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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.19 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642008000100005 

ECLÉA BOSI

 

Leituras de operárias

 

Women workers’ readings

 

Lectures d´ouvrières

 

Lecturas de obreras

 

 

Betty Mindlin1

Universidade Federal de Minas Gerais

 

 


RESUMO

Defensora de causas sociais, paladina poética contra injustiças e desigualdade, Ecléa Bosi em seu livro Cultura Popular e Cultura de Massa: Leituras de Operárias, pesquisa as leituras de cerca de 50 operárias, procurando ver que acesso têm ao imaginário, aos livros, quais as suas condições de vida, como a sociedade industrial as privam da criação artística e literária, apesar de sua sede de conhecimento e de expressão.

Palavras-chave: Leitura. Mulheres-operárias. Cultura popular. Indústria. Mercado.


ABSTRACT

A defender of social causes and a poetic paladin crusading against injustice and inequality, Ecléa Bosi’s research into the reading habits of circa 50 women workers led to her book, Cultura Popular e Cultura de Massa: Leituras de Operárias, where she explores their access to books and the imaginary, their lives and how industrial society deprives them of artistic and literary creativity, despite their thirst for knowledge and self expression.

Keywords: Reading. Women workers. Culture popular. Industry. Market.


RÉSUMÉ

Ecléa Bosi, qui est une guerrière poétique contre l´injustice et l´inégalité, analyse dans son livre Cultura Popular e Cultura de Massa: Leituras de Operárias la relation de cinquante ouvrières avec le monde des livres et de la culture. Elle cherche à connaître leurs conditions de vie, et les forces du marché et du profit qui les empêchent de jouir de l´expression artistique et des connaissances litéraires et philosophiques, malgré la soif qu´elles en ont, révélée à Ecléa dans leurs nombreux entretiens.

Mots-clés: Lecture. Ouvrières. Culture populaires. Marché. Connaissance.


RESUMEN

Defensora de causas sociales, paladina poética contra injusticias y desigualdades, Ecléa Bosi en su libro Cultura Popular e Cultura de Massa: Leituras de Operárias investiga las lecturas de cerca de 50 obreras, buscando ver qué acceso tienen al imaginario, a los libros, cuáles son sus condiciones de vida, cómo la sociedad industrial las privan de la creación artística y literaria, a pesar de su sed de conocimiento y de expresión.

Palabras-clave: Lectura. Mujeres obreras. Cultura popular. Industria. Mercado.


 

 

É uma emoção forte e uma honra ser convidada para participar das falas dessa manhã em homenagem a Ecléa Bosi. A fila dos que gostariam de fazer o mesmo deve ser bem comprida.

Parece ontem a sua primeira aparição em minha casa – quando eu ainda não tinha filhos, esses que hoje são homem e mulher maduros, mais velhos do que nós duas éramos então, enquanto os dela eram crianças. Não sei quem lhe disse que eu tinha grandes conhecimentos de estatística e matemática – e ela recorreu a mim para cálculos de porcentagem e regra de três nos dados de seu livro – este livro sobre o qual vou falar agora! - julgando que eu era um gênio. Felizmente nem ela nem eu precisamos de contas muito mais complicadas que esses números, e minha injusta fama continuou de pé. Mas ela, Ecléa, no mesmo dia em que a conheci transformou-se num farol para mim, para as causas sociais, a justiça, o imaginário.

Estávamos as duas, de maneiras diversas, mergulhadas no universo das operárias. Escrevi uma resenha do livro, na época, e me permito ler uma parte:

