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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564

Psicol. USP v.11 n.2 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642000000200005 

OFÍCIO DE TRADUTOR*

 

Dante Moreira Leite

 

 

Para começar num passado longínquo, seria possível dizer que, na interpretação bíblica, os homens não atingiram o céu por falta de tradutores, pois, na Torre de Babel, alguns intérpretes competentes poderiam ter realizado o milagre do entendimento universal. Mas não convém ir tão longe, nem é prudente ser tão otimista: não é necessário falar outra língua para ser compreendido, nem basta conhecer a língua diferente para interpretá-la.

O primeiro equívoco - e que vem sendo cometido por psicólogos de boa vontade, mas absurdamente ingênuos - consiste em considerar as palavras como sinais, e não como símbolos. Se as palavras fossem apenas sinais, haveria uma aprendizagem direta e automatizada de seu sentido. Depois, bastaria aprender os sinais correspondentes em outro sistema - ou outra língua - para sermos capazes de traduzí-los correta e invariavelmente. Por exemplo, o sinal "Pare" corresponderia ao sinal "Stop", e assim por diante. Mas as palavras são também símbolos e, para o homem, são quase sempre símbolos: representam ou substituem, de forma vaga ou precisa, praticamente tudo que possamos sentir ou pensar. "Cadeira", por exemplo, não é para mim um sinal; se fosse, eu deveria sentar-me cada vez que ouvisse a palavra. É assim, diga-se de passagem, a linguagem dos animais: cada palavra provoca um movimento bem definido de sentar, correr, procurar, levantar. Para mim, cadeira pode ser uma cadeira de balanço em casa de meu avô, onde as crianças curtiam as tristezas das tardes de verão; pode evocar outras tantas cadeiras, em diferentes situações, significativas ou tolas.

As palavras, entendidas como símbolos, apresentam também um problema lógico, que vem sendo discutido desde Platão: na minha experiência, conheço apenas cadeira, e não a cadeira. Como posso chegar a esse conceito, se as cadeiras que conheço são diferentes entre si, e como posso, diante de uma cadeira que ainda não conhecia, saber que pertence à classe das cadeiras? Esse problema, ainda que muito interessante, é aqui lembrado apenas para indicar que não se pode pensar nas palavras como sinais, nem como símbolos de sentido invariável.

Se as palavras não têm sempre o mesmo sentido, como podem servir para a comunicação entre os homens? Aparentemente, existe um sentido bem geral, nas palavras, e é esse sentido que permite a comunicação mais ou menos satisfatória entre os interlocutores. Ainda assim, essa comunicação seria um sistema extraordinariamente deficiente se fosse feita apenas através de palavras isoladas, desligadas de um contexto. Este suaviza ou intensifica as palavras, e permite a sua compreensão mais adequada pelo interlocutor; em outros casos, indica hipocrisia, a má fé ou a ironia de quem fala. A palavra "liberdade" pode iluminar o caminho de uma geração, mas pode também ser entendida como prova de má fé, que a ninguém ilude. A palavra "amor" pode sugerir um momento de êxtase, um interesse passageiro ou uma brincadeira. Por isso, os mais prudentes evitam as palavras solenes e grandiosas; por isso também, os grandes conversadores são aqueles que nos revelam as sutilezas das palavras, o seu efeito musical, a sua graça, o seu absurdo.

E as palavras não variam apenas em diferentes contextos. Com o passar do tempo, mudam de sentido, deixam de ser usadas e podem até morrer. Quem hoje diria, como Casimiro de Abreu, que uma rosa é "pudibunda e bela"? Sob certos aspectos, as palavras parecem seres vivos: conhecem o esplendor da juventude, a maturidade serena, os sinais de velhice e da morte. Belas, tornam-se feias; depois de cortejadas, conhecem o desprezo. Quem, hoje, ainda se lembra de "lero-lero"? A expressão deve ter durado uns cinco ou seis anos, e em 1947 foi consagrada por Manuel Bandeira, em "Belo Belo": "Mas basta de lero-lero/Vida noves fora zero." Nem isso a salvou da morte.

