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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.24 no.1 São Paulo Jan./Apr. 2013

https://doi.org/10.1590/S0103-65642013000100005 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Psicanálise e a escrita de emancipação: discussão entre Deleuze e Joel Birman1

 

Psychoanalysis and the writing of emancipation: A discussion between Deleuze and Joel Birman

 

Psychanalyse et l'écrite de l'émancipation: discussion entre Deleuze et Joel Birman

 

El psicoanálisis y la escritura de emancipación: discusión entre Deleuze y Joel Birman

 

 

Rogério Lustosa Bastos

 

 


RESUMO

Debate-se a escrita de Deleuze em relação à escrita psicanalítica de Birman. Se o primeiro inventa uma "língua menor" na própria língua hegemônica, fissurando no sentir, ver, pensar, Birman, através do "feminino" e do "sujeito da diferença", cria Psicanálise estrangeira na Psicanálise vigente. Isto questiona tanto a ordem falocêntrica que reduz o feminino e o erótico à questão da maternidade, quanto enfrenta peculiarmente o desamparo e o desencantamento atual; sem seguir o canto de sereia das drogas, no mero uso de psicofármacos ou noutros pragmatismos, pensa um sujeito singular por estilística da existência.

Palavras-chaves: Escrita. Deleuze, Gilles, 1925-1995. Birman, Joel. Psicanálise.


ABSTRACT

A debate is held between Deleuze's work and the psychoanalytical work of Birman. When the first one invents a ‘‘lesser language' within the hegemonic one, fissuring the felling, the watching, the thinking, Birman through the “feminine” and the “subject of difference”, creates a foreign psychoanalysis inside the current one. These elements both questions the phallocentric order which reduces the feminine and the erotic to the matter of motherhood, and faces the current dereliction and disenchantment: Without following the siren song of drugs, in the mere use of psychotropic substances or other sorts of pragmatisms, it considers a singular  subject through the  existential stylistics.

Keywords: Handwriting. Deleuze, Gilles, 1925-1995. Birman, Joel. Psychoanalysis.


RÉSUMÉ

On débat l'lécrite de Deleuze auprès de l'lécrite psychanalytique de Birman. Si le premier invente une “petite langue” dans la propre langue hégémonique, en fissurant dans le sentir, voir, penser, Birman crée au moyen du “féminin” et du “sujet de la différence” une psychanalyse étrangere dans la psychalyse en vigueur. Cela à la fois discute l'ordre phallocentrique, qui reduit le féminisme et l'érotique à la question de la maternité, et affronte particulièrement  le délaissement et le désenchantement actuel : sans suivre le chant de sirène des drogues, avec la simple utilisation des psychotropes ou d'autres pragmatismes, il pense un sujet singulier par stylistique de l'existence.

Mots clés: Écrite. Deleuze, Gilles, 1925-1995. Birman, Joel. Psychanalyse.


RESUMEN

Se debate la escritura de Deleuze junto con la escritura psicoanalítica de Birman. Si el primero inventa la “lengua menor” en la propia lengua hegemónica, fisurando en el sentir, ver, pensar, Birman a través de lo “femenino” y del “sujeto de la diferencia”, crea el psicoanálisis extranjero en el psicoanálisis vigente. Esto cuestiona tanto el orden falocéntrico que reduce lo femenino y lo erótico a la cuestión de la maternidad, cuanto enfrenta en forma peculiar el desamparo y el desencanto actual: sin caer en el canto de sirena de las drogas, en el mero uso de drogas psicotrópicas o en otros pragmatismos, piensa un sujeto singular por una existencia con estilo.

Palabras clave: Escritura. Deleuze, Gilles, 1925-1995. Birman, Joel. Psicoanálisis.


 

 

Para que serviria um autor se ele não nos afeta, fissurando a vida ordinária a que nos submetemos? Para que uma escrita,2 se ela não nos faz romper com essas e outras prisões do pensamento? Eis algumas das questões que debateremos neste artigo, que serão desenvolvidas tanto pela discussão da escrita na concepção de Deleuze (escrita de linha de fuga), quanto pela análise dessa concepção na escrita de Joel Birman.

Antes de definirmos os termos, uma pergunta: por que trazer Deleuze aqui, já que ele é um dos autores do Anti-Édipo (Deleuze & Guattari, 1976), que é visto como o coveiro da Psicanálise? Além de discordar disto, Roudinesco (2007) defende que esse livro de Deleuze, longe de ser o coveiro, traz contribuições para a área. Ora, basta nos aprofundarmos nessa crítica deleuziana que observamos: ela se direciona muito mais a um tipo de "Psicanálise conformista", e não ao pensamento psicanalítico como um todo. Tal "conformismo", afora perceber o mundo apenas pelo seu igrejismo, diante de questões vitais do tempo presente, mostra-se com medo de se rever, toda vez que se fizer necessário.3 Assim, ainda para Roudinesco, Deleuze é um dos pensadores que, fissurando todo tipo de acomodação, busca o pensamento criador e a liberdade, fatores indissociáveis em sua obra. Daí sua oposição à atmosfera de unidimensionalidade em prol da ordem, que é reinante no mundo atual. Esta unidimensionalidade se traduz por um imperialismo de "homogênese" que se reproduz através de uma estrutura econômica, apoiada em seus derivados simbólicos, contra os quais Deleuze se bate.4 Para tanto, ele pensa a produção desejante junto à criação de "máquinas" na filosofia, nas artes e, em especial, na escrita. Elas, além de históricas, são dispositivos gestados para deslocar o território da ordem supostamente dominante, trazendo à tona um conjunto de signos, que, através de processos distintos, cunham novos modos de ver, pensar e sentir; "máquinas" que gestam "uma usina de pulsões e fantasias", uma espécie de procedimento único "capaz de subverter os ideais de um soberanismo edipiano e patriarcal" (Roudinesco, 2003).

A escrita de linha de fuga ou a escrita dita menor,5 da perspectiva de Deleuze, é aquela que, de um lado, ativa um pensamento criador, principalmente para se opor às prisões que surgem inclusive até no próprio pensar. De outro, ela busca gestar outras possibilidades de vida, bem diversas, é claro, de um tipo de existência dita padrão. Esta, em geral, é subscrita dentro da ordem hegemônica e tem como um dos grandes aliados o "viés da vida simbólica". Desnecessário apontar que é através disso que tanto se faz presente a ordem, quanto a reproduzimos pelo discurso edipiano. Tal discurso, embora responda por um lado em favor de nossa estrutura, muitas vezes pode estar também a serviço de outros dispositivos que extrapolam tal papel, donde a necessidade de poder repensá-lo.

