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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.27 no.2 São Paulo May/Aug. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0103-656420150045 

Artigos originais

A Teoria de Valores Refinada: associações com comportamento e evidências de validade discriminante e preditiva1

La Théorie des Valeurs Raffinées: les associations avec le comportement et les évidences de la validité discriminante et prédictive

La Teoría de Valores Refinada: relaciones con el comportamiento y la evidencia de la validez discriminante y predictiva

Cláudio V. Torresa  * 

Shalom H. Schwartzb 

Thiago G. Nascimentoc 

aUniversidade de Brasília. Instituto de Psicologia. Brasília, DF, Brasil

bThe Hebrew University of Jerusalem, Department of Psychology. Jerusalem, Israel. National Research University - Higher School of Economics. Moscou, Rússia

cInstituto Superior de Ciências Policiais. Brasília, DF, Brasil

Resumo:

A teoria refinada dos 19 valores humanos básicos foi apresentada em 2012. Sua utilidade e validade discriminantes foram demonstradas em associações com atitudes e crenças, mas não comportamentos, apresentando um instrumento para medir os 19 valores em diferentes países, mas não no Brasil. Dois estudos, com três amostras brasileiras independentes, apresentam tal instrumento e investigam a validade discriminante e preditiva da teoria pelo exame das associações de cada valor com comportamentos cotidianos. Um MDS confirmatório ordenou os valores no contínuo motivacional previsto pela teoria. Análises fatoriais confirmatórias dão suporte para a validade discriminante e preditiva da teoria. Os resultados sugerem que as compatibilidades e conflitos que estruturam a relação entre os valores também organizam os comportamentos que os expressam.

Palavras-chave: Teoria de Valores Refinada; validade discriminante e preditiva; valores e comportamento

Résumé:

La théorie raffinée des 19 valeurs humaines fondamentales a été présentée en 2012. Leur utilité et validité discriminantes ont été démontrées en association avec les attitudes et les croyances, mais pas avec le comportement, et présente un instrument pour mesurer les valeurs dans 19 pays différents, mais pas au Brésil. Deux études avec 3 échantillons brésiliens indépendants présentent tel instrument et enquête la validité discriminante et prédictive de la théorie en examinant les associations de chaque valeur avec des comportements quotidiens. Un MDS confirmatoire a ordonné les valeurs dans le continuum de motivation prévue par la théorie. Des analyses factorielles confirmatoires soutiennent la validité discriminante et prédictive de la théorie. Les résultats suggèrent que les compatibilités et les conflits qui structurent la relation entre les valeurs aussi organisent les comportements qui les expriment.

Mots-clés: Théorie Raffinée des Valeurs; la validité prédictive et discriminante; valeurs et les comportements

Resumen:

Se presentó en 2012 la teoría refinada de los 19 valores humanos básicos. Su utilidad y validez discriminante se demostró en asociación con las actitudes y creencias, excepto el comportamiento, un instrumento para medir los valores en 19 países diferentes, a excepción de Brasil. Dos estudios con tres muestras brasileñas independientes presentan este instrumento e investigan la validez discriminante y predictiva de la teoría mediante el examen de las asociaciones de cada valor con los comportamientos cotidianos. El escalonamiento multidimensional (MDS) confirmatorio ordenó valores en continuo motivacional predicho por la teoría. Los análisis factoriales confirmatorios proporcionan apoyo a la validez discriminante y predictiva de la teoría. Los resultados sugieren que las compatibilidades y los conflictos que estructuran la relación entre los valores también organizan los comportamientos que las expresan.

Palabras clave: Teoría Refinada de Valores; validez discriminante y predictiva; valores y comportamiento

Diversos teóricos, assim como sociólogos (e.g., Williams, 1968) e antropólogos (Kluckhohn, 1951) já entendiam os valores como critérios que as pessoas usam para avaliar suas ações, outras pessoas e eventos. Na psicologia, a teoria de valores humanos básicos de Schwartz (1992) tem sido um marco na compreensão desse fenômeno e é objeto central do presente trabalho. Contudo, antes da discussão sobre essa teoria em si, é importante apresentar um breve histórico sobre o estudo dos valores.

Os valores têm sido estudados em diversas áreas do conhecimento, sendo que cada uma os examina sob um ponto de vista diferenciado, mas complementar. Podemos afirmar que o estudo dos valores não é recente. Esse constructo já era debatido por filósofos pré-socráticos (Rohan, 2000), mas só saíram do âmbito da filosofia - indo para o escopo da ciência - com os esforços do sociólogo Talcott Parsons, no seu livro A Estrutura da Ação Social, originalmente publicado em 1937 (Parsons, 1937/1949). Depois dele, o antropólogo Clyde Kluckhohn firmou na academia a importância do estudo dos valores (Kluckhohn, 1951), importância esta que foi compartilhada por outros colegas antropólogos, relativamente contemporâneos a Kluckhohn, como Edward T. Hall e Clifford J. Geertz, por exemplo. Porém, podemos citar G. Allport como o precursor das pesquisas sobre valores na psicologia. Allport (1961/1969), na sua visão de cultura e valores, entende os conceitos como complementares, sendo "em parte, um conjunto de invenções que surgiram em várias partes do mundo a fim de tornar a vida eficiente e inteligível para mortais que enfrentam os mesmos problemas básicos da vida: nascimento, crescimento, morte, busca de saúde, bem-estar e sentido" (p. 216).

Pertence a Rokeach (1973) o primeiro esforço no sentido de se medir os valores no âmbito da psicologia. Rohan (2000) aponta que a literatura de valores ainda era escassa e não eram encontradas referências diretas ao tema nos livros de psicologia social até o pioneirismo de Rokeach em trabalhar com os valores de forma empírica. Para Rokeach (1973), "o conceito de valor possibilita unificar os interesses aparentemente diversos de todas as ciências relacionadas ao comportamento humano" (p. 21) e, junto dos sociólogos e antropólogos que o antecederam, o autor enfatiza o papel central desse conceito no estudo do comportamento humano.

Nessa visão histórica, embora o interesse pelos valores tenha aumentado a compreensão sobre o tema, a definição do conceito não tem sido tarefa muito fácil. As dificuldades encontradas pelos teóricos em definir valores é em parte devido ao seu uso recorrente por leigos e não cientistas sociais. Historicamente, os valores têm sido definidos de duas maneiras, ora como um substantivo, ora como verbo. Como substantivo, a terminologia é bem antiga. Rohan (2000) cita que no Compact Oxford English Dictionary de 1303, o vocábulo já era definido em termos de integridade ou equivalência de um produto. Já como verbo, o termo sugere o ato de estimar o valor de um objeto. Neste último caso, a escassez ou fragilidade dos estudos empíricos e teóricos sobre o uso dos valores gerou algumas insatisfações pela ênfase dada para a construção de programas malsucedidos de modificações de valores (Rohan, 2000). Outra discussão importante se refere à forma de avaliação dos valores, isto é, a partir da perspectiva da entidade valorizada ou da visão do indivíduo que valoriza. Atualmente há uma concordância na área com relação ao estudo dos valores do ponto de vista do indivíduo que avalia o seu meio. Sendo assim, esforços têm sido feitos no sentido de se mensurar as prioridades valorativas dos indivíduos, para compreensão das motivações subjacentes às respostas emitidas pelos mesmos em função das demandas ambientais (Schwartz, 1992).