Trata-se de um dos mais profundos estudos sobre a mulher publicados nos últimos anos, por ser ao mesmo tempo uma reflexão sobre os valores da sociedade industrial. Através da análise de leituras de um grupo de operárias (livros, revistas, jornais), surge o universo vivido pela mulher operária e, diante de sua dura realidade, a pergunta sobre o significado da cultura. O livro baseia-se em entrevistas abertas feitas com cerca de cinqüenta mulheres numa fábrica. Ao contar o que lêem revelam muito de suas condições de vida: o trabalho monótono e repetitivo, em tarefas que são as mais simples e mal remuneradas na indústria, o isolamento, a insegurança econômica e emocional, as longas horas de trabalho doméstico acrescido ao de fábrica, os encargos de família, as aspirações e interesses. O que lhes oferece a cultura? Os livros as fazem enxergar melhor sua situação e imaginar formas de mudá-la? Ao contrário, o material a seu alcance é o difundido pelos meios de comunicação de massa, que em vez de acordar para os problemas da sociedade e para a posição operária dentro dela, induz à fuga ou compensação ao quotidiano inexpressivo. O trabalho cansativo não lhes permite ler mais que coisas leves, que as façam sonhar acordadas, gratificando aspirações de consumo material ou estabilidade afetiva. (Mindlin, 1977, p. 4)

E mais adiante:

No livro de Ecléa, a cuidadosa pesquisa empírica parte de uma ampla discussão teórica sobre o que significa comunicação de massa, cultura popular e cultura operária. A análise, feita nos dois primeiros capítulos, permeia todos os comentários às entrevistas. Para quem serve a cultura e de onde parte sua criação? Não estará sendo imposta de cima para baixo às massas como uma indústria lucrativa, um objeto de consumo, ao contrário de uma cultura popular que expresse uma concepção de mundo do povo? Em vez de ser exercício de liberdade, jogo e criação, e de fornecer dados para uma crítica à sociedade, a cultura de massa adormece os indivíduos e ajusta-os à dominação econômica e ao trabalho fragmentado. Como mostra Ecléa, uma verdadeira cultura operária volta-se para o conhecimento e para a ação, não para a evasão. É preciso uma cultura de proposta e não de entretenimento, que aponte o sofrimento não como fatalidade, mas como resultado de uma situação social concreta, a ser analisada e modificada. (p. 4)

E eis que releio o livro agora, e me impressiona ainda mais que antes.

A situação das operárias na indústria não deve ter se alterado muito, apesar das conquistas das organizações dos trabalhadores. Os nossos velhos guias intelectuais, como um tio barbudo ou Simone Weil, continuam muito atuais em sua análise. (Simone Weil, aliás, foi uma das figuras que nos uniram e iluminaram, a Ecléa e a mim, mas chegamos a ela por trilhas independentes). Com a globalização e a tecnologia, o capitalismo e a indústria são um todo mundial de vasos comunicantes, que tem aspectos novos e inesperados, como o mercado financeiro, a internet, a velocidade de informações, as trocas internacionais, mas operárias continuam sendo operárias, e seu acesso ao que existe de melhor na arte continua limitado. As máquinas embrutecedoras não se amenizaram, nem o quotidiano e a sobrevivência.

Certamente houve avanços, por outro lado, sobretudo depois do fim da ditadura militar. No Brasil de hoje, as propostas de formação de professores e uma visão inventiva da educação são modelos. Há inúmeros programas de leitura, governamentais ou não, multiplicam-se institutos culturais. Mas uma revolução nos investimentos seria necessária, buscando qualidade e extensão do sistema educacional, para que uma tradição de leitura e escrita fosse construída, desde a mais tenra infância, atingindo todos os brasileiros, impedindo que decisões de política cultural sejam ditadas apenas pelas leis do mercado.

Ao entrar em contato com jovens professores de outra cultura, que agora, (evocando Carlos Drummond de Andrade), “penetram surdamente no reino das palavras” escritas, os primeiros índios a escrever em suas línguas, e ler na nossa, o livro de Ecléa dá muito que pensar, como um alerta. Com eles, mais livres, donos do próprio trabalho, críticos do nosso sistema social e econômico, é em tese possível imaginar um começo que os leve em cheio para a arte e o encantamento da ficção dos grandes escritores. Vê-se a urgência de delinear políticas públicas de inclusão literária. E oral também, devemos dizer, valorizando a palavra falada, as tradições passadas pela memória de geração a geração. Não é à toa que Memória é outra das palavras-chave dos interesses de Ecléa... Há uma luta surda a ser feita contra a manipulação dos anseios de conhecimento pela indústria e pelo mercado, e existem no nosso país sistemas e invenções para tal – é preciso pô-los em prática em grande escala.