A escrita do psicanalista Joel Birman, sobretudo, é a que problematiza, de um lado, o feminino e o erótico e, de outro, a questão do sujeito da diferença a partir da Psicanálise. Aqui, quanto ao primeiro fator, ela cria a possibilidade de se enxergar além do entendimento que reduz os acontecimentos relacionais importantes ao esquema do falo e do patriarcal. Feminilidade, neste particular, é o estudo num outro território de sexualidade que caminha além do registro fálico. Isto não implica a destruição do grupo, mas, ao contrário, dentro da presente perspectiva, esse feminino obtém positividade, principalmente porque confere um canal para "a particularidade, o relativismo e a singularidade que se destacam no sujeito" (Birman, 1999b, p. 12). Quanto ao segundo fator, a escrita em causa acentua que o que está em questão na área é, antes de tudo, uma Psicanálise antitotalizante. Isto compreende em se pensar o sujeito, freudianamente falando, não só a partir do estudo das pulsões que o apontam como indeterminado, mas também face ao desamparo, que se faz por um processo singular. Desta forma, ainda para introduzir especificamente esse debate, vejamos um trecho a respeito: "O engajamento de Joel Birman", de acordo com a psicanalista Mirian Chnaiderman (1997),

vai em direção a todo pensamento em Freud que tem a ver com o sujeito da diferença. Ser psicanalista é lutar contra qualquer homogeneização, assumir a força criativa da pulsão de morte, romper com linearidades, assumir a incompletude do humano, transformar o desamparo em busca incessante de uma estilística da existência (Chnaiderman, 1997, capa).

Passemos para a análise da escrita de linha de fuga e da escrita do psicanalista Birman, bem como as suas contribuições para o objeto analítico.

 

1. Deleuze e a escrita de linha de fuga

A escrita em questão pode ser discutida por quatro características básicas:

1a - A escrita e a questão do devir:

De acordo com Deleuze, a escrita é umas das mais fortes expressões para desvelar o devir, que tanto traduz um acontecimento quanto se descortina pelo debate do "entre" ou do "e". Em outras palavras, estudá-la pelo "meio" é pensá-la menos como um fator que corresponde à mera contemporização das forças adversas que ali aparecem e mais como um procedimento que se compreende principalmente de duas maneiras: por um lado, por um conjunto de forças que passam pelo "e" e se atritam, gerando caos permanente (já que nem sempre precisam se "acertar" ou se "sujeitar" umas às outras); por outro lado, por um estudo de fluxos caracterizados primordialmente pelo excesso. Na realidade, longe de situar a escrita como simples forma de expressão de uma matéria vivida ("ser homem", "ser mulher", etc.), Deleuze a pensa no seu aspecto de inacabamento: escrever é tentar se expressar pelo lado devir, pela parte que está sempre em vias de se fazer, que extrapola "qualquer matéria vivível ou vivida":

A escrita é inseparável do devir: ao escrever, estamos num devir-mulher, num devir-animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível.... Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, Mimese), mas encontrar uma zona de vizinhança,...de indiferenciação tal que já não seja possível distinguir-se de uma mulher, de um animal ou de uma molécula. (Deleuze, 1997, p. 11)

Esse e outros trechos da obra deleuziana, ao tratar da escrita, apontam para um fluxo pelo qual se realiza uma passagem de vida; através disso tanto se compreende que a escrita atravessa o vivível e o vivido quanto que é o lugar através do qual o escritor se metamorfoseia de muitas maneiras, dentro de um movimento ininterrupto de sua alma. Ora, aqui, de acordo com Schöpke (2004), cria-se um fluxo que não se finda naquele que lê: a escrita está sempre disponível para nova conexão ou para outro leitor que possa colocá-la em curso. Enfim, é por isso que a escrita do devir (seja ou não de ficção), em vez de tratar de algo que se fecha em si própria, faz múltiplas alianças, inclusive com forças de fora, para manter-se na chama do que se entende por existente. Ilustrando, observa-se que essa escrita não está apenas preocupada em ver a palavra, mas em inventá-la, usando-a como arma para se ter acesso a diferentes mundos. Tais mundos, em relação ao hegemônico, tanto nos colocam em contato com uma zona de vizinhança (da "diferença que faz a diferença"), quanto nos "adiantam a matéria".

Devir, como se observa, é algo que visa não atingir uma forma, mas, ao contrário, romper com a forma dominante. Pensar o devir, assim, é também falar em uma desterritorialização, em uma linha de fuga, o que denota uma fissura na ordem hegemônica. Além disto, a escrita do devir não é algo que se dá pelo metafórico, nem pela imaginação, muito menos pelo sonho ou fantasia, mas sim pelo dispositivo que chamamos de real. Real não no sentido de que "ao devir alguma coisa, alguém se torne realmente outra coisa, como um animal. É o próprio devir que é o real, e não o termo ao qual passaria aquele que se torna outra coisa. O devir é animal sem que haja um termo que seria o animal que alguém se teria tornado. O devir animal do homem é real sem que seja real o animal que ele se torna" (Machado, 2010, p. 213).

2ª - A questão da dita escrita menor ou de se criar outra língua na própria língua:

A escrita de linha de fuga se manifesta aqui por aqueles que escrevem como estrangeiros, mas dentro de sua própria língua; trata-se da expressão que não teme se expressar de forma minoritária frente à escrita hegemônica. Além de se pôr à margem do domínio vigente, essa escrita dita menor cria conceitos e valores sui generis que tanto a destacam como um grupo minoritário, quanto mostram a diferença que é realmente significativa. Assim, não é à toa que ela fala a partir de uma determinada "tribo" e também coloca o seu lado criador a serviço disso, donde tratar-se de uma escrita através da qual o importante não é tanto o que se cria, mas sim o que se permite criar (Deleuze & Guattari, 1977).

Aqui cabem ainda duas considerações: a. afora estarmos debatendo a escrita de linha de fuga deleuziana por quatro pontos principais, muito por questões didáticas, na realidade eles se implicam entre si; b. escrever em uma língua estrangeira dentro da própria língua não é necessariamente escrever "em inglês dentro da França", por exemplo, mas, antes, buscar criar uma escrita de linha de fuga, ou uma "língua" que não se acanhe por se expressar minoritariamente, talvez trazendo legado que fissure a língua maior que, no instante em que se escreve, é hegemônica.

Partindo do atravessamento desses pontos, vê-se que todo devir é minoritário, todo devir se desterritorializa frente ao modelo hegemônico, e a escrita só tem sentido se trair as potências fixas, que têm relação com as significações da ordem estabelecida. Ora, baseando-se nesta argumentação, observa-se que escrever é avançar por um processo que se confunde com a própria linha de fuga,6 principalmente no seguinte sentido: de um lado, o próprio escritor aqui ousa se construir de maneira distinta do que ele é, e de outro, cria escolhas que o situam mais pelo caminho da diferença pura, e menos pelo da escrita do dito instituído dominante (Deleuze, 1997; Machado, 2010).