Além da teoria de Rokeach (1973) sobre os valores, que propôs o Rokeach Values Survey (RVS) para a medição dos valores, outras surgiram com o intuito de melhor explicar o conceito. Com relação ao estudo dos valores no nível cultural de análise, impossível não destacar o trabalho seminal de Geert Hofstede (1980), que identificou em uma primeira fase de seu trabalho quatro dimensões culturais, ou agregações de valores, que conferiram à cultura um caráter de variável preditora. Já Feather (1996) busca identificar a estrutura cognitiva dos sistemas de valores, entendendo o conceito como maneiras desejáveis ou indesejáveis de se comportar. Diversas outras propostas têm sido feitas no sentido de se compreender os valores nos contextos das organizações, do trabalho, do consumo, para citar apenas alguns. Contudo, indubitavelmente, a teoria de valores humanos básicos de Schwartz (1992) é aquela que tem ganhado maior atenção dos pesquisadores da área.

Diversos autores na área de pesquisa transcultural (e.g., Smith, Fischer, Vignoles, & Bond, 2013), ou mesmo uma simples consulta a proeminentes revistas da área, como o Journal of Cross-Cultural Psychology (JCCP), por exemplo, consideram a teoria de valores humanos básicos de Schwartz como um marco no estudo dos valores na psicologia. Em 2011, com a proximidade de 20 anos de intensa produção científica baseada nessa teoria, a JCCP lançou um número especial em homenagem à produção do autor2 . Knafo, Roccas e Sagiv (2011), ao identificarem a teoria de valores humanos básicos como líder na compreensão dos valores, reforçam que seu autor adotou uma perspectiva transcultural tanto na concepção da teoria quanto no seu teste empírico. Schwartz (1992) considera os valores como um requisito universal da existência humana e, ao propor a teoria, provocou a mudança do mero estudo de uma lista de valores para o desenvolvimento de conjuntos de metas motivacionais, capazes de predizer diversas variáveis em diferentes grupos culturais. Nos últimos anos, a teoria foi utilizada para se investigar comportamentos como uso de álcool e drogas, delinquência, comportamento político do consumidor, participação em esportes, entre outros; predição de variáveis atitudinais como satisfação no trabalho, comprometimento organizacional, dilemas éticos, religiosidade etc.; e relações com variáveis de personalidade, como dominância social, autoritarismo, Big-5, para citar algumas. Dessa forma, acredita-se aqui que as contribuições dessa teoria são fundamentais para o estudo dos valores na contemporaneidade e o refinamento da teoria deve ser testado no contexto brasileiro. Antes, porém, é mister discutir a definição de valores segundo o autor.

Para Schwartz (1992), os valores humanos podem ser definidos como: (1) crenças ligadas à emoção de forma intrínseca que, quando ativadas, geram sentimentos positivos e negativos; (2) um construto motivacional que orienta pessoas para agirem de forma adequada; (3) algo que transcende situações e ações específicas, diferindo das atitudes e normas sociais, além de orientar as pessoas em diversos contextos sociais; (4) algo que guia a seleção e avaliação de ações, políticas, pessoas e eventos e compõe critérios para julgamentos; (5) algo que se ordena de acordo com a importância relativa dada aos demais valores e, assim, formariam um sistema ordenado de prioridades axiológicas. Tendo como base essa definição, Schwartz (1992) propôs uma teoria unificadora dos valores humanos, a qual prevê uma estrutura dinâmica entre as categorias motivacionais dos valores, de forma que os indivíduos apresentem alta prioridade para os tipos compatíveis e baixa prioridade para tipos conflitivos. Dessa forma, a prioridade dos tipos motivacionais não se estabelece de forma aleatória, mas de forma consistente com os domínios motivacionais. Concebidos dessa forma, os valores humanos são construtos importantes no conjunto dos conceitos psicossociais considerados centrais para a predição de atitudes e comportamentos, inclusive para a compreensão de fenômenos de interesse de estudo das ciências sociais e humanas. O presente artigo descreve refinamentos substantivos na teoria de valores básicos (Schwartz et al., 2012), apresentando um novo instrumento validado para o Brasil para medir tais valores. Usando dados de três amostras distintas, o artigo discute ainda a questão sobre como tais valores se relacionam com comportamentos rotineiros que, como a teoria postula, devem ser promovidos ou inibidos pelos valores.

A despeito do grande número de estudos que adotaram a teoria de valores básicos nas últimas duas décadas, até recentemente apenas um estudo investigou a fundo uma pressuposição central da teoria: como as diferenças motivacionais entre os valores devem ser entendidas como contínuas, a divisão de espaço entre os tipos motivacionais é na verdade arbitrária. Essa divisão pode ser superada por outra divisão "baseada em uma teoria revista que indique valores discretos com maior heurística universal e poder preditivo" (Schwartz, 1992, p. 45). Em 2012, Schwartz et al. propuseram uma nova divisão do contínuo de valores. Os autores identificaram 19 valores potenciais, conceitualmente distintos. Análises de escalonamento multidimensional e confirmatórias dos 57 itens criados para medir os valores confirmaram tanto a distinção entre eles quanto seu ordenamento. Os 19 valores identificados foram Autodireção de Pensamento e de Ação; Estimulação; Hedonismo; Realização; Poder de Domínio e Poder sobre Recursos; Segurança Pessoal e Social; Tradição; Conformidade com Regras e Conformidade Interpessoal; Benevolência Dependência e Cuidado; Compromisso; Universalismo Natureza e Universalismo Tolerância; Face; e Humildade (para definições dos valores, ver Schwartz et al., 2012).

Os resultados da pesquisa Schwartz et al. (2012) sobre o instrumento desenvolvido para medir os valores da teoria, refinada em 10 países, não abrangeram o Brasil. O principal objetivo da presente pesquisa é examinar se os 19 valores propostos são discriminados por amostras brasileiras e se eles se localizam na ordem motivacional circular proposta pela teoria refinada. Apresenta-se uma versão do instrumento desenvolvido por Schwartz et al. (2012) para medir os 19 valores, modificada e adaptada para amostras brasileiras. O PVQ-R (Questionário de Valores Refinado, do inglês Portrait Values Questionnaire - Refined) tem sua aplicabilidade discutida para o contexto brasileiro.

Há ainda um outro objeto de atenção na presente pesquisa. Schwartz et al. (2012) demonstraram a utilidade e validade discriminante dos valores refinados ao examinar seu poder preditivo com relação a atitudes e crenças, mas não os relacionaram com variáveis de natureza comportamental. Para melhor avaliar a teoria refinada, é importante determinar se cada valor se relaciona significativamente com os comportamentos que esperam motivar. Segundo a teoria de valores, as associações entre os valores e o comportamento devem refletir um contínuo circular motivacional. Os valores são compatíveis à medida que os comportamentos promovem ou expressam metas de um par de valores. Quando os comportamentos têm consequências opostas para dois valores, promovendo a meta de um em detrimento do outro, os valores estão em conflito. A Figura 1 ilustra o ordenamento dos 19 valores na estrutura circular da teoria refinada.

Nota: Adaptada de Schwartz et al. (2012)

Figura 1 O círculo motivacional dos valores de acordo com a teoria de valores básicos refinada 

O círculo mais externo agrupa os valores em dois grandes grupos: aqueles relacionados a lidar com a ansiedade e proteção do self (parte inferior) e os que têm seu foco relacionado ao autodesenvolvimento e são relativamente livres de ansiedade (metade superior). O círculo seguinte distingue entre os valores voltados a resultados para a própria pessoa (à esquerda) e os voltados a resultados para outras pessoas ou instituições (à direita). O próximo círculo indica os quatro tipos motivacionais de segunda ordem, já descritos na teoria original, que captam as duas dimensões bipolares de incompatibilidade motivacional entre os valores. A teoria refinada compartilha com a teoria original o fato de os 19 valores mais estreitamente definidos abrangerem o mesmo contínuo motivacional proposto pelos 10 valores originais.

