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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564

Psicol. USP v.15 n.3 São Paulo  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642004000200013 

PONTO DE VISTA

 

RAP

 

 

Anna Veronica Mautner1

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

 

 

Para a camada da sociedade sediada no centro dela, estudar continuamente, dos 7 anos a perder de vista, parece natural. É difícil para médicos, juízes, diretores, professores, imaginar que aprender pode ter um fim e a repetição, que leva a um eterno aperfeiçoamento que se apresenta como manutenção de um fazer, possa ser prazerosa. Poucos acreditam que o orgulho de uma bordadeira, que mantém a sua habilidade e nada mais, possa ser bom para ela. Difícil imaginar que um calígrafo, cujo trabalho hoje se restringe a "endereçar", possa achar encanto em ver que continua apto – e mais –, procurado e requisitado, se o calígrafo não assina, não recebe aplausos. Acreditem. Conheço um calígrafo, conheço uma cerzideira que se encanta quando consegue fazer seu cerzido ser imperceptível. Ainda existem marceneiros que amam a madeira e não almejam apresentar-se em feiras, concursos e notícias em jornal. Existe ainda – que sorte – muita gente que gosta de fazer para "um ou pouco mais de um outro".

Se o topo da pirâmide pudesse conter todo mundo, não seria pirâmide, seria paralelepípedo. Não há lugar para todo adolescente nas escolas de nível superior e, para bem da verdade, temos de reconhecer que nem todo mundo quer essas vagas. Se um jovem operário, da periferia, quiser e não puder é realmente triste. Mas é triste, também, a enorme quantidade de jovens que não quer estar lá, mas tem de estar porque os irmãos, os vizinhos, os colegas de colegial, seguem com pouco questionamento. Às vezes, eu sinto que a universidade se tornou o único espaço digno para um jovem urbano. Fora dali, marginalização, baixa auto-estima, como se a universidade fosse o destino da natureza humana. Sabemos que não é. E é imprescindível e urgente que se encontre uma forma de desdizer essa falsa verdade. A oficina, a quadra de esportes, a feitura de peças básicas de vestuário, a criação de bijuterias, bolsas, carteiras feitas de retalhos, teares manuais, podem dar um ganha-pão tão bom e uma satisfação pessoal idem-idem.

E está acontecendo. Lá, nos bairros mais distantes, hoje em dia, chamados de periferia, porque vemos seus habitantes como periféricos, longe do centro, não existem somente jovens drogados, marginais, invejosos, olhando sempre para o rastro deixado pelos que procuram o triunfo e a glória global.

Não é um desterro, não é periférico cantar a sua vida na forma de canção sobre si próprio. Não é desgraça ser um renomado jardineiro, não na televisão, mas sim, no seu quarteirão. A horta, o pomar e o jardim; os brincos, os colares e as pulseiras; camisetas, xales e toucas podem encantar a turma da praça, sem chegar à Daslu. Do alto da pirâmide, o olhar não enxerga satisfação nas tarefas que não tiram da garganta alheia o "– Ah! Esse tem futuro". Fazer bem é bom para si e para o outro. E pode ser vendido, pode ser trocado, ensinado. Não estando atrelado ao grande mundo da estreita superfície do alto da pirâmide, pode-se viver bem e com prazer. E, na tal da periferia, vão surgindo as levas de jovens que se encaram mutuamente sem levantar a cabeça no eterno almejar de se deslocar para as alturas – onde estará só, longe dos seus. É verdade que, pelo olhar da modernidade, será um vitorioso, que tanto pode ter uma vida prazerosa, como não. Assim é no alto, assim é na base da pirâmide. Quem consegue ter a si próprio ontem como referência para si próprio hoje, está bem consigo. Ter outros como referência pode ser necessário. Pode ajudar o mundo a crescer. Mas o bem-estar e o equilíbrio residem em ter a si próprio, seu grupo e sua geração como referência.

Eu diante de mim. Eu diante de você. Vocês e eu. Nossa rua, nosso bairro, nossa turma. Cada dia mais a periferia cria essa relação. Alguns gêmeos, alguns supertalentos, sempre se destacam. Nos bairros, toda menina estudava piano e tocava nos aniversários. Chiquinha Gonzaga, Guiomar Novaes eram raras. Mas nem por isso deixávamos de gostar das audições de final de ano. Alguns meninos da periferia viram Beatles. Outros continuam tocando nas garagens. Se continuam é porque têm prazer. Não é a mesma coisa fazer e comprar. Não é a mesma coisa comprar um CD ou tocar com uma banda, nossa banda. Nada contra o CD, mas tudo a favor do fazer, para mim e para você. É horrível viver como vivemos. Se alguém cozinha bem, logo todo mundo diz que deveria abrir um restaurante. Qualquer coisa que se faça bem, logo se pensa em sair do plano do artesanato e partir para a indústria. Lá no subúrbio existe reação e público. Tem de haver um jeito de mudar o rumo desta história. Existe bem-estar fora do itinerário seguido pelos vitoriosos globais. Olhe em sua volta, veja o que se faz, elogie. É preciso falar com o homem ao lado. Eu e você não podemos depender de Hollywood para sermos felizes. Sua aprovação é importante para mim. E a periferia, cada vez mais, sabe, faz isso, só não sabe que está fazendo certo. A balada, a pelada, a corrida, o colar que a vizinha faz, a música que o cara da frente toca, tem de ser nosso mundo, mesmo que não saia no jornal.

 

 

1 Psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo – SBPSP. Endereço eletrônico: amautner@uol.com.br

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