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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.29 no.3 São Paulo Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0103-656420180136 

ARTIGOS ORIGINAIS

Formação da personalidade autêntica e corporeidade à luz de Edith Stein1

Formation de la personnalité authentique et corporéité à la lumière d’Edith Stein

Formación de la personalidad auténtica y la corporeidad a la luz de Edith Stein

Achilles Gonçalves Coelho Júniora  * 

Cristiano Roque Antunes Barreirab  c 

aFaculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros, Curso de Psicologia. Montes Claros, MG, Brasil

bUniversidade de São Paulo, Escola de Educação Física e Esportes. Ribeirão Preto, SP, Brasil

cUniversidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Ribeirão Preto, SP, Brasil

Resumo

Considerando que o tema da autenticidade tem se tornado um importante referencial ético da sociedade contemporânea, discutimos neste trabalho as contribuições de Edith Stein para a compreensão do processo de formação da personalidade autêntica, com especial atenção à maneira como a corporeidade participa dessa dinâmica. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, em que examinamos alguns textos steinianos que abordam diretamente o tema da estrutura da pessoa e seu processo formativo, especialmente O problema da empatia, Sobre a ideia de formação e Potência e ato, respectivamente com originais dos anos de 1917, 1930 e 1931. Discutido como processo de formação da personalidade e como princípio de individuação, Stein acentua a necessidade de considerarmos a pessoa em ato, como meio de conhecermos sua autêntica individualidade, mesmo havendo limites para esse conhecimento.

Palavras-chave: autenticidade; formação; individuação; fenomenologia; Edith Stein

Résumé

Considérant que le thème de l’authenticité est devenu un cadre éthique important pour la société contemporaine, cet article examine les contributions d’Edith Stein à la compréhension du processus de formation de la personnalité authentique, avec une attention particulière à la manière dont la corporéité participe à cette dynamique. C’est une recherche bibliographique dans laquelle sont examinés certains textes de Stein qui abordent directement le thème de la structure de la personne et son processus de formation, en particulier, Le problème de l’empathie; Concernant l’idée de formation et Puissance et Acte, avec des originaux des années 1917, 1930 et 1931, respectivement. Discuté en tant que processus de formation de la personnalité et principe d’individuation, Stein insiste sur la nécessité de considérer la personne en acte, afin de connaître son individualité authentique, même s’il y a des limites à cette connaissance.

Mots-clés : authenticité; formation; individuation; phénoménologie; Edith Stein

Resumen

Considerando que el tema de la autenticidad se ha convertido en un importante referencial ético de la sociedad contemporánea, discutimos en este trabajo las contribuciones de Edith Stein para la comprensión del proceso de formación de la personalidad auténtica, con especial atención a la manera como la corporeidad participa en esa dinámica. Se trata de una investigación bibliográfica donde examinamos algunos textos steinianos que abordan directamente el tema de la estructura de la persona y su proceso formativo, especialmente El problema de la empatía; Sobre la idea de formación y Potencia y acto, respectivamente con originales de los años 1917, 1930 y 1931. Discutido como proceso de formación de la personalidad y como principio de individuación, Stein subraya la necesidad de considerar a la persona en acto, como medio de conocer su auténtica individualidad, aun habiendo límites para ese conocimiento.

Palabra-clave: autenticidad; formación; individuación; fenomenología; Edith Stein

Introdução

Com implicações político-culturais determinantes, a busca pela autenticidade tem sido considerada um importante referencial ético da sociedade contemporânea, assim como o cultivo das sensações como critério de subjetivação (Costa, 2005; Taylor, 2011, 2013). Em nossa sociedade, o corpo, cada vez mais, tem sido tomado como bússola do comportamento e critério de reconhecimento de autenticidade. Ser autêntico, muitas vezes, passa a significar apenas seguir as próprias sensações ou movimentos do desejo, desconsiderando outros aspectos éticos que estão envolvidos em cada escolha.