Hipóteses

A primeira hipótese propõe, em termos gerais, que os dados brasileiros confirmarão a teoria de valores refinada. Especificamente, propõe-se que:

H1a. É possível discriminar entre os 19 valores com dados brasileiros, tanto de forma exploratória, quanto confirmatória;

H1b. Os 19 valores terão o mesmo ordenamento proposto pela teoria e representado na Figura 1.

Para Bardi e Schwartz (2003), cada um dos 10 valores descritos na teoria original se correlaciona com comportamentos rotineiros que supostamente são motivados por esses valores. Assim, as associações dos valores com os comportamentos devem ser de tal forma que:

H2. Cada um dos 19 valores se correlacione positivamente com o conjunto de comportamentos que motiva.

H3. Cada um dos 19 valores se correlacione negativamente com os comportamentos que são motivados por valores opostos.

Na verdade, cada uma das hipóteses especifica 19 outras hipóteses a serem testadas, uma para cada valor. Segundo a teoria, as pessoas expressam seus valores por meio dos comportamentos, visando, primeiramente, tentar atingir as metas importantes para elas e, segundo, para reafirmarem os valores centrais às suas identidades (Rokeach, 1973, Schwartz, 2006).

Diversos valores podem motivar um comportamento específico. Contudo, vários comportamentos expressam primariamente um só valor. Na presente pesquisa, para cada um dos 19 valores da teoria refinada foi gerado um conjunto de comportamentos que seriam potencialmente motivados por um valor. Finalmente, foram solicitadas avaliações de frequência de exibição do comportamento pelos próprios respondentes, assim como de outras pessoas que conheciam e trabalhavam com eles há algum tempo. Cabe ressaltar que autorrelatos de comportamentos podem ser medidas proximais de comportamento fidedignas (Gosling, Craik, John, & Robbins, 1998), porém relatos de outras pessoas sobre o mesmo comportamento aumentam a exatidão da sua medida (Vazire & Mehl, 2008). Ainda, o fato de a mesma pessoa reportar valores e comportamentos a eles relacionados gera a possibilidade de aumentar artificialmente a relação entre valores e comportamento. O viés resultante pode ser eliminado (ou reduzido) com o uso de avaliações de terceiros.

Método

Estudo 1: Participantes e procedimento

Duas amostras de 471 (população geral3) e 573 (estudantes universitários) participantes responderam ao PVQ-R adaptado para o Brasil, além de dados demográficos. Respectivamente, as características sociodemográficas das amostras são: 51,4% e 65,6% de mulheres, com idades médias de 35,37 anos (DP=11,27) e 23,72 anos (DP=5,76). A maioria dos participantes da amostra da população geral tinha o nível educacional superior completo (83,6%). No caso da amostra de estudantes, todos estavam regularmente matriculados em uma grande universidade da região centro-oeste do país e em diferentes cursos, sendo que, dos cursos que apresentaram uma porcentagem substancial de participantes matriculados, destacam-se os cursos de administração (18,5%), seguido de psicologia (16,8%). Nos dois casos o recrutamento dos participantes foi online, com procedimentos semelhantes, sendo a participação voluntária e anônima. Nenhum incentivo à participação foi dado aos respondentes. Apresentado ao participante em telas, o questionário foi composto de uma primeira tela de apresentação da pesquisa com consentimento informado e contato da coordenação da coleta de dados. Ao concordar em participar da pesquisa na primeira tela, o respondente era então encaminhado às demais telas com os questionários. Para a amostra da população geral, o questionário autoaplicável foi hospedado online durante 25 dias, por meio da utilização do site de serviço Qualtrics no período de 21 de dezembro de 2012 a 13 de janeiro de 2013. Para recrutamento da amostra e divulgação do link da pesquisa foram realizados envios de e-mail e publicação do link da pesquisa nas redes sociais Twitter e Facebook. Na amostra de estudantes, o período foi de 23 de março a 25 de abril de 2013, sendo utilizados lista de e-mails de alunos, obtida junto à secretaria de assuntos acadêmicos de uma grande universidade federal da região centro-oeste, após a apresentação da página da pesquisa, que incluía o consentimento informado em sua primeira tela e como condição para o prosseguimento das respostas. Um filtro foi criado no programa (Qualtrics) de forma que apenas os questionários completos fossem considerados para análise, sendo que questionários com missing foram descartados.

Instrumento

Como medida dos 19 valores básicos propostos pela teoria refinada, os participantes preencheram uma versão em português do PVQ-R. O questionário apresenta 57 breves descrições de pessoas diferentes, cada uma com as metas, aspirações ou desejos implicitamente relacionados ao valor em questão. As descrições têm variações por sexo (com versões masculinas e femininas do mesmo item) e representam uma revisão do questionário utilizado por Schwartz et al. (2012). Além disso, contém adaptações para a língua portuguesa, segundo o procedimento descrito por Brislin, Lonner e Thorndike (1973). Para cada descrição, os participantes deveriam indicar a semelhança deles em relação à pessoa descrita em uma escala de seis pontos: 1 = não se parece nada comigo até 6 = se parece muito comigo. Com isso, sugere-se que os valores implicitamente apresentados nas descrições dos itens permitem inferir os valores dos próprios respondentes. Por exemplo, a percepção de similaridade pelos respondentes com os itens que apresentam as descrições "é importante para ela cuidar das pessoas das quais ela se sente próxima" ou "é importante para ela que as pessoas façam o que ela diz que deveriam fazer" indicam pessoas que têm, respectivamente, a Benevolência - Cuidado - e o Poder - Domínio - como valores importantes para elas. Uma equipe composta por oito tradutores bilíngues realizou as traduções e retraduções do questionário do inglês para o português, resultando em quatro rodadas de traduções independentes, com ajustes feitos pelos autores nos itens com relação às ideias centrais e aos termos empregados.

Análise fatorial exploratória

As respostas da primeira amostra, composta por 471 participantes, foram submetidas a análises fatoriais exploratórias, visando à verificação inicial da estrutura do questionário em relação aos fatores propostos pela teoria de valores refinada. Para tanto, foram realizadas quatro análises independentes (uma para cada tipo de segunda ordem), empregando o método PAF, com rotação oblimin.

Conforme apontado por Laros (2012), em se tratando da análise fatorial, é possível se realizar um processo de validade cruzada em um instrumento, fornecendo assim maiores evidências de sua legitimidade na pesquisa, se a solução fatorial obtida com uma primeira amostra for verificada por meio dos dados de uma segunda amostra independente da primeira. No mínimo, por meio desse procedimento é possível oferecer evidências sobre a questão da generalização da estrutura fatorial do instrumento. Ainda para o autor, é útil para a validação cruzada a realização de uma análise fatorial exploratória com uma amostra e efetuar uma análise confirmatória, para verificar a equivalência da estrutura fatorial, com outra amostra independente, mesmo porque em ambos os casos os fatores serão resultantes das combinações lineares de variáveis observadas. Dessa forma, optou-se pela realização de uma análise fatorial confirmatória com a segunda amostra do estudo.

