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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.23 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642012000100005 

Artigos Originais

 

Vigotski contra James-Lange: crítica para uma teoria histórico-cultural das emoções1

 

Vygotsky against the James-Lange theory: Criticism for a historical-cultural perspective

 

Vigotski contre James-Lange: critique pour une théorie historique-culturel des émotions

 

Vygotski en contra James-Lange: elementos críticos para una teoría histórico-cultural de las emociones

 

 

Gisele Toassa

Universidade Federal de Goiás


 


RESUMO

Ponderações sobre as emoções humanas apresentaram-se em toda a obra do bielorrusso L. S. Vigotski, desde sua juvenil crítica de arte. Nesse tópico, debateu a contribuição de vários autores: Freud, Claparède, Ribot, Lewin, Wundt. Entretanto, a perspectiva mais analisada por ele foi a teoria James-Lange. O objetivo deste artigo é discutir a extensa crítica que Vigotski dirigiu a ela no manuscrito "Utchenie ob Emotsiakh", a qual se enquadrava numa ampla atitude teórico-metodológica do autor: a de compilar e relacionar o material fatual sem coordenação, expondo a luta de ideias filosóficas por detrás das psicológicas, de modo a abrir caminho para futuras investigações destinadas à superação do dualismo na psicologia. A partir dos principais fundamentos vigotskianos para futuros estudos, discutimos essa querela acerca das emoções, tema que o bielorrusso considerava a parte mais difícil e, possivelmente, a mais importante para o futuro da ciência psicológica.

Palavras-chave: Emoções. Vigotski, Lev Semionovich. James, William. Lange, Carl. Psicologia histórico-cultural.


ABSTRACT

Comments on the human emotions are presented throughout the work of the Belarusian LS Vygotsky, ever since the art criticism written in his youth. In this topic, he discussed the contribution of several authors: Freud, Claparède, Ribot, Lewin, Dilthey, Wundt. However, most of all he examined the James-Lange theory. This article aims to discuss Vygotsky's extensive criticism on this theory, in his manuscript "Utchenie ob Emotsiajakh", which fell in a broad theoretical and methodological approach: to compile and link the factual material without coordination, exposing the struggle of philosophical ideas behind the psychological ones, to pave the way for future research aimed at overcoming the dualism in psychology. Highlighting the main arguments in the manuscript for a vygotskyan approach concerning studies on emotions, we discuss the quarrel about the theme, which Vygotsky considered the most difficult, and possibly the more important for the future of psychology.

Keywords: Emotions. Vygotsky, Lev Semionovich. James, William. Lange, Carl. Historical-cultural Psychology.


RÉSUMÉ

Pondérations sur les émotions humaines ont apparu dans tout l'oeuvre du bielorusse L.S. Vigotski, depuis sa critique d'art écrit dans sa jeunesse. Dans cet topique, il a discuté les contribuitons de plusieurs auteurs: Freud, Claparède, Ribot, Lewin, Wundt. Cependant, la perspective qu'il a plus analisé était de James-Lange. L'objectif de cet article c'est discuter la vaste critique que Vigostki l'a adressé dans le manuscrit "Utchenie ob Emotsiajakh", laquelle s'encadre dans une ample attitude théorique-metólogique de l'auteur: compiler et rapporter le matériel factuel sans coordination, en exposant la lutte des idées philosophiques en arrière des las psichologiques, en vue de ouvrir chemin pour des futures ênquetes destinées à la superation du dualisme dans la psychologie. En soulignant les idées principales pour les futures études, nous discutons cette querelle concernant les émotions, thème que le bielorusse considerait la part plus difficile et pêut-etre la plus important pour le future de la psychologie.

Mots-clés: Émotions. Vygotski, Lev Semionovich. James, William. Lange, Carl. Psychologie historico-culturelle.


RESUMEN

Ponderaciones sobre las emociones humanas se han presentado a lo largo de la obra del bielorruso L. S. Vygotsky, desde su juvenil crítica de arte. En este tema, discutió la contribución de varios autores: Freud, Claparède, Ribot, Lewin, Wundt. Sin embargo, la teoría de James-Lange fue la perspectiva de que el autor presentó un análisis más detallado. El objetivo de este artículo es discutir la extensa crítica que Vygotsky le dirigió en el manuscrito "Utchenie ob Emotsiakh", que se ajusta a un amplio planteamiento teórico y metodológico del autor: compilar y enlazar el material de investigación sin una coordinación, exponiendo la lucha de las ideas filosóficas detrás de las psicológicas, con el fin de allanar el camino para futuras investigaciones destinadas a superar el dualismo en psicología. Discutimos esta disputa sobre las emociones, el tema que el bielorruso consideraba la parte más difícil y posiblemente más importante para el futuro de la ciencia psicológica.

Palabras clave: Emociones. Vygotsky, Lev Semionovich. James, William. Lange, Carl. Psicología histórico-cultural.


 

 

Este artigo é o primeiro de uma série que visa a difundir a concepção vigotskiana para o futuro de uma psicologia das emoções, objeto central dos estudos de doutorado da autora, finalizados em 2009.

Paulatinamente, apresenta-se a ordem lógica da própria obra de Lev Semenovich Vigotski, para quem a crítica à teoria James-Lange era o primeiro passo na criação de uma nova psicologia, histórico-cultural, das emoções. É de especial interesse para nós o trabalho traduzido para o inglês como "The teaching about emotions. Historical-psychological studies" (Vygotsky, 1933/1999), edição com a qual cotejamos a espanhola: "Teoría de las emociones: estudio histórico-psicológico" (Vygotski, 1933/2004). Procuramos, pela sua maior semelhança com a língua portuguesa, referirmo-nos à segunda, conquanto consideremos que na edição americana tenha-se traduzido o título de forma mais fidedigna, e, também, seja mais completa pelas notas que apresenta.

