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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.21 no.4 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642010000400010 

ARTIGOS

 

Momentos de interação em que as emoções se apre(e)ndem: estudo exploratório sobre a prestação materna e infantil em jogo livre1, 2

 

Interactional moments where emotions can be (re)learned : an exploratory study of mother and infant responses in free play situations

 

Affectif moments de interaction: exploratoire étudie de la interaction maman-bébé

 

Instantes de interacción en que se adquieren las emociones : estudio exploratorio acerca del desempeño materno e infantil en el juego libre

 

 

Marina Fuertes; Anabela Faria; Hélia Soares; Antónia Oliveira-Costa

Escola Superior de Educação de Lisboa, Instituto Politécnico de Lisboa

 

 


RESUMO

Numa amostra com 99 díades mãe-filho (sem condições evidentes de risco), tendo os bebês entre 3 e 6 meses, analisamos breves sequências de jogo livre. Pretendíamos estudar a interacção mãe-filho num registo próximo do dia a dia. Para o efeito, avaliamos: a expressão facial, expressão vocal, posicionamento e manipulação, expressão afetiva, reciprocidade, directividade e jogo proporcionados pelas mães. Nos bebês observamos as respostas faciais, vocais, afectivas, a capacidade de responder reciprocamente e comportamento em jogo. Os resultados indicam que os comportamentos maternos muito sensíveis e adequados e os seus opostos - muito desajustados - são minoritários. De fato, a maioria das mães combina sensibilidade com alguma intrusão. A generalidade das crianças apresenta receptividade às solicitações maternas, mas não são raros os comportamentos difíceis e de resistência. A sensibilidade materna e a cooperação infantil apresentaram uma forte associação. Por fim, verificamos que os comportamentos maternos e infantis foram afectados pelo sexo da criança, pela educação e pelas idades maternas e o nível socioeconômico das famílias.

Palavras-chave: Relações mãe-criança. Comunicação mãe-criança. Bebês. Métodos de observação.


ABSTRACT

In this study, the authors investigate mother-child interaction in free play. Brief sequences of interaction were analyzed in a sample of 99 mother-infant dyads (with no evidence of risk). The infants' ages ranged between 3 and 6 months old. Mothers' facial and vocal expression, positioning and handling, affective expression, reciprocity, directiveness and appropriateness of play were assessed. In addition, infants were observed concerning to facial, vocal and affective responses, the ability to respond reciprocally and the quality of play presented. Results showed that highly sensitive and adequate maternal behavior and its opposite - highly insensitive and inadequate - are relatively uncommon. Moreover, a great number of mothers combined sensitivity with some level of intrusion. Infants presented, in general, receptivity to mother turns, but moment's resistance and difficult behaviors were found in many cases. These findings suggest a strong association between maternal sensitivity and infant cooperation. Results were affected by several variables like: infant's sex, mother's level of education, mother's age and family social economical status.

Keywords: Mother child relations. Mother child communication. Infants. Observation methods.


RÉSUMÉ

Dans un échantillon de 99 paires maman et bébé (sans être dans les conditions de risque), avec des enfantes entre 3 et 6 mois, nous avons analysé de brèves séquences du jeux libre. On voudrait étudier l'interaction maman et bébé justement comme ça se passe pendant la journée. A cet effet, on a évalué: l'expression facial, la vocalisation, la manipulation de la mère sur le bébé, l'expression des affects, la réciprocité, la directivité et les jeux proportionnés par les mères. Dans les bébés on a observé les réponses faciales, vocales et affectives, la capacité de répondre avec réciprocité et le type d'interaction dans le jeu. Les résultats montre que les comportements maternels, qui sont trop sensibles et adéquats, bien comme, lesquelles trop désajustés, sont en minorité. En fait, la majorité des mères fait une combinaison entre sensibilité et intrusion. La généralité des enfants présent réceptivité aux sollicitations de leurs mères mais ils ne sont pas rares les comportements difficiles et de résistance. La sensibilité maternelle et la coopération enfantine on présenté une forte association. Finalement, on a vérifié que les comportements maternels et enfantines on été affecté par le sexe de l'enfant, l'éducation, les ages maternels et le niveaux socio-économique des familles.

Mots-clés: Relations mère-enfant. Communication Mère-enfant. Bébés. Méthodes d'observation


RESUMEN

En una muestra de 99 parejas madre-hijo (sin riesgo evidente), teniendo los bebés entre 3 y 6 meses, analizamos breves sequencias de juego libre. Pretendíamos estudiar la interacción madre-hijo en un registro que se asemejase a su dia a dia. Para ello evaluamos: la expresividad facial y oral, la postura y la manipulación, la afectividad y reciprocidad, la capacidad de dirigir y la capacidad lúdica proporcionadas por las madres. En los bebés analizamos la expresividad facial, oral y afectiva, la capacidad de respuesta recíproca y su comportamiento durante el juego. Los resultados indican que tanto las actitudes maternales muy sensibles y adecuadas como sus opuestas - muy inadecuadas, son minoritarias. De hecho, la mayoría de las madres combina la sensibilidad con algún grado de intrusismo. La mayoría de los bebés es receptiva a las actitudes maternas, pero no son infrecuentes los comportamientos difíciles y rebeldes. La sensibilidad materna y la cooperación infantil mostraron una fuerte asociación. Finalmente, verificamos que las actitudes maternas e infantiles dependieron del sexo del niño, de la educación, de la edad materna y del nivel sócio-económico de las famílias.