A pesquisa foi motivada por questões que têm surgido de nossa experiência clínica e pela necessidade de aprofundar temas de estudos realizados anteriormente (Coelho Júnior & Barreira, 2014; Coelho Júnior & Mahfoud, 2006). Trata-se de uma urgência expressa com clareza por muitas pessoas: Eu preciso ser eu mesmo! Como faço para ser eu mesmo? Para ser eu mesmo, basta seguir minhas sensações e desejos? São algumas das expressões recorrentes de jovens e adultos que emergem no confronto com seu mundo da vida e no exame da sua própria experiência. Dar-se conta da própria experiência e deixar-se guiar por ela já foi destacado por autores como um processo humano essencial ao desenvolvimento das próprias potencialidades pessoais, que não ocorre livre de tensões nos diversos contextos de relacionamentos sociais e comunitários (Bugental,1965; Rogers, 1961/1977). Ser si mesmo, no sentido de ser autêntico, coloca em evidência o problema da liberdade, porque nem sempre usamos nossa liberdade para fazer escolhas na direção de sermos nós mesmos (Cooper, 2003; Spiegelberg, 1972).

Edith Stein, seguindo as pegadas de Edmund Husserl, destacou esse aspecto em vários momentos de sua obra e, embora tenha utilizado poucas vezes o termo autenticidade em seus textos, disponibiliza grande contribuição teórica para abertura do horizonte de discussão dessa noção no debate contemporâneo (Stein, 1936/199l, 1917/1998, 1922/1999, 1932-1933/2000, 1919-1932/2001).

Em termos filosóficos, se, por um lado, a noção de autenticidade é utilizada para designar a constatação da identidade de um objeto - da verificação da correspondência entre o que é mostrado e seus aspectos constituintes essenciais -, por outro, também é usada para designar certo estilo de vida, uma maneira de posicionamento em que a expressão da pessoa é congruente com aquilo que ela vivencia em sua interioridade, remetendo ao problema da moral e da ética (Erickson, 1995; Ricoeur, 1990/1995). Detendo-nos nesse segundo sentido, o problema da autenticidade é aqui assumido como uma questão cujo enfrentamento existencial não se dá sem tensões e sem uma polissemia de sentidos, apresentada por muitos autores no âmbito da Filosofia, da Psicologia e da Sociologia (Erickson, 1995; Guignon, 2004, Taylor, 2011, 2013).

Diante desse cenário, tomamos como objetivo deste trabalho discutir as contribuições de Stein para a compreensão do processo de formação da personalidade autêntica, com especial atenção à maneira como a corporeidade comparece nesse processo. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica (Gil, 2002), também denominada por revisão de literatura (Hart, 1998; Ridley, 2012), na qual assumimos como nível de análise almejado a psicologia fenomenológica pura, uma vez que visa a descrição do fenômeno em sua essencialidade, disponibilizando seus achados para os estudos empíricos posteriores da psicologia (Peres, 2014, 2017).

Em relação ao tema da formação da personalidade autêntica e da corporeidade na obra de Edith Stein, optamos por analisar os artigos e textos compilados nas publicações de língua italiana e/ou espanhola, considerando como critério de escolha o fato de abordarem o tema da estrutura da pessoa humana e sua dinâmica de posicionamento pessoal. Assim, elegemos como textos principais, para a pesquisa aqui apresentada, as seguintes publicações de Edith Stein: O problema da empatia (1917/1998), Sobre a ideia de formação (1930/1999b), Potência e ato (1931/2003) e A estrutura da pessoa humana (1932-1933/2000). Vários outros textos de Edith Stein também foram utilizados para aprofundamento dos temas identificados, bem como a referência aos estudos de autoria de outros pesquisadores comentadores da obra steiniana ou do tema abordado.

