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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.23 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642012000100008 

Artigos Originais

 

O Complexo de Édipo em Winnicott e Lacan1

 

The Oedipus Complex in Winnicott and Lacan

 

Le complex d'Oedipe chez Winnicott et Lacan

 

El Complejo de Edipo en Winnicott y Lacan

 

 

João Paulo Fernandes Barretta

Universidade Paulista - UNIP


 

 


RESUMO

Após uma breve apresentação do tema do complexo de Édipo em Freud e do ponto de vista diretor a partir do qual ele é tematizado, o artigo mostra que nas teorias psicanalíticas de Lacan e Winnicott esse tema central da teoria freudiana é modificado radicalmente. Por fim, o artigo conclui indicando uma semelhança entre ambas as formulações do conflito edipiano, bem como uma diferença fundamental.

Palavras-chave: Psicanálise. Complexo de Édipo. Imaginário. Fantasia. Realidade.


ABSTRACT

After a brief presentation of the theme of the Oedipus complex in Freud and the director's point of view from which it is thematized, the article shows that in psychoanalytic theories of Lacan and Winnicott this central theme in Freud's theory is radically changed. Finally, the article concludes by indicating a similarity between the two formulations of the Oedipal conflict, as well as a fundamental difference.

Keywords: Psychoanalysis. Oedipus complex. Imaginary. Fantasy. Reality.


RÉSUMÉ

Après une brève présentation du thème du complexe d'OEdipe chez Freud et le point de vue d'où il est thématisé, l'article montre que dans les théories psychanalytiques de Lacan et Winnicott ce thème central dans la théorie de Freud est radicalement changé. Enfin, l'article conclut en indiquant une similitude entre les deux formulations du conflit oedipien, ainsi que d'une différence fondamentale.

Mots-clés: Psychanalyse. Complexe d'OEdipe. Imaginaire. Fantaisie. Réalité.


RESUMEN

Tras una breve presentación del tema del complejo de Edipo en Freud y del punto de vista desde el que ello es tematizado, el artículo muestra que en las teorías psicoanalíticas de Lacan y Winnicott este tema central de la teoría de Freud ha cambiado radicalmente. Finalmente, el artículo concluye señalando una similitud entre las dos formulaciones del complejo de Edipo, así como una diferencia fundamental.

Palabras clave: Psicoanálisis. Complejo de Edipo. Imaginario. Fantasía. Realidad.


 

 

Introdução

Este texto é um trabalho inicial de um projeto mais amplo, que consiste em identificar as especificidades das abordagens pós-freudianas, tanto em relação a Freud quanto entre si. Aqui serão expostas as concepções de Winnicott e Lacan sobre um tema central da psicanálise, o complexo de Édipo. Naturalmente esse tema está vinculado a inúmeros outros, com os quais não nos ocuparemos, assim como também não iremos nos deter nas contribuições de outros autores sobre esse tema (como, por exemplo, M. Klein).

Pretendo mostrar: 1) de que maneira eles desenvolveram a concepção freudiana do complexo de Édipo; 2) que em ambos trata-se de não pensar mais o complexo de Édipo apenas como uma fantasia a serviço da eliminação de excitações; 3) que o complexo de Édipo possui em Lacan uma função fundamental, humanizante, ao passo que para Winnicott o referido complexo pressupõe um indivíduo já humanizado.

Em linhas gerais, mostrarei que Winnicott concebe o complexo de Édipo como um momento do desenvolvimento emocional, no qual a tarefa e o problema, em termos do amadurecimento, consistem não propriamente na formulação de fantasias com um certo conteúdo, mas na distinção entre fantasia e realidade; e que Lacan distingue a fantasia edípica (imaginária) do processo estruturante, simbólico, que seria o complexo de Édipo, de tal modo que ele vincula esse complexo ao problema da identidade pessoal, de que eu sou um sujeito e quem eu sou; problemas esses que são, para Winnicott, anteriores ao referido complexo e condição dele.