Inicialmente, tratar-se-á do manuscrito e das hipóteses relativas à sua inconclusão. Em seguida, será comentada a teoria James-Lange e as bases cartesianas que Vigotski lhe atribuiu. Concluindo o texto, o "Teaching about emotions" vai ser situado na produção de Vigotski, assinalando algumas ideias que o autor considerava importantes na construção de uma psicologia histórico-cultural das emoções. Apontar-se-ão, no decorrer deste artigo, alguns fundamentos teórico-metodológicos para uma psicologia das emoções, fundamentos esses emergentes na crítica que o autor realiza à teoria James-Lange.

 

O "Utchenie ob Emotsiakh"

Um problema de tradução apresenta-se já no título da edição espanhola, pois o original russo é "Uchenie ob Emotsijakh. Istoriko-psikhologicheskoe Issledovanie" (Vigotski, 1933/1999, p. 297). U(t)chenie significa estudo, e não teoria. A despeito desse problema, as traduções têm possibilitado que comentadores ocidentais, inclusive no Brasil, façam referência à obra. Mas o projeto de psicologia das emoções que, de forma fragmentária, deixou vestígios no manuscrito permanece à sombra dos comentadores. A presente análise tem por objetivo preencher tal lacuna.

Segundo van der Veer & Valsiner (2001, p. 377), o "Utchenie..." é um manuscrito inacabado, redigido aproximadamente entre 1931 e 1933. Recebeu vários títulos e teve excertos publicados no Voprosy Psikhologii (1968) e Voprosy Filosofii (1970). Muitos trabalhos incompletos foram encontrados em seus arquivos, segundo van der Veer & Valsiner (2001, p. 385).

Há várias especulações sobre os motivos da inconclusão desse texto: é provável que, com o agravamento de sua tuberculose, Vigotski tenha optado por finalizar outros trabalhos, entre os quais "Pensamento e Linguagem", para o qual dispunha já de resultados experimentais acumulados. Os mesmos comentadores aventam, sem escudar sua ideia com fatos, que Vigotski teria percebido que entrava num caminho errado e ingênuo ao buscar apoio na obra espinosana, abandonando o manuscrito antes de desenvolver essa interlocução.

Contudo, cremos que as dificuldades intrínsecas ao manuscrito e o impacto capaz de exercer na União Soviética podem ser considerados como determinações para sua inconclusão: sob vários aspectos, tratava-se de um trabalho árduo, tanto científica quanto politicamente. Vigotski considerava Espinosa um autor materialista, posição de complexa fundamentação filosófica, sendo objeto de grande controvérsia (como exemplo, mencionamos o laborioso trabalho de García (1974)). A situação se complicava devido à ascensão do materialismo mecanicista (muito distinto do dialético, de Vigotski), expressão do poder gradativamente adquirido por Stálin e seus adeptos, após a derrota da facção trotskista em 1928 (Bauer, 1952; Deutscher, 1970). Contexto desfavorável, no qual o autor precisaria de certa independência para arquitetar uma contribuição que, como defendido em Toassa (2009, pp. 165-169), envolvia tanto seu elogio quanto sua crítica a Espinosa.

Outro problema peculiar ao manuscrito também se vinculava à diferença entre os vocabulários fisiológico e filosófico, como prova o extenso esforço do autor para associar a teoria James-Lange a Descartes e ao cartesianismo: a primeira parte do trabalho, destinada a essa comparação, chega a 227 páginas no original russo, como se informa na edição americana (Vygotsky, 1933/1999, p. 297). Esforço titânico de um homem bastante enfermo (van der Veer & Valsiner, 2001, p. 24), especialmente se considerarmos que, a curto prazo, faziam-se inúteis os esforços teórico-metodológicos demandados pelo manuscrito. Vigotski pretendia defender a substituição do paradigma filosófico que embasava as pesquisas neuropsicológicas/neurofisiológicas sobre as emoções em sua época, que, segundo ele, impregnava-se pelo dualismo da teoria James-Lange. Seu objetivo era refutar essa teoria, negar seu suposto materialismo e expor seu dualismo, integrando filosofia, fisiologia, neurologia e psicologia clínica na resolução dos problemas então existentes no âmbito das emoções. Para ele, um paradigma monista materialista, inspirado em Espinosa, seria a saída: esforço impraticável no curto tempo de vida que restava ao bielorrusso, e para o qual, até onde sabemos, o autor não deixou sucessores entre seus discípulos.

Não obstante, era grande seu interesse no assunto, pois o "Utchenie ob Emotsiakh" foi mexido e remexido, tendo várias versões intermediárias. Notamos que contém vestígios de um projeto (nunca formulado por completo) ambicioso e singular, pois concentra leituras de Descartes, Espinosa e seus comentadores, boa parte delas inéditas noutras obras vigotskianas, e cujos produtos demoraram a tornar-se públicos. Ainda nos anos 1930, após a morte de Vigotski, Luria e Zinalda, irmã de Lev Semenovich, fracassaram ao tentar editar o manuscrito (van der Veer & Valsiner, 2001, p. 377). Sua primeira publicação integral ocorreu em 1984, no Tomo VI das Obras Escolhidas do autor em russo (van der Veer & Valsiner, 2001, pp. 377-387).

