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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.23 no.2 São Paulo Apr./June 2012 Epub July 17, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642012005000006 

 

No limiar do mundo visível: a noção de esquema corporal nos cursos de Merleau-Ponty na Sorbonne1

 

On the threshold of the visible world: the notion of body schema in Merleau-Ponty's courses at the Sorbonne

 

Au seuil du monde visible: la notion de schéma corporel dans les cours de Merleau- Ponty à la Sorbonne

 

En el umbral del mundo visible: la noción de esquema corporal en los cursos de Merleau-Ponty en la Sorbonne

 

 

Danilo Saretta Verissimo

Universidade Estadual Paulista (UNESP)


 


RESUMO

De acordo com o propósito geral de estudar longitudinalmente o uso que Merleau-Ponty faz da noção de esquema corporal em sua filosofia, no presente artigo dedicamo-nos aos seus cursos na Sorbonne, localizados em um período intermediário da sua obra. Neles, o filósofo enceta discussões acerca da corporeidade a partir da psicologia da criança e da psicanálise, tomando por eixos centrais o problema da intersubjetividade e a teoria do esquema corporal. Merleau-Ponty compreende que a aquisição de um esquema corporal uno, "total", implica um descentramento de si, de modo que o corpo próprio, o de outrem e o mundo possam se entrelaçar num "tecido relacional" que envolve inextricavelmente visibilidade e espessura intracorporal. Consideramos que nesses estudos Merleau-Ponty dá um importante passo em direção à noção de carne tal como encontrada em seus textos mais tardios.

Palavras-chave: Merleau-Ponty (Maurice). Esquema corporal. Corporeidade. Fenomenologia.


ABSTRACT

In line with the general goal of a longitudinal study about Merleau-Ponty's use of the body schema notion in his philosophy, in this paper, we look at his course at the Sorbonne, located in an intermediary period of his work. In these courses, the philosopher starts discussions on corporeity, based on the philosophy of the child and psychoanalysis, with the intersubjectivity problem and the body schema theory as the central axes. Merleau-Ponty understands that the acquisition of a single, "total" body scheme implies decentering from oneself, so that one's own body, the other person's body and the world can intertwine in a "relational tissue" that inextricably involves visibility and intra-body thickness. We consider that, in these study, Merleau- Ponty takes an important step towards the notion of flesh as found in his later works.

Keywords: Merleau-Ponty (Maurice). Body schema. Corporeity. Phenomenology.


RÉSUMÉ

Suivant notre intention générale qui est d'étudier longitudinalement l'utilisation que Merleau-Ponty fait de la notion de schéma corporel dans sa philosophie, nous nous consacrons dans cet article à ses cours à la Sorbonne. Ces cours font partie d'une période intermédiaire de son oeuvre. Le philosophe y amorce des discussions concernant la corporeité à partir de la psychologie de l'enfant et de la psychanalyse, en abordant le problème de l'intersubjectivité et la théorie du schéma corporel. Merleau-Ponty comprend que l'acquisition d'un schéma corporel unitaire, "total", implique une décentralisation de soi, de façon que le corps propre, le corps d'autrui et le monde puissent s'entrelacer dans un "tissu relationnel" qui implique inextricablement visibilité et épaisseur intra-corporel. Nous considérons que dans ces études Merleau-Ponty effectue un grand pas vers la notion de chair telle qu'on la trouve dans ses textes plus tardifs.

Mots-clés: Merleau-Ponty (Maurice). Schéma corporel. Corporeité. Phénoménologie.


RESUMEN

Según el propósito general de estudiar longitudinalmente el uso que Merleau-Ponty hace de la noción de esquema corporal en su filosofía, en este artículo nos dedicamos a sus cursos en la Sorbonne, localizados en un período intermediario de su obra. En esos, el filósofo enceta discusiones acerca de la corporeidad a partir de la psicología del niño y del psicoanálisis, tomando por ejes centrales el problema de la intersubjetividad y la teoría del esquema corporal. Merleau-Ponty comprende que la adquisición de un esquema corporal uno, "total", implica un descentramiento de si, de manera que el cuerpo propio, el de otro y el mundo puedan entrelazarse en un "tejido relacional" que involucra inextricablemente visibilidad y espesura intra-corporal. Consideramos que, en esos estudios, Merleau-Ponty da un paso importante hacia la noción de carne tal como encontrada en sus textos más tardíos.

Palabras-clave: Merleau-Ponty (Maurice). Esquema corporal. Corporeidad. Fenomenología.


 

 

Introdução

Este artigo faz parte do propósito geral de estudar longitudinalmente o uso que Merleau-Ponty faz da noção de esquema corporal em sua filosofia. O filósofo a debate em diversos momentos da sua obra: na Fenomenologia da percepção (Merleau-Ponty, 1945)2; nos Cursos da Sorbonne (Merleau-Ponty, 1997, 2001a, 2001b, 2011c, 2001d, 2001e); nos cursos do período do Collège de France, particularmente em O mundo sensível e o mundo da expressão (Merleau-Ponty, 2011) e em A Natureza (Merleau-Ponty, 1994); e também no livro póstumo, O Visível e o Invisível (1964/2006). Ao realizar este estudo, interessa-nos especialmente examinar o papel que o desenvolvimento crítico da noção de esquema corporal possa ter desempenhado na passagem do momento inicial da obra de Merleau-Ponty, marcado pelo caráter arqueológico descritivo (Barbaras, 1998, 2001) e centrado na ideia de encarnação, ao momento em que uma nova ontologia começa a ser esboçada em torno da noção de carne.

Ao tratar dessa passagem, Saint Aubert (2008a) faz referência à investida do filósofo, a partir de 1953, sobre as teorias do esquema corporal, ponto de cruzamento de campos não filosóficos aos quais Merleau- Ponty se dedicara desde os seus primeiros trabalhos, como a neurologia, a psicologia da criança e a psicanálise. Aquela passagem, todavia, começa a ser concebida já entre 1946 e 1952. Trata-se de um período na carreira de Merleau-Ponty que se situa entre a publicação de suas teses e a redação de seus últimos escritos. Essa fase de "gestação" (Saint Aubert, 2008a, p. 18) nutre-se de discussões acerca da corporeidade no interior, principalmente, da psicologia infantil e da psicanálise. Essas discussões encontram-se nos cursos da Sorbonne, realizados por Merleau-Ponty (1997, 2001a, 2001b, 2001c, 2001d, 2001e)3 entre 1949 e 1952. É neles que nos centraremos no presente artigo.

 

Após a Fenomenologia da percepção

Na Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty (1945) enceta suas primeiras análises acerca da noção de esquema corporal a partir de discussões elaboradas pela neuropsicopatologia do início do século XX. É comum que se atribua ao neurologista Henry Head as elaborações iniciais da noção de esquema corporal. A partir do estudo de perturbações da localização de estímulos externos, Head foi levado a admitir a existência de modelos ou esquemas táteis, visuais, posturais e motores do corpo (Hécaen & Ajuriaguerra, 1952). De modo mais geral, trata-se de reconhecer a existência de um sistema dinâmico que constitui modelos organizados acerca de nossa condição corporal e que governa, principalmente, nossa postura e nossa motricidade. Segundo o autor, em grande medida esse sistema permanece fora de nossos domínios conscientes (Gallagher & Cole, 1995; Head & Holmes, 1911), consideração que põe em relevo o caráter infrarepresentacional do conhecimento que o corpo possui acerca da sua situação (Saint Aubert, 2008a). Conrad (1933 citado por Hécaen & Ajuriaguerra, 1952) aborda a ambiguidade da noção de esquema corporal no pensamento de diferentes autores no início do século XX. Em alguns, ela reveste-se com características de um fato psicológico, em outros de um fato fisiológico. De qualquer modo, em ambos os quadros conceituais gravita-se em torno de um ideário empirista. Os dados interoceptivos e propriocetivos alimentariam esquemas associativos de ordem puramente fisiológica ou dariam origem a esquemas associativos de ordem representacional que, mesmo não conscientes, estariam sempre prontos a atuar.