"A literatura menor" também pode ser discutida como aquela que traz grande potencial de desterritorialização na língua, o que nos conecta com o político, mas um político peculiar. Em outras palavras, deve-se escrever aqui como um cão que faz seu buraco ou como um rato que cava sua toca, mas de maneira que, ao fazê-lo, crie-se a língua de um bando (Deleuze & Guattari, 1977). Isso, em tese, refere-se a um agrupamento, que é sinônimo aqui de minoria desprezada.7 Diante disso, toda escrita dita menor é antes de tudo uma escrita que se coloca do lado de um grupo "estrangeiro", ou seja, o escritor necessita escrever de um lugar que faça a diferença.8 

3ª - A questão da escrita a partir de uma "porção de saúde":

A escrita da "porção de saúde" deleuziana, antes de tudo, compreende o ato de escrever como algo que se situa na fronteira da linguagem. Isto se traduz por duas compreensões básicas: a. Às vezes, escrever é não só inventar, mas também se expressar por delírios; aqui, na grande maioria dos casos, o escritor precisará de cuidados clínicos, já que está enfrentando problemas de saúde mental. Entretanto, a escrita e a sua capacidade inventiva não se reduz a isso; b. Quando esses acontecimentos e vivências que fazem o escritor se situar na fronteira da linguagem conseguem se expressar longe desses cuidados clínicos, para Deleuze, então o escritor está conectado com o lado dito saudável, propiciando-nos diferentes aventuras pela escrita.

Não se escreve com as próprias neuroses. A neurose, a psicose não são passagens de vida, mas estados em que se cai quando o processo é interrompido, impedido.... A doença não é processo, mas parada do processo, como no "caso de Nietzsche". Por isso o escritor, enquanto tal, não é o doente, mas antes um médico, médico de si próprio e do mundo.... A literatura aparece, então, como um empreendimento de saúde: não que o escritor tenha forçosamente uma saúde de ferro..., mas ele goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais...cuja passagem o esgota.... (Enfim), qual saúde bastaria para libertar a vida em toda parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem? (Deleuze, 1997, pp. 13-14)9.

A partir disso, vê-se que a escrita da "porção de saúde" se traduz particularmente pela tentativa de libertar a vida daquilo que quer subjugá-la. Essa emancipação se dá através de dois aspectos fundamentais: 1º - Deleuze  defende que pensar a "porção de saúde", aqui, é buscar criar um povo que falta. Isso subentende que, frente à escrita hegemônica, o escritor tanto "fala com" quanto se "expressa de" um ponto de vista de um grupo que pode ser considerado bastardo. Neste particular, estamos diante de uma escrita que traz um potencial para gerar uma instância de enunciação que pode mostrar um grupo minoritário, que encontra canal de expressão nessa escrita e em alguns escritores. Em outras palavras, estamos diante de uma escrita que se expressa a favor de grupo dito menor, libertando a existência de um modo de vida "maior", que tem a pretensão de anular "tudo o que não lhe é espelho"; 2º - Considerando que o artista ou escritor é alguém que "vivenciou situações que são fortes em excesso, intoleráveis em demasia", apontando para a experiência de esgotamento, possivelmente essas forças caóticas e de alta intensidade podem fazê-lo ainda detentor, digamos, de "grande saúde", e não necessariamente torná-lo uma pessoa doente. Em outras palavras, se essas vivências do artista e do escritor podem marcá-lo em demasia, isso tem dupla relevância: por um lado, podem ser para ele o próprio signo da morte (no sentido de que, neste particular, a linha de fuga se expressa exclusivamente pela esteira de autodestruição ou por qualquer outra situação de destrutividade extremada); por outro, podem tomar um caminho oposto. Nesta última situação, para Deleuze, estão as pessoas que, mesmo passando pelas "doenças do vivido" (experiências fortes demais, de intensidade caótica demais), conseguem colocá-las a favor da vida; se a questão é libertar a vida dos jugos que a aprisionam, existem indivíduos que conseguem caminhar com a escrita, de forma que, independentemente de exprimi-la pelo belo nas palavras, isso também se traduz por se produzir múltiplas "saídas", criando novas possibilidades, novas potências da existência.

"Será a vida um processo de demolição?" - indaga-nos Deleuze. E, inspirado em Fitzgerald, ele mesmo diz que essa demolição pode preponderar em nós; entretanto, isso só ocorrerá em função de certas escolhas, seja através do álcool, das drogas e de outras situações que desaguarão no aniquilamento. De outra parte, pode-se construir um caminho diverso, de maneira que as "linhas de fuga" tracem outras rotas, sobretudo através de uma escrita criativa. Nesta situação, inventam-se ações que permitem se vivenciar os efeitos das drogas ou do álcool, mas sem o uso concreto dessas drogas; trata-se de falar de uma "embriaguez", mas através da qual não se perde a sobriedade e a lucidez. Apresentando de outra maneira, referimo-nos à situação de andar até por alguns caminhos da loucura, se preciso for, mas sem que por isso tenhamos que nos confundir com ela; de se caminhar às vezes até pelo álcool e extrair dele a experiência de vida, mas sem que se fique embriagado por beber de fato: "a grande cena da embriaguês com água em Henry Miller" - como nos diz Deleuze (Machado, 2010).

4ª - A questão da escrita de "de - fora":

Segundo Deleuze (1974), quando se cria um lugar de se pensar a diferença significativa, mas principalmente de dentro da linguagem ou da ordem hegemônica, expressamo-nos do lugar do "fora". Para ilustrar, pode-se pensar em Lewis Carrol, no livro Alice no País das Maravilhas. Nesta escrita não só há vários patamares que têm sentidos diversos do da linguagem preponderante, como também há mundos com lógicas diferentes do próprio mundo que se vive. Tais "lógicas" podem ser vividas e compreendidas através das palavras e por entre elas, além de possibilitarem falar de um "fora" que faz a desterritorialização ao patamar hegemônico. 