Quanto às fontes presentes no texto, van der Veer & Valsiner (2001) informam que Vigotski fez uso extenso das atas do Simpósio de Wittenberg, realizado no Wittenberg College, Springfield, Ohio, em 1927, o qual contou com as presenças de Karl Bühler, Cannon, Washburn, entre outros. Leram-se trabalhos de especialistas como Adler, Bekhterev, Claparède, Jaensch, Janet e Stern para a plateia. Em Vigotski (1933/1999, p. 272), constata-se que essa publicação foi realmente utilizada, mas é incerto que o seu impacto sobre o autor tenha sido grande, dadas as suas escassas referências às atas.2

São claros os sinais de que o manuscrito careceu de revisão por parte do seu autor. Vigotski emprega tão extensas citações que a simples perda de um sinal de aspas leva-nos a atribuir-lhe comentários de terceiros. Às vezes, não conseguimos identificar se ele disserta em seu próprio nome ou apenas resume outros autores e, com frequência, o bielorrusso limita-se a aprovar esta ou aquela citação, mas não chega a dar forma às ideias alheias no interior de sua própria teoria histórico-cultural.

Outro aspecto a se assinalar nesta introdução é que, a despeito de ter ajustado o foco de sua crítica na teoria James-Lange, são fundamentais as considerações do autor sobre a psicologia descritiva; para ele, dois exemplos do dualismo, que era a maior dificuldade da ciência psicológica. Por isso, foi necessário uma leitura cautelosa, que restringisse as implicações das partes obscuras do texto e ressaltasse outras, ajustando-as à concepção vigotskiana sobre as emoções, tal como expressa noutras obras do autor, sem perder de vista as ideias singularmente provocativas desse manuscrito inacabado.

 

O contexto científico e as primeiras obras de Vigotski

Segundo Vigotski, existia uma grande confusão sobre a pesquisa das emoções no primeiro terço do século XX. Mencionemos uma primeira ideia, expressa no dito de Bentley que, venenoso, perguntava-se: "¿La emoción es algo más que el simple título de un capítulo?" (Vygotski, 1933/2004, p. 54). Isso porque todas as obras de psicologia continham um capítulo denominado "As emoções", mas, para o bielorrusso, esse era o domínio menos elaborado da ciência psicológica (Vigotski, 1926/2001b, p. 127). Parecia, pois, uma intenção protocolar dos autores em discutir o tema, sobre o qual nada tinham a dizer. E, no entanto, Vigotski considerava que talvez devesse ser esse o capítulo principal da psicologia (Vygotski, 1933/2004, pp. 56-58), embora o mais difícil de avançar na profunda crise teórico-metodológica enfrentada por ela.

Vigotski defendia a criação de uma psicologia geral, cujos conceitos contemplassem os fenômenos mais complexos, especificamente humanos, da vida psicológica. Mas, segundo Yaroshevsky (1999, p. 252), ele e os novos psicólogos socialistas enfrentavam dificuldades para a separação da psicologia com respeito à filosofia e à fisiologia. Vigotski pretende, com seu manuscrito, avançar na interlocução junto a essas ciências, autorizando-se o papel diretor de extraí-las das equivocadas trilhas teórico-metodológicas nas quais se situavam.

O "Utchenie ob Emotsiakh", na sua primeira e única parte, sintetiza as críticas vigotskianas ao legado da teoria James-Lange, também conhecida como teoria periférica das emoções (identificada como "velha psicologia"). Os argumentos científicos constroem-se a partir do relato de experimentos com animais e análises clínicas de pacientes com lesões cerebrais locais (métodos que ele associou a uma "nova psicologia"). Atrás das questões científicas reeditava-se não apenas a antiga querela entre Descartes e Espinosa, mas também entre materialismo e idealismo. Foi elaborado num contexto de popularidade da teoria periférica na Rússia, considerada "materialista" pela psicologia reactológica de Kornílov.

Já se buscava, na época, uma análise evolucionária do comportamento emocional, cujo pontapé inicial fora dado pelo próprio Charles Darwin (1872/1934), com a publicação de "The Expression of the Emotions in Man and Animals". Desde então, assinala Vigotski, o capítulo referente à reação emocional dos animais e à sua evolução era o item que a psicologia desenvolvera com maiores detalhes (Vygotski, 1932/1999, pp. 81-82). Haja vista que, doze anos após Darwin, James (1884/1967), americano com passagens pela medicina, filosofia e psicologia, publica um artigo intitulado "What is an Emotion?". De forma completamente independente, o anatomista e fisiologista dinamarquês Carl Lange lança, em 1885, o livro "Emotions", com ideias essencialmente iguais às de James. Tal concepção, que reivindicava na psicologia o prestígio do evolucionismo darwinista, passou a ser denominada de teoria James-Lange.

Antes do "Utchenie", haviam se repetido os contatos de Vigotski com a obra de James, "As variedades da experiência religiosa", texto clássico da psicologia, fora conhecido e apreciado pelo autor (Vigotsky, 1916/1999) em seus anos de adolescência. No capítulo sobre as emoções em sua "Psicologia Pedagógica", o bielorrusso acolhe bem a teoria periférica: mercê da significativa influência da ciência dos reflexos soviética sobre a sua obra entre 1924 e 1927, que, como a teoria James-Lange, balizava-se nas relações estímulo-reação para descrever e explicar a conduta humana. A "Psicologia Pedagógica", contudo, é um texto de transição, contendo diversas ideias que o autor refutaria em trabalhos posteriores. Nele, evidencia-se certa indecisão dualista as emoções são definidas: 1) de modo reactológico: como comportamento (instintivo); como sistema de reações; 2) como sensações através das quais o comportamento poderia ser influenciado, organizando-o3 .