O processo de formação e a autenticidade

Edith Stein adotou o método fenomenológico desde o início de suas pesquisas, em sua tese de doutorado O problema da empatia (1917/1998), e permaneceu fiel a ele até suas últimas análises (Stein, 1934-36/1999c, 1940-42/1999a), mesmo na ocasião em que iniciou um diálogo com a filosofia aristotélico-tomista (Ales Bello, 1998, 2016; Massimi, 2013; Savian Filho, 2014, 2016; Stein, 1929/1999).

Stein (1917/1998) se apropriou desse projeto da fenomenologia husserliana, iniciando suas análises com a vivência da empatia. Não buscava examiná-la em sua particularidade, mas no seu aspecto geral, isto é, explicitando os aspectos essenciais que compõe estruturalmente essa vivência. Dessa forma, assumia uma descrição essencial de uma vivência pura, partindo da redução fenomenológica, conforme as indicações de Edmund Husserl (1911/2009, 1913/2006), que foram acompanhadas de perto por Edith Stein que, além de aluna, também trabalhou como professora assistente de seu mestre no período de 1916 a 1918 (Ricci, 2010).

As análises sobre a vivência da empatia conduziram Stein com um interesse cada vez maior ao estudo da estrutura da pessoa. Já ao realizar uma fenomenologia da empatia, identificava a maneira como a individualidade alheia se mostrava à consciência, um aspecto de fundo de suas análises. O exame da vivência da empatia revelou um tipo de estrutura próprio da pessoa, do sujeito das vivências, tomado tanto no âmbito da universalidade quanto naquilo que lhe é mais específico. A individualidade identificada nas análises, inicialmente como um Eu Puro, apontou para a necessidade de outros passos de descrição que levaram Stein a identificar outros aspectos da estrutura da pessoa que possibilitaria o reconhecimento de uma autenticidade pessoal.

Edith Stein (1917/1998, 1922/1999e, 1934-1936/1999) reconhecia que a pessoa estava submetida a um processo de mudanças, envolvendo suas dimensões da corporeidade, psique e espírito, ao mesmo tempo em que possuía em seu ser pessoal algo que permanecia no tempo e que se expressava nos vários momentos de sua vida, denominado por ela como núcleo pessoal (Kern). Em suas análises da vivência empática, havia identificado um conjunto de “propriedades constantes, assim como seu idêntico portador” (Stein, 1917/1998, p. 123, tradução nossa), reconhecido por ela como sendo a alma pessoal dotada deste núcleo que marcava uma maneira própria de vivenciar. Advertir a presença de características constantes e reiteradamente apresentadas como constitutivas de uma pessoa, muitas vezes denominadas por outros autores como o aspecto que configuraria a autenticidade pessoal, conduziu Stein a se perguntar, em suas análises, se o fato de algo se apresentar como constante seria o suficiente para atribuir o caráter de autenticidade da personalidade de uma pessoa. Decerto, em suas análises sobre a causalidade psíquica, Stein (1922/1999) advertiu que, essas características poderiam ser um mero processo de imitação e não estarem ancoradas em um núcleo pessoal, sendo, portanto, predicados imitados de um modelo, falseados ou inautênticos de uma pessoa.

Uma pessoa pode desenvolver vários traços que a acompanham durante um período duradouro de sua vida, ocasionalmente durante toda a vida, mas também pode sofrer modificações nesses aspectos. As circunstâncias com que a pessoa lida em seu ambiente, por meio das relações interpessoais (comunitárias, sociais ou de massa), do ambiente natural (alimentos, clima etc.) ou do seu mundo espiritual (instituições educativas, religiosas, jurídicas etc.), podem favorecer um processo de expressão de suas disposições mais originárias, daquele potencial, tanto universal quanto individual, que ela carrega em si, mas também pode contribuir para um adormecimento das suas características mais singulares (Stein, 1922/1999e). Assim, a questão que emerge é: como ocorre um processo de formação da autenticidade? Em outras palavras, quais as características essenciais de um processo que contribua para o desenvolvimento da pessoa e daquilo que lhe é mais próprio?

