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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564versão On-line ISSN 1678-5177

Psicol. USP v.14 n.2 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642003000200003 

DOSSIÊ: WILHELM REICH

 

Regras para seguir na pesquisa básica1

 

 

Wilhelm Reich

 

 

Tradução: Sara Quenzer Matthiesen2

Nota do tradutor: Este texto, publicado originalmente no Orgone Energy Bulletin - periódico que concentra trabalhos entre 1949 e 1953 - reflete, em parte, o contexto vivido por Reich, sobretudo nos Estados Unidos da América, a partir de 1947. Foi com a esperança de um imigrante e com as marcas de um judeu, psicanalista e comunista, que Reich para lá imigrou, às vésperas da declaração da II Guerra Mundial, em 1939, após breves estadas na Dinamarca, Suécia e Noruega, decorrentes de sua retirada da Alemanha, em 1933. Da ilusão de uma vida mais livre - o que para ele, certamente, significava liberdade na pesquisa - à decepção mediante fatos cotidianos, a América foi uma desventura. Na figura de detratores variados, entre os quais a Food and Drug Administration, prosseguiram-se as perseguições a sua pessoa, cujos rótulos de louco, paranóico e charlatão persistem-lhe intrínsecos nos dias de hoje.

Ainda que num primeiro momento sua natureza rebelde e contestadora pareça defrontar-se com a proposição de " regras para serem seguidas na pesquisa básica", seu anseio é quase um prenúncio dos futuros acontecimentos em sua vida. Seus livros seriam incinerados, o material de suas pesquisas seria destruído e suas descobertas e convicções seriam caluniadas, desacreditadas e difamadas, em razão de regras existentes, que o levaram preso e à morte, em 03 de novembro de 1957. Reich, então, extrapolando os ditames científicos oficiais, satirizando atitudes consagradas neste meio e alertando todo aquele que se pretendia pesquisador, ditou suas próprias regras. Se não fossem produto do desabafo das dificuldades enfrentadas por um cientista que almejava por liberdade de expressão e pesquisa, tais regras poderiam ser tomadas num sentido anedótico, revelador da mais pura ironia. Mas se entendidas como produto do pensamento de um homem que se deixava governar pelo conhecimento como uma das fontes de sua vida, é possível notar uma luta incessante para que a ciência não se divorciasse dos sentimentos, um preço a pagar por suas descobertas acusadas de não científicas. Talvez, por isso, uma atitude extrema: reservar, em testamento, uma bagagem cultural para uma geração do porvir, que, talvez, no distante ano de 2007, estivesse preparada para compreender as " regras" de toda uma existência.

1. Seu microscópio deveria ser tão bom quanto o carro que você sonha possuir.

2. Quando você começa a olhar no microscópio ou a fazer alguma experiência, você está perguntando à natureza certas questões; portanto, olhe e escute apenas o que a natureza tem a lhe dizer, e não o que o chefe de seu departamento bacteriológico espera que você veja. Esqueça, por um momento, o que aprendeu na escola. Isso pode estar errado. Depois de ter olhado e escutado cuidadosamente, então, compare o que você viu e o que aprendeu.

3. Não tente ser esperto e inteligente. Seja humilde.

4. Não tente ser um trabalhador científico, quando você tem medo do que seu vizinho poderia dizer sobre o que você viu. Esqueça seu vizinho por uns tempos.

5. Não tente " controlar" experiências. Compreenda-as primeiro. Então, execute-as fielmente de acordo com sua descrição exata. Nunca altere um projeto experimental antes de tê-lo compreendido e de ter se tornado capaz de manejá-lo bem. Mais tarde, qualquer mudança será frutífera, mas não no começo.

6. Confie completamente em seus sentidos, se você estiver seguro de si próprio. Mas controle os resultados de suas impressões por meio de dispositivos que sejam independentes de seus sentidos. Primeiro, confie em sua sensação de calor por parte das paredes internas do acumulador de orgone.3 Então, use o termômetro para confirmar a sensação.

7. Nunca tente desenvolver idéias sobre alguma coisa que você nunca viu.

8. Julgue qualquer coisa ou processo do ponto de vista de sua própria [dele] existência e funções. Nunca tente julgar um avião pelo que você conhece sobre uma panela de pressão. E não se esqueça: Uma locomotiva a vapor é muito mais que um carrinho de mão! Você não acreditará, mas é verdade que algumas "autoridades" tentam julgar um bion4 vivo da terra pelo que eles conhecem sobre um Staphylococcus gram-positivo, ou julgar a energia cósmica pelo que eles conhecem sobre " estática" , em vez de ir por outro caminho.

9. Se você aprender sobre uma nova função básica na natureza, esteja pronto para rever suas idéias já estabelecidas.

10. Não tente esconder seus erros, fale sobre eles francamente e fique orgulhoso de conhecê-los. Não tente ser perfeito. Seus erros são os mais seguros sinalizadores em seu caminho.

11. Em pesquisa, é de suprema importância conhecer exatamente o que você não sabe.

12. Uma autoridade é aquela que sabe com o que está lidando e não aquela que nunca aprendeu o que pensa que já sabe. Um bacteriologista não é uma autoridade em bions, a menos que ele já os tenha estudado cuidadosamente, e um pesquisador do câncer não é uma autoridade na pesquisa orgonômica do câncer, além de seu próprio campo, a não ser que tenha aprendido, diligentemente, a ver o desenvolvimento do protozoário dos tecidos que se desintegram, bacilos-T etc.

 

 

1 Reich, W. (1951). Rules to follow in basic research. Orgone Energy Bulletin, Rangeley, vol. 3, no. 1, pp. 63-64. Autorização para publicação da tradução concedida por Mary Boyd Higgins, diretora do Wilhelm Reich Infant Trust Fund, em 1/2/2000.
2 Docente do Departamento de Educação Física da UNESP - Campus de Rio Claro.
3 Utilizado por Reich com fins de pesquisa e terapêutico - esse último mais conhecido, já que culminou na cassação pela Food and Drug Administration -, o acumulador de orgone era composto por paredes internas metálicas recobertas por substância orgânica (madeira, lã, algodão), cujo objetivo era concentrar energia orgone atmosférica em seu interior. Como desdobramentos das pesquisas com os bions e com células cancerosas, o acumulador de orgone foi utilizado com pacientes cancerosos e comercializado, sobretudo nos Estados Unidos, entre 1943 e 1948, quando teve início uma campanha por sua destruição, cujo estopim foram os artigos: "The New Cult of Sex and Anarchy" e "The Strange Case of Wilhelm Reich", escritos pela jornalista Mildred Edie Brady, em 1947 (N.T.).
4 Vesículas de energia, pesquisadas sobretudo quando residia na Noruega e empenhava-se na pesquisa com protozoários. Mais tarde, nos Estados Unidos da América, novas pesquisas resultaram na descoberta da energia orgone. (N.T.).

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