Nesse espírito, ao comentar as concepções de William James e de Hugo Münsterberg, Vigotski (1926/2001b) aborda as emoções tanto como reações bem demarcadas, evolutivamente inferiores e antigas (ódio, medo), quanto sensações indefinidas, um tom emocional geral que impregna a conduta, espécie de energia dotada de representação psíquica sutil ou inexistente. Ou seja: oscila entre considerar as emoções como processo impulsivo que plasma as reações do psiquismo (ideia não associável a James ou Lange, com maior espaço na "Psicologia da Arte") ou comportamentos humanos bem delimitados e similares aos animais (acepção de James).

Traços embrionários do caráter multifacetado das emoções, cuja defesa permearia o "Utchenie ob Emotsiakh", já podem ser percebidos na "Psicologia Pedagógica". Repudiando a posição de que as emoções se atrofiavam de animais para humanos, aprofunda sua ideia anos depois, na conferência "As emoções e seu desenvolvimento na infância" (Vygotski, 1932/1999, p. 80). Na "Psicologia da Arte", comenta que essa suposta atrofia das emoções só vale para as manifestações exteriores da vida emocional com isso, a despeito de sua simpatia para com a teoria periférica das emoções e o darwinismo da época, entra em conflito com a afirmação desses, segundo quem a função da expressão das emoções humanas reduzia-se apenas e tão somente à adaptação enquanto espécie. Como podemos constatar ao longo de toda a "Psicologia da Arte", de Vigotski (1925/2001a), o bielorrusso, monista, considerava que as emoções consistiam numa atividade neuropsicológica com indissociáveis manifestações comportamentais e vivenciais, implicando-se em processos complexos, como a imaginação e o pensamento, e não apenas na percepção-reação, tal qual defendiam James e quase todos os psicólogos da arte no início do século XX.

O autor apenas superaria a posição ainda pouco desenvolvida da "Psicologia Pedagógica" ao defender, anos depois, que as emoções humanas tinham caráter sistêmico e deveriam ser estudadas na transformação do animal ao humano, em suas múltiplas manifestações e determinações. Apresentava-se a necessidade de uma unificação ontológica e metodológica do conceito, para além da simplificação presente nos estudos do comportamento por meio do binômio estímulo-reação, criticados posteriormente como ineptos para o estudo das manifestações mais complexas da vida psicológica (Vygotski, 1931/1995). A transformação monista dos conceitos deveria acompanhar-se da dos métodos, que integrasse tanto aspectos objetivos como subjetivos do psiquismo em totalidades maiores, tratadas como estruturas. Essa tendência se consolida, amenizando a disparidade entre conceito e método na "Psicologia Pedagógica", com a criação do que Meshcheriakov (2009, p. 8) denomina de "conceitos híbridos", conceitos relacionais, que integram aspectos objetivos e subjetivos; biológicos e culturais da vida psíquica. Caso, por exemplo, de conceitos como vivência e função psíquica superior.

 

Premissas da teoria James-Lange e sua refutação

Nosso artigo considerará apenas textos de James, devido especialmente à dificuldade em obter os de Lange, mas também à maior frequência dos comentários de Vigotski, no decorrer de sua trajetória acadêmica, a James.

Médico, com contribuições importantes para a psicologia e filosofia, William James (1884/1967b, pp. 12-17), propunha-se a estudar as emoções-padrão (standard emotions), ou seja, aquelas que tinham expressão corporal determinada e óbvia: surpresa, curiosidade, êxtase, medo, raiva, luxúria, cobiça etc. Propositadamente, deixava de lado os sentimentos morais, intelectuais e estéticos, que se estruturavam sobre essas emoções primárias (James, 1890). Tal como Darwin, acreditava que as perturbações corporais observáveis eram a expressão ou linguagem natural das emoções: a expressão da raiva teria como efeito intimidar outros animais, cumprindo, pois, uma função de adaptação ao ambiente. As emoções-padrão eram classificadas entre os processos sensoriais do cérebro: a partir da percepção de objetos externos, James defendeu que as mudanças corporais poderiam ser percebidas antes mesmo de produzidas. Isso porque somos conscientes das correntes nervosas (nerve-currents) que excitam determinadas partes do corpo. Nenhum conteúdo cognitivo seria capaz de provocar, isoladamente, uma emoção, mas seria possível até que a excitação de certos centros corticais provocasse a ideia do objeto, a partir da qual correntes reflexas (reflex currents) passassem através de canais preordenados. Todo o conteúdo percebido pela consciência, para James (1890, p. 517), era de origem periférica4 . A emoção-padrão não seria mais que a percepção de uma reação corporal particular a um fato determinado (uma exceção seria um caso de "dispepsia nervosa", medo sem a possibilidade de atribuição de um fato causador, conforme James, 1884/1967a, p. 110).

A causalidade última das emoções-padrão seria a evolução da espécie, a seleção natural de sequências comportamentais determinadas e acionadas num sistema de chave-fechadura, percepção-reação emocional. Variações culturais dever-se-iam, fundamentalmente, a diferenças de associação entre a percepção de certos objetos e essas respostas inatas. A fonte primária era o próprio Charles Darwin (1872/1934), para quem a expressão das emoções funcionava de forma reflexa.