Análise fatorial confirmatória

As respostas da segunda amostra, composta por 573 estudantes universitários, foram sujeitas a análises fatoriais confirmatórias (AFC) para avaliar o grau de discriminação dos 19 valores e seus índices de ajuste. Adotou-se o procedimento proposto por Cieciuch e Schwartz (2012) de realizar AFCs em separado para cada um dos quatro tipos de segunda ordem de valores, a saber: Autotranscedência, composta pelos valores de Universalismo Tolerância, Natureza e Compromisso, Benevolência Cuidado e Dependência, Humildade; Conservação, composta por Conformidade Interpessoal e com as Regras, Tradição, Segurança Social e Pessoal; Autopromoção, que inclui os valores de Poder sobre Recursos e de Domínio, Realização, e Face; e Abertura a Mudanças, composta por Hedonismo, Estimulação, e Autodireção de Pensamento e de Ação. Este procedimento permite obter índices de ajuste mais adequados para trabalhar com um conjunto amplo de fatores latentes como o de 19 valores (Cieciuch & Davidov, 2012) e não é novidade na literatura (e.g., Spini, 2003). Um modelo de AFC com todos os valores pode introduzir fontes de não especificação. Por exemplo, se itens têm cargas cruzadas em valores que se localizam em lados opostos do círculo proposto, isso não afeta a distinção dos valores adjacentes (Davidov, Schmidt, & Schwartz, 2008). Assim, nesta análise, a divisão teórica entre os quatro tipos de segunda ordem de Schwartz (2006) foi adotada, conforme indicado por outros pesquisadores de valores (e.g., Cieciuch & Schwartz, 2012; Knoppen & Saris, 2009). Foram utilizados os índices de ajuste múltiplos para a avaliação das estruturas de covariação dos modelos, i.e., o índice de comparação de ajuste (CFI), a raiz do erro de aproximação do valor médio quadrático (RMSEA) e o resíduo do valor médio quadrático padronizado (SRMS). O último compara as variâncias e covariâncias da amostra com as estimadas (Arbuckle, 2009), dando indícios para o modelo mais parcimonioso (Hu & Bentler, 1999). Foram considerados como bons indicadores de ajuste os valores de CFI > 0,90 (Bentler, 1990), RMSEA < 0,08 (Browne & Cudeck, 1993) e SRMR < 0,08 (Hu & Bentler, 1999). Tais análises foram feitas com o programa AMOS 18.0 (Arbuckle, 2009). O método de estimação utilizado foi o da máxima verossimilhança, que permite a obtenção de melhores resultados, mesmo com a violação do pressuposto da normalidade (Marôco, 2010; Kline, 2010). O modelo baseado na teoria prevê 19 fatores contíguos de valores, cada um medido com três itens. Para atingir identificação, a variância dos fatores latentes foi fixada em 1, permitindo que as cargas tivessem estimativa livre. Conforme descrito anteriormente, devido a um filtro de questionários criado no programa de coleta de dados, não havia presença de missing no banco de dados.

Análise de escalonamento multidimensional

O escalonamento multidimensional (MDS) confirmatório e não métrico (Borg & Groenen, 2005), que contou com configurações iniciais baseadas na teoria de Schwartz et al. (2012), foi utilizado para verificar as relações entre os itens dos 19 valores na segunda amostra. Apenas os itens mantidos após as AFCs foram incluídos (com base nos índices de modificação e dos resíduos padronizados) para o MDS. No início das análises foi especificada uma configuração personalizada, baseada na estrutura circular prevista pela teoria4. Foram usadas transformações ordinais de proximidade, sendo a medida de dissimilaridade utilizada a distância euclidiana (por transformação monotônica) e a transformação de dados em escores-Z (Bilsky, Janik, & Schwartz, 2011). Devido a seu número, um MDS que incluísse os itens resultaria em uma configuração de difícil visualização, pois mesmo usando apenas os itens mantidos após os AFCs realizados, a projeção incluiria 56 itens. Assim, optou-se por efetuar o MDS que incluísse os escores fatoriais dos 19 valores que foram resultantes das AFCs. O uso de escores fatoriais reduz o impacto de vieses (e.g., aquiescência) e, ao mesmo tempo, não tem efeito nas distâncias entre os dados (Borg & Groenen, 2005).

Estudo 2: Participantes e Procedimento

Uma amostra de 248 policiais militares do Distrito Federal respondeu ao PVQ-R descrito no Estudo 1 e a um questionário sobre comportamentos rotineiros, que espelhavam os valores apresentados no PVQ-R. Os respondentes formaram 124 pares, com colegas de trabalho que se conheciam e trabalhavam juntos há dois anos ou mais (média=6,67; DP=8,06). Em termos de características sociodemográficas, a maioria dos participantes era de homens (81,8%), com idade média de 37,60 anos (DP=8,66) e amplitude de 23 a 53 anos, tendo em média 15,82 anos de educação formal (DP=4,64).

Primeiramente, cada participante respondeu a seu próprio questionário de valores e, depois, avaliou a frequência de ocorrência dos comportamentos rotineiros de seu colega de trabalho. Após um intervalo, os participantes avaliavam a frequência de seus próprios comportamentos rotineiros. Os questionários foram administrados no formato lápis e papel, em turmas de 30 policiais, mediante consentimento dos participantes e da Polícia Militar do Distrito Federal. Os pares de colegas policiais responderam aos questionários simultaneamente, mas sem consulta entre si. O estudo foi apresentado como uma pesquisa sobre familiaridade com o colega de trabalho. A participação foi voluntária, com anonimato assegurado, tendo-se obtido o consentimento voluntário de participação dos respondentes e a duração média das aplicações foi de 30 minutos.

Instrumentos

O PVQ-R, descrito no Estudo 1, foi utilizado como medida dos 19 valores. Os 57 itens empregados no estudo anterior foram também aplicados a essa amostra. Além do PVQ-R, foram ainda utilizadas duas medidas desenvolvidas para o estudo.

Medida de comportamentos

Os participantes responderam a dois questionários sobre comportamentos rotineiros. Um visava a autoavaliação da frequência dos comportamentos, enquanto o outro foi usado para avaliação por um colega de trabalho. Os dois questionários eram compostos por conjuntos de três a seis comportamentos específicos que expressavam principalmente um dos 19 valores da teoria. Os itens foram selecionados após serem analisados por quatro juízes (dois pesquisadores transculturais e dois oficiais da Polícia Militar do DF) em relação à sua adequação para o contexto brasileiro, possibilidade de ocorrência entre policiais e familiaridade da escrita. Assim como para o PVQ-R, uma equipe composta por oito tradutores bilíngues realizou as traduções e retraduções do questionário do inglês para o português, resultando em quatro rodadas de traduções independentes.

Cada questionário final foi composto por 85 itens (tanto na versão para autoavaliação quanto para heteroavaliação). As instruções de preenchimento variaram entre as duas versões do questionário (e.g., "Estime com que frequência você se comportou de cada uma dessas formas no ano passado em relação às vezes que você teve oportunidade de fazer isso" para o questionário de comportamentos próprios; e "Estime com que frequência seu colega se comportou" para a heteroavaliação) e de escala de resposta e.g., "0 - Eu nunca fiz isso, embora eu tenha tido pelo menos uma oportunidade de fazer" ou "0 - Meu colega nunca fez isso, embora tenha tido pelo menos uma oportunidade de fazer", respectivamente). As escalas de resposta variaram de 0 - Nunca a 4 - Sempre. A inclusão da segunda parte da afirmação nas alternativas, "embora eu tenha tido pelo menos uma oportunidade de fazer" é uma modificação ao procedimento originalmente apresentado por Bardi e Schwartz (2003), que permitiu aos respondentes distinguir entre ter feito o comportamento e ter tido oportunidade para fazê-lo. Alguns exemplos dos itens com os valores correspondentes são: "Ter evitado comprar coisas que pudessem prejudicar o ambiente" (Universalismo - Natureza) e "Fazer coisas arriscadas apenas pela emoção de fazer aquilo" (Estimulação).

Medida de familiaridade

Ao final do questionário, os respondentes informaram até que ponto conheciam seu colega de trabalho em uma escala de 5 pontos (1 - Não tão bem; 5 - Muito bem), além do tempo que conheciam a outra pessoa, como dito anteriormente. 67,2% dos respondentes disseram conhecer o colega bem ou muito bem (média=3,95; DP=1,01). Devido ao nível de familiaridade encontrado, as duas avaliações de comportamento foram incluídas no estudo e tratadas de forma agregada nas análises.