Identificamos dois momentos argumentativos na obra de Edith Stein que podem nos ajudar a compreender o processo de formação da pessoa na direção de sua autenticidade. Primeiro, aquele em que ela destaca mais propriamente o processo de formação da pessoa e do seu caráter (Stein, 1917/1998, 1922/1999, 1930/1999b). Contudo, encontramos também um aprofundamento dessas análises, em uma discussão metafísica-ontológica, em que ela analisa o princípio de individuação (Stein, 1934-1936/1999, 1931/2003). Não se tratam de dois processos ou princípios diferentes, pois, como aponta Alfieri (2014), nesse caso, teríamos a formação de várias individualidades na mesma pessoa; ao contrário, trata-se de um mesmo princípio que é abordado por Stein em momentos diferentes de suas análises. Assim como ocorre com outros temas, partindo de uma descrição e análise fenomenológica, nossa autora buscou os fundamentos últimos dos fenômenos que analisava, o que lhe permitiu que examinasse, também pela via metafísica-ontológica, os aspectos constituintes da subjetividade. Não adotamos aqui uma explicação argumentativa aprofundada dos termos de uma ontologia formal, que está subjacente à descrição do processo formativo, sobretudo no que se refere ao princípio de individuação, mas assumimos um aspecto mais descritivo, relacionando-o com nosso tema de pesquisa.

Formação da personalidade

Em algumas análises específicas, em que os temas da antropologia e da educação são aprofundados, Edith Stein (1928-1933/1999, 1932-1933/2000) descreveu as características de uma dinâmica de formação da pessoa, explicitando os componentes que envolviam esse processo na direção da formação de uma personalidade e caráter autênticos, tema com o qual havia deparado já em suas primeiras obras.

A formação não é uma posse externa de conhecimentos e, sim, a forma que a personalidade humana assume sob a influência de múltiplas forças vindas de fora, ou então o processo dessa moldagem. O material a ser moldado é constituído de um lado pelas aptidões físicas e psíquicas com que o ser humano nasce, pelo material que lhe é constantemente acrescentado de fora e que deve ser assimilado pelo organismo. O corpo retira esse material do mundo físico, a alma do ambiente espiritual, do mundo das pessoas e dos bens de que deve alimentar-se (Stein, 1930/1999a, p. 137).

O termo “formação” pode ter muitos significados, mas é considerado, aqui, em três momentos: (1) a ação do formar; (2) o processo de ser formado; e (3) o êxito ou produto final desse processo (Sberga, 2015; Stein, 1930/1999b). Para chegar àquilo que se pode e deve ser, a pessoa atravessa, em sua biografia, um processo de formação que modela o seu ser de várias maneiras. Considerando essa noção de “formação”, fica claro que ela implica um processo, e não apenas um produto final, ou seja, não significa apenas uma personalidade efetivada e designada como autêntica ou inautêntica. Até atingir o estado de uma personalidade autêntica, podemos falar de um processo de formação da personalidade. A autenticidade pode, portanto, designar tanto a atualidade de um momento no processo de formação da pessoa como um termo que nos permite designar em que medida a formação da personalidade tem acontecido conforme as disposições originárias do núcleo da pessoa. Sendo assim, a personalidade autêntica não seria apenas um estado, mas o processo de sua constituição, a potencialidade de ser si mesmo que se atualiza genuinamente no decorrer de uma biografia. Ser autêntico passa a significar o processo pelo qual a pessoa torna seu aquilo que é disponibilizado em sua estrutura universal de ser pessoa.

Aqui também, o termo “modelar” deve ser examinado. Formar algo implica uma imagem ou projeto subjacente que remeta o processo de formação a uma determinada direção e não a outra. A ação de moldar não é tomada no sentido de um educador (pais, professores ou líderes de um grupo ou comunidade) formatar uma pessoa para ser uma personalidade convencionada como ideal - embora isso possa ocorrer em vários relacionamentos educativos, não sem o custo de um grande sofrimento e, eventualmente, de adoecimentos psíquicos. O termo moldar refere-se à ação de força vital interna que molda ou forma a matéria, seguindo um princípio organizativo que é próprio dessa forma, assim como os limites que a matéria mesma impõe.

