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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.23 no.3 São Paulo  2012  Epub Oct 09, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642012005000011 

 

Avatares da instância crítica: supereu entre o isso e o princípio de morte1

 

Avatars of the critical instance: the supereu between the id and the principle of death

 

Avatars de l'instance critique: le surmoi entre le ça et le principe de la mort

 

Avatares de la instancia crítica: superyó entre el ello y el principio de muerte

 

 

Maria Vilela Pinto Nakasu

Universidade de São Paulo - USP


 


RESUMO

Se a clássica definição do supereu como resultado do complexo de Édipo, apresentado em "O ego e o id" (Freud, 1923/1989), tem uma longa história, o que poderia ser dito sobre a definição segundo a qual o supereu é o herdeiro do isso e sub-rogado das pulsões de morte? Como harmonizar as duas teorias que definem o supereu como o herdeiro do complexo de Édipo e herdeiro do isso? Por meio de uma análise cuidadosa de três passagens de "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989), argumenta-se que o conceito de agressão é capital para caracterizar o vínculo entre o supereu e as pulsões de morte. As pulsões de morte não apenas determinam o caráter imperativo do supereu, a sua tendência para atacar o eu, mas são igualmente responsáveis pelas variantes deste ataque – pressão, crítica, punição e destruição. Além disso, a ampliação da teoria da identificação, sua associação com o processo de desfusão pulsional e a hipótese do caráter originário dos investimentos de objeto no isso permitem a Freud unir, no supereu, um aspecto legislativo, decorrente de sua herança edipiana ao aspecto pulsional mortífero.

Palavras-chave: Freud (Sigmund). Metapsicologia. Supereu. Pulsão de morte. Agressividade.


ABSTRACT

If the classical definition of the supereu as deriving from the Oedipus complex, presented in "The ego and the id" (Freud,1923/1989), has a long history, what could be said about the other definition of the supereu according to which it is heir of the id and sub-rogate to the death drives? How to harmonize the union of the two thesis that define the supereu – as heir to Oedipus and heir to the id? Through careful analysis of three exerts extracted from "The ego and the id" (Freud, 1923/1989) we argue that the concept of aggressiveness seems capable of dealing with the relation between the supereu and the death drives. The death drive not only cooperates to conform the imperative character of the supereu, its tendency to attack the ego, but is responsible for the variants of this attack – pressure, criticism, punishment, destruction. Furthermore, the extension of the theory of identification, its association with the process of drive disfusion, and the assumption of originating investments of object in the id allows Freud to unite, in the supereu, a legislative aspect, arising from its oedipal heritage, to the drive aspect.

Keywords: Freud (Sigmund). Metapsychology. Superego. Death drive. Agressivity.


RÉSUMÉ

Si la définition classique du surmoi comme découlant du complexe d'Œdipe, présenté dans "Le moi et le ça" (Freud, 1923/1989), a une longue histoire, ce qui pourrait être dit au sujet de la définition selon la quel le surmoi est l'héritier du ça et sous-rogate des pulsions de mort? Comment harmoniser l'union des deux thèses qui définissent le surmoi - comme l'héritier d'Œdipe et héritier du ça? Grâce à une analyse minutieuse de trois passages extraits du "Le moi et le ça" (Freud, 1923/1989), nous soutenons que le concept de l'agressivité semble capable de traiter la relation entre le surmoi et des pulsions de mort. La pulsion de mort non seulement coopère au caractère impératif du surmoi, sa tendance à attaquer l'ego, mais il est responsable pour les variantes de cette attaque - la pression, la critique, la punition, la destruction. En outre, l'extension de la théorie de l'identification, son association avec le processus de disfusion pulsionnell, et l'hypothèse du caractère originaire des investissements d'objet dans le ça permet Freud d'unir, dans le surmoi, un aspect législatif, découlant de son patrimoine œdipien, à l'aspect meurtrier.

Mots-clés: Freud (Sigmund). Métapsychologie. Surmoi. Pulsion de Mort. Agressivité.