Análises

As respostas dos 248 participantes foram analisadas utilizando AFCs para verificar a adequação dos quatro modelos de tipos de segunda ordem à amostra, utilizando os mesmos procedimentos descritos no Estudo 1. Esse procedimento de análise foi usado não só para o questionário de valores, mas também para os questionários de comportamento. Os dados também foram submetidos às seguintes análises:

Regressões múltiplas

Para testar as Hipóteses 2 e 3, foram utilizadas regressões múltiplas com os comportamentos como variáveis-critério e os valores como preditores. Dois pontos merecem atenção nessas análises: primeiro, o teste dessas hipóteses busca a melhor estimativa de comportamento. Na realidade, não há interesse nas auto ou heteroavaliações dos comportamentos relacionados aos valores por si e, por isso, as duas foram agregadas para aumentar o nível de confiança nos relatos, obtendo uma medida proximal de comportamento mais segura (Vazire & Mehl, 2008). As duas fontes apresentam informações únicas e vieses igualmente únicos. Os autorrelatos incluem informações conhecidas apenas do respondente, enquanto as heteroavaliações apresentam informações conhecidas da outra pessoa por observação e que são ignoradas ou negadas pela primeira. Ao agregar as informações, a variância do comportamento em que as duas as fontes concordam é obtida, aumentando a exatidão da informação verdadeira. O segundo ponto de interesse se refere ao fato de que, em suma, as hipóteses testam as relações de compatibilidade e conflito entre os 19 valores e como elas se expressam nas relações dos valores com os comportamentos. É necessário verificar se um comportamento que expressa as metas de um determinado valor é predito positivamente pelo respectivo valor, mas negativamente por valores opostos àquele de interesse. Como é necessário definir qual valor oposto seria o melhor preditor negativo do comportamento (Schwartz & Butenko, 2014), os tipos de segunda ordem opostos ao comportamento de interesse foram incluídos na equação de regressão. Finalmente, todas as regressões foram realizadas utilizando os escores fatoriais das variáveis, o que reduz os vieses e fontes de erro das correlações simples. Os escores fatoriais são calculados pela média do produto do escore obtido em uma variável versus os pesos dos escores fatoriais resultantes das AFCs, tendo sido obtidos com o programa MPlus com base nos modelos resultantes do AMOS 18.0, uma vez que o AMOS não tem funções que permitam o cálculo dos escores fatoriais. Somente os itens mantidos após as AFCs foram usados (Herrmann & Pfister, 2013).

Resultados

Estudo 1

A Tabela 1 apresenta os resultados das análises fatoriais exploratórias para a primeira amostra do estudo. Seguindo a proposta de Cieciuch e Schwartz (2012), foram realizadas quatro PAFs, uma para cada tipo de segunda ordem. Para tanto, foi avaliada a adequação da amostra para cada uma das 4 dimensões: 1-Autotranscendência (18 itens; KMO = 0,898 e Teste de Esfericidade de Bartlett, χ² (153) = 3419,364, p < 0,000), 2-Conservação (15 itens; KMO = 0,879 e Teste de Esfericidade de Bartlett, χ² (105) = 2519,971, p < 0,000), 3-Autopromoção (12 itens; KMO = 0,851 e Bartlett, χ² (66) = 1920,266, p < 0,000) e 4-Abertura a Mudança (12 itens; KMO = 0,852 e Bartlett, χ² (66) = 1465,144, p < 0,000). Os resultados das análises, juntamente do índice de precisão (Alfa de Cronbach e Lambda 2 de Guttman) da escala, são apresentados na Tabela 1. Vale lembrar que os índices de precisão são resultados de análises estatísticas dos dados de uma única aplicação do instrumento à amostra e serve para verificar a fidedignidade do mesmo, isto é, sua propriedade de ser consistente, medir sistematicamente e com menor número de erros aquilo que pretende medir, servindo como indicadores de itens que podem ser eliminados para o aumento da precisão do instrumento (Pasquali, 2003).

Tabela 1 Análises fatoriais exploratórias para amostra de população geral (N=471) 

Itens Dimensões h2
1 2 3 4
É muito importante para ela ajudar as pessoas que lhe são queridas. 0,72 0,62
É importante para ela ser uma amiga confiável e fiel. 0,70 0,62
É importante para ela ser humilde. 0,66 0,46
É importante para ela se preocupar com todas as necessidades das suas pessoas queridas. 0,65 0,46
É importante para ela cuidar das pessoas das quais ela se sente próxima. 0,63 0,52
É importante para ela que todos sejam tratados com justiça, mesmo pessoas que ela não conhece. 0,62 0,44
É importante para ela que todos os seus amigos e família possam acreditar nela completamente. 0,61 0,49
É importante para ela aceitar as pessoas, mesmo quando ela discorda delas. 0,61 0,43
É importante para ela que todas as pessoas no mundo tenham oportunidades iguais na vida. 0,60 0,44
É importante para ela ouvir e compreender as pessoas que são diferentes dela. 0,59 0,47
É importante para ela tomar conta da natureza. 0,58 0,59
É importante para ela ser tolerante com todos os tipos de pessoas e grupos. 0,57 0,42
É importante para ela proteger as pessoas fracas e vulneráveis na sociedade. 0,53 0,32
É importante para ela que as pessoas que ela conhece tenham total confiança nela 0,52 0,47
É importante para ela proteger o ambiente natural da destruição ou poluição. 0,52 0,62
É importante para ela tomar parte nas atividades que defendam a natureza. 0,50 0,60
É importante para ela nunca se vangloriar ou se fazer de arrogante. 0,34 0,22
É importante para ela nunca buscar atenção ou elogios públicos. 0,33 0,21
É importante para ela nunca violar as regras ou regulamentos. 0,73 0,56
É importante para ela obedecer todas as Leis. 0,69 0,55
É importante para ela seguir as regras mesmo se ninguém estiver olhando. 0,64 0,51
É importante para ela honrar as práticas tradicionais da sua cultura. 0,62 0,50
É importante para ela nunca deixar as outras pessoas com raiva. 0,62 0,56
É importante para ela que haja estabilidade e ordem na sociedade como um todo. 0,60 0,39
É importante para ela nunca irritar alguém. 0,58 0,56
É importante para ela seguir os costumes da sua família ou os costumes de uma religião. 0,56 0,48
É importante para ela nunca fazer qualquer coisa que seja perigosa. 0,56 0,33
É importante para ela manter tanto os valores, quanto as formas de pensar tradicionais. 0,56 0,42
É importante para ela ter um Estado forte que possa defender seus cidadãos. 0,54 0,37
É importante para ela que seu país se proteja de todas as ameaças. 0,52 0,36
É importante para ela evitar chatear as pessoas. 0,51 0,43
É importante para ela estar segura pessoalmente. 0,44 0,27
É muito importante para ela evitar doenças e proteger a sua saúde 0,42 0,27
É importante para ela ser rica. 0,75 0,64
É importante para ela ter poder para conseguir com que as pessoas façam o que ela quer. 0,74 0,56
É importante para ela ter o poder que o dinheiro pode trazer. 0,70 0,56
É importante para ela ter muito sucesso. 0,67 0,48
É importante para ela ter coisas caras que mostram a sua riqueza. 0,64 0,48
É importante para ela que as pessoas reconheçam o que ela alcança. 0,60 0,37
É importante para ela ser a pessoa que diz aos outros o que fazer. 0,59 0,38
É importante para ela nunca ser humilhada. 0,46 0,38
É importante para ela ter ambições na vida. 0,42 0,25
É importante para ela proteger sua imagem pública. 0,40 0,32
É importante para ela que as pessoas façam o que ela diz que deveriam fazer. 0,36 0,18
É importante para ela que ninguém jamais a envergonhe. 0,36 0,38
É importante para ela desfrutar dos prazeres da vida. 0,61 0,39
É importante para ela tomar suas próprias decisões a respeito da sua vida. 0,60 0,40
É importante para ela ser livre para escolher por ela mesma o que fazer. 0,60 0,38
É importante para ela ter suas próprias ideias originais. 0,59 0,34
É importante para ela planejar suas atividades de forma independente. 0,56 0,36
É importante para ela assumir riscos que fazem a vida ficar excitante. 0,56 0,36
É importante para ela sempre procurar coisas diferentes para fazer. 0,54 0,30
É importante para ela ter todos os tipos de experiências novas. 0,53 0,37
É importante para ela expandir os seus conhecimentos. 0,51 0,26
É importante para ela aproveitar qualquer oportunidade de se divertir. 0,47 0,39
É importante para ela ter a sua própria compreensão das coisas. 0,46 0,33
É importante para ela se entreter. 0,44 0,31
Dimensões
1 2 3 4
Número de Itens 18 15 12 12
Valor Próprio 6,64 5,67 4,56 4,22
% de Variância Explicada 36,91% 37,80% 38,03% 35,20%
Alfa de Cronbach 0,89 0,88 0,84 0,82
Lambda 2 de Guttman 0,89 0,88 0,85 0,83