Uma das implicações da teoria periférica, segundo James, era a simplificação das noções sobre a fisiologia cerebral (James, 1884/1967b, p. 12). Reduzindo-se as emoções à mera percepção de sensações no corpo, facilitava-se muito o seu estudo. Segundo Vigotski (1933/2004), os fisiólogos do período seguinte entusiasmaram-se com tal concepção, para a qual a recém-descoberta fisiologia do sistema nervoso autônomo poderia explicar a vida emocional, fornecendo uma alternativa viável para as grandes limitações da metodologia experimental da época.

Mas, paradoxalmente, eram as próprias pesquisas fisiológicas que refutavam as ideias de James-Lange. Conforme Vigotski, descobria-se, por exemplo, que: 1) as mudanças viscerais de medo e raiva não diferiam muito como, pois, poderiam causar emoções tão diferentes do ponto de vista subjetivo?; 2) as reações orgânicas envolvendo o sistema nervoso periférico, idênticas às emocionais, nasciam também em circunstâncias que nada tinham a ver com a vivência emocional, como a prática de esportes; 3) estados emocionais do animal podiam se apresentar na ausência das reações vegetativas correspondentes; 4) a ressecção do sistema nervoso simpático em animais em nada alterava as reações emocionais.

Apresentando os novos estudos, Vigotski dedica maior atenção aos experimentos de Walter Bradford Cannon, fisiologista americano e aluno de James em Harvard, que iniciara suas pesquisas propondo-se a comprovar as ideias do mestre. Entretanto, acabou por elaborar uma nova teoria que ficou conhecida como teoria talâmica em 1915. A comprovação do papel da estrutura anatômica então conhecida como "tálamo óptico" na vivência emocional defini-la-ia como processo dependente do sistema nervoso central: segundo Cannon (Vygotski, 1933/2004, pp. 63-67), as diferenças entre emoções não poderiam ser simplesmente encontradas nas alterações dos órgãos internos5 . A consciência delas, e também as possibilidades de regulação voluntária (por exemplo, sobre as expressões faciais que as expressam) dependiam das relações córtex-subcórtex. As ideias de Vladimir Bekhterev convergiam com essa opinião (Vygotski, 1933/2004, pp. 107-111). O sinal anatômico dessa dupla regulação seria, para Vigotski, o de que nenhum impulso chega ao córtex sem passar pelo subcórtex6 .

Vigotski, que então estudava um lugar para a clínica em sua obra, aponta ainda que a psicopatologia da vida afetiva também servia à negação da teoria periférica. Os trabalhos de S. Wilson (Vygotski, 1933/2004, pp. 45-47), por exemplo, indicavam em alguns pacientes uma ausência de paralelismo entre elementos mentais e somáticos das emoções. Outros, de H. Head7 , com lesões no tálamo óptico, apresentavam uma hipersensibilidade emocional unilateral do lado afetado, enquanto um terceiro grupo, mesmo com a musculatura facial paralisada, relatava continuar sentindo toda espécie de sentimento. Esses estudos provavam a utilidade na associação de métodos objetivos e subjetivos na constituição da psicologia histórico-cultural (Vygotski, 1933/2004, p. 41). Provava-se que as sensações periféricas de emoções, exceto em condições muito especiais, não se identificavam com as vivências emocionais, levando Vigotski a concluir que as sensações são apenas parte, e não o todo, de tais vivências. Ocorre algo no organismo durante as vivências emocionais, cuja origem não está apenas no sistema nervoso periférico, mas também no central, e que é denominado (identificado culturalmente) pelo sujeito como surpresa, medo, alegria. Isso não chegava a ser novo na história da filosofia: pelo menos desde Descartes já se classificavam as diferentes emoções de acordo com suas manifestações objetivas e subjetivas. Cremos que a especificidade vigotskiana está em atribuir origem social e linguística a tal classificação (Vigotski, 1930/1991, pp. 86-87).

A descoberta do papel do tálamo causava mudanças cruciais. Levava a pensar que o desencadeamento das emoções implicava-se numa série de relações neuropsicológicas, colocando em xeque o valor imenso que se atribuía à evolução da espécie na determinação dos processos emocionais. Era de se supor a existência de mais causas que interagiam com a evolução biológica do organismo humano. Com isso, as emoções inseriam-se entre os processos mentais superiores e não entre os reflexos da espécie, como preconizava James.

Aspectos que Vigotski considerava essenciais, como a determinidade, estrutura e dinâmica das emoções, quase não eram problematizadas pelas teorias da época: Freud e Lewin eram dos poucos autores que buscavam preencher essa lacuna (Vygotski, 1932/1999). Urgia a necessidade de um monismo, pois a teoria James-Lange permanecia dualista; suas ideias sobre a relação corpo-mente eram incompatíveis com as novas descobertas em fisiologia e neurologia clínica. Vinculá-la a Descartes e propor a superação desse bloco dualista pelo monismo espinosano, doutrina psicofísica que viria a se constituir na principal orientação filosófica para uma nova teoria das emoções, era o caminho traçado pelo bielorrusso (Vygotski, 1933/2004, p. 8). Ele propunha-se a concretizá-la na segunda parte do "Utchenie ob Emotsiakh".

 

A teoria James-Lange, o dualismo e as considerações de Vigotski

Vigotski não era o primeiro a explorar as semelhanças entre a teoria James-Lange e o texto cartesiano "As paixões da alma" (1649): Dumas e Ribot já as haviam assinalado (Vygotski, 1933/2004, pp. 95-97). Esses autores convergem com Vigotski numa ideia: James substituíra a terminologia teológica cartesiana pela fisiológica. O problema central da crítica formulada pelo bielorrusso são as relações corpo-mente, atravessadas por dois tópicos centrais: a causalidade das paixões e a vontade em James-Lange e Descartes. Passemos, então, a uma apresentação do problema a partir tanto da leitura de Vigotski quanto dos demais autores.