RESUMEN

Si la definición clásica del superyó como derivado del complexo de Edipo, como se informó en "El yo y el ello" (Freud, 1923/1989), tiene una larga historia, ¿lo qué podría decirse acerca de la definición según la cual el superyó es el heredero de las pulsiones de muerte? ¿Cómo armonizar la unión de dos teorías que definen el superyó como el heredero del complejo de Edipo y el heredero del ello? A través de un cuidadoso análisis de tres pasajes de "El yo y el ello" (Freud, 1923/1989), se argumenta que el concepto de agresión parece capaz de manejar la relación entre el superyó y pulsión de muerte. La pulsión de muerte no sólo coopera con la naturaleza severa del superyó, su tendencia a atacar el yo, pero es la responsable por las variantes de este ataque – la presión, la crítica, el castigo, la destrucción. Además, la extensión de la teoría de la identificación, su asociación con el proceso de disfusión pulsional y la hipótesis del carácter originario de investimentos del objeto en el ello permite a Freud unir en el superyó un aspecto legislador, que surge de su herencia de Edipo al aspecto pulsional mortífero.

Palabras-clave: Freud (Sigmund). Metapsicología. Superyó. Pulsión de muerte. Agresividad.


 

 

Monstro reduzido a um supereu, supereu que realiza sua crueldade total (Deleuze, 1967/2009)

A definição do supereu como herdeiro do complexo de Édipo nos remete diretamente às concepções de narcisismo, de ideal do eu e de identificação, concepções que tiveram como pano de fundo a reformulação da noção de eu e os impasses, no interior da primeira teoria das pulsões, acarretados pela introdução da “libido narcísica”. Se a clássica definição do supereu como herdeiro do complexo de Édipo, anunciada em "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989), tem uma longa história, o que poderíamos dizer da outra definição de supereu, também de 1923, segundo a qual ele é considerado herdeiro do isso e sub-rogado das pulsões de morte?

As bases conceituais utilizadas por Freud para unir o supereu ao isso e às pulsões de morte nos conduz à década de 1920, à introdução da segunda teoria das pulsões e da segunda tópica. No entanto, sabemos que a história dos conceitos freudianos não segue um movimento de ruptura total nem de continuidade ininterrupta. Como sugere Monzani (1989), a chamada “reviravolta dos anos 20” não introduz conceitos absolutamente novos, mas rearticula conceitos em função de novas descobertas clínicas e do surgimento explícito de uma tese fundamental até então subterrânea na articulação da teoria: a tendência à evacuação total à qual a pulsão de morte conduziria, constatada desde as observações iniciais de Freud do "Projeto de psicologia" (1923/1989) e dos "Estudos sobre a histeria" (1893-1995/1989).2

Contudo, se por um lado é possível acompanhar uma finalidade essencialmente mortuária no primado da teoria freudiana – os vestígios do Princípio do Nirvana e da tendência primitiva à inércia –, por outro lado, a explicitação e a articulação do dualismo pulsional em pulsões de vida e pulsões de morte implicaram inúmeras mudanças no interior da metapsicologia. A nova dualidade pulsional é considerada por Freud em Além do princípio do prazer (1920/1989) um mito, pois o mito incorpora no seu âmago alguma coisa que tem validade universal. A esse respeito, Giacóia (2010) comenta:

Assim, a metapsicologia ousa recorrer ao mito porque, ao fazê-lo satisfaz uma condição incontornável que, uma vez suprida, fornece o elo teórico faltante e permite derivar geneticamente a origem de toda pulsão de uma necessidade de restauração de um estágio anterior de coisas. (p. 85)

Autores de orientação diferenciadas como Laplanche, Fenichel e Derrida,3 ao examinarem a problemática das pulsões de morte se perguntaram sobre a diferença entre princípio e pulsão, identificando, a partir da expressão “pulsões de morte”, certa estranheza, certo paradoxo na união destes dois termos. O termo pulsão esteve sempre associado à sexualidade, à vida. E por que agora ele vem associado à morte, ao retorno a um estágio anterior do desenvolvimento? Se a pulsão de morte é o irrepresentável, por excelência, se ela é o mais pulsional da pulsão, ela escapa à consciência e ao inconsciente. A este impulso em estado bruto, sem alvo nem objetos fixos, que está além do psíquico, parece se coadunar melhor o termo “princípio de morte” ao invés de “pulsões de morte”, e aqui legitimaremos a expressão cunhada por Laplanche (1980).

