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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.12 no.1 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642001000100004 

COMENTÁRIOS CRÍTICOS DAS REFERÊNCIAS TEXTUAIS DE FREUD A KANT

 

Leopoldo Fulgencio1
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 

 

Propõe-se aqui sublinhar,  criticamente, os principais momentos da obra de Freud onde temos referências textuais a Kant, tanto para dar início a um trabalho de análise comparativa entre conceitos de uma e outra disciplina, quanto para indicar que há uma relação estrutural entre as posições filosóficas de Kant e o pensamento epistemológico de Freud aplicado à psicanálise, enquanto prática própria às ciências da natureza. Neste sentido, defende-se que a crítica de certos conceitos fundamentais da psicanálise freudiana, enquanto pertencente ao quadro da filosofia kantiana, seria uma atitude necessária ao desenvolvimento da psicologia psicanalítica.

Descritores: Filosofia. Ciência. Freud, Sigmund. Kant, Immanuel.

 

 

A relação entre Freud e Kant é uma evidência ainda a ser desenvolvida em seus detalhes, tanto para psicanalistas como para filósofos, cada um segundo seus campos próprios. A questão, para nós psicólogos, não se resume a temas específicos sobre os quais Kant teria proposto algo que Freud o retomaria, a seu modo, para desenvolver ou criticar. Ao contrário, algumas das referências ao filósofo nos levam a supor que a relação de Freud com Kant é mais abrangente, pois refere-se à própria epistemologia das ciências naturais onde Freud reclama sua pertinência.

Neste artigo, trata-se de seguir, de forma crítica, as referências que comprovam a presença de Kant na obra de Freud, preparando o caminho para um trabalho mais amplo que consiste na comprovação da hipótese de que o programa epistemológico kantiano para as ciências naturais apresenta um conjunto de regras seguidas por Freud, na construção da sua metapsicologia.2

Ainda que nos ocupemos de mostrar essa conexão entre a filosofia kantiana e a tentativa de Freud de fazer uma psicologia científica - uma psicologia que pretende tomar "o espírito e a alma (...) exatamente da mesma maneira que qualquer outra coisa estrangeira ao homem" (Freud, 1933/1995a, p. 243)3 - devemos ressaltar a diferença marcante entre os problemas clínicos de Freud (enquanto problemas pertinentes ao campo da ciência) e os problemas filosóficos, alheios à psicanálise, embora lhe sirvam de fundamento.

Mas qual o interesse, para o psicólogo e para o psicanalista, em fazer estas referências? A maneira como Freud se utiliza de Kant mostra como ele deseja manter-se num campo de trabalho próprio ao do cientista, onde o que o guia são os problemas4 empíricos que seu aparato conceitual possibilita enunciar e resolver.5 Ou seja, são os problemas clínicos que impulsionam o desenvolvimento da metapsicologia, e não as questões teóricas que recairiam sobre os conceitos fundamentais que a psicanálise se vê na necessidade de postular. Como diz Freud, ao referir-se ao inconsciente dinâmico suposto pela psicanálise: "A psicanálise supõe um postulado fundamental que pertence à filosofia discutir mas cujos resultados justificam o valor"(Freud, 1940/1985, p. 3).6

Esse postulado refere-se àquilo que Freud supõe existir entre o órgão somático do psiquismo (o cérebro ou o sistema nervoso, que é o lugar de ação do psiquismo) e nossas atividades de consciência das quais temos conhecimento direto (a vida anímica ou a alma, como Freud costuma denominar).

Freud reconhece que considerar a vida anímica como um objeto natural apresenta sérios problemas epistemológicos, no que diz respeito a nosso acesso direto (empírico) a esses dados: "Tudo o que se encontra entre esses dois extremos (cérebro - atividades de consciência) nos permanece desconhecido" (Freud, 1940/1985, p. 3).7 Para Freud a localização anatômica, ou ainda, a identificação da natureza físico-química das substâncias envolvidas nos processos cerebrais, não traria o conhecimento necessário ao significado dos atos psíquicos humanos: "se houver entre eles (entre o cérebro e as atividades da consciência) alguma conexão, ela nos forneceria no máximo uma localização precisa dos processos inconscientes sem contribuir com nada mais (do que isso), para sua inteligência" (Freud, 1940/1985, p. 3). Freud se vê, então, na necessidade de teorizar sobre uma vida anímica inconsciente cujo acesso empírico direto lhe é negado pela própria natureza de seu objeto, construindo uma psicologia que vai além da psicologia da consciência, ou seja, uma metapsicologia.

Para apreender, organizar e dar inteligibilidade a seu material empírico (aquilo que ele pode observar diretamente em seus pacientes) em função de seus princípios dinâmicos,8 Freud considera necessário partir de certos conceitos básicos fundamentais que não são nem muito claros nem muito precisos em seu conteúdo, funcionando como convenções.

Nós ouvimos com freqüência a defesa da exigência segundo a qual toda ciência deve ser edificada sobre conceitos fundamentais claros e bem definidos. Na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo as mais exatas, começa por tais definições. O verdadeiro início da atividade científica consiste sobretudo na descrição dos fenômenos que são em seguida agrupados, ordenados e integrados em conjuntos. Já na descrição, não se pode evitar de aplicar ao material certas idéias abstratas que advêm daqui e dali, certamente não apenas das novas experiências. Tais idéias - os conceitos fundamentais posteriores da ciência - são, na elaboração futura do material, ainda mais indispensáveis. Elas possuem, primeiramente, um certo grau de indeterminação; e não está em questão discernir claramente seu conteúdo. Tanto quanto elas se encontram neste estado, coloca-se de acordo com sobre sua significação reenviando-se, de maneira repetida, ao material da experiência do qual elas parecem ter sido apreendidas, mas que, na realidade, lhe é submisso.(Freud, 1915/1988c, p. 163)9

Freud está se referindo ao conceito de pulsão. Com isso, já temos dois conceitos fundamentais (o inconsciente dinâmico e as pulsões), que não são retirados diretamente da experiência sensível, mas postulados a priori. Enquanto que a tarefa de discutir esses fundamentos, em sua natureza última, caberia ao filósofo, ao cientista psicanalista freudiano caberia verificar se estes conceitos são ou não úteis para dar conta de seu material empírico, avaliando-os como corretos ou incorretos em função dos resultados que são obtidos, ou seja, em função da resolução dos problemas que eles permitem realizar. É nesse sentido que Freud pode ser lido como defensor do ponto de vista heurístico na prática científica.

Com isso, caracterizamos a proximidade e diferença que liga a filosofia à psicanálise. Em termos específicos, focando o problema em Kant e Freud, tratar-se-ia de fazer uma análise comparativa entre as formulações kantianas (lei moral, ação moral, faculdade de julgar, formas a priori, coisa em si, etc.) e as formulações da psicologia freudiana (Super-eu e Complexo de Édipo, desenvolvimento infantil, inconsciente etc.), 10marcando e explicitando suas correspondências e diferenças. Dizendo noutros termos, o paradigma11  freudiano seria devedor do sistema kantiano, inclusive no que se refere aos elementos metafísicos de sua base disciplinar, tal qual acontece noutros ramos das ciências naturais.12

O trabalho de comprovação textual, numa análise crítica epistemológica do problema, fica apenas iniciado neste artigo. E em termos gerais pretende-se, com o conjunto de referências que compilei, dar subsídios textuais para comprovar a hipótese de que é dentro do quadro epistemológico maior, traçado por Kant em seus parâmetros fundamentais, que Freud construiu toda a metapsicologia.

 

1. Kant na formação de Freud

Freud foi educado na prática científica, no laboratório de fisiologia dirigido por Brücke, a quem tomou como um de seus modelos e que exerceu sobre ele uma influência profunda:

Eu terminei por encontrar (de 1876 a 1882) no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke, paz e plena satisfação, como também pessoas que eu podia respeitar e tomar como modelos, Mestre Brücke ele mesmo e seus assistentes Sigm. Exner e Ernst von Fleish-Marxow. (Freud, 1925/1992a, p. 57)13

Brücke era uma autoridade da fisiologia física em Viena, pertencendo a uma tradição específica de pesquisa científica, chefiada por Helmholtz (Berlim), sua figura maior, que foi quem ditou os parâmetros básicos desse modo de conduzir e realizar pesquisas. Pode-se dizer que Brücke era um dos representantes desta tradição, sendo, inclusive, na sua época, considerado o embaixador de Helmholtz em Viena. Freud, antes mesmo de ingressar no laboratório de Brucke, com 17 anos, já lera e se interessara por Helmholtz,14 chegando mais tarde a chamá-lo, numa carta a Stefan Sweig, em 19/10/1920, de um "gigante do intelecto" (Freud & Zweig, 1995, p. 25), tomando-o, mesmo, como um ídolo.15 A postura epistemológica de Helmholtz é, portanto, significativa, para a formação intelectual de Freud. Ao lermos o clássico texto de Helmholtz, "Os fatos na percepção," de 1878, encontramos uma declaração sobre a filiação deste último a Kant: "estamos ainda sobre o solo de seu sistema" (Helmholtz, 1878/1989, p. 270). Não se trata de um comentário vago, pois Helmholtz (1878/1989) especifica: "acentuei em meus estudos anteriores o acordo entre a recente fisiologia e as doutrinas de Kant." Caberia, então, desenvolver a análise do que significaria "estar sob o solo do sistema kantiano," como campo de pertinência dessa tradição científica. Aqui, no entanto, não se trata de desenvolver e comentar o texto de Helmholtz, mas sim o de seguir, no traçado de nosso panorama, guiados pelo intuito de mostrar a presença tanto direta como indireta de Kant em Freud.

Outros cientistas do século XIX, importantes para Freud, tais como Fechner e Mach, também reconhecem em Kant a base filosófica que anima suas pesquisas, ainda que existam certas críticas e diferenças. Já citamos alguns estudos atuais que propõem esta interpretação: "A classificação de Mach dos problemas e dos procedimentos de solução de problemas, sua distinção entre conceitos fenomênicos e construções do pensamento, todos esses ingredientes centrais de sua lógica de pesquisa podem ser facilmente remontados a Kant (Loparic, 1982/2000, pp. 7-8).