Ao abordar o conflito edipiano de uma maneira nova esses dois autores acabam por modificar certos pressupostos de base da psicanálise de Freud, como, por exemplo, a tese de que o aparelho psíquico trabalha no sentido de eliminar excitações (princípio de prazer). Ou melhor, é só na medida em que ambos partem de certos pressupostos fundamentais diferentes dos de Freud que eles podem introduzir e modificar o tema do conflito edipiano da maneira como o fazem. Voltaremos a isso ao final do trabalho.

Para tornar claros todos esses pontos farei uma breve exposição da concepção freudiana do complexo de Édipo e do tema fundamental do qual ele faz parte; seguido da exposição das concepções de Lacan e Winnicott.

 

O Complexo de Édipo em Freud2

Por "complexo" deve-se entender, em Freud, um conjunto de representações mentais (ideias, no sentido empirista), associadas entre si, e ocupadas por afetos (entendidos metapsicologicamente como quantidades de excitação3 ). No caso do complexo de Édipo, trata-se de um conjunto de ideias que giram em torno dos temas do incesto, do parricídio, do amor e do ódio da criança em relação aos pais.

O complexo de Édipo foi descoberto por Freud em sua autoanálise e as primeiras referências explícitas sobre ele se encontram, como se sabe, em sua correspondência com Fliess (cf. Carta de 15 de outubro de 18974 ). Esse tema reaparece em inúmeros outros textos, e possui em Freud o estatuto de complexo nuclear das neuroses, além de ser um fenômeno universal, presente em indivíduos saudáveis e neuróticos, esses apenas em uma "escala ampliada de sentimentos de amor e ódio pelos pais" (Freud, 1900/1999). Assim, o que difere em um neurótico não é a presença das fantasias edípicas, mas o elemento quantitativo, a intensidade dos afetos.

Para o que nos interessa neste trabalho, basta notar alguns pressupostos da elaboração freudiana do complexo de Édipo que não serão mantidos pelos dois autores pós-freudianos em questão (Winnicott e Lacan): 1º) trata-se para Freud fundamentalmente de uma fantasia, isto é, de uma representação mental, uma imago mental, algo que está na mente do indivíduo; 2º) essa representação mental é a via exclusiva pela qual o psiquismo se relaciona com os objetos externos; 3º) o complexo de Édipo se caracteriza pelo conteúdo da fantasia; 4º) o problema da fantasia edípica, para Freud, está em que sendo censurada impede a eliminação de excitação a ela vinculada, o que leva a uma eliminação substituta, disfarçada, sintomática. A tese de que o sintoma neurótico é uma satisfação substituta da sexualidade infantil.

Se isso está correto, então o pano de fundo da elaboração freudiana do complexo de Édipo é sua tese da necessidade do aparelho psíquico eliminar a excitação ou conservá-la tão baixa quanto possível (princípio do prazer). Ou, dito de outra forma, o pano de fundo da sua elaboração do complexo de Édipo é uma certa concepção a respeito da natureza do psiquismo5 . Veremos, justamente, que tanto Winnicott quanto Lacan modificarão radicalmente a concepção freudiana do conflito edipiano justamente na medida em que abandonam esse pressuposto central da sua teoria.

 

O complexo de Édipo em Lacan

Como se sabe, Lacan se caracteriza como um freudiano, e sua obra como um retorno a Freud, necessário pelos descaminhos da psicanálise pós-freudiana6. Esse retorno tem como eixo os conceitos fundamentais do imaginário, simbólico e real, a partir dos quais Lacan reinterpreta os conceitos e temas freudianos, entre eles o complexo de Édipo. Nos termos lacanianos, a criança se relaciona com uma mãe e pai imaginários, reais e simbólicos. Não entraremos em todos os detalhes da revisão lacaniana, mas apenas destacaremos um aspecto central de sua reinterpretação.

