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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.22 no.3 São Paulo July/Sept. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642011000300002 

Apresentação

 

Apresentação do dossiê em homenagem a Maria Helena Souza Patto

 

 

José Leon Crochik; Maria Cristina Kupfer

Universidade de São Paulo - USP


 


 

 

Por que editar um dossiê sobre a obra de Maria Helena Souza Patto? E para que reunir textos sobre seus textos, ou seja, por que é necessário colocá-los em debate?

Para a primeira pergunta, há muitas respostas, algumas óbvias e outras nem tanto.

A mais clara e contundente é aquela mencionada pela maioria dos textos aqui reunidos: os escritos de Maria Helena Souza Patto são dotados de uma atualidade que o passar do tempo não destrói. O vigor de seus textos se sustenta em uma rigorosa, contundente, fundamentada e radical – no sentido de ir à raiz, como ela sempre gosta de lembrar – crítica ao uso político, cínico e ideológico de algumas teorias psicológicas, travestidas em roupagens científicas.

Outra resposta que justifica este dossiê, também já conhecida dos leitores de Maria Helena Souza Patto: sua obra mudou para sempre o cenário da Psicologia Escolar no Brasil. De fato, desde Introdução à Psicologia Escolar, organizado por ela e editado pela primeira vez em 1981, muitas das antigas disciplinas PEPA (Psicologia Escolar e Problemas de Aprendizagem), presentes em faculdades de Psicologia brasileiras, passaram a adotá-lo.

Por meio da obra que ali começava a expandir-se, Maria Helena iniciou a crítica das práticas dos psicólogos escolares que eram então dominantes. Naqueles idos de 1981, a Psicologia Escolar movia-se no estreito espaço de trabalho que se concentrava na criança com dificuldades de aprendizagem. De acordo com M. Helena, essa prática desconsiderava toda a produção de conhecimento de outras áreas das Ciências Humanas, todo o campo histórico e social responsável pelos fenômenos nos quais os psicólogos eram chamados a intervir. Em lugar de denunciar o mecanismo da naturalização de fenômenos sociais, a Psicologia escolar sustentava-o e contribuía para a ideologização de práticas supostamente neutras e isentas.

Foram esses trabalhos iniciais de Maria Helena que indicaram a ela o caminho para a criação do Serviço de Psicologia Escolar, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Por meio desse Serviço, ela esperava poder formar psicólogos e construir alternativas práticas consistentes e diversas das então majoritariamente utilizadas para subsidiar a ação dos psicólogos no campo da Psicologia Escolar.

O Serviço de Psicologia Escolar (SePE) cresceu consideravelmente desde então. As psicólogas que ali trabalham supervisionaram alunos, escreveram livros e disseminaram essa perspectiva apontada por M. Helena.

O conjunto dos trabalhos das psicólogas do SePE realiza-se hoje em vários planos: atendimento direto às crianças, atendimento a grupos de professores e educadores, atendimento à direção da escola e atendimento a familiares de alunos. A evolução desse tipo de trabalho vem se dando numa direção que busca melhorar a qualidade da educação pública ao levar os profissionais que atuam na escola a se implicar no que fazem, por meio da análise e da reflexão de sua prática.

Mas há mais uma resposta à pergunta sobre a importância dessa obra, uma resposta menos óbvia que precisa ser apontada.

Maria Helena costuma dizer que de nada adianta escrever, ser lida nos cursos de Psicologia, criar e inspirar serviços de Psicologia escolar, ser citada em teses de doutorado, se a realidade da prática profissional do psicólogo escolar brasileiro continua sendo excessivamente psicometrista e "culpabilizante" das crianças por seu fracasso escolar.

É verdade que, se formos consultar pesquisas, a prática de muitos psicólogos escolares prossegue nos moldes tradicionais por ela criticados em 1981.

No entanto, não são apenas as pesquisas que devemos consultar, e sim os alunos que tiveram o privilégio de assistir a seus cursos.

Não se trata de consultá-los para saber o que aprenderam e do que se lembram. As marcas que ficam de um verdadeiro aprendizado não são dizíveis. Elas se expressam no modo de se dirigir à mãe de uma criança na escola, no modo de acolher suas dificuldades, na postura do psicólogo que deixará de ser dogmático para dar lugar à dúvida. Esse aluno poderá ter abraçado outras teorias e pode ter ido buscar outras fontes para orientar seu trabalho, mas as marcas de Maria Helena Souza Patto terão ficado. É a marca em cada aluno, única para cada um, que também torna preciosa essa obra.

Eis aqui o depoimento de dois alunos, que falam dessas marcas e ao mesmo tempo ilustram o poder seminal de seus escritos, já que testemunham ter ouvido seus ecos em lugar distante do centro universitário em que foram produzidos. No discurso em homenagem a Maria Helena, feito por formandos de 2011,1 Thiago Bloss escreveu:

Agora em janeiro, numa viagem à Bahia, conheci uma psicóloga que trabalhava no serviço público de uma cidadezinha no interior do Estado. Uma pessoa muito interessante e esclarecida, que se mostrava convicta de seus ideais, principalmente em sua prática dentro de um projeto com jovens e adolescentes pobres daquela região. Em muitos momentos da conversa essa psicóloga trazia com resignação a sua frustração por não conseguir realizar, da maneira como desejava, essas suas aspirações e ideais. Dizia que sua formação acadêmica foi "bem crítica", mas que tal formação se chocava com os limites impostos pelo poder público de onde trabalhava. Tentava, contudo, realizar dentro daqueles limites, sem nenhuma infraestrutura, alguma prática digna junto daquela população humilde.

