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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.19 no.1 São Paulo jan./mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642008000100004 

ECLÉA BOSI

 

Velhos amigos

 

Old friends

 

Vieux amis

 

Viejos amigos

 

 

Viviana Bosi1

Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

 

 


RESUMO

Este texto faz uma breve apresentação do livro de estórias Velhos Amigos, de Ecléa Bosi, do ponto de vista do tom dominante, do estilo, dos temas e de suas principais motivações.

Palavras-chave: Bosi, Ecléa. Estórias. Memória. Ficção.


ABSTRACT

This text makes a short presentation of the book of stories Velhos Amigos, by Ecléa Bosi, from the point of view of the dominating tone, the style, the themes and its main purposes.

Keywords: Bosi, Ecléa. Stories. Memories. Fiction.


RÉSUMÉ

Ce texte fait une bréve présentation bref du livre d’histoires Velhos Amigos, d’Ecléa Bosi, du point du vue du ton dominant, du style, des thèmes et de ses principales motivations.

Mots-clés: Bosi, Ecléa. Histoires. Mémoires. Fiction.


RESUMEN

Este texto haz una breve presentación del libro de historias Velhos Amigos, de Ecléa Bosi, del punto de vista del tono dominante, del estilo, de los temas y de sus principales motivaciones.

Palavras-clave: Bosi, Ecléa. Historias. Memorias. Ficción.


 

 

Por que sentimos, ao longo da leitura de Velhos Amigos, uma comoção discreta a nos acompanhar por todas as estórias, sendo elas tão diferentes entre si? Será que as estórias mantêm um vínculo de simpatia, como se houvesse uma continuidade secreta que as fizesse compartilhar uma reiterada variação em fuga?

Quando passeamos por São Paulo, nesses bairros em que há enclaves de casinhas resistentes, notamos algumas casas que nos surpreendem por entre as fileiras monótonas de sobrados em geral geminados, com grades na frente e nas janelas, e quintais ladrilhados em que ou nunca houve espaço para jardins ou estes foram transformados em garagens. Nessas casas diferentes ainda sobrevive o modelo de cercas baixas de madeira, e canteiros de roseiras, flores de São João e espadas de São Jorge. Muitas vezes de pintura descascada, vê-se que a construção no geral antiga foi, com os anos, se harmonizando à natureza – como se o contraste entre arquitetura e natureza fosse se esmaecendo, e a casa de certa maneira não se impusesse em oposição à paisagem – ao contrário do que se percebe em algumas construções mais novas ou reformadas, em que ressalta o artifício, o brilho da pintura nova, a disposição dos espaços, a decoração – em que tudo se evidencia como calculado (um parênteses necessário: não estou elogiando todas as casas velhas em oposição às novas, ou o desleixo em contraposição ao capricho, mas fazendo uma observação que vale para certo estilo de habitação). Esse tipo de casa que queremos destacar dá a impressão de espontaneidade, como se pertencesse àquele chão e nele se integrasse ou dissolvesse, porque os muros se cobriram de unha de gato ou musgo, porque as trepadeiras cresceram e esconderam as janelas, porque o telhado ficou mais baixo que os arbustos. Mesmo quando as ruas em que se situam tais casas especiais são avenidas muito movimentadas, assim que damos as costas ao trânsito e paramos para contemplá-las, o silêncio do tempo guardado nos envolve. Somos acolhidos por essas casas, nas quais o afeto das lembranças metamorfoseou os objetos, gastando-os e dando-lhes forma de memória e história. Como no conto “Sete cachoeiras”, a cocheira transformada em casa pela família de Dominguinhos: “Um minuto aqui vale mais de dez anos lá fora, onde o mundo é um desterro” (p. 103)

A impressão que temos após a leitura de Velhos Amigos é que pelo livro todo corre uma utopia de civilização, em que a história dos homens se encontraria com o ciclo da natureza, e esta, por sua vez, seria humanizada pela intervenção libertadora dos gestos de cultivo. Assim, as cabaças e abóboras que crescem e se entrelaçam pelo meio das páginas são testemunho de culturas que, do fundo da terra, fizeram-nas germinar e guardaram suas sementes ao longo do tempo, e souberam usar flores e frutos para alimento e adorno e música. Como um indiozinho, a narradora também sacode a cabaça:

Surpreendida, escuto lá dentro vozes antigas, risos de criança, ruídos de passos que voltam. E assim foi que alguém plantou e colheu o que não se come, a fruta oca, cheia de memória e de som (“Para quem gosta de cabaças”). (p. 84)

