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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.12 no.1 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642001000100005 

PSICANÁLISE E O PENSAMENTO CIENTÍFICO: ENTRE O FISICALISMO E/OU A CONTRACIÊNCIA EM DIFERENTES MODOS DE SUBJETIVIDADE

 

Rogério Lustosa Bastos1
Universidade Federal de Juiz de Fora

 

 

Discutindo a psicanálise, a partir de sua inserção na linguagem e nas Ciências Humanas, sobretudo baseando-se em Foucault, este texto problematizará a sua proximidade e distanciamento em relação ao pensamento científico. Assim, principalmente analisando-a nas suas interconexões com a subjetividade contemporânea, será ressaltado que tal disciplina não só afasta-se dos parâmetros básicos do pensamento científico clássico, como também coloca-se como uma ciência à margem, ou melhor, como uma contraciência. Tal aspecto, além da vocação na psicologia clínica, destaca-a como uma disciplina que oferece outras importantes contribuições, seja no campo da estética, da epistemologia, da autoria e das humanidades em geral.

Descritores: Psicanálise. Pensamento científico. Contra-ciência.

 

 

Uma das passagens mais cativantes da literatura é quando, diante de crises e tormentas no meio do oceano, no livro "O homem que ri," de Victor Hugo, um dos personagens diz-nos: "Ver o mar apenas como uma massa d' água é não ver o mar" (Hugo, s.d., p. 135). Até que ponto tal trecho não se aproxima da discussão da psicanálise frente a sua suposta cientificidade? Ora, vê-la apenas como uma técnica, inclusive normativa, discuti-la apenas como uma disciplina que não responde aos critérios de uma ciência naturalista ou fisicalista, sobretudo nesse fim de século, talvez seja o mesmo que olhar para o oceano e não percebê-lo em toda sua dimensão, ou melhor, não vê-lo na sua quase invisível articulação com o sal e com outras microconexões, em diferentes marés ou em diferentes segmentariedades. Propondo-se a discutir a psicanálise, a partir de sua inserção na linguagem e nas ciências humanas, principalmente baseado-nos em Foucault (1984, 1985, 1986, 1991, 1992), este texto a problematizará em algumas de suas interconexões na subjetividade contemporânea. Neste sentido, dentre outras interligações, serão fundamentalmente ressaltados não só seu aspecto de normalização, como também o da problematizadora ruptura que faz com a linguagem acadêmica, colocando-se, por vezes a margem do processo de ciência clássica, portanto, destacando-se como a disciplina que é uma contraciência nas ciências humanas.2

Assim, para debater essas questões, desenvolveremos o artigo em dois capítulos básicos: no primeiro, denominado de "Freud e a questão da cientificidade: um diálogo com a epistemologia," situaremos o pensamento freudiano e, conseqüentemente, a psicanálise em relação ao pensamento científico. No segundo, denominado de "Psicanálise e engenho contemporâneo: máquina de reterritorialização e desterritorialização na subjetividade,"3 debateremos as principais vocações da psicanálise na subjetividade contemporânea, sobretudo no sentido de seu aspecto de contraciência. Por último, apresentaremos "Algumas reflexões conclusivas," nas quais ressaltaremos as principais questões da investigação do objeto em estudo.

 

1 - Freud e a questão da cientificidade: um diálogo com a epistemologia

Estranho é o século XX, começa com a
 Interpretação dos Sonhos (Freud, 1900), finda-se
com a queda do Muro de Berlim.4

 

Freud? Que Freud? Psicanálise? Que psicanálise? Pensando no audacioso projeto que se tornou o pensamento freudiano ao longo do século XX, a tal respeito vê-se que uma de suas grandes virtudes na passagem deste milênio é que, afora as querelas e igrejas de algumas linhas psicanalíticas existentes, não existe apenas um Freud, mas vários. Talvez, a partir de tal constatação, também seja lícito dizer que não há apenas uma psicanálise, mas várias psicanálises. Há o Freud do projeto neurológico, o da teoria da sedução, o da sexualidade infantil; o do exílio em Londres, o qual produziu um dos textos mais lindos da psicanálise "Análise terminável e interminável."5 Por sua vez, sobretudo na contemporaneidade, existe a psicanálise pela leitura freudiana, existe a psicanálise pelo olhar de Klein, de Lacan, ou como se diz na linguagem dos não-leigos, há os freudianos, os kleinianos, os lacanianos. Independente disso, há a escola argentina de psicanálise, notadamente relacionada com uma psicanálise social e institucional, da qual, entre outros autores, destacam-se Pinchon-Riviere e Gregório Baremblitt. Este último, atualmente, radicado no Brasil. No nosso país, existe também um repensar da psicanálise de forma sui generis, notadamente através do pensamento do psicanalista paulista Fábio Herrmann,6 e assim por diante. Entretanto, para nós, especialmente neste artigo, interessa-nos discutir a psicanálise, notadamente a partir de Freud, no seu aspecto de cientificidade.

Acerca da cientificidade da psicanálise, há quatro críticas que se destacam: a crítica do empirismo lógico, a do racionalismo crítico de Karl Popper, a reflexão epistemológica de Bachelard e a análise arqueológica de Michel Foucault. Apenas chamamos a atenção para o fato de que, quanto a esta última, iremos desenvolvê-la separadamente no próximo capítulo.

A primeira, defendendo o que se pode chamar de empirismo lógico (o ponto de vista da lógica da explicação), contesta frontalmente a psicanálise no seu caráter de cientificidade. Aqui, os empiristas partem do pressuposto de que, se a psicanálise tem a pretensão de colocar-se como uma disciplina cientifica, então deve sujeitar-se aos mesmos critérios de verificabilidade de outras disciplinas que caminham em tal direção, como a física. Em outras palavras, caso queira receber esse status, deve aceitar as decorrências da validação empírica, qual sejam a de apresentar formulações que se submetam ao controle experimental. Assim, para que essa teoria possa fundamentar-se, deve mostrar definições operatórias, apontar para fatos definidos, e não ambíguos. Enfim, tudo o que a psicanálise não faz. Desta forma, como não apresenta tais critérios que, na opinião desses senhores, são imprescindíveis, logo, a psicanálise não é ciência.

Nesse caminho, situam-se os comportamentalistas e neocomportamentalistas. Para Skinner, a título de ilustração, a psicanálise, para ser ciência, precisa mostrar-se através de uma linguagem operacional. Entretanto, reside aqui um de seus grandes problemas :

Aos olhos do operacionalismo estrito, a teoria psicanalítica e todos os conceitos que gravitam em torno da idéia do aparelho mental só podem aparecer como metáforas perigosas. Do ponto de vista epistemológico, a teoria psicanalítica não constitui um progresso decisivo em relação ao animismo (crença segundo a qual a natureza é regida por almas ou espíritos, análogos à vontade humana) e a seus sucedâneos: "O esquema explicativo de Freud," diz Skinner, "segue o modelo tradicional convidando a procurar uma causa do comportamento humano no interior do organismo." Esta "ficção tradicional de uma vida mental" leva a afirmar algo que não é observável e sobre o qual não podemos agir (Japiassu, 1998, p. 47).

Como se vê, a crítica acima pretende reduzir a psicanálise a uma teoria observável do comportamento, principalmente através dos psicólogos comportamentalistas e derivados (cognitivistas, neurolingüistas, etc.). O curioso é que, a partir disso, notamente nos Estados Unidos, a grande parte dos psicanalistas americanos, preocupados em atender os preceitos do positivismo lógico, reformulam os princípios básicos da psicanálise e a recriam dentro de uma psicologia do ego. Lamentavelmente, em nome de tal reformulação, corre-se o risco de transformar o processo analítico em uma mera adaptação à ordem vigente.