Com os resultados da PAF sugerindo a prevalência da estrutura de 19 fatores para a versão brasileira do PVQ-R, procedeu-se às análises confirmatórias da estrutura proposta pela teoria com a segunda amostra do estudo (n=573). Foi adotada uma estratégia de lente de aumento, que analisa cada modelo para os quatro tipos de segunda ordem em separado (Cieciuch & Davidov, 2012; Cieciuch & Schwartz, 2012). A Figura 2 apresenta os modelos resultantes por tipo de segunda ordem, os coeficientes apresentados, as cargas dos itens e as correlações entre as variáveis latentes obtidas. Os coeficientes de ajuste obtidos foram: para Autotranscedência, obteve-se um χ2/g.l. = 2,03, o SRMR de 0,0364 com CFI = 0,97 e RMSEA de 0,04 (Valores do PClose: Lo90-0,032; Hi-0,050, p = 0,951). Para Abertura a Mudanças o χ2/g.l. = 3,2, o SRMR foi de 0,0391, sendo o CFI de 0,94 e RMSEA = 0,06 (Valores do PClose: Lo90-0,050; Hi-0,071, p = 0,056). Para Autopromoção, obteve-se um χ2/g.l. = 4,5, SRMR = 0,0485 com CFI = 0,93 e RMSEA = 0,07 (Valores do PClose: Lo90-0,065; Hi-0,086, p = 0,071). Finalmente, para Conservação o χ2/g.l. = 2,74, SRMR foi de 0,0498 e CFI = 0,94 e RMSEA = 0,05 (Valores do PClose: Lo90-0,046; Hi-0,061, p = 0,228).

Figura 2 Análises fatoriais confirmatórias da estrutura proposta do PVQ-R por tipos de segunda ordem 

Conforme mostra a Figura 2, os modelos se mantiveram na íntegra e com todos os itens propostos, com exceção de um valor. Como o estudo visa a validade da teoria refinada dos 19 valores no Brasil e não itens em particular, os índices de modificação e os resíduos padronizados foram analisados. Como o item de Segurança Pessoal (Item 3: SEP3)5 apresentou covariância residual padronizada superior ao limite de |2,58|, de acordo com MacCallum (1986), e cujos índices de modificação mostravam-se inadequados, ao saturar, com valores elevados, foi excluído. Apenas duas correlações entre variáveis latentes ficaram acima de 0,70 (Autopromoção e Abertura a Mudanças); porém, as análises indicaram ser possível a distinção entre elas. Os modelos não incluíram erros correlacionados ou cargas cruzadas. Juntos daqueles obtidos na PAF, esses resultados indicam que é possível distinguir entre os 19 valores do contínuo motivacional com a versão brasileira do PVQ-R. Isso indica que alguns dos valores originais, mais heterogêneos e amplos, podem ser divididos em subtipos mais definidos com mais precisão, confirmando assim a Hipótese 1a.

Uma vez estabelecido que os 19 valores podem ser discriminados, foi avaliado se eles têm o mesmo ordenamento do contínuo motivacional proposto pela teoria. A Figura 3 apresenta a projeção bidimensional do MDS para os 19 valores. O índice de Stress-1 foi de 0,204, com índice de dispersão (DAF) de 0,953 e o coeficiente de congruência de Tucker (TCC) de 0,975. Pelo MDS se tratar de um modelo métrico absoluto, i.e., as distâncias euclidianas obtidas no espaço calculado de representação corresponderem o mais próximo possível às distâncias observadas na matriz de dissimilaridade original, não há valor-p associado aos testes (Shye, Elizur, & Hoffman, 1994). Esses resultados indicam que a projeção representa bem a matriz de covariação subjacente a ela. Ou seja, eles confirmam que o ordenamento resultante representa bem aquele proposto pela teoria.

Figura 3 Projeção bidimensional do MDS para o Estudo 1 (n=573) 

Em termos gerais, o MDS corrobora a distribuição dos valores apresentada na teoria, com duas exceções: Humildade, que se posicionou entre os subtipos de Benevolência-Dependência e Autodireção de Pensamento; e Benevolência e Universalismo, que se encontraram invertidos com relação a sua ordenação, quando comparados à distribuição original proposta. Exceto pelos mencionados valores, os resultados do MDS corroboram a Hipótese 1b.

Estudo 2

Embora os resultados do Estudo 1 indicassem ser possível distinguir entre os 19 valores do contínuo motivacional com a versão brasileira do PVQ-R, optou-se por confirmar se essa distinção seria mantida na amostra de policiais, que é uma população com especificidades em relação a valores, segundo a literatura (Nascimento et al., 2013). Seguindo os procedimentos descritos anteriormente, quatro AFCs foram realizadas e seus resultados são apresentados na primeira parte da Tabela 2.

Tabela 2 Análises Fatoriais Confirmatórias: Índices de ajuste para Valores e Comportamentos 

Modelo χ2 df CFI RMSEA SRMR
Valores
1a. Modelo inicial para Abertura a Mudança: 12 itens, 4 fatores latentes 295,2 47 ,77 ,12 ,08
1b. Modelo revisto para Abertura a Mudança: 10 itens, 4 fatores latentes 104,8 37 ,90 ,08 ,06
2a. Modelo inicial para Autopromoção: 12 itens, 4 fatores latentes 243,1 50 ,80 ,11 ,08
2b. Modelo revisto para Autopromoção: 10 itens, 4 fatores latentes 99,5 35 ,90 ,08 ,05
3a. Modelo inicial para Conservação: 18 itens, 6 fatores latentes 156,1 75 ,84 ,07 ,05
3b. Modelo revisto para Conservação: 13 itens, 5 fatores latentes* 152,0 55 ,90 ,06 ,04
4a. Modelo inicial para Autotranscendência: 15 itens, 5 fatores latentes 159,9 78 ,93 ,06 ,05
4b. Modelo revisto para Autotranscendência: 16 itens, 6 fatores latentes* 189,6 80 ,90 ,05 ,04
Autoavaliação de comportamentos
1. Modelo revisto para Abertura a Mudança: 15 itens, 4 fatores latentes 160,8 82 ,87 ,05 ,05
2. Modelo revisto para Autopromoção: 14 itens, 4 fatores latentes 172,3 70 ,88 ,07 ,05
3. Modelo revisto para Conservação: 19 itens, 5 fatores latentes 326,1 139 ,80 ,06 ,06
4. Modelo revisto para Autotranscendência: 22 itens, 6 fatores latentes 410,5 192 ,86 ,05 ,06
Heteroavaliação de comportamentos
1. Modelo revisto para Abertura a Mudança: 17 itens, 4 fatores latentes 271,1 107 ,82 ,07 ,06
2. Modelo revisto para Autopromoção: 15 itens, 4 fatores latentes 236,9 80 ,85 ,07 ,07
3. Modelo revisto para Conservação: 19 itens, 5 fatores latentes 383,4 140 ,80 ,07 ,06
4. Modelo revisto para Autotranscendência: 20 itens, 6 fatores latentes 313,1 154 ,90 ,06 ,06

