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Psicologia USP

versão impressa ISSN 0103-6564versão On-line ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.27 no.2 São Paulo mai./ago. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0103-656420140071 

Artigos originais

Contribuições da hermenêutica de Paul Ricoeur à pesquisa fenomenológica em psicologia

Contributions de l'herméneutique de Paul Ricoeur à la recherche phénoménologique en psychologie

Aportes de la hermenéutica de Paul Ricoeur a la investigación fenomenológica en psicología

Maria Lúcia de Almeida Melo1  * 

1Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Educação, Departamento de Fundamentos da Educação. São Paulo, SP, Brasil

Resumo:

O trabalho objetiva apreender a especificidade e refletir sobre possíveis contribuições do método fenomenológico-hermenêutico de Paul Ricoeur à pesquisa fenomenológica em psicologia. Os resultados revelam que, na psicologia fenomenológica empírica, compreensão é sinônimo de interpretação e significa apreensão direta da estrutura do vivido (polo objetivo do círculo hermenêutico), ao passo que, na perspectiva hermenêutica de Ricoeur, é a aceitação radical da interpretação - entendida como resultado da dialética compreensão/explicação - atuante no decorrer de toda a investigação, o que assegura o reconhecimento da presença inalienável da subjetividade e o atendimento às exigências de rigor científico. Conclui-se que a hermenêutica de Ricoeur contribui para o aperfeiçoamento da psicologia fenomenológica empírica, uma vez que lhe oferece condições de maior coerência, consistência, profundidade e abrangência.

Palavras-chave: psicologia fenomenológica; pesquisa qualitativa; Paul Ricoeur; métodos de pesquisa - psicologia

Résumé:

Cet article vise à saisir la spécificité de la méthode phénoménologique-herméneutique de Paul Ricoeur et à réfléchir sur ses possibles contributions à la recherche en psychologie phénoménologique. Les résultats montrent que, dans la psychologie phénoménologique empirique, la compréhension en tant que synonyme d'interprétation signifie le moyen d'appréhension directe de la structure du vécu (pôle objectif du cercle herméneutique), tandis que dans la perspective herméneutique de Ricoeur, c'est l'acceptation radicale de l' interpretation - comprise comme le résultat de la dialectique compréhension/explication -, laquelle agisse au cours de toute l'enquête, qui assure la reconnaissance de la présence inaliénable de la subjectivité et le respect aux exigences de la rigueur scientifique. En conclusion, on peut dire que l'herméneutique de Ricoeur contribue à l'amélioration de la psychologie phénoménologique empirique, car elle l'offre des conditions pour une plus grande cohérence, consistance, profondeur et largeur.

Mots-clés: psychologie phénoménologique; recherche qualitative; Paul Ricoeur; méthodes de recherche - psychology

Resumen:

Este artículo tiene el objetivo de evaluar la especificidad y de reflexionar sobre las posibles contribuciones del método fenomenológico-hermenéutico de Paul Ricoeur a la investigación fenomenológica en psicología. Los resultados muestran que, en la psicología fenomenológica empírica, la comprensión y la interpretación son sinónimos de medios de aprehensión directa de la estructura de la experiencia vivida (punto objetivo del círculo hermenéutico), mientras que, en la perspectiva hermenéutica de Ricoeur, es la aceptación de la interpretación radical -entendida como resultado de la dialéctica comprensión/explicación- actuando en el curso de toda la investigación, lo que le asegura el reconocimiento de la presencia inalienable de la subjetividad y el cumplimiento de los requisitos de rigor científico. Se concluye que la hermenéutica de Ricoeur contribuye a la mejora de la psicología fenomenológica empírica, ya que le proporciona las condiciones para una coherencia, consistencia, profundidad y amplitud más amplias.

Palabras clave: psicología fenomenológica; investigación cualitativa; Paul Ricoeur; métodos de investigación-psicología

Introdução

O presente trabalho originou-se da convicção pessoal, crescentemente conquistada, quanto à impossibilidade de dissociar o sujeito do objeto no processo de investigação. Impôs-se a partir de minha própria experiência como pesquisadora no contexto da psicologia experimental e assumiu paulatinamente os contornos de uma postura filosófica e científica apoiada na psicologia fenomenológica (ver seção 2). Na ocasião, foi também a partir do próprio exercício de investigação que fui remetida ao âmbito das teorias hermenêuticas - a impossibilidade de dissociar a compreensão da interpretação na leitura de um texto; a necessidade de melhor entender a distinção frequentemente estabelecida entre compreender e explicar; a necessidade de aprofundar o nível de leitura e interpretação de um texto de modo a apreender seus significados consciente/pré-conscientes e inconscientes, no sentido sistemático (tópico e dinâmico) do termo (Freud, 1915/1974, p. 198; Ricoeur, 1978, pp. 87-104). Assim aportei na hermenêutica de Paul Ricoeur (seções 2, 5 e 6).

Viso, aqui, responder às seguintes interrogações: a) qual a especificidade da abordagem fenomenológico-hermenêutica em relação à abordagem fenomenológica científica ou empírica, empregada em pesquisas no campo da psicologia? b) como a abordagem fenomenológico-hermenêutica, particularmente a representada pelo pensamento de Paul Ricoeur, responde (se é que o faz) às inquietações acima explicitadas, originadas de minha práxis como pesquisadora?

Mais diretamente, o trabalho consiste numa sistematização de leituras e reflexões realizadas com vistas a apreender a especificidade e a refletir sobre possíveis contribuições do método fenomenológico-hermenêutico de Paul Ricoeur à pesquisa fenomenológica em psicologia.

A exposição está organizada em mais cinco seções. Na próxima, contextualizo e delimito o presente trabalho; em seguida explicito o método de investigação psicológica proposto por Amedeo Giorgi e inicio uma reflexão comparativa entre as abordagens fenomenológica e hermenêutica em psicologia. Nas duas seções subsequentes, reflito sobre a técnica de entrevista psicológica à luz dessas abordagens (4ª seção) e sobre a própria psicologia fenomenológica como um empreendimento coincidente com a hermenêutica de Paul Ricoeur (5ª seção). Ainda nesta seção, apresento ao leitor alguns conceitos básicos dessa hermenêutica e, por fim, exponho as conclusões viabilizadas pelo estudo (6ª seção).