Ora, se uma das condições para chegarmos à "escrita de linha de fuga" é tentar criarmos uma "língua estrangeira", e que, ao conseguirmos isso, também nos deparamos com a desterritorialização na linguagem consensual; se esse desequilíbrio nessa linguagem nos aponta para fissuras que nos põem à margem, então estamos diante do que se denomina território "de - fora", pois nele se criam signos que desestabilizam e desvelam outras lógicas na linguagem preponderante (Deleuze, 1997). Na realidade, esse "fora", tal como na narrativa de Alice, longe de se reduzir a uma exterioridade ou a uma interioridade, fala aqui de uma vida intensa e de um saber que obedece a outra lógica de sentido. Esta diz respeito a um saber e a uma vida que nem sempre são vivenciados por todos, mas que existem e nos apontam para outras possibilidades de existências, as quais, pelo menos em tese, tendem a ser mais intensas do que a existência do saber e da vida consensuais vigentes. Enfim, os referidos "desequilíbrios na linguagem" nos colocam em contato com o lugar dos "outsiders" ou do nômade, que faz a diferença em relação à "língua" principal: ele, ao emergir, traz à tona um potencial que cria outros caminhos em contraponto com a lógica de sentido hegemônico.

O lugar do nômade aqui, antes de tudo, diz de uma "outra lógica" ou do território que "desequilibra a linguagem". Em suma, estar nesse território é se expressar por palavras que não só falam das turbulências que não são capturadas pela linguagem hegemônica, como também escapam das diferentes fixações ao papel da pretensa identidade plena; tomar tal fluxo é principalmente caminhar por uma escrita em prol do nomadismo, que, para Deleuze (1974), é a expressão que fala das tribos, das estepes, dos desertos. Obviamente, o caminho oposto é o que fala pelo modo de vida sedentário, que está de acordo com a língua e a escrita da maioria, e ainda se apresenta com forte pendor em prol da ordem e de tudo aquilo que está estabelecido. Assim, não é à toa que existem estudos, tais como o de Shöpke (2004), apontando que, ao se pensar na escrita de linha de fuga através da categoria de um "fora", acima de tudo se está discutindo a "transgressão dos limites impostos pelas leis da linguagem sedentária." (p. 181)10

 

2. A arte da palavra na Psicanálise e a escrita de linha de fuga: uma discussão a partir da escrita psicanalítica de Birman

A obra de Birman, afora contribuir com a Psicanálise, aponta para questões importantes na atualidade que estão entrelaçadas com o campo psicanalítico.11 Dentre elas, ressaltam-se aqui duas principais: 1ª - a discussão da escrita do feminino e do erótico (Birman, 1999a, 1999b, 2001); 2ª - a questão do sujeito da diferença, que, além de ser indeterminado, não só é uma das grandes contribuições da Psicanálise para a contemporaneidade, como também pode ser possivelmente elaborado através de uma estilística da existência (Birman, 1996, 1997; 2006).

2.1. A discussão da escrita do feminino e do erótico

Para Birman (1999b), entende-se conceitualmente o feminino não como algo que se refere apenas à sexualidade masculina e feminina, mas sim a "um registro erógeno outro, o qual estaria aquém e além da diferença sexual. Na realidade, a feminilidade aqui não está centrada na figura do falo, que ordena tanto a sexualidade masculina quanto a feminina pelas modalidades" (p. 58) de tê-lo ou não.

Antes de debatermos esse conceito, faz-se necessário apontar quatro considerações: 1ª - é a partir do pensamento freudiano que se discute aqui o feminino; dentro da perspectiva de Birman (2001), o solo básico de análise será esse pensamento, que, em vários momentos, apresenta o que se denomina de "recuos" e "avanços" quanto ao feminino; 2ª - dentre essas contradições e ambiguidades freudianas, relativas ao "recuo", ressalta-se: em primeiro lugar, Freud tende a aprisionar "esse feminino" numa ordem patriarcal, que, simbolicamente, é um dos grandes dispositivos que ajudam a reproduzir, direta ou indiretamente, o próprio discurso que beneficia o domínio hegemônico; em segundo, esta argumentação se assenta no fato de que a mulher e sua sexualidade só ganham sentido relevante se forem compreendidas sob a égide da considerada "função social estruturante", que se limita aqui apenas à maternidade; 3ª - desnecessário apontar que o erótico, sob esta ótica, não só fica relegado ao segundo plano, mas também é visto como um procedimento que, ao ser vivenciado "de fora" da dita posição vigente, não apenas será apresentado como algo "desestruturante", como também está se colocando na contramão da civilização. Detalhe: o conceito de civilização aqui se reduz unicamente a cultura hegemônica; 4ª - o instigante, neste ponto, é que a leitura de Birman sobre o feminino em Freud, diante das referidas ambiguidades, destaca agora certos avanços: ora, mesmo admitindo que muitas críticas contra o pensamento freudiano, inclusive as feitas pelos movimentos feministas, têm seu fundamento — como já se argumentou anteriormente —, independentemente disso, Birman defende que Freud nos dá espaço para pensar o feminino além da mera função materna. Basta observar que na obra freudiana se veria também o erótico como algo que não é incompatível com a estrutura e com as múltiplas culturas humanas.

O curioso nesse conceito é que, além de se abrir brechas na obra freudiana para se pensar o feminino fora do esquema do falo, estamos diante também de uma escrita que cria pequenas rupturas no discurso hegemônico: recorde-se que, em geral, é bastante divulgado — pelo menos através da leitura hegemônica de Freud — que a mulher, não tendo um falo, tem de enfrentar tal circunstância pela submissão à maternidade. Além disso, submetendo-se a esse pressuposto, ao ter um filho homem ela passará a ser incluída de maneira dita estruturante. Na realização desta hipótese, pelo menos simbolicamente, resolverá a sua condição de ser um feminino desprovido do órgão masculino e de tudo aquilo que ele significa na ordem atual. Enfim, diante dessa e de outras argumentações correntes, afora ser um contraponto, a escrita de Birman nos cria um olhar sobre horizontes singulares quanto à questão do feminino em função da hegemonia do falo.

Foi em oposição a toda essa construção conceitual que a feminilidade foi concebida. Com efeito, o discurso freudiano enunciou que esta indicaria a existência de outro registro psíquico, que se contraporia ao anterior, centrado no falo. Vale dizer, no registro da feminilidade não existiria o falo para o sujeito, seja como referente ou até mesmo como referência. Esse território psíquico não seria nem regulado nem fundado na figura do falo. (Birman, 1999, p. 225)

Dentre os principais pontos convergentes entre a escrita deleuzeana e a de Birman, destaca-se a escrita "de fora", especialmente pelo seguinte fato: pensando as questões de um lugar à parte que desterritorializa o estabelecido, ela cria outras percepções para um agrupamento, no caso, o agrupamento feminino, a partir do próprio território que o discrimina. Isto sem contar que essa discussão do feminino traz à tona um erótico que não se reduz apenas à maternidade, de forma que fissura o esquema preponderante do falo e também cria, acima de tudo, uma língua menor dentro da própria língua hegemônica no meio psicanalítico.

