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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.12 no.1 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642001000100011 

RESENHA

A FACE PERVERSA DO NARCISISMO MODERNO

 

O Espectro de Narciso na Modernidade - de Freud a Adorno, de Mônica do Amaral, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 1997, 191 p.

 

 

O conceito de narcisismo virou moeda corrente nos cacoetes da indústria cultural ao custo de uma enorme perda semântica. O livro de Mônica do Amaral, O Espectro de Narciso na Modernidade: de Freud a Adorno, representa, antes de mais nada, a necessidade de contrariar as tendências objetivas de esvaziamento do conceito, recorrendo às suas fontes freudianas e aos apontamentos da teoria crítica de Adorno que destaca a sua importância política como categoria de análise das sociedades de massas.

A qualidade da publicação reflete-se na confecção do livro, desde a capa que reproduz uma tela de Oskar Schlemmer, Quatro Figuras numa Sala, aos aspectos gráficos da edição. O prefácio é de Ruy Fausto, que explica o objetivo da autora, o desenvolvimento do objeto e as potencialidades ou prolongamentos possíveis desse estudo teórico sobre o narcisismo através do uso de materiais históricos e da investigação da subjetividade nas sociedades burocráticas do nosso século.

É possível buscar a origem do tema tratado pela autora na Dialética do Esclarecimento e em outros textos, nos quais Adorno e Horkheimer afirmam que a ideologia do anti-semitismo é uma "ideologia involuntariamente sincera" ou uma "mentira manifesta", que insinua o recurso à força bruta e a promessa de partilha do saque.

Em "Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista", Adorno demonstrou a necessidade de uma pesquisa empírica sobre a psique do sujeito vulnerável à propaganda fascista, por causa da inutilidade ou falta de eficácia de uma crítica ideológica processada do modo clássico, ou seja, como negação determinada pela pretensão à verdade imanente ao discurso ideológico. De que adianta provar a sua falsidade, se ele não se pretende verdadeiro? Além disso, o repertório pobre de idéias, a uniformidade repetitiva desse discurso na boca de seus líderes e a sua ingenuidade desapontadora roubam da crítica ideológica o seu próprio objeto, pois ela só é possível quando este apresentar um mínimo de racionalidade para apoio da negação.

Diante disso, vale mais a pena prestar a atenção na psicologia do destinatário, do receptor que entra em sintonia com a vociferação racista e com os disparates substitutivos de uma argumentação meramente plausível. A psicologia social do sujeito cativo é, no caso do fascismo, a via de compreensão e crítica desse fenômeno ideológico de comunicação entre inconscientes, que parecem estar agendando uma espécie de festim diabólico, em nome dos "ideais de limpeza da raça".

No mesmo artigo, Adorno afirma que não pode ter sido por mero acaso que em 1922, após a Primeira Grande Guerra, Freud tenha voltado a sua atenção para o narcisismo e para os problemas do ego, ou seja, para o surgimento de um novo tipo de sofrimento psicológico, substitutivo das neuroses "clássicas", tal como a histeria. "Se é verdade", diz Adorno, "que o inconsciente do analista percebe o inconsciente do paciente, pode-se também presumir que as suas intuições teóricas são capazes de antecipar as tendências ainda latentes num nível racional, mas que já estão se manifestando num nível mais profundo".

Essas novas tendências atestam não só o declínio e a fragilidade do indivíduo mas também a psicologia de massa com potencial para promover a adesão do sujeito frágil ao discurso da força totalitária, cuja expressão eufemística é o triunfo da vontade.

O livro de Mônica assinala que ela levou a sério o problema levantado por Adorno: o perigo político de uma certa subjetividade. Levar a sério significou estudar os textos clássicos de Freud sobre o assunto, tais como Introdução ao Narcisismo, Psicologia de Massas e Análise do Ego, Caso Schreber, O Ego e o Id, entre outros. Para dar conta dessa empreitada, a autora realizou um estágio na Universidade de Paris VII.

Após essas leituras, ganhou fôlego a tentativa de construir um ensaio metapsicológico (teoria psicanalítica) sobre a psicologia das massas do fascismo, tomando como exemplo emblemático da síndrome narcisista contemporânea o estudo da paranóia de Schreber realizado por Freud e posteriormente por Canetti. Embora a ênfase do trabalho seja psicanalítica, a autora se moveu perigosamente no meio de campos interpretativos, que falam de lugares distintos e até antagônicos: alguns autores, de modo geral psicanalistas, tendem a considerar a esfera psíquica como um domínio auto-inteligível; outros, como Adorno e Horkheimer, a pensar as esferas psíquica (subjetiva) e social (objetiva) como realidades reciprocamente mediadas.

A despeito dessas dificuldades, a articulação conceitual do livro foi passando por um jogo de pensamentos e idéias dos mais complexos, "que envolve a discussão da feminilidade, da oralidade canibal, da hipnose, do amor, da melancolia, da natureza do ego, das perversões, da paranóia", segundo o prefácio de Ruy Fausto. Essa complexidade, no entanto, pode ser reduzida, sem grandes danos, a um elemento estrutural e estruturante da psique narcísica: o mecanismo paranóide da falsa projeção, tematizado no capítulo V.

O conceito de falsa projeção desenvolvido por Adorno e Horkheimer é um dos elementos-chave na análise do anti-semitismo. Distingue-se da projeção cognitiva, que seria própria da percepção. A falsa projeção é, no fundo, a percepção distorcida, provocada pela ação das pulsões inconscientes. É possível mostrar, de modo caricatural, o que seja uma falsa projeção, através de cenas do filme Em busca do ouro, nas quais um Carlitos franzino, pequeno e desnutrido, é visto pelo seu companheiro de fome absoluta como uma enorme e gorda galinha, pronta para ser perseguida e abatida sem dó.

Ora, dizer que há um mecanismo paranóide na síndrome narcisista não significa torná-la equivalente à paranóia, como o caso Schreber poderia estar sugerindo. Na verdade, o narcisismo torna o sujeito vulnerável à identificação fortemente idealizada com a figura paterna (e patética) do líder, ao mesmo tempo que projeta nos "out-groups", ou bodes expiatórios, a agressividade reprimida pela submissão à autoridade.

A síndrome narcisista, como a autora permite concluir, é uma forma da subjetividade engendrada pelas tendências totalitárias das modernas sociedades de massas, que não foram enterradas sob os escombros da Segunda Grande Guerra. O genocídio étnico é sempre uma possibilidade, bastando a política do Estado ou de grupos organizados acionar e adotar os mecanismos paranóides como forma de comando da sociedade. "Quem é escolhido para inimigo é percebido como inimigo. O distúrbio está na incapacidade de o sujeito discernir no material projetado entre o que provém dele e o que é alheio". O diagnóstico célebre é de Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento.

 

Iray Carone1
Instituo de Psicologia - USP

 

 

 

1  É professora do Instituto de Psicologia da USP e co-autora de Psicologia e Política, Cortez, 1995.