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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.21 no.3 São Paulo July/Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642010000300012 

Resenha

 

Tessituras sobre o ser e o sofrer nas neuroses e não-neuroses

 

Tessituras about the being and the suffering in the neuroses and non neuroses

 

Tessitures sur l'être et la souffrance dans les névroses et non névroses

 

Tesituras sobre el ser y el sufrir en las neurosis y no neurosis

 

 

Lidia Queiroz Silva Magnino

Universidade de Uberaba


 

 

Minerbo, M. (2009). Neurose e não-neurose. São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

 

Escrever sobre este livro é revelar como a vida e a obra da autora comunicam-se e se desenvolvem de uma forma criativa e integrada. Marion – psicanalista, doutora em Medicina, analista e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) – construiu seu trabalho dedicando-se à clínica psicanalítica e à docência no Instituto da SBPSP e em outras instituições e grupos psicanalíticos do Brasil. Publica e divulga sua experiência e sua forma de viver a Psicanálise. É fiel leitora e intérprete de Freud e de seus seguidores como Klein, Bion, Winnicott e Green. Portadora de uma escuta psicanalítica refinada, ela é capaz de ordenar e integrar os conceitos, possibilitando ao leitor compreender as inúmeras formas de sofrimento psíquico e formas de subjetividade. Pensa a clínica trabalhando as referências teóricas, sustentando a importância de não dissociá-la da metapsicologia.

Este livro, Neurose e Não-Neurose é mais um de Marion que recomendo, pois seu estilo de escrita, embora denso e profundo, é didático, claro e simples. Com objetividade, transita continuamente da teoria à prática e vice-versa. Esclarece os conceitos e, ao mesmo tempo, circunscreve-os e os situa na vida cotidiana facilitando o entendimento. Estabelece diálogos, revitaliza aspectos significativos da metapsicologia, levando o leitor a refletir, elaborar questões e a se posicionar.

Neurose e Não-Neurose é um livro que surge da sua experiência clínica, da sua agilidade, diversidade e riqueza de pensamento. Elabora uma obra de caráter interdisciplinar, organizada de uma forma que interessa tanto aos analistas em formação como a “formadores”. Generosamente, também atende a diferentes disciplinas e leitores que estudam a subjetividade contemporânea, sejam eles da universidade ou da psicanálise.

Ao insistir sobre a importância da noção de psicopatologia psicanalítica, instrumentaliza o analista a não perder o pensamento metapsicológico, isto é, a não deixar o processo analítico à deriva. Articula produtivamente as ideias metapsicológicas, organizando o campo da psicopatologia em neuroses e não-neuroses. Faz uma mediação entre clínica e metapsicologia, entre o universal e o singular.

O livro compõe-se de três partes. A primeira tem cinco capítulos que oferecem elementos clínicos e metapsicológicos para diferenciar a subjetividade neurótica da não- neurótica. No primeiro, a autora discute que sentido faz falar em psicopatologia na Psicanálise. No segundo, introduz o tema apresentando como funciona a escuta psicanalítica e quais são seus elementos significativos. Nos capítulos três e quatro tece o discurso metapsicológico, fazendo uma adaptação livre de dois manuais de psicopatologia, de Juignet (2001) e de Roussillon (2007) e de dois dicionários, Laplanche e Pontalis (2001) e Hinshelwood (1992). Descreve a psicogênese das subjetividades neurótica não-neurótica, discriminando o vértice do eixo narcísico de constituição do Eu, e o eixo objetal de constituição do objeto do desejo. Criativamente, apresenta no final do livro, três quadros sinópticos sobre as particularidades dessas articulações. No capítulo cinco descreve a subjetividade borderline e neurótica, ressalta os dois tempos do trabalho analítico e a importância de o analista mergulhar no universo subjetivo do analisando para depois trazer à luz sua determinação inconsciente.

A segunda parte, Não-neuroses: prospecções, reúne cinco capítulos (do seis ao dez) dedicados à subjetividade não neurótica. Aprofunda como se dá o encontro com o objeto, o uso da cultura, a psicopatologia do ódio e da raiva. O capítulo seis apresenta dois funcionamentos não neuróticos distintos por meio de dois personagens do filmes, um deprimido e outro atuador. No capítulo sete discute a relação da psicopatologia com a cultura. Através de uma analisanda com compulsão a comprar roupas de grife, argumenta como essa escolha funciona como uma prótese para o psiquismo da analisanda. No oitavo capítulo, a autora descreve a psicopatologia do ódio e da raiva. Nos capítulos nono e décimo, ela diferencia o ódio paranoico do invejoso.