O tratamento dado por Merleau-Ponty à noção de esquema corporal é coerente às críticas operadas n'A estrutura do comportamento (Merleau-Ponty, 1942) no que concerne ao mecanicismo e ao atomismo que marcam a psicologia experimental das primeiras décadas do século XX. Verissimo (no prelo) mostra que o filósofo, na Fenomenologia da percepção, dessubstancializa a noção de esquema corporal. O que significa dizer que o filósofo atém-se à fenomenalidade daquilo que possa estar implicado nesse conceito, e esquiva-se de atribuir alguma positividade a ele. Sob os auspícios de uma "intencionalidade motora", de função precognitiva devedora das sensações advindas de várias partes do corpo, a noção de esquema corporal passa, com Merleau-Ponty, a expressão da permeabilidade das partes do corpo umas em relação às outras, bem como da permeabilidade do corpo em relação ao mundo e a outrem. A estabilidade do mundo percebido é então descrita como análoga à experiência que temos do nosso corpo: estável e organizada enquanto forma (Gestalt).

As pesquisas de Merleau-Ponty que se iniciam em torno de 1945 buscam fixar o sentido dos trabalhos anteriores (Merleau-Ponty, 2000a) no interior de um panorama de crítica aos seus limites. Desde seus primeiros livros, Merleau-Ponty opera segundo o registro de uma intenção ontológica distinta da ontologia clássica, que perpetua a cisão entre sujeito e objeto. É preciso reconhecer, todavia, que Merleau-Ponty à época da Fenomenologia da percepção ainda não contava com instrumentos teóricos que lhe permitissem ultrapassar verdadeiramente o intelectualismo, conforme observa Bimbenet (2004). Para Barbaras (1998), na medida em que, naquele livro, Merleau-Ponty busca distanciar o corpo da ideia de objeto e a consciência da ideia de intelecção, a experiência perceptiva aparece "como uma mistura de facticidade e de idealidade" (p. 188).

Pode-se afirmar que Merleau-Ponty conserva o problema da percepção como seu grande tema de investigação (Barbaras, 1999). Suas pesquisas continuam voltadas para nossa experiência bruta do mundo que se situa aquém da reflexão e da análise científica. O estudo da percepção sofre, não obstante, uma importante metamorfose ao se tornar investigação acerca do sensível. Doravante, trata-se de atribuir ao corpo não apenas o caráter de sujeito da percepção, mas também de ente percebido, ente sensível, na amplitude polissêmica do termo, o que teria por efeito afirmar "a implicação do sujeito no mundo como inerente à estrutura do aparecer" (Barbaras, 1999, p. 105). Nesse contexto, a percepção passará a ser descrita cada vez mais por figuras carregadas de afeto (Saint Aubert, 2004), cada vez mais dotadas do poder de interferir no mundo das coisas e da coexistência, e de se deixar contaminar por eles.

A noção de esquema corporal é uma dessas figuras. Neste trabalho, tomamo-la como princípio emblemático em relação às torções conceituais que são operadas nessa passagem do problema da percepção ao problema do sensível, justamente por considerarmos sua importância enquanto instrumento teórico na germinação do projeto ontológico final de Merleau-Ponty.

 

A noção de esquema corporal nos cursos da Sorbonne

Nos trabalhos posteriores à Fenomenologia da percepção, o problema da intersubjetividade adquire grande importância para Merleau- Ponty. É nesse panorama que o autor recorre à noção de esquema corporal. Essa mobilização conceitual ocorre em seus cursos da Sorbonne dedicados à psicologia da criança. Com efeito, nesse contexto ela recebe um tratamento que a eleva a um papel central na ontologia merleaupontiana.

A filosofia de Merleau-Ponty é um projeto de retorno à experiência em estado nascente, à experiência antes da sua objetivação tardia pela ciência e anterior às elaborações do intelectualismo filosófico. Tal experiência coincide com um fundamento na ordem transcendental da constituição, aquilo sem o que a ciência e filosofia não seriam possíveis. O fato é que, na obra do filósofo, essa anterioridade lógica aparece, frequentemente, sob o estatuto empírico de uma anterioridade cronológica, afirma Bimbenet (2002). A experiência infantil pode passar por essa experiência em estado nascente, anterior à capacidade humana de objetivála. Trata-se de uma experiência que realiza uma redução espontânea, um retorno fenomenológico ao passado do pensamento objetivo (Bimbenet, 2002). Nesse sentido, a disposição para considerar "o que falta à jovem criança para raciocinar como um adulto normal de cultura média" (Piaget, 1964, p. 89) vereda muitas vezes escolhida pela psicologia, implica abandonar a possibilidade de compreensão da gênese do ser para nós4. Merleau-Ponty, por sua vez, volta-se à psicologia infantil interessado na "maneira com que a criança antecipa a vida adulta" (Bimbenet, 2004, p. 288). Nasce daí uma "prefiguração original do conceito de carne" (p. 273) sustentada, em grande medida, pela noção de esquema corporal.

Em seu primeiro curso na Sorbonne, intitulado A consciência e a aquisição da linguagem, Merleau-Ponty (2001b) trata de justapor a percepção do comportamento de outrem e a percepção do corpo próprio enquanto esquema corporal numa única organização em que se dá a identificação entre mim e outrem. Essa temática percorre todos os cursos desenvolvidos entre 1949 e 1952, mas é naquele intitulado As relações com outrem na criança que ela é amplamente abordada. Nele, Merleau-Ponty (1997, 2001a) interessa-se particularmente pela gênese da percepção do outro. O autor se orienta por questões como as condições em que a criança passa a ser capaz de estabelecer contato com outrem, a natureza dessa relação e como ela é possível no estágio inicial da vida.

Segundo o filósofo, trata-se de problemas que representam um verdadeiro embaraço teórico para a psicologia clássica5, visto que os prejuízos que adota tornam a nossa relação com outrem teoricamente incompreensível. As ideias de psiquismo e de cenestesia levam o problema da percepção de outrem a ser concebido como um complexo sistema a quatro termos. O primeiro deles é meu próprio psiquismo, definido como âmbito de uma experiência íntima que é dada a cada indivíduo conhecer. O segundo termo é meu corpo enquanto invólucro do psiquismo. De fato, não se trata propriamente do meu corpo, mas da imagem que formo dele a partir de processos cenestésicos, a partir de uma "massa de sensações brutas" (Merleau-Ponty, 2001a, p. 310) que me transmitem informações acerca de meus diferentes órgãos e funções. O terceiro termo é o corpo de outrem tal como se apresenta para mim, seu corpo visual. O elemento que falta é o sentimento que outrem possui acerca de sua própria existência, termo que me é inacessível, porquanto o psiquismo do outro não pode ser acessado diretamente. Resta acessá-lo indiretamente por meio de suas manifestações corporais. Dada a relação entre minhas próprias expressões corporais e meu psiquismo, devo, pois, deduzir o conteúdo psíquico de outrem por meio de suas manifestações corporais. Tudo se passa como se fosse necessário interpretar o comportamento aparente e transferir a outrem a experiência íntima que tenho de meu corpo (Merleau-Ponty, 1997).

Em suma, toda essa operação pressupõe uma espécie de raciocínio por analogia incompatível com o fato de que a percepção de outrem é bastante precoce na vida de uma criança. Tal como já analisado na Fenomenologia da percepção, não é possível imaginar que a sensibilidade do bebê a aspectos fisionômicos tais como o sorriso do adulto passe por uma compreensão do sorriso tal como experimentado por meio de elementos interoceptivos pela própria criança. Ainda que ela contasse com imagens visuais do próprio sorriso, estaríamos pressupondo a realização de um esforço sintético que não é condizente com as possibilidades infantis.

O impasse teórico que cerca o problema da percepção de outrem pode ser solucionado desde que se abandonem os prejuízos da psicologia clássica. Isso implica a reforma das noções de psiquismo e de cenestesia em prol das noções de conduta e de esquema corporal, considera Merleau-Ponty (1997, 2001a). Essa reforma conceitual é operada pelo filósofo por meio da mobilização de aportes teóricos da psicologia, a partir de Paul Guillaume e Henri Wallon, e da filosofia, a partir de Edmund Husserl.