Não será diferente para Freud, pois ele também tem em Kant o sistema de base para sua pesquisa, no campo das doenças nervosas. Não se parte, aqui, do pressuposto de que Freud teria feito um tipo de exegese do pensamento de Kant, para depois aplicá-lo à sua prática científica; nem mesmo supomos que Freud estivesse em posse do entendimento pleno e total do obra de Kant, tal qual se esperaria de um filósofo profissional. O que se defende é que Freud formou-se no interior de uma tradição científica específica, onde aprendeu, junto a seus mestres e em sua prática de laboratório, como se fazia ciência, como se formulavam problemas válidos, como se procuravam soluções. Supõe-se que é nesse âmbito modelar que Freud se inscreverá no sistema kantiano, pois sua educação epistemológica está de acordo com os padrões científicos das ciências da natureza, que se tornaram hegemônicos no final do século XIX.

 

2. Kant na biblioteca particular de Freud

Antes de comentarmos essa pertinência de Freud ao sistema kantiano, vamos retomar o que o próprio Freud diz sobre Kant em sua obra, apresentando, em primeiro lugar, uma curiosidade sobre os livros de Kant que Freud tinha em sua biblioteca particular.

Pode-se obter, no Museu Freud, a relação dos livros que pertenciam à sua biblioteca particular em Viena, aproximadamente 2000, embora seja estimado que contivesse 2500 volumes, antes de sua partida para Londres, em 1938. Nesta relação constam as seguintes obras de Kant: 1) uma edição de 1880 de Antropologia do Ponto de Vista Pragmático; 2) uma edição de 1872-1873 entitulada Escritos Menores Sobre a Filosofia da Natureza, assinada "Dr. Sigm. Freud / 24/4/82;" e 3) uma edição de 1870 de Crítica da Razão Pura, assinada "Dr. Sigm. Freud 24/4/82," com diversas marcas nas margens, anotações e trechos sublinhados.

Lembremos que em 1880 Freud tem 24 anos, e está trabalhando no laboratório de fisiologia de Brücke desde 1876, tendo já seguido, ao menos por três anos, os cursos de filosofia de Brentano (de 1873 a 1876). Em 1882, terminada a graduação médica, continuava como Demonstrador no Instituto de Fisiologia - posição que ocupou de maio de 1881 a julho de 1882. O comentário de Jones nos informa sobre a vida profissional de Freud nesta época:

Simultaneamente com essa atividade (de Demonstrador) (Freud) trabalhou durante um ano em investigações avançadas em análise dos gases, no Instituto Químico de Ludwig, onde seu amigo Lutsgarten era Assistente. Embora chegasse a gostar de Química, não obteve qualquer sucesso nessa matéria, e mais tarde comentou sobre esse ano perdido como um período infrutífero, cuja recordação mostrava-se humilhante. Na verdade, posteriormente rotulou 1882 como "o mais sombrio e o menos bem sucedido ano da minha vida profissional." (Jones, 1979, p. 87)

Neste momento, Freud já aprendera as diretrizes básicas sobre o proceder científico, comungando, em termos gerais, do ponto de vista de Brücke. Em junho de 1882, ocorre uma mudança significativa; seguindo os conselhos de Brücke, Freud abandonará a carreira teórica para tornar-se um clínico, como ele mesmo nos conta em sua auto-apresentação de 1925:

A mudança aconteceu em 1882, quando meu professor, que eu venerava acima de tudo, corrigiu a generosa imprevidência de meu pai, aconselhando-me, drasticamente, dada minha péssima situação material, a abandonar a carreira teórica. Eu segui seu conselho, deixei o laboratório de fisiologia e entrei como "aspirante" no Hospital Geral (de Viena).(Freud, 1925/1992a, p. 58)16

Podemos supor, ainda que sem nenhuma certeza, que foi justamente neste momento que Freud teve tempo e disposição para dedicar-se a um estudo da Crítica da Razão Pura, obra que, mesmo para alguém bem informado sobre os problemas da filosofia (e, portanto, apto a ser um bom leitor) e com os dons intelectuais de Freud, exige um trabalho laborioso.

 

3. Kant na correspondência de Freud

Na sua correspondência particular, encontramos, poucas vezes, referências de Freud a Kant. Nas cartas de juventude enviadas à Eduard Silberstein, há certos comentários que Brentano tecera sobre Kant, quando Freud o procurou em 1875, já na faculdade de medicina de Viena, aos 19 anos, e ainda desejoso de fazer um doutorado em filosofia. Brentano faz um certo apanhado histórico do que seria necessário estudar para se fazer um doutorado de filosofia, junto com o de medicina: começar por Descartes, desconsiderando alguns de seus sucessores, sem mérito para leitura (Geulincx, Malebranche, Spinoza); Locke e Leibniz não seriam negligenciáveis; o período seguinte, caracterizado por uma filosofia popular, só teria interesse histórico e não filosófico; no período cético, não se poderia ignorar Kant e Hume, ainda que Brentano não se mostrasse muito entusiasmado com Kant (Freud & Silberstein, 1990, pp. 151-152, 15/03/1875). Noutra carta a Silberstein, num raro momento no qual Freud fala sobre o tema da existência de Deus, ele diz:

Ora, o mais reflexivo de todos os filósofos, Kant, tinha refutado rigorosamente, há um século, e por quatro provas, que pudesse existir um Deus (escrevera Douai). Eis o que me parece manifestamente errôneo; Kant refutou as três ou quatro provas da existência de Deus, mas deu, ele mesmo, só uma refutação de todas as provas possíveis, a que está em relação com a hipótese fundamental de seu sistema, os julgamentos sintéticos a priori. (Freud & Silberstein, 1990, p. 153, 11/04/1875)

Um pouco mais à frente, nesta mesma carta, Freud complementa seu comentário sobre Douai: "Talvez ele tenha lido a Crítica da Razão Prática e descoberto que o mais reflexivo dos filósofos não pode prescindir de um Deus, mas que ele é incapaz de provar sua existência" (Freud & Silberstein, 1990). Fica evidente que Kant é familiar a Freud, e que ele também lera a Crítica da Razão Prática.

Na sua correspondência com Ferenczi, há apenas uma menção ao nome de Kant, referida à questão do imperativo categórico e à ação moral. Freud agradece à Ferenczi e à sua esposa Gisela o envio de um saboroso rôti, em 1918, no fim da primeira grande guerra, e comenta: "Não há mérito nenhum em amar seus amigos quando eles cuidam de nós; a dificuldade bem conhecida que Schiller encontrou no imperativo categórico de Kant" (Freud & Ferenczi, 1996, p. 347, 03/12/1918).

Mantendo-nos no campo das correspondências de Freud, um comentário mais extenso sobre a proximidade de Freud com Kant vem de Ludwig Binswanger, quando de sua segunda (15 a 26 de janeiro de 1910) e terceira (17 a 18 de maio de 1913) visitas a Freud. Nas anotações de Binswanger sobre a segunda entrevista, em seu manuscrito reencontrado, podemos ler:

É necessário ainda ressaltar certos pontos retirados das entrevistas variadas que eu tive o privilégio de ter com Freud: 1. Suas concepções sobre o inconsciente. Ao longo de uma destas entrevistas eu retomei uma de suas fórmulas das seções da quarta-feira: "O inconsciente é metafísico e nós o tomamos simplesmente por real!" Esta frase prova que sobre esta questão Freud se resignou. Ele disse que nós nos portamos como se o inconsciente fosse uma realidade à imagem do consciente. Mas como um verdadeiro pesquisador científico, ele nada diz sobre a natureza do inconsciente, porque nós não sabemos nada com certeza, ou sobretudo, nós só podemos inferir a partir do consciente. Ele afirma que, da mesma maneira que Kant postulou a coisa em si atrás da aparência, ele postulou, atrás do consciente acessível à nossa experiência, o inconsciente, mas que este jamais poderia ser um objeto da experiência direta. (Freud & Binswanger, 1995, p. 87)

Na sua terceira entrevista com Freud, em maio de 1913, Binswanger está na companhia do filósofo Paul Häberlin. Ele comenta ter poucas lembranças deste encontro, e escreve a Häberlin perguntando sobre aquele momento. Sua resposta, em 10 de junho de 1954, apresenta os diversos problemas que tinham sido objeto de diálogo: a questão da consciência (censura) como derivada da pulsão e a justificativa de Freud baseada no narcisismo, o estatuto filosófico do inconsciente, e a filosofia - mas também a própria psicanálise - como formas convenientes de sublimação da sexualidade recalcada. Retomemos na carta-documento de Häberlin, a questão do inconsciente e a da sublimação. O primeiro tema, porque ele interessa diretamente a nosso trabalho e, o segundo, por revelar o interesse prático (científico) de Freud, delimitado por uma função social específica e, portanto, jamais dado a servir como uma "visão de mundo," seja ela sociológica, política, estética, e muito menos ainda filosófica ou religiosa. Diz Häberlin:

2. Freud me perguntou se "a coisa em si" de Kant não seria como o que ele (Freud) entendia por "inconsciente." Eu neguei-lhe rindo e dei a entender que as coisas se situavam, certamente, em planos diferentes.

3. Freud defendeu - mas, ao que me pareceu, sem se levar verdadeiramente a sério - que a filosofia nada mais era do que a forma mais conveniente de sublimação da sexualidade recalcada. Eu retruquei perguntando-lhe se não seria o mesmo no caso da ciência e em particular da psicologia psicanalítica. Visivelmente um pouco surpreso, ele respondeu evasivamente: a psicologia tem ao menos uma função social. (Freud & Binswanger, 1995, p. 188)17

Como comenta Loparic, parece que nem Binswanger nem Häberlin, neste momento, entenderam o que Freud estava falando, pois, como pode ser confirmado pelo texto sobre o inconsciente de 1915,

Freud estava trabalhando no interior da crítica kantiana dos limites do conhecimento humano. Ele usava, sim, o conceito de inconsciente psíquico justamente como uma coisa em sí no sentido kantiano, ou seja, como um objeto incognoscível em si, mas que, no entanto, deve ser introduzido como uma "ficção" dinâmica a fim de / que seja possível a formulação de explicações dinâmicas sobre as neuroses.(Loparic, 1999, pp. 115-116)18

No restante da correspondência de Freud até agora publicada, não encontramos nenhuma outra referência de Freud a Kant, ainda que o filósofo seja citado por seus interlocutores,uma vez ou outra.19

 

4. Kant nas Minutas da Sociedade Psicanalítica de Viena

Na sua grande maioria, os temas tratados nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, de 1906-1918, versam sobre problemas clínicos, com uma ou outra discussão sobre a psicologia dos artistas e de certos personagens literários, com raras passagens onde se levantam problemas filosóficos. Kant é citado poucas vezes, constituindo, como veremos, apenas uma referência de passagem e não sendo desenvolvido, em nenhum momento, como um tema filosófico para discussão. Vejamos, em primeiro lugar, as citações diretas a Kant, para depois fazermos algumas alusões a temas que indiretamente têm a ver com a obra do filósofo.

