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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564

Psicol. USP v.11 n.1 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642000000100004 

A FORMAÇÃO DA ATITUDE CLÍNICA NO ESTAGIÁRIO DE PSICOLOGIA1

 

Ana Maria de Barros Aguirre*
Eliana Herzberg
*
Elizabeth Batista Pinto
*
Elisabeth Becker
*
Helena Moreira e Silva Carmo
*
Mary Dolores Ewerton Santiago*
Instituto de Psicologia - USP

 

 

Neste artigo visamos destacar aspectos que consideramos fundamentais para o processo de ensino / aprendizagem em Psicologia Clínica, baseados na nossa experiência como supervisores da disciplina de psicodiagnóstico para estagiários da graduação em Psicologia. Delineamos nossa sistemática de trabalho na disciplina, que segue um referencial psicanalítico e enfocamos particularmente a questão da formação da atitude clínica do estagiário em relação ao cliente. Procuramos mostrar as inter-relações da mesma com o enquadramento de trabalho e com o processo de formação da identidade profissional do psicólogo, enfatizando o papel da supervisão. Apontamos a necessidade de novos estudos e pesquisas, bem como de discussões entre supervisores, psicólogos e estudantes, sobre assuntos tais como o processo de ensino/aprendizagem clínicos e a habilitação de psicólogos para o exercício clínico.

Descritores: Psicologia clínica. Supervisão. Psicodiagnóstico. Formação do Psicólogo.

 

 

A experiência como supervisores da disciplina "Métodos de Exploração e Diagnóstico em Psicologia Clínica," denominada doravante de forma abreviada por "Métodos," no curso de graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, tem nos levado a refletir sobre várias questões que surgem no ensino desta disciplina teórico-prática, suscitando inquietações naquilo que diz respeito fundamentalmente à formação da atitude clínica nos alunos, ou seja, no aprendizado da forma de relacionar-se com o cliente no contexto clínico.2

É na disciplina de "Métodos" que o aluno de graduação em Psicologia do IPUSP tem, a rigor, sua primeira experiência clínica, quando não somente terá a oportunidade de realizar entrevistas e outros procedimentos clínicos com o mesmo cliente, mas também terá que utilizar e integrar os conhecimentos teóricos já adquiridos, a fim de obter uma compreensão global do mesmo. Esta costuma ser para os alunos uma experiência enriquecedora em termos profissionais e pessoais. No entanto, convém ressaltar que a vivência do estagiário necessariamente envolve a superação de obstáculos relacionados à sua própria insegurança e inexperiência, fatores importantes e sempre presentes na formação profissional.

Visamos, neste artigo, apresentar sucintamente nossa sistemática de trabalho da disciplina "Métodos," destacando aspectos que nos parecem fundamentais no aprendizado clínico, especialmente quando relativo às primeiras vivências clínicas. Nosso objetivo mais amplo é contribuir para a reflexão sobre as características do ensino clínico, bem como sobre a qualidade da formação do psicólogo.

Inicialmente faremos alguns esclarecimentos sobre o contexto e funcionamento da disciplina "Métodos." A seguir consideraremos três aspectos fundamentais, bem como suas inter-relações, contidos no aprendizado clínico: o desenvolvimento de uma atitude clínica, o enquadramento de trabalho (que pressupõe a realização de um processo psicodiagnóstico sob nossa supervisão), e a construção da identidade profissional do psicólogo.

1. Contexto e funcionamento da disciplina "Métodos de Exploração e Diagnóstico em Psicologia Clínica" do curso de graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

O curso de graduação em Psicologia no Brasil tem a duração de cinco anos. No IPUSP as disciplinas são semestrais, sendo que "Métodos" pertence ao Departamento de Psicologia Clínica - PSC, é obrigatória e tem a duração de dois semestres (7oe 8o). Nesta disciplina, via de regra, cada aluno do quarto ano da graduação realiza, sob a supervisão de um docente, o processo psicodiagnóstico de um cliente inscrito na Clínica Psicológica do PSC. Esse processo é constituído de entrevistas e outros procedimentos clínicos, em referencial psicanalítico (Arzeno, 1995; Ocampo et al., 1981; Trinca, 1983; Trinca, 1984). Em termos gerais, constitui uma modalidade de atendimento psicológico que tem a finalidade de compreender e dar continência ao que se passa com o cliente (incluindo sua família e às vezes outros contextos aos quais pertence) a fim de proporcionar-lhe(s) o encaminhamento que melhor atenda às suas necessidades.