Quanto à possibilidade de estar criando uma "língua estrangeira" na Psicanálise, frise-se que Birman não só está contribuindo com questões que lançam novas luas para o território psicanalítico, mas também, e especialmente, para alguns impasses que ela passa no mundo contemporâneo. Em outras palavras, tendo em conta que, na atualidade, o considerado "poder fálico" e o esquema da família patriarcal estão perdendo terreno, o que se constata inclusive por outros estudos psicanalíticos (Roudinesco, 2003), e considerando que este procedimento coloca em questão algumas vertentes psicanalíticas, tais como a lacaniana, que defende que nós nos estruturamos unicamente através do poder do pai,12 diante desse impasse a língua estrangeira que Birman propõe traz novas contribuições ao próprio território psicanalítico, já que aponta para leitura diversa sobre o feminino e o erótico, e também para um caminho "pós-patriarcal".

Outro ponto importante, quanto ao feminino, é a questão da perfeição: em tese, o considerado perfeito aqui, tanto pelos gregos em sua visão clássica quanto pelo cristianismo, é o homem e não a mulher, pois é o primeiro que tem o falo. A mulher, ainda sob este ponto de vista hegemônico, considerando que é desprovida do falo, é caracterizada como a portadora do "de-menos", sendo também o próprio exemplo da imperfeição. Entretanto, a escrita de Birman, ao ler o feminino na obra freudiana, mas do lugar dos "avanços", como já sinalizamos, aponta-nos algo diverso: mostra-nos a perspectiva de um feminino que caminha pela diferença que faz a diferença. Basta dizer que agora, pelo menos em oposição ao olhar preponderante, há uma positivação da diferença: daqui para frente, em vez de a condição do feminino receber o sinal negativo por não possuir o falo, se assumirá essa dita imperfeição como a própria condição humana.

O discurso freudiano nos sugere agora, de maneira sempre tímida, indireta e enviesada, é claro, outra leitura da condição humana, na qual esta seria originalmente imperfeita, já que finita e abandonada pela magnificência dos deuses. No mundo desencantado da modernidade e permeado pela morte de Deus, a condição humana se reconheceria finalmente pela imperfeição e pela finitude. (Birman, 2001, p. 228)

É evidente que aqui também está em questão o desamparo, pois, talvez para fugirmos dele, nos agarramos a esse suposto ideal de perfeição fálica; contudo, o feminino, diante da considerada imperfeição e incompletude, embora possa nos remeter ainda a esse desamparo, também nos dá maiores chances de enfrentá-lo com "armas" que, agora, podem ser traduzidas por um repensar de outros sujeitos, por um sujeito que faça a diferença:

sujeito incompleto e precário que longe de se sustentar na bandeira de perfeição, tenta assumir que não é auto-suficiente. Mas, em vez de tal caminho, deparamo-nos com a auto-suficiência que tem ligações diretas com a subjetivação contemporânea hegemônica, muito própria do modo de vida do narcisismo extremado e da cultura do espetáculo, fatores que tomam caminho oposto ao sujeito da estilística da existência (Birman, 2001, 1996). 

2.2. A questão do sujeito da diferença

De acordo com Birman (1996, 1997), a atual sociedade vive uma crise de ceticismo, que é basicamente decorrente do colapso do ideário iluminista, e que foi principalmente ganhando destaque no fim do século XX. O curioso é que, malgrado estarmos quase totalmente identificados com uma racionalidade científica, que se mantém até os dias de hoje, aquele ideário vai entrando em baixa a partir dos anos 1970. Diante de tal contexto, as formas de mal-estar se sobressaem, pois, em face da bancarrota de certos valores, como já formulou Freud (1930/1974), o homem se vê perante o desamparo. Esta formulação freudiana tem uma série de implicações para o indivíduo e a sua vida social;13 contudo, atualmente, há saídas e saídas para lidarmos com a referida situação. Assim, se, de um lado, alguns grupos escolhem saídas pelo niilismo ou pela barbárie, de outro, muitos grupos tentam fugir do desamparo por caminhos pragmáticos: aqui então vemos a busca tanto de uma série de discursos religiosos, quanto de soluções imediatistas pelas drogas, sejam elas ilícitas (provindas do narcotráfico), sejam psicofármacos (drogas lícitas). Isto quando, ainda dentro da mesma opção, busca-se uma terapia pragmática que promete curar sintomas em poucos encontros, bem ao gosto da oferta e da procura do mercado: "A descrença no projeto iluminista é a condição histórica de possibilidade dessa moral e dessas tecnologias de se defrontarem com a dor. A busca de soluções homogeneizantes e anti-singularizantes são características maiores desse ideário pós-iluminista" (Birman, 1977, p. 72).

A questão, aqui, é que esse "silêncio da singularidade" é um dos acontecimentos que estão no cenário dos múltiplos fatores que hoje corroboram para o crescente descrédito da Psicanálise14 e também, de acordo com Sennett (2006), esse descrédito segue a tendência de só admitirmos valores de "curto prazo". Tais valores, por sua vez, podem gerar a própria corrosão do caráter na cultura do capitalismo atual. Daí, considerando que essa corrosão é feita em nome dos lucros desmedidos, extingue-se a rede de direitos sociais universais e se destrói o Estado, que, passando a funcionar apenas como fachada para a maioria da população, contribui para que o desamparo atinja graus inigualáveis (Birman, 2006). Isto sem contar que as "saídas" pragmáticas e homogeneizantes são problemáticas, porque, se implicam uma espécie de canto de sereia dito moderno ou pós-moderno,15 prometendo a salvação ou a cura imediata para o desamparo radical dos dias presentes, o fato é que as promessas não se sustentam.

Isso, em síntese, implica: a) Critica-se aqui a modernidade tardia. Esta, em tese, além de submeter todos a um pensamento único em prol da ordem mercadológica, de um lado tem a produção de subjetividade como uma das grandes aliadas em termos de se reproduzir indivíduos assujeitados a essa égide. Entretanto, de outro lado, vê-se também que há a possibilidade de repensar a subjetividade de maneira diversa, por via de uma Psicanálise que pode pensar sujeitos da diferença, notadamente contra a unidimensionalidade. Vale ressaltar que, se o sujeito da diferença é múltiplo e gerado por um processo indeterminado, o indivíduo sob a ótica unidimensional, em geral, tende a seguir a subjetividade hegemônica que a rubrica como predeterminado e com representações cristalizadas; b) Ao contrário desse e de outros determinismos dados a priori, o sujeito da diferença em questão, segundo Birman, acima de tudo é gestado por um processo singular que se dá através de uma estética e ética, notadamente a partir do espaço psicanalítico. Obviamente que esse processo não segue padrões universais, os quais podem estar relacionados a um determinismo econômico, estruturalista, cientificista e por aí afora.