Na sessão de 27 de fevereiro de 1907, trata-se de discutir o livro de Möbius,O Estado Desesperado de Toda Psicologia. Stekel20 considera Möbius um "lançador de bombas sensacionalista," referindo-se a dois outros textos, nos quais Möbius também faz certas proposições sensacionalistas: "Os aspectos patológicos de Goethe" e "A imbecilidade fisiológica da mulher." No texto em discussão nessa sessão, Stekel diz que eles estão face à última "bomba"; nele, Möbius fala das pulsões como primum movens, deixando de lado, no entanto, a obra de Freud, e não dando à sexualidade o valor que a psicanálise lhe confere. Na discussão que se segue à retomada dos temas centrais do livro, tanto Adler quanto Hautler recolocam a questão do imperativo categórico, como um "motor" do agir humano. Os comentários de Freud parecem deixar Kant à margem, não tocando diretamente no problema do imperativo categórico. Recolocam, entretanto, a questão relativa ao que seria necessário para a constituição de uma psicologia que tratasse dos elementos que produzem o agir humano, fazendo a distinção entre as pulsões e as emoções, em relação ao campo da consciência (suponho que, reconhecendo nesta, o agente do imperativo categórico kantiano). Diz Freud:

A tentativa de Möbius de constituir uma nova psicologia elementar estaria naturalmente condenada ao fracasso nos limites de um opúsculo assim tão breve. Todavia, se quer-se criar uma tal psicologia elementar (uma metapsicologia que não leve em conta a diferença entre consciente e inconsciente), seria necessário fazer uma distinção clara entre pulsões e emoções. Seria necessário começar por estabelecer que a pulsão é um conceito, um nome designando a influência dinâmica ou perturbadora que as necessidades orgânicas (estruturais) exercem sobre os processos psíquicos. A pulsão liga o orgânico ao psíquico. Mas a emoção pertence inteiramente ao domínio psíquico. A consciência (o sentido interior) é regulada sobre duas extremidades de um processo formando um grande arco: as percepções e as emoções. Todo o resto não entre em linha de conta na significação do termo consciência. (Nunberg & Federn, 1962/1976, p. 155)

Freud evita entrar nas discussão sobre os fundamentos filosóficos da ação humana, e se dirige para a formulação de conceitos que possam ter uma ligação direta com o mundo empírico, ainda que um deles, a pulsão, seja apenas uma convenção(cf. Freud 1915/1988c, p. 164).21

Em 24 de novembro de 1909, a sessão é dedicada à discussão de uma conferência de Tausk: "Teoria do conhecimento e psicanálise." Tausk apresenta, em primeiro lugar, uma certa história da teoria do conhecimento, especificando que:

A série de filósofos da teoria do conhecimento que se ocuparam do conhecimento em seu sentido estreito, começa por Aristóteles, e segue, passando por Spinoza até Hume, com quem a teoria do conhecimento propriamente dito começa. Em seguida vem seu sucessor Kant, que nos ensinou como nós conhecemos a função de conhecer ela mesma. (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 323)

Nesse desenvolvimento, Tausk segue explicitando a contribuição destes filósofos, para, ao final, incluir as contribuições de Freud, referindo-se à metapsicologia e acentuando que os "objetos da teoria do conhecimento são a consciência e a vida pulsional. A consciência tem por função reconhecer o inconsciente; é um órgão destinado a tornar disponíveis as experiências conscientes" (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 326). Tausk termina sua exposição referindo-se ao problema da angústia, da sexualidade e do eu, para concluir: "O conceito de metapsicologia não está corretamente formado; seria necessário dizer ‘psicologia transcendental,’ porque é uma psicologia que coloca em jogofunções incondicionais"22 (p. 326).

Seria, então, de se esperar de Freud, caso ele tivesse algo a dizer sobre a filosofia do conhecimento, alguns comentários e, em especial, considerações sobre Kant. Mas ele não se coloca como filósofo e, mais uma vez, rejeita discutir filosoficamente: Freud toma posição apenas de uma maneira muito geral sobre a exposição.

Pessoalmente, ele tem dificuldades particulares para apreender idéias assim tão abstratas como as apresentadas na conferência, idéias que deveriam ser apresentadas de maneira bem mais elementar. Seria interessante de ver se um estudo filosófico traria alguma vantagem além da tradução de uma língua difícil de compreender, ou se ela permitiria uma simplificação suplementar ou a obtenção de resultados claros. (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 330)

A posição cautelosa de Freud é evidente, ainda que ele seja sempre prudente: "O domínio filosófico de nossas experiências trará efetivamente novos resultados; Freud não pode julgar se os tempos estão maduros para isso". (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 330)

Na sessão de 22 de dezembro de 1909, Tausk retoma a questão das formas de nosso funcionamento psíquico, referindo-se, então, novamente, a Kant:

Tauk gostaria de voltar à definição dada recentemente pelo professor Freud segundo a qual a forma é o precipitado do conteúdo que a precedeu (no tempo) e observar que isto não pode se aplicar às formas puras; as formas puras são as formas de nosso funcionamento. Seria necessário chegar a mostrar que os movimentos afetivos têm também estas experiências puras por origem. Estas formas puras não podem ser o precipitado de experiências anteriores; elas são a condição prévia para uma realização deste gênero. (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 358)

É evidente que Tausk está se referindo às formas puras, tanto do espaço quanto do tempo, e às categorias do entendimento que, juntas, constituem as condições de possibilidade a priori da experiência sensível. Freud não aceita, no entanto, a discussão nestes termos, dizendo que o problema filosófico e o dele são, na verdade, diferentes:

O Professor Freud observa que os filósofos não compreendem a mesma coisa que ele - a saber, a forma artística; inclui-se o espaço e o tempo, etc., - quer dizer as formas puras - isto significaria fazer explodir os limites do conceito de forma (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 358).

Nesta mesma sessão, logo em seguida, Federn insiste sobre o tema dos a priori kantianos no pensamento humano:

Federn constata que o professor Freud só se reportou à forma da representação (Darstellung)23e não às formas puras do pensamento. Mas estas formas do pensamento devem também um dia terem sido adquiridas. Kant as considerou como formas a priori, porque ele nada sabia da grande linha da hereditariedade na espécie humana. (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 359)

Freud responde que as coisas não podem ser respondidas dessa maneira, explicitando qual o caminho que ele toma na procura da resolução de seus problemas, partindo daquilo que ele tem como matéria possível de ser observada no presente e voltando para as suas origens (causais): "nas nossas explicações nós não fazemos outra coisa do que remontar às suas origens" (Nunberg & Federn, 1967/1978, p. 359). E, logo em seguida, apresenta dois exemplos clínicos para chamar a atenção sobre como certas idéias obsessivas estão relacionadas à moções sexuais infantis. Trata-se, portanto, de reconhecer pontos de partidas e objetivos diferentes entre a filosofia e a psicanálise. A posição de Freud pode ser reconhecida num comentário que ele faz, em 1923, sublinhando as características da psicanálise como uma ciência empírica:

A psicanálise não é um sistema, como o da filosofia, que parte de alguns conceitos fundamentais rigorosamente definidos, com os quais ela procura apreender o universo e depois, uma vez acabado, não dispõe mais de espaço para novas descobertas e melhores maneiras de ver. Ela se liga preferencialmente aos fatos de seu domínio de trabalho, procura resolver problemas imediatos da observação, avança tateando seguindo a experiência, é sempre inacabada, sempre pronta a mudar ou modificar suas doutrinas. Ela suporta, tão bem quanto a física ou a química, que seus conceitos supremos sejam sem clareza, seus pressupostos provisórios, e ela espera de seu trabalho futuro uma determinação mais rigorosa destes. (Freud, 1923/1991, pp. 203-204)24

As outras referências a Kant, ou ao sistema kantiano, são, ou muito indiretas, ou apenas alusivas, e necessitariam de um esforço de interpretação para preencher diversas lacunas que ligariam o pensamento de Freud ao de Kant. Citemos as que compilamos ao ler as minutas: em 31/outubro/1906, Freud discorre sobre a formação empírica de nossa faculdade de julgar, dizendo que "o homem só se torna capaz de um julgamento independente a partir do momento em que ele coloca em questão a autoridade parental" (Nunberg & Federn, 1962/1976, p. 62), o que nos levaria a perguntar como isso se articularia com a faculdade de julgar de Kant; em 23/janeiro/1907, Freud comenta que a "a maior parte dos processos psíquicos são inconscientes", numa tese que tem correspondência com o pensamento de Kant quando ele afirma que "no homem, o campo das representações obscuras (não conscientes) é o mais extenso" (Kant, 1798/1994, p. 23); em 20/março/1907, Freud fala que "a vida psíquica da criança é importante para o conhecimento psicológico dos conceitos filosóficos" (Nunberg & Federn, 1962/1976, p. 70), ressaltando que seria "necessário observar em que idade a criança constitui os fundamentos da lei moral e em que momento ela começa a aplicá-los ao mundo exterior (por ex.: justiça, causalidade etc.)" (p. 70). Freud é aqui muito bem humorado, ao considerar que as teorias filosóficas podem ter estreitas ligações com a psicologia do filósofo: "quando se tem em conta o fator infantil, é necessário afastar a idéia humorística, mas impossível de provar, que Thales, para quem tudo nasce da água, sofria de enurese e que Heráclito era um erótico anal, por causa de suas alucinações auditivas e de seu senso de ordem" (p. 70); e, por fim, em 08/fevereiro/1910, temos apenas uma alusão de Furtmüller aos comentários de Kant sobre Swendborg, em seu Sonhos de Um Visionário, sem que se sigam reflexões a respeito deste texto. A crítica de Kant a Swendborg, enquanto produtor de um conhecimento baseado em ficções (visões) sem nenhum controle, seria interessante de se ver comparada às ficções heurísticas que constituem a metapsicologia psicanalítica.