Palabras clave: Relaciones madre-niño. Comunicación madre-niño. Lactantes. Metodos de observación.


 

 

Nas últimas quatro décadas, a tentativa de compreender de que forma as mães e as crianças contribuem para o tipo de vinculação que estabelecem entre si tem animado uma parte substancial da investigação nesse domínio. Atualmente, pretendemos estudar exploratoriamente várias dimensões do comportamento materno e infantil, observadas em interação livre. Aos 6 meses de vida dos bebês, antes do estabelecimento da vinculação, averiguaremos como conseguem as crianças atrair e manter a atenção do adulto e como responde a mãe a essas solicitações.

A resposta materna atenta, pronta e adequada parece favorecer uma vinculação segura libertando a criança para a exploração (Ainsworth, 1965; Bowlby, 1969).

Acresce que, ao longo deste processo, a criança vai compondo modelos internos acerca: da figura de vinculação (e.g., da sua disponibilidade e capacidade de resposta), de si própria (a sua importância e eficácia na relação) e do meio em geral (Bowbly, 1969); modelos os quais servem de base para o desenvolvimento sócio-emocional.

Dando início ao estudo sobre a resposta materna, a equipe de Ainsworth observou, longitudinalmente, o comportamento materno nas rotinas diárias, em visitas domiciliárias espaçadas de 3 a 4 semanas (Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978). A análise dos transcritos narrativos permitiu elaborar dois tipos de medida: uma de natureza molecular, assente na definição de unidades de observação bem precisas que davam azo à recolha de registos de frequência; outra baseada em avaliações molares do comportamento materno efetuadas por intermédio de escalas. Ainsworth e seus associados (Ainsworth et al., 1978) procuravam determinar até que ponto os resultados dessas observações eram prognósticos da classificação da vinculação avaliada aos doze meses na situação estranha. Os resultados obtidos foram animadores, verificou-se que, comparativamente às mães dos outros grupos, as mães das crianças seguras demoravam menos tempo a responder ao choro dos filhos; eram mais afectuosas no modo como pegavam os bebês no colo; revelavam menor aversão ao contacto físico; e evidenciavam maior contingência nas respostas diádicas.

Das escalas elaboradas por Ainsworth, Bell e Stayton (1971), a escala da Sensibilidade foi, sem dúvida, a que demonstrou possuir maior valor preditivo da vinculação. A sensibilidade materna foi definida atendendo a quatro componentes essenciais: (a) a tomada de consciência dos sinais enviados pela criança; (b) a capacidade para os interpretar correctamente; (c) a adequação das respostas dadas (tendo em conta os estados emocionais do sujeito e o seu nível desenvolvimental); (d) a prontidão dessas mesmas respostas. (Ainsworth, Bell, & Stayton, 1974, p. 127).

Embora a relação entre as medidas da sensibilidade materna e a segurança da vinculação infantil tenham sido profusamente observada, alguns autores sublinham que essas associações não se configuram tão importantes como originalmente se pensava (e.g., Goldsmith & Alansky; 1987). Assim, é lançada a discussão sobre que aspectos do comportamento materno afetam mais o comportamento infantil. Num estudo metanalítico, De Wolf e van Ijzendoorn (1997) verificaram que para além dos aspectos descritos na definição de sensibilidade, as dimensões que obtêm relações mais fortes com a segurança da vinculação são: a Mutualidade (trocas interativas em que mãe e filho atendem ou orientam-se para o mesmo objectivo), a Sincronia (grau em que as transacções diádicas são recíprocas e mutuamente gratificantes), o Apoio (grau em que a figura materna se mostra atenta e suporta os esforços da criança), a Atitude Positiva (expressão materna de afecto positivo) e a Estimulação (quantidade de ações dirigidas ao bebê). Perante esses dados, o conceito de sensibilidade começa a ser interpretado no contexto diádico (Van den Boom, 1997). Com efeito, a mutualidade e a sincronia da interacção dificilmente podem ser considerados exclusivamente como um atributo da prestação materna. São, no fundo, medidas que avaliam mais o desempenho diádico do que o contributo individual. Como tal, à luz dos pressupostos da perspectiva sistêmica, poderá fazer sentido conceber os indivíduos como unidades ou elementos de um sistema que mudam dinâmica e constantemente de acordo com a informação disponível e com as respostas obtidas (Bertalanffy, 1968).

Nesse sentido para além dos aspectos morfológicos descritos por exemplo por Main e Solomon (1990), alguns autores (e.g., Belsky, 1999; Crittenden, 1999) passam também a atribuir importância às funções do comportamento de ambos os elementos da díade. Assim, se o adulto sorri face a uma resposta positiva da criança, estará, provavelmente, a gratificar o seu bom desempenho ou a sua cooperação. Contudo, se o sorriso surge face a manifestações de indisciplina, tal será uma simulação de uma relação satisfatória com o propósito implícito de iludir eventuais observadores externos. Noutros casos, o adulto pode sorrir aleatoriamente, atribuindo à criança o papel determinante na regulação emocional da relação. Do lado da criança, também é possível observarmos comportamentos com diversas funções. Se ela olha, por exemplo, o adulto de modo estático ou receoso, isso pode significar uma resposta de submissão. Mas, se o olhar for radioso estaremos já, potencialmente, face a um sinal de interesse pelo adulto ou pela interacção que este proporciona. Assim, a análise dos comportamentos de cada interlocutor terá de atender ao efeito no seu parceiro, à função desses comportamentos e à sequência dos acontecimentos.

