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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.12 no.1 São Paulo  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642001000100012 

RESENHA

 

Bosi, A. (1999). Machado de Assis: O enigma do olhar (229 pp.). São Paulo, Ática.

 

 

Quem quer que leia o mais recente livro de Alfredo Bosi não terá dificuldades em entender porque os psicanalistas foram uma vez tachados de "críticos literários sem nuança" (Eulálio, 1993, p. 358). Em compensação, terá oportunidade de coletar argumentos mais que habilitados para rebater a essa provocação, adquirindo uma visão matizada e historicizada da obra de Machado, da literatura e da própria vida.

O livro em foco reúne quatro ensaios: dois, recentes e inéditos, e dois publicados na década de setenta. Trata-se, portanto, de um acerto de ponteiros apurado, concebido e refinado ao longo de duas décadas: o livro, diz o autor, expõe "algumas perplexidades que a releitura do romance machadiano ainda suscita neste seu leitor contumaz" (p. 229).

Essa perplexidade, o seu "desconforto moral" (sic) diante dos melhores estudos sobre a questão da perspectiva em Machado, constituem a pedra de toque do primeiro e mais recente ensaio, O Enigma do Olhar. Bosi percebe um hiato entre o texto fonte machadiano e suas análises críticas (inclusive, pode-se depreender, as de próprio punho), sendo a intenção de seu texto diminuir "até os limites do possível" tal intervalo, que, já de partida, é dado como "talvez, infranqueável" (p. 10).

Segue-se uma formulação cada vez mais acurada do olhar - "modo existencial de lidar com a perspectiva" - machadiano, a busca da ferramenta exata para caracterizá-lo, onde nenhuma palavra é ingênua:

Olhar tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, de ponto de vista. O olhar é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo e, no limite definidor, ora é emotivo ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento. (p. 10)

A proposta de Bosi é uma "abordagem flexível, interessada não só no mesmo e no típico, mas também na diferença e singularidade." Isso porque o olhar de Machado pode assumir diferentes formas, ora coincidente com a ideologia de seu meio imediato, ora distanciado e crítico. A luz, lembra-nos o autor, não deriva do quadro que ilumina. Machado retrata com fidelidade os tipos característicos da sociedade fluminense do final do século 19. Sua compreensão, contudo, bem como seu estilo, não se limitam a esse contexto histórico e geográfico, e seus personagens vão muito além desse jardim. Temos os tipos, é verdade, mas também a construção elaborada de traços individuais e pessoais. Metáforas e imagens preciosas dão conta da individuação de alguns personagens, que escapam para longe das padronizações, "da vulgaridade dos caracteres."

Entre os protagonistas típicos, "proprietários, funcionários, agregados e escravos," imperam relações marcadas pela assimetria. A "natureza primeira" de cada um (sua "alma interna," constituída por inclinações, desejos e pulsões) mal aparece, quase sempre velada pela "natureza segunda," convenções, hábitos e costumes impostos pelo social: a "alma externa." O segundo ensaio aprofunda-se neste tema (de resto, ventilado em todo o livro), enfatizando o jogo entre essências e aparências, vícios que se apresentam com a cara de virtudes graças a cálculos habilidosos, hipocrisia, arrogância e demais artifícios: "É preciso olhar para a máscara e para o fundo dos olhos que o corte da máscara permite entrever. Esse jogo tem um nome bem conhecido: chama-se humor," afirma Bosi, concluindo o artigo "A máscara e a fenda" (p. 73 ss).

Bosi aponta a sutileza que destaca-se no olhar machadiano: mesmo diante da cena minuciosamente descrita de um comportamento abominável, não surge a condenação moral esperada, tantas vezes automática. Impassivelmente, Machado mostra e atenua, "morde e assopra," como que aceitando a inevitabilidade de tais manifestações da alma humana. Essa postura, lembra o autor, seria fatalista e conformista, não fossem o sarcasmo e escárnio, venenos aí instilados; seria também frouxidão, não fossem os opostos mantidos em sua mais dura integridade, e com muita fineza. O Conselheiro Aires é o personagem em que estas características mais se sobressaem, e é o objeto do ensaio "Uma figura machadiana" (p. 127). É ele quem abriga, por excelência, o traço tão digno do Bruxo do Cosme Velho, de "terrorista que precisa fingir-se de diplomata, ou o do diplomata que não esquece a sua outra metade, oculta, de terrorista."

Quanto ao procedimento estilístico, Bosi coteja Machado e Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Cruz e Souza, - e na geração seguinte, Augusto dos Anjos e Lima Barreto. Os modos de dizer machadianos contrastam com a expressão torturada destes seus brilhantes contemporâneos que, diz o autor, viveram dramaticamente as contradições entre as promessas do evolucionismo e as duras realidades de nosso final do século; evolucionistas e materialistas, levaram ao extremo "a denúncia da iniqüidade ora patente, ora latente nas relações sociais e raciais de um Brasil cujas elites, porém, não dispunham de outra retórica senão a do progresso linear." Machado não crê no evolucionismo: seu estilo formalmente ameno, salpicado de ironia, é indiferente às promessas da modernização ideológica. O tempo lhe deu razão no que tange às "novas idéias" como meio privilegiado de extinguir as vilezas da injustiça, da violência e da impostura; contudo não é possível classificá-lo como meramente conservador. Este campo temático encontra-se mais explorado no quarto ensaio: "Uma hipótese sobre a situação de Machado de Assis na literatura brasileira" (p. 149 ss).

Bosi nos oferece ainda uma leitura da importantíssima crítica já feita à obra machadiana, desde Astrojildo Pereira, passando por Raymundo Faoro, Lúcia Miguel Pereira, Roberto Schwarz e outros. A perspectiva destes autores é contextualizada, examinadas as suas fontes de referência, e discutidas suas posições; nessa interlocução encontramos uma nota polêmica a respeito de temas que não têm deixado indiferente nosso meio cultural, como por exemplo, a postura de Capitu.

Para finalizar, no último item que compõe o livro, "Materiais para uma genealogia do olhar machadiano," Bosi generosamente organiza uma coletânea de textos de autores, tais como Maquiavel, Adam Smith, Matias Aires, Schopenhauer, entre outros, incluindo-se trechos da Bíblia nesta seleção. Todos esses elementos têm como objetivo nos auxiliar a entender o olhar de Machado, seus critérios éticos e estéticos. Ou, nas palavras do autor:

O que apresento a seguir são fragmentos significativos, balizas de um pensamento de que Machado nos deu uma singular e complexa variante. A qual tem, para nós brasileiros, a força peculiaríssima de revelar um passado que o nosso presente está longe de ter sepultado. (p. 169)

 

Celina Ramos Couri

 

Referência

Eulálio, A. (1993). Escritos. São Paulo: UNICAMP / UNESP.