O deslocamento teórico da metapsicologia freudiana do conceito de inconsciente para o da pulsão é o signo revelador de uma virada crucial do determinismo para o indeterminismo. A suspensão das certezas da rememoração e da sua absoluta necessidade para verificar as interpretações do analista foi uma das conseqüências importantes. (Birman, 1997, p. 159)

Diante disso, espera-se que, através do espaço analítico, o analista se indague constantemente sobre os efeitos e afetações dessa experiência transferencial com cada cliente. Basta recordar que esse "espaço" será tomado menos por quaisquer determinismos e mais por um campo de forças intensas, tal como se fosse um espaço de guerra cujas cartografias, armas e trincheiras vão se modificando em razão de um fluxo múltiplo de acontecimentos. Em outras palavras, ao tratarmos disso, estamos em face de um processo de se gestar um sujeito da diferença significativa, sobretudo através de uma estilística da existência.

Em relação às "pontes" entre essa escrita e a da Deleuze, além da escrita "de fora" e da "dita menor" que trata de criar uma língua estrangeira dentro da própria Psicanálise, como já vimos, destacam-se agora a "escrita do devir" e a da "porção de saúde". Quanto ao primeiro tipo de escrita, vê-se que, pensando o sujeito da diferença pelo espaço analítico, acima de tudo está se discutindo um sujeito do devir que se apresenta sempre inacabado, "em vias de se fazer". Isto sem contar que tal circunstância nos abre ainda uma brecha, no sentido de se pôr à baila a invenção de um sujeito que se elabora por cartografias de múltiplas possibilidades em uma zona de vizinhança entre o sonho desse projeto e os impasses da atual modernidade tardia. Lembramos que aqui a escrita do devir, como se viu no pensamento deleuziano, não visa propriamente atingir uma forma, mas romper com a forma dita hegemônica. Estamos falando disso, mas também de um projeto pela escrita psicanalítica de Birman, traduzindo-se no fato de se cunhar um sujeito menos por uma falsa cura ou normalização psicologizante e mais por uma ética e uma estética cujo processo ele denomina de estilística da existência.

De outro lado, a ponte entre Deleuze e Birman em termos da "escrita da porção de saúde" pode ser exemplificada, entre outras ilustrações, de duas maneiras básicas: a) Partindo do pressuposto de que a linha de fuga pela porção de saúde, como já se expôs, cria um determinado grupo que responde por uma minoria que tende a desterritorializar a posição hegemônica, aqui estamos falando da invenção de sujeitos polifônicos e não rubricados a priori por quaisquer determinismos; esses sujeitos podem ser uma das grandes contribuições da Psicanálise diante da questão do desamparo16. Vale lembrar que, até o presente, para enfrentar tal circunstância buscam-se frequentemente apenas soluções pragmáticas, que, além de estarem exclusivamente comprometidas com a subjetividade hegemônica e sua mesmice, na realidade apresentam-se como verdadeiro engodo em termos do enfrentamento da questão; b) Considerando que, para Deleuze, escrever pela "linha de fuga" é também correr riscos de se viver experiências pelo território da demasia e do esgotamento para o humano. Basta dizer que, ao vivenciar tais experiências, o indivíduo pode reduzir a linha de fuga a uma mera destruição, mas também colocar essas mesmas experiências a favor da vida. E, evidentemente, através do caminho inverso ao da destruição, ele cria valores singulares, seja através da arte, da ciência e da escrita em prol dele mesmo e do grupo social, o que aqui se traduz pela escolha da expressão "porção de saúde". Enfim, diante deste quadro, estamos também tratando do ponto de contato entre as escritas desses dois autores.

Para melhor entender este último ponto do item b acima, acrescentemos que, para Birman (1996), a escrita psicanalítica pode ser desvelada como uma experiência sui generis, basicamente a partir de duas vivências: 1ª - escrita psicanalítica e vivência com o inconsciente: apesar da relevância da experiência do inconsciente, pois nos coloca diante da estranheza e do desamparo, que, mais dia menos dia, nós teremos de enfrentar, essa experiência é uma das portas de acesso, mas, em si mesma, não é necessariamente sinônimo da vivência com a escrita psicanalítica; 2a - escrita psicanalítica, desamparo e vivência ímpar no sujeito: o desamparo pode nos pôr diante da situação trágica da existência, porém, além disso, para se entender realmente essa escrita, o sujeito não só precisa tomar contato com essa vivência, mas também, ao retornar, dizer algo que possa ser legado ímpar para si e para todos através de sua escrita. Apresentando de outro modo, em tese, quando o indivíduo enfrenta a referida vivência, de um lado, em alguns casos, tal acontecimento pode esgotá-lo, de outro, no seu retorno, ele pode expressar essa marca única das vivências inconscientes no combate a esses e outros acontecimentos que querem aprisionar a vida.17 O curioso é que, nesse combate, o sujeito acaba tanto reinventando a si próprio, quanto também, através da arte da escrita psicanalítica, mostra uma expressão "singular de sua existência para seus pares e para os jovens analistas. Isso implica que a sua experiência como analista e como analisando o leva, por um lado, a dizer algo de singular de sua experiência do inconsciente e, por outro, a dizer algo da teoria psicanalítica". Desta maneira, "o psicanalista imprime a marca do seu desejo e de sua descoberta diferenciada do inconsciente na sua maneira de dizer algo sobre a Psicanálise, enunciada ao mesmo tempo de modo inventivo e criativo" (Birman, 1996, p. 85)18.

 

3. Principais conclusões

3.1. Não podemos afirmar que a obra de Birman está em total acordo com o pensamento deleuziano, mas sim que, no que tange a alguns pontos importantes de sua escrita, há intercessões com a de Deleuze. Isto se constata no seguinte: a escrita desse psicanalista, de um lado, apresenta significativas proximidades com os quatros principais pontos que caracterizam a expressão do citado filósofo (ver parte "1" deste artigo); de outro, lançando mão do dispositivo "linha de fuga", que pode criar fissuras nas muralhas do estabelecido, a expressão em questão de Joel Birman traz à tona um horizonte singular na Psicanálise. Desta maneira, aponta caminhos criativos para essa disciplina através das noções de uma "Psicanálise de língua menor", "escrita do devir", "porção de saúde", "escrita de fora". A escrita desse psicanalista, por conseguinte, marca uma diferença que faz a diferença, principalmente em termos de se ver, pensar e sentir o objeto da Psicanálise.