Nota: Para todos os valores de χ2 , p<.001. CFI = índice de comparação de ajuste; RMSEA = média da raiz quadrada do erro de aproximação; SRMR = média da raiz quadrada dos resíduos padronizados

* O valor ´humildade´ foi excluído no modelo revisto de Conservação e incluído no de Autotranscendência

A primeira parte da tabela apresenta os índices de ajuste dos modelos iniciais com 57 itens e os respectivos modelos finais. Todos os índices dos modelos finais atenderam aos critérios de ajuste. Novamente, os índices de modificação foram examinados, levando ao descarte ou relocação em tipos de segunda ordem não previstos anteriormente em oito itens. Dois erros correlacionados foram incluídos, sendo eles entre os itens 1 e 2 de realização, com carga de 0,17 (tipo de Autopromoção) e entre itens 1 e 3 de Autodireção de Pensamento (carga 0,24) do tipo de segunda ordem de Abertura a Mudanças. Essa inclusão, no entanto, não alterou o ajuste final. Vale observar que para essa amostra o valor Humildade se ajustou melhor ao tipo de segunda ordem Autotranscendência do que a Conservação, como apresentado anteriormente na Figura 2. Como proposto pela teoria, esse valor é limítrofe entre os dois tipos mencionados e, para essa amostra, o reconhecimento da própria insignificância (meta central do valor de Humildade) aparentemente reflete mais a conformidade com expectativas sociais do que a renúncia a interesses próprios em favor dos outros.

A Tabela 2 também apresenta os índices de ajuste dos modelos finais dos instrumentos de comportamentos relacionados aos quatro fatores de segunda ordem, para auto e heteroavaliação. Como esperado, nos dois instrumentos os modelos para os comportamentos relacionados ao valor humildade se encaixam melhor em Autotranscendência. A análise dos índices de modificação para os dois instrumentos indicou o descarte de 15 itens para autoavaliação e 14 para heteroavaliação. Todos os índices dos modelos finais atenderam aos critérios de ajuste. Embora o objetivo primário não seja testar a discriminação entre comportamentos, ainda sim os resultados indicam que é possível distinguir entre os 19 comportamentos. A proximidade dos escores indica que as medidas de auto e heteroavaliação de comportamento podem ser tratadas de forma agregada.

Foram realizadas regressões múltiplas dos escores fatoriais dos comportamentos agregados como variáveis-critério e dos respectivos valores e tipos de segunda ordem opostos como preditores. Esperava-se que um comportamento que expressa as metas de um determinado valor fosse predito positivamente pelo respectivo valor (conforme expresso na Hipótese 2), mas negativamente pelo tipo de segunda ordem opostos ao comportamento de interesse (Hipótese 3). Os resultados das 19 regressões são apresentados na Tabela 3.

Tabela 3 Regressões múltiplas de Comportamentos (escores fatoriais de auto- e heterorrelatados) nos Valores correspondentes (escores fatoriais) e Tipo Motivacional de Segunda Ordem oposto (média dos escores fatoriais) 

Comportamentos Valores β t F (2, 241)
Universalismo Tolerância Valor Universalismo Tolerância ,31 5,57*** 16,55*** ,09
Autopromoção -,12 -4,40*
Universalismo Natureza Valor Universalismo Natureza ,26 4,72*** 11,33*** ,07
Autopromoção -,02 -1,44
Universalismo Compromisso Valor Universalismo Compromisso ,18 4,15** 15,24** ,07
Autopromoção -,01 -1,21
Benevolência Dependência Valor Benevolência Dependência ,35 16,23*** 21,99*** ,12
Autopromoção -,09 -2,09*
Benevolência Cuidado Valor Benevolência Cuidado ,40 16,52*** 29,92*** ,16
Autopromoção -,08 -3,41*
Humildade Valor Humildade ,07 0,75 n.s. 2,14 n.s. ,03
EST, HE, RE, POD1 -,01 -0.82 n.s.
Face Valor Face ,23 15,59*** 17,95*** ,10
Auto-Transcedência -,21 -5,99**
Poder Recursos Valor Poder Recursos ,33 16,34*** 32,16*** ,12
Auto-Transcedência -,16 -6,61**
Poder Domínio Valor Poder Domínio ,29 5,21*** 16,33*** ,10
Auto-Transcedência -,20 -4,18***
Realização Valor Realização ,21 6,88*** 6,96** ,08
Auto-Transcedência -,12 3,67*
Hedonismo Valor Hedonismo ,44 7,15*** 27,92*** ,15
Conservação -,35 -5,76***
Estimulação Valor Estimulação ,44 7,52*** 28,67*** ,15
Conservação -,17 -3,94**
Autodireção Ação Valor Autodireção Ação ,10 4,21* 5,65** ,10
Conservação -,14 -4,81*
Autodireção Pensamento Valor Autodireção Pensamento ,02 2,31 16,62*** ,10
Conservação -,29 3,50**
Segurança Pessoal Valor Segurança Pessoal ,11 4,39* 6,98** ,08
Abertura à Mudança -,11 -4,48*
Segurança Social Valor Segurança Social ,25 4,97*** 16,38*** ,10
Abertura à Mudança -,07 -2,46
Tradição Valor Tradição ,21 8,94*** 11,02*** ,10
Abertura à Mudança -,05 -2,72
Conformidade Regras Valor Conformidade Regras ,33 4,81** 27,59*** ,15
Abertura à Mudança -,07 -3,92*
Conformidade Interpessoal Valor Conformidade Interpessoal ,21 6,32** 15,57*** ,18
Abertura à Mudança -,10 -3,48*

* p < .05 ** p < .01 *** p < .001

1: Para Humildade, que é está em oposição a dois tipos diferentes de segunda valores de segunda ordem, Estimulação (EST), Hedonismo (HE), Realização (RE) e Poder Domínio (POD) foi utilizado como o conjunto de valores opostos

Para 17 das regressões realizadas, a contribuição individual do valor correspondente foi positiva e superior à contribuição do tipo motivacional oposto, com porcentagens de variâncias explicadas oscilando entre 7% e 18%. Em duas regressões (para os subtipos de autodireção) o sinal da contribuição se manteve, porém o peso das contribuições dos tipos opostos foram superiores às dos valores correspondentes. Para os comportamentos de Humildade, não se pode considerar que tenha havido uma predição com relação ao seu respectivo valor, tampouco pelo conjunto de valores opostos a ele (Estimulação, Hedonismo, Realização e Poder-Domínio). Assim, as Hipóteses 2 e 3 foram parcialmente confirmadas.

Discussão

Juntos, os resultados da PAF (Estudo 1) e das AFCs (Estudos 1 e 2) apoiam a discriminação dos 19 valores no Brasil. Na primeira verificação da estrutura do instrumento todos os itens se mantiveram na análise fatorial exploratória. Para obter índices de encaixe adequados, apenas um item com a amostra de estudantes (Estudo 1) foi retirado nas AFCs e oito itens com amostra de policiais (Estudo 2), contra os nove itens retirados por Schwartz et al. (2012). A presente pesquisa expande a validade da teoria de valores refinados, demonstrando sua resistência às mudanças no instrumento de medida. Os resultados obtidos também sugerem que o instrumento é adequado para uso com amostras brasileiras, representando um avanço na medida usada anteriormente.