Psicanálise? Que psicanálise? Um dos equívocos fundamentais de tais senhores é que, em nome de uma cientificidade asséptica e supostamente neutra, forçam alguns psicanalistas a caminharem não só para o fisicalismo, como também para o direcionamento de seus trabalhos em prol da ordem adaptativa, no sentido de uma reprodução pura e simples do estabelecido. Ora, a questão adaptativa, pelo menos de tal forma, contraria a psicanálise nos seus pressupostos básicos, pois que, ainda que seja passível de crítica, uma das suas maiores virtudes é que, pelo menos a partir de Freud, ela não tem caráter adaptador. Em outras palavras, o que tal crítica quer - e, pelo menos parcialmente, parece que conseguiu com a psicanálise americana - é transfomá-la em uma "psicologia adaptadora," a qual, em nome de supostos preceitos "científicos," quer minimizar conflitos, coptando-os ao instituído em voga.7 Infelizmente, o que a crítica do empirismo lógico não percebe é que, na realidade, a psicanálise não pretende ensinar o valor da vida, porém, se até for o caso, pretende questionar o sentido da história do sujeito para que apareçam as suas escolhas, diante de diferentes opções e significados da vida, significados esses que cada singularidade pode construir.8

Mas, ainda pensando sobre essa crítica do positivismo lógico, ela se destaca como uma das visões que está sendo ultrapassada pelo objeto da ciência atual. Ora, pensar a psicanálise exclusivamente pela questão de que ela não é científica porque não formula hipóteses ditas objetivas, é prender-se em uma noção de ciência que se baseia em uma física de Newton, a qual, principalmente na contemporaneidade, vem sendo derrogada pela Nova ciência. Assim, deste último ponto de vista, sobretudo através da discussão da subjetividade, a psicanálise pode considerar-se bastante atualizada. Ora, se o positivismo lógico, na sua visão de física clássica buscava a certeza e opunha-se a todo ruído subjetivo, na física moderna, ou na Nova ciência, o caos, a incerteza e outros fatores do gênero, em vez de ganharem o velho sentido negativo, passam a ter uma positividade própria. Desta forma, agora, a incerteza, a instabilidade e outros fatos da ordem subjetiva passam a ser incorporados ao objeto científico. O mais curioso é que quem defende pontos que caminham em direção à subjetividade não são necessariamente os psicanalistas, mas, antes de tudo, são os físicos e os químicos. Basta dizer que Prigogine (1996), Nobel de química de 1977, é um dos que traz contribuições importantes nesse sentido.9

A crítica de Popper (1975) avança um pouco mais. Ela, em síntese, diz que se queremos verificar se uma disciplina é científica ou não, devemos buscar menos a confirmação de seus pressupostos e mais a sua negação, ou melhor, em vez de procurarmos a veracidade de tais fatos, deve-se buscar principalmente o critério de sua falsibilidade ou refutação. Em outras palavras, do ponto de vista da crítica, ao aplicar tal critério, Popper diz que a psicanálise padece de uma grande lacuna: seus pressupostos, longe de serem refutados, são sempre confirmados. Assim, ela dificilmente pode ser considerada uma disciplina científica.

Aos olhos de Popper, é a refutabilidade que constitui o verdadeiro critério de demarcação entre o científico e o não científico. De um lado, temos as teorias que podem ser refutadas experimentalmente; do outro, as teorias poucos operatórias para que testes decisivos possam ser efetuados. As primeiras são teorias científicas. As segundas são metafísicas. Enquanto as teorias físicas fazem previsões que podem ser desmentidas pelos fatos provocados ou observados, as "teorias" psicanalíticas não assumem esse risco. Elas se contentam com predições vagas. Ademais são capazes de explicar todos os fenômenos que parecem contradizê-las de modo evidente (Japiassu, 1998, p. 50).

Aqui, sobre a discussão da cientificidade, cabe um parêntese: Popper, estudioso da ciência desde a juventude, não tinha uma atitude a priori necessariamente contra a psicanálise em si. Ele faz seus comentários e suas análises sobre ela, o marxismo e a Teoria da relatividade de Einstein. Desta maneira, elegantemente, de um lado, argumenta que, se a teoria da relatividade tem pressupostos que podem ser refutados pela experimentação, então, ela é científica. Mas, de outro lado, como nem a psicanálise e nem o marxismo, que querem dar conta de tudo, têm pressupostos que podem ser refutados, logo, são disciplinas que devem ser colocadas no parâmetro da dúvida em relação ao fato de caminharem ao encontro da ciência clássica.10

Mas será que Popper é a última palavra acerca da reflexão da produção do saber científico? E se o contrapusermos a Bachelard, notadamente quando este problematiza que o conhecimento científico se produz mais pela ruptura e menos pela continuidade com o objeto vigente? A partir de tal pensamento, então, a psicanálise destaca-se como uma disciplina das mais científicas. Isto quer dizer que a produção do saber científico, antes de levar em conta a questão da comprovação ou mesmo da refutabilidade de Popper, deve observar que pode estar havendo a emergência de um novo saber, o qual, pela forma sui generis de pôr-se diante dos fenômenos estudados, cria uma série de obstáculos epistemológicos. Assim, o saber científico dever ser entendido como uma perpétua ruptura, exceto quando queira tornar-se uma opinião esterilizante, no sentido de apenas subscrever o estabelecido vigente. Em outras palavras, é preciso ter em conta que uma nova idéia científica, para ser uma opinião consagrada, só terá chances de crescer através de um corte, rompendo com os velhos paradigmas vigentes. Tal rompimento e crescimento, por sua vez, apresentar-se-á por um fluxo descontínuo, e não por um fluxo contínuo, como pensavam os empiristas lógicos e mesmo Popper. "É sobretudo numa ciência jovem que se encontra essa indesejável originalidade (da produção do saber) que só contribui para reforçar os obstáculos contrários" (Bachelard, 1996, p. 26).

Frise-se que a epistemologia de Bachelard, além de defender que a ciência não deve abrir mão da imaginação,11 afora estar de acordo com a Nova ciência, fundamentalmente contribui para que se descontruísse a crença de que os fatos científicos, independentemente de serem obtidos através de comprovação ou de refutação, são o último critério para que se esclareça se a disciplina é científica ou não. Dentre alguns conceitos que contribuíram para a destruição da "imortalidade científica dos fatos" está a noção do obstáculo epistemológico. Este é um conjunto de crenças e pressupostos da ciência vigente, os quais, freqüentemente, impedem que surjam outras visões sobre determinados fenômenos. "Se o pensamento científico é eminentemente progressivo, e se sua démarche é feita através de suas próprias reorganizações, diremos que o obstáculo epistemológico aparece todas as vezes que uma organização do pensamento preexistente encontra-se ameaçada" (Japiassu, 1977, p. 73).

Vencer esse obstáculo é uma das tarefas principais do pensamento científico, que só pode buscar o oxigênio conveniente para sua sobrevivência, destruindo ou fazendo uma ruptura com o senso comum e com o pensamento hegemônico de então. "No fundo, o ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos, superando o que, no próprio espírito, é obstáculo à espiritualização" (Bachelard, 1996 p. 17).