Para além da sensibilidade, outros estilos de comportamento maternos têm sido descritos e relacionados com a qualidade da vinculação. A investigação, da equipe de Ainsworth (Ainsworth et al., 1978), indicou que as crianças classificadas como evitantes tinham mães que revelavam rejeição concorrente com sentimentos positivos para com os filhos. As crianças, por seu lado, pareciam estar submergidas pela raiva e irritação. Posteriormente, o trabalho de Isabella (1993) sugere que as origens do padrão "A" poderão decorrer quer da rejeição, quer da adoção de um estilo de sobre - estimulação por parte da mãe. Actualmente, considera-se que a organização do comportamento evitante é formada em consequência de ambientes sistematicamente: rejeitantes, sobre-estimulantes/intrusivos ou punitivos. No que concerne às mães das crianças ambivalentes/resistentes seriam inconsistentes nas suas respostas (e.g., Isabella, 1993); tal facto levaria a criança a desenvolver uma representação da figura de vinculação como pessoa indisponível ou imprevisível, o que explicaria, por exemplo, a ambivalência observada nos episódios de reunião da Situação Estranha.

O contributo infantil tem sido referido no contexto das abordagens temperamentais como: (a) tipos de comportamento pré-determinado (e.g., Kagan, 1984; Rothbart & Bates, 1998), (b) reatividade comportamental (e.g., Thomas & Chess, 1977), (c) capacidade de autorregulação avaliada por meio de indicadores fisiológicos (e.g., Calkins & Fox, 1992; Gunnar, Mangelsdorf, Larson, & Hertsgaard, 1989); e (d) como um atributo resultante das representações sociais (e.g., Bates & Bayles, 1984). A existência de bebês mais "fáceis" ou mais "difíceis" parece ser uma evidência relativamente aceite mas a operacionalização teórica e descritiva destes conceitos continua a dividir os autores (para uma revisão ver Vaughn & Bost, 1999).

No presente estudo, assumimos a tipologia de Crittenden (1999) relativamente ao comportamento do bebê - cooperação, submissão, resistência e passividade - por ter obtido boas correlações com o comportamento materno. Resultados concordantes têm sido obtidos em amostras nacionais. Efetivamente, numa amostra com prematuros, Fuertes et al. (Fuertes, 2005; Fuertes, Lopes dos Santos, Beegly, & Tronick, 2006) verificaram que estes estilos maternos e infantis estavam fortemente correlacionados: a sensibilidade materna com a cooperação infantil, a intrusão materna com a submissão infantil e a passividade materna com a dificuldade infantil. Noutro estudo, igualmente com amostras portuguesas, a relação entre o comportamento passivo materno e o comportamento infantil variou de acordo com as condições de risco (Fuertes, Faria, Soares & Crittenden, 2007). Por exemplo, em amostras socioeconomicamente desfavorecidas (em que a passividade materna é significativamente superior à registada na amostra normal), a passividade adulta passou a estar associada à passividade infantil. Este estudo também vem suportar a tese de que a relação entre o comportamento materno e infantil é influenciada por fatores ambientais.

Não obstante estes trabalhos apresentarem resultados com base em perfis gerais do comportamento materno e infantil, nada nos é dito quanto à forma de interação verbal, facial, contacto físico, afectividade ou qualidade de jogo dos parceiros de interacção.

O presente trabalho combina uma abordagem morfogênica dos comportamentos maternos e infantis com uma análise qualitativa do tipo de funcionamento diádico. Do ponto de vista morfogênico serão estudadas as seguintes dimensões do comportamento materno: a expressão facial, a expressão vocal, o posicionamento e manipulação, a expressão afetiva, a reciprocidade, a diretividade e qualidade de jogo. Nos bebês serão observadas as suas respostas faciais, vocais, afetivas, a capacidade de responder reciprocamente e o tipo de interacção em jogo. Numa óptica qualitativa estes comportamentos serão interpretados à luz de três estilos de funcionamento materno (sensibilidade, intrusividade/controle e passividade) e quatro infantis (cooperação, submissão, dificuldade e passividade). Em suma, o presente estudo procurará descrever várias dimensões do comportamento materno e do comportamento infantil em interação livre; verificar a relação entre as dimensões do comportamento materno e as dimensões do comportamento infantil de acordo com estilos comportamentais previamente definidos e, por fim, verificar de que forma os fatores ligados à criança e à família afetam os comportamentos e estilos maternos e infantis.