Não há elo corpo-alma equivalente à glândula pineal, em James, tal como em Descartes, mas, para Vigotski, o autor substituíra o termo "espíritos animais" por "mudanças vasomotoras". Além disso, o corpo cartesiano aparecia como máquina composta de partes transmissoras de movimentos entre si, mecanicismo que podia, segundo o bielorrusso, ser considerado como uma das características cartesianas presentes na teoria periférica das emoções.

Sobre a causalidade das paixões8 , Vigotski observa que, no dualismo cartesiano, os espíritos animais são a causa mais próxima, movimentando a glândula pineal. A alma, então, percebe-as. A causa delas não se encontra apenas no cérebro, mas também no coração, baço, fígado e em outras partes do corpo que concorrem para a produção do sangue e dos espíritos animais (Descartes, 1649/2004, pp. 141, 163), ideia muito próxima às standard-emotions de James. Para Descartes, os objetos que afetam os sentidos são suas causas principais, premissa convergente com a importância da percepção dos objetos para James9 . Descartes diferencia as paixões a partir dos diferentes objetos-causa; James, sobretudo pelos seus distintos padrões comportamentais, contemplando elementos tanto externos como internos, embora, para o primeiro, as paixões não sejam causadas pela diversidade de objetos em si mesma, mas "apenas em virtude das diferentes maneiras pelas quais podem nos prejudicar ou beneficiar" (Vygotski, 1933/2004, p. 142). Uma diferença essencial entre James e Descartes, contudo, está no evolucionismo do primeiro, no fato de que as emoções-padrão, como medo, raiva, surpresa, podiam ter suas funções determinadas como comportamentos necessários à sobrevivência da espécie humana.

A teoria James-Lange acabava por reduzir as emoções a um mecanismo animal, sem sentido próprio nem vida subjetiva, marginalizando determinações vinculadas à personalidade e à história. Podemos deduzir que, para Vigotski, na teoria periférica a interpretação, a linguagem, não alterava a essência das dinâmicas emocionais. Isso chocava-se com a psicologia histórico-cultural, na qual a linguagem era indispensável na transformação das reservas comportamentais herdadas biologicamente. A linguagem, em Vigotski, aparecia como uma das mediações no desenvolvimento da vontade como processo psicológico especificamente humano o "domínio da própria conduta" bem como na comunicação e na representação sobre as emoções, parte indissociável das novas estruturas sociais do organismo humano, originalmente apenas biológico. A concepção cartesiana de vontade também era próxima da de James, pois o americano acabava defendendo a existência de uma vontade absoluta, superior às leis naturais (Vygotski, 1933/2004, p. 154). É importante, nesse contexto, destacar que Vigotski, um cientista que referendava os principais pressupostos darwinianos, considera a dominação da alma sobre o corpo, tanto em James quanto em Descartes, como algo mágico e sobrenatural. O bielorrusso defende que James, dualista, vacilava quanto à origem das paixões, chegando a admitir a existência de emoções intelectuais, puramente perceptivas, diversas das emoções-padrão e das mudanças fisiológicas nelas implicadas. Assim, existiriam dois domínios causais: o corporal e o mental. Fechavam-se tanto as portas de comunicação entre emoções inferiores (animais) e superiores (humanas) quanto entre as emoções e outros processos psíquicos. Defeito semelhante, segundo o bielorrusso, atingia a psicologia descritiva de Wilhelm Dilthey, bastante diferente da teoria James-Lange: longe de buscar a padronização evolucionária, Dilthey concedia um lugar central à descrição das vivências pelos seus próprios sujeitos10 .

Vigotski apreciava a hermenêutica diltheyana, embora negasse a contribuição dessa para desvelar o determinismo presente na relação entre ideia, corpo e cérebro, limitando-se a descrições nas quais uma vivência simplesmente desaguava na outra, causando-se a si mesmas, de forma tautológica (Vygotski, 1933/2004, p. 241). De que forma, por exemplo, a psicologia descritiva poderia explicar como as vivências se desenvolvem e complexificam a partir da herança biológica humana? Vigotski não localizou tal resposta. O dualismo não era, pois, exclusividade de James. Todas as psicologias encontravam-se numa encruzilhada dualista, fato anteriormente demonstrado pelo autor em "O significado histórico da crise na psicologia" (Vigotski, 1927/1996, pp. 338-343). A extensão da influência cartesiana na psicologia induzia nosso autor a uma conclusão radical:

Todas las contradicciones del sistema cartesiano reunidas, focalizadas en su teoría de las pasiones son para emplear términos musicales el tema fundamental, respecto al que la psicología contemporánea no representa nada más que las variaciones que conducen y desarrollan dicho tema. (Vygotski, 1933/2004, p. 173)

Assim, a teoria descritiva e a periférica das emoções caracterizavam-se como dois exemplos de dualismo. O caminho vigotskiano para a superação do fosso então existente entre humano e animal vincula-se à concepção do autor sobre as relações de continuidade e ruptura entre animal e humano, pressupondo-se que a formação cultural supera as reservas hereditárias da vida psíquica num processo dialético de tese-antítese-síntese. As mudanças que têm lugar nos planos natural e cultural se constituem num processo único de formação biológico-social da personalidade da criança.