Como se pode perceber, a noção de obstáculo está relacionada ao corte epistemológico e também à noção de descontinuidade junto ao pensamento científico. Bachelard chega a afirmar, de forma irônica, que os cientistas, de maneira geral, apresentam-se em duas categorias : há aqueles que são úteis à ciência, notadamente quando são jovens; há aqueles que são inúteis, quando passam a acreditar, de forma absoluta, nos pressupostos de sua disciplina científica, ou seja, estes realmente envelhecem. O corte epistemológico, no caso, acontece principalmente junto aos últimos. Por quê? Ora, responde-nos o próprio Bachelard (1996):

Hábitos que foram úteis e sadios podem, com o tempo, entravar a pesquisa. Bergson dizia: "Nosso espírito tem a tendência irresistível de considerar como mais clara a idéia que costuma utilizar com freqüência." A idéia ganha assim uma clareza intrínseca abusiva. Com o uso, as idéias se valorizam indevidamente. Um valor em si opõe-se à circulação dos valores (sobretudo novos). É fator de inércia para o espírito (p. 19).

O que fica claro na noção de corte epistemológico e de crescimento por rupturas é que todo conhecimento científico, longe de ser um mero relativismo, não deve colocar suas premissas como verdades primeiras e intocáveis. Não existem princípios totais e acabados na história da ciência. É, portanto, quando tais princípios não aceitam o novo que ocorre o corte e há a ruptura. Nesta situação, espera-se que passe a vigorar uma outra leitura de fatos científicos e que, com o tempo, prepondere uma nova visão sobre os fenômenos, contrariando o pretenso sonho dogmático anterior que impendia que se pensassem essas ou aquelas questões de um prisma até então singular.

Até que ponto esse fato não ocorre com a psicanálise, notadamente em relação ao paradigma da ciência clássica?

Antes de debatermos essa indagação, temos também que responder uma outra: "Como se constitui uma ciência?" Para solucionar tal questão e verificar se a psicanálise caminha ao encontro disso, há três critérios básicos: 1º) uma ciência firma-se opondo-se às opiniões, ou seja, uma disciplina científica destaca-se no cenário acadêmico por romper com o senso comum, propondo explicações razoáveis sobre fatos sui generis; 2º) uma disciplina científica institui-se enfrentando grandes oposições dos saberes científicos vigentes, pois, trazendo no seu bojo uma série de leituras diversas ao conhecimento hegemônico, há enormes probabilidades de ela estar "apanhando" não só por questionar o instituído da época (que se relaciona ao fator ideológico, político, institucional), como também por abalar as certezas de então, as quais não querem abrir-se ao novo (falamos do abalo às pretensas verdades cristalizadas do saber preponderante); 3º) a despeito de tudo, uma ciência se destaca firmando seu conteúdo instituinte, o qual não é só fundante, mas é também essencialmente subversivo frente ao saber-poder vigente (Japiassu, 1998).

Pelo que tudo indica, então, a psicanálise caminha em tal direção. Basta dizer que, desde os seus primeiros tempos, tal disciplina não só rompeu com o senso comum, como também colecionou inimigos ferrenhos, notadamente no plano acadêmico, por contrariar o saber oficial. Indubitavelmente, a partir de Freud, ela tornou-se um saber transgressor, principalmente diante da visão da ciência naturalista, baseada na física de Newton. Isto sem contar que Freud não só rompeu com a psicologia da consciência, lançando as bases de uma teoria do sujeito, para ficar em alguns exemplos, como também desbancou a pretensão de que o Homem era senhor absoluto de seu pensamento, o qual, equivocadamente, pensava-se apenas racional e autônomo. Claro, referimo-nos ao questionamento de Freud, mostrando-nos que existimos e somos comandados por uma outra ordem : a ordem do inconsciente.

Assim como Marx nos mostrou que o sujeito humano, o ego econômico, político ou filosófico, não constitui mais o "centro" da história, da mesma forma Freud nos revela que o sujeito real, vale dizer, o indivíduo em sua "essência" singular, não pode ser considerado como um Ego centrado em seu "EU," ou seja, em sua consciência. Porque ele é um Ego descentrado. E é constituído por uma estrutura que tampouco possui "centro:" o inconsciente. Por conseguinte, assim como a astronomia de Copérnico e de Galileu nos desalojou do centro do Universo; assim como a biologia darwiniana nos tirou da posição de reis da criação; e assim como o materialismo de Marx nos mostrou a determinação social dos lugares que acreditávamos ocupar livremente, da mesma forma Freud veio destruir nossa ilusão de que a consciência constitui o centro de nós mesmos. Com ele, nasce um problema novo : o da consciência como mentira, ou o da mentira da consciência, pois a questão da consciência é tão obscura quanto do inconsciente (Japiassu, 1998, pp. 61-62).

Mas, será que o que é mais importante para a psicanálise é apresentar necessariamente um caráter científico? O próprio Popper diz que é um grande equívoco relacionar tudo aquilo que não é científico à esfera do irrelevante. Assim, e se a psicanálise realmente não tiver um lado científico no sentido clássico? Tal fato, por sua vez, é certamente um demérito ou um mérito? Para debatermos tais questões, passaremos a discutir a crítica de Foucault.

 

2 - Psicanálise e engenho contemporâneo: máquina de reterritorialização e desterritorialização na subjetividade

Acabo por achar sagrada a desordem de
meu espírito (Rimbaud)

Será preciso também, um dia, estudar o papel que Freud desempenha, no saber psicanalítico, muito diferente, sem dúvida, do papel de Newton na física. (Foucault, 1996, p. 65)

 

Uma outra contribuição ao presente debate é pensar a psicanálise pela crítica de Foucault. Além de discutí-la menos da perspectiva da ciência clássica e mais de uma disciplina que se coloca à margem da própria psicologia, tal autor defende-a como o saber que, nas ciências humanas, pode funcionar como uma contraciência. O que isso quer dizer?

Que diversamente das ciências humanas que, voltando-se embora para o consciente, permanecem sempre no espaço do representável, a psicanálise avança para tomar o passo à representação, galgá-la do lado da finitude e fazer assim surgir, lá onde se esperavam as funções portadoras das suas normas, os conflitos carregados de regras e as significações que formam sistema, o fato simples de que pode haver sistema (logo significação), regra (logo, oposição), norma (logo, função). E nessa região onde a representação fica em suspenso, à beira de si mesma, aberta de algum modo sobre o "fechamento" da finitude, desenham-se as três figuras pelas quais a vida, como as suas funções e as suas normas, vem fundar-se na muda repetição da Morte, dos conflitos e das regras na abertura desnuda do Desejo, das significações e dos sistemas numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei (Foucault, 1991, p. 410).

Isso implica que a psicanálise desempenha um papel de contraciência, tanto na psicologia como nas ciências humanas, principalmente enquanto prática. Tal fato deve-se especialmente à relação que mantém com a finitude, no sentido de avançar para a região fundamental onde se jogam as relações de representação com a citada finitude.

Finitude? Que finitude? Falamos de uma que, para Focault, relaciona-se com o seguinte:

Não consiste apenas no fato de o homem ser limitado e ter consciência dessa limitação. Tampouco se trata de uma finitude no interior do pensamento infinito. (Tal finitude) deve ser entendida como uma finitude "no cerne mesmo desses conteúdos que são dados, por um saber finito, como as formas concretas da existência finita." Quer dizer: a psicanálise vai ao inconsciente, volta-se para ele "como para aquilo que está aí e que se afasta, que existe com a solidez muda de uma coisa, de um texto fechado sobre ele mesmo, ou de uma lacuna branca num texto visível e que, com isso, se defende." Aquilo que ela encontra, ao tentar essa abordagem, como mensageiras dessa finitude humana sobre a qual "os conteúdos da consciências se articulam," são figuras da Morte, do Desejo e da Lei. E essas figuras não podem ser encontradas no interior do saber que percorre, em sua positividade, o domínio empírico do homem." Porque aquilo que a Morte, o Desejo e a Lei designam são as condições de possibilidade de todo saber sobre o homem. (Japiassu, 1998, p. 86)