 

MÉTODO

Amostra

O estudo incidiu na observação de 99 díades mãe-filho(a) em interacção livre. As crianças apresentavam idades compreendidas entre os 3 e os 6 meses (M = 4.67; SD = 1.32) e dividiam-se quase equitativamente em função do género: 45 mulheres e 54 rapazes. No seu conjunto apresentaram a idade gestacional média de 38,86 semanas, (SD = 0,94), variando entre 37 e 41 semanas de gestação. O peso médio dos bebês, ao nascer, foi de 3150 gramas (desvio padrão de 270g e variação entre 2480 e 4230g). Quanto à idade das mães 11 tinham entre 17 e 22 anos de idade, 36 tinham entre 23 e 34 anos, 33 entre 29 e 34 anos e com mais de 35 existiam 19 mães. A maioria das mães tinha entre 7 e 12 anos de escolaridade (4,48%) ou tinham um curso superior (37,7%). Apenas 14,14% das mães estudaram 6 anos ou menos. Tendo como base o sistema de Classificação Nacional de Profissões podemos considerar que as famílias em estudo eram de classe média: 29 média baixa, 47 média, 23 média alta.

Pretendendo as autoras selecionar uma amostra com características normativas, consideraram como critérios de exclusão todas as situações passíveis de provocar risco de origem parental e biológico i.e., as crianças com problemas crônicos de saúde e/ou com história de internamentos hospitalares, com doenças genéticas e debilidades físicas ou sensoriais. Também não foram incluídos casos cujos pais tivessem diagnóstico de psicopatologia ou houvesse suspeita de abuso de álcool ou consumo de drogas.

Procedimento

O recrutamento dos sujeitos teve lugar no Hospital Santo Espírito na Ilha Terceira e em Centros de Saúde situados em Lisboa, Porto e Açores. Procedeu-se à recolha de informação sobre a idade gestacional, o peso ao nascer e a situação clínica no boletim de saúde infantil e por meio de entrevista com as mães.

Após o primeiro contato telefônico com as mães e depois de obtida concordância para participação no estudo, foi marcado um encontro com as famílias, em que as investigadoras explicaram os objetivos e os métodos a aplicar nesta pesquisa. A confidencialidade e o uso dos dados exclusivamente para fins científicos foram totalmente assegurados aos participantes. Com exceção de 6 casos, a generalidade dos pais contatados aceitou participar no estudo.

Após uma pequena entrevista com as mães, para recolher os dados demográficos (e.g., assistência durante a gravidez, habilitações literárias e idade), deu-se início às observações nas Unidades de Saúde onde o recrutamento teve lugar.

Observação dos comportamentos maternos e infantis

Comportamento interativo dos bebês e das mães em jogo livre - Em primeiro lugar o comportamento interativo dos bebês e das mães foi descrito segundo o método de narrativas e agrupado em categorias funcionais (apresentadas nos quadros 2 e 3 na seção dos resultados). Esta primeira fase de análise permitiu-nos uma descrição livre e detalhada dos comportamentos observados e, tanto quanto possível, isenta de juízos de valor. Por outras palavras, começamos pela radiografia dos comportamentos descrita em termos de frequências e percentagens.

Seguidamente, os comportamentos e infantis foram observados através da versão mais recente do Child-Adult Relationship Experimental (Crittenden, 2003), designado pela autora por CARE-Index. Este sistema tem como propósito avaliar a qualidade da interação mãe-filho numa situação de jogo livre. De acordo com as instruções do manual, cada díade foi filmada aproximadamente durante 3 minutos (entre 2 e 5 minutos), em situação de jogo livre. As mães foram instruídas a interagir com os seus filhos espontânea e tão naturalmente quanto possível (num espaço bem iluminado e silencioso). Como os bebês tinham, entre 3 e 6 meses de idade, o uso ou não de brinquedos ficou a critério de cada mãe. As mães podiam escolher brincar no chão (estando disponível uma cadeirinha para o bebê) ou sentadas numa cadeira. Dentro de uma caixa a abrir pelas mães foram fornecidos brinquedos adequados e inadequados para o nível de desenvolvimento dos bebês, cabendo-lhes a decisão sobre quais os brinquedos a utilizar. As escolhas maternas foram avaliadas na categoria de comportamento em jogo.

Recorreu-se ao CARE-Index para avaliar a qualidade da interação adulto-criança. Este instrumento é constituído por 59 itens organizados em torno de 7 aspectos do comportamento diádico: expressão facial, expressão verbal, posicionamento e manipulação, expressão afetiva, reciprocidade, diretividade e jogo. O adulto e a criança são avaliados separadamente e cada interveniente é sempre cotado atendendo às interacções ocorridas em cada momento (por exemplo: se a mãe sorri quando a criança está a chorar e aflita, considera-se ser esse um comportamento pouco sensível, contudo, se a mãe sorri em resposta ao sorriso do bebê é considerado uma resposta sensível). O comportamento de cada interveniente é ponderado de acordo com a resposta do seu interlocutor, i.e., de acordo com o funcionamento diádico.

O CARE-Index é composto por sete escalas de avaliação do comportamento interativo (para mais detalhes ver Crittenden, 1988). Para avaliar o adulto foram definidas as escalas: Sensibilidade, Controle e Ausência de Resposta (Passividade). A avaliação do comportamento da criança foi feita por meio das escalas: Cooperação, Submissão Dificuldade e Passividade.

Cotação dos dados

Cada caso foi analisado, independentemente, por três investigadoras. Posteriormente, foi verificado o nível de consenso entre as cotações (Coeficiente de Kappa = .81). Seguidamente, as situações de discordância foram discutidas com vista ao apuramento de um resultado consensual, que foi utilizado para o tratamento dos dados. A primeira autora obteve treino específico e certificação para a aplicação do teste CARE-Index. As outras colaboradoras, não tendo a certificação oficial, obtiveram, com sucesso, o treino específico para a cotação desta escala.