 

5. Kant nos textos de Freud

Especifiquemos, agora, os principais momentos em que Freud evoca o nome e a obra de Kant, ao longo de seus textos publicados. Em 1900, na Interpretação dos Sonhos, Freud (1900/1980) comenta:

Kant indica ao que parece, numa passagem da Antropologia, que o sonho tem sem dúvida por função nos mostrar nossas disposições secretas e nos revelar, não exatamente o que nós somos, mas o que nós seríamos se nós tivéssemos recebido outra educação.(p. 69)25

Não encontramos na Antropologia (Kant 1798/1994) essa passagem à qual Freud se refere, tampouco a indicam a Studienausgabe ou as Obras completas publicadas pela editora Amorrortu, limitando-se, ambas, a reconhecer que não foi possível encontrar essa passagem na obra do filósofo. Na Antropologia, Kant considera os sonhos como sendo uma invenção (da imaginação) involuntária no estado de saúde, mas não os toma como um objeto de uma Antropologia pragmática, pois "não se pode deduzir destes fenômenos (o sono e o sonambulismo) nenhuma regra de comportamento no estado onírico: estas regras (da faculdade de conhecer) valem apenas para o homem em estado de vigília que não quer sonhar ou dormir sem pensamento" (Kant, 1798/1994, p. 63). Trata-se, para Kant, de identificar dois mundos diferentes: "Quando estamos acordados nós temos um mundo comum; quando dormimos cada um tem o seu" (p. 63).

Mais à frente da Traumdeutung, Freud dedica um capítulo para apresentar algumas relações entre os sonhos e as doenças mentais, lembrando um comentário de Kant que toca neste tema: "Kant diz em algum lugar: ‘O desatinado é um sonhador acordado’"(Freud, 1900/1980, p. 85).26 Logo em seguida, cita também Krauss: "A loucura é um sonho enquanto os sentidos estão despertos" (p. 85). Freud está citando um pequeno escrito de Kant, anterior à primeira Crítica (Ensaios Sobre as Doenças da Cabeça, de 1764). A psicologia que Kant trata neste ensaio pertence ao campo da filosofia, e não se constitui por meio de uma generalização a partir dos dados empíricos. Ainda que Kant suponha causas orgânicas para as perturbações de nossas faculdades mentais, reconhecendo que se trata de doenças da cabeça, ele constrói sua psicologia baseado em faculdades a priori, que dariam o pano de fundo modelar sobre nosso funcionamento psíquico, apoiando-se, assim, numa elaboração racional sobre nossa faculdade sensível de apreender representações, nosso entendimento (enquanto faculdade dos juízos) e nossa razão (enquanto faculdade argumentativa). Kant toma estes elementos a priori como a base de sua análise e, a partir daí, classifica os tipos de distúrbios e doenças, com seus sintomas correspondentes.27 Neste ensaio, divide as doenças da cabeça em dois grandes grupos: o da impotência (imbecilidade) e o da demência (mente perturbada). O primeiro grupo trata de doenças caracterizadas por uma perturbação que torna a pessoa por ela acometida (o imbecil) "impotente no que diz respeito à memória, à razão e, também em geral, às impressões sensíveis" (Kant, 1764/1993, p. 86); são, na maior parte das vezes, incuráveis, jamais permitindo "ao infeliz deixar o estado infantil" (p. 86). Quanto aos do segundo grupo, caracterizadas pelas fraquezas da mente, podem ainda ser ordenadas segundo três subdivisões: 1) a demência dos conceitos de experiência, que caracterizam o desatino; 2) a desordem da faculdade de julgar, que, na verdade, é próxima do desatino, mas que se denomina mais especificamente de delírio; 3) a corrupção da razão (faculdade das argumentações), tendo em vista os juízos mais universais, que caracteriza o desvairo. Kant prepara a explicação dessa doença da cabeça do primeiro grupo (desatino), comentando o que ocorre com o nosso espírito quando sonhamos. A princípio, estes dois estados deveriam seguir os mesmos princípios: "Não temos razões para crer que no estado de vigília nosso espírito siga leis diferentes do que quando dorme" (p. 87). No entanto, estamos colocados em dois cenários diferentes, para os mesmos princípios: "na vigília, somente a vivacidade das impressões sensíveis obscurece e torna irreconhecíveis as imagens quiméricas, mais tênues, enquanto que, no sono, estas possuem toda sua força, já que nenhuma impressão exterior tem, aí, possibilidade de aceder à alma" (p. 87). Vem, portanto, daí, a vivacidade que sentimos quando sonhamos: "Não é de se surpreender, portanto, que sonhos, enquanto durem, sejam tomados como experiências verídicas de coisas efetivas. Pois, visto serem, nesse estado, as representações mais fortes na alma, estão para ele assim como as impressões estão para a vigília" (p. 87). O desatino seria, então, no estado de vigília, tomar uma representação quimérica como se fosse real (sensível), tal como ocorre quando sonhamos: "Chama-se desatino essa qualidade do perturbado de, ainda que sua doença não assuma um grau suficientemente notório, representar com freqüência, na vigília, certas coisas ausentes como claramente sentidas. O desatinado é, portanto, alguém que sonha acordado" (p. 88). Para complementar esta caracterização, Kant especifica que a pessoa que se encontra num grau elevado de tal demência é um fantasista.

Quando Freud reconhece, também a partir de Fechner, que "a cena sobre a qual (na alma) ocorrem os sonhos seria uma outra do que aquela da vida representativa na vigília"(Freud, 1916-1917/1999, p. 115),28 aludindo, então, ao Ics e à sua lógica específica, encontramos ecos dessa mesma hipótese kantiana sobre os sonhos.

Podemos também supor uma segunda referência à lembrança de Freud, indireta, numa passagem de Antropologia do ponto de vista pragmático, de 1798, onde Kant retoma o tema das deficiências e das doenças da alma, no que diz respeito à faculdade de conhecer, comentando que "Aquele que negligencia habitualmente confrontar suas imaginações com as leis da experiência (aquele que sonha acordado) é um homem fantasista" (Kant, 1798, p. 72).

Para compreendermos estas referências de Freud ao sonho e à imaginação, dentro do contexto kantiano, devemos lembrar que Kant considera a imaginação como uma faculdade que tem como objetivo produzir imagens (representações), a partir do diverso que nossa sensibilidade nos fornece, produzindo certas sínteses deste diverso (Kant, 1787/1997b, p. 120). Estas imagens são consideradas como fruto de uma imaginação que apenas apreende o diverso da experiência sensível.29 Kant especifica, num breve comentário, os termos usados por Freud (fantasmas e sonhos):

A imaginação, na medida em que ela produz também imagens involuntárias, chama-se fantasia. Aquele que toma esta forma da imaginação por experiências (internas ou externas) é um fantasista. No sono ((n)um estado de saúde), ser um jogo involuntário de suas (próprias) imagens, é sonhar. (Kant, 1798/1994, p. 47)

Encontramos em Lições de Introdução à Psicanálise de 1916-1917, mais uma vez, a identificação dos sonhos com uma atividade da imaginação, neste mesmo sentido kantiano, quando Freud traça um comentário sobre o que a linguagem designa como sonhos diurnos: "Os sonhos diurnos são fantasmas (produtos da imaginação)" (Freud 1916-1917/1999, p. 126).30

Também como pertinente às concepções de Kant e Freud sobre o sonho, encontramos a tese freudiana sobre a atividade não criativa dos sonhos e a tese kantiana da não inventividade da imaginação. Em Freud lemos: "Quando se examinam as coisas mais de perto, reconhece-se que o trabalho do sonho, utilizando seus substitutos, não traz nada de novo,"(Freud, 1900/1980, p. 297)31 e, em Kant: "Por grande artista e mágica que seja a imaginação ela não é criativa; ela deve tirar dos sentidos a matéria de suas imagens" (Kant, 1798/1994, p. 48). Seria difícil negar que estamos sobre as mesmas bases.

Noutro momento da Traumdeutung, ao fazer um comentário sobre o inconsciente, Freud retoma a questão sobre o estatuto ontológico desta noção: "Sua natureza íntima nos é tão desconhecida quanto a realidade do mundo exterior, e a consciência nos informa sobre ele de uma maneira tão incompleta quanto nossos órgãos dos sentidos sobre o mundo exterior" (Freud 1900/1980, p. 520).32

A referência à clássica distinção entre as coisas em si, os númenos ou a realidade nela mesma, e os fenômenos, é utilizada por Freud como uma analogia para entender qual o lugar epistemológico a ser dado ao inconsciente. Já citamos as afirmações de Freud neste sentido por meio das recordações de Binswanger ("O inconsciente é metafísico") e Häberlin ("o inconsciente é tal como a coisa em si de Kant"), e podemos aqui lembrar mais uma passagem de Kant, na qual se caracteriza a natureza dos númenos:

Isto [os númenos, objetos que se apresentariam ao entendimento sem mediação da sensibilidade], com efeito, será sempre para nós desconhecido, ao ponto mesmo de ignorarmos se tal conhecimento transcendental (extraordinário) será porventura alguma vez possível, pelo menos dentro das nossas categorias habituais. (Kant, 1787/1997b, p. 314, grifos do autor)

Aqui, tal como em Kant, a hipótese da realidade admitida, tanto da coisa em si como do inconsciente, é um ponto de partida heurístico que, apesar de sustentar o conhecimento, precisa sempre ser reconhecida em sua natureza específica, jamais confundida com a realidade ela mesma.