Hermenêutica, Fenomenologia e Psicologia Fenomenológica

O ator encaminha-se ao palco para interpretar um papel; os integrantes de uma orquestra interpretam sinfonias, partituras musicais; um estudante é solicitado a interpretar textos; um sacerdote interpreta os livros sagrados; um cientista interpreta dados; um juiz profere sentenças baseado na interpretação de leis; um psicanalista interpreta a transferência, bem como fantasias, sonhos, discursos de seus pacientes; ao traduzir um texto para outro idioma, necessariamente o interpretamos; às vezes interpretamos bem, às vezes mal o que nos é dito ou feito; há momentos em que concordamos e há outros em que discordamos de como nosso gesto foi interpretado...

É notável como o verbo interpretar ("hermeneuein") e o substantivo interpretação ("hermeneia") são variada e amplamente empregados em nosso idioma, o que não quer dizer que em todos esses casos está-se procedendo a uma hermenêutica.

Etimologicamente, em seu antigo uso, o termo hermenêutica pode significar: "1) exprimir em voz alta, ou seja, 'dizer'; 2) explicar, como quando se explica uma situação; 3) traduzir, como na tradução de uma língua estrangeira" (Palmer, 1969/1986, pp. 23-24).

Mas isso não basta para esclarecer minimamente o significado de hermenêutica, tampouco para elucidar a relação entre fenomenologia e hermenêutica, uma vez que estamos tratando de duas tradições filosóficas distintas e complexas em seus desdobramentos e especificidades (Kvale, 1983).

No primeiro caso, vale lembrar a diversidade de formulações que vão da fenomenologia transcendental de Husserl à ontologia existencial de Heidegger, às fenomenologias existencial de Sartre e existencial-mundana de Merleau-Ponty, entre outras, cada uma com suas próprias questões e particularidades (Amatuzzi, 1996, 2009; DeCastro & Gomes, 2011; Feijoo & Mattar, 2014; Moreira, 2004).

Quanto à hermenêutica, é preciso dizer que estamos diante de palavra portadora de uma questão - a questão do signo e da significação - levantada primeiramente pela exegese ou "disciplina que se propõe a compreender um texto a partir de sua intenção, baseando-se no fundamento daquilo que ele pretende dizer" (Ricoeur, 1978, p. 7).

Inicialmente tratada como um desafio de ordem técnica, configurou-se a partir do século XIX, com Schleiermacher e Dilthey, como um problema filosófico: o problema geral da compreensão. A partir daí, a questão já não se restringe a o que dizem os textos, mas a o que significa compreender um texto.

Mais tarde, com o surgimento das ciências semióticas, introduzem-se novas indagações: o que é um texto? No que se distingue a linguagem falada da linguagem escrita? Quais as implicações dessa passagem para o processo de compreensão?

A partir do século XX passou a existir uma nítida polarização entre duas tradições hermenêuticas: a primeira, originada em Schleiermacher e Dilthey (século XIX), é representada mais recentemente pelo pensamento de Emílio Betti e Hirsch e constitui-se como um corpo geral de princípios metodológicos, pautado pelo ideal de objetividade e validação das interpretações construídas; a segunda realça o caráter histórico da compreensão e, consequentemente, as limitações de toda pretensão a um conhecimento objetivo, como é o caso das hermenêuticas filosóficas de Heidegger, Gadamer, Bultmann, Ebeling e Fuchs (Palmer, 1986). A hermenêutica fenomenológica de Paul Ricoeur, a seu modo, caracteriza-se pelo reconhecimento da tensão, permanentemente atuante, entre objetividade/subjetividade ou compreensão/explicação, do começo ao fim do processo de interpretação (Melo, 2011).

Assim, o termo "hermenêutica" e os problemas da compreensão/interpretação estão presentes hoje tanto nas discussões filosóficas como teórico-científicas e técnico-metodológicas (Denzin & Lincoln, 2006).

Convivemos atualmente com várias fenomenologias e diversas hermenêuticas, ancoradas em diferentes pressupostos ontológicos, epistemológicos, teóricos e metodológicos.

Não é o caso, aqui, de explorar tão vastos e diversificados campos de estudo, mas, tão somente situar o leitor no contexto mais amplo em que se insere o presente trabalho, de modo a delimitar o que estamos entendendo por psicologia fenomenológica.

Segundo Amatuzzi (2009), é possível distinguir pelo menos quatro possíveis articulações entre fenomenologia e psicologia. Quando a fenomenologia: a) privilegia objetos de estudo, tais como a imaginação, a percepção, a linguagem etc., objetos esses investigados também pela psicologia científica; b) atua como instância crítica da própria psicologia, na medida em que discute os fundamentos dessa ciência; c) visa esclarecer a vida humana a partir de seus próprios postulados filosóficos (Binswanger, Heidegger, Frankl, Boss) e se formula, assim, mais nitidamente, como psicologia; por fim, d) quando a fenomenologia visa construir-se como um fazer científico com base em estudos qualitativos produzidos a partir de relatos de experiências vividas e situadas, como é o caso da psicologia fenomenológica científica ou empírica. É essa interface fenomenologia/psicologia que será contemplada neste trabalho.

Do ponto de vista histórico (DeCastro & Gomes, 2011), essa modalidade de pesquisa psicológica fortaleceu-se nos Estados Unidos da América, em meados das décadas de 1960 e 1970, capitaneada por psicólogos associados à Duquesne University, entre eles Aanstoos, Amedeo Giorgi e muitos outros. Expandiu-se na Inglaterra, com ênfase no contexto de saúde e educação (na Sheffield Halam University), em meados da década de 1980; realizou-se nos moldes experimentais, na Escola Copenhagen de Psicologia Fenomenológica, em meados da década de 1950; e vem se aproximando da neurociência, a partir do empenho de psicólogos cognitivistas e neurocientistas, como Gallagher e Varela.