3.2. Do ponto de vista específico da Psicanálise, pode-se dizer que a escrita de Birman inova, sobretudo por apontar para dois fatores primordiais do objeto psicanalítico: de um lado, pontua a discussão sobre o feminino através do qual se pode implementar uma outra maneira de se pensar o erótico, que não se reduz apenas à questão do familialismo fálico; de outro, frente ao desamparo, mostra que se pode pensar num sujeito da diferença, que, como vimos, além de ser problematizado como processual e inacabado, constitui-se dentro de "um estilo possível para se lidar com conflitos insuperáveis, inventando sujeitos diversos ao padrão psicologizante por uma estilística da existência" (Birman, 1997).

3.3. Considerando as argumentações apresentadas aqui pela escrita de Birman, podemos dizer que ele, juntamente com alguns outros autores, tais como Marcuse (1981), é alguém que tanto problematiza o objeto psicanalítico, criando uma Psicanálise sintonizada com as mudanças psicossociais da atualidade, quanto aponta para a possibilidade de se cunhar um novo princípio de realidade,19 o que pode nos dar elementos a favor da luta pelo sonho de uma sociedade mais justa.

3.4. A escrita do psicanalista Joel Birman pode ser apresentada ainda como uma das escritas de mestre, que, às vezes, se aproxima da escrita dos verdadeiros criadores da arte da palavra.20 Assim, baseando-se em estudos de Freud para discutir o feminino e o erótico, Birman não só oferece outros elementos para enriquecermos a leitura freudiana, como também recria e combate algumas cristalizações que podem asfixiar o objeto psicanalítico. Fato que, no caso, pode marcar especial diferença com muitas outras escritas do campo analítico. Enfim, estamos aqui diante de uma escrita que, talvez por ousar enfrentar as questões atuais, está ganhando destaque por dizer algo singular: discute a Psicanálise pela afirmação da diferença, longe de "igrejismos" e outros problemas que podem destruir o potencial criador, inventivo e demolidor, que o próprio Freud caracterizou como o lado de "peste". 

 

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Recebido: 28/09/11
Aceito: 11/03/2013

 

 