Aqui está em jogo, como se observa, não uma "ciência do homem" e nem mesmo a descoberta do inconsciente propriamente dito, mas um dispositivo de enunciação da linguagem, o qual, longe de demarcar uma psicologia do indivíduo, como faz a psicanálise americana (a psicanálise do ego), pode levar a uma problematização do sujeito. Desta forma, considerando que não é o homem que fala, mas sim o sujeito, nas suas múltiplas divisões e instâncias, considerando que o sujeito é que está implicado na instância de enunciação, só pode haver uma ciência a partir do citado sujeito. Desta forma, sobretudo para que fique mais clara essa questão, desenvolveremos a crítica de Foucault sobre a psicanálise através de três argumentos básicos:

Primeiro argumento

No primeiro argumento, está a posição, como foi observado, de vermos a psicanálise menos como ciência fisicalista e mais como contraciência. Esta não só se coloca à margem da ciência clássica, como também, funcionando pelo aspecto de contradiscurso no discurso preponderante, funda distintos discursos a partir de um dispositivo de enunciação.12 Freud, no caso, junto com Marx, é um dos instauradores da discursividade contemporânea. Estamos falando de dois nomes que são autores não só de seus livros, de sua obra, mas que, além disso, criaram alguma coisa a mais: "A possibilidade e a regra de formação de outros textos." Neste sentido, dão espaço fértil para a criação e recriação de um número infinito de discursos:13 "Freud não é simplesmente o autor da Traumdeutung ou do Mot d'Esprit; Marx não é simplesmente o autor do Manifesto ou do Capital: eles estabeleceram uma possibilidade infinita de discursos" (Foucault, 1992, p. 58).

Segundo argumento

A questão do dispositivo de enunciação, ou da contraciência, no sentido da fundação de saberes a partir deles próprios, ou da instauração discursiva, notadamente nas ciências humanas, leva-nos à reflexão da instauração e da fundação científica. Estes pontos estão separados? Aliás, podem ser separados?...

A tal respeito, diz Foucault : a) pensar pela instauração discursiva é perceber que nem sempre fica claro se estamos perante a instauração ou diante da fundação de uma ciência; b) desta forma, de outro lado, nada prova que estamos frente a dois procedimentos diversos e incompatíveis; c) tal fato questiona, por sua vez, a idéia de homem no sentido de indivíduo, ou melhor, da autoria. Isto sem falar que polemiza, antes de tudo, com a questão do sujeito e de sua enunciação : afinal, quem é que fala (Foucault, 1992)? Antes de pensar que é apenas um indivíduo que fala, falam diversos sujeitos a partir do dispositivo denominado de sujeito no discurso. Dito de outra forma, será que o importante é ver precisamente quem fala ou perceber o processo de instância peculiar envolvido, ou seja, perceber o modo de subjetividade que pode estar falando, na instância de enunciação do sujeito (Foucault, 1996)? "No plano da linguagem em geral, e de suas determinações particulares, a única ciência do possível é a ciência do sujeito responsável pela produção da linguagem" (Japiassu, 1998, p. 85).14

Foucault acha importante a questão da indagação acerca do sujeito não propriamente pela busca de um ser cristalizado, com identidade de ponto final, fato que seria um canto de sereia da contemporaneidade. Aliás, o canto da sereia seria pensarmos que existe o indivíduo com uma identidade fixa, a qual, na realidade, para os estudos foucautianos, é uma criação disciplinar, produzida por tecnologias normativas. Estas tecnologias são o reflexo do conjunto de poderes disciplinares, proliferados a partir não só de diferentes instituições (que são um dos principais dispositivos da sociedade disciplinar), como também da ajuda de seus "especialistas." O conjunto de tais tecnologias disciplinares fabrica o referido indivíduo moderno. O problemático aqui é que, detrás da pretensão de identidade cristalizada, há a vontade de servidão, de docilidade, de utilidade e de mera adaptação. É principalmente a partir de tal questão, na atualidade, que o filósofo francês se volta com todo seu potencial, a ponto de declarar, em um de seus últimos textos, que é sobre a questão do indivíduo, e não propriamente do poder, que se debruça sua obra (Foucault, 1986). Enfim, "é para decifrar este indivíduo em sua própria produção e percorrer ao seu lado a utilização a que é vinculado que Foucault escreve sobre os diferentes modos de subjetivação ... dentro de nossa cultura" (Fonseca, 1994, p. 57).15

Importa, para Focault, ao lançarmos a pergunta "quem somos nós?," tentarmos redesenhar tal questão como uma espécie de fissura na modernidade, problematizando-nos menos como sujeitos universais e mais como sujeitos ou singularidades históricas (Gros, 1995). Em outras palavras, tal fato também poderia ser lido como a tentativa de se ver a psicanálise não só como contraciência, mas também como a disciplina que se problematiza menos como a ciência do homem e mais como a ciência do subjetivo.

A conclusão de Foucault é que a psicanálise é menos um saber propriamente dito que uma ‘relação que torna possível todo saber em geral, na ordem das ciências humanas’. Não se trata de uma relação especulativa, pois é estabelecida ‘no interior de uma prática’ na qual se encontram comprometidos tanto o conhecimento que temos do homem quanto do próprio homem. Trata-se de uma relação de "ambição crítica que inquieta, do interior , todo o domínio das ciências do homem. E é justamente isso que faz da psicanálise uma disciplina que dissolve o homem. Mas se o dissolve, não é para redescobri-lo melhor ou para reencontrá-lo de modo mais puro e mais liberto, porém para 'remontar àquilo que fomenta sua positividade. E é por esta razão que a psicanálise pode ser considerada como contraciência. De forma alguma isso não quer dizer que ela seja menos ‘racional’ ou menos ‘objetiva’ que as demais ciências, mas simplesmente que as torna a ‘contracorrente’ e as conduz a seu solo epistemológico e não cessa de desfazer este homem que, nas ciências humanas, faz e desfaz sua positividade (Japiassu, 1998, p. 86).

Terceiro argumento

O terceiro argumento relaciona-se com o fato de que a instância de enunciação que Freud insere nas ciências humanas não só oferece possibilidades múltiplas, tais como a questão da autoria ou de sujeitos múltiplos, com suas singularidades históricas, como também aponta principalmente para a possibilidade de pensarmos os diferentes modos de subjetividade. E, neste momento, aportamos na discussão da ciência do subjetivo ou na questão da subjetividade. Tal ponto relaciona-se, diga-se de passagem, com uma das principais interpretações do pensamento de Foucault, notadamente baseado na última parte de sua obra (Foucault, 1984, 1985, 1986, 1993). Aqui, a partir de uma suposta teoria do sujeito, ou melhor, de sujeitos de processos singulares e polifônicos,16 o filósofo francês, problematiza uma série de pontos, ilustrados por um criar estético, ético, político; um refletir pela dobra (duplicação ou reduplicação dos sujeitos inacabados) ou pela "estética da existência" a partir da polifonia do discurso, tudo isso a partir de um pensar pela "verdadeira subjetividade."17

O que isso implica? Implica, antes de tudo, que além de apresentar-se através de alguns conceitos básicos, como o inconsciente, a sexualidade infantil, o complexo de Édipo e outros, antes de tudo, o pensamento freudiano sobressai-se principalmente por trazer a possibilidade de criarmos discursos, dentro da própria ordem do discurso, levando-nos a uma polifonia de criações sígnicas. Estas criações sígnicas diversas traduzem-se pela produção de distintos modos de subjetividade.

Dentro desse raciocínio, segundo Guattari (1993), a subjetividade contemporânea pode ser discutida através de duas compreensões básicas: de um lado, a partir de uma subjetividade homogenética; de outro, a partir de uma subjetividade heterogenética. "As transformações tecnológicas nos obrigam a considerar simultaneamente uma tendência à homogeneização universalizante e reducionista da subjetividade e uma tendência heterogenética, quer dizer, um reforço da heterogeneidade e da singularização de seus componentes" (Guattari, 1993, p. 15).