Deparamo-nos com outrem diretamente em sua conduta. Suas ações possuem um sentido cuja apreensão não depende de atos de intelecção, assevera Merleau-Ponty (2001a). Em Husserl (1931/2001), lêse que o cogito é um estado intencional e que as coisas não figuram nele como elementos reais, mas como sentido imanente a uma estrutura sintética passiva. Lê-se ainda que essa estrutura sintética compreende um horizonte intencional que engloba nossas possibilidades de ação, um "eu posso", proposição que Merleau-Ponty (2001b) interpreta como afirmação do eu enquanto sujeito motor e não como sujeito contemplativo6. Nesse sentido, Merleau-Ponty (1997, p. 176) atrela a ideia de intencionalidade à de conduta, e comenta:

Meu "psiquismo" não é uma série de "estados de consciência" rigorosamente fechados sobre eles mesmos e impenetráveis para todo "outro". Minha consciência é, antes, voltada para o mundo, voltada para as coisas, ela é antes de tudo relação com o mundo. A consciência de outrem, ela também, é, antes de tudo, uma certa maneira de se comportar a respeito do mundo. É, pois, em sua conduta, na maneira com que outrem trata o mundo que poderei encontrá-lo.

O filósofo depara-se com traços dessa concepção da intencionalidade nas análises de Guillaume (1926/1968) acerca da imitação na criança. Guillaume (1926/1968) julga as teorias clássicas sobre a imitação na infância pouco naturais. Segundo o autor, elas repousam sobre o postulado de que a imitação implica uma dupla tarefa de identificação por parte da criança, mesmo a bem pequena: ela deveria identificar previamente as partes do próprio corpo envolvidas na situação, bem como as atitudes e movimentos tanto do modelo quanto de si mesma. Guillaume (1926/ 1968) pergunta: ao invés de condição das primeiras imitações, não será essa identificação entre o corpo de outrem e o da criança a partir de seus aspectos cenestésicos e visuais um efeito delas? As observações realizadas pelo psicólogo mostram que crianças entre 3 e 15 meses de idade interessam-se pelo resultado dos atos humanos que presenciam. Aos 4 meses de idade, o filho de Guillaume, depois de olhar o pai tocar piano, leva suas mãos às teclas, buscando esses objetos "móveis, brilhantes e sonoros" (Guillaume, 1926/1968, p. 115). É o objeto e não os gestos da mão adulta que parecem chamar a sua atenção, afirma o psicólogo. O mesmo menino, aos 9 meses, após ver o pai escrever, pega o lápis na mão fechada e o bate contra o papel. Depois, ao perceber que a ponta do lápis está voltada para o alto, vira-o. Em seguida, deixa de bater com o instrumento e passa a traçar grandes rabiscos. Segundo Guillaume (1926/1968), nesse exemplo não está em jogo a relação entre a mão do modelo adulto e o lápis, nem a relação entre a ponta do lápis e o papel. A criança empenha- se em reproduzir o resultado observado, a ação do lápis sobre o papel, e não o movimento e a posição da mão do modelo. Depois de descrever outros vários exemplos, tais como a tentativa por parte da criança de matar uma mosca com um jornal dobrado ou de colocar uma chave na fechadura, o autor chama a atenção para o fato de que os modos empregados por ela, os movimentos que realiza, diferem dos empregados pelo modelo, o que reafirma que seu foco é o resultado da ação. "Ainda não é o ato enquanto conjunto de movimentos que é imitado, são os efeitos, únicos elementos sensíveis, comuns ao modelo e à cópia", afirma Guillaume (1926/1968, p. 118).

Aos olhos de Merleau-Ponty (2001a), a inversão teórica praticada por Guillaume é uma ideia "profunda e fecunda" (p. 32). Ela estabelece o papel essencial de um terceiro termo entre outrem e a criança: o mundo exterior, os objetos aos quais se dirigem tanto as ações de outrem como as dela. O filósofo comenta:

inicialmente não temos consciência do nosso corpo, mas das coisas: há uma quase-ignorância das modalidades de ação, mas o corpo move-se em direção às coisas. A imitação não se compreende senão como encontro de duas ações em torno do mesmo objeto: imitar não é fazer como outrem, mas chegar ao mesmo resultado. (Merleau-Ponty, 2001a, p. 32)

Isso equivale a dizer que a criança não dispõe de seu corpo enquanto aglomerado de sensações duplicadas em imagens topográficas, posturais e motoras, mas como um "meio sistemático de ir aos objetos" (Merleau- Ponty, 2001a, p. 33).

Com efeito, a noção de conduta, que substitui a de psiquismo, pressupõe uma reforma da noção de corpo, o que interessa sobremaneira à Merleau-Ponty. O filósofo escreve:

Se meu corpo deve poder retomar por sua conta as condutas que me são dadas como espetáculo, é preciso que ele me seja dado, não mais como uma massa de sensações rigorosamente privadas, mas sobretudo pelo que se chama um "esquema postural", ou "esquema corporal". (Merleau-Ponty, 1997, p. 177)

Entre os diversos autores que se dedicaram à noção de esquema corporal e que foram retomados em algum momento por Merleau-Ponty ao longo da sua obra, entre eles Head, Lhermitte e Schilder, no tocante às relações com outrem na infância é Wallon que recebe toda a atenção. Merleau-Ponty (1997, 2001a) apega-se à crítica do psicólogo ao conceito de cenestesia e às suas descrições a respeito do progresso da abertura do corpo próprio ao mundo, bem como das reações da criança diante da percepção do seu próprio corpo.

Ao abordarmos a percepção de outrem segundo uma concepção clássica, vimos, a partir de Merleau-Ponty (1997, 2001a), que a percepção de nosso corpo seria devida a uma "cenestesia estritamente individual" (Merleau-Ponty, 1997, p. 178). Para Wallon (1949/2009), a ideia de cenestesia vale-se de prejuízos sensualistas que introduzem ilusoriamente a consideração do organismo em problemas de psicologia. A partir de elementos sensíveis brutos advindos de todas as partes do nosso corpo, alcançaríamos um sentido íntimo do corpo, algo como uma área especializada da consciência e que se poderia acessar a partir da introspecção. Essa noção, afirma Wallon (1949/2009), é estranha aos estudos sobre a sensibilidade intero e proprioceptiva e sobre as relações entre a sensibilidade e os estados afetivos. Ao invés de alterações cenestésicas, manifestações patológicas como escutar vozes partindo do próprio ventre, negar a própria corporeidade ou se automutilar revelam ao autor a dissolução de um conjunto coerente e coordenado que sustenta nossa possibilidade de distinguir nossas metas exteriores e nosso ser íntimo, o caráter ativo e passivo de nossas atividades, o eu e o outro. Esse sistema possui uma história, que passa fundamentalmente pela delimitação e organização da noção de corpo próprio, caso particular do processo geral da psicogênese, segundo Wallon (1949/2009).

Acompanhando os estudos desse autor acerca da individualização do corpo próprio, Merleau-Ponty (1997, 2001a) vislumbra a possibilidade de aprofundar-se na investigação da relação entre o esquema corporal e a percepção de outrem e do mundo. Se o sistema formado por esses três termos pode ser nublado pelo advento do pensamento objetivo e pelo seu exercício em análises filosóficas e científicas, por outro lado sua estrutura fenomenal não é rompida jamais.

 

A gênese do esquema corporal

A leitura que Merleau-Ponty faz acerca das teorias de Wallon sobre a individualização do corpo próprio o leva a afirmar que a constituição de um esquema corporal, a aquisição de uma experiência mais organizada do próprio corpo resulta no fato de que essa experiência pode ser transferida a outrem ou, dito de outra forma, que a imagem de outrem pode ser "imediatamente 'interpretada' por meu esquema corporal" (Merleau-Ponty, 2001a, p. 311).