Segundo esse autor o conflito edipiano não deve ser reduzido à sua dimensão imaginária, às fantasias de incesto, parricídio e castração, mas deve ser compreendido mais propriamente como um mito, no sentido em que a análise estrutural o concebe, isto é, uma tentativa de elaborar a solução de um problema. Sobre esse ponto Lacan diz:

A função do mito se inscreve aí. Tal como descobre para nós a análise estrutural, que é a análise correta, um mito é sempre uma tentativa de articular a solução de um problema. Trata-se de passar de um certo modo de explicação da relação-com-o-mundo do sujeito ou da sociedade em questão para outro modo sendo esta transformação requerida pela aparição de elementos diferentes, novos, que vêm contradizer a primeira formulação. Eles exigem, de certo modo, uma passagem que é, como tal, impossível, que é um impasse. Isso é o que dá sua estrutura ao mito. (Lacan, 1995, p. 300)

O conflito edipiano não é apenas uma fantasia, ele teria uma função estruturante. Assim, as fantasias que giram em torno do pai e da mãe imaginários são um momento do complexo de Édipo estrutural, um momento de um processo estruturante que diz respeito, em última instância, à existência e à sexualidade. Sobre isso Lacan diz:

O mito... está muito mais próximo da estrutura que de todo conteúdo, e se reencontra e se reaplica... sobre todas as espécies de dados.... O mais adequado é dizer que a espécie de molde oferecido pela categoria mítica é um certo tipo de verdade na qual... não podemos deixar de ver que se trata de uma relação do homem mas com quê?... Responder com a natureza vai nos deixar insatisfeitos. Responder com o ser não é, decerto, inexato, mas talvez fosse ir um pouco longe demais.... Cabe a nós, apenas, perceber que se trata de temas da vida e da morte, da existência e da não existência, do nascimento, em especial, isto é, da aparição daquilo que ainda não existe. Trata-se, pois, de temas ligados, por um lado, à existência do próprio sujeito e aos horizontes que sua experiência lhe traz, por outro lado, ao fato de que ele é o sujeito de um sexo, do seu sexo natural. (Lacan, 1995, p. 259)

O ponto de partida da interpretação lacaniana (estruturalista) do complexo de Édipo é o Penis-neid, a inveja do falo, nas mulheres. A tese é de que mesmo na relação primordial da mãe com seu filho, há um terceiro elemento: o falo desejado. Sobre esse ponto pode-se ler em Lacan:

Todo o progresso que pode conhecer a relação aparentemente dual da criança com a mãe é, de fato, marcado por esse elemento essencial, do qual a experiência da análise de sujeitos femininos nos dá a certeza, e que é o ponto de referência, o eixo, que Freud manteve com firmeza até o fim no que diz respeito à sexualidade feminina: a criança só intervém como substituto, compensação, em suma, numa referência, qualquer que seja ela ao que falta essencialmente à mulher. Isso é o que não a deixa jamais inteiramente sozinha, ganz allein, com a mãe. (Lacan, 1995, p. 247)

Com isso, esse primeiro tempo do conflito edipiano se inicia não com uma relação dual, e não com o desejo da criança pela mãe, mas com o desejo da criança de ser o objeto de desejo da mãe, o que leva à identificação da criança com o falo imaginário da mãe, o que Lacan chama de narcisismo primário.

Essa situação na qual o bebê "tampona" a falta da mãe, situação de completude narcísica, é perturbada pela entrada em cena da excitação genital da criança. Esse novo elemento obriga a criança à construção de suas fantasias, de seu mito individual, como uma tentativa de resolver o dilema surgido com esse novo elemento perturbador da antiga relação com o mundo. A partir desse momento, diz Lacan, a criança "é aprisionada em sua própria armadilha, vítima de seu próprio jogo, presa de todas as discordâncias, confrontada com a hiância imensa que existe entre satisfazer uma imagem e ter algo de real para apresentar: apresentar cash, se posso dizer" (Lacan, 1995, p. 232).

Nesse momento, nos casos favoráveis, intervém a castração, isto é, o pai intervém, retirando a criança da situação de ter que satisfazer a falta materna, retirando-a da situação cativa em que se encontrava, rompendo o par narcísico7 .