Após (ela) se referir em vários momentos a sua formação "crítica", pergunteilhe quais eram as suas referências; afinal, suas ideias me instigavam. Dentre os nomes citados, estava a tal da "Patto". Fiquei surpreso, e lhe disse que também "a tal da Patto" (ou a "Maria Helena" para 'os mais chegados') era a minha referência. Ela, encantada, disse que leu três de seus livros e que foram fundamentais para a sua formação.

Naquele mesmo discurso de homenagem a M. Helena, em 2011, Luiz Eduardo de V. Moreira escreveu:

Maria Helena sempre se dirigiu à inteligência, ao espírito e à essência moral de seus alunos, conciliando esses dois elementos essencialmente humanos: a ética e a estética; o bom, o justo, o belo. Maria Helena também não se esquiva de nos abrir os olhos para o não belo, para a realidade que nos cerca.

Sempre se preocupou com nossa formação, nesse sentido que já é quase perdido: a importância das humanidades como contrafogo ao cientificismo frio e impessoal, que transforma sujeitos em números; a importância das humanidades como solo fértil do qual, afinal, pode ser feita a crítica e, não menos importante, a crítica da crítica, esse último degrau dialético tão sumariamente esquecido – por nós, não por Maria Helena. Se quiserem um exemplo, leia-se o prefácio de seu livro Psicologia e Ideologia. Pensar a própria escrita, colocar suas ideias sob o escrutínio do princípio mesmo que postula, isso Maria Helena faz.

A obra escrita de Maria Helena é extensa e intensa. De tantas páginas densas, com vigor intelectual, com comprometimento político com a justiça, que escreveu, é importante destacar dois pontos, cientes da imensa injustiça feita à sua obra por meio desse procedimento. Um deles se refere à apresentação e defesa da pensadora Agnes Heller, que auxiliou, de maneira decisiva, a difundir no Brasil a noção de Humano-Genérico desenvolvida pela pensadora húngara. Essa expressão, além de sua riqueza heurística, expressa a posição de Maria Helena: devemos nos voltar para a humanidade, para causas sociais que dignificam a todos e não somente aos interesses medíocres, de sobrevivência, do cotidiano. O outro ponto se refere a uma frase que cunhou: "pequenos assassinatos cotidianos". Com essa frase, somos obrigados a nos voltar para o cotidiano e perceber que nossas ações corriqueiras não são inócuas: uma professora que rasga a lição do aluno por não estar conforme o esperado contribui para a ruína de uma vida. Ruína que não é destacada da grande ruína que Benjamin nos mostra ser a nossa história. Essa frase nos aproxima de Theodor W. Adorno, para o qual a análise da violência cotidiana é crucial. "Pequenos assassinatos cotidianos" são tantos quanto as gotas do oceano. Por falar em Theodor Adorno, essa é outra referência que a professora Maria Helena toma como base para originalmente fazer suas ponderações.

Uma obra, no entanto, não diz respeito somente ao que alguém publicou. Outra forma de tornar o trabalho de um docente público refere- se às disciplinas ministradas, cujo reconhecimento os excertos dos alunos acima citados e alguns textos deste Dossiê ilustram bem. Mas foi em uma atividade-meio da universidade, no entanto, que a coerência e o compromisso humano-genérico de Maria Helena se tornou ainda mais visível: sua experiência na direção do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Como Diretora, foi incansável em seu esforço de preservar, sempre de modo democrático, o caráter público da universidade.

Por tudo isso, justifica-se um dossiê Maria Helena Souza Patto. Ele serve para mostrar e revolver, uma vez mais, esse magma fértil, que mexe, como todo conhecimento vivo, com as ideias, mas, sobretudo, com as práticas que elas atravessam. As ideias dessa obra não estão paralisadas em volumes na biblioteca; elas correm por entre os praticantes, e moldam seu olhar.

E por que colocá-las em debate?

Debatê-las é também uma necessidade. Só assim continuam vivas, renovadas, aeradas. Vamos agora dar voz a seus antigos doutorandos, a seus colegas e a seus leitores privilegiados, que farão com essa voz o trabalho de manter a obra de Maria Helena Souza Patto ouvida, revolvida e, portanto, viva.

 

 

1 Bloss, T., & Moreira, L. E. de V. (2011). Discurso em homenagem a Maria Helena Souza Patto, patronesse da turma de Psicologia 2006. (Trabalho não publicado).


 

José Leon Crochik, Professor Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Endereço para correspondência: Rua Harmonia, 698/43. Vila Madalena, São Paulo, SP, CEP: 05441-020, Brasil. Endereço eletrônico: jlchna@usp.br


Maria Cristina Kupfer, Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Endereço para correspondência: Rua Heitor de Andrade, 40, Alto de Pinheiros, São Paulo, SP, CEP: 05435-001, Brasil. Endereço eletrônico: mckupfer@usp.br