No Brasil, o início consistente da aplicação do método fenomenológico em pesquisas psicológicas é atribuído ao grupo de pesquisa coordenado pelo professor Joel Martins, da Pontifícia Universidade de São Paulo, na década de 1970 (Forghierri, 1993; DeCastro & Gomes, 2011). Nas últimas décadas, outros grupos de pesquisa se firmaram, associados a programas de pós-graduação, cada um com seus próprios interesses e apoios epistemológicos, como o Laboratório de Fenomenologia Experimental e Cognição, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; o grupo de pesquisa Processos Psicológicos: abordagens qualitativas, da PUC-Campinas; o Laboratório de Psicopatologia e Psicoterapia Humanista Fenomenológica Crítica, da Universidade de Fortaleza (DeCasto & Gomes, 2011).

Na construção deste trabalho, a psicologia fenomenológica de Amedeo Giorgi (1978, 1985, 2008) será nossa referência. Primeiro, por seu caráter inaugural como pesquisa fenomenológica empírica em psicologia; segundo, por essa tradição de pesquisa ter ensejado reflexões sobre a contribuição do pensamento hermenêutico à psicologia fenomenológica, como veremos a seguir (Giorgi, Knowles, & Smith, 1979); e terceiro, por sua influência no grupo de pesquisa do Prof. Joel Martins (Martins & Bicudo, 1989; Bicudo, 2011), berço da minha formação em fenomenologia e hermenêutica. Examinemos, então, mais detalhadamente, essa maneira de pensar e de fazer psicologia.

Psicologia fenomenológica e psicologia fenomenológico-hermenêutica

Como é possível construir um conhecimento cientificamente válido, isto é, de modo metódico, sistemático e rigoroso e, ao mesmo tempo, de modo a contemplar a especificidade do ser humano, entendido como ser simbólico, histórico e social? Essa tem sido a questão privilegiadamente tratada por Amedeo Giorgi.

Para ele, a psicologia fenomenológica não se confunde nem com a filosofia fenomenológica nem com a ciência natural, embora seja científica e ao mesmo tempo fenomenológica. É científica na medida em que compartilha com a ciência a exigência de rigor metodológico na construção do conhecimento, e é fenomenológica na medida em que busca realizar uma análise de significados psicológicos de fenômenos tais como vividos e experienciados. Giorgi (1985, p. 40) faz suas as palavras de Merleau-Ponty (1962) - 'O real não é para ser construído ou explicado, é para ser descrito' - e diz entender a fenomenologia segundo a ótica desse autor, tal como expressa em A Fenomenologia da Percepção.

De acordo com essa orientação filosófica, o método fenomenológico apresenta as seguintes características: é descritivo, isto é, aplica-se a descrições ingênuas, sem quaisquer categorias de análise ou de explicações prévias; é redutor, ou seja, descreve a experiência tal como ela se apresenta ao investigador, e tanto o objeto da experiência como os atos de consciência são reduzidos; busca as essências ou procura compreender a estrutura das relações vividas. Para isso emprega-se a variação imaginária, a fim de descobrir quais os significados da experiência que devem necessariamente pertencer ao fenômeno em estudo; e fundamenta-se na noção de intencionalidade, ou seja, compreende que a consciência é sempre dirigida ou orientada para algo que não a própria consciência (Giorgi, 1985, pp. 42-44).

Todavia, embora apoiado na concepção de método fenomenológico, inaugurada por Husserl e reformulada por Merleau-Ponty, o método proposto por Giorgi - e amplamente adotado por outros pesquisadores - exigiu adaptações, de modo a possibilitar a realização de pesquisas de caráter científico.

Assim, na psicologia fenomenológica, as descrições da experiência vivida são fornecidas por outras pessoas que não o próprio investigador, pessoas essas não familiarizadas com os vieses ou teorias daquele que realiza a pesquisa. São descrições ingênuas, construídas mediante uma atitude natural, isto é, tais como se mostram espontaneamente aos informantes, obtidas por intermédio de questões orientadas apenas pelo tema do estudo e relativas às experiências desses sujeitos sobre uma situação específica. O pesquisador, por sua vez, descreve a estrutura da experiência vivenciada pelo sujeito e também apresenta suas descobertas de modo descritivo. A redução é parcial, isto é, o pesquisador rompe com a atitude natural (polo do objeto), mas admite atribuir significado ao que foi relatado pelos sujeitos pesquisados, considerando o tema de sua pesquisa (polo do sujeito). Além disso, enquanto na filosofia fenomenológica a redução precede necessariamente as descrições, no caso da psicologia orientada fenomenologicamente, as descrições ingênuas dos sujeitos, elaboradas segundo a atitude natural, são aceitas, e só então são examinadas mediante a redução fenomenológica. A pesquisa das essências ou das estruturas psicológicas não aspira à universalidade perseguida pela reflexão filosófica, mas essa investigação também não se restringe apenas ao nível da generalização empírica. O procedimento de variação imaginária é empregado para se apreender a estrutura geral do fenômeno que se investiga. Diz Giorgi (1985): "Os psicólogos estão mais interessados em essências ou estruturas relacionadas a determinados contextos, ou que são relevantes à situações ou à personalidades típicas" (p. 50), isto é, estão mais interessados em estruturas gerais ao invés de universais. Quanto à intencionalidade, considera que é mais significativo, no contexto da psicologia, pensá-la em termos de intencionalidade do comportamento, uma vez que este é sempre dirigido para uma situação e envolve o corpo, não como um objeto natural, mas como um objeto a ser tematizado (pp. 50-51).

Em termos práticos, a orientação metodológica oriunda da psicologia fenomenológica pode ser resumida nos seguintes passos:

1. Coleta de dados: obtenção de descrições da experiência dos sujeitos, quer por escrito, quer por intermédio de entrevistas; 2. Análise e interpretação dos dados: a) leitura completa das descrições para se obter o sentido geral das mesmas; b) releitura para identificação das unidades de significado, reveladoras do fenômeno em estudo; d) síntese das unidades de significado, ou relatório consistente e esclarecedor dos vários níveis das experiências do sujeito.