A primeira compreensão relaciona-se com a subjetividade do capitalismo mundial integrado (CMI), ou seja, caracteriza-se fundamentalmente por uma tendência de reprodução da ordem hegemônica, sobretudo através de leis, normas e valores representacionais ou simbólicos. Isto sem falar que o modo de subjetividade homogenético, talvez por estar identificado com a globalização atual, apresenta-se preponderantemente como uma espécie de padrão ou pensamento único, tendendo a abafar os vetores de singularidades que se opõem ao referido padrão. Tal modo não só defende ainda valores que são pretensamente cristalizados e naturais, como também mostra-se por um caráter dicotômico (mundo interno X mundo externo; bem X mau; indivíduo X grupo, e assim por diante). Enfim, estamos falando de um tipo de subjetividade que, afora caracterizar-se pela reprodução, tende ao processo de estabilização e faz a defesa da ordem (Guattari & Rolnik, 1986).

A segunda compreensão básica, ou a subjetividade heterogenética, não só tem caráter disruptor, como também é constantemente reprimida pela subjetividade homogenética. Assim, trata-se do modo de subjetividade mutante que, ressaltando-se pelo predomínio da caosmose incessante, no fundamental, produz signos singulares ou formas de relações diversas às do estabelecido de então. Esta é, em última instância, a subjetividade que não só irrompe e questiona a ordem vigente, como também, ao emergir, traz em si um potencial de forças que produz novas ordens, outras formas de relação.

Frise-se ainda que o modo de subjetividade heterogenético ou mutante, não obstante mostrar-se como o que causa ruptura na subjetividade hegemônica, quando realiza tal procedimento, não é necessariamente sinônimo de movimento progressista, seja no nível da política mais geral, seja no nível do pessoal. Ora, caraterizando-se fundamentalmente pelo seu aspecto múltiplo e singular de produção, em contrapartida ao modo dualista e universalizante da subjetividade homogenética, a subjetividade mutante relaciona-se aos agenciamentos caóticos, que fogem a todo tipo de ordem. Assim, apesar de poder criar novas ordens, inclusive a partir de uma ordem preponderante, nada garante que seguirá um caminho a favor da cidadania e de outros valores que estão necessariamente de acordo com o bem coletivo e pessoal. Já que tratam de forças que realmente estão além do bem e do mal, elas podem também emergir através de agenciamentos que são sinônimos de microfascismos. Isto se ilustra através de certos movimentos políticos de alguns fanáticos, ou através de algumas seitas religiosas sectárias, que causam infelizmente sérios danos para o grupo. Desta forma, como o potencial heterogenético apresenta-se fora de todo julgamento moral, quer dizer, de uma parte, pode compor com um lado de potência criadora; de outra, também pode compor com a parte da potência destrutiva. Portanto, cabe aqui chamar a atenção para o fato de que além do bem e do mal não quer dizer além do bom e do mau.

O que esse fato implica? Implica três questões básicas :

a) em primeiro lugar, implica que lidar com as forças heterogenéticas requer que desenvolvamos o que, segundo Espinosa (1991), denomina-se de entendimento ético, ou seja, precisamos desenvolver, em nós, tal entendimento sobre a nossa natureza para averiguarmos que encontros estamos compondo, a fim de que não só possamos fazer um trabalho de semiotização constante, como também de recartografia de territórios para que, sempre que necessário, façamos e refaçamos alianças (Guattari & Rolnik, 1986);

b) em segundo lugar, tal entendimento ético remete à questão sobre sentidos e valores. Dentro de tal entendimento, no caso, é preciso que percebamos que esses fatores, longe de serem algo natural, são construídos : são invenções... Portanto, é preciso saber criá-los a favor da vida, vencendo a atitude dita inocente sobre os mesmos, sobretudo produzindo-os pelo prisma de uma positividade, a fim de que se busque o entendimento ético que nos dá base para a opção da questão do bom e do mau encontro. Em outras palavras, quebrar a inocência sobre os sentidos e valores, avançando no entendimento ético que nos clareia acerca do sentido do bom e do mau, em última instância, é perceber que há dois tipos básicos de moral : há a moral nobre, determinante da vida e do valor, ou seja, estamos falando da moral criadora e produtora; existe a moral passiva, escrava e acatadora, quer dizer, falamos da moral reprodutora e discriminadora (Bastos, 1996; Nietzsche, 1981). Enquanto a última mostra-se contra a vida, a primeira, como se percebe, é plenamente favorável;

c) em terceiro lugar, bom e mau encontro provêm do "entendimento ético" adequado ou inadequado sobre a produção de sentidos e valores que podem problematizar o plano de expressão. Em outras palavras, incompreensão equivocada do referido entendimento é quando nos direcionamos exclusivamente para as construções que tendem sempre ao mau encontro em prejuízo de construções que levem ao contrário. Compreensão adequada, por sua vez, é quando conseguimos nos sintonizar com a vida e, produzindo valores que são correlatos ao que se entende por virtude radiante, tendemos a criações que levem ao bom encontro. Enfim, é a partir de tal problematização com a subjetividade que desvelaremos se nossa potência está sendo inspirada de forma adequada ou inadequada; portanto, se estamos evitando os maus encontros e construindo mais os bons.

Ressalte-se ainda que pensar pelo entendimento ético para que melhoremos nosso plano de expressão é bem diferente do procedimento de seguir um bem e um mal dado a priori, o qual é representado e apresentado como o que tem valor e sentido universal. Desse modo, vale reproduzir um trecho no qual, tratando do bom encontro e do mau, convidando-nos para que criemos o primeiro e evitemos o segundo, diz-nos :

O bom o é, quando um corpo compõe diretamente sua relação com o nosso e, com toda ou parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mau para nós o é, quando um corpo decompõe a relação com o nosso ..., assim como o veneno que decompõe o sangue. Bom e mau têm, então, um primeiro sentido, objetivo, mas relativo e parcial : o que é conveniente à nossa natureza , o que não é. E, por conseqüência, bom e mau têm um sentido, subjetivo e modal, qualificando dois tipos, dois modos de existência do homem : será dito bom (ou livre, ou sensato, ou forte) aquele que se esforça, do mesmo modo que está nele organizar os encontros, unir-se àquilo que convém à sua natureza, compor sua relação com relações combináveis e, por aí, aumentar sua potência ... . Será dito mau, escravo, fraco ou insensato, aquele que vive ao acaso dos encontros ..., sob pena de gemer e acusar cada vez que o efeito experimentado se mostra contrário e lhe revela sua própria impotência (Deleuze, 1994, pp. 8-9).