Agora, esse pai que restabelece a ordem é o que Lacan chama de pai simbólico. Esse pai simbólico é aquele que se faz presente como um significante8 , isto é, ele é um nome, o nome do pai. Lacan diz:

O pai simbólico é o nome do pai. Este é o elemento mediador essencial do mundo simbólico e de sua estruturação. Ele é necessário a este desmame, mais essencial que o desmame primitivo, pelo qual a criança sai de seu puro e simples acoplamento com a onipotência materna. (Lacan, 1995, p. 374)

O nome do pai é uma metáfora, um significante que surge no lugar de outro significante9 . No caso do significante do nome do pai, trata-se de um significante que surge no lugar do primeiro significante introduzido na simbolização, o significante materno10 . Este significante materno, ou mãe simbólica, é a mãe que alterna entre presença e ausência.

Dito de outra forma, para Lacan as coisas se passam como se a presença e a ausência da mãe (mãe simbólica) levassem a criança à seguinte questão: "qual é o significado? O que quer essa mulher aí? Eu bem que gostaria que fosse a mim que ela quer, mas está muito claro que não é só a mim que ela quer. Há outra coisa que mexe com ela é o x, o significado. E o significado das idas e vindas da mãe é o falo" (Lacan, 1999, p. 181).

Em suma, o pai simbólico, o nome-do-pai, é uma metáfora do desejo da mãe (falo) que ao nomeá-lo afasta e barra esse desejo11 . O significado ficará, desse modo, para sempre perdido12 , mas o significante do nome-do-pai dará origem a uma cadeia significante e estará presente na fantasia neurótica.

Agora, esse significante que nomeia o desejo materno afastando-o será, ao mesmo tempo, o significante com o qual me identifico. Isso significa basicamente que o complexo de Édipo marca a passagem da identificação com o objeto imaginário do desejo da mãe (falo imaginário), para a identificação com o significante do nome-do-pai. Troca-se uma identificação por outra, uma identificação imaginária por outra simbólica, com a diferença que nessa última estamos no reino da cultura, com suas leis próprias, suas proibições, mas também no reino onde cada um tem seu lugar.

Tudo isso implica que, para Lacan, e talvez essa seja uma de suas principais descobertas clínicas, a fantasia neurótica (independentemente de seu conteúdo) tem em sua base um significante que ao mesmo tempo nomeia o desejo do Outro (materno) e diz quem o sujeito é (fantasma fundamental).

Desse modo, pode-se dizer que o que Lacan fez, em linhas gerais, foi, por um lado, vincular o tema freudiano do Édipo, a partir da influência da antropologia estrutural, ao problema da identidade, de quem eu sou, ou mais exatamente, vincular o tema do ser (quem eu sou) ao tema do desejo (do Outro) e, por outro, colocar o complexo de Édipo como momento estruturante que marca a passagem do reino da natureza (imaginário) para a cultura (simbólico).

 

O Complexo de Édipo em Winnicott

O tema do complexo de Édipo em Winnicott em geral é pouco discutido pelos estudiosos do autor, pois é tratado como não sendo o seu tema maior. De acordo com essa interpretação, a grande novidade de sua teoria diz respeito aos primeiros estágios do desenvolvimento emocional. Recentemente, contudo, autores brasileiros (Loparic, Dias, Fulgencio) têm defendido a tese de que a psicanálise winnicottiana operaria uma revolução nos moldes da revolução paradigmática proposta por Kuhn. Nesse caso, haveria um novo paradigma que, obrigatoriamente, levaria a uma completa revisão dos conceitos clássicos da psicanálise freudiana. Se isso está correto, então, também o tema do complexo de Édipo deve ser modificado nesse autor. Veremos que é esse o caso.

O eixo central da teoria winnicottiana é sua teoria do desenvolvimento emocional, na qual o elemento central é a descoberta da importância do ambiente para que ocorra esse desenvolvimento, e dos diferentes tipos de relação com o ambiente que o indivíduo estabelece ao longo dele.

Essa relação com o ambiente não deve ser concebida nem em termos de uma relação objetal, uma vez que o ambiente é o local onde se encontram objetos, nem de uma relação erótica, uma vez que se trata de uma relação ao ego, e, finalmente, não se trata de uma relação representacional, fantasiada, uma vez que o ambiente é o conjunto dos cuidados efetivos com o bebê, uma relação de contato, portanto.