Referindo-se à psicologia fenomenológica-hermenêutica, Giorgi, Knowles e Smith (1979, pp. 179-181), na apresentação de estudos ilustrativos dessa orientação metodológica, no Duquesne Studies in Phenomenological Psychology (Vol. 3), esclarecem que a psicologia fenomenológico-hermenêutica, diferentemente da psicologia fenomenológica empírica, estende suas fontes de dados à literatura, à arte, aos mitos e às autobiografias e, do ponto de vista metodológico, é dada primazia ao ato interpretativo, embora os caminhos seguidos para alcançar tais resultados sejam muito variados e nem sempre suficientemente explicitados. Portanto, para esses autores, diferenças quanto à fonte dos dados e à natureza dos procedimentos empregados para se chegar às interpretações distinguem essas abordagens.

Pessoalmente, sou levada a crer que a psicologia fenomenológica, na medida em que se apoia numa orientação filosófica que busca superar a dissociação entre sujeito e objeto do conhecimento, faz uso da interpretação como meio de acesso a seu objeto de estudo (a experiência tal como vivida e relatada pelos sujeitos), uma vez que na descrição já há interpretação, ou seja, uma vez que, segundo a própria psicologia fenomenológica, a descrição de um fenômeno é necessariamente realizada a partir da perspectiva adotada pelo pesquisador. Porém, o objetivo dessa orientação de pesquisa (a descrição da estrutura geral da experiência) define o próprio limite de seu trabalho interpretativo. Trata-se, ao que tudo indica, de uma opção pelo processo de compreensão antes que pela tentativa de superar a antinomia inaugurada por Dilthey entre compreender e explicar (voltaremos a esse ponto no decorrer deste trabalho).

Quanto à diferença apontada por Giorgi, Knowles e Smith (1979) relativa à fonte dos dados da psicologia fenomenológica - os protocolos descritivos - e da psicologia fenomenológico-hermenêutica - a literatura, a arte, os mitos e as autobiografias - talvez fosse suficiente para marcar uma distinção naquele momento, porém, hoje, já não é o caso. Na atualidade, depoimentos escritos, diário de campo, grupos operativos e terapêuticos são exemplos de outros instrumentos adotados, se bem que a entrevista continua sendo o preferido nessa modalidade de pesquisa, tanto no Brasil como nos Estados Unidos (DeCastro & Gomes, 2011).

Mas não é isto o que quero ressaltar. Tendo em vista os objetivos do presente trabalho, o que importa é que, obtidos por meio de entrevistas ou não, no caso de pesquisas empíricas de cunho fenomenológico, os protocolos descritivos podem ser diferentemente ressignificados (compreendidos/interpretados), caso examinados à luz da perspectiva psicológica fenomenológica ou fenomenológico-hermenêutica, como nos alerta Kvale (1983), em artigo voltado para pensar comparativamente essas duas abordagens metodológicas no campo da psicologia. Senão, vejamos.

A entrevista psicológica na fenomenologia e na fenomenologia-hermenêutica

O que distingue basicamente a psicologia fenomenológica da psicologia fenomenológico-hermenêutica é a importância atribuída por esta última ao conjunto de informações, concepções, crenças e pressuposições do investigador na orientação de seu trabalho interpretativo (Kvale, 1983).

Tomando como objeto de análise a técnica de entrevista amplamente empregada na pesquisa qualitativa de cunho fenomenológico em psicologia - "entrevista cujo propósito é obter descrições do mundo-vida dos entrevistados com relação à interpretação do significado do fenômeno descrito" (p. 174) -, Kvale julga importante articular as contribuições oriundas da filosofia fenomenológica e as da hermenêutica1, para esclarecer o modo de compreensão envolvido nessa modalidade de pesquisa. Considera que tal empreendimento se justifica, uma vez que o que pode ser tido como fonte metodológica de erro, segundo a tradição filosófica positivista, é convertido em aspecto positivo do método, à luz das teorias da ciência oriundas da filosofia fenomenológica e da hermenêutica.

Refere-se à consciência ou ao mundo-vida como objeto de estudo da fenomenologia e aos textos ou ao discurso como texto como o objeto de análise da hermenêutica. Os textos produzidos por intermédio de entrevistas guardam assim um caráter misto dessas orientações filosóficas, na medida em que se materializam como textos e dizem respeito ao mundo-vida dos entrevistados.

Assim, de acordo com essas orientações filosóficas, a situação de entrevista é entendida, pelo autor, como envolvendo as seguintes características:

  1. É centrada no mundo vivido do entrevistado, porém possibilitadora de análise, quer orientadas para o tema em estudo quer orientadas para o sujeito;

  2. Visa compreender/interpretar o significado do fenômeno em estudo. Para isso, o investigador atua como intérprete já no momento da entrevista: registra tanto o que é dito como o que não é dito; atenta para as vocalizações, expressões faciais, posturas corporais; checa suas interpretações no transcurso da própria entrevista etc.

  3. É qualitativa: visa obter nuanças das descrições das experiências relatadas;

  4. É descritiva: visa obter relatos sobre o que o sujeito pensa, sente e como atua;

  5. É específica: descreve situações delimitadas e não opiniões gerais;

  6. Requer que o entrevistador esteja atento e vigilante à interferência de suas pressuposições sem, todavia, impedir-se de ser curioso e investigativo;

  7. Focaliza o tema em estudo de modo deliberado, porém não restritivo, ou seja, a entrevista não é nem inteiramente "estruturada" nem inteiramente "não diretiva". A tarefa do entrevistador é guiar o entrevistado para o tema e não para certas opiniões sobre o tema;

  8. Procura esclarecer as contradições, ambiguidades, inconsistências e ambivalências do entrevistado no decorrer da própria entrevista;

  9. O pesquisador aceita eventuais descobertas e mudanças geradas no entrevistado como decorrência da própria entrevista; abre mão da exigência de replicabilidade da situação da pesquisa, condição tão valorizada em outras orientações metodológicas;

  10. Reconhece que a sensibilidade e os conhecimentos do pesquisador interferem na natureza dos dados que são obtidos na situação de entrevista;

  11. Compreende a dinâmica própria do encontro, tanto para favorecer a realização da entrevista em andamento como para utilizar tais informações como fonte de dados para a pesquisa;

  12. Reconhece que a entrevista pode constituir-se como uma experiência positiva para o entrevistado e, na prática, pode frequentemente ser difícil encerrá-la (pp. 174-179).