Análise dos Resultados

A pesquisa de resultados comportou 4 tipos de análise, a saber: (1) análise descritiva dos comportamentos maternos e dos comportamentos infantis em categorias funcionais (e.g., expressão facial, comportamento em jogo); (2) correlação entre os tipos de comportamentos maternos e infantis nas categorias funcionais analisadas; (3) estudo das relações entre os comportamentos maternos e infantis e algumas variáveis demográficas (sexo da criança, peso ao nascer, número de irmãos, idade das mães, estatuto socioeconômico das famílias, escolaridade materna).

Importa salientar, no que respeita à análise descritiva dos comportamentos, que não foram analisadas individualmente todas as categorias do comportamento infantil cotadas. De fato, não tratamos descritivamente os dados relativos às categorias "posicionamento e manipulação" e "diretividade infantil" por considerarmos que a inabilidade motora, característica da fase de desenvolvimento dos bebês em estudo, não permitia a atribuição de intencionalidade aos comportamentos observados naqueles domínios. Porém, sabemos que os mesmos comportamentos embora não intencionais, afetaram o comportamento materno, pelo que foram considerados nas pontuações finais das escalas comportamentais.

 

RESULTADOS

Apresentação descritiva da interacção mãe-filho em jogo livre

Comportamentos maternos

Partindo da descrição dos comportamentos maternos (em termos faciais, vocais, afetivos, físicos, recíprocos, diretivos e jogo), e numa análise grosseira, verificamos que os atos mais participativos, calorosos e ajustados ao bebê e à interacção estabelecida variaram entre 8,08-16,16% (ver no quadro 1 os comportamentos assinalados com letra A). No sentido oposto, os comportamentos maternos mais desajustados variaram entre (9,09-20,20% - comportamentos D e E). Assim, a maioria das mães (55,55-78,78%) apresentou comportamentos ajustados combinados com comportamentos excessivos ou de períodos de desatenção (comportamentos B e C).

 

 

Comportamentos infantis

De modo similar ao elaborado para os comportamentos maternos, descrevemos os comportamentos infantis nas categorias: expressão facial, vocal, afetiva, reciprocidade e comportamento em jogo (ver quadro 2).

Os comportamentos infantis participativos, satisfeitos e positivos em todas as categorias variaram entre 15,15% e 6,06% (identificados como a letra A). Enquanto, os comportamentos de resistência, desconforto ou a ausência de participação (D, E e F) mantiveram-se entre 8,08% e 4,04%. Tal como no caso das mães, a grande maioria dos bebês, combinou bons períodos de interação com períodos de resistência ou de distração (85%-80% - comportamentos assinalados com as letras B e C).

Em termos da qualidade de jogo dividimos as crianças em 3 grupos consoante o seu desempenho: esperado para o seu nível etário, acima ou abaixo. Nesta categoria não são esperadas grandes variações atendendo a idade dos bebês. Na verdade, a grande maioria deles apresentou os comportamentos esperados (76,76%). Um pequeno grupo de 8 crianças apresentou um jogo muito pobre para a sua idade. Aqui encontram-se, essencialmente, as crianças que estiveram muito quietas e pouco participativas e as crianças que estiveram a chorar e a resistir fisicamente às mães. Nos dois casos, as crianças podem ter um bom nível de desenvolvimento (tal não foi avaliado e nem é objetivo deste trabalho) mas não o evidenciaram nestes registos.

 

 

Relação entre o comportamento materno e infantil

Os resultados referentes à coerência dos comportamentos maternos e infantis suportam o esperado: a díade mãe sensível-bebé cooperativo funciona em sincronia (ver Quadro 3). Assim, à exceção da categoria materna "posicionamento e manipulação" (que apenas se correlacionou com a expressão facial infantil), as outras categorias analisadas do comportamento materno de tipo sensível quase sempre surgiram correlacionadas com as categorias do comportamento infantil cooperativo.

 

 

Os restantes tipos de comportamento materno (controlador e passivo) e de comportamento infantil (submisso, difícil e passivo) não apresentam a mesma sistematização de correlação, mas não deixam de apresentar associações entre alguns tipos de comportamentos maternos e infantis que reforçam a noção de coerência de funcionamento materno-infantil:

- As respostas faciais maternas do tipo controlador (e.g., zangada ou exagerada) correlacionam-se negativamente com a expressão facial cooperativa do bebê (Rho de Pearson = -. 374; p>. 01) e correlacionaram-se positivamente com a expressão facial infantil submissa (e.g., fuga ao olhar e rosto sem alegria), Rho de Pearson =. 194; p>. 05; - A directividade materna (e.g., insistência e controlo da atividade infantil) correlaciona-se com o receio infantil em participar no jogo (Rho de Pearson = .335; p>.01) e negativamente com a resistência infantil em jogo (Rho de Pearson = -.274; p>.01);

- A directividade e controle na relação das mães correlacionam-se com a expressão afetiva submissa (evitar o contato, aceitar contatos desagradáveis sem resistência) (Rho de Pearson = .267; p>.01) dos bebês e, inversamente, com expressão afetiva difícil (e.g., choro, resistir ao contato materno), Rho de Pearson = -.264; p>. 01);