Em 1905, em seu Chistes e Sua Relação Com o Inconsciente, Freud (1905/1992b) comenta uma passagem da Crítica da Faculdade do Juízo: "Sobre o cômico em geral, Kant diz que ele possui esta curiosa propriedade de nos poder dar a ilusão do instante"(p. 49).33 A passagem à qual Freud se refere corresponde a uma análise do que agrada às nossas sensações, produzindo contentamento, e do que agrada apenas ao julgamento. Neste trecho, Kant diz que o riso é um efeito, algo cuja causa "deve consistir na influência da representação sobre o corpo e sua ação recíproca sobre a mente" (Kant, 1793/1993a, p. 266). A caracterização que ele dá do riso é a seguinte: "O riso é uma afecção proveniente da súbita transformação de uma expectativa tensa em nada" (p. 266).

Neste mesmo texto sobre o Chiste, Freud segue fazendo ainda mais uma referência, agora comentando também uma tese de Lipps: "Desenvolvendo a tese de Kant segundo a qual ‘o cômico seria uma espera que se dissolve no nada,’ Lipps tentou mostrar ... que, de uma maneira muito geral, o prazer do cômico decorre de nossa expectativa"(Freud, 1905/1992, p. 351).34 Se buscamos em Kant um exemplo que possa exemplificar o que é o cômico, lemos:

Quando alguém conta: que um índio, que na mesa de um inglês em Surate viu abrirem uma garrafa de cerveja e toda essa bebida, convertida em espuma, sair à força, demonstrava com muitas exclamações sua grande admiração e, à pergunta do inglês: O que há aqui que tanto admira? Respondeu: Não me admiro de que saia, mas de como puderam metê-la aí dentro. Nós rimos, e isso nos produz um prazer cordial: não porque eventualmente nos achemos mais espertos do que esse ignorante ou senão por algo de satisfatório que o entendimento nos fizesse notar aqui; mas nossa expectativa estava tensa, e subitamente desaparece em nada. (Kant, 1793/1993a, p. 266)

O uso que Freud faz aqui de Kant não é, evidentemente, filosófico, ou seja, focando um problema de filosofia, mas sim, como um apoio para a compreensão do homem na sua vida prática cotidiana. Nesse uso de Kant, fica claro que Freud concorda com o pressuposto kantiano de que a natureza do psiquismo é tão somente um conjunto de representações (do mundo e das sensações). Ainda que Freud venha a propor modelos sobre como seria a organização desse mundo psíquico (primeira e segunda tópicas), isto em nada modifica essa concepção básica sobre a essência do psiquismo. Os comentários sobre o cômico tomam isto, apenas, como um fato inegável, ponto de partida que não está em discussão.

Em 1911, comentando as duas partes fundamentais do delírio de Schreber, Freud lembra uma imagem utilizada por Kant, procurando dar uma regra epistemológica, ao especificar em que direção se poderia tentar entender esse delírio, sem que nós mesmos estivéssemos delirando. Diz Freud:

As duas partes capitais do delírio schrebiano, a transformação em mulher e a relação privilegiada com Deus, são conectadas no seu sistema por meio de sua posição feminina em relação a Deus. Será inevitável para nós a tarefa de colocar em evidência uma relação genética essencial entre estas duas partes, sem o que nós cairíamos, com nossos comentários sobre o delírio de Schreber, no papel ridículo que descreve Kant na sua célebre comparação na Crítica da Razão Pura, onde um homem segura uma peneira sob a barba de um bode enquanto um outro tenta ordenhá-lo. (Freud, 1911/1993, p. 257)35

A passagem de Kant à qual Freud se refere é a seguinte:

É já grande e necessária prova de inteligência ou perspicácia saber o que se deve perguntar de modo racional. Pois que se a pergunta é em si disparatada e exige respostas desnecessárias tem o inconveniente, além de envergonhar quem a formula, de por vezes ainda suscitar no incauto ouvinte respostas absurdas, apresentando assim o ridículo espetáculo de duas pessoas, das quais (como os antigos diziam) uma ordenha o bode enquanto a outra apara com uma peneira. (Kant, 1787/1997b, p. 82)

Aqui, Freud mostra-se ciente da necessidade de colocar os conceitos e as análises em relação direta com seus referentes, estes, por sua vez, advindos da experiência, caso contrário, todo o esforço do entendimento perderia seu objeto, apresentando formulações vazias.

Em Kant, tal fundamento se exprime tanto como uma condição para o conhecimento, a experiência, quanto como uma ética da terminologia.36 Se aquele que formula uma pergunta ou uma hipótese não dá a ela seu substrato experiencial, não referindo suas formulações ao problema empírico que se quer resolver (no caso das práticas científicas), então, ele está falando sobre um nada, portanto, um indecidível. Aquele que responde a esse nada, como se estivesse entendendo do que se trata, estaria apenas comentando os atributos da "roupa do rei que está nu."

Neste mesmo sentido, convém reconhecer, em Freud, a constante presença dessa referência à experiência e aos dados intuitivos (sensíveis). Até no seu conceito mais especulativo, a pulsão de morte, é importante lembrar que ela está referida aos problemas da hipocondria e da "reação terapêutica negativa." Freud tem, então, em mente o quão perigoso é perder estas referências, e o quão ridículo é a cena, comumente observável, já para sua época, do desperdício das considerações inteligentes sobre palavras vazias.

Em Totem e Tabu, de 1912-1913, Freud retoma a questão das proibições morais, enunciadas pelo tabu, identificando-as ao Imperativo Categórico. Este último, conhecido em si mesmo na sua forma positiva (seja!, faça!, etc), seria expresso pela proibição tabu, na qual esse mesmo imperativo é colocado na sua forma negativa (não faça!):

o tabu, para dizer a verdade, continua a existir entre nós; ainda que formulado negativamente e referido a outros objetos, ele não é outra coisa, na sua natureza psicológica, que o "imperativo categórico" de Kant que pretende ter um efeito compulsivo e recusa toda motivação consciente. (Kant, 1793/1993a, p. 266)

Será por meio de uma análise do que é o tabu que Freud acredita poder explicar a própria lei moral do homem: "a elucidação do tabu poderia mesmo jogar uma luz sobre a origem obscura de nosso próprio ‘imperativo categórico’"(Freud, 1912-1913/1998b, p.224).37 Parece, pois, evidente a Freud que a lei moral, ou noutros termos, o imperativo categórico kantiano - "Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal" (Kant, 1793/1993a, p. 266) - encontraria sua origem no próprio triângulo edípico. Como ele mesmo dirá, em 1924: "O Imperativo Categórico de Kant é, assim, o herdeiro direto do Complexo de Édipo"(Freud, 1924/1992c, p. 19),38 retomando a referência clássica.

No entanto, ao ver como Freud compreende a noção do Imperativo Categórico, seria possível objetar que ele comete um erro de entendimento. Em primeiro lugar, lembremos que a lei moral é uma lei universal dada pela razão: "A razão pura é prática por si mesma apenas e dá (ao homem) uma lei universal, que chamamos lei moral" (Kant, 1788/1997a, p. 43); ela é uma lei dada a priori, sem antecedência da experiência sensível, mas como um fruto exclusivo de uma razão legisladora: "importa observar, a fim de considerar, sem falsa interpretação, esta lei como dada, que não é um fato empírico, mas o fato único da razão pura, que assim se proclama como originariamente legisladora" (p. 43).

O que temos aqui a ressaltar é a frase "não é um fato empírico," pois isto implica retirar da experiência a constituição da lei moral em nós. Kant conclui, após mostrar que a lei moral não pode advir da vida prática do homem - enquanto esta é comandada pelo desejo de felicidade (seja de si mesmo ou de outrem) e da relação com o prazer e a dor (Kant, 1788/1997a, pp. 42-69) -, ou seja, não pode ser dependente de "princípios materiais," que só o "princípio prático formal da razão pura" - isto é, um princípio que não advém de nenhuma experiência sensível - pode estabelecer uma lei moral universal para o homem.

em virtude de os princípios materiais serem totalmente inadequados para fornecer a suprema lei moral (como se provou), o princípio prático formal da razão pura, segundo o qual a simples forma de uma legislação universal possível pelas nossas máximas deve constituir o princípio determinante supremo e imediato da vontade, é o único possível que é adequado para imperativos categóricos, isto é, leis práticas (que fazem das ações um dever) e, em geral, para o princípio da moralidade, tanto no juízo como na aplicação à vontade humana, na determinação da mesma. (Kant, 1788/1997a, p. 54)

Assim, a lei da racionalidade não pode ser herdeira de um fato sensível (empírico), seja direta ou indiretamente, enquanto memória (fantasmática) de algum agente (no caso, o pai do triângulo edípico sob a égide do complexo de castração etc.): "a razão pura pode ser prática, isto é, determinar a vontade por si mesma, independentemente de todo elemento empírico" (Kant, 1788/1997a, p. 54). Se Freud edifica uma moralidade empírica, advinda do complexo de Édipo, trata-se de algo diferente do que Kant apresenta por meio do Imperativo Categórico. É um erro considerar a lei moral como fruto ou herdeira de uma lei paterna. Freud parece ter reconhecido este problema, pois retomará a questão da lei moral, nos mesmos termos que Kant, em 1933, quando comenta a necessidade, para o futuro do homem, de uma ditadura da razão (Freud, 1933/1995a, p. 79).39

No texto O Inconsciente, de 1915, Freud recoloca a questão da natureza do inconsciente, mostrando que a psicanálise pode fornecer uma advertência sobre a realidade do psiquismo, da mesma maneira que Kant fizera em relação à nossa percepção externa:

Da mesma maneira que Kant nos advertiu sobre o condicionamento subjetivo de nossa percepção e de não tomar nossa percepção como idêntica ao percebido incognoscível, a psicanálise exorta a não colocar a percepção consciente no lugar do processo psíquico inconsciente, a qual é seu objeto. Tal como o físico, o psíquico não tem mais necessidade de ser na realidade como nos aparece. (Freud, 1915/1988b, p. 211)40

O reconhecimento de que o objeto do cientista são os fenômenos, e não a realidade ela mesma (esta incognoscível), também coloca Freud como ciente de que suas construções teóricas não devem ser tomadas como a realidade das coisas nelas mesmas. Ele mesmo reconhece, por exemplo, que a própria subdivisão do inconsciente - que possibilita pensar no psiquismo como composto por instâncias dependentes dinamicamente entre si, mas que não correspondem a uma anatomia real do cérebro - faz parte de uma "superestrutura especulativa da psicanálise" (Freud, 1925/1992a, p. 80).41 Isto implica, necessariamente, reconhecer que suas teorias, apesar de úteis, não correspondem a um ponto de vista realista, o qual é contrário, também, ao modo de pensar de Kant.