De acordo com Wallon (1949/2009), as sensibilidades interoceptivas e proprioceptivas que caracterizam a atividade da criança recém-nascida já devem ser tratadas como um sistema sinérgico, na medida em que são responsáveis pela unidade orgânica do bebê. Esse sistema progride na direção de relações paulatinamente mais precisas no que concerne às excitações exteriores. Nesse sentido, a condição indispensável para o desenvolvimento do eu corporal não é a intuição coordenada dos órgãos e da sua atividade, mas a ligação entre a atividade voltada para o mundo e aquela relacionada às necessidades e atitudes do corpo.

O domínio interoceptivo é aquele da sensibilidade visceral, notadamente a ligada ao tubo digestivo e à respiração. Diante da falta de atividade sinérgica relacionada aos órgãos da visão e da audição – até o sétimo dia de vida, por exemplo, não há conjugação entre os globos oculares e os movimentos da cabeça – são os órgãos interoceptivos que servem como órgãos exteroceptivos. Merleau-Ponty (1997), apegando-se aos dados oferecidos por Wallon, fala em "corpo bucal" e em "corpo respiratório" (p. 183) para referir-se às atividades da boca e da respiração enquanto fonte de uma relativa experiência de espaço na criança.

O domínio proprioceptivo compreende as sensações relacionadas ao equilíbrio e ao movimento. Elas evidenciam uma solidariedade intersegmentária do organismo de modo que o deslocamento de uma parte do corpo provoca em outras partes movimentos que mantêm o equilíbrio geral e colaboram para a realização de uma determinada ação. Wallon cita como exemplo os reflexos cervicais do bebê. Se giramos sua cabeça, observamos posicionamentos característicos dos membros superiores e inferiores que se invertem caso a cabeça do bebê seja movida para o lado inverso. Reflexos como esse são absorvidos por sistemas de reações que se orientam progressivamente para o meio ambiente, apropriando-se cada vez melhor das excitações externas, afirma Wallon.

No tocante às funções de equilíbrio e de movimentação que se estruturam pouco a pouco ao longo dos primeiros meses de vida, Merleau- Ponty (1997) observa sua importante relação com a percepção. Segundo o filósofo, motricidade e percepção são dois aspectos de uma única totalidade, a percepção do mundo e a do corpo próprio formam um sistema. No entanto, se Merleau-Ponty (1997) sublinha "o poder que tem a percepção de organizar uma conduta motora" (p. 216), é importante salientar que essa totalidade funda-se na constituição de um esquema corporal, na aquisição de uma "experiência melhor organizada" (p. 178) do corpo próprio. Ou seja, o sistema formado entre a percepção e a motricidade, assim como o sistema formado entre a percepção do corpo próprio e a percepção de outrem, é "um sistema que se desenvolve no tempo" (Merleau-Ponty, 2001, p. 312). A percepção do corpo próprio, ou seria melhor dizer, a organização da experiência do corpo próprio no mundo, o que Merleau-Ponty (1997, 2001a) designa como esquema corporal, precede a percepção do outro e a percepção do mundo.

A sensibilidade exteroceptiva, aquela voltada às excitações de origem externa, inicialmente apenas suscita efeitos sem relação com o mundo exterior ou com a vida da relação, diz Wallon (1949/2009). Referindo- se às reações táteis da criança em suas primeiras semanas de vida, Wallon (1949/2009) afirma: "As reações consecutivas a um contato não são orientadas; elas propagam-se de forma difusa em estremecimentos e em gestos sem objeto, ao invés de se localizar e de se ordenar em resposta apropriada" (p. 201). O mesmo é válido com relação às respostas à luz e aos sons. Essa forma de sensibilidade é denominada pelo autor como afetiva.

A partir do segundo mês de vida, a motilidade de tipo afetivo dá espaço, progressivamente, a uma atividade de aspecto sensório-motor. Algumas sinergias sensoriais são constituídas, como evidencia o desaparecimento do estrabismo da criança, e o bebê adota uma atitude mais atenta em relação às impressões exteriores. Malgrado a intermitência desse esforço, nota-se uma atividade mais discriminadora face àquelas excitações. O bebê volta seus olhos várias vezes em direção a fontes luminosas, segue o movimento de objetos e tateia na direção deles. Essas reações orientadas apenas retrocedem a formas orgânicas, ou afetivas, no caso de excitações violentas. Além disso, essa coesão sensório-motora ainda é bastante precária em função da falta de equilíbrio corporal. Wallon (1949/2009) afirma: "É ainda o estágio em que uma dificuldade de equilíbrio abole a percepção" (p. 202).

Essa afirmação é o ensejo para que Merleau-Ponty (1997, 2001a) mencione o fato, destacado por Wallon (1949/2009), de que a integração funcional entre as sensibilidades interoceptivas, proprioceptivas e exteroceptivas depende fundamentalmente do processo de mielinização das fibras nervosas de algumas partes específicas do sistema cérebro-espinhal. Essa integração não se mostra efetiva antes do terceiro mês de vida, sendo que o processo de mielinização das células nervosas completa-se por volta do décimo segundo mês (Wallon, 1949/2009). O que interessa a Merleau-Ponty destacar é que, enquanto não se dá essa união entre o externo e o interno, a percepção, propriamente dita, não é possível. Ela depende do equilíbrio do corpo, das sinergias sensoriais, na falta do que, afirma o filósofo, "Não há ainda esquema corporal total" (Merleau-Ponty, 2001a, p. 313).

O desenvolvimento das sinergias intersensoriais ligadas ao desenvolvimento da exteroceptividade inaugura as reações da criança face ao seu próprio corpo. Entre o terceiro e o sexto mês de vida, a criança parece surpreender-se com o surgimento fortuito de seus membros, principalmente suas mãos, em seu campo perceptivo, observa Wallon (1949/2009). Guillaume (1926/1968, citado por Wallon, 1949/2009) descreve o fato de que, ao final do seu quarto mês, uma criança, no instante de pegar um objeto, detém-se diante de sua mão e a desloca à altura de seus olhos. Noutra descrição, dessa vez atribuída a Preyer, Wallon (1949/2009) comenta que, com dezoito semanas, a partir do ato de preensão, são seus dedos que a criança contempla, sendo tomada pelas sensações proprioceptivas e visuais ligadas ao acontecimento. E na vigésima terceira semana, portanto em torno do fim do quinto mês de vida, caso o bebê, em meio a movimentos sem meta determinada, pegue uma de suas mãos com a outra, "ele olha a primeira com surpresa, a mão inerte retendo sobremaneira sua atenção porque, sem dúvida, nela a sequência de sensações é menos prevista do que na mão ativa", comenta Wallon (1949/2009, p. 210). Na vigésima quarta semana, a criança atém-se durante vários minutos a uma luva e aos seus dedos que a seguram, "indicando, faz crer a sua perplexidade, a diferenciação que se faz entre aquilo que pode ser a sede de sensações e aquilo que não o é", afirma o psicólogo (Wallon, 1949/2009, p. 210).