Zaltzman (1987) distingue, em “Uma vontade de morte”, quatro características do funcionamento das pulsões de morte que, a seu ver, constituem quatro razões essenciais que tornam esta referência de tão difícil utilização. São elas: a ausência presumida de um modo de representação direta que aparece como própria das pulsões de morte; a ausência de um apoio ou ancoragem corporal destas pulsões, comparável ao “apoio” das pulsões sexuais; a não historicidade das pulsões de morte e, por fim, o fato de as pulsões serem anobjetais.

Para a autora, a atividade das pulsões de morte se torna tangível em três circunstâncias. Primeiro como “pulsão anarquista”, quando ela entra em ação como uma última e radical defesa contra as condições de vida física e psíquica muito precárias, pela mobilização dos últimos recursos da psique, sua vontade de morte, contra uma situação de ameaça de destruição que deteriora gravemente o capital narcísico indispensável à vida.4 Em segundo lugar, a pulsão de morte se mostra como recurso defensivo e tentativa de resolução de um investimento libidinal intolerável de dor e de contradição, como teoriza Aulagnier (1975), ao aproximar a psicogênese das psicoses às complexas funções de Thanatos. Finalmente, as pulsões de morte se tornam tangíveis quando exercem sua finalidade de desligamento, sua função desobjetalizante, favorecida por um estado de desaparecimento dos laços objetais, uma queda dos ideais do eu. Neste último caso incluiríamos a melancolia e a severidade supereuoica no rol de fenômenos que expressam suas ações.

Zaltzman (1987) critica o postulado freudiano, segundo ela incondicionalmente adotado por Green (1988), de que o conceito de agressividade como princípio e início da vida psíquica seria insuficiente para dar conta do conflito original, fundamental e primeiro, engendrado pelas pulsões de morte. Ela concorda com o fato de que o conteúdo do funcionamento originário da agressividade é mais claro se comparado ao conteúdo do conceito de pulsão de morte. Porém, segundo ela, a agressividade na metapsicologia freudiana e kleiniana possui uma evolução, atravessa estados, atinge um ápice, se pacifica, possui uma história, repete na transferência as condições inconscientes de sua reatualização. A atividade das pulsões de morte, diferentemente, “não possui história; não possui evolução; ela não possui etapas; ela não reage a conflitos específicos, apesar de que os momentos em que sua atividade se torna dominante podem ser reportados a circunstâncias precisas” (Zaltzman, 1987, p. 92).

Zaltzman parece negligenciar o fato de que é na primeira teoria das pulsões que a agressividade aparece ligada às pulsões de autoconservação, a antiga pulsão de dominação e, nesse sentido, ela porta alvos, gradações, etc. Em segundo lugar, lembremos que a formulação propriamente dita do conceito de pulsão de morte irá finalmente conferir um lugar de cidadania à agressividade, aliás, desde o início das investigações clínicas de Freud identificada no sentimento de ambivalência e, desde Totem e tabu (1913/1989), super realçada pela hipótese filogenética. Mas não se trata, aqui, de debater a crítica de Zaltzman em relação ao conceito de agressividade para dar conta do conflito engendrado pelas pulsões de morte, mesmo porque, a nosso ver, a autora traz contribuições inéditas no âmbito desta discussão. Trata-se, porém, de sustentar que o conceito de agressividade parece dar conta de algo que reside na questão central de nosso trabalho, isto é, a relação entre princípio de morte e supereu.