Ambos os planos de desenvolvimento o natural e o cultural coincidem e se amalgamam um com o outro. As mudanças que têm lugar em ambos os planos se intercomunicam e constituem na realidade um processo único de formação biológico-social da personalidade da criança. Na medida em que o desenvolvimento orgânico se produz num meio cultural, passa a ser um processo biológico historicamente condicionado. (Vigotski, 1931/1995, p. 36)

Emoções tão diversas quanto o medo dos animais e o amor de Dante por Beatrice (Vygotski, 1933/2004, p. 214) precisavam ter sua gênese esclarecida pela mesma teoria. Essa era a tese central do bielorrusso para o futuro dos estudos sobre emoções. Dever-se-ia enfocar as emoções como processos do organismo humano tornados funções da personalidade, histórica e culturalmente determinados, nos quais as ideias (teológicas, políticas, estéticas e científicas) precisavam ganhar um lugar não só na descrição, mas também na explicação das emoções. A dinâmica das emoções demandava elucidação. Teoria e método requeriam ajustes, pois ambos se referiam ou ao corpo ou à mente. Ao adotar duas formas de metodologia para dois objetos distintos a das ciências naturais para os fenômenos do corpo, e a descritiva para os da mente a psicologia reconhecia-se impotente para produzir conhecimento sobre os homens em seu todo: ou era determinista e recaía no evolucionismo, caso da teoria periférica das emoções, ou buscava a compreensão das vivências, deixando de lado sua determinidade, tal como a psicologia descritiva. Vigotski, ao invés disso, atentava tanto para a gênese de sistemas psicológicos particulares como as emoções e a percepção, quanto para sua dinâmica integrada, articulada por meio de categorias como consciência, sentido e vivência. Tais categorias eram mediadas pela palavra e permeadas pela noção marxista de uma totalidade composta por partes internamente articuladas.

Para encerrar, cabe ainda uma última observação: fundamentos teórico-metodológicos defendidos por Vigotski em trabalhos anteriores apresentam-se também na sua crítica à teoria James-Lange no "Utchenie ob Emotsiakh", com características peculiares à temática das emoções. A saber:

1) A necessidade de que a psicologia fosse, efetivamente, uma ciência, explicativa (das relações causais entre os fenômenos sob sua alçada), e não apenas descritiva, dirigindo-se à elucidação das múltiplas determinações da vida psíquica dos homens: físicas, biológicas, sociais, histórico-culturais. Defendia-se a psicologia como um conhecimento racional no quadro geral das ciências (relacionando-se de forma integrada com saberes consensuais, como a teoria da seleção natural, a da relatividade etc). O autor defende, apoiando-se em Marx, a sinonímia entre os termos natural, científico e racional (Vigotski, 1927/1996, p. 389).

2) No seu caráter explicativo, a psicologia precisava enfocar a gênese dos processos psíquicos. Vigotski preocupa-se em defender a necessidade do eixo genético de investigação, nas relações complexas entre filo, sócio e ontogênese, como postulara em coautoria com Luria (Vigotski & Luria, 1930/1996). Para ele, como observamos, tais eixos mostravam-se desarticulados na teoria periférica. Um dos pontos principais da investigação genética era o modo específico como o "problema biológico das emoções" expressava-se, ainda muito confuso para compor sua psicologia dos aspectos mais complexos do psiquismo (Vigotski, 1925/2001a; Vygotsky, 1932/1999).

 

Considerações Finais

Vigotski foi intransigente na defesa de uma psicologia das emoções naturalista, determinista, monista e materialista, que, na sua fundamentação histórico-cultural, criasse sua parcela de explicações científicas sobre o mundo humano. Esses aspectos são centrais na sua crítica à teoria James-Lange como expressão do dualista "caldo primordial" da psicologia das emoções (um sinal da crise de toda a psicologia), no qual, não se diferenciavam, ainda, os principais objetivos e problemas da nova ciência:

la psicología de las emociones tampoco dispone en la actualidad de los rudimentos más elementales de una teoría del desarrollo; que es un cuadro embrollado en el que no se hace distinción entre emociones superiores e inferiores, animales e humanas, instintivas y conscientes. (Vygotski, 1933/2004, p. 138-139)

Em defesa da teoria periférica, é necessário considerarmos, portanto, que as dificuldades encontravam-se não apenas nas suas premissas básicas, mas também no dualismo filosófico reproduzido na fisiologia contemporânea a Vigotski. O "Utchenie ob Emotsiakh" procurava realizar uma tarefa hercúlea: conhecer em profundidade os dados científicos de sua época e tratá-los não apenas na proposição de problemas isolados e sua refutação pelos autores, mas também sob um ponto de vista filosófico (ontológico, ético, epistemológico). Segundo Vygotski (1933/2004, p. 58), o futuro de uma psicologia das emoções dependeria de uma divisão de trabalho entre as ciências e no interior da própria esfera de investigação das emoções. E, para desânimo dos mais afoitos, apontou: os problemas não resolvidos constituiriam tarefas a se solucionar em muitos anos, com extensas e sérias investigações (Vygotski, 1933/2004, p. 55), sendo que ele dava, com seu "Utchenie ob Emotsiakh", o primeiro passo nesse extenso caminho.