Cabem aqui alguns esclarecimentos sobre o funcionamento da Clínica Psicológica do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP. Trata-se de uma clínica-escola pública, que tem a função de proporcionar estágios para a formação clínica dos alunos e prestar serviços à comunidade, oferecendo também campo para a pesquisa científica. A população que procura a Clínica é em sua maioria de média e baixa renda, sendo mais freqüente a busca de atendimento para crianças, embora a Clínica o ofereça também a adolescentes e adultos. Quanto às queixas mais freqüentes, observamos que a procura ocorre, na maior parte dos casos, quando há dificuldades claramente instaladas. Podemos citar dentre elas: as decorrentes de gravidez, parto e distúrbios do desenvolvimento neuro-psico-motor que não puderam contar no momento adequado com os necessários cuidados especializados; sucessiva repetência escolar; variadas situações de grave desestruturação familiar e outros problemas sociais concomitantes a distúrbios de natureza psicológica.

Após passarem por uma entrevista psicológica de triagem, os clientes podem ser encaminhados para psicodiagnóstico (com a supervisão em "Métodos"), psicoterapia (realizada na própria Clínica por estagiários de outras disciplinas), ou receberem outro encaminhamento que se faça necessário (para outros serviços da Clínica ou externos). O atendimento em psicodiagnóstico é gratuito.

A aprendizagem teórico-prática na disciplina "Métodos" dá-se em pequenos grupos de supervisão, de no máximo 8 alunos. Estes funcionam em duplas, nas quais um dos elementos atende um cliente no primeiro semestre, com a assessoria do seu par (além das contribuições do grupo como um todo e do supervisor), e o seu par atende no segundo semestre (contando com as mesmas colaborações).

Cada grupo de alunos tem o mesmo supervisor durante o ano todo. O contrato de trabalho é estabelecido entre os participantes do grupo (supervisor / alunos), e inclui: quatro horas de supervisão semanal, com horário de início e de término, número mínimo de alunos para a realização da supervisão, normas de sigilo em relação aos clientes e ao próprio grupo, orientação sobre a elaboração do relatório de atendimento e critérios para a aprovação na disciplina. Nas supervisões são também discutidos textos básicos da área, bem como os atendimentos realizados pelos alunos, cujas sessões devem ser apresentadas por escrito, acompanhadas de uma análise realizada pela dupla.

Paralelamente ao trabalho de supervisão semanal com seus respectivos grupos, os supervisores realizam reuniões periódicas, atualmente mensais, quando são discutidas desde questões relativas aos procedimentos burocráticos e administrativos para o bom andamento dos grupos de supervisão àquelas de natureza institucional mais ampla. A concepção, bem como a elaboração do presente trabalho, por exemplo, ocorreu justamente nessas reuniões.

O contexto da Disciplina "Métodos," ou seja, o fato de ser a primeira experiência clínica do aluno-estagiário, com supervisão individualizada, por um período prolongado, e da supervisão ocorrer em pequenos grupos de alunos acompanhados pelo mesmo supervisor durante o período de um ano, bem como de ser uma disciplina teórico-prática com terceiros envolvidos (clientes, outros profissionais etc.) são elementos que favorecem o aprofundamento da formação clínica. Isto também significa que características e dificuldades dos alunos que, em outros contextos acadêmicos, muitas vezes passam despercebidas, podem emergir com maior intensidade nos grupos de supervisão. Estes são aspectos que tornam esse aprendizado uma experiência tão rica quanto complexa.

Uma das condições mais importantes do aprendizado clínico passa necessariamente pelo desenvolvimento de uma atitude clínica do aluno em relação ao seu cliente, tópico que abordaremos a seguir.

2. O desenvolvimento da atitude clínica

Entendemos por atitude clínica a possibilidade de colocar-se no papel profissional dentro de um determinado enquadramento, mantendo uma empatia com o cliente. A atitude clínica permite estabelecer uma relação de respeito com o cliente e limita ou impede as transgressões éticas, enquanto o psicólogo clínico busca uma compreensão sobre o que se passa com o cliente.