Quando, pois, as ações da criança revelam uma certa unidade corporal que coincide com seu desenvolvimento exteroceptivo, tem início um trabalho de ajustamento, no que tange ao próprio corpo, da percepção externa e da sensibilidade proprioceptiva. O corpo passa a ser experimentado segundo uma espécie de desdobramento bem antes que suas partes sejam individualizadas e passem a fazer parte de uma "personalidade física" (Wallon, 1949/2009, p. 214) unificada. Wallon (1949/2009) comenta:

A criança sabe sentir-se ao mesmo tempo presente em sua impressão visual e no membro em movimento, donde a possibilidade e necessidade para ela de decifrar como as duas sensibilidades se correspondem.... O que lhe surpreende, se ela pega uma [mão] com a outra, não é nem sua dualidade nem sua semelhança, cujas impressões visuais e motoras lhe dariam uma intuição bem mais decisiva. São os efeitos do contato, dupla e diferentemente sentidos nas duas mãos, e são as correspondências que ele descobre entre estes efeitos. (p. 211)

Conhece-se a importância que Merleau-Ponty atribui à experiência do tocante-tocado, que sinaliza para a dimensão polissêmica do caráter sensível do corpo. Nosso corpo é "sentiente sensível", dirá o filósofo em O Visível e o Invisível (Merleau-Ponty, 1964/2006, p. 177), fato chave para compreendermos a ligação primordial entre a nossa exploração do mundo e aquilo que ela nos apresenta, o pacto entre nós e as coisas, núcleo do conceito de carne. Nosso corpo não é simplesmente um ente que se sente de dentro; ele é acessível de fora. É o que se evidencia na experiência de tocar uma mão com a outra. A mão que se sente, nos termos da proprioceptividade, é também tangível. Merleau-Ponty (1964/2006, p. 174) afirma que a mão "toma lugar entre as coisas que ela toca, é em certo sentido uma delas, abre-se, enfim, para um ser tangível do qual ela também faz parte", o que implica uma incorporação do corpo pelo universo interrogado no cruzamento do tocante e do tangível. A própria ontogênese do corpo, escreve o autor, liga-o diretamente às coisas, soldando "a massa sensível que ele é e a massa do sensível de onde ele nasce por segregação" (Merleau-Ponty, 1964/2006, p. 177), e à qual, enquanto vidente e tocante, ele permanece aberto.

De volta aos cursos da Sorbonne (Merleau-Ponty, 1997, 2001a, 2001c), nota-se a aproximação entre a mobilização da noção de esquema corporal e a concepção mais tardia de carne, do corpo sentiente sensível. Se no início da vida não há um "esquema corporal total", tampouco se pode dizer que a atividade sensório-motora da criança consiste em "experiências múltiplas e desconexas" (Merleau-Ponty, 2001c, p. 189). Desde o início o que há são estruturas globais, ainda que muito pobres, e que se diferenciam progressivamente. Essa estruturação cada vez mais fina corresponde à própria integração do esquema corporal, tomado enquanto acontecimento unitário de conjugação de todos os dados sensoriais e que engloba, essencialmente, a situação do corpo no espaço, no mundo.

Cumpre somente salientar que a orientação arqueológica, cuja tematização do corpo próprio a partir da psicologia da criança denota, leva Merleau-Ponty a aprofundar o que fora dito na Fenomenologia da Percepção acerca do sistema prático formado entre o espaço corporal e o espaço exterior. Naquele livro, sob a égide teórica de uma intencionalidade motora, o filósofo escreve:

No gesto da mão que se levanta em direção a um objeto está incluída uma referência ao objeto não como objeto representado, mas como essa coisa bastante determinada para a qual nos projetamos, junto da qual estamos por antecipação, que nós frequentamos. (Merleau-Ponty, 1945, pp. 160-161)

Tratava-se, pois, de tematizar uma ligação originária com o mundo anterior à ordem da representação e que uniria a coesão do mundo percebido à coesão do corpo fenomenal, à coesão do esquema corporal.

Já nos cursos sobre a psicologia da criança, a progressiva integração do esquema corporal implica a aquisição gradual do seu caráter de visibilidade, o que representa uma nova dimensão de espacialidade. A propósito das experiências da criança diante de seu próprio corpo, Merleau-Ponty (1997) comenta: "Todas essas experiências visam familiarizar a criança com a correspondência que existe entre a mão que toca e a mão que é tocada, entre o corpo tal como é visível e o corpo tal como é sentido pela interoceptividade" (p. 185). Daí a importância que Merleau- Ponty empresta às primeiras vivências da criança face à sua imagem especular.

 

O estádio do espelho

No que se refere ao desenvolvimento de uma experiência mais organizada do próprio corpo, ao desenvolvimento de um "esquema corporal total", Merleau-Ponty (1997, 2001a) destaca o papel central da aquisição, por parte da criança, de uma imagem visual do corpo próprio, o que se viabiliza graças à percepção de sua imagem no espelho. Mais uma vez, Merleau-Ponty fundamenta-se no trabalho de Wallon (1949/2009), que se propõe a compreender como a criança torna-se capaz de reconhecer seu aspecto exteroceptivo justamente como "seu", aspecto esse que "o espelho traduz-lhe da maneira mais completa e mais evidente" (Wallon, 1949/2009, p. 218).

Wallon (1949/2009) começa por considerar as reações das crianças diante da imagem especular de outrem, itinerário seguido por Merleau- Ponty (1997, 2001a) em suas próprias considerações sobre o tema. Isso porque a criança demonstra mais facilidade para distinguir a imagem especular de outrem e a realidade do corpo de outrem do que para distinguir os fatos relativos ao seu próprio corpo.

Segundo Wallon (1949/2009), apenas a partir do quarto mês a criança passa a demonstrar algum interesse nas imagens refletidas num espelho. Ela atém-se a elas, sorri diante delas, agita-se em regozijo. Mas é somente a partir do sexto mês que reações mais significativas diante da imagem refletida aparecem. Uma criança de seis meses de idade sorri diante de sua própria imagem e da do pai refletidas. Ela, porém, vira-se surpresa quando escuta o pai falar atrás dela. Outras observações evidenciam que as crianças voltam-se para a pessoa cuja imagem encontrase refletida no espelho mesmo que a pessoa não tenha emitido nenhum estímulo auditivo. Mas essa experiência ainda é intermitente. Após terem estabelecido essa relação entre a imagem e a pessoa, as crianças ainda podem ser vistas buscando pegar sua própria imagem com a mão ou tentando examinar a parte posterior do espelho. Por certo o fato de a criança voltar-se para o objeto da imagem evidencia que ela aprendeu alguma coisa. Merleau-Ponty (1997) concorda com Wallon (1949/2009) quando esse se nega a atribuir a nova conduta da criança diante do espelho à associação de reações antes apartadas, a um simples condicionamento. Wallon (1949/2009, p. 224) vê na verificação da relação entre objeto e imagem um "ato de conhecimento", a resolução de uma dificuldade. Esse ato é, contudo, caracterizado segundo o que se espera da criança futuramente. Ele adquire, portanto, uma conotação negativa. Diante da instabilidade da criança, identifica-se "o que faz falta" (Wallon, 1949/2009, p. 226) a ela: a capacidade de identificar a representação das coisas, o exercício da função simbólica. Esse não é o sentido que será privilegiado por Merleau-Ponty.

Passemos à consideração da aquisição por parte da criança da imagem especular de seu próprio corpo. Por volta do oitavo mês de vida podese notar a surpresa que a criança demonstra cada vez que encontra sua imagem no espelho. Atribuindo-lhe realidade, ela tenta pegá-la e espanta- se com a dureza do espelho. Por outro lado, chamado o seu nome, pode ocorrer que ela se volte para a imagem especular (Merleau-Ponty, 1997, 2001a; Wallon, 1949/2009). Na perspectiva da criança, esse tipo de experiência encerra um problema maior do que o anterior, aquele de justapor a imagem do pai a sua presença carnal. Agora trata-se de unir a visão direta, porém fragmentada, de seu próprio corpo, sua sensibilidade interoceptiva e proprioceptiva, e a imagem visual de seu corpo no espelho, de modo a dar-se conta de que a imagem não é ela mesma, posto que ela se encontra onde ela se sente (Wallon, 1949/2009; Merleau-Ponty, 1997, 2001a).