Portanto, conhecer o que seja formar dada matéria requer um exame da especificidade dessa matéria que será submetida à formação (Mahfoud, 2005; Stein, 1930/1999b). O que vem formado no ser humano - ou seja, a "matéria" que está submetida ao processo de formação - é sua própria personalidade. É o conjunto de disposições físicas e psíquicas, bem como o atuar da vida espiritual que se submete ao processo formativo. No caso da pessoa, a alma mesma é tomada como agente formador, ao mesmo tempo em que o objeto que vem sendo formado no decorrer do próprio processo (Parise, 2014; Stein, 1930/1999b). Por um lado, os fatores externos, como o ambiente natural ou cultural, mobilizam a pessoa a agir e inserem nela nutrientes para o desenvolvimento de sua força vital; por outro lado, fatores internos, como o núcleo da alma, agem imprimindo uma modalidade própria de vivenciar e se posicionar diante dos conteúdos captados (Stein, 1932-1933/2000).

A pessoa necessita ser nutrida em seu desenvolvimento de materiais que alimentem seu corpo e sua alma. Este processo tanto pode ocorrer de forma espontânea, pelo simples contato com o ambiente, ou de forma planejada, através de pessoas que disponibilizem voluntariamente os materiais à outra que está sendo formada. A recepção deste material pode acontecer de forma passiva ou ativa, de acordo com o grau em que a pessoa que recebe estes materiais processa ou elabora intelectualmente os elementos que lhe são oferecidos pelo ambiente cultural e se empenha na construção do ambiente sociocultural que ela deseja que a forme (Coelho Júnior & Mahfoud, 2006, pp. 15-16).

A alma humana é dotada de uma força vital que aponta o desenvolvimento da pessoa para certa direção que corresponda à realização da natureza humana e dos aspectos originários que compõem seu núcleo pessoal (Stein, 1932-1933/2000). A pessoa não pode desenvolver qualquer caminho de desenvolvimento, não pode atualizar todo seu potencial ao mesmo tempo ou de qualquer maneira, ela não pode ser de qualquer modo que ela escolha. Seu núcleo pessoal impõe limites - assim como os hábitos estabelecidos podem dificultar uma imediata atualização - àquelas características potenciais que podem ser atualizadas em cada momento (Stein, 1922/1999, 1932-1933/2000).

A pessoa é responsável por sua formação. “O que significa dizer que o ser humano é responsável por si mesmo? Significa dizer que dele depende isto que ele é e que lhe é pedido fazer de si algo de determinado: ele pode e deve formar a si mesmo” (Stein, 1932-1933/2000, p. 124, grifos da autora, tradução nossa). Toda formação é uma autoformação. Isso não significa que a pessoa se forma sem a ajuda de sua comunidade, isso seria impossível. Se não fosse a comunidade ou as comunidades às quais ela pertence, muitas de suas características individuais não seriam mobilizadas em seu processo de tornar-se si mesma. A autoformação, contudo, significa que o sujeito e o objeto da ação formadora coincidem (Stein, 1930/1999b). O eu “pode” e “deve” formar a si mesmo. Trata-se de um gesto de liberdade que pode ser assumido ou relegado aos fatores externos e impulsivos. A pessoa pode tomar em suas mãos o protagonismo de seu processo de desenvolvimento, tomando decisões que são convocadas durante os acontecimentos, mas também pode tomar a decisão de se entregar a uma força externa ou a apenas repetir um modelo de personalidade apresentado, mesmo que ele não coincida com as características de seu núcleo pessoal. O “dever”, uma vez assumido, trará sempre a pergunta sobre a direção em que essa autoformação seguiria. Trata-se da necessidade de uma imagem clara ou da clareza de uma finalidade para onde a formação deveria caminhar.