O acima exposto ilustra, a meu ver, a importância que é concedida ao investigador na constituição dos dados da pesquisa. Diria que a este é atribuído um papel de comprometimento e isenção simultâneos. Porém, talvez, mais comprometimento que isenção, se comparado com o procedimento de obtenção de dados mais comumente utilizado no contexto da psicologia fenomenológica. Neste caso, tão somente é pedido ao sujeito da pesquisa que descreva sua experiência relativa a um determinado tema ou questão (Giorgi, 1985, p. 8); outros modos de abordagem são também empregados, sem dúvida, assim também como por vezes são realizados novos encontros entre entrevistador e entrevistado a fim de elucidar pontos vagos, confusos ou obscuros das descrições. Ressalto aqui, no entanto, uma diferença em termos de grau de comprometimento preliminarmente assumido pelo investigador no caso da pesquisa instruída por uma perspectiva hermenêutica. Neste caso, a entrevista, conforme descrita por Kvale, é em si mesma um empreendimento fenomenológico e hermenêutico, descritivo e interpretativo, objetivo e subjetivo, do começo ao fim.

Sinteticamente, envolve os seguintes momentos e níveis de interpretação:

  • 1º) Descrição do mundo-vida: o entrevistado descreve de modo espontâneo o que faz, pensa ou sente, relativo ao tema em estudo;

  • 2º) O entrevistado descobre relações a partir do próprio relato;

  • 3º) O entrevistador condensa e interpreta o significado do que o entrevistado descreve, e comunica ou não ao entrevistado;

  • 4º) Uma vez finalizada a entrevista, os dados obtidos são interpretados pelo entrevistador ou por outra pessoa. Aqui, podemos distinguir três níveis de interpretação: a) entrevistador condensa e formula o que o próprio entrevistado compreende como significado do que descreve (autocompreensão do entrevistado); b) interpreta o dito, ampliando o seu significado, por intermédio de uma leitura nas entrelinhas, inserindo o que é dito num contexto mais amplo que o percebido pelo entrevistado; c) interpreta teoricamente seus achados, por meio de uma ou mais teorias;

  • 5º) Reentrevista, na qual o entrevistador devolve suas interpretações para avaliação do entrevistado, que pode comentá-las e refinar o que disse previamente;

  • 6º) O continuum descrição e interpretação é estendido ao âmbito da ação, isto é, o entrevistado começa a atuar à luz de novos insights conquistados durante a entrevista. A entrevista-pesquisa aproxima-se de uma entrevista-terapêutica ou assume a forma de pesquisa-ação, quando tais efeitos são estendidos para conjuntos sociais mais amplos (pp. 180-183).

Desse modo, a entrevista fundada em pressupostos fenomenológicos e hermenêuticos, conforme explicitada pelo autor em exame, é um processo dialético de explicitação de sentidos, por meio do qual o rigor descritivo e interpretativo assegura a participação do sujeito-pesquisador no processo de condução da pesquisa sem, todavia, fazer concessões a interpretações pouco rigorosas.

De acordo com o acima exposto, note-se que, diferentemente das pesquisas realizadas na psicologia fenomenológica, a interpretação envolve uma realização adicional: a interpretação teórica (nível 4.c).

A introdução desse nível de interpretação, creio, em nada conflita com a exigência fenomenológica de voltar às coisas mesmas, desde que esse empenho seja realizado nas fases precedentes da pesquisa. Além disso, considero que é desígnio dessa postura filosófica e metodológica constituir-se como uma ciência crítica, razão pela qual torna-se imperativo a apropriação e uso, por parte do investigador, dos conhecimentos científicos disponíveis. Assim sendo, a introdução do nível de interpretação teórica em pesquisas dessa natureza é de grande importância para a permanente reconstrução da própria psicologia e constitui um acréscimo enriquecedor à psicologia fenomenológica.

Mas, uma coisa é pensar a técnica de entrevista psicológica de orientação fenomenológica a partir de uma perspectiva hermenêutica; outra coisa é pensar a própria psicologia fenomenológica como um empreendimento coincidente com a hermenêutica de Ricoeur. É isto o que passaremos a expor, apoiando-nos na reflexão realizada por Titelman (1979) sobre a relevância e algumas implicações resultantes de enxertos da hermenêutica de Paul Ricoeur à psicologia fenomenológica, intercalando-a com esclarecimentos relativos à teoria da interpretação do filósofo autor.

Enxerto da hermenêutica de Ricoeur à psicologia fenomenológica

A linguagem como discurso

A pesquisa qualitativa de orientação fenomenológica no campo da psicologia requer necessariamente que a experiência e o comportamento investigados sejam expressos na forma de discurso. Tanto na ocasião em que o sujeito recupera a sua experiência como na ocasião em que a descreve, ocorre interpretação: algo é deixado fora e algo é selecionado. A experiência não pode ser comunicada direta e imediatamente, pode apenas ser recuperada por intermédio da memória e comunicada mediante a linguagem. Assim, o resgate da experiência bem como sua descrição envolvem necessariamente um certo nível de interpretação. O discurso, portanto, entendido como campo da hermenêutica, é necessariamente o horizonte a partir do qual a psicologia fenomenológica se viabiliza. "Para uma psicologia fenomenológica informada pelo pensamento hermenêutico, a reflexão e a interpretação, em diálogo com a descrição, são modos paradigmáticos para compreender a experiência e o comportamento do investigador e do investigado" (Titelman, 1979, p. 183).

Na introdução deste artigo afirmei que, de empreendimento de natureza técnica, a hermenêutica transformou-se em empreendimento filosófico, a partir do momento em que o significado da compreensão de um texto passou a ser interrogado. Foi esse o caminho percorrido por Ricoeur ao formular sua filosofia da linguagem ou teoria da interpretação, que inclui três teorias intimamente relacionadas: uma teoria do discurso, uma teoria do texto e uma teoria da leitura do texto, razão pela qual sua filosofia insere-se no campo da linguística ou das teorias da linguagem (Ricoeur, 1976, 1977b).