O obstáculo principal para o futuro da psicologia das emoções era a minguada compreensão do sistema nervoso dos primórdios do século XX: naquele momento, caberia mais formular hipóteses sobre as direções futuras da pesquisa do que tecer afirmações seguras no assunto. Cabe reconhecermos, contudo, que esse quadro mudou muito desde então, e hoje, conta-se com um amplo e diversificado montante de pesquisas sobre a neurociência das emoções (Toassa, 2009, pp. 202-203). Conhecê-lo é essencial para prosseguirmos nas reflexões para uma psicologia histórico-cultural, uma vez que o gigantismo do projeto vestigial de Vigotski para a investigação das emoções não se detinha nos limites da psicologia, e que era em Espinosa, filósofo que Vigotski considerava materialista, que o bielorrusso visualizava o futuro das pesquisas sobre as emoções. Não chegou a fazê-lo, e desse diálogo natimorto, que precisa ser revisto à luz de uma cuidadosa interpretação filosófica da obra do nosso autor, restam apenas fragmentos sobre os quais a autora pretende escrever futuramente.

 

Referências

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Recebido em: 07/07/2009
Aceito em: 19/03/2011

 

 

1 Trabalho resultante de tese de doutorado, orientada pela Profa. Dra. Marilene Proença Rebello de Souza no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Apoio financeiro do CNPQ.


2 Além dos filósofos que já indicamos, surgem também vários outros caso de Brentano, Dilthey e Platão.


3 Exemplos de trechos algo díspares: "a emoção é de fato sistema de reações relacionado de modo reflexo a esses ou aqueles estímulos" (Vigotski, 1926/2001b, p. 131) e "o medo é uma forma solidificada de comportamento que surgiu do instinto de autopreservação em sua forma defensiva" (p. 133). "O aparelho das emoções é uma espécie de instrumento especialmente adaptado e delicado através do qual é mais fácil influenciar o comportamento" (p. 143).


4 Common sense says, we lose our fortune, are sorry and weep; we meet a bear, are frightened and run; we are insulted by a rival, are angry and strike. The hypothesis here to be defended says that this order of sequence is incorrect, that the one mental state is not immediately induced by the other, that the bodily manifestations must first be interposed between, and that the more rational statement is that we feel sorry because we cry, angry because we strike, afraid because we tremble, and not that we cry, strike, or tremble, because we are sorry, angry, or fearful, as the case may be (James, 1884/1967b, p. 13).


5 "Tálamo óptico" é um termo que caiu em desuso na nomenclatura anatômica (embora possa ser ocasionalmente encontrado ainda em referências atuais), a qual, hoje, divide o tálamo em núcleos e não pela sua proximidade com outras estruturas, como o olho, o quiasma óptico ou o nervo óptico (o qual se conecta com o encéfalo no corpo geniculado lateral do tálamo). Guyton (1993, p. 231) inclui o tálamo entre as estruturas do sistema límbico, o sistema das emoções e motivações. Conforme a Wikipedia (Thalamus, n.d.) e Guyton (1993), o tálamo é importante na passagem e interpretação das informações sensoriais, ligando-se ao ciclo sono-vigília (pois tem núcleos no sistema reticular ascendente) e a consciência, já que existem diversos circuitos córtico-talâmicos; conexões bidirecionais com todas as regiões do córtex.


6 Hoje, as evidências de Cannon são consideradas algumas das primeiras relativas à existência de áreas encefálicas influentes na regulação e na produção de qualidades vivenciais das emoções (como o prazer), que muitos ainda denominam de sistema límbico.


7 Não foram encontradas referências a H. Head e S. Wilson. Nenhuma das edições do "Utchenie" oferece dados sobre tais autores.


8 Segundo Abbagnano (2000, p. 861), o termo francês passion, até o século XVIII, foi empregado na modernidade com o mesmo sentido que emoção.


9 "De acordo com o que se afirmou mais acima, sabe-se que a mais próxima causa das paixões da alma é a agitação com que os espíritos movem a diminuta glândula localizada no meio do cérebro. Mas isso não é suficiente para podermos diferenciá-las umas das outras; é necessário procurar suas fontes e analisar suas primeiras causas; mas, ainda que possam algumas vezes ser causadas pela ação da alma, que se determina a conceber estes ou aqueles objetos, e também pelo exclusivo temperamento do corpo ou pelas impressões que se encontram acidentalmente no cérebro... parece, pelo que foi dito, que todas elas podem também ser estimuladas pelos objetos que afetam os sentidos e que tais objetos são suas causas mais comuns e principais" (Descartes, 1649/2004, p. 141). Dilthey (1833-1911) rejeitava a aplicação do modelo das ciências naturais .


10 Dilthey (1833-1911) rejeitava a aplicação do modelo das ciências naturais (Naturwissenschaften), nas ciências humanas, ou do espírito (Geisteswissenschaften). Em sua época, acreditava que a natureza deveria ser explicada; a vida do espírito, compreendida, o que implicava em descrevê-la e realizar atividades lógicas simples sobre os estados psíquicos vivenciados (Dilthey, 1894/1945, pp. 260-288; Wilhelm Dilthey, n.d.). Dilthey acreditava que as psicologias explicativas, que se utilizavam dos métodos das ciências naturais, sustentavam-se em meras hipóteses carentes de fundamento. Vigotski (1927/1996, p. 366), entretanto, aponta que o autor amedrontava-se em transpor a regularidade e a necessidade da natureza para as ciências do espírito, um resíduo teológico de sua obra.


 

 

Gisele Toassa, Docente da Universidade Federal de Goiás. Endereço para correspondência: Primeira Avenida, 206, Apto. 204, St. Leste Universitário, Goiânia, GO, Brasil. CEP: 74605-020. Endereço eletrônico: gtoassa@gmail.com


 

 

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