O complexo de Édipo é abordado na teoria winnicottiana no interior de sua teoria do desenvolvimento emocional. Trata-se, a princípio, de um acontecimento que diz respeito às relações da criança com seus pais, uma situação que envolve amor e ódio nas relações interpessoais13 a partir dos impulsos instintuais. Do ponto de vista da teoria winnicottiana, essa breve caracterização implica que uma criança só poderá se deparar com conflitos edípicos se houver conseguido estabelecer uma relação interpessoal com objetos objetivamente percebidos, isto é, se houver alcançado o estágio de independência relativa, e isso só ocorreria se houver conseguido apropriar-se de seus impulsos instintuais e se, antes de tudo isso, houver atingido o estágio do Eu sou que, por sua vez, só é possível se a condição de ser tiver sido bem estabelecida nos estágios primitivos do desenvolvimento emocional (com suas três tarefas primitivas). Essas seriam, em linhas gerais, as condições psicológico-emocionais do complexo de Édipo para Winnicott.

Esquematicamente os pontos centrais da reelaboração winnicottiana do conflito edipiano são:

1) Contra Melanie Klein, Winnicott sustenta que o conflito edipiano só ocorre nas relações interpessoais e não ocorre com relação a objetos parciais (seio, falo paterno, excrementos e outros bebês no interior do corpo da mãe)14 ;

2) Essas relações interpessoais efetivas com os pais reais são, num certo momento, perturbadas pelas fantasias edípicas, que são concebidas, grosso modo, à maneira de Freud15 ;.

3) O decisivo na vivência da fase edipiana do desenvolvimento emocional não é, para Winnicott, propriamente a fantasia, e muito menos um elemento quantitativo (metapsicologia), mas a maturidade emocional necessária para passar por essa fase sem a necessidade de empregar mecanismos de defesa rígidos contra as ideias/fantasias e contra a relação ambivalente16 ;

4) A tarefa, em termos do desenvolvimento emocional, necessária para a vivência do conflito edipiano, sem o desenvolvimento de uma neurose, é a da distinção entre fantasia e relações efetivas com os pais reais.

Esse último ponto é o decisivo na revisão winnicottiana do complexo de Édipo. Para esse autor, o propriamente problemático não são as fantasias em si, mas a dificuldade, relativa ao estágio do desenvolvimento emocional, de distinguir entre fantasia e realidade. Isso significa: se a criança for capaz de fazer essa distinção, as fantasias edípicas não a perturbarão a ponto de se constituir em um sério entrave ao seu desenvolvimento posterior, ainda que gerem angústias e sintomas infantis.

Por sua vez, a criança será capaz de fazer essa distinção corretamente se a relação efetiva com o ambiente não for alterada por essas suas fantasias, isto é, se o ambiente mantiver-se adequado. Sobre esse ponto pode-se ler em Winnicott:

Quando os pais existem e também uma estrutura doméstica e a continuidade das coisas familiares, a solução vem através da possibilidade de distinguir entre o que chamamos de realidade e fantasia. Ver os pais juntos torna suportável o sonho de sua separação ou da morte de um deles. A cena primária (os pais sexualmente juntos) é a base da estabilidade do indivíduo, por permitir que exista o sonho de tomar o lugar de um dos pais. (Winnicott, 1988, p. 77)

Note-se, portanto, que o decisivo é a capacidade ou incapacidade da criança em conceber a fantasia ou suas ideias edípicas como fantasias e ideias, o que dependerá da relação efetiva da criança com o ambiente (pais reais). Sendo assim, o conflito edipiano não é um problema que diga respeito apenas às relações fantasiadas com os pais, também diz respeito às relações efetivas com os pais reais, com base na qual é possível a referida distinção.

Essa distinção, por sua vez, traz um alívio para a criança ao livrá-la de uma situação angustiante de (ser engolida ou se afastar violentamente17 ou de) impotência18 . Isso é suficiente para tirarmos algumas conclusões.