Parece não haver regras para predizer a duração ou o esquecimento das palavras; nem parece possível inventar, em determinado momento, um vocabulário para representar ou sugerir a realidade que nos parece nova. E, no entanto, sem que se perceba o processo de criação, as palavras novas invadem o nosso vocabulário. Os jovens de repente começam a falar em "vivência" e "conhecimento vivencial"; descobrem que não desejam ser "objetos", mas "sujeitos"; que as idéias não devem ser "coisificadas" ou "reificadas". Ninguém mais fala em "estudo", mas em "pesquisa". E aqui não se trata de ironizar a moda ou os jovens: as palavras novas correspondem a certos temores que rondam de perto as diferentes gerações. Cada uma delas, antes de encontrar seu caminho, ou talvez para encontrá-lo, precisa destruir os mitos da geração mais velha. Para isso, começa por destruir as palavras que os simbolizam ou representam; depois, cria as palavras que bem ou mal traduzem sua posição diante do mundo, sua maior ou menor compreensão das tarefas que enfrenta. Finalmente, extinto esse breve momento de afirmação e esplendor, como encontrar de novo todos os ecos emocionais provocados por essas palavras?

Portanto, na mesma língua existem problemas sutis de compreensão, quando passamos de uma época para outra. Um leitor despreparado pode englobar todo o lirismo como romantismo, sem perceber as diferenças que existem na expressão e no conteúdo dos sentimentos de várias épocas. Existem diferenças no vocabulário de diferentes classes sociais, e diferenças no conteúdo das mesmas palavras: trabalho tem um sentido para o artista que se realiza na obra, e outro, muito diverso, para o operário que enfrenta a monotonia de uma linha de montagem.

Se é difícil penetrar no sentido mais profundo de nossa língua, e nela descobrir sutilezas que só os grandes poetas e prosadores revelam, parece evidente que o processo deve ser ainda mais difícil no caso de uma segunda língua que aprendemos. No entanto, faz parte de nossa tradição intelectual valorizar a leitura "no original", bem como criticar todos os tradutores. Supõe-se, sempre ou quase sempre, que apenas o original pode dar ao leitor todo o conteúdo da obra, e que a tradução é sempre um equívoco.

Antes de discutir essas idéias, convém fazer outra pergunta, quase nunca proposta: até que ponto o leitor é capaz de compreender o original? De maneira mais concreta, convém propor a cada um de nós: em quantas línguas somos capazes de ler uma obra literária? Ou, de maneira ainda mais decisiva: até onde vai nossa sensibilidade para as qualidades estéticas de um texto literário em língua estrangeira? Certamente, seria preciso distinguir a poesia da prosa e, nesta última, diferentes níveis de dificuldade ou acessibilidade do texto. Em qualquer caso, os que respondem sinceramente dificilmente diriam que lêem francês e inglês; pouquíssimos diriam que lêem também o alemão. Ora, esse conhecimento realmente acima do comum ainda não permite ler no original as obras literárias significativas: seria preciso conhecer também o grego, o russo, o latim. Essa ambição, embora legítima para o erudito, parece impensável para o escritor e o crítico, mais impensável ainda para o leitor comum, ainda que de bom gosto.

Por isso mesmo, a tradução é indispensável, pois é através dela que atingimos a grande herança da literatura. Essa afirmação, que deveria ser um lugar-comum, parece esquecida por todos.

Admite-se, com imodéstia extraordinária, que qualquer intelectual brasileiro é capaz de ler "Ulysses" ou, quem sabe, o "Finnegans Wake" no original. E talvez em todos nós provoque certo espanto verificar que Thomas Mann se considerou incapaz de ler essas obras de James Joyce. Quantos, entre nós, teriam a coragem dessa confissão direta?

É bem verdade, dirão os maliciosos, que é fácil confessar ignorância ou limitação quando a gente se chama Thomas Mann. Mas essa confissão pode levar-nos não só à modéstia um pouco maior, mas também à valorização de um trabalho ingrato e incompreendido por todos. Num país que, em matéria de livros, vive sobretudo de traduções, estas não são discutidas, nem parece haver preocupação em saber quando é que o tradutor foi feliz, ou fracassou. Quem se inicia nessa atividade não sabe, a rigor, o que é que deve fazer, nem como solucionar as dificuldades imensas que enfrenta. Os comentários às traduções se fazem nas salas das editoras ou nos escritórios dos revisores, supostamente capazes de eliminar os erros mais grosseiros dos tradutores.

E é realmente difícil começar um debate. Valerá a pena criticar, indicar erros - quando se sabe que somos todos pecadores? Mas, de outro lado, não será melhor discutir esses pecados em público, reconhecer que são pecados, impedir que outros cometam os mesmos erros e continuem a dar ao tradutor a fama de descuidado e irresponsável?

Talvez valha a pena começar tudo de novo e perguntar com toda ingenuidade: é possível traduzir? E perguntar depois: se a tradução é possível, como deve ser feita?

 

 

 

* Originalmente publicado no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo em 5 de Novembro de 1996 e, posteriormente, no livro O Amor Romântico e Outros Temas.