O ordenamento dos 19 valores no contínuo motivacional proposto pela teoria foi testado com o MDS (Figura 3). Em termos gerais, a ordem observada corresponde àquela proposta na teoria, porém os valores de Universalismo e Benevolência e seus respectivos subtipos apresentam-se invertidos quando comparados à estrutura proposta. Esse resultado inesperado também foi encontrado por Schwartz et al. (2012). Em sua amostra na Rússia, Schwartz e Butenko (2014) também encontraram uma posição inesperada para Benevolência. Assim, os resultados encontrados na amostra brasileira não são excepcionais. Os itens de Benevolência e Universalismo se referem explicitamente às pessoas com as quais o respondente tem proximidade e identificação (endogrupo) e ao comprometimento com o tratamento justo, aceitação e harmonia com todas as pessoas e com a natureza. O conflito entre a preocupação com o bem-estar de outros, próximos ou não e o autointeresse, que é a motivação dos valores de Autopromoção, costuma produzir correlações negativas, que faz que esses valores estejam em lados opostos da projeção de MDS. Contudo, quando a Benevolência e o Universalismo são refinados para enfocarem o endogrupo do indivíduo e a proteção de pessoas diferentes ou com menos poder social, eles podem ser considerados compatíveis com os valores de Conservação e, até certo ponto, de Autopromoção. Uma pessoa preocupada com o bem-estar do endogrupo pode, por exemplo, fazer uso da sua autodeterminação para beneficiar seus próximos. Já uma pessoa preocupada com a proteção dos mais fracos pode se conformar com regras e obrigações formais comprometidas com a igualdade de tratamento, justiça ou preservação da natureza. A localização de Benevolência e Universalismo na Figura 3 reflete o fato de que esses valores estão substancialmente correlacionados aos valores de Conservação, ao mesmo tempo em que a Benevolência está positivamente relacionada aos valores de Universalismo. Esse mesmo padrão foi encontrado quando as projeções de MDS do European Social Survey foram verificadas (Bilsky, Janik, & Schwartz, 2011), revelando que, em 32% das amostras representativas de países europeus, os itens que mediam Benevolência e Universalismo apareceram no centro da distribuição. Para fazer uma análise mais específica dessa interpretação seria necessário investigar as matrizes de correlação das projeções de valores em amostras de diferentes países.

As regressões forneceram evidências da validade preditiva da teoria. Como esperado, a maioria dos comportamentos relatados foi positivamente predita pelo respectivo valor que o motivaria, e negativamente pelo tipo motivacional oposto. Esses resultados também apoiam substancialmente a validade discriminante do instrumento, em que 17 dos 19 valores apresentaram uma contribuição individual superior à contribuição do tipo motivacional oposto. Bardi e Schwartz (2003) sugerem que os valores podem influenciar mais o comportamento quando as pressões situacionais são fracas. Quando as pressões normativas são inexistentes ou não são incluídas na medida de comportamento, como nos questionários em questão, os indivíduos têm maior chance de relatar seus comportamentos de maneira consistente com os valores. Contudo, quando sob forte pressão normativa, as pessoas podem apresentar comportamentos opostos a seus valores, para se conformarem ao grupo. Talvez por isso, no caso dos subtipos de autodireção, os comportamentos relacionados à liberdade para determinar as próprias ideias e ações recebam uma contribuição explicativa mais forte (embora negativa) da variância relacionada à conservação do que do próprio valor correspondente. As futuras pesquisas devem investigar o consenso grupal em torno de comportamentos esperados e a importância dos valores como potenciais fontes de incongruência entre valores e comportamentos. Caso a congruência valor-comportamento seja maior quando a importância do valor e a frequência do comportamento forem menores, então será possível obter evidências para a interpretação das pressões normativas.

É importante retomar o conceito do valor de Humildade, especialmente devido aos resultados encontrados no Estudo 2. Schwartz et al. (2012) propõem que Humildade é um valor que motiva as pessoas a serem modestas e a evitarem se destacar do grupo. Nesse valor, o self é visto como insignificante, promovendo o autossacrifício. Ele se opõe fortemente ao poder que, por sua vez, se concentra claramente em um enriquecimento da própria importância e na obtenção de influência e recursos para si mesmo. É um valor fronteiriço com a Autotranscedência porque, assim como esse tipo de segunda ordem, também ignora os interesses próprios. No caso dos resultados aqui encontrados, esse valor se localiza em Conservação, já que aceita que expectativas externas legítimas devam ter precedência sobre desejos autocentrados. No caso da amostra de policiais pesquisada, vale observar que foi composta exclusivamente por policiais praças, que trabalham juntos há tempos. Ao ingressarem na PMDF, os praças já se diferenciam do grupo ou da classe social à qual pertencem, alcançando um status superior nesse grupo. Assim, sugere-se a existência de um padrão cultural nesse subgrupo da polícia, em que o policial é visto como mais privilegiado do que outro membro da sociedade civil que, até mesmo por isso, é chamado de paisano, do latim paganus: aquele que desconhece a ordem ou organização. Para Nascimento (2010) e Pinto (2000), essa visão de inferioridade do civil não somente é histórica, mas também predomina na PMDF e, assim, pode ter influenciado as respostas. Os três itens de Humildade do PVQ-R sugerem ativamente a evitação de atenção, elogios públicos ou de se vangloriar. Esses itens não incluem a noção de reconhecimento que o respondente tem, que é a base para se vangloriar ou chamar atenção. É aqui recomendado uma reformulação dos itens de Humildade para itens que melhor eliciem a variância relacionada a esse valor.

Demonstrou-se que é possível discriminar os 19 valores mais finamente definidos em amostras brasileiras. As relações apresentadas entre os valores da teoria refinada e os comportamentos relatados suportam a validade da teoria com amostras brasileiras, sugerindo uma motivação compartilhada entre os dois. É plausível que mecanismos causais apresentados em outras pesquisas (e.g., Sagiv, Sverdlik, & Schwartz, 2011) reforcem a ideia de que valores influenciam os comportamentos, o que não foi testado aqui.

Uma limitação dessa pesquisa é o uso exclusivo de auto e heterorrelatos de comportamentos. Relatos de comportamentos podem ser precisos quando medem a frequência de comportamentos específicos (Gosling et al., 1998), como no caso de comportamentos que foram escolhidos explicitamente como expressões de valores. Todavia, a variância compartilhada do método pode exagerar a relação valores-comportamentos (McBroom & Reed, 1992). Tal efeito poder ter sido reduzido quando os autorrelatos foram complementados pelos heterorrelatos, já que cada método tem diferentes vantagens (Meyer et al., 2001). De qualquer sorte, nem mesmo as relações valores-comportamentos exageradas devem afetar os padrões encontrados, que sugerem a validade preditiva e discriminante da teoria refinada dos valores.

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1Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Processo n.º 301955/2014-0.

2Journal of Cross-Cultural Psychology, (2011, março), 42(2), 175-177. doi:10.1177/0022022110397036

3Os autores agradecem a Marília Assumpção e Solange Alfinito pela coleta e cessão dos dados.

4O desenho da matriz para a configuração inicial usou coordenadas para cada um dos 19 valores em ângulos crescentes de 19 graus (e.g., 19_19_360). Resultados similares foram encontrados quando a configuração inicial de Torgerson foi utilizada.

5 Schwartz et al. (2012) descartaram nove itens que foram repostos. Todos foram mantidos na presente AFC. A versão final do PVQ-R em português para a medida dos 19 valores pode ser obtida com o primeiro autor.

Recebido: 04 de Maio de 2014; Revisado: 07 de Março de 2015; Aceito: 30 de Março de 2015

*Endereço para correspondência: claudio.v.torres@gmail.com

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