Em Além do Princípio do Prazer, de 1920, Freud evoca o nome de Kant de uma maneira que deixa tanto filósofos como psicanalistas insatisfeitos, já que a importância do nome de Kant não corresponde, em seu texto, ao desenvolvimento que ele dá ao problema enunciado. Freud retoma a questão das formas a priori da sensibilidade, o tempo e o espaço, para colocá-las em discussão, a partir das aquisições da psicanálise:

eu me permito, chegando a este ponto, de tocar de passagem num tema que mereceria um tratamento mais aprofundado. A tese kantiana segundo a qual o tempo e o espaço são formas necessárias de nosso pensamento pode hoje ser submetida à discussão, sobre as bases de certos conhecimentos adquiridos pela psicanálise. Nós apreendemos pela experiência que os processos anímicos inconscientes são, em si, "a-temporais." Isto significa primeiramente que eles não são ordenados temporalmente, que o tempo não os modifica em nada e que não é possível aplicar-lhes a representação do tempo. Temos aqui caracteres negativos dos quais só se pode ter uma idéia clara por comparação com os processos anímicos conscientes (...) Eu sei que estas asserções parecem muito obscuras, mas eu devo me limitar a tais sugestões.(Freud, 1920/1996a, p. 299)42

A crítica de Freud recai sobre a questão da universalidade do espaço e do tempo como formas necessárias do nosso pensamento. Pode-se objetar a Freud que suas considerações são um tanto quanto superficiais, e até mesmo equivocadas, para uma discussão no campo da filosofia, como também um tanto quanto exageradas para o psicanalista, que não pode entender porque Freud evoca o nome de Kant para uma questão que, quando vista do ponto de vista da psicanálise, não é filosófica.

Vejamos os equívocos de Freud nesta referência: primeiro, supor que o tempo e o espaço são formas necessárias do pensamento, quando, para Kant, elas são formas a priori da intuição; depois, supor que haja apenas uma noção de tempo e espaço em Kant, quando na verdade deve-se diferenciar entre duas noções (uma absoluta e outra empírica); e, em terceiro lugar, deve-se lembrar que Kant defendeu que o tempo e o espaço são aplicáveis às esferas da consciência, e jamais além dela. Isto torna, assim, totalmente compreensível que na intuição (sensação), e portanto na consciência, o tempo e o espaço sejam formas a prioris e que, em nenhum momento, Kant afirme que o espaço e o tempo sejam formas a prioris do pensamento, e muito menos que o espaço e o tempo estivessem presentes noutras esferas, além da consciência.

Uma vez esclarecido que Kant foca sua Crítica na esfera da consciência, e tendo sido desfeitos os enganos em relação aos a priori do tempo e do espaço, podemos retomar a posição de Freud, que parece partir da compreensão kantiana sobre o que é a consciência, e dela retirar o que deveria ser uma lógica inconsciente. Evidentemente, neste percurso, temos a ação convergente da observação clínica, mas isto não desfaz, por exemplo, a concepção fundamental segundo a qual o mundo psíquico é representacional, tal qual se concebe a natureza da consciência, ainda que sejam acrescentadas algumas dinâmicas próprias (p. ex. a lei dos processos primários). O inconsciente, tal qual a consciência, é, mais uma vez, representação: que outra coisa válida ele poderia ser dentro deste sistema?

Mas, por outro lado, não obstante o erro de Freud, há nesta reflexão uma contribuição indireta feita pela psicanálise à filosofia, pois o reconhecimento de que o tempo e o espaço, no inconsciente, têm características diferentes das que eles têm no mundo ordinário, obriga a filosofia a levar estes novos dados em consideração. Isso pode resultar num novo problema para a filosofia, em geral, e para a kantiana, em particular; o mesmo poderia ser dito no que diz respeito à hipótese do inconsciente tal qual enunciada por Freud.

Em Novas Conferências de Introdução à Psicanálise, de 1933, Freud retoma a questão da consciência moral, falando da formação do superego. Mais uma vez, trata-se de reconhecer em Kant a questão da constituição da lei moral no homem. A referência mais direta de Freud à lei moral kantiana é: "Eu os lembro da célebre sentença de Kant que nomeia de uma só vez o céu estrelado e a lei moral em nosso coração" (Freud, 1933/1995d, p. 144, 248).43 Se formos até a Crítica da Razão Prática encontramos, no primeiro parágrafo da sua conclusão:

Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais freqüentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não as hei-de procurar e simplesmente presumir a ambas como envoltas em obscuridades ou no transcendente, fora do meu horizonte; vejo-as perante mim e religo-as imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira começa no lugar que eu ocupo no mundo exterior dos sentidos e estende a conexão em que me encontro até o imensamente grande, com mundos sobre mundos e sistemas de sistemas, nos tempos ilimitados do seu periódico movimento, do seu começo e da sua duração. A segunda começa no meu invisível eu, na minha personalidade, e expõe-se num mundo que tem a verdadeira infinidade, mas que só se revela ao entendimento, e com o qual (e assim também com todos esses mundos visíveis) me reconheço numa conexão, não simplesmente contingente, como além, mas universal e necessária. O primeiro espetáculo de uma inumerável multidão de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal, que deve restituir ao planeta (um simples ponto no universo) a matéria de que era feita, depois de, por um breve tempo (não se sabe como) ter sido provida de força vital. O segundo, pelo contrário, eleva infinitamente o meu valor como inteligência por meio da minha personalidade, na qual a lei moral me descobre uma vida independente da animalidade e mesmo de todo o mundo sensível, pelo menos, tanto quanto se pode inferir da destinação conforme a um fim da minha existência por essa lei, que não se restringe a condições e limites desta vida, mas estende até ao infinito. (Kant, 1788/1997a, pp. 183-184)

A lei moral kantiana para a conduta do homem é uma lei da racionalidade, não advindo de nenhum elemento do mundo sensível e, portanto, não poderia advir do Complexo de Édipo, como afirmara Freud anteriormente. A máxima kantiana sobre a ação moral (agir como se cada ação fosse um exemplo para a humanidade) encontra só na razão a sua justificativa, e não em algum pai, nem mesmo num pai mítico - que seria, aliás, inconcebível para Kant.

Freud parece reaproximar-se desta concepção quando afirma que a conduta humana deveria ser guiada pela razão, reconhecendo nela o motor da lei moral no homem, ao menos em termos ideais: "A situação ideal seria naturalmente uma comunidade de homens tendo submetidas sua vida pulsional a uma ditadura da razão" (Freud, 1933/1995e, p. 79).44 Esta mesma defesa da lei moral racional, que difere, portanto, de uma lei moral resultante da experiência edípica, é expressa nas Novas Conferências de Introdução à Psicanálise, "Conferência XXXV: Sobre uma visão do mundo," onde Freud declara seu desejo:

Nossa melhor esperança, para o futuro, é que o intelecto - o espírito científico, a razão - alcance numa luta intensa, com o passar do tempo, à ditadura na vida da alma humana. A essência da razão é uma garantia de que ela não deixará de dar às moções pulsionais e aos sentimentos humanos, e ao que é determinado por elas, o lugar que lhes convém. A obrigação comum de um tal domínio da razão mostrará ser o mais forte elo unificador e abrirá a via para novas unificações. O que, como lhe proíbe de pensar a religião, se opõe a um tal desenvolvimento é um perigo para o futuro da humanidade. (Freud, 1933/1995a, p. 256)45

Podemos, assim, dizer que, em Freud, temos dois tipos de moral: uma associada à lei paterna, herdeira do Complexo de Édipo, e outra, esta sim, de acordo com o imperativo categórico kantiano, como uma lei da racionalidade das condutas. Ainda que as afirmações iniciais de Freud sobre a lei moral no homem, associada ao tabu e ao Complexo de Édipo, não estejam de acordo com o sistema kantiano, ele não se afasta de Kant, pelo contrário, tenta se apoiar no filósofo; e suas afirmações de 1933, lançando votos à uma ditadura da razão, são inegavelmente kantianas.

 

6. Mas Freud não é filósofo e a psicanálise não é filosofia

No artigo "O interesse científico da psicanálise," escrito em 1911, e publicado só em 1913,em Scientia,46 revista italiana que tem como público alvo a comunidade internacional de intelectuais, Freud se ocupa de comentar as bases modelares da psicologia psicanalítica (atos falhos, sonhos, patologias psíquicas enquanto atos psíquicos com sentido, que por sua vez implicam conceitos tais como a idéia de Ics, conflito psíquico, repressão, deslocamento, censura etc.), indicando qual o interesse que outras disciplinas do saber teriam no re-conhecimento das teses da psicanálise. É aqui que, ainda que Kant não seja citado diretamente, reconhecemos um tipo de contribuição indireta que a psicanálise teria a fazer à filosofia. Freud defende, neste texto de 1913, que a filosofia é fundada sobre a psicologia, dizendo: "As doutrinas e sistemas filosóficos são obra de um número reduzido de pessoas de notável dotes individuais; em nenhuma outra ciência a personalidade do trabalhador científico alcança, nem mesmo aproximadamente, um papel tão importante quanto na filosofia"(Freud, 1913/1995c, p. 201).47 Freud chega mesmo a dizer, numa carta a Max Eitingon, em 22/04/1928, que "Os filósofos crêem sem dúvida que eles contribuem com seus estudos ao desenvolvimento do pensamento humano, mas há um problema psicológico ou até mesmo psicopatológico atrás de cada um deles" (Jones, 1969/1975, pp. 159-160). Para Freud a psicanálise estaria em condições de fornecer uma compreensão dos complexos afetivos (dependentes dos jogos pulsionais) que se deve postular como atuantes em cada indivíduo, dando-nos a possibilidade de pesquisar as relações que existem entre as disposições constitucionais e a personalidade que impulsiona uma determinada produção intelectual: "Assim a psicanálise pode desvelar a motivação subjetiva e individual de doutrinas filosóficas vindas de um trabalho lógico imparcial e designar para a crítica os pontos fracos do sistema" (Freud, 1913/1995c, p. 201).48 Mas esta crítica, ela mesma, não constituirá uma parte do trabalho do psicanalista e sim, da própria filosofia; Freud lembra neste ponto que "a determinação psicológica de uma doutrina não exclui a sua justeza científica"(Freud, 1913/1995c, p. 202).49

Na Conferência 35 da Novas Conferências, Freud também faz questão de diferenciar a psicanálise de uma filosofia, enquanto expressão de uma "visão de mundo," ou seja, ela não é "uma construção intelectual que resolve de maneira unitária todos os problemas de nossa existência a partir de uma hipótese subsumida, na qual, por conseqüência, nenhuma questão resta aberta, e tudo o que retém nosso interesse encontra seu lugar determinado" (Freud, 1933/1995d, p. 242).50

Se lembrarmos do texto de 1923, no qual Freud apresenta a diferença de direções em que trabalha o cientista (psicanalista) e o filósofo, podemos compreender com mais precisão esta diferença de métodos entre a filosofia e a psicanálise enquanto uma ciência empírica. A filosofia partiria de conceitos fundamentais rigorosamente definidos, e com eles tentaria apreender todo o universo, enquanto que a ciência procura resolver problemas imediatos da observação, teorizando na medida da necessidade da resolução desses problemas, aceitando que "seus (da psicanálise) conceitos supremos sejam sem clareza, seus pressupostos provisórios, e ela espera de seu trabalho futuro uma determinação mais rigorosa destes"(Freud, 1923/1991, pp. 203-204).51O objetivo da prática analítica, bem como sua forma de teorização, não é o mesmo que o da prática filosófica.