Segundo Wallon (1949/2009), nessa situação está em jogo a aquisição por parte da criança de uma representação simbólica de seu próprio corpo. É necessário que se opere uma dissociação entre a experiência imediata e a representação das coisas, entre as impressões e ações implicadas em algo, no caso o corpo próprio, e suas qualidades mais próprias. Wallon (1949/2009) escreve: "Não há representação possível senão a este preço. Aquela do corpo próprio, na medida em que existe, deve necessariamente responder a esta condição. Ela apenas pode formar-se exteriorizando- se" (p. 228). Daí a dupla tarefa que se impõe à criança: compreender que há imagens que apenas possuem a aparência de realidade ao mesmo tempo em que há imagens reais que se furtam à percepção, "imagens sensíveis, mas não reais; imagens reais, mas subtraídas ao conhecimento sensorial" (p. 230). Para Wallon, é o que se observa no caso de uma criança de um ano de idade que, ao passar diante do espelho, dirige sua mão à boina que lhe cobre a cabeça. O autor comenta acerca do exemplo:

A imagem no espelho não mais possui existência por ela mesma; ela é imediatamente reportada pela criança sobre seu eu proprioceptivo e tátil; ela não é mais que um sistema de referências, apto a orientar os gestos para as particularidades do corpo próprio do qual ela dá indicação. Ao esvaziar-se de existência, ela tornou-se puramente simbólica. (Wallon, 1949/2009, p. 231)

Merleau-Ponty (1997, 2001a) não se satisfaz com essas análises, que, em última instância, atrelam o progresso do esquema corporal ao progresso de uma função simbólica. Segundo o filósofo, Wallon vai mais longe quando sugere a unidade entre o nosso corpo e o de outrem. Além disso, no que concerne à imagem especular, a interpretação de Wallon pode ser complementada por aportes teóricos da psicanálise.

Merleau-Ponty (1997, 2001a) atenta-se ao fato apresentado por Wallon (1949/2009) de que a conquista da significação simbólica da imagem especular por parte da criança mescla-se a manifestações animistas diante do reflexo. As crianças divertem-se com suas imagens como se estivessem diante de outras existências, diante de companheiros na brincadeira. Elas batem e lambem a imagem, abraçam-na antes de dormir, atribuem-lhe um personagem qualquer. Merleau-Ponty (1997) pergunta: "Por que seria tão divertido verificar, por assim dizer, a aparência animista se não restasse no sujeito traços desse fenômeno espantoso que em um primeiro momento fascinava a criança, a saber, a presença de uma quaseintenção em um reflexo?" (p. 197). Com efeito, esses traços não se apagarão jamais, sustenta Merleau-Ponty. Pode-se afirmar que chegamos todos a constituir uma "física ingênua" (Merleau-Ponty, 1997, p. 196) segundo a qual relações de causalidade explicam a possibilidade do reflexo. É também verdade, contudo, que para um adulto a consideração analítica da imagem, que a apresenta como aparência que não deve ser confundida com a própria presença, convive com outra forma de concebê-la. Nas palavras de Merleau-Ponty (1997), uma forma "global, direta, tal como nós a exercemos na vida corrente quando não refletimos, e que nos dá a imagem do espelho como qualquer coisa que solicita a crença" (p. 197, itálicos do autor). Na experiência direta e não refletida, a imagem do espelho, assim como o quadro de algum personagem ou a fotografia de alguém, é "misteriosamente habitada" (p. 197) por aquele que nela se reflete. De outra forma, a destruição dessas representações não teria qualquer conotação agressiva.

O fato é que, para Merleau-Ponty, as manifestações de animismo por parte da criança diante do espelho mostram que o seu progresso em relação ao sentido da imagem especular implica uma "reestruturação" dessa experiência. Com isso, o filósofo deseja indicar que o distanciamento que a criança conquista em relação à sua imagem não revela um fenômeno intelectual stricto sensu, que "essa distância não é aquela do conceito" (Merleau-Ponty, 1997, p. 198). Se o fosse, como "verdadeira intelecção", a imagem seria simplesmente compreendida ou não.

Há solidariedade entre o desenvolvimento da imagem especular, da imagem global do corpo, e o desenvolvimento das relações com outrem (Merleau-Ponty, 2001d). No que concerne à percepção de outrem, Merleau-Ponty (1997, 2001a) vislumbra no trabalho do próprio Wallon (1949/2009) indicações de que o desenvolvimento global da criança envolve algo mais profundo do que a conquista da objetividade.

Segundo Wallon (1949/2009), a entrada no segundo semestre de vida é acompanhada de um aumento fulgurante na sensibilidade social da criança. O autor fala em sociabilidade incontinente para expressar esse interesse irrefreável da criança por outrem. Entre os seis meses de idade e o terceiro ano de vida, essa sociabilidade é marcada pela confusão entre o eu e o outro. No que concerne ao contato entre as próprias crianças, Wallon (1949/2009) fala em sociabilidade sincrética. Essa se caracteriza pela perda da autonomia dos envolvidos no encontro em prol dos papéis atribuídos pela estrutura da situação da qual participam. Por exemplo: se uma criança possui um chocalho, uma outra, não podendo tê-lo, segue atentamente o jogo da primeira, satisfazendo-se numa espécie de indivisão entre espectador e executor.

Wallon (1949/2009) trata ainda do ciúme e da simpatia, manifestações por parte da criança que anunciam o momento da individualização, mas que se alimentam ainda de uma "indiferenciação relativa" (p. 257) entre o eu e o outro. Acerca do ciúme na perspectiva de Wallon, Merleau- Ponty (1997) afirma:

O ciúme representa na criança um estágio em que ela participa de uma situação afetiva e prova a vida complementar à sua sem ainda saber isolar ou afirmar a sua, de sorte que ela se deixa dominar interiormente por aquela que a despoja. (p. 213)

No tocante à simpatia, interessa-nos destacar, sobretudo, aquilo sem o que ela não se torna possível: o mimetismo afetivo. Wallon (1949/2009) comenta que a criança percebe os outros nela mesma e ela mesma nos outros por meio de uma função postural plástica que responde à situação vivida. O autor escreve: "A mímica é apenas a função postural apropriada às necessidades da expressão, às necessidades das relações afetivas entre indivíduos" (p. 266). Daí a menção a uma espécie de "impregnação postural" (p. 267), fonte da possibilidade da criança de incorporar a fisionomia das coisas, e a atitude de animais e de outrem.

Ao tratar da percepção de outrem a partir da psicologia do seu tempo, da qual Wallon era representante, Merleau-Ponty (1997) pode, enfim, abordar um sistema composto apenas por dois termos: nosso comportamento e o de outrem que funcionam como um todo. O filósofo expressase da seguinte maneira:

À medida que vou elaborar, constituir meu esquema corporal, à medida que vou adquirir de meu próprio corpo uma experiência melhor organizada, nessa medida mesmo a consciência que possuo do meu corpo cessará de ser um caos onde eu estaria encravado e prestar-se-á a uma transferência em outrem. E, como ao mesmo tempo, outrem, que se tratava de perceber, não é mais um psiquismo fechado sobre si, mas uma conduta, um comportamento em relação com o mundo, ele se oferece por ele mesmo à apreciação de minhas intenções motoras e a esta "transgressão intencional" (Husserl) pela qual o animo e me transporto nele. (Merleau-Ponty, 1997, p. 178)

A menção a Husserl é significativa. O autor afirma que "o ego e o alter-ego são sempre necessariamente dados em um acoplamento original" (Husserl, 1931/2001, pp. 182-183, itálicos do autor). Segundo Husserl, a configuração de acoplamento é dada expressa e intuitivamente na unidade de uma consciência. Além disso, desde que são dados à consciência conjunta e distintamente ao mesmo tempo, os elementos do acoplamento revelam uma espécie de "transgressão intencional" (Husserl, 1931/2001, p. 184), responsável pela sua apreensão mútua conforme o sentido um do outro. O que merece destaque é que, de acordo com Husserl (1931/ 2001), o elemento central na percepção do outro é o corpo, o meu e o de outrem, enquanto estrutura que clama pelo fenômeno de acoplamento. Para Merleau-Ponty (2001b), a análise de Husserl acerca da percepção de outrem possui o mérito de concebê-la como operação vital e não como operação lógica. O comportamento de outrem presta-se a minhas próprias intenções, esboça condutas que possuem sentido para mim, de modo que sou capaz de assumi-lo.

Ademais, de acordo com Merleau-Ponty (1997), a percepção de outrem apenas é compreensível a partir do que se revela na psicogênese: um estado primordial em que o eu e outrem não se sabem diferentes. A objetivação do corpo próprio e a distinção entre os indivíduos são aquisições tardias e frágeis. Com efeito, diz Merleau-Ponty (1997), o processo que vai da precomunicação, do sincretismo social, à objetivação do corpo e da personalidade não é finalizado jamais. Caso contrário, o amor adulto não seria possível. "Amar é inevitavelmente entrar numa situação indivisa com outrem", escreve o filósofo (Merleau-Ponty, 1997, p. 228).