Do ponto de vista histórico, a origem da linguística como ciência é associada ao nome de Saussure e à distinção por ele estabelecida entre língua e fala. Segundo esse autor, apenas a língua é passível de investigação científica, dado seu caráter de fenômeno portador de regras gerais de composição. A fala (ou discurso) consiste no modo particular, individual, de uso da língua. Assim sendo, a fala é tida, por ele, como um fenômeno que não se adequa às exigências feitas pela ciência.

Para Ricoeur (1976, 1977b), diferentemente, o discurso é um evento ou acontecimento, na medida em que é uma realização que se dá em determinado momento, por alguém, sobre algo, e para alguém, mas é simultaneamente significação. Nesse sentido, Ricoeur adota a teoria do "speech act" de Austin e Searle e entende que a linguagem é constituída por atos locucionários (o que é dito), ilocucionários (o que se faz, ao dizer) e perlocucionários (o efeito que se produz, ao dizer). Além disso, o discurso é sempre dirigido para alguém, é comunicação, e referido ao mundo (função referencial). Assim, para o autor, o discurso contém uma estrutura que lhe é própria, o que o torna adequado à investigação científica.

Tais definições permitem-nos compreender melhor as considerações prévias de Titelman. Elas nos esclarecem qual o significado do objeto de estudo da psicologia fenomenológica - a linguagem como fala ou discurso - e a coincidência existente, embora parcial, entre esse objeto e o da hermenêutica de Ricoeur. Permite-nos também entender que a psicologia fenomenológica, respaldada numa teoria da linguagem fundada na fenomenologia, porém acrescida das descobertas viabilizadas pela linguística (a teoria do discurso formulada pelo filósofo), pode também ser enriquecida e melhor praticada. Isso se torna ainda mais evidente se considerarmos o que acontece quando se dá a passagem da fala à escrita, mudanças essas explicitadas na teoria do texto proposta pelo autor.

É isto o que realiza Titelman, ao analisar a analogia existente entre as propriedades dos protocolos descritivos utilizados na psicologia fenomenológica e as propriedades do texto, segundo Ricoeur.

Que mudanças são estas?

O discurso como texto

Fixação de significados, autonomia semântica, universalização do discurso, exibição de referenciais não ostensivos, transformação da linguagem em obras de discurso são, todas estas, mudanças que se operam quando o discurso é materializado na forma de texto (Ricoeur, 1976, pp. 37-39).

De acordo com Titelman, os protocolos descritivos da psicologia fenomenológica igualmente fixam significados, na medida em que implicam nos processos de atemporalização e objetivação do discurso, pois são concretos, estáveis, passíveis de avaliações intersubjetivas, assim como as propriedades do texto, segundo Ricoeur. São também portadores de autonomia semântica, visto que tais protocolos não são redutíveis à situação de diálogo; mesmo no caso de ocorrência de reentrevistas, em última instância é o pesquisador quem traduzirá as descrições de seus sujeitos de acordo com o objetivo de sua pesquisa e a perspectiva de análise que adota; há, aqui também, um hiato, que impõe a necessidade de interpretação. Além disso, para se compreender a experiência ou o comportamento descritos num protocolo é necessário ter-se em conta o conjunto do que foi relatado; o sentido das partes depende do todo; depende, portanto, da apreensão de referenciais não ostensivos e da apreensão do todo da obra, ou seja, o discurso é transformado em obra de discurso, segundo Ricoeur (voltarei a este ponto mais adiante). Por fim, os protocolos descritivos também permitem múltiplas possibilidades de leituras e interpretações, seu significado nunca é totalizado, e, nesse sentido, tais protocolos são portadores da propriedade de universalização, característica dos textos que requerem interpretação.

Tais correspondências entre as características dos protocolos descritivos, empregados nas investigações produzidas na psicologia fenomenológica e as propriedades que caracterizam um texto, tal como compreendido no contexto da concepção hermenêutica de Ricoeur, conduzem Titelman à conclusão de que os dados da psicologia fenomenológica constituem-se como "objetos" que necessitam de interpretação. A consideração desses dados e o tratamento por eles requeridos correspondem ao "polo objetivo" do ciclo hermenêutico.

Contudo, retomemos a noção de obra de discurso - totalidade finita e fechada, portadora de certa forma de codificação ou composição, e também de uma configuração única ou estilo (Ricoeur, 1976, p. 49) - uma vez que essa noção é de fundamental importância para se entender o questionamento feito pelo filósofo à oposição frequentemente estabelecida entre compreender e explicar.

Ricoeur (1976) discorda daqueles que alimentam a dicotomia entre compreensão e explicação, entendendo-as como realizações epistemológicas distintas, pertinentes a diferentes áreas do saber - a compreensão adstrita às Ciências Humanas e a explicação às Ciências da Natureza - e a diferentes esferas da realidade, ou seja, o espírito e a natureza.Para nosso autor, de modo diferente, se o discurso é produzido como evento e compreendido pelo outro como significação, conforme previamente exposto, é passível não apenas de ser compreendido, mas também de ser explicado. Na compreensão 'apreendemos como um todo a cadeia dos sentidos parciais num único ato de síntese', na explicação 'desdobramos o âmbito das proposições e significados' do discurso.

Note-se que essa noção de explicação difere da adotada no âmbito das ciências naturais, que pressupõe fatos, hipóteses, teorias e subordinação de generalizações empíricas a procedimentos hipotéticos-dedutivos. A noção de explicação, formulada por Ricoeur, funda-se numa concepção de causalidade compreendida como relação entre as partes e o todo, entre o objeto e o contexto, ou ainda, refere-se à apreensão da estrutura de um dado fenômeno, o 'discurso como obra'.

E é na dialética existente entre compreensão e explicação, já presente no discurso oral, porém exacerbada pelas propriedades do texto, que se realiza a interpretação. Neste sentido, a interpretação não se aplica apenas 'a um caso particular de compreensão' (como pensado na hermenêutica romântica, representada por Dilthey), a das 'expressões escritas da vida', 'mas a todo o processo que abarca a explicação e a compreensão'.