Freud, no entanto, nunca deixou de buscar na filosofia um certo aval para suas formulações. Em momentos importantes de sua obra, ao avançar ou indicar uma nova hipótese, parece se apoiar na formulação de algum filósofo. É assim que cita Theodor Lipps quando fala de sua noção de inconsciente,52 Diderot quando indica o Complexo de Édipo53 como fundamento da natureza humana, Aristóteles54 e Platão55 quando comenta sua teoria dos sonhos como realização de desejos, Schopenhauer quando fala de impulsos inconscientes56 e da pulsão de morte,57 e como vimos, Kant e o imperativo categórico, quando comenta a hipótese do super-eu e da lei moral em nós.

Freud está, certamente, ciente de que fazer filosofia não é o mesmo que fazer ciência, e jamais considerou que a psicanálise pudesse ser outra coisa que não uma ciência da natureza (Freud, 1940/1995f, p. 291).58 Aqui, uma afirmação de Ernst Mach, que tem para Freud uma importância epistemológica fundamental (Assoun, 1981/1990, pp. 73-89), serve como um indicador explicativo das direções de trabalho opostas que guiam o filósofo e o cientista (psicanalista): "o que o filósofo toma como ponto de partida possível só aparece ao cientista como o fim bem distante em direção ao qual tendem seus esforços" (Mach, 1905/1922, p. 15).

Essa diferença de pontos de vista gerais que dirigem a prática do filósofo e a do cientista parece ter, para Freud, um valor que vai além do reconhecimento das singularidades de cada um destes ramos do saber, a ponto de comentar, numa carta a Eitingon, de 01/04/1928: "Você não imagina quanto me são estrangeiras todas estas cogitações filosóficas. A única satisfação que tenho é a de saber que eu não participo deste lamentável desperdício de poder intelectual" (Jones, 1969/1975, p. 159). A ambigüidade de Freud quanto à filosofia já foi ressaltada (Assoun, 1981/1990), e basta lembrar aqui o que escreve Freud a Fliess, em 02/04/1896, para vermos o quanto a filosofia lhe atraía:

Quando jovem, eu não conhecia nenhum outro anseio senão o de conhecimentos filosóficos, e agora estou prestes a realizá-lo, à medida que vou passando da medicina para a psicologia. Tornei-me terapeuta contra minha vontade; estou convencido de que, dadas certas condições relativas à pessoa e ao caso, posso definitivamente curar a histeria e a neurose obsessiva. (Masson, 1986, p. 181)

No entanto, essa ambigüidade quanto ao valor da filosofia não se expressa, enquanto tal, no que diz respeito à prática de Freud, pois este sempre se colocou como cientista, tendo à sua frente problemas empíricos a resolver, que exigiram dele uma certa especulação, mas cujo objetivo final era a resolução desses problemas e não a formulação de uma "visão de mundo," nem de verdades últimas sobre o mundo e a natureza humana.

 

 

Fulgencio, L. (2001). Critical Comments on Freud’s Textual References to Kant. Psicologia USP, 12 (1), 49-87.

Abstract: This paper pretends to to critically analyze the main moments of Freud’s work when there are textual references to Kant, in order to begin a comparative analysis between the concepts of both disciplines, as well as to indicate that there is a structural relation between Kant‘s philosophical positions and Freud’s epistemological thought applied to psychoanalysis as a practice related to the sciences of nature. With this in mind, it is argued that the criticism toward certain fundamental concepts of the Freudian psychoanalysis, while belonging to the framework of the Kantian philosophy, would be a necessary attitude for the development of the psychoanalytic psychology.

Index terms: Philosophy. Science. Freud, Sigmund. Kant, Immanuel.

 

 

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Recebido em 17.05.2000
Aceito em 05.03.2001

 

 

 

1 Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae. Endereço eletrônico:  ful@that.com.br

2 Este artigo é parte de minha tese de doutorado, O Método Especulativo em Freud, ainda em andamento. Minha tese, bem como este artigo, inserem-se numa linha de pesquisa proposta originalmente por Loparic (1982, 1984, 1985, 1997, 1982/2000), que analisa e propõe a compreensão da primeira Crítica como um programa de pesquisa para as ciências da natureza, reconhecendo, no ponto de vista heurístico, um dos referenciais básicos deste programa; é também, neste sentido, que o empirismo de Ernst Mach é analisado como um clássico deste ponto de vista. Defende-se, assim, que essa mesma perspectiva heurística pode ser reconhecida textualmente em Freud.

3 (SE, v. 22, p. 159; AE, v. 22, p. 147; GW, v. 15, p. 171). As notas de referência aos textos de Freud serão colocadas em pé-de-página, pois contêm indicações complementares referidas às diversas traduções. Procedeu-se desta maneira visando não poluir o texto dificultando, desnecessariamente, sua leitura. Optei por tomar como referência, para citação, a obra de Freud traduzida para o francês sob a direção de Jean Laplanche ou a tradução francesa disponível, quando se trata de textos ainda não publicados nas Oeuvres complètes.  As traduções para o português, que são de minha responsabilidade, privilegiam o conteúdo, tentando manter os termos utilizados por Freud, e deixando um pouco à margem a elegância do estilo e as construções gramaticais bem resolvidas, o que pode causar espécie numa ou noutra ocasião.  Comparei os trechos citados tanto à tradução de José L. Etcheverry (AE), publicada pela Amorrortu editores, como de à Strachey da Standard Edition (SE). Nos casos que considerei duvidosos, ou que necessitavam destaque especial para os termos em alemão, consultei, com ajuda adequada, o texto publicado na Gesammelte Werke (GW) ou na Studienausgabe (SN).

4 Pode-se encontrar o desenvolvimento deste ponto de vista sobre o cientista como solucionador de problemas, e não enquanto fornecedor de uma imagem real do mundo, em Kuhn (1970) e Loparic (1982).

5 Compreendemos aqui a ciência no sentido que lhe dá Kuhn (1970), em seu A Estrutura das Revoluções Científicas, ou seja, como um saber que visa resolver problemas de um certo tipo, dentro de um certo quadro (seu paradigma); sendo o cientista um solucionador de quebra-cabeças.

6 (SE, v. 23, p. 144; AE, v.23, p. 143; GW, v. 17, p. 67).

7 (SE, v. 23, p. 144; AE, v. 23, p. 143; GW, v.17, p. 67).

8 Freud diferencia a psicanálise de outras psicologias justamente por causa de seu ponto de vista dinâmico: “(a psicanálise) propõe, no lugar de uma simples descrição, uma explicação dinâmica fundada sobre a interação de forças psíquicas” (Freud, 1913/1998a, p. 29-30; SE, v.12, p. 207; AE, v. 12, p. 211; GW, Nachtragsband, p. 724). 

9 (SE, v.14, p. 117; AE, v. 14, p. 113; GW, v.10, p. 210).

10 Dentre estas proximidades vale a pena ressaltar que é possível fazer um paralelo entre as faculdades de nosso aparelho cognitivo conforme propostas por Kant (sensível ou intuitiva, entendimento e razão), e as três instâncias do aparelho psíquico freudiano da segunda tópica (Isso-Eu-Supereu).

11 No sentido que lhe dá Kuhn (1970/1975).

12 Cf. Kuhn (1970/1975), “Posfácio,” onde ele analisa a parte metafísica de todo paradigma científico. Lembremos, mais uma vez, que Freud reinvidica que a psicanálise seja tomada como ciência tanto quanto a física, ambas tendo seus conceitos fundamentais como problemáticos, ou seja, indecidíveis pela comprovação empírica: “Como se surpreender se os conceitos fundamentais da nova ciência, seus princípios (pulsão, energia nervosa etc.) permanecem tanto tempo indeterminados como os das ciências mais antigas (força, massa, atração etc.).” (Freud, 1940/1985, p. 21; SE, v. 23, pp. 158-159; AE, v. 23, pp. 156-157; GW, v. 17, pp. 80-81).

13 (SE, v. 20, p. 10; AE, v. 20, p. 10; GW, v. 14, p. 35).

14 Cf. as cartas de Freud a Eduard Silberstein em 13/08/1874, 24/01/1875, 15/06/1875, e 28/06/1875 (Freud & Silberstein, 1990).

15 Carta de Freud, de 28 de outubro de 1884, a Martha Bernays (Assoun, 1981/1990, p. 75).

16 (SE, v. 20, p. 10, AE, v. 20, p. 10; GW, v. 16, p. 35).