- A atitude controladora ou intrusiva por parte das mães, durante a atividade de jogo, está associada a uma resposta submissa dos bebês (Rho de Pearson = .287; p>.01), correlacionando-se negativamente com os bebês com características de jogo difícil (Rho de Pearson = -.183; p>.05) e cooperativo (Rho de Pearson = -.187; p>.05); - O comportamento das mães pouco directivo correlacionou-se com o comportamento afetivo infantil difícil (Rho de Pearson =. 253; p>. 01) e associou-se negativamente à expressão afectiva infantil positiva e alegre -cooperativa- Rho de Pearson = -.191; p>.05);

- A atitude passiva das mães correlaciona-se de forma positiva com o jogo difícil infantil (Rho de Pearson = .339; p>.01) e negativamente com o jogo submisso (Rho de Pearson = -.247; p>.01) e cooperativo (Rho de Pearson = -.197; p>.05) das crianças; - As mães que ofereceram poucas oportunidades de jogo e que propuseram atividades abaixo das possibilidades desenvolvimentais da criança receberam por parte dos bebês resistência e respostas negativas (Rho de Pearson = .279; p>.05). Mais, este comportamento materno surge negativamente correlacionado com o jogo do bebê cooperativo (Rho de Pearson = -. 253; p>.01).

Em suma, embora de forma não tão consistente como na associação "sensibilidade materna-cooperação infantil" verificamos que existem várias relações entre diferentes itens do comportamento materno controlador e comportamento infantil de submissão e entre o comportamento materno passivo e o comportamento difícil infantil. Tais, relações são evidentes nas categorias comportamentais: diretividade e jogo.

Relação entre os comportamentos maternos e infantis e as variáveis demográficas

Partindo da correlação entre um conjunto de variáveis demográficas (sexo, peso e idade gestacional, parto, número de irmãos, lugar na fratria, idade das mães, nível socioeconômico das famílias, escolaridade materna) e entre os estilos comportamentais maternos (sensibilidade, controle e passividade), procuramos explorar alguns fatores que pudessem ter afectado a atuação das mães. Com os fatores categoriais recorremos à correlação de Pearson e com as variáveis nominais ao coeficiente de Phi. O mesmo processo foi utilizado para compreender que variáveis afetam o comportamento interactivo infantil.

Os resultados indicam que:

- As mães mais novas foram menos ativas no jogo (Rho de Pearson = .217; p>.05), apresentado menos atividades e atividades pouco exigentes;

- As mães com mais anos de estudo foram mais diretivas a conduzir o comportamento infantil (Rho de Pearson = .533; p>.01), mas propuseram atividades de jogo mais adequadas ao nível desenvolvimental dos seus filhos (Rho de Pearson = .314; p>.05);

- As mães com menos anos de escolaridade foram mais intrusivas afetivamente (e.g.: beijam repenicadamente e ruidosamente os bebês, abanam-nos, e dão mordidelas não dolorosas ), Rho de Pearson = .238; p>.05, e ofereceram um jogo menos ajustado aos seus filhos, Rho de Pearson = .612; p>.001;

- As mães foram mais diretivas com as meninas do que com os meninos (Phi =. 610; p>.01);

- Os comportamentos mais difíceis em jogo foram apresentados por meninos (Phi= -.928; p>.001);

- As crianças filhas de mães mais letradas e economicamente favorecidas foram mais cooperativas em jogo (Rho de Pearson = .205; p>.05).

 

DISCUSSÃO

A observação estruturada de toda a atividade fisionômica, expressiva, gestual e sonora que envolve a interação mãe-filho tem permitido compreender, agrupar por tipologias e retirar inferências sobre a sua dinâmica (e.g., Kochanska & Coy, 2002; Pederson & Moran, 1996). Na tentativa de contribuir para o corpo de conhecimento já existente procuramos analisar e descrever: a expressão facial, a expressão vocal, o posicionamento e manipulação, a expressão afetiva, a reciprocidade na resposta, a diretividade e a qualidade de jogo das mães; e as respostas faciais, vocais, afetivas, a capacidade de responder reciprocamente e o tipo de interação em jogo dos bebês. Após a sua descrição, essas dimensões do comportamento materno e infantil foram interpretadas à luz dos três estilos de funcionamento materno (sensibilidade, intrusividade/controle e passividade) e quatro estilos infantis (cooperação, submissão, dificuldade e passividade). Para tal, observamos as mães em interação livre com os seus filhos em breves sequências interativas de 3 a 5 minutos. O que nos foi possível apreender?

Em primeiro lugar, encontra-se uma considerável variabilidade nos comportamentos maternos e infantis dentro de um desempenho de boa qualidade. A maioria das mães, acima de dois terços da amostra, apresentou, em todas as categorias comportamentais analisadas (expressão facial, expressão vocal, posicionamento e manipulação, expressão afetiva, reciprocidade, diretividade e jogo proporcionado), moderada qualidade de resposta, (i.e. combinaram bons momentos de interação com períodos menos intensos ou menos adequados às necessidades imediatas da criança). A restante percentagem dividiu-se entre dois grupos de atuação: (i) elevado desempenho com grande sensibilidade e (ii) modos de agir pouco consonantes com as necessidades da criança e com o momento interativo (i.e., distantes e desatentas ou demasiado diretivas, exigentes e excessivas, ou combinando estes dois comportamentos inadequados em períodos diferentes da interação).