Assim, além de sinalizarmos que é preciso muito cuidado no lidar com tais forças, tais argumentos chamam a atenção para o fato de que, a partir da psicanálise, o processo de singularidade nos diferentes grupos poderá se dar, principalmente, num movimento que oscila entre o modo de subjetividade homogenética e heterogenética. Tal movimento, que é sobretudo construído a partir do entendimento ético em questão, problematiza-se não só pelo respeito e solidariedade com as diferenças, como também pela construção da autonomia pessoal e coletiva através de um processo ético, estético e político.18

O que isso tem a ver com nossa discussão? Antes de tudo, tais fatos apontam para a constatação de que a psicanálise - problematizando-se a partir das ciências do "homem," ou melhor, das ciências do subjetivo - tem grandes contribuições a dar. Tais contribuições situam-se principalmente na problematização de que há discursos sobre os discursos, os quais, processualmente falando, são reproduzidos ou produzidos como discursos sem pontos finais. Estes, em síntese, podem mostrar-se de duas formas básicas : a) pela tendência à reprodução da ordem hegemônica, reproduzindo-se por valores, normas e leis simbólicas, ou melhor, estamos falando de um fator que ocorre, sobretudo, pela tendência à repetição que se dá através da subjetividade homogenética; b) pela tendência à produção de algo que, além de romper com o estabelecido, cria outras ordens, novas formas de pensar, agir, perceber, ou seja, trata-se da tendência de ruptura com o instituído, que ocorre principalmente através do modo de subjetividade heterogenética. Diga-se de passagem, residem aqui algumas das razões básicas pelas quais pode-se denominar a psicanálise de "engenho contemporâneo," o qual se faz presente através de duas máquinas básicas : máquina de reterritorialização (subjetividade homogenética) e máquina de desterritorialização (máquina heterogenética).

Um outro ponto importante que correlaciona a psicanálise e a contraciência com os argumentos anteriores, diz respeito ao fato de que, mesmo sendo uma disciplina que tem uma proposta de atendimento clínico, ainda assim, diante da contemporaneidade, sua abragência não se reduz ao referido acontecimento clínico. Desta forma, podemos constatar esses diferentes modos de subjetividade reproduzindo-se e produzindo-se através da mídia, das escolas, das universidades, das empresas, das organizações de lazer e de outras instituições da atualidade.

Ainda sobre outros aspectos importantes na discussão da psicanálise com os modos de subjetividade, destaca-se o ponto de que se pode problematizá-la por uma compreensão sobre os valores e sentidos de forma peculiar. Em outras palavras, se os valores e sentidos não são fatos naturais, mas históricos, por que não podemos criá-los, sobretudo, dentro de um sentido positivo? Dentro deste raciocínio, entre outros fatos, poderíamos observar tanto a ordem como o caos, menos como inimigos e mais como fatores que, buscando uma integração, destacam-se por um sentido positivo. Isto compreende, entre outras questões, que a produção e reprodução de discursos, ou melhor, de modos distintos de subjetividade nos grupos, é uma reflexão que deve ser estudada e repensada, principalmente, livre dos maniqueísmos e de quaisquer outros tipos de reducionismos. O pior cenário aqui, por exemplo, é pensar a subjetividade mutante como a "última moda de Paris," a qual deve ser copiada indistintamente, pois que agora é o padrão, é a "boa leitura." Ora, podemos até achar indivíduos e grupos que pensam assim; contudo, tais pessoas estão ainda longe de pensar a questão da subjetividade pelo entendimento ético discutido.

Por quê? De um lado, ao agirmos assim, como já foi dito, há o perigo de termos sérias decepções, principalmente porque nem sempre a subjetividade heterogenética está relacionada com o caráter emancipador do coletivo e do pessoal. De outro, porque tomando a crítica da subjetividade ao "pé da letra," ou por qualquer outro clichê, arriscamo-nos a desmerecer extremamente qualquer tipo de ordem, o que não só incorrer em equívoco, como também é trilhar um caminho de exposição desnecessária. Frise-se também que, pensando a subjetividade de forma estereotipada, aderindo rapidamente a todo e qualquer tipo de mudança e obedecendo à ótica do mercado que nos cobra posições ditas modernas, podemos adotar o papel do "politicamente correto." Desta posição, não só podemos passar a perseguir toda e qualquer diferença, como também fazer da nossa vida e da do outro um verdadeiro desastre. Isto sem falar que há, aqui, em alguns casos, sérios riscos de agarrarmo-nos pura e simplesmente a certas posições identitárias supostamente cristalizadas, de maneira que tudo "aquilo que se afasta do nosso bom modelo" torne-se o depositário daquilo que não presta (Rolnik, 1997b).

Bom, como se pode notar, o perigo dessas e de outras posições equivocadas sobre a produção de subjetividade é que, malgrado o desejo de estar de acordo com as ditas mudanças contemporâneas, ao agirmos assim, talvez estejamos meramente seguindo o canto de sereia do dito moderno.

 

Reflexões conclusivas

Este texto, debatendo a psicanálise no âmbito da ciência e da contraciência, suscitou várias questões. Dentre as principais e no espírito de algumas reflexões conclusivas, destacamos :

1ª) É a psicanálise ciência? Que ciência? Partindo de tais indagações, poderíamos afirmar o seguinte: em relação à primeira indagação, se discutirmos a psicanálise exclusivamente do âmbito do empirismo lógico, ou mesmo da perspectiva de Popper e de outros autores que se baseiam na visão clássica da ciência e defendem fundamentalmente os pressupostos derivados da física de Newton, sob tal prisma, ela não pode ser considerada uma ciência. Em relação à segunda indagação, caso a problematizemos pela crítica de Bachelard e caminhemos ao encontro da Nova ciência, a qual considera o caos, a incerteza e a subjetividade, fatores relevantes para que se pense o objeto científico, então, ela é uma das ciências das mais atualizadas. Para maiores esclarecimentos, sugere-se principalmente a leitura das questões debatidas na primeira parte deste artigo.

2ª) Ciência fisicalista? Contradiscurso fisicalista? Afora as considerações acima, a cientificidade da psicanálise relaciona-se, sobretudo, com uma questão, a qual, a partir das ciências humanas, põe em evidência uma peculiaridade na contemporaneidade : referimo-nos a sua característica de contraciência. Em outras palavras, discutindo a psicanálise sob a perspectiva de Foucault, podemos problematizá-la como uma disciplina que, longe de desmerecer-se, por não obedecer aos critérios de uma ciência naturalista, principalmente da esfera das "humanidades," destaca a possibilidade de criarmos discursos sobre os discursos existentes. Freud, segundo Foucault, além de ter escrito uma obra sobre o psiquismo, é um "autor" que traz contribuições significativas sobre um processo de um "sujeito" peculiar. Este, em síntese, relaciona-se menos com a característica cristalizada e mais com a de "sujeitos" de infinitas multiplicidades. Assim, como contraciência, ou melhor, como ciência não do homem, porém do subjetivo; como disciplina que está não contra a ciência, mas que cresce à margem, a psicanálise oferece campo fértil para criações e recriações sígnicas sem ponto final.

3ª) Ciência do Homem? Ciência da subjetividade? As criações sígnicas sem ponto final, notadamente a partir do pensamento de Foucault, remetem-nos para a problematização de distintos modos de subjetividade. O que tal fato implica? A despeito de questionar a "ciência do homem" cristalizado e buscar a discussão de sujeitos inacabados e polifônicos, problematizando tal fator menos como algo universal e homogêneo e mais como um pensar de sujeitos de singularidades históricas e heterogêneas, tal fato implica que, principalmente na atualidade, estamos diante de distintos modos básicos de subjetivação. Estes, em síntese, são : o modo de subjetividade homogenética e o modo de subjetividade heterogenética ou mutante. O primeiro relaciona-se preponderantemente com a Subjetividade do Capitalismo Mundial Integrado, o qual, principalmente do ponto de vista simbólico, tende à reprodução da ordem dominante. Aqui não só se vê uma espécie de padrão hegemônico e pretensamente homogêneo, proliferando-se em quase todos os cantos do planeta, como também registra-se uma forte tendência para abafar todo vetor de singularidade e diferença. O segundo modo, ou a subjetividade mutante, sendo constantemente rechaçada pela subjetividade hegemônica, caracteriza-se por seu caráter disruptor, ou seja, quando vem à tona, traz um grande potencial de mudança. Neste particular, estamos falando de forças que longe de estarem simplesmente de acordo com a ordem estabelecida, não só relacionam-se com os lados instituintes da mesma, como também problematizam-se pelo caos, por signos polissêmicos, enfim, através de todo um potencial criador e heterogenético.