Em vista disto, para o autor, o processo de interpretação de um discurso como obra envolve 'conjectura' - que corresponde à compreensão ou abordagem objetiva do texto - e 'validação' - que corresponde à explicação ou abordagem subjetiva do texto. (Melo, 2011, p. 54)

Nesse ponto é importante acrescentar que se conjectura, num texto, não apenas o seu sentido como um todo ou o discurso como obra, mas também os seus sentidos segundos, metafórico e simbólico.

Segundo essa perspectiva, é introduzida uma espécie de ponte entre as ciências da linguagem e as outras ciências, uma vez que a linguagem do símbolo é entendida como uma linguagem 'ligada', isto é, uma linguagem 'onde força e forma coincidem', onde se cruzam a possibilidade de uma leitura hermenêutica (logos) e energética (bios) do significar humano.

Deste modo, o pensamento de Ricoeur remete-nos à possibilidade de pensar o discurso como uma manifestação consciente do homem, mas primordialmente como um campo de múltiplos sentidos, conscientes e inconscientes ou desejantes. Insere-se, aqui, a possibilidade de contribuição da Psicanálise à hermenêutica de Ricoeur. (Melo, 2011, p. 56)

As considerações acima apresentadas em parte já esclarecem as reflexões de Titelman relativas ao "polo subjetivo" do empenho hermenêutico.

O círculo hermenêutico

Na psicologia fenomenológica orientada por uma perspectiva hermenêutica, diz Titelman, não se lida propriamente com dados, ou melhor, não existe propriamente objeto, independente do investigador: o polo subjetivo do círculo hermenêutico é permanentemente reconhecido. O pesquisador inicia sua pesquisa com uma pré-compreensão do significado do fenômeno que visa compreender e interpretar, e a entende como realizada quando torna-se apto a explicitá-la satisfatoriamente. A isto corresponde o chamado "círculo hermenêutico".

Para realizar essa tarefa, faz-se necessário superar a posição de "espectador desinteressado" e "tornar-se ativa e pessoalmente envolvido com o fenômeno que se está investigando" (p. 187). Nesse empenho, o acesso à experiência alheia é facultado pelo que o investigador tem como pré-compreensão a partir da própria experiência pessoal - experiência essa que é estruturada como análoga a de seus sujeitos, embora distinta em seu conteúdo, situação ou estilo.

É também o que nos diz Ricoeur em O Discurso da Ação (1988), quando afirma que o nível propriamente fenomenológico de uma análise é a redução.

Pela redução, aparece um domínio de sentido, um parecer para, em que o sentido remete apenas para outro sentido e para a consciência a fim de haver sentido. . . . Se, com efeito, a redução não é perda de alguma coisa, nem nenhuma subtração, mas o distanciamento a partir do qual não só há coisas, mas signos, sentidos, significações - a redução assinala o nascimento da função simbólica em geral; ao fazer isto, dá um fundamento às operações contingentes da análise linguística. . . . Eu diria que as análises fenomenológicas veem situar-se sob as análises linguísticas. (p. 20)

Titelman (979) enfatiza ainda que o empenho hermenêutico distingue-se da "epoché Husserliana" e da racional da psicologia experimental tradicional. A tarefa hermenêutica não é manter a "objetividade" por intermédio da suspensão da experiência pessoal, das intuições, das ideias ou dos modos de ser histórico e culturalmente situados; tampouco exercer um controle sobre os vieses do experimentador relativos ao fenômeno em estudo. Sua tarefa é encontrar modos justificáveis através dos quais a experiência e a compreensão do pesquisador sobre o fenômeno em estudo possa servir-lhe como via de acesso à elucidação e interpretação do significado do fenômeno, revelado por intermédio da experiência do outro na forma de "dados" do protocolo descritivo (p. 188).

O polo subjetivo do empenho hermenêutico, no entanto, não exime o pesquisador da exigência de intersubjetividade requerida pela ciência, nem o impede de alcançá-la.

No processo de validação de conjecturas (no círculo hermenêutico, momento que corresponde à explicação, segundo Ricoeur), o que está em jogo é a demonstração de que uma interpretação particular é a mais provável, dado o conhecimento científico disponível; a validação tem como contrapartida a possibilidade de ser também invalidada; é uma questão de disciplina argumentativa; envolve uma lógica de incerteza e de probabilidade qualitativa. Diz Ricoeur: "Nem na crítica literária nem nas Ciências Sociais há aquilo que é a última palavra. Ou, se há, chamamos isto de violência" (Ricoeur, 1971, citado por Titelman, 1979, p. 190).

O trabalho de Titelman permite-nos compreender que a psicologia fenomenológica, iluminada pelo pensamento de Paul Ricoeur - suas teorias do discurso, do texto e da leitura do texto - viabiliza a realização de pesquisas qualitativas rigorosas, justamente por assumir radicalmente a subjetividade no processo de conhecimento, o que não quer dizer abdicar da objetividade, mas ressignificá-la, entendendo-a como produto do diálogo intersubjetivo, construído por intermédio da linguagem, em todas as etapas do processo, do começo ao fim da investigação.

É também o que nos diz Maria Aparecida V. Bicudo (2000), ao refletir sobre as mudanças que vêm se operando nas pesquisas fenomenológicas realizadas pelos pesquisadores da Sociedade de Estudos e Pesquisas Qualitativos (SE&PQ), pesquisas essas instruídas por diferentes hermenêuticas filosóficas (Heidegger, Gadamer, Ricoeur). Diz a autora:

o modo como entendemos a percepção e as modalidades de explicitação que a manifestam nos conduzem ao conhecimento intersubjetivo e a uma objetividade possível, os quais são tramados por uma rede de compreensão e de manifestações expressas por meio da linguagem. (p. 73)

Nessa perspectiva, a pesquisa fenomenológica e a hermenêutica fundem-se numa só realização. Assim, Bicudo considera que buscar o pré-teórico no campo perceptual, realizando uma fenomenologia estrutural, ou buscar o campo da expressão linguística como via de acesso à experiência original, realizando uma fenomenologia-hermenêutica, é uma questão de opção do pesquisador (p. 80, grifo meu). Tal posição, no entanto, não elimina a necessidade de se interrogar a especificidade dessas abordagens metodológicas, especialmente quando aplicadas em investigações científicas. Alias, é o que tem feito a autora, como pode ser constatado em várias de suas publicações (Bicudo e Esposito, 1994; Bicudo, 2000, 2011).