Um ponto de vista tradicionalmente aceito é que a formação da atitude clínica, no aluno de Psicologia, estaria assentada sobre três fatores básicos: sua própria psicoterapia, seu conhecimento teórico e sua prática clínica supervisionada (Tsu, 1983). Estes fatores estão intimamente ligados, uma vez que os conhecimentos teóricos só podem ser internalizados e processados em uma psicoterapia pessoal que torne possível o conhecimento do mundo interno e a utilização dos recursos pessoais na investigação e compreensão dos processos psíquicos. A supervisão, por sua vez, busca facilitar a integração destes dois aspectos na tarefa clínica: o conhecimento teórico e o auto-conhecimento.

Sabemos que num enfoque psicanalítico o principal instrumento de trabalho do psicólogo é a sua pessoa (Bleger, 1974; Ocampo et al., 1981; Tsu, 1984). É por este motivo que, nas supervisões dos atendimentos clínicos, visamos principalmente a compreensão do aluno quanto às suas emoções e atitudes na relação com o cliente. O supervisor busca promover, no restrito âmbito da supervisão, o reconhecimento e, ao mesmo tempo, a continência das ansiedades do estagiário relacionadas à situação de atendimento.

Consideramos que a atitude clínica é uma experiência subjetiva que é objetivada na relação com o cliente. É, portanto, a representante de um fenômeno interno complexo, na medida em que muitas variáveis concorrem para a sua produção: o conhecimento teórico, as experiências pessoais, as diversas identificações, as fantasias sobre o papel do psicólogo, as possibilidades de experimentação e investigação de vivências interiores, e a capacidade de conter as ansiedades e de preservar os limites da própria identidade no contato com o outro. Para empatizar com o cliente é necessário poder colocar-se no lugar deste, sem porém confundir-se com ele. É tarefa do supervisor contribuir para essa discriminação.

A possibilidade do estagiário de desenvolver uma atitude clínica frente ao seu cliente passa necessariamente pela compreensão e apropriação do papel de psicólogo. Poder desempenhar esta função envolve primeiramente conhecer, compreender e aceitar esse papel, para poder então assumí-lo. Isto significa conhecer e utilizar as possibilidades e limites que o caracterizam e ao mesmo tempo o diferenciam de outros papéis (tais como os de amigo, conselheiro, juiz, professor, filho e assim por diante).

Desse modo a atitude clínica parece resultar de um processo que se desenvolve concomitantemente à construção da identidade profissional. Esta identidade envolve um complexo conjunto de experiências internalizadas, abrangendo desde a concepção de mundo e a adoção de uma escala de valores, até sua possível exteriorização em escolhas e comportamentos. Está portanto associada aos parâmetros que caracterizam o papel do psicólogo: seus objetivos, suas estratégias, sua filosofia de trabalho e outros. São esses parâmetros que constituem o enquadramento de trabalho, instrumento indispensável para o exercício desse papel, pois é o referencial que permite a objetividade necessária para dar sentido aos aspectos subjetivos essenciais ao trabalho clínico com enfoque psicanalítico (Abuchaem, 1986; Bleger, 1974; Ocampo et al., 1981; Trinca, 1984).

Desenvolveremos a seguir estes dois aspectos fundamentais da pratica clínica: o enquadramento de trabalho e a identidade profissional.

3. O enquadramento de trabalho e a identidade profissional

Estamos de acordo com os autores que consideram que o enquadramento é um elemento essencial no trabalho clínico desenvolvido num referencial psicanalítico (Abuchaem, 1986; Bleger, 1974; Grinberg, 1975; Ocampo et al., 1981; Trinca, 1984). É tarefa do supervisor ensinar o aluno a compreender e utilizar o enquadramento como instrumento indispensável (inerente) à prática clínica que, no nosso caso, é a realização de um processo psicodiagnóstico.

O cliente procura a clínica, seja por iniciativa própria ou indicação de um profissional, por estar enfrentando um problema que o incomoda e que não consegue resolver sozinho. O cliente traz, portanto, alguma queixa e alguma expectativa quanto ao que encontrará na Clínica. Este é o ponto de partida do trabalho clínico no processo psicodiagnóstico: ouvir a queixa e as expectativas quanto ao trabalho, esclarecendo as características deste (inclusive seus limites), verificando o interesse e as possibilidades do cliente de dar prosseguimento e, então, estabelecendo um contrato no qual são definidos: o horário, o lugar, os objetivos e os papéis (do profissional e do cliente).