4ª) Psicanálise? Que Psicanálise? Embora a psicanálise aplique-se principalmente ao espaço clínico, partindo da compreensão de diferentes modos de subjetividade, até que ponto ela não se apresenta como uma espécie de dispositivo para ler as diferentes produções discursivas na contemporaneidade, sobretudo através dos grupos, organizações e instituições? Desta forma, problematizando-a como uma espécie de engenho no mundo globalizado, até que ponto essa característica de contraciência, na releitura dos diferentes discursos na empresa, na escola, na universidade e assim por diante, não pode desvelar o fato de que, de um lado, as diferentes práticas existentes tendem à reprodução da subjetividade homonogenética (máquina de reterritorialidade), de outro, em alguns casos, produz discursos que tendem à subjetividade heterogenética (máquina de desterritorialização)? Afora isto, ainda dentro da mesma linha de discussão, destaca-se aqui o fato de que se pensa a questão da singularidade, ou melhor, da busca da autonomia pessoal e coletiva no contexto contemporâneo, através de uma espécie de agenciamento pendular entre um modo e outro de subjetividade.

5ª) Ora, se ver o mar apenas como o mar é não ver o mar, observar a psicanálise apenas pelo parâmetro da ciência clássica não é também deixar de perceber uma série de fatores de suma importância que tal disciplina oferece? Dentre eles, por exemplo, está a questão de que, como contraciência, na atualidade, pode problematizar a psicanálise pela produção do valor e do sentido menos pela questão do bem e do mal e mais pela do bom e do mau. O que significa apresentar-se além do bem e do mal? Em outras palavras, mais do que tudo, a produção de discursos múltiplos na ordem ressalta que os referidos valores e sentidos, longe de serem algo da ordem natural, são produzidos. Portanto, por que não pensá-los ou produzi-los, sobretudo, por um sentido de positividade? Dentro de tal raciocínio há duas questões colocadas : a) neste particular, a ordem e o caos, em vez de se oporem e serem vistos como inimigos eternos, ambos podem ter o sentido positivo, ou seja, dentro da problematização da instância discursiva, que tenderá a nos cobrar um entendimento ético, estético e micropolítico na produção de valor e de sentido, tanto a ordem deixará de ser sempre a bruxa má nos diferentes grupos, como também a questão das forças caóticas, heterogenéticas, afora não possuírem o sentido negativo, poderão caminhar na mesma direção; b) tal fato, entretanto, não quer dizer que devamos pensar que as forças heterogenéticas têm de ser tratadas como a "boa leitura" em oposição ao outro modo de subjetividade. Viu-se que essas forças, quando emergem, funcionando a despeito de todo valor moral, nem sempre levam ao que se considera "posições avançadas" em termos de cidadania e de reais conquistas pessoais e coletivas. Portanto, sobretudo por tal argumentação, como as forças em questão funcionam além de todo mal e bem, é necessário que não só as observemos com cuidado, como também que as problematizemos através do entendimento ético que será desenvolvido a seguir, explicando-se pela questão do bom e do mau.

6ª) Estranho é o século XX : começa com a Interpretação dos Sonhos de Freud e acaba com a Queda do Muro de Berlim. O que isto quer dizer? No texto, quer dizer, principalmente, que o pensamento freudiano contribuiu no desvelamento de nossos sonhos, mas ainda, como contra-ciência e a partir das ciências humanas, é também um dispositivo para que derrubemos diversos outros "muros de Berlim" no cotidiano. Tais muros, caracterizados como cristalizados, é um convite para que os superemos, pois têm a pretensão de impedir o fluxo, seja através de uma determinada concepção de homem (o do suposto indivíduo que tende a identidades fixas), seja através da visão engessada de um autor, ou de uma só subjetividade. Mas, como vimos, optar por caminhos fora desses muros, tentar romper com os modelos ditos únicos, sobretudo no mundo globalizado, não é tarefa fácil. Requer que tomemos contato com o caos, a incerteza, a instabilidade, fatores que, longe de estarem simples e necessariamente em oposição ao estabelecido ou à ordem, podem também ser vistos de outro lugar. Então, se o contato com essas forças não leva necessariamente ao que se considera progressista, é necessário lidarmos com as mesmas pelo entendimento ético. E aqui, como vimos, aporta-se na questão de que "além do bem e do mal" não é igual a "além do bom e do mau," ou melhor, não é igual a "além do bom e do mau encontro." Bom encontro é quando, com base na "moral" da vida, compomos com valores e agenciamentos que nos fazem crescer plenamente; mau encontro, por sua vez, é quando baseamos fundamentalmente nossas relações em uma "moral" escravizadora, aniquiladora. Portanto, lamentavelmente, subscrevemos um caminho oposto ao primeiro. Enquanto o mau encontro traduz-se pela opção de que colocamos nossa potência em função de uma compreensão inadequada do entendimento ético, pela busca do bom encontro e em razão da composição com aquilo que nos faz crescer em total estatura, não só estamos usando do entendimento ético de forma adequada, como também vivenciando o que se pode chamar de virtude radiante. Quem sabe, então, saboreando e praticando tal virtude, sem medo, sobretudo, das forças heterogenéticas, retornando ao poeta, possamos dizer : acabo por achar sagrada a desordem de meu espírito.

 

 

Bastos, R. L. (2001). Psychoanalysis and the ScientifcThinking: Between the Phsysicism and/or the Counter-Science in Different Ways of Subjectivity. Psicologia USP, 12 (1), 89-119.

Abstract: Discussing psychoanalysis, from its insertion in the language and in the Human Sciences, chiefly focusing on Foucault, this article calls in question its nearness and farness regarding the scientific thinking. Thus, mainly analyzing it in its interconnections to the contemporaneous subjectivity, it will be highlighted that such discipline not only stands off from the basic parameters of the classical scientific thinking, but also lays itself as an aside Science, or rather, as a counter-science. Such feature, besides the vocation for clinical psychology, puts it into relief as a discipline which offers other important contributions, being them in the aesthetics field, in the epistemology, in the authorship, which is multiple, and in the humanities as a whole.

Index terms: Psychoanalysis. Scientific thinking. Counter-science.

 

 

Referências

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Recebido em 24.01.2001
Aceito em 05.03.2000

 

 

 

1 Docente e Coordenador do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Doutor em Psicologia Clínica pela PUC/São Paulo e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisa da Subjetividade e Cultura da UFJF. Entre outras obras, tem publicado: Ciências humanas e complexidades; métodos e técnicas; o caos e a Nova ciência. Juiz de Fora, MG: Ed. UFJF/CEFIL, 1999. E-mail: rogerlustosa@uol.com.br

2 Ressalte-se que, para discutir esse último aspecto, entre outras obras, inspiramo-nos principalmente na de (Japiassu, 1998).

3 Reterritorialização e desterritorialização, termos criados por Guattari, têm a seguinte compreensão: o primeiro relaciona-se com algo que caminha ao encontro da institucionalização; o segundo trata da problematização que, rompendo com tal institucionalização, promove a criação de outras ordens, novas relações (Guattari & Rolnik, 1986).

4 O argumento de que o século XX encerrou-se com a queda do muro de Berlim, em 1989, é baseado na análise do historiador  E. J. Hobsbawn, de cujas as obras, destacamos: Hobsbawn (1996). O restante da construção é uma paródia inspirada a partir da citação de Martin Du Garde, feita por Hannah Arendt acerca do século XIX: “Século notável é este que começa com a Revolução e acaba com o caso Dreyfus!” (Arendt, 1978, p. 43).