Desse modo a autora parece tratar as suas estórias, que nem sabemos definir se são contos, se são crônicas, memórias ou reflexões – como se nelas não houvesse arranjo algum, ou artifício, mas uma vizinhança da evocação as fizesse brotar, como se a cultura fosse um crescimento em continuidade com a natureza, e que a máxima felicidade fosse a do homem que consegue escapar do mundo administrado e de todo seu falso progresso. As personagens sonham – o taxista entrevê uma ilha, porto de seus olhos cansados, atrás da fumaça do trânsito; o jardineiro prefere arrancar as ervas daninhas com a mão – instrumento mais refinado que a enxada -, e se cura do veneno de cobra nadando em cachoeiras (ao invés de tomar injeções e remédios); a bola do menino é levada pelas ondas e se assemelha a um planeta azul flutuando na névoa – objeto liberto para a contemplação.

Quanto às qualidades das personagens das estórias, elas têm a ver com o engenho e a esperteza populares, que do pouco faz milagre, pela astúcia e pela bondade solidária. Isto as aproxima do leitor comum, como também o tom de conversa, em que cabe alguma digressão para pensamentos, enxertos de outros enredos, idas e voltas.

Mas, mesmo pelas estórias de final feliz, perpassa, em Velhos Amigos, uma sombra de nostalgia, uma pungência próxima do patético. Bakhtin, no seu trabalho sobre a história do romance, percebeu que os heróis da antiguidade são monumentais, colocados num pedestal, distantes de nós, especialmente na épica e na tragédia. Ainda que sintamos compaixão pelo seu destino terrível, não vertemos lágrimas por eles, impactados pela grandeza do espetáculo sublime da sua queda ou da sua redenção. O herói moderno, pelo contrário, é nosso companheiro – com ele nos identificamos, rimos e choramos. Essa proximidade começou na época do romantismo, no século XIX, momento em que os pobres passaram a ser figurantes sérios na literatura. Aquilo que Auerbach chama de estilo mesclado – entre o elevado e o baixo, característico da modernidade – é o que Bakhtin vai identificar em Dostoievski, que soube entretecer risos e lágrimas em suas narrativas, nas quais os humildes também protagonizam a ação.

É dessa maneira que o tom de Velhos Amigos chega perto do leitor, que sente continuamente um nó na garganta, como se fizesse parte daquele círculo de personagens, seus parentes e amigos antigos, e participasse do desenlace de suas vidas. As estórias, entre o conto e a crônica, se parecem também com a forma desenformada do pequeno acontecimento, em desenredo, das pessoas que moram nos interstícios do mundo, ocupando pouco lugar sobre o chão do planeta, cujo sentido de vida elas próprias não alcançam, roendo para si um modesto pedaço da existência. O tom narrativo participa da mesma despretensão, despertando a simpatia do leitor para personagens e eventos da experiência comezinha, resgatados por uma espécie de aura não sublime ou heróica e sim muito próxima de nós.

Mesmo no caso de situações históricas desesperadoras, como as vivenciadas em Hiroshima e Aushwitz, as personagens que relatam sua sobrevivência valeram-se de expedientes singelos, em que a voz da natureza veio em seu socorro. Por sinal, o velho, que resiste às transformações desenraizadoras da cidade, é um dos protagonistas mais relevantes destas estórias, como se o livro inteiro conduzisse o leitor a um olhar mais desperto para os recantos esquecidos, remansos calmos, em que sentimentos hoje quase anacrônicos ainda se configuram em ações de gentileza desinteressada, sagacidade brincalhona, confiança no desconhecido, acolhimento solidário.

Dessa forma, como o menino que evoca a estória das crianças de Parma, também nós leitores, somos levados a descobrir, através de Velhos Amigos, “uma brecha para entrar no passado”. Passado que ainda está passando, mantido em fundos de potes de cabaça que, quando abertos, permitem que se inale de repente um sopro, que sorvemos como quem anda distraído pela rua e só por um breve momento sente o cheiro suave e penetrante de uma árvore perfumada, e logo continua seu caminho, agora feliz, em devaneio, aberto para outra dimensão do tempo, livre por um instante da coação das tarefas imediatas.

O livro vai abrindo portas no coração da confraria de leitores que, por meio de seu encanto, vão entrando e participando das estórias, despertando em cada um a vontade de narrar. À medida que descobrem (descobrimos) o significado ampliador da memória e da experiência, realizamos o desejo de nos tornarmos todos Velhos Amigos.

 

Referências

Bosi, E. (2003). Velhos amigos. São Paulo: Companhia das Letras.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 13/08/2007
Aceito em: 17/12/2007

 

 

1 Viviana Bosi, Professora doutora do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Endereço eletrônico: flt@usp.br