A nós, o que interessa é apontar as novidades aportadas pelo princípio de morte e o seu correlato, o isso, para a gênese e o funcionamento do supereu. A introdução destas concepções parece ter promovido um rearranjo e uma ampliação da concepção de supereu nos seguintes termos: a raiz inconsciente da antiga consciência moral foi mais bem delineada; os efeitos negativos sobre o eu da introjeção das imagos parentais pelo supereu foram esclarecidos; o potencial agressivo do supereu adquiriu maior ênfase, e o quadro conceitual a partir do qual Freud justifica seu aspecto mortífero se tornou mais claro e preciso. Quais são, afinal, os impactos sobre a concepção de supereu acarretados pela introdução das pulsões de morte e da noção de isso? Como Freud irá harmonizar a proposição do supereu como a instância legisladora e paterna – o supereu herdeiro do complexo de Édipo – com aquela que diz que o supereu possui uma raiz pulsional e depende do maquinário das pulsões de morte – o supereu como herdeiro do isso e sub-rogado das pulsões de morte?5 Escolheremos três passagens de "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989) a nosso ver cruciais para ensaiar algumas respostas a estas questões.

 

I – A desfusão pulsional na gênese do supereu

Ao descrever o papel do isso e sua relação com o eu, Freud esclarece, em "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989), a origem e o trânsito da energia sublimada, liberada após as identificações e a partir da qual o supereu se formará.6 O ponto de partida da energia pulsional que mais tarde será acolhida pelo supereu encontra-se no isso. Como o isso é guiado pelo princípio do prazer, ele se defende das sensações de desprazer geradas pelo aumento da excitação de várias formas: ou satisfaz as pulsões sexuais diretas ou o eu vem em seu auxílio para se apoderar da libido sexualizada, sublimando-a. Esse apoderamento do eu pela libido, e a transposição de libido erótica em libido narcisista, participa do processo de formação do eu. Pois, ao acolher ou se apoderar da libido dos investimentos de objetos abandonados do isso, o eu promove, por meio da identificação, a dessexualização das metas sexuais. Por sua vez, o supereu portará justamente os primeiros investimentos de objeto do isso que o eu transformou, via identificação.7

Se o supereu é considerado herdeiro do isso não é senão pelo fato de ele herdar seus primeiros investimentos de objeto. Porém, o supereu opera igualmente como uma formação reativa diante das escolhas objetais do isso. “Seu vínculo com o eu não se esgota na advertência: "Assim, (como o pai) deves ser", senão, compreende também a proibição: "Assim, (como o pai) não é lícito ser, isto é, não pode fazer tudo que ele faz; muitas coisas são reservadas a ele"” (Freud, 1923/1989, p. 32). Nota-se, porém, que se em "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989) Freud analisa a fundo o vínculo entre o eu e o isso e o vínculo entre o eu e o supereu, isso não é evidente quando se trata da relação entre supereu e isso.

Com exceção das teses "o supereu é herdeiro do isso" e "o supereu é uma formação reativa dos investimentos do isso" destacaríamos apenas uma outra tese, que associa o isso à ação inconsciente do supereu. Freud dirá que no sentimento de culpa inconsciente presente na histeria, na neurose obsessiva e na delinquência o supereu afirma seus íntimos vínculos com o isso inconsciente. Considerado uma espécie de inconsciente primitivo e originário, o isso é descrito como “esse caldeirão que é fervilhante, agitado, aberto no seu extremo às influências somáticas, que as recebe e as dirige no sentido da descarga” (Monzani, 1989, p. 267). Logo, se o sentimento inconsciente de culpa testemunha a proximidade entre supereu e isso não é senão pelo fato de o isso representar o inconsciente, tal como aparece na primeira tópica. Em outros termos, se o isso está ligado ao supereu nestes casos é somente e na medida em que ele produz a inconsciência da culpabilidade.