5 Acerca dos diferentes Freuds que vão se delineando ao longo do seu pensamento, há várias obras tratando do assunto. Dentre elas, sublinhamos duas significativas: Mezan (1985) e Monzani (1989).

6 Geralmente os textos psicanalíticos, com raras exceções, apresentam-se de forma repetitiva, ou seja, de forma geral, os autores repetem e se repetem  a partir de Freud, de Lacan e de Klein. Lembram alguns turistas que, embora pretendam percorrer diferentes cenários, estão sempre no mesmo lugar. Fábio Herrmann, entre outros, rompe com tal situação. Assim, vale a pena estudar a psicanálise através de conceitos sui generis que ele propõe, tais como a “teoria dos campos,” “os inconscientes relacionais,” “a ruptura de campo” (para superar a tautologia da interpretação analítica), “a expectativa de trânsito,” etc. Para os que querem conhecê-lo, dentre as suas principais obras, destacamos: Herrmann (1983, 1991a, 1991b, 1992, 1995, 1997, 1998).

7 Talvez seja justamente por isso que Lacan, referindo-se à psicanálise americana, discute-a com uma perspectiva que não só se alinha ao estabelecido, como também subscreve a servidão (Lacan, 1992).

8 Respondendo a indagação sobre “Qual é o desafio futuro da psicanálise?,” a psicanalista Caterina Koltal, diz-nos: “Acredito que a psicanálise, apesar de assediada pelo movimento de racionalização técnico-cientifíco que vem tomando conta de todos os campos ...., resiste. Por não ensinar o sentido da vida, mas por permitir que o sujeito, ao questionar sua história e suas escolhas, encontre um sentido próprio para a vida, ela permanece ... uma aventura possível” (Leite Neto, 2000, p. 9).

9 Sobre a Nova ciência e a vontade de aprofundar os estudos na perspectiva um pensamento que transcende a perspectiva clássica, além da obra já citada, sugerimos as seguintes leituras: Bastos (1999), Morin (1995).

10 Na realidade, é uma tarefa quase impossível demarcar o que é científico ou não científico na atualidade, e Popper, estudioso como era, provavelmente sabia disso. Há sistemas lógicos, fundamentados, que podem dar conta de uma explicação razoável sobre determinados fenômenos, os quais, ainda que não sejam comprováveis por experimentação clássica, eles passam a ser aceitos pelo sistema acadêmico. Kant, por exemplo, foi um dos primeiros a contestar a divisão precisa entre aquilo que é metafísico e puramente científico. Disse, entre outros fatos, que o científico não só é baseado em crenças, mas tem vários componentes metafísicos no seu fazer e entender científico. Uma das suas “tiradas” célebres sobre o assunto, era mais ou menos a seguinte: O pensamento é algo vazio, mas as instituições sem conceitos, são organizações cegas (Japiassu, 1998; Kant, 1950).

11 Ainda sobre a obra de Bachelard vale ressaltar: 1º) é um estudioso da ciência que, a partir da problematização da teoria de Einstein, que diz ser o Novo espírito científico, argumenta que cientistas e poetas caminham para a mesma direção. Assim, ao longo de sua obra, há passagens instigantes, tais como, “diurnamente o Homem é um cientista; noturnamente é um poeta;” 2º) no Brasil há vários textos interessantes sobre Bachelard. Dentre estes, além dos de Japiassu (1977, 1998), existe um do Prof. José Américo Pessanha, da UFRJ, o qual tem o título : “Bachelard: as asas da imaginação” (Pessanha, 1985).

12 O ponto de vista pelo qual Foucault vê o pensamento freudiano, peculiarmente, como uma contraciência é também compartilhado por diferentes autores. Dentre eles, além do texto de Japiassu (1998), destacamos o de Mariguela (1995). Este, por exemplo, diz-nos: “Não nos compete aqui delimitar o estatuto de cientificidade da psicanálise. Aceitamos o argumento de Foucault, ao definir Freud como ‘instaurador de discursividade’ e, com isto, a psicanálise é pensada, no contexto das ciências humanas, como uma contraciência” (Mariguela, 1995, p. 149).

13 Ainda sobre a definição do termo contraciência, a título de ilustração, diz-nos Japiassu que pensar a psicanálise por tal questão é pensá-la como uma disciplina que “apresenta-se como .... um fermento de transformação, não somente de nossa relação com o saber, mas da representação que o homem tem de si mesmo ou, no dizer de Laplanche, transformação de um ‘modo de ser’ social e cultural” (Japiassu, 1998, p. 33).

14 Especificamente nessa parte, há uma convergência entre Foucault e Lacan. Notadamente quando este último diz que não existe ciência do Homem, ou seja, antes de existir tal ponto, há a ciência do sujeito (Lacan, 1992). Ainda sobre tal questão, reproduzimos um texto: “Penso que o hermetismo de Lacan é devido ao fato de ele querer que a leitura de seus textos não fosse simplesmente uma ‘tomada de consciência’ de suas idéias. Ele queria que o leitor se descobrisse, ele próprio, como sujeito de desejo, através dessa leitura. Lacan queria que a obscuridade de seus Escritos fosse a própria complexidade do sujeito, e que o trabalho necessário para compreendê-lo fosse um trabalho a ser realizado sobre si mesmo” (Foucault, 1999, p. 299).

15 Na obra de Foucault como um todo, há inúmeros trechos onde é ressaltado tal ponto. Vejamos, a propósito, uma dessas passagens: “O indivíduo é, sem dúvida, o átomo fictício de uma representação ‘ideológica’ da sociedade; mas é também uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se chama ‘disciplina.’ (...) Na verdade o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais da verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele pode ter se originado nessa produção” (Foucault, 1977, p. 172).

16 Ainda sobre uma certa confusão de pensarmos Foucault por uma teoria do sujeito estruturalista ou por qualquer outra que caminhe para a tendência ao ponto final, citamos um trecho: “(Foucault ) em A Arqueologia do Saber analisa essa função-sujeito: o sujeito é um lugar ou posição que varia muito segundo o tipo, segundo o limiar do enunciado; o próprio ‘autor’ não passa de uma dessas posições possíveis, em certos casos. É possível, inclusive, haver várias posições para o mesmo enunciado. Assim, o que é primeiro é um DIZ-SE, murmúrio anônimo no qual posições são apontadas para sujeitos possíveis .... Foucault se opõe a três maneiras de fazer começar a linguagem: pelas pessoas, ainda que sejam pessoas lingüísticas ou embreagens (a personologia lingüística, ‘eu falo’ à qual Foucault sempre oporá a preexistência da terceira pessoa enquanto não pessoa) ou pelo significante enquanto organização interna ou direção primeira à qual a linguagem remete (o estruturalismo lingüistico, o ‘isso fala’ ao qual Foucault opõe a preexistência de um corpus ou de um conjunto dado de enunciados determinados); ou, finalmente, por uma experiência originária, uma cumplicidade primeira com o mundo que nos abriria a possibilidade de falar dele, e faria do vísível a base do enunciável - a fenomenologia, o ‘Mundo diz,’ como se as coisas visíveis já murmurassem um sentido que a nossa linguagem só precisaria levantar, ou como se a linguagem se apoiasse num silêncio expressivo, ao qual Foucault opõe uma diferença de natureza entre ver e falar" (Deleuze, 1995, pp. 64-65).

17 A respeito do pensamento de Foucault de suas últimas obras, entre outras, sugere-se as leituras: Ortega (1999); Rabinow e Dreyfus (1995).

18 Para quem quiser aprofundar a discussão dos distintos modos de subjetividade, a título de ilustração, há várias obras. Dentre elas, destacamos: Bastos (2001), Rolnik (1997a, 1997b).