 

Considerações finais

O complexo de Édipo em Freud é uma fantasia que, como tal, é uma cena de satisfação de um desejo erótico infantil (inconsciente) e, portanto, um momento de uma problemática fundamental e constante: a da eliminação de excitações pelo aparelho psíquico.

Em Lacan, o complexo de Édipo não pode ser reduzido à fantasia, nem entra na problemática da eliminação de excitações. Diferentemente de Freud, Lacan distingue entre o conteúdo (imaginário) das fantasias inconscientes e o processo estruturante. Com isso, ele concebe o complexo de Édipo como o momento decisivo de uma outra problemática fundamental: a da passagem da natureza para a cultura, da humanização no sentido da assunção de uma lei (não natural) e de um lugar na sociedade19 .

Em Winnicott, como procuramos mostrar, o complexo de Édipo não pode, da mesma forma que em Lacan, ser reduzido à fantasia, nem entra na problemática da eliminação de excitações. Diferentemente de Freud, Winnicott distingue entre as fantasias edípicas e as relações efetivas da criança com os pais. Com isso, concebe duas relações diferentes da criança com os pais: a fantasiada e a efetiva, e o problema psicológico-emocional da distinção entre fantasia e realidade, como o ponto decisivo na passagem pelo referido complexo. Em Winnicott, o complexo de Édipo é, portanto, um momento de uma problemática fundamental, mas também distinta da de Freud: trata-se de uma etapa (e tardia) do desenvolvimento emocional, da passagem da relação com o objeto subjetivo (criado) para a relação (criativa) com a realidade objetivamente percebida.

Por fim, sobre as diferenças nas concepções de Winnicott e Lacan, pode-se dizer que ambos concebem a castração como um alívio de uma situação angustiante, situação essa vinculada à impotência da criança em realizar suas fantasias. Ambos concordariam ainda que o pai desempenha nesse ponto um papel central. Contudo, o pai lacaniano é essencialmente um pai simbólico, porta de entrada na cultura, ao passo que o pai winnicottiano é um pai efetivo, que contribui para a relação com a realidade (objetiva). Além disso, para Lacan, o conflito edipiano tem uma função humanizante, a de permitir o surgimento de um sujeito, ao passo que para Winnicott, ao contrário, o conflito edipiano só ocorreria se já houvesse um ser humano. Com isso, chegamos, até onde podemos ver, num ponto de discordância fundamental entre esses autores: para Lacan, o ser humano surge a partir da interdição (simbólica, nomeação) do desejo do outro, ou mais simplesmente, Lacan vincula ser e desejo (do Outro), ao passo que na teoria do desenvolvimento emocional de Winnicott, ser é condição do desejo.

 

Referências

Freud, S. (1999). Gesammelte Werke (18 vols., 1 vol. complementar: Nachtragsband). Frankfurt am Main: Fischer.         [ Links ]

Lacan, J. (1995). O Seminário. Livro 4. A relação de objeto. São Paulo: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1956-1957)        [ Links ]

Lacan, J. (1998). Escritos. São Paulo: Jorge Zahar.         [ Links ]

Lacan, J. (1999). O Seminário. Livro 5. As formações do inconsciente. São Paulo: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1957-1958).         [ Links ]

Masson, J. M. (1999). Sigmund Freud Briefe an Wilhem Fließ - 1887-1904. Frankfurt am Main: Fischer.         [ Links ]

Winnicott, D. W. (1988). Natureza humana (D. L. Bogomoletz, trad.). Rio de Janeiro: Imago.         [ Links ]

Winnicott, D. W. (1965). "The family and emotional maturity". In D. W. Winnicott, The family and individual development. London: Tavistock.         [ Links ]

 

Recebido em: 19/05/2010
Aceito em: 17/08/2011

 

 

1 Este texto é uma versão pouco modificada de um trabalho apresentado no XIII Colóquio Winnicott, realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em maio de 2008.


