora um membro ou elemento de um conjunto ou classe que contém outros membros; trata essa classe como sub-classe de uma classe mais geral e esta como sub-classe de outra ainda mais geral e assim por diante. (1975, p.38).

... na estrutura normal estratificada bilógica descobrimos que "sob" o aspecto apresentativo, a superfície de cada indivíduo, há normalmente uma seqüência de estratos mais e mais profundos com amplitude e simetrização crescentes. Sem nos darmos conta, sentimos de uma maneira obscura que a mulher amada é não só nossa mulher, mas também nossa mãe e num estrato mais profundo, todas as mulheres "amáveis" e em nível ainda mais profundo, ela é uma Deusa. Mais fundo ainda, ela é nós mesmos até finalmente atingirmos a pura expressão do modo indivisível onde tudo tende a ser tudo o mais. (1988, p.115).

Matte-Blanco propõe o processo consciente-inconsciente como um continuum formado por diferentes proporções desses dois códigos: o consciente divisor, com predominância de assimetria, e o inconsciente indivisível, com proporção significativamente maior de simetria. "Embora distintos entre si, cada estrato está presente de maneira misteriosa em todos os estratos mais superficiais (...) O indivisível está lá, embora invisível."

Essa antinomia entre generalização e restrição seria, então, o elemento constitutivo dos dois modos de ser do homem e seu mundo. Dois códigos irredutíveis de apreensão e manifestação do mundo – o homem trágico, dividido constitucionalmente em duas diferentes dimensionalidades, exercitando sua convivência com esses dois modos de ser, numa permanente tentativa de conciliação.

Citamos Matte-Blanco:

Há, na própria estrutura do ser humano, uma antinomia fundamental que resulta da co-presença de dois modos de ser que são incompatíveis e apesar disso existem e aparecem juntos no mesmo motivo. Há uma antinomia fundamental nos seres humanos e no seu mundo. (1988, p.70-1).

"O processo pode ser descrito como extração pelo pensar assimétrico das infinitas possibilidades do modo de ser simétrico." (1975, p.290).

"Pode-se dizer que é no infinito que se encontram as duas naturezas do homem, a simétrica e a assimétrica." (1975, p.219).

"As potencialidades do inconsciente são realmente infinitas. E assim também são as possibilidades teóricas da arte." (1975, p.300).

Através da arte chegamos às emoções:

"... Os afetos ocupam simultaneamente todo o espaço mental." (1975, p.418).

"Quanto maior o grau de simetria, maior a magnitude dos afetos." (1975, p.174).

Em qualquer emoção há sempre uma generalização, uma maximização e uma irradiação não justificadas em termos da lógica clássica, mas compreensíveis em termos da lógica simétrica. Além do objeto concreto a emoção sempre vê um número infinito de outros objetos dotados no seu máximo grau, das características que definem a classe – o grau infinito. (1975, p.372).

"Emoção enquanto seja simetria não pode ter uma linguagem ... mas assim como o imensurável é a mãe do mensurável, a emoção é a mãe da linguagem." (1975, p.273).

"A emoção é a mãe do pensar." (1988, p.22).

*

Não pretendemos equacionar as linguagens de Ferenczi aos modos de ser de Matte-Blanco, mas apenas sugerir uma aproximação em dois campos: num deles, a linguagem da ternura, o sonho, a conjunção continente-contido – at-one-ment -, o modo de ser homogêneo simétrico, o indivisível, a infinitude; no outro, a linguagem da paixão, a razão, a disjunção continente-contido, o modo de ser heterogêneo-assimétrico, a divisão, a finitude.

Entre esses dois campos, uma evanescente barreira de contato, como a suposta por Bion. Na transcendência desses dois campos podemos imaginar o processo de humanização do ser.

 

 

BERGER, I. Paths of Intersubjectivity: Ferenczi, Bion, Matte-Blanco. Psicologia USP, São Paulo, v.10, n.1, p.141-55, 1999.

Abstract: Intersubjectivity is pertinent to the freudian concept of Psychoanalysis. Yet, it was Ferenczi, his closest disciple, and the pioneer in the investigations of emotions, which come upon the analyst in the presence of the patient. This paper retakes the aspects of this investigation of Ferenczi, Bion and Matte-Blanco, discussing the relations between the rational logic and this other one which is the emotional and contradictory logic of the unconscious.
Index terms: Subjectivity. Unconscious. Language. Psychanalysis. Ferenczi, Sándor, 1873-1933. Bion, Wilfred Ruprecht, 1897-1979.

 

 

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1 Bezetzungen – Posições psíquicas a serem defendidas; em alemão significa também fortificações militares

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