O enquadramento de trabalho equivale à configuração do campo de atuação do psicólogo, com o estabelecimento de parâmetros básicos como o tempo de sessão, os objetivos e as características do trabalho, os papéis dos participantes. Estes referenciais possibilitam ao estagiário perceber aspectos latentes da conduta do entrevistado, principalmente através das dificuldades do cliente de compreender e / ou respeitar o enquadramento e o contrato de trabalho. Isto é também associado às emoções que as atitudes do entrevistado despertam no entrevistador.

Etchegoyen (1987) refere-se ao enquadramento como um elemento ordenador que propõe normas que regem qualquer tipo de tarefa entre 2 pessoas.

Para Berlín (citado por Bohoslavsky, 1974) é o enquadramento que estabelece os limites da identidade e das possibilidades de ação, sendo o único instrumento que permite observar, pensar e operar livremente, com o "máximo de efetividade profissional e o mínimo de confusão ou identificação com a situação problemática" (p. 179).

Como veremos, há uma estreita analogia entre o enquadramento no contexto de atendimento ao cliente e a situação de supervisão, pois também esta envolve um enquadramento, ou seja, é caracterizada por um contrato de trabalho feito entre o supervisor e seus alunos, definindo o horário (tempo), o lugar, os objetivos, as tarefas e os papéis.

A tarefa não é fácil para o aluno que pela primeira vez se defronta com o papel de psicólogo, no qual é responsável pelo cliente, diante dos colegas, do supervisor e também da instituição (no caso a Clínica além do IPUSP). Há que considerar ainda que a disciplina de "Métodos" é obrigatória, podendo não coincidir com a motivação do aluno. Estes fatores estão presentes na caracterização da disciplina, e no enquadramento que dela faz parte, isto é, o estabelecimento dos parâmetros de trabalho no grupo de supervisão.

Além disso o aluno tem expectativas e fantasias, manifestas ou latentes, quanto ao papel do cliente, ao seu papel e ao papel do seu grupo e do supervisor. Estas expectativas irão, através da prática clínica supervisionada, tornando-se menos idealizadas e possibilitando a internalização do papel do psicólogo, ou seja, a aquisição de uma identidade profissional. A compreensão de como se processa o trabalho do psicólogo, associada à compreensão de porquê se processa desta forma, alicerça a formação dessa identidade.

É fundamental uma atitude ativa do aluno nesse processo, não uma absorção passiva dos procedimentos que estão sendo aprendidos: é necessário que estes lhe façam sentido. Campos para o confronto construtivo entre supervisor e alunos serão configurados a cada etapa do processo, desde a condução das entrevistas, a escolha de instrumentos e a interpretação do material por eles coletados, até à constante reflexão sobre as dificuldades inerentes ao papel e à manutenção do enquadramento.

Tanto o cliente quanto o aluno podem ter dificuldades para manter, ou mesmo para estabelecer o enquadramento, respectivamente no atendimento e na supervisão. São essas "rupturas" de enquadramento que permitem o acesso a características de personalidade do cliente e / ou do aluno.

Podemos ilustrar com exemplos que tornem mais clara a nossa explanação: um cliente que chega sempre atrasado, outro que fala de assuntos que aparentemente não dizem respeito à queixa, aquele que trata o estagiário como se este fosse um professor do qual espera "palestras" e cobranças, etc. Todas estas posturas estão comunicando alguma coisa a respeito das dificuldades, fantasias e ansiedades do cliente com relação ao atendimento. Ao mesmo tempo estão configurando, através de suas ações no contexto do atendimento, sua forma de funcionamento e sua personalidade (Bleger, 1974).

O responsável pela manutenção do enquadramento é o profissional, não o cliente. Mas o aluno pode ter dificuldades para lidar com essas situações, principalmente quando o cliente espera dele algo que ele não pode dar, ainda que esse "algo" geralmente não caiba no papel de quem está realizando um psicodiagnóstico. Nesse início da vida profissional é comum o medo do estagiário de que o cliente abandone o atendimento, o que poderia aumentar os sentimentos de insegurança quanto à própria competência, por não estar desempenhando bem a sua tarefa. Isto pode fazer com que o próprio aluno rompa o enquadramento. Por exemplo: não conseguindo encerrar a entrevista no horário, evitando abordar assuntos "delicados," dando conselhos, transformando a entrevista num interrogatório, respondendo perguntas sobre sua vida pessoal e assim por diante. Os distanciamentos do enquadramento estão muitas vezes ligados às dificuldades de assumir o papel profissional.