Ao se apoderar da libido dos investimentos de objetos resignados do isso, o eu sublima as metas sexuais e favorece a desfusão pulsional; torna-se, por isso, incapaz de ligar o componente destrutivo das pulsões. Este componente destrutivo das pulsões é liberado como inclinação à agressão e à destruição. E aqui chegamos à primeira passagem de "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989) que gostaríamos de destacar: “Será desta desfusão justamente de onde o ideal extrai todo o traço severo e cruel do imperioso dever-ser” (Freud, 1923/1989, p. 54). A desfusão pulsional incrementa, pois, o componente destrutivo pulsional. O eu se coloca a serviço das pulsões de morte porque protagoniza o jogo de identificações. Por sua vez, se o supereu é a parte do eu modificada por estas mesmas identificações, toda destruição liberada via identificação será empregada no seu caráter imperativo. A consequência da desfusão das pulsões é, portanto, a liberação das pulsões de agressão no supereu.

Freud aproxima pela primeira vez o supereu das pulsões de morte. O supereu aparece como um alvo privilegiado destas pulsões, liberadas no processo de identificação. Se desde os primeiros escritos de Freud o eu é sempre considerado o “bode expiatório” da consciência moral, esta grande inquilina do território euoico, em "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989) a relação se repete, mas aqui a consciência moral muda de nome, se torna supereu, e é definitivamente separada dos domínios do eu. É sobre o eu que toda destruição continuará recaindo; o incremento da agressividade supereuoica, resultado da desfusão pulsional, se voltará, portanto, diretamente ao eu. Dentre as novidades aportadas pelo texto de 1923 ao supereu esta talvez seja, a nosso ver, a mais relevante.

A arquitetura teórica para dar conta desta aproximação – supereu-pulsões de morte – depende da formulação do declínio do complexo de Édipo, da introdução da noção de isso, sua participação na formação do eu, e da elaboração da teoria da identificação a partir do pressuposto da fusão e desfusão pulsional. Talvez o termo “alvo” não seja o mais adequado para designar o parentesco entre o supereu e as pulsões de morte. Longe de ser objeto das pulsões de morte, no sentido que se atribui aos objetos das pulsões sexuais, o supereu parece ser, antes, uma formação psíquica que desde o seu nascimento opera com a energia mortífera. A pulsão de morte ativa o aspecto demoníaco do supereu, e este, como instância psíquica, se torna um lugar de circulação e expressão da energia destrutiva, energia a qual Zaltzman (2007) associa à ideia de mal. Para a autora, o mal permearia todas as instâncias da personalidade. E no seu derradeiro livro, O espírito do mal, ela diz:

Resistentes também ao movimento que visa expulsar do campo psicanalítico a noção de mal as instâncias da personalidade que são o eu ideal, o ideal do eu, o supereu e o enigmático sentimento de culpabilidade inconsciente, forte adversário do tratamento analítico, constituem todas referências que não podemos dissociar da ideia de mal. (Zaltzman, 2007, p. 33)

O mal aparece igualmente nos dois alvos das pulsões de morte: no mundo externo, quando a pulsão de morte é desviada como agressão ou destruição, e no mundo interno, quando a pulsão de morte trabalha silenciosa no interior do organismo, sem obstáculos, podendo conduzi-lo à morte.8 Freud assume, entretanto, outro destino das pulsões de morte, o caso em que elas não podem ser exteriorizadas. Tal obstáculo à exteriorização, enigmático, será elucidado sete anos depois em "O mal-estar na civilização" (Freud, 1930/1989), onde compreenderemos que são as exigências propriamente culturais que obrigam a renúncia da destrutividade e sua consequente liberação sobre o supereu em forma de sentimento de culpa inconsciente. Na passagem a seguir vemos delineada uma espécie de balanço energético mortífero, que regularia a intensidade da crítica do supereu frente ao eu. De acordo com esse balanço, o aumento e a diminuição da severidade do supereu seria diretamente proporcional ao grau de limitação ou sujeição das pulsões de morte. E aqui chegamos ao segundo ponto de nossa reflexão e à segunda passagem do texto freudiano para nós crucial.