Com o pretexto dessa reunião dirigida à Ecléa, não foi só esse livro que reli, mas toda sua obra, todos os livros, com um prazer imenso. O seu traço mais característico, a mais rara virtude, presente em tudo que faz, é a coragem de olhar de frente os nós do sofrimento dos seres humanos, os absurdos e tragédias, apontando também para a plenitude e significado que poderiam ganhar se outra fosse a história, e se lograrmos cavalgá-la. Em Cultura de Massa e Cultura Popular, o seu contato próximo com as mulheres, em tom de confidência e em pé de igualdade, à escuta dos relatos pessoais de vidas que enfrentam a opressão tecnológica, social, econômica, o confronto com o masculino, torna pungente perceber que elas não podem ler, ou não conseguem, ou não chegam, aos grandes livros que dão tanto sentido às nossas vidas. Livros que são como pessoas da nossa família, árvores em torno das quais nos reunimos, que alimentaram nossa fala e expressão. Como é possível viver sem Guimarães Rosa, Tolstoi, Balzac, Cecília Meireles, Ana Axmatova, Homero, Alejo Carpentier, Natalia Ginzburg, e outros milhares de escritores? Ou sem os livros que a própria Ecléa escreveu? Quem, em que conformação social, tira dessas moças o direito de escolher as horas mágicas de um livro que seria tão simples ter nas mãos?

O profundo respeito de Ecléa pelas operárias atravessa todo o livro. Ela faz denúncias, e as mostra destituídas de oportunidades, mas não de conteúdo. Muitas das entrevistas, ou os relatos de leituras, diz Ecléa, escapam à simplificação e estereótipos do material que elas lêem: são carregados de poesia, centram-se nas trocas e conversas íntimas que têm entre si, pulsam com o desejo de ampliar o saber e o universo. Ecléa cita Richard Hoggart: “(elas) têm a fascinação dos romancistas pelos matizes do comportamento individual e os imponderáveis das relações humanas” (p. 147). E mais adiante, indicando como as moças procuram os assuntos de filosofia, ciência, literatura, Ecléa diz:

Isso é admirável da parte de quem recebeu muito pouco no terreno da cultura. Tão admirável como seria o mundo que elas fossem chamadas a construir e a transformar com todas as virtualidades de sua pessoa, não apenas com a força do trabalho. (p. 151)

Outros livros de Ecléa, como esse, tocam fundo nas feridas humanas, e exigem o posicionamento de quem lê, são sempre um apelo à consciência e lucidez. Quem tem fibra e espinha dorsal suficiente para pesquisar e imaginar o campo de Terezin, e se pôr na pele, como faz Ecléa, daqueles destinos? E sempre mostrando que há uma alma e um núcleo que não se curvam jamais, heróicos e vitais.

Ninguém passa incólume pelo caminho de Ecléa, guerreira e escritora de voz doce e fala poderosa. Ela vai desencadeando e puxando uma esteira ou procissão de peregrinos iluminados, indignados, carregando bandeiras de justiça e de poesia. Aqui, ela empunha os livros como substância, como o pão nosso de cada dia.

 

Referências

Bosi, E. (1977). Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias (3a ed.). Petrópolis, RJ: Vozes. (11a ed. rev. aum. de 2007)        [ Links ]

Mindlin, B. (1977, 29 de junho). Mulheres: o texto e o sonho [Resenha do livro Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias]. Gazeta Mercantil, p. 4.

 

 

Recebido em: 24/08/2007
Aceito em: 20/11/2007

 

 

1 Betty Mindlin é antropóloga, autora de Diários da floresta, São Paulo, Terceiro Nome, 2006 e outros livros e participa do grupo de pesquisas Literaterras, da Universidade Federal de Minas Gerais. Endereço eletrônico:arampia@uol.com.br

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