Este momento do curso de Psicologia é talvez o primeiro em que o estudante se defronta com seu papel profissional, quando o conhecimento teórico não basta: é necessário que ele se encontre com seus conteúdos emocionais convertendo-os em instrumentos de trabalho. O aluno tem medo de "fazer feio" diante dos colegas, do supervisor e de si próprio, teme uma crítica severa quanto ao seu desempenho e tem dificuldades de se expor. Quanto mais manifestas estas ansiedades, e quanto mais o enquadramento tenha garantido as condições de sigilo e confiança, qualificando o espaço da supervisão como continente às vicissitudes do trabalho, maior a possibilidade de crescimento individual e do grupo.

Em determinadas situações pode ser até necessária a intervenção do supervisor, apontando aspectos contratransferenciais do estagiário, mas isto deve ocorrer apenas quando estes criam obstáculos à continuidade do processo psicodiagnóstico. Sendo assim, considerando-se a especificidade da supervisão, é necessário que o supervisor tenha muito cuidado e parcimônia ao abordar as questões contratransferenciais dos estagiários, visto que os objetivos da supervisão estão relacionados à formação profissional, e como tal distinguem-se dos visados em uma psicoterapia.

A supervisão pode, portanto, ser entendida como um modelo de trabalho que realiza um atendimento indireto ao paciente, o qual é visto não só através de material das sessões de atendimento mas particularmente através do relato do aluno e da conduta deste na supervisão, bem como das emoções despertadas no grupo no decorrer desta.

Na supervisão, o enquadramento procura assegurar esse campo de maior confiança através do contrato de sigilo dos elementos do grupo, tanto em relação ao material dos pacientes quanto ao que acontece dentro do grupo, no sentido deste ser um bom continente para as ansiedades que emergem no trabalho, sem deixar de enfatizar a importância da psicoterapia pessoal. O aluno pode transportar para a situação de atendimento ao seu cliente um enquadramento similar ao vivenciado na supervisão, que garanta ao cliente as condições de sigilo, respeito e continência para com as dificuldades que este apresenta.

A função do supervisor é acolher e orientar, favorecendo o aprendizado através da compreensão dos aspectos latentes e manifestos presentes, inclusive na situação de supervisão. No entanto, o supervisor pode, em certos momentos, representar o modelo idealizado com o qual o aluno rivaliza ou do qual tem muito medo. Pode ser difícil encarar o supervisor como um profissional com cuja experiência o estagiário pode contar para dar-lhe respaldo no atendimento e continência para as inseguranças.

Também na supervisão o aluno pode ter atrasos, "esquecimentos" do material que deveria ser apresentado, tendência a falar de maneira técnica usando o jargão psicológico e distanciando-se do que se passa emocionalmente com ele no atendimento e na supervisão. Há grupos que conseguem alcançar uma relação madura e construtiva de colaboração entre seus elementos, há outros nos quais domina a persecutoriedade ou a rivalidade. Da mesma forma, o atendimento psicológico pode promover maior ou menor crescimento do cliente, segundo as possibilidades criadas na relação deste com o psicólogo e dentro dos limites possíveis para ambos.

Considerações finais

Ao cursar a disciplina "Métodos," o futuro psicólogo encontra-se num complexo rito de passagem, às voltas com uma sobreposição de papéis, na medida em que é ao mesmo tempo aluno frente ao seu supervisor e profissional frente ao seu cliente. O supervisor também está às voltas com a face pedagógica (como aquele que ensina e avalia o aprendizado) e a face terapêutica (como modelo e continente) desse particular tipo de ensino, mobilizado na transmissão da atitude clínica. Acrescentemos a este quadro as exigências, expectativas e fantasias despertadas por cada caso clínico em cada conjunto de participantes e poderemos visualizar com facilidade a dimensão das dificuldades presentes na situação, para todos os que dela participam.

Mantidas as devidas proporções, nesse momento do curso de Psicologia, a dupla supervisor-aluno está gerando um futuro profissional e, às vicissitudes expostas, inerentes a tal "maternagem," associa-se a clara gratificação de acompanhar um processo de crescimento cujos indiscutíveis benefícios reparatórios estendem-se ao terceiro (sempre presente e sempre excluído): o cliente.