 

II – Sujeição das pulsões de morte e incremento da agressividade supereuoica

Na última seção de "O eu e o isso", Freud (1923/1989) comenta:

É assustador que o ser humano, quanto mais limita sua agressão para fora, tanto mais severo – e por isso mais agressivo – se torna em seu ideal do eu... Quanto mais o ser humano sujeita sua agressão, mais aumentará a inclinação do seu ideal a agredir o seu eu. É como um descentramento[deslocamento], uma volta para o eu. (p. 65)

O preço pago pelo eu, pela sujeição da agressividade, é o aumento da intensidade dos açoites que ele levará do supereu. Se a exteriorização da agressão pode gerar efeitos nefastos no domínio dos laços sociais, sua sujeição acarreta efeitos não menos extraordinários no interior da economia psíquica do sujeito. Aqui, mais uma vez, Freud reconhece um vínculo estreito entre supereu e princípio de morte, em particular, entre a severidade supereuoica e o princípio de morte. O supereu aparece, mais uma vez, como o depositário da destruição pulsional, e o encarregado de atuar o ódio oriundo desta classe de pulsões. Tudo se passa como se a sujeição da agressividade implicasse diretamente uma exacerbação da função crítica do supereu, que passa a funcionar em um compasso desordenado e sádico em relação ao eu.

Talvez possamos sugerir uma sequência de imagens para ilustrar o vínculo supereu-pulsão de morte; sequência que, no entanto, é apenas ilustrativa e não representa fielmente o vínculo supereu-isso. Supomos uma estrutura que contém água: ao subir o volume de água, antes mesmo de ela escoar para fora, um dique impede seu transbordamento. O excedente de água bloqueado é depositado sobre uma subestrutura – dentro da estrutura-mãe –, que por sua vez abriga já uma certa quantidade de água. O nível de água da subestrutura é, assim, elevado. A água representaria as pulsões de morte, a estrutura-mãe o isso, a subestrutura o supereu, e a elevação do nível de água na subestrutura corresponderia à intensificação da função crítica do supereu. A sujeição da agressividade recairia, portanto, sobre o supereu, sobre sua inclinação a agredir o eu, podendo levá-lo ao total abandono de si.

Mas é preciso discriminar graus distintos em que a pulsão de morte opera no supereu. Em sua forma regular e normal, a pulsão de morte concede a ele – via desfusão pulsional e identificação – seu traço imperativo, isto é, o dever-ser que ele impõe ao eu. Em sua forma patológica, e aqui tomaremos como paradigmático o quadro da melancolia, a pulsão de morte encharca o supereu de destruição e intensifica seu lado imperativo; a simples crítica supereuoica nos neuróticos pode, se muito intensa, se tornar castigo de morte na melancolia. Assim como em Introdução ao narcisismo (1914/1989) Freud convoca o delírio de ser notado dos paranoicos para teorizar o ideal do eu como uma instância crítica e observadora no interior do eu, em "O ego e o id" (Freud, 1923/1989) Freud convocará a melancolia para elucidar os estrondosos efeitos sobre o eu do encontro entre supereu e pulsões de morte.

 

III - O supereu na melancolia: a morte em estado bruto

Chegamos ao terceiro e último ponto de nossa análise, a terceira e última citação de Freud que gostaríamos de comentar: “Na melancolia o supereu converte-se em uma espécie de cultura pura das pulsões de morte” (Freud, 1923/1989, p. 66). E, mais adiante, lemos: “O que agora impera no supereu é como uma cultura pura das pulsões de morte” (Freud, 1923/1989, p. 55). Muitos foram os mal-entendidos que esta passagem deixou entrever. Longe de ser a cultura pura das pulsões de morte, como insistem alguns analistas pós-freudianos, o supereu se parece, assemelha-se à pulsão de morte em estado puro. As expressões “espécie” ou “como” não podem ser negligenciadas.9 Interessa-nos, porém, assinalar que a analogia, a comparação, com a cultura pura das pulsões de morte não é gratuita, mas revela outro aspecto da íntima relação entre supereu e pulsões de morte.