Rogério Lustosa Bastos, professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor pela PUC/SP. Pós-doutor em Psicanálise pela UERJ. Dentre as suas principais publicações na área, destacam-se: "Psicanálise e pesquisa" (2009); "Poética e Psicanálise" (2004). Endereço para correspondência: rogerlustosa@ufrj.br
1    Este texto deriva de pesquisa sobre a escrita, elaborada em 2011, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da ESS/UFRJ.
2    Neste trabalho vamos definir a escrita pela perspectiva de Barthes (1992). Este postula que “ela não é o escrito” (p. 12), sendo antes um dispositivo de que se lança mão para falar de uma experiência diferencial com todo tipo de linguagem (linguagem como conhecimento, natureza, mundo objetivo ou subjetivo, como percepção que se tem do real etc.). Argumenta, ainda, que, se a escrita é um dos grandes instrumentos para que o homem deixe seu legado, isso pode ocorrer não necessariamente apenas de forma engajada, mas até em alguns casos por escritas aparentemente despolitizadas, tal como se fossem expressas por um “ponto zero” (Barthes, 1989).
3    Joel Birman, em artigo sobre Deleuze, aponta que o Anti-Édipo não foi escrito necessariamente contra o pensamento freudiano: “Isso não quer dizer, é claro, que Freud também não seja atingido...- o complexo de Édipo é um conceito freudiano, e muitas páginas do Anti-Édipo estão centradas numa crítica sistemática a Freud, mas a crítica se dirige claramente ao pensamento de Lacan” (Birman, 2000a, p. 468). Dentre as principais razões disso, destaca-se: mesmo que Lacan apresente todo um “percurso teórico posterior a 1953 na crítica sistemática à psicologia norte-americana do Eu, Deleuze e Guattari mostram com precisão que o Édipo estrutural acaba reconduzindo Lacan a uma leitura do sujeito centrado no Eu e na pessoa, e não a uma concepção da subjetividade centrada na ideia de singularidade. Esta, ao contrário, estaria fundada, de forma paradoxal, no atributo da impessoalidade” (p. 472).
4    A psicanalista francesa, ressaltando que Deleuze foi um pensador radicalmente contra a tormenta dos dias atuais, ainda a propósito, argumenta: ele não só alimentava uma oposição forte a qualquer redução da vida a um “negócio-privado”, como também “anunciava a chegada de um mundo unidimensional sem cultura e sem alma, inteiramente submetido às leis do mercado e à política das coisas” (Roudinesco, 2007, p. 210).
5    Especificamente, para escrever sobre a escrita da linha de fuga neste ensaio usamos as seguintes fontes: a) quanto à obra deleuziana na associação com a literatura: Deleuze (1977, 1987,1997, 1998, 2009); b) quanto aos autores que nos apoiam no entendimento de Deleuze tendo em vista a nossa questão: Machado (2010); Schöpke (2004), Bastos (2004).
6    Nesse ponto, apesar de acharmos que Deleuze não é adepto da “escrita engajada” defendida por Sartre, independentemente disso ele se aproxima deste último autor. Tal fato ocorre quando Sartre diz que, no fundamental, o ser humano só escreve para buscar a liberdade, ou seja, não há escritor que use de sua escrita para promover e defender a escravidão (Sartre, 1989).
7    Vale assinalar que uma das funções da literatura menor não é a de representar, mas sim a de inventar grupos novos. Estes surgem não para dominar, mas para constituir uma minoria, uma dissidência criadora insurgindo-se contra o estabelecido que se apresenta tanto como portador da verdade única, quanto da verdade cristalizada. Assim, diz-nos Deleuze: “Se o escritor torce a linguagem e cria perceptos e afetos, (isto se dá) tendo em vista o povo que ainda falta” (Machado, 2010, p. 216).
8    Sobre essa questão, referimo-nos não à diferença que tenha apenas a aparência de mudança (em geral, as estimuladas pela ordem atual, as quais são as que são “capturas” em prol da homogeneização), mas, ao contrário, aqui estamos nos referindo à busca da diferença significativa, a diferença que não se negocia.
9    Vale a pena registrar que, a partir do trecho acima, ainda na obra e na página citadas, Deleuze ilustra com uma citação de Le Clézio (“La Nuit remue”): “Um dia talvez saberão que não há arte, mas apenas medicina.”
10 Ser nômade, para Deleuze, é principalmente manter-se à parte da rede de poder hegemônica, pois é ela, com seus aparelhos estabelecidos, que busca combater toda e qualquer diferença, capturando a todos e a tudo. Diante disso, faz-se necessário criar uma máquina de significação que tanto questione essa rede de domínio (que, até então, beneficia o modo sedentário), quanto estabeleça rupturas para ampliar a nossa forma de ver a vida, construindo outros modos de relação.  A máquina de significação aqui é sinônima de “máquina de guerra”, mas há, neste ponto, um detalhe: além de buscar fazer fissuras na ordem, a máquina deleuziana não é igual à máquina de guerra da atual sociedade globalizada. Basta lembrar que esta última não só defende a visão sedentária hegemônica, como também se refere aos interesses da indústria de armas que mobiliza exércitos e toda uma alta tecnologia apenas para defender interesses econômicos, em detrimento dos povos, da vida, da própria paz e da cidadania mundial.
11 Nesse sentido, dentre os seus principais escritos que atestam essa direção, destacamos: Birman, 1991, 1997, 2000b, 2002, 2006.
12 “Se a leitura inicial de Freud foi efetivamente falocêntrica, marcada pela moral do patriarcado - leitura esta que foi, aliás, bastante radicalizada por Lacan -, o que ambos revelaram foi como o inconsciente, tal como a Psicanálise o vivenciou, foi permeado pelos valores fundamentais do patriarcado. É preciso destacar que o inconsciente sexual, tal como foi descrito pela Psicanálise, foi historicamente construído, de forma que é preciso retirá-lo agora de sua a-historicidade pretensamente universalista, para submetê-lo, sob a forma de uma genealogia, a uma desconstrução conceitual, ética e política, como nos indicou o discurso freudiano no fim do percurso.” (Birman, 2006, p. 312).
13 Neste particular, em síntese, para entender melhor Freud e a sua teoria cultural, que aqui discute também as vicissitudes das pulsões, podem-se ler, entre outras obras, as seguintes: Bastos (2010); Birman (2006); Freud (1930/1974).
14 Além das questões conjecturais que apontam que mundialmente, principalmente com o retorno da visão organicista e pragmática, o interesse a respeito da Psicanálise está em baixa, há também uma razão interna influenciando: referimo-nos às guerras entre as diferentes escolas e linhas do entendimento sobre o que é a Psicanálise. Apesar desses “igrejismos” existirem desde os tempos de Freud, atualmente, em nome da preservação de uma suposta “pureza” do objeto, tal movimento, na maior parte das vezes agindo de forma sectária, tende paradoxalmente a corroborar para a própria destruição da disciplina.
15 Quanto à questão da pós-modernidade, neste particular, há duas visões básicas em jogo: de um lado, há a visão europeia, que aponta que não se está em um mundo pós-moderno, mas sim em uma modernidade tardia; de outro, há uma visão norte-americana, que defende que se está sim nesta fase. Nesta última posição, entre outras questões afirma-se que se está no fim da história e, para piorar, defende-se que o único modelo de vida possível é o “modo de vida americano”, base para o pensamento unidimensional da globarbarização atual (Birman, 2006).
16 Quanto ao desamparo da visão de Deleuze e da leitura da psicanálise hegemônica, em tese, pode-se dizer: relacionando tal discussão ao mito do eterno retorno, enquanto o pensamento deleuziano o problematiza pela repetição da diferença que faz a diferença, a psicanálise hegemônica tende a pensá-lo pela repetição do mesmo. Traduzindo: na primeira perspectiva, a situação do desamparo nos coloca diante de um “jogo”, no qual não se espera nenhum resultado, mas sim a afirmação desse jogo que Deleuze, em sua leitura de Nietzsche, denomina de “niilismo afirmativo”. Daí que, aqui, é possível pensar um sujeito longe de representações fixas. Na segunda perspectiva, ao contrário, esse “jogo” deve ser reduzido a resultados e há, neste particular, muitas chances tanto de se caminhar identificado com o estabelecido, com o controle, quanto com a elaboração de um sujeito de representações predeterminadas. Contudo, nesta última posição, há exceções: referimo-nos a uma psicanálise dita menor, que se dá principalmente na perspectiva de Joel Birman e de Fábio Herrmann. Assim, trataremos tal discussão em uma pesquisa que está sendo desenvolvida, a qual, depois de concluída, será transformada em um artigo cujo título será: “A questão da repetição da diferença no mito do eterno retorno: análise do desamparo em Deleuze e nas diferentes leituras de psicanálise”. Além disso, por hora, entre outras sugestões bibliográficas sobre o debate, destacamos: Birman (1996, 2006); Deleuze (2009, s.d.); Herrmann (2001).
17 Intrigantemente, aqui, parece-nos que há um ponto de contato entre a Psicanálise e algumas perspectivas literárias, tais como a de Benjamin (1992), notadamente quando este último autor defende que fazer literatura, antes de tudo, é se expressar através da experiência, que, aqui, é a alma da narrativa.
18 Se o analista, diz-nos Birman, diante do trágico e do desamparo, também se constrói de forma ímpar através de uma estilística da existência, agora cabe discutir o mesmo fato pelo lado do cliente em análise. Assim, afirma: “É preciso desfalecer enquanto sujeito da representação, mesmo que seja momentaneamente, abolindo certezas enraizadas em situações cruciais. É justamente essa vacilação abissal que se pretende produzir na experiência psicanalítica que ora descrevo. Neste contexto, o desfalecimento do sujeito da certeza é a condição de possibilidade para que algo ‘a mais' se produza, tendo como pano de fundo o “a menos” da elaboração racional.... Algo que possibilitasse enunciar frases como: ‘Eu não sou quem eu pensava que era'. Ou, então, formular que ‘nada mais me resta'. Ou, ainda, dizer de forma mais radical: ‘eu não sou nada'.” (Birman, 1996, p 105).
19 Quanto ao problema de se criar um novo princípio de realidade, inclusive a partir da leitura de Freud por Marcuse, entre outros, ler Bastos (2010).
20 Segundo Pound (1990), há basicamente seis tipos de escrita: 1ª) escrita dos inventores: a dos criadores que trazem algo realmente singular; 2ª) escrita dos mestres: a dos que estudam os inventores e, às vezes, são tão aplicados que acabam se aproximando deles, e também, em alguns casos, transformam-se nos próprios “inventores”; 3ª) escrita dos bons escritores: a dos que atuam sem apresentar qualquer inovação, o que não os desmerece, pois a maioria dos escritores se situa aqui, constituindo o conjunto dos escritores que criam uma escrita de qualidade mediana; 4ª) escrita dos beletristas ou especialistas: a dos escritores que não inventam nada nem se destacam por uma escrita razoável, mas contribuem com pesquisas e estudos; (5ª ) escrita dos diluidores: a dos escritores que, na verdade, não passam de “imitadores baratos”, perseguindo apenas os “15 minutos de fama”, em nada contribuindo, exceto para alimentar os negócios e o lado mais efêmero, no mal sentido, da literatura; 6ª) escrita dos lançadores de modas: a dos que “fabricam modas”, sendo, portanto, mais agentes do mercado e do pragmatismo dos lucros do que da escrita literária.

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