Em síntese, a tarefa de realizar um processo psicodiagnóstico nesse contexto, e a tarefa de iniciar um futuro colega, possibilitando-lhe experiências cruciais à formação da atitude clínica, constitui para o supervisor um fascinante desafio. Poder acompanhar, ao longo de um ano, o complexo conjunto de movimentos de aproximação e recuos defensivos, observando ao final uma integração fundamentada em raciocínios clínicos, resultando na compreensão dinâmica e profunda da personalidade do cliente, constitui um privilégio para o supervisor. Essa possibilidade de crescimento não exclui, entretanto, sérias preocupações quanto à qualidade da formação oferecida ao aluno de Psicologia, quer no âmbito específico do ensino do processo psicodiagnóstico, quer considerando-se, de forma geral, a habilitação, a competência e as atribuições deste como futuro psicólogo.

Este artigo, sistematizando algumas de nossas preocupações, focalizadas especialmente na formação da atitude clínica do estagiário de psicologia, seguramente não esgota a amplitude do tema proposto mas, ao contrário, remete à troca de experiências e reflexões com nossos colegas envolvidos na formação de psicólogos. Decorre disso uma necessária ênfase em novas pesquisas e estudos sobre o ensino/aprendizagem clínicos e sobre a habilitação do psicólogo para a atividade clínica.

 

 

Aguirre, A. M. B., Herzberg, E., Pinto, E. B., Becker, E., Carmo, H. M. S., & Santiago, M. D. E. (2000). Development of a Clinical Attitude in Undergraduate Clinical Practice. Psicologia USP, 11 (1), 49-62.

Abstract: In this paper, we highlight aspects we consider fundamental in the clinical teaching/learning process, according to our experience as supervisors of psychological assessment (we point out that in Brazil this clinical practice takes place during undergraduate studies). After presenting our outline of work, which follows a psychoanalytical approach, we focus particularly on the student's development of a clinical attitude toward the patient. We show its connections with the establishment of the clinical setting and the process of acquiring a professional identity. The ultimate role of the supervision, in these aspects, is also emphasised. Further research, as well as discussions among supervisors and psychologists, are necessary, regarding issues like the process of clinical teaching/learning and also the licensing of psychologists.

Index terms: Clinical psychology. Practicum supervision. Psychological assessment. Professional psychology.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abuchaem, J. (1986). O processo psicodiagnóstico no adulto, na criança e no adolescente. Porto Alegre, RS: Luzzato.        [ Links ]

Arzeno, M. E. G. (1995). Psicodiagnóstico clínico: Novas contribuições. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.        [ Links ]

Bleger, J. (1974). Temas de psicologia. Buenos Aires, Argentina: Nueva Visión.        [ Links ]

Bohoslavsky, R. (1974). Orientación vocacional: La estrategia clínica. Buenos Aires, Argentina: Nueva Visión.        [ Links ]

Etchegoyen, H. (1987). Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.        [ Links ]

Grinberg, L. (1975). A supervisão psicanalítica: Teoria e prática. Rio de Janeiro: Imago.        [ Links ]

Ocampo, M. L. S., et al. (1981). O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas. São Paulo: Martins Fontes.        [ Links ]

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Tsu, T. M. J. A. (1984). A relação psicólogo-cliente no psicodiagnóstico infantil. In: W. Trinca, O pensamento clínico em diagnóstico da personalidade. Petrópolis, RJ: Vozes. Cap. 4, p. 34-50.        [ Links ]

 

 

 

* Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia. Av. Prof. Mello Moraes, 1721, São Paulo, SP - CEP 05508-900. E-mail: ippsc@edu.usp.br

1 Este tema foi abordado pelos autores em diferentes trabalhos apresentados nos se-guintes eventos científicos: Congresso Interamericano de Psicologia, San José, Costa Rica, julho de 1991; I Congresso Interno do Instituto de Psicologia da USP, São Paulo, novembro de 1991; Congresso do Conselho Regional de Psicologia - CONPSIC II, São Paulo, junho de 1992; Congresso Iberoamericano de Psicologia, Madri, Espanha, julho de 1992.

2 Ressaltamos que no Brasil o diploma de psicólogo, obtido ao término dos 5 anos do Curso de Graduação em Psicologia, habilita à atividade clínica.