17  Arquivos Häberlin, biblioteca da Universidade de Bâle.

18 Ver também sobre este tema específico em Loparic, 1985.

19 Notadamente Binswanger, quando de sua visita a Freud com Häberlin, com comentários mais extensos, e na carta de 15/02/1925, onde ele considera a Interpretação dos Sonhos, na obra de Freud, tão central como a Crítica da Razão Pura, na de Kant. Como também Jung, na carta de 17/06/1910, comentando que ele (Jung) também vira a presença de um abutre em Leonardo, mas noutro lugar, “o bico está bem na região da púbis”, lembrando, então, o nome de Kant: “amar-se-ia dizer com Kant: acaso, que equivale aos mais finos racionalismos da razão”; e, também, na carta de 11/08/1910, comentando que os tempos ainda não haviam reconhecido que era de Freud, do inventor da psicanálise, e não de “Platão, São Thomas de Aquino, e Kant, e simultaneamente Kuno Fischer e Wundt.” Mas estes comentários não se constituem como uma referência conceitual, seja ela pontual ou genérica, desenvolvida no diálogo com Freud; ainda que Binswanger, nos seus estudos, tenha se ocupado de Kant:  “Em projeto, as pesquisas sobre os fundamentos da teologia natural e a moral de Kant” (Freud & Binswanger, 1995, p. 238).

20 Wilhelm Stekel (1868-1940), médico, um dos quatro primeiros membros da Sociedade Psicanalítica de Vienna.

21 (SE, v. 14, p. 118; AE, v. 14, p. 114; GW, v. 10, p. 211).

22 A expressão “funções incondicionais” pede que se tenha em mente uma compreensão mais aprofundada do sistema filosófico kantiano. Ela se refere à necessidade imposta pela razão de estabelecer a idéia (enquanto um conceito puro da razão) de uma causa primeira (incondicional), a partir da qual todas as séries de causalidades poderiam ser pensadas. Por exemplo, a idéia de força na física, pois pode-se verificar que, nesta disciplina científica, jamais se pergunta o que causa uma força nela mesma (a não ser outra força); ela é, portanto, uma função incondicional causal. Essa causa incondicionada não é passível de ser apreendida pela experiência sensível, mas tão somente como uma produção da  razão (Cf. Kant, 1787/1997b, pp. 377-389).

23 Há uma diferença entre os termos Vorstellung e Darstellung importante de ser ressaltada. O primeiro termo refere-se à representação em termos gerais, enquanto que o segundo está associado à representação empírica ou relacionada aos dados sensíveis. Para certos esclarecimentos de alguns termos em alemão, bem como para a sua tradução adequada, em especial para os trechos da Antropologia do Ponto de Vista Pragmático (Kant, 1798/1994) e do Ensaio Sobre as Doenças Mentais (Kant, 1764/1993), consultei o prof. Zeljko Loparic. A partir de suas considerações, realizei certos comentários e acertos nas traduções dos trechos citados, cujos eventuais erros em relação ao rigor terminológico e conceitual, próprios ao sistema filosófico kantiano, são, no entanto, de minha responsabilidade.

24 (SE, v. 18, p. 254; AE, v. 18, p. 249, GW, v. 13, p. 229).

25 (SE, v. 4, p. 70; AE, v. 4, p. 93; GW, v. 2/3, p. 74).

26 (SE, v. 4, p. 90; AE, v. 4, p. 112; GW, v. 2/3, p. 94).

27 Este tipo de psicologia racionalista não existe mais e, em Freud, que deseja a psicanálise como uma ciência empírica, encontramos, de fato, algo diferente deste proceder filosófico. No entanto, seria um tema de pesquisa perguntar se as tópicas freudianas não estariam se apresentando como modelos lógicos, a partir dos quais se classifica toda a psicopatologia psicanalítica, fazendo, então, um paralelo entre as faculdades kantianas e as instâncias psíquicas freudianas (Ics-Pcs-CS e Isso-Eu-Supereu). No âmbito destes comentários, cabe apenas indicar a possibilidade de tal análise, sem completar a argumentação que permitiria completar todos os pré-requisitos desta hipótese comparativa.

28 (SE, v. 15, p. 89; AE, v. 15, p. 81; GW, v. 11, p. 86).

29 “A imaginação (facultas imaginandi), como faculdade das intuições sem a presença do objeto, ou é produtiva, quer dizer, faculdade de apresentação originária do objeto (exhibitio originaria) que precede, portanto, a experiência; ou é reprodutiva, quer dizer, faculdade de apresentação derivada (exhibitio derivativa) que leva ao espírito uma intuição empírica que já aconteceu anteriormente. As intuições puras do espaço e do tempo pertencem à primeira forma de apresentação; todas as outras pressupõem a intuição empírica que se chama experiência se ela é ligada ao conceito de objeto, e se, por conseqüência, ele é conhecimento empírico.” (Kant, 1798/1994, p. 47)

30 (SE, v. 15, p. 98; AE, v. 15, p. 89; GW, v. 11, p. 95).

31 (SE, v. 5, p. 345; AE, v. 5, p. 351; GW v. 2/3, p. 350).

32 (SE, v. 5, p. 612; AE, v. 5, pp. 599-600; GW, v. 2/3, pp. 617-618).

33 (SE, v. 8, p. 12; AE, v. 8, p. 14; GW, v. 6, p. 9).

34 (SE, v. 8, p. 199; AE, v. 8, p. 189; GW, v. 6, p. 227).

35 (SE, v. 12, p. 34; AE, v. 12, p. 33; GW, v. 8, p. 268).

36 O termo aqui não é de Kant, mas do neo-kantiano  Charles Sanders Peirce (Peirce, 1997, pp. 40-43) (Cf. Kant, 1787/1997b, pp. 368-377).

37 (SE, v. 13, p. 23; AE, v. 13, p. 31; GW, v. 9, p. 32).

38 (SE, v. 19, p. 167; AE, v. 19, p. 173; GW, v. 13, p. 380).

39 (SE, v. 22, p. 213; AE, v. 22, p. 196; GW, v. 16, p. 24).

40 (SE, v. 14, p. 171; AE, v. 14, p. 167; GW, v. 10, p. 270).

41 (SE, v. 20, p. 32; AE, v. 20, p. 31; GW, v. 16, p. 58).

42 (SE, v. 18, pp. 27s, AE, v. 18, pp. 27s; GW, v. 13, pp. 27s).

43 (SE, v. 21, p. 163 (tb. p. 61); AE, v. 22, p. 151 (tb. p. 57); GW, v. 15, p. 176 (tb. p. 67)).

44 (SE, v. 22, p. 213; AE, v. 22, p. 196; GW, v. 16, p. 24).

45 (SE, v. 22, p. 171; AE, v. 20, p. 158; GW, v. 15, p. 185).

46 Scientia (“Rivista di Scienza”), Organo internazionale di sintesi scientica (Revista internacional de síntese científica), volume 14, ano 7, (Bolonha, Nicola Zanichelli; Londres, Williams and Norgate; Paris, Félix Alcan; Leipzig, Wilhelm Engelmann), 1913. O artigo de Freud é editado em duas partes: a primeira, no número 31 deste volume, pp. 240-50; e, a segunda, no número 32 do mesmo volume, pp. 369-84. Em cada parte consta a seguinte assinatura: “Wien, Universität. Sigm. Freud.” (Cf. uma análise detalhada deste texto, parágrafo a parágrafo, em Assoun, 1980).

47 (SE, v. 13, p. 179; AE, v. 13, pp. 181-182; GW, v. 8, p. 407).

48 (SE, v. 13, p. 180; AE, v. 13, p. 182; GW, v. 13, p. 408).

49 (SE, v. 13, p. 180; AE, v. 13, p. 182; GW, v. 13, p. 408).

50 (SE, v. 22, p. 158; AE, v. 22, p. 146; GW, v. 15, p. 170).

51 (SE, v. 18, p. 254; AE, v. 18, p. 249; GW, v. 13, p. 229).

52 (Freud, 1900/1980, p. 520; SE, v. 5, p. 612; AE, v. 5, pp. 599-600; GW, v. 2/3, p. 617. Freud, 1905/1992b, p. 293; SE, v. 8, p. 193; AE, v. 8, p. 184; GW, v. 6, p. 220. Freud, 1940/1985, p. 19; SE, v. 23, p. 158; AE, v. 23, p. 156; GW, v. 17, p. 120. Freud, 1940/1995f, p. 295; SE, v. 23, p. 286; AE, v. 23, p. 288; GW, v. 17, p. 147).

53 (Freud, 1916-1917/1999, p. 428; SE, v. 16, p. 338; AE, v. 16, p. 308 GW, v. 11, p. 350. Freud, 1931/1995b, v. 19, p. 41; SE, v. 21, p. 251; AE, v. 21, p. 249; GW, v. 14, p. 541. Freud, 1940/1985, p. 64; SE, v. 23, p. 158; AE, v. 23, p. 156; GW, v. 17, p. 80).

54 (Freud, 1900/1980, p. 12 , 468; SE, v. 4, p. 2, v. 5, p. 550; AE, v. 4, p. 30, v. 5, p. 543; GW, v. 2/3, p. 2, 556. Freud, 1916-1917/1999, p. 113; SE, v. 15, p. 87; AE, v. 15, pp. 78-79; GW, v. 11, p. 84. Freud, 1917/1988a, v. 13, p. 258; SE, v. 14, p. 235; AE, v. 14, p. 233; GW, v. 10, p. 426. Freud, 1930/1994, v. 17, p. 351; SE, v. 21, p. 209; AE, v. 21, p. 209; GW v. 14, p. 548. Freud, 1933/1995d, v. 19, p. 96; SE, v. 22, p. 16; AE, v. 21, v. 22, p. 15; GW, v. 15, p. 16. Para o tema indicado).

55 (Freud, 1900/1980, p. 66; SE, v. 4, p. 67; AE, v. 4, p. 90; GW, v. 2/3, p. 70. Freud, 1916-1917/1999, p. 188; SE, v. 10, p. 146; AE, v. 15, p. 134; GW, v. 11, p. 147. Para o tema indicado).

56 (Freud, 1917/1996b, v. 15, p. 51; SE, v. 17, p. 144; AE, v. 17, p. 135; GW, v. 12, p. 12).

57 (Freud, 1920/1996a, v. 15, p. 323; SE, v. 17, p. 49; AE, v. 18, p. 48, GW, v. 13, p. 53).

58 (SE, v. 23, p. 282; AE, v. 23, p. 284; GW, v. 17, p. 142).