Voltemos à questão da experiência do próprio corpo por parte da criança. Afirmávamos, acompanhando Merleau-Ponty, que Wallon vai mais longe em sua análise da unidade que se forma entre a criança e outrem do que na análise das experiências da criança diante de sua imagem especular. Considerando-se que nosso corpo visual, nosso corpo interoceptivo e outrem formam um sistema, é de se presumir que a "identificação global" (Merleau-Ponty, 1997, p. 201) que se observa no que concerne à criança com outrem possa ser observada no que diz respeito à criança em relação à sua imagem visual. Merleau-Ponty (1997, 2001a) nos mostra que Wallon atém-se à redução operada pela criança em relação à quaserealidade da imagem especular. As análises do psicólogo parecem aproximar a aquisição dessa imagem a um trabalho de conhecimento, uma síntese entre percepções visuais e percepções interoceptivas (Merleau- Ponty, 1997). Mas a criança continua interessando-se por sua imagem refletida no espelho. Resta saber por que sua imagem visual é tão divertida. Mais ainda: o que significa compreendermos que possuímos uma imagem visível?

Para Merleau-Ponty (1997, 2001a), a psicanálise avança nesses problemas, e é à psicanálise de Lacan que o filósofo se refere, particularmente ao artigo intitulado "O estádio do espelho como formador da função do Eu". Nele, Lacan (1966a) afirma que sua concepção acerca do estádio do espelho encontra-se nos antípodas das filosofias do Cogito. O júbilo da criança diante da experiência lúdica da relação entre o complexo virtual da imagem e a realidade de seus movimentos próprios revela um processo de identificação, no sentido que a análise psicanalítica é capaz de mostrar. Nas palavras de Lacan (1966a, p. 94), denomina-se identificação "a transformação produzida no sujeito, quando ele assume uma imagem". Segundo o psicanalista, se considerarmos a ocorrência de tal processo na criança quando ainda se encontra num estado de descontrole motor e de dependência nutricional, é lícito atribuir a ele o valor de manifestação de uma "matriz simbólica", uma forma primordial do eu anterior à objetivação implicada na identificação com outrem e à função de sujeito que emerge através da linguagem. Essa forma, Lacan (1966a) a denomina como "eu-ideal", responsável por situar a instância do eu numa "linha de ficção" (Lacan, 1966a, p. 94) irredutível. Essa imago corporal "simboliza a permanência mental do eu ao mesmo tempo que prefigura seu destino alienante", afirma Lacan (1966a, p. 95). Em outro trecho, o autor escreve: "a imagem especular parece ser o limiar do mundo visível" (p. 95).

Lacan põe no centro da sua teoria acerca do estádio do espelho uma "estrutura de desconhecimento" (Dorfman, 2007, p. 153) que desafia o problema da diferença entre a normalidade e a patologia, doravante unidas em um tecido imaginário. A dependência de uma condição à outra revela-se no tratamento dado ao conceito de imago. Pode-se falar de um "entrelaçamento de desconhecimento e reconhecimento" (p. 153) na teoria lacaniana do sujeito, na medida em que a loucura, por exemplo, é definida no interior da própria dialética do ser. No artigo intitulado Formulações sobre a causalidade psíquica, Lacan (1966b) afirma:

o risco da loucura se mede em relação à própria atração das identificações em que o homem engaja de uma só vez sua verdade e seu ser. Assim, longe da loucura ser o fato contingente de fragilidades de seu organismo, ela é a virtualidade permanente de uma falha aberta em sua essência. (p. 176)

A criança bem pequena, ainda dominada pela descoordenação motora, já é capaz de reconhecer a forma humana, num quadro de antecipação funcional garantido pela maturação precoce da percepção visual (Lacan, 1966b). Essa é a condição para a "captação identificadora pela imago" (Lacan, 1966b, p. 185), "contribuição decisiva que vai constituir no homem este nó imaginário absolutamente essencial" (p. 186). O nó imaginário a que se refere Lacan consiste no fato de que, na constituição fundamental do sujeito, instala-se a imago, a imagem especular. O esboço de unidade do eu revela-se na alienação pela imagem. Em outras palavras, a identidade vem de fora, de uma relação que, em última instância, é relação com o outro (Ogilvie, 1987/2005; Sales, 2005). Daí a seguinte afirmação de Dorfman (2007):

na base do sujeito encontra-se esta imago, como uma coisa que não é para ele, que não é ele, que é outro, e à qual ele, no entanto, havia se identificado, de sorte que ele não pode mais se reconhecer sem (se) desconhecer. (p. 155)

Merleau-Ponty (1997, 2001a) encontra nas reflexões lacanianas acerca das experiências da criança diante de sua imagem especular "relações de ser com o mundo, com outrem" (Merleau-Ponty, 1997, p. 204, itálicos do autor) e não apenas relações de conhecimento. A compreensão da imagem no espelho envolve um autorreconhecimento, uma apropriação de uma imagem visual que eleva a criança à possibilidade de experimentar- se como "espetáculo" (Merleau-Ponty, 1997, p. 202) de si mesma. A realidade do corpo próprio, até então confusa, adquire uma nova visibilidade, mais completa, e que implica uma reestruturação da presença no mundo. Merleau-Ponty (1997, 2001a), a partir de sua leitura de Lacan, fala na passagem de um estado de personalidade marcado por um conjunto de pulsões sentidas confusamente a um estado marcado pela imagem ideal de si mesmo, um super-eu, instância responsável por uma nova função, a função narcísica. Remetendo-se à menção de Lacan (1966a, p. 98) à "função alienante do eu", Merleau-Ponty (1997) comenta a alienação envolvida em deixar de ser aquilo que se sentia ser de modo imediato para passar a ser a imagem oferecida pelo espelho. O filósofo escreve:

De repente deixo a realidade de meu eu vivido para me referir constantemente a esse eu ideal, fictício ou imaginário, cuja imagem especular é o primeiro esboço. Nesse sentido sou arrancado de mim mesmo, e a imagem do espelho me prepara para uma outra alienação ainda mais grave, que será a alienação por outrem. (Merleau-Ponty, 1997, p. 203)

De fato, Lacan (1966a) refere-se ao estádio do espelho como "um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência à antecipação" (p. 97, itálicos do autor), isso no quadro da "prematuração" (p. 96) que caracteriza a criança pequena. O fim do estádio do espelho coincide com a identificação em relação à imago de outrem, identificação observada, por exemplo, nos fatos do transitivismo infantil. Inaugura-se, portanto, a dialética que une o eu a situações sociais (Lacan, 1966a). Em vista disso, Merleau-Ponty (1997) sublinha o conflito entre o eu sentido e o eu visto pela própria criança ou pelos outros. A sensibilidade "prematura" da criança ao seu eu visual e a outrem é uma evidência, para o filósofo, de que a imagem especular e sua função desrealizante podem se constituir como ocasião inaugural para a manifestação da agressividade em relação a outrem.

O que cabe ressaltar é que a imagem especular possui um importante papel na aquisição de uma experiência mais organizada do próprio corpo pela criança. Ela implica a passagem do estado de dispersão do corpo à recuperação do corpo próprio (Merleau-Ponty, 2001e), em outras palavras, uma "reestruturação do esquema corporal" (Merleau-Ponty, 2001d, p. 527), entendido como sistema que une a percepção do corpo próprio, a percepção de um comportamento, ou seja, de outrem, e a percepção de um mundo. Cabe salientar, sobretudo, que essa reestruturação do esquema corporal implica a aquisição de um novo sentido de espacialidade. O corpo que se retira do êxtase de um estado puramente vivido é o corpo que adquire visibilidade. Merleau-Ponty (2001d), ao referirse à importância da imagem especular, atesta: "O corpo é colocado sob a jurisdição do visível" (p. 527). Nesses termos, é o próprio espaço que adquire um efeito desrealizante, conforme afirmação de Lacan (1966a). A conquista de um esquema corporal total requer que sejamos atirados no centro do mundo, no centro do olhar de outrem e no centro de um eu imaginário, de modo que se instaura a ambiguidade da dialética entre real e imaginário, deveras explorada pela psicanálise. Nesse sentido, o corpo enquanto "sentiente sensível" não representa apenas a incorporação do visível ao vidente, mas a incorporação do vidente ao visível, dirá Merleau-Ponty (1964/2006).