2 As obras de Freud são citadas em português, mas remetem às páginas da edição de 1999 das obras completas de Freud..


3 Cf. Freud: "Gostaria, por fim, de me deter por um momento na ideia auxiliar [Hilfsvorstellung] que utilizei nesta exposição das neuroses de defesa. Refiro-me ao conceito de que, nas funções mentais, deve-se distinguir algo (uma carga de afeto [Affektbetrag] ou soma de excitação [Erregungssumme]) que possui todas as características de uma quantidade embora não tenhamos meios de medi-la passível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se espalha sobre os traços mnêmicos das representações como uma carga elétrica espalhada pela superfície de um corpo" (Freud 1894/1999, p. 74).


4 Cf. Freud (1897): "Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas.... Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Édipo Rei, apesar de todas as objeções levantadas pela razão contra a sua pressuposição do destino.... Mas a lenda grega capta uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de repressão que separa seu estado infantil do seu estado atual" (Masson, 1999, p. 293).


5 Em minha tese de doutorado (2007) tive oportunidade de examinar os pressupostos ontológicos da psicanálise freudiana e a conclusão que então obtive foi a de que Freud transpõe para o psiquismo uma concepção em voga no século XIX a respeito dos seres vivos, qual seja, de que o psiquismo deve ser concebido como uma substância irritável, isto é, uma substância que se vincula ao meio em que vive por meio de estímulos e que sua ação, cujo modelo é o movimento reflexo, deve ser concebida como uma forma de eliminar a excitação oriunda dos estímulos (externos ou internos).


6 Decorrentes da valorização do elemento não verbal (principalmente com o advento da análise infantil), a ênfase na noção de relação de objeto, a reformulação da ideia do progresso da análise e o uso sistemático da contratransferência. Cf. Lacan: "Tentemos esboçar a tópica desse movimento. Ao considerar a literatura que chamamos de nossa atividade científica, os problemas atuais da psicanálise destacam-se nitidamente sob três aspectos: a) função do imaginário, digamos, ou, mais diretamente, das fantasias na técnica da experiência e na constituição do objeto nas diferentes etapas do desenvolvimento psíquico. O impulso proveio, aqui, da psicanálise de crianças, e do terreno favorável oferecido às tentativas e às tentações dos investigadores pela abordagem das estruturações pré-verbais.... b) Noção das relações libidinais de objeto, que, renovando a ideia do progresso da análise, reformula em surdina sua condução.... c) Importância da contratransferência e, correlativamente, da formação do psicanalista. Aqui, a ênfase veio dos embaraços do término da análise" (Lacan, 1998, pp. 243-244).


7 Cf. Lacan: "O pai intervém em diversos planos. Antes de mais nada interdita a mãe. Esse é o fundamento, o princípio do complexo de Édipo, é aí que o pai se liga à lei primordial da proibição do incesto" (Lacan, 1999, p. 174).


8 Por significante deve-se entender o elemento fonético das palavras, distinto, portanto, do seu significado. O importante não é, desse modo, o significado do significante , mas a sua materialidade que permite as associações, a cadeia significante. Um exemplo ilustrativo disso que Lacan quer chamar a atenção é a análise de Freud de seu esquecimento do nome próprio Signorelli, em Psicopatologia da vida cotidiana (1901).


9 Cf. Lacan: "Uma metáfora, como já lhes expliquei, é um significante que surge no lugar de outro significante. Digo que isso é o pai no complexo de Édipo, ainda que isso venha a aturdir os ouvidos de alguns. Digo exatamente: o pai é um significante que substitui um outro significante. Nisso está o pilar, o pilar essencial, o pilar único da intervenção do pai no complexo de Édipo" (Lacan, 1999, p. 180).


10 Cf. Lacan: "A função do pai no complexo de Édipo é ser um significante que substitui o primeiro significante introduzido na simbolização, o significante materno. Segundo a fórmula que um dia lhes expliquei ser a da metáfora, o pai vem no lugar da mãe, S em lugar de S', sendo S' a mãe como já ligada a alguma coisa que era o x, ou seja, o significado na relação com a mãe" (Lacan, 1999, p. 180).