Do mesmo modo, as crianças apresentam, na maioria dos casos, um comportamento relativamente adequado à interação, combinando um comportamento de interesse, cooperação e satisfação com momentos de resistência ou de desinteresse e passividade. Atendendo ao período etário em causa, a reatividade demonstrada - para além dos aspectos diádicos - poderá também ser explicada por fatores constitucionais (e.g., cólicas, problemas de índole regulatória). Por outro lado, é de esperar que o "efeito câmara" tenha menores consequências no comportamento das crianças, pelo que faz sentido ser maior o grau de variação do comportamento infantil.

Este estudo, em que a maioria das díades apresentou bom funcionamento com períodos de dissincronia, vem dar suporte ao Modelo de Regulação Diádico Mútuo de Edward Tronick (2006). Na verdade, ao longo da interação a capacidade de regulação do próprio comportamento e a capacidade de contribuir para a regulação do funcionamento diádico parece ter permitido aos dois parceiros manter a interacção num molde suficientemente satisfatório para ambos e, fundamentalmente, recuperar dos momentos de desacerto.

Tal como foi verificado noutros trabalhos com amostras internacionais ou com amostras nacionais de risco (Fuertes, 2005; Fuertes et al.; 2006; Fuertes et. al., 2007), o comportamento materno afetuoso e ajustado às necessidades da criança (i.e., o comportamento sensível) esteve associado em quase todas as categorias (à exceção da categoria posicionamento e manipulação) ao comportamento cooperativo infantil (i.e., a criança aceita e mantém o interesse nas atividades propostas pelas mães e responde positivamente demonstrando satisfação e excitação). Estes resultados associam-se a um corpo de conhecimento, como a perspectiva transacional Sameroff e Fiese (2000) ou de maturação dinâmica (Crittenden, 1999), que têm corroborado que a interação materno-infantil satisfatória e recíproca é um aporte conjunto e sincronizado dos dois intervenientes, espelhando em cada parceiro os atos do outro.

Porém, nesta amostra sem condições de risco, cerca de um terço das mães não conseguiu encontrar um fio condutor que permitisse uma relação satisfatória durante o curto período em análise. Com efeito, embora de modo não sistemático (i.e. não sendo verdade para todas as categorias estudadas), o comportamento materno controlador ou intrusivo associou-se tendencialmente ao comportamento infantil de submissão e a passividade materna ao comportamento difícil infantil.

Sendo solicitado às mães que brincassem com os seus filhos apenas durante 3 a 5 minutos não seria de esperar desempenhos mais ricos e motivados? Na verdade, para mais longas extrapolações seria forçoso repetir estas medidas em diferentes momentos e contextos e verificar da sua continuidade. Todavia, se aceitarmos, como foi observado noutros trabalhos (ver Grossman, Grossman & Watters, 2005) que no mínimo, em alguns casos os resultados reproduzir-se-iam, a explicação deverá residir em fatores contextuais ligados à criança e família, que afetam o comportamento e estilos materno-infantis, como o definem as abordagens ecológico-sistêmicas (Bronfenbrenner, 1992).

Neste estudo a escolaridade materna aparentou ser uma variável importante na medida em que afetou os comportamentos maternos. Quanto mais elevada a escolaridade materna maior a diretividade destas, mas, também, mais adequado o jogo proposto pelas mães. As crianças retribuíram com uma atitude cooperativa perante esse jogo. Por outro lado, quanto menos escolaridade possuem as mães, maior a intrusividade física dos seus afetos. O nível socioeconômico da família parece ser outra variável relevante dado que as crianças oriundas de meios mais favorecidos apresentam um jogo com características de maior cooperação. As mães foram mais diretivas com as meninas do que com os meninos e eles apresentaram comportamentos mais difíceis do que elas. Por fim, a menor idade das mães esteve associada à passividade em jogo.

Embora limitados por uma única observação a cada díade, consideramos que o detalhe de análise produzida neste estudo, permite-nos ressalvar dois importantes contributos, a saber: (a) o conhecimento de algumas variáveis críticas que afetam o comportamento interativo materno e infantil (e.g., sexo dos bebês, idade materna, escolaridade materna, nível socioeconômico das famílias) é de crucial importância para a intervenção na prevenção de situações de risco; (b) consubstanciar o conhecimento adquirido na estruturação de um guião para o comportamento materno sensível, a aplicar na intervenção direta, como elemento indicador de modelos interativos favoráveis ao fortalecimento de laços precoces. Das observações registadas e como contributo para esse guião podemos adiantar que:

-As atividades de jogo não podem ser destituídas de uma vertente afetiva - uma voz calorosa, um timbre variado e consonante com a atividade e humor da criança, conjugado com uma expressão facial aberta, sorridente e disponível compõem uma atmosfera convidativa à participação da criança e demonstram a aceitação materna. Nas situações em que as mães não estabelecem naturalmente esta atmosfera, o profissional de intervenção precoce pode promover a aprendizagem destas interacções servindo de modelo e/ou utilizando métodos de auto-observação tais como autoscopias comentadas. Com efeito, alguns estudos concluem que as intervenções focadas na sensibilidade materna tendem a ser eficazes não só a fomentar essa mesma capacidade nas mães, mas também a promover a segurança da vinculação e a prevenção da vinculação desorganizada (e.g., Juffer, Bakermans-Kranenburg, van Ijzendoorn, 2005). Neste âmbito, as experiências de intervenção educativas como o projecto Circle of Security (Cooper, Hoffman, Powell & Robert, 2005) estão descritas como bem sucedidas.