A terceira parte é dedicada à Não-neurose e o Contemporâneo. Analisa no capítulo onze alguns fenômenos pós-modernos – certas formas de arte (a body art) e de lazer (o reality show) – que revelam a fragilidade do símbolo, compensada pela superposição entre a lógica da representação e a da realidade. Além disso, a autora discute se existem novas patologias. Ela se posiciona e argumenta que na contemporaneidade, há uma forma de sofrer relacionada à fragilidade simbólica que pode ser identificada em fenômenos sociais além da clínica. É interessante como apresenta certos comportamentos da violência adolescente, como eles se divertem (ou se defendem do tédio) atacando pessoas indefesas, e como a expressão do ódio não se limita a destruir símbolos. Discute como a cultura contemporânea dispõe de mediações simbólicas precárias – a fragilidade do símbolo – para conter a violência pulsional. Descreve como na arte, na body art, no reality show e nos crimes familiares, há uma redução do espaço entre a representação e o objeto representado, uma superposição entre representação e a realidade, uma desnaturação do sistema simbólico.

As instituições que têm como função subjetivar as pessoas, criar e lhes oferecer lugares simbólicos, estão enfraquecidas; os laços simbólicos fragilizam-se, levando a uma fratura do símbolo. Sabe-se que a função simbolizante que desintoxica a mente da intensidade afetiva é exercida pelo inconsciente materno e ou pelas instituições. Ela cria e sustenta as representações que permitem fazer sentido das experiências; quando falha, ela deixa o sujeito em um estado de desamparo identitário. Ele fica sem elementos para dar sentido a si e às suas experiências. Como consequência, experimenta um vazio e um tédio que muitas vezes são descritos como depressão. É um sofrimento narcísico.

Esta depleção simbólica é bem estudada no capítulo doze. Com três casos clínicos, a autora analisa os comportamentos compulsivos com características aditivas. Ela mostra como na subjetividade não-neurótica a depleção produz uma forma de sofrimento de que o sujeito se defende por meio de comportamentos compulsivos. “O sujeito se reconhece nos efeitos concretos”. Estes comportamentos como o excesso de consumismo, tatuagens, Orkut, esportes radicais, tornam-se patológicos quando o sujeito agarra-se a eles, não podendo dispensá-los de maneira alguma, pois são necessários para conter a angústia de fragmentação. Descreve a depleção como uma “anemia psíquica”, um estado de vazio existencial que leva as pessoas a dois tipos de comportamentos defensivos: o uso de drogas artificiais e naturais que aliviam a angústia e o tédio; e as várias formas de construção de uma identidade reificada. O externo, o estilo de vida é que determina a identidade e não o inverso.

No capítulo treze, Marion discute a prática do sexo virtual e sua função na economia psíquica. Descreve as lógicas híbridas em que o espaço do jogo, do teatro e da realidade se superpõem, dificultando ao sujeito saber onde ele se encontra, fazendo o que e com quem. Torna-se dependente de uma presença virtual vivida como “alguém” que lhe dá sustentação psíquica. Compara o destino da transferência na sala de análise e na sala de bate papo virtual. Nesta, em lugar de a transferência ser trabalhada, elaborada, interpretada, ela é atuada de forma complementar pela transferência do interlocutor virtual – com seus aspectos narcísicos, onipotentes e os de sua sexualidade perversa polimorfa. Por esse motivo as relações virtuais podem mobilizar em ambos uma excitação pulsional superior à sua capacidade de contenção simbólica. Em lugar de um brincar criativo, surge a compulsão à repetição, em que cada um busca no outro um objeto capaz de ligar a pulsão e transformá-la em fantasia. Como não encontra um objeto para fazer este trabalho psíquico, a fantasia se repete. A internet tem tempo e espaço próprios, sem limites e controle. Por isso, traz riscos ao usuário, pois a transferência se que estabelece na rede pode produzir regressões e atuações perigosas.

De forma primorosa, este livro nos ajuda a compreender que as neuroses (em que predominam dificuldades no campo do objeto do desejo) e as não-neuroses (em que predominam os distúrbios na constituição do narcisismo) são formas de SER e de SOFRER, determinadas por uma maneira de apreender o mundo e de se organizar/desorganizar frente àquilo que é apreendido. A psicopatologia psicanalítica fica situada claramente no campo da cultura – e já não se confunde com entidades nosológicas, como na psiquiatria.

 

Recebido em: 23/04/2010
Aceito em: 16/08/2010

 

 

Lidia Queiroz Silva Magnino, Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Mestre em Psicologia Clinica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Docente dos Cursos de Graduação em Psicologia e Medicina e da Pós-graduação da Universidade de Uberaba. Endereço para correspondência: Rua Major Eustáquio, nº 6, sala 804. CEP 38010-170, Uberaba, MG. Endereço eletrônico: lmagnino@terra.com.br


 

 

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