 

Considerações finais

Alicerçado na ideia de que a "infância jamais é radicalmente liquidada" (Merleau-Ponty, 1997, p. 206), de que nossa condição corporal sempre implicará uma precomunicação com nós mesmos, com o outro e com o mundo, Merleau-Ponty, em seus cursos da Sorbonne, lança-se em uma investigação histórica do corpo próprio que será continuada anos depois em seus estudos do corpo humano à luz da animalidade (Merleau- Ponty, 1968/1988; 1994). Com base em seus últimos escritos, vislumbramos nessas pesquisas uma verdadeira arqueologia da carne, de modo que os estudos sobre a psicologia da infância encontram-se perfeitamente integrados à sua empreitada filosófica. Estamos de acordo com Saint Aubert (2008a) quando afirma que frequentemente se subestima a importância que Merleau-Ponty confere à psicologia da criança. Com efeito, o período em que lecionou na Sorbonne, entre 1949 e 1952, em cadeira que após sua saída fora ocupada por Piaget, não pode ser considerado um parêntese, uma exceção na carreira do filósofo.

A partir das pesquisas que realizou em torno da psicologia da criança, Merleau-Ponty compreende que a aquisição de um esquema corporal uno, "total", implica um descentramento de si, de modo que o corpo próprio, o de outrem e o mundo possam se entrelaçar num "tecido relacional" (Saint Aubert, 2008a, p. 20) que envolve inextricavelmente visibilidade e espessura intracorporal.

Destacamos o fato de que, em Wallon (1949/2009), Merleau-Ponty (1997, 2001a) encontrou importantes estudos acerca da individualização do corpo próprio. No que diz respeito à noção de esquema corporal, foram principalmente as considerações do psicólogo acerca das reações da criança face ao seu próprio corpo que interessaram a Merleau-Ponty. Nesses estudos, já se tinha em apreço o caráter "sentiente sensível" do corpo. Wallon (1949/2009), todavia, apenas analisou a exteriorização do corpo próprio em termos de representação, de ato devido a uma função simbólica em desenvolvimento. Nas análises de Lacan (1966a, 1966b) acerca do estádio do espelho, apreciadas por Merleau-Ponty (1997, 2001a, 2001d, 2001e), a "deiscência" (Lacan, 1966a, p. 96) do organismo humano é caracterizada segundo um eu que se exterioriza nos termos de uma experiência primordial alienante e donatária a uma só vez, posto que nos retira do eu imediatamente vivido e nos abre a um mundo de visibilidades recíprocas.

Consideramos que nesses estudos Merleau-Ponty dá um importante passo em direção à noção de carne tal como encontrada em O visível e o invisível. Nesse trabalho, acerca do "sentido mais profundo do narcisismo", o filósofo escreve:

não ver no exterior, como os outros o vêem, o contorno de um corpo que habitamos, mas sobretudo ser visto por ele, existir nele, emigrar para ele, ser seduzido, captado, alienado pelo fantasma, de sorte que vidente e visível sejam mutuamente recíprocos e que não se saiba mais quem vê e quem é visto. É esta Visibilidade, esta generalidade do Sensível em si, este anonimato inato de Mim mesmo que há pouco chamávamos carne, e sabemos que não há nome em filosofia tradicional para designar isso. (Merleau-Ponty, 1964/ 2006, p. 181)

Em suma, as discussões em torno das relações com o outro na infância são fundamentais no tocante aos avanços conceituais que levam Merleau-Ponty a esboçar uma ontologia da carne. Elas possuem como necessário o tratamento dado à noção de esquema corporal. Posteriormente, nos cursos de Merleau-Ponty (1994) no Collège de France dedicados ao conceito de natureza, ver-se-á esse dispositivo teórico-antropológico ser alçado a figura que, aos poucos, se confunde com o caráter descentralizado da própria carne. Para tanto, aportes trazidos da psicanálise continuarão mostrando-se indispensáveis.

Conforme afirmação de Saint Aubert (2008a), a unidade do esquema corporal é gerada a partir de um tecido relacional, ou especular, em que "meu corpo, o mundo e outrem servem um para o outro de matriz simbólica" (p. 21). O estudo desse quiasma, em Merleau-Ponty, passará pela consideração do esquema corporal como "ser lacunar" (Merleau- Ponty, 1994, p. 346), instância de ejeção e de introjeção, de incorporação, como estrutura libidinal e, portanto, como abertura ao ser a partir de uma estrutura desejante. Essa progressão teórica advém da "livre assimilação e deformação da psicanálise" (Saint Aubert, 2008a, p. 21) por parte de Merleau-Ponty. Ao filósofo interessam as intuições de autores como Freud, Lacan e Mélanie Klein acerca de nossas origens, de nossa arqueologia (Merleau-Ponty, 2000b). Além disso, segundo a sugestão de Dorfman (2007), talvez a fenomenologia tenha seu próprio inconsciente, limite que a psicanálise, com suas latências particulares, ajudaria a revelar.

 

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Recebido em: 24/04/2011
Aceito em: 10/02/2012

 

 

1 Apoio: Fundação para o Desenvolvimento da UNESP (FUNDUNESP) e Pró-Reitoria de Pesquisa da UNESP (PROPe).


2 Acerca do exame da noção de esquema corporal na Fenomenologia da percepção, cf. Verissimo (no prelo).


3 O curso intitulado Les relations avec autrui chez l'enfant possui duas versões. Uma delas (Merleau-Ponty, 2001a) consiste em um resumo de curso baseado em anotações de alunos e aprovado pelo próprio Merleau-Ponty. Em realidade, todos os cursos apresentados no livro Psychologie e pédagogie de l'enfant possuem essa natureza. A outra versão (Merleau-Ponty, 1997) contempla apenas a primeira parte daquele curso, no entanto num formato mais amplo e textual, tal como apresentado por Merleau-Ponty ao Centre de Documentation Universitaire.


4 Piaget figura como referência central em diversos momentos dos Cursos da Sorbonne, mas não em relação ao tema central do presente artigo, a noção de esquema corporal. Por conta disso, optamos por não nos determos às críticas que Merleau-Ponty opera em relação à obra do psicólogo. O leitor poderá encontrar essa discussão em Verissimo (2011). Trata-se de um artigo em que retomamos as análises de Merleau-Ponty sobre as teorias da psicogênese em Wallon, após focalizarmos o posicionamento do filósofo face à psicologia do desenvolvimento, especialmente a representada pela teoria genética de Piaget. Cumpre dizer que, de modo geral, Merleau-Ponty imputa a Piaget uma concepção idealista do desenvolvimento, cujo cerne é a pressuposição de que a conquista da dimensão objetivante da inteligência implica a ruptura com os estágios anteriores, atrelados à vida perceptiva e motora. Sobre este tema, cf., ainda, Saint Aubert (2008b).


5 Ao referir-se à "psicologia clássica", Merleau-Ponty (1997, 2001a) faz alusão às teorias associacionistas em psicologia que vicejaram na Europa e nos EUA até as primeiras décadas do século XX.


6 Mais adiante, voltamos a Husserl (1931/2001) para tratar especificamente da questão da experiência do outro, que é abordada pelo autor por meio da ideia de acoplamento.


 

 

Danilo Saretta Verissimo, docente do Departamento de Psicologia Evolutiva, Social e Escolar da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade Estadual Paulista (UNESP). Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia Evolutiva, Social e Escolar da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP. Avenida Dom Antônio, 2100, CEP 19806-900, Assis, SP, Brasil. Endereço eletrônico: danilo.verissimo@gmail.com