Por fim, penso que as contribuições de Kvale, Titelman, Ricoeur e, por último, as reflexões de Bicudo que acabei de explicitar, são suficientemente esclarecedoras quanto ao que significa construir conhecimento apoiado numa tradição fenomenológica-estrutural ou numa tradição fenomenológica-hermenêutica e, mais especificamente, no pensamento fenomenológico-hermenêutico de Ricoeur.

Algumas conclusões

Em primeiro lugar, o caminho percorrido neste estudo me leva a concluir que, do ponto de vista metodológico, o que distingue a psicologia fenomenológica de uma psicologia informada pelo pensamento hermenêutico de Ricoeur é a noção mesma de compreensão subjacente a essas orientações filosófico-científicas.

No contexto da psicologia fenomenológica, compreensão é sinônimo de interpretação, porém esta última não é tomada no sentido da dialética compreensão/explicação/compreensão, conforme postulado por Ricoeur, mas se refere tão somente ao polo objetivo do círculo hermenêutico (primeiro movimento do círculo hermenêutico).

Uma segunda distinção, relacionada à anterior, consiste na importância atribuída ao diálogo interteórico no caso de pesquisas instruídas pelo pensamento hermenêutico e, de modo especial, em pesquisas ancoradas na hermenêutica ou teoria da interpretação de Ricoeur.

Tal valorização corrobora a tese de que o processo de conhecimento, conforme concebido segundo essa abordagem metodológica, envolve necessariamente, e em todos os níveis, um movimento no sentido de apreensão do objeto (polo objetivo) e um movimento no sentido da construção desse objeto por parte do investigador (polo subjetivo). Assim, uma psicologia instruída pelo pensamento hermenêutico não se restringe a desvelar a estrutura da experiência dos sujeitos investigados. Distintamente, a estrutura da experiência em exame, uma vez identificada, passa a ser tratada como uma conjectura, sujeita à validação ou invalidação, mediante o confronto com outras teorias relativas ao fenômeno em estudo.

Esse procedimento, se por um lado é revelador de um processo de construção do investigador (polo subjetivo do círculo hermenêutico), é também revelador de empenho no sentido de apreensão do fenômeno, em níveis cada vez mais apurados e objetivos (polo objetivo do círculo hermenêutico). Admitido isto, sou levada a concluir que é a aceitação radical da interpretação (entendida como resultado da dialética compreensão/explicação/compreensão, segundo Ricoeur) que nos assegura um maior acesso à objetividade, no processo de conhecimento.

Desse modo, as inquietações oriundas de minha práxis como pesquisadora - a impossibilidade de dissociar o sujeito do objeto, a compreensão da interpretação, os sentidos/significados conscientes e inconscientes atuantes no discurso, bem como a necessidade de melhor entender a distinção entre compreender e explicar, no curso de um processo de pesquisa - inserem-se no contexto de uma problemática filosófica mais ampla. Na dependência da filosofia/teoria da linguagem adotada - se fundamentada ou não na dialética do evento/significação - essas polaridades são diferentemente equacionadas.

A partir de uma perspectiva hermenêutica, tanto na etapa de coleta dos dados como nos alerta Kvale, como nas demais etapas da pesquisa, como demonstra Titelman, a dialética do evento/significação está em jogo, o que corresponde a dizer que, em diferentes níveis, inclusive na linguagem falada e escrita, está em jogo também a dialética da compreensão/explicação e do sentido/referência.

Desse modo, os enxertos hermenêuticos à psicologia fenomenológica que vêm sendo produzidos, não só respondem melhor às interrogações que deram origem ao presente trabalho, como também conduzem-me a pensar que tais enxertos contribuem para o aperfeiçoamento da psicologia fenomenológica empírica, uma vez que podem lhe assegurar maior coerência, consistência, profundidade e abrangência.

Maior coerência porque, sem abdicar da exigência básica da fenomenologia de ir às coisas mesmas, permite ao pesquisador assumir radicalmente a ideia de que, na base de todo e qualquer conhecimento, existe um sujeito marcado por suas crenças, valores, projetos - condição esta que a hermenêutica de Ricoeur leva às últimas consequências, ao reconhecer a polissemia da linguagem e o caráter multívoco dos símbolos, razão pela qual o empenho hermenêutico é condição para a compreensão do mundo vivido.

Maior consistência, na medida em que o círculo hermenêutico proposto por Ricoeur admite que não existe a interpretação, mas diferentes interpretações, o que não quer dizer que qualquer interpretação tem a mesma legitimidade ou valor de verdade; pelo contrário, é preciso que a interpretação proposta seja suficientemente vigorosa e consistente, a ponto de sobreviver ao conflito de interpretações concorrentes.

E maior profundidade e amplitude, na medida em que o círculo hermenêutico proposto por Ricoeur permite estender o processo de interpretação de um texto em termos de significados pré-conscientes e inconscientes. Nesse caso, a psicanálise é uma possível aliada do intérprete em seu processo de interpretação. Porém, não só a psicanálise, mas toda e qualquer disciplina e/ou teoria que favoreça a crítica às ilusões da consciência, quer sejam elas de origem inconsciente, política ou ideológica. Nesse sentido, a fenomenologia-hermenêutica proposta por Ricoeur pressupõe o permanente exercício de uma forma de pensar e de produzir conhecimento de natureza crítica, reflexiva e necessariamente interdisciplinar.

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1Quanto à hermenêutica, embora o autor não se refira especificamente ao pensamento de Ricoeur, suas considerações são sobremodo compatíveis com o pensamento desse autor, razão pela qual julgo-as pertinente a este trabalho. Quanto à psicologia fenomenológica, o autor refere-se especificamente às formulações de Amedeo Giorgi, conforme previamente expostas.

Recebido: 29 de Julho de 2014; Revisado: 02 de Junho de 2015; Aceito: 19 de Junho de 2015

*Endereço para correspondência: mlamelo@uol.com.br

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