Na melancolia, o sujeito não morre a sua maneira, como acontece quando Eros intervém. Ele é, antes, conduzido à morte. A função desobjetalizante e de desligamento da pulsão de morte pode atingir e atacar não apenas os objetos, mas todos os seus substitutos; neste caso, o eu. A identificação do eu com o objeto perdido como que duplica a carga destrutiva do supereu descarregada sobre o eu. A substituição de amor por ódio em relação ao objeto perdido, mais precisamente, é reforçada pela quota de pulsão de morte liberada na identificação do eu com o objeto. O resultado disso é que o supereu persegue seus propósitos aniquiladores, podendo castigar o eu até a morte.10

É justamente a fúria imisericordiosa do supereu contra o eu o ponto de convergência entre o supereu do melancólico e as pulsões de morte em estado bruto, dissociadas de qualquer ligação com as pulsões sexuais. Na melancolia, o supereu protagonizaria, assim, o princípio de morte junto ao eu, esta força bruta que conduziria o sujeito de volta ao estado inanimado, estado de a-tensão total. Ao imprimir a morte no eu, o supereu concretizaria a tendência inerente às pulsões de morte, nos oferecendo uma mostra de atuação desta classe de pulsão, aliás, isenta de qualquer expressão direta, como lembra Zaltzman (1987): “A pulsão de morte é a grande muda. Ela não possui um modo de representação psíquica próprio” (p. 89). Dessa maneira, os castigos supereuoicos que podem conduzir o eu à morte revelam a tendência à destruição e ao retorno ao inorgânico presente no aspecto mais primitivo e originário das pulsões. Por isso o supereu daria mostras do aspecto inapreensível das pulsões em estado bruto, colocando em evidência, enfim, o estado mais irrepresentável das pulsões de morte: sua cultura pura.

 

Considerações finais

Os íntimos vínculos entre ambos que procuramos destacar nesta trajetória pelo texto freudiano podem ser resumidos da seguinte maneira:

- A desfusão pulsional é acolhida pelo supereu como inclinação à agressão, participa da gênese da instância crítica;

- O supereu é um alvo privilegiado das pulsões de morte na medida em que o saldo mortífero da sujeição de tais pulsões resulta no incremento da sua agressividade;

- As pulsões de morte contribuem para a brutal crueldade do supereu em relação ao eu do melancólico ao ser liberada como agressão no processo de identificação do eu com o objeto perdido;

- O supereu protagoniza o princípio de morte, nos fornece indícios do irrepresentável da cultura pura das pulsões de morte.

Com exceção do quinto e último aspecto da união supereu-pulsão de morte os demais traços identificados por nós carregam o sinal da agressividade. O que a pulsão de morte envia ao supereu e, portanto, o que ele assimila dela não é outra coisa que a inclinação à agressão presente no traço regular do seu modo de funcionamento e nos episódios nos quais esta inclinação à agressão é intensificada. O supereu absorve como agressão toda parcela da pulsão de morte impedida de ser exteriorizada. A pulsão de morte não apenas colabora para moldar e formar o caráter imperativo do supereu, sua tendência a agredir o eu, e as variantes desta agressão – pressão, crítica, castigo, destruição – como também é responsável pela modulação deste caráter imperativo, fortalecendo-o, intensificando-o, em um crescente sem limite, ou melhor, em um crescente que pode conduzir ao limite máximo da vida, à morte.

Finalmente, o isso e as pulsões de morte ajudam Freud a esclarecer os efeitos sobre o eu da misteriosa introjeção das imagos parentais: os efeitos de agressão sobre o eu.11 A ampliação da teoria da identificação, sua associação ao processo de desfusão pulsional e a suposição de originários investimentos de objeto no isso permite a Freud unir, no supereu, um aspecto legislador, oriundo de sua herança edipiana, ao aspecto pulsional que ele carrega como herdeiro do isso. Assim, além de introduzir uma nova explicação para a gênese do supereu e para sua função crítica, "O eu e o isso" (Freud, 1923/1989) justifica a frágil posição ocupada pelo eu face às insinuações e ataques supereuoicos. O texto explicita, enfim, os meios de que dispõe o supereu para dissolver o eu, este servo, que tem que agradar aos seus senhores. Dentre os vizinhos do eu – o isso, e o mundo externo – o supereu talvez seja o mais influente no território euoico, já que ele captura o eu com seu amor – lembramos que o eu precisa ser amado pelo supereu – e ao mesmo tempo o supereu dissolve o eu com seu ódio, como um produto cáustico que queima, cauteriza e carboniza.