- A preocupação dos pais com a promoção do desenvolvimento dos filhos obscureceu, por vezes, a dimensão de prazer e afeto da brincadeira (em particular nas mães mais diretivas - algumas delas de nível socioeconômico mais alto). Contudo, poderá ser esta a autoestrada que favorece o desenvolvimento. Com efeito, o envolvimento emocional directamente ligado à actividade das estruturas cerebrais límbicas potencia a aprendizagem (Bundy & Murray, 2002) e torna mais leve e aprazível a função parental, contrastando com uma atitude rígida e repetitiva da oferta de um jogo acima das possibilidades e motivação da criança.

- Por parte da criança, uma incapacidade de autorregulação poderá traduzir-se em respostas emocionais não compreendidas pelos pais. O apoio à interpretação dos sinais dos filhos e o ensino das mães sobre como ajudar os seus filhos a organizar a atividade regulatória é outro dos papéis do profissional de intervenção precoce. Numa perspectiva de planeamento e elucidação parental sobre as alterações do comportamento infantil, em cada etapa do desenvolvimento, preparando antecipadamente o prestador de cuidados para os novos desafios que se vão apresentando destacamos o programa Touchpoints;

- As interações observadas foram, muitas vezes, compostas de momentos de dissonância bem por momentos de prazer e de entusiasmo. Na maior parte dos casos mães e filhos contribuíram para a recuperação da boa interação: o adulto aceitando integrar a perspectiva da criança nas suas propostas e a criança sinalizando os seus desejos e demonstrando gratificação com as alterações oferecidas pelas mães - um sorriso da criança, uma festinha do adulto ou, simplesmente, mudar de jogo pode ser suficiente para que ambos regressem ao entendimento normal. Com efeito, à exceção de díades de risco, as mães devem ser encorajadas a seguir as suas habilidades naturais e a retirar prazer da interacção, quebrando-se o mito da relação "perfeita";

- A reciprocidade parece ser outro elemento chave: como em qualquer dança, são necessários dois parceiros, guiados pela mesma música, a praticar movimentos sincronizados, à mesma velocidade e dando a cada um a sua vez. Só nas díades com muito baixo desempenho não foi possível observar, no período de aproximadamente 4 minutos, pelo menos, uma sequência interativa pautada pela reciprocidade;

- O investimento materno é uma aposta lucrativa. Na verdade, os nossos dados, especialmente quando associados à literatura já citada, sugerem que a falta de resposta e o baixo investimento materno estão associados à birra e ao comportamento difícil. De fato, o custo de investir pouco é alto a médio e longo prazo. Este é um problema crítico numa sociedade em que as exigências e a ocupação individual são elevadas.

A maior limitação deste trabalho prende-se, à partida, com o facto de não testar uma hipótese ou teoria, mas poder-se-á redimir desse pecado se olharmos à clarificação de conceitos que transmite com implicações na intervenção direta, associado ao fato de não ser extensa a bibliografia existenteclarificadora destes construtos. Na verdade, procuramos desenvolver um trabalho tendo presente que a intervenção deverá ter simultaneamente um carácter preventivo e remediativo, que só o suporte de uma pesquisa baseada na evidência poderá fornecer (Greenberg, 2005).

 

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Recebido: 24/08/2009
Aceito: 30/03/2010

 

 

Marina Fuertes, Ph.D Profesora Adjunta da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa (e Post-doctoral Fellow Harvard Medical School- Child Development Unit,). Endereço para correspondência: Campus de Benfica do IPL. 1549 - 003 Lisboa. Portugal.
Endereço eletrônico: marinaf@eselx.ipl.pt

Anabela Faria, Doutoranda em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Educadora da Consulta de Desenvolvimento do Hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo. Endereço para correspondência: Rua do Açougue, 52, Santa Bárbara. CEP: 9700-471, Angra do Heroísmo, Portugal.
Endereço eletrônico: ana.bela.faria@sapo.pt

Hélia Soares, Professora Adjunta da Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo. Endereço de correspondência: Diabretes, 38. CEP: 9700-704, Angra do Heroísmo, Portugal.
Endereço eletrônico: hmsoares@uac.pt

Antónia Oliveira-Costa, Doutoranda em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, Terapeuta Ocupacional no Instituto de Segurança Social - Centro Distrital de Viseu. Endereço para correspondência: 25 de Abril 25, 1º Dto. CEP: 3510-118, Viseu, Portugal.
Endereço eletrônico: maria.antonia.costa@sapo.pt

1Agradecimento: As famílias e às instituições que tornaram este trabalho possível. Ao Prof. Doutor João Gomes Pedro pela leitura do manuscrito e comentários. Ana Kirby, Raquel Corval e Sofia Ferreira pela ajuda prestada. Por último, à Alice Dionisio pela inspiração
2 Financiamento pela SFRH/BPD/26726/ 2006 da Fundação para a Ciência e Tecnologia

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