11 Cf. Lacan: "Observemos esse desejo do Outro, que é o desejo da mãe e que comporta um para-além. Só que para atingir esse para-além é necessária uma mediação, e essa mediação é dada, precisamente, pela posição do pai na ordem simbólica." (Lacan, 1999, p. 190).


12 Com a metáfora paterna, vemos surgir um significante do desejo materno, um significante cujo significado está perdido, e que "entra desde logo em jogo, a partir do momento em que o sujeito aborda o desejo da mãe. Esse falo é velado e permanecerá velado até o fim dos séculos, por uma razão simples: é que ele é um significante último na relação do significante com o significado. Com efeito, há pouca probabilidade de que venha jamais a se revelar senão em sua natureza de significante, ou seja, de que venha realmente a revelar, ele mesmo, aquilo que, como significante, ele significa." (Lacan 1999, p. 249).


13 Winnicott irá discordar explicitamente da teoria kleiniana dos estágios iniciais do conflito edipiano, no qual haveria um complexo de Édipo com objetos parciais (seio, excrementos, outros bebês no interior do corpo da mãe e o falo, basicamente).


14 Cf. Winnicott: "Acredito que alguma coisa se perde quando o termo 'complexo de Édipo' é aplicado às etapas anteriores, em que só estão envolvidas duas pessoas, e a terceira pessoa ou o objeto parcial está internalizado, é um fenômeno da realidade interna. Não posso ver nenhum valor na utilização do termo "complexo de Édipo" quando um ou mais de um dos três que formam o triângulo é um objeto parcial. No complexo de Édipo, ao menos do meu ponto de vista, cada um dos componentes do triângulo é uma pessoa total, não apenas para o observador, mas especialmente para a própria criança" (Winnicott, 1988, p. 67).


15 Cf. Winnicott: "Desta forma, o termo 'Complexo de Édipo' possui um valor econômico na descrição da primeira relação interpessoal em que os instintos estão incluídos. Na fantasia, o alvo é a união sexual entre o filho e a mãe, o que implica em morte, a morte do pai. O castigo acontece através da castração simbólica da criança, representada pela cegueira do antigo mito. A ansiedade de castração permite à criança continuar viva, ou deixar que o pai viva. A castração simbólica traz alívio" (Winnicott, 1988, p. 67).


16 Cf. Winnicott: "O complexo de Édipo representa assim a descrição de um ganho em saúde. A doença não deriva do Complexo de Édipo, mas da repressão das ideias e inibição das funções que se referem ao doloroso conflito expresso pelo termo ambivalência, como, por exemplo, quando o menino se percebe odiando e desejando matar e temendo o pai que ele ama e em quem confia, porque está apaixonado pela esposa do pai" (Winnicott, 1988, p. 68).


17 Cf. Winnicott: "No que toca a essa contínua ruptura que caracteriza o processo de crescimento dos indivíduos, o complexo de Édipo apresenta-se como um alívio: nessa situação triangular, o menino pode conservar o amor pela mãe tendo à frente a figura do pai, e do mesmo modo a menina, com a mãe à frente, pode conservar seu desejo pelo pai. Na ausência de uma terceira figura, a criança só tem duas alternativas: ser engolida ou se afastar violentamente" (Winnicott, 1965, p. 135).


18 Cf. Winnicott: "O medo da castração pelo genitor rival torna-se uma alternativa bem-vinda para a angústia da impotência" (Winnicott, 1988, p. 62).


19 Esse ponto já foi salientado por diferentes comentadores. Veja-se, por exemplo, Lemaire (1985): "O complexo de Édipo no pensamento de J. Lacan não é mais um estádio da psicologia genética como um outro qualquer; é o momento em que a criança se humaniza tomando consciência de si, do mundo e dos outros. A resolução do Édipo é o acesso à linguagem, ao mundo simbólico da família e à Sociedade em geral." (p. 135).


 

 

João Paulo Fernandes Barreta, Psicanalista, Professor Titular da Universidade Paulista (Unip), Professor do Centro Winnicott e membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Clinicas (GFPP). Mestre em Filosofia e Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP Endereço eletrônico: jpbarretta@hotmail.com


 

 

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