 

Referências

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Recebido em: 06/04/2011
Aceito em: 15/03/2012

 

 

1 Este trabalho reúne os resultados preliminares da pesquisa em nível de pós-doutoramento O Estatuto Metapsicológico da Concepção Freudiana de Superego, em andamento no Instituto de Psicologia da USP. Além disso, ele foi apresentado no 3º Encontro Anual da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia (3rd Annual Meeting of the International Society of Psychoanalysis and Philosophy), realizado em novembro de 2010, na USP, São Paulo.


2 “Se há um pessimismo em Freud é preciso reconhecer, então, que este percorre toda a obra, porque o tema da morte também a percorre do início ao fim” (Monzani, 1989, p. 219).


3 Monzani (1989) examina a fundo estas posições a partir de Problematiques IV, de Laplanche (1980), Teoria Psicoanalítica das Neurosis, de Fenichel (1966) e “Speculer: sur Freud”, de Derrida (1980).


4 Zaltzman (1998) aprofunda esta ideia em Da cura psicanalítica, ao analisar, dentre outros universos, o universo dos campos de concentração.


5 Albertín (2003), em As Vozes do Supereu na Clínica Psicanalítica e no Mal-estar na Civilização, diz o seguinte da união das duas teses que definem o supereu – como herdeiro do Édipo e como herdeiro do isso: "No entanto, também encontramos aqui – em "O ego e o id" – sua formulação mais paradoxal: ...o supereu é herdeiro do isso, mas é também herdeiro do complexo de Édipo.... Conclusão paradoxal" (p. 105).


6 Freud descreve o supereu como sinônimo de ideal de eu, da seguinte maneira: “Em outros textos apontei os motivos que me moveram a estabelecer um grau {Stufe; também ‘estádio’} no interior do ego, uma diferenciação dentro dele, que há de se chamar ideal-ego ou superego” (Freud, 1923/1989, p. 30). Na discussão deste texto, optaremos pela expressão supereu, já que há um grande debate no campo da psicanálise sobre a distinção supereu-ideal do eu.


7 Para Nakasu (2007), em "O eu e o isso" (1923/1989) Freud retoma a teoria da identificação desenvolvida em Psicologia das massas e análise do ego (1921) de que a identificação constitui a primeira forma de ligação afetiva com outra pessoa. A dissolução do Édipo coincidiria, assim, com o reforço da identificação primária pela secundária e com a identificação em sua forma dupla: negativa por rivalidade e positiva por imitação.


8 O terceiro alvo é sua mescla com componentes eróticos, que neutraliza o potencial destrutivo da pulsão de morte. Lembrando que em 1924 Freud irá falar em “masoquismo erógeno”.


9 Em outra passagem do texto, Freud recorre à expressão “como se” para precisar o exacerbado ódio que recai sobre o eu do melancólico. Ele diz: “É como se o supereu tivesse se apoderado de todo sadismo disponível no indivíduo” (Freud, 1923/1989, p. 56).


10 Luto e melancolia (Freud, 1917/1989) desenvolve algumas das teses de Totem e tabu e Introdução ao narcisismo, permitindo um avanço no processo de elaboração das relações entre eu e objeto. Este estudo conduz Freud à conclusão segundo a qual o eu pode se identificar com um objeto de amor perdido e introjetá-lo.


11 Em "Introdução ao narcisismo" (Freud, 1914/1989) o ideal do eu incorpora enigmaticamente as influências do meio. Nove anos depois, em "O eu e o isso" (1923/1989), este mesmo ideal incorpora os traços das instâncias parentais, e junto, o ódio dos pais.


 

 

Maria Vilela Pinto Nakasu, pós-doutoranda em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Bolsista FAPESP. Endereço para correspondência: Rua Cotoxó, 130, apto. 31. Pompeia. CEP 05021-000. São Paulo, SP. Brasil. Endereço eletrônico: marianakasu@hotmail.com


 

 

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