O que o ser humano deve ser é o problema fundamental da vida. Trata-se do desenvolvimento das capacidades humanas, no sentido universal, mas também daquelas capacidades, ou disposições originárias, inerentes ao seu núcleo pessoal que devem ser atualizadas em seu processo de formação. Quando isso acontece, o ser humano não apenas mobiliza suas funções corpóreas e psíquicas, que condivide com as plantas e animais respectivamente, mas aquelas espirituais, propriamente humanas. Nesse caminho, forma um hábito típico de responder aos valores (estéticos, morais, religiosos, entre outros) que a vida lhe apresenta e pode ter sua existência mobilizada a partir de seu centro pessoal, que, por sua vez, imprimirá seu selo de originalidade em todas as vivências e na modalidade mesma do vivenciar (Stein, 1922/1999, 1930/1999b).

O fim do processo de formação, afirma Stein (1926/1999), é a personalidade autêntica. Mas o que é personalidade?

A personalidade humana, observada como um todo, nos é apresentada como uma unidade de características qualitativas formada por um núcleo, por um princípio formativo. Essa é constituída por alma, corpo e espírito, mas a individualidade se imprime em modo totalmente puro, privado de qualquer mistura, apenas na alma. No corpo vivente material, nem a psique tomada como unidade substancial de cada ser sensível e psicoespiritual, nem a vida do indivíduo, são determinadas integralmente pelo núcleo (Stein, 1922/1999, p. 255, tradução nossa).

Quando a personalidade recebe as influências internas do núcleo, através da alma, podemos falar em uma personalidade autêntica (Stein, 1922/1999). Contudo, uma pessoa poderia viver grande parte de sua vida, ou quem sabe por toda ela, entregando-se apenas a processos psíquicos e físicos que são indiferentes para configuração unitária de sua personalidade, não emitindo seus posicionamentos a partir de seu núcleo ou centro pessoal, mas deixando-se conduzir pelo dinamismo das reações impulsivas e emocionais, ou adotando critérios para seus posicionamentos que são estranhos àqueles que a legalidade da razão motivaria, a partir dos valores disponíveis nos acontecimentos. Se acontece assim, o que vem formada é uma personalidade inautêntica. É “como se” faltasse ao indivíduo seu centro pessoal, suas vivências são realizadas “sem alma”, sua individualidade qualitativa não se expressa. Decerto, como avisa Stein (1922/1999), todo indivíduo possui seu próprio núcleo pessoal que imprimirá algum tipo de influência na alma, e esta, por sua vez, influenciará as vivências pessoais, no que se refere à sua modalidade de vivenciar e até mesmo aos objetos visados. Contudo, pode ocorrer que a pessoa, por resultado de sua liberdade ou pela particularidade de como foi educada ou por outros significativos em sua história - eventualmente estimulada a não considerar sua vida espiritual no que se refere aos valores captados ou ao exercício de sua vontade própria - não tenha encontrado a si mesma ou tenha se perdido de si mesma. Na pessoa, seu núcleo pessoal pode emergir quando for tocado por algum valor (Stein, 1922/1999). A pessoa pode, a qualquer momento, ainda que não seja possível prever o que seria o crucial mobilizador, ser tocada em uma profundidade de sua alma em que suas vivências autênticas motivam um desejo de dar continuidade a uma experiência desse tipo. Almejar a continuidade de vivências autênticas - o que não é automático, uma vez que a vivência é fugaz e logo dá espaço a outras vivências decorrentes - pode suscitar na pessoa a busca por uma vida autêntica, entendida então como aquela em que se vivencia uma autêntica personalidade.

Princípio de individuação

Stein (1934-1936/1999, 1931/2003) buscou aprofundar suas análises e identificou um princípio ontológico que está na base do processo humano de constituição de sua individualidade. Esse princípio de individuação é advertido como um processo inerente ao ser humano e o que lhe possibilita assumir a direção de ser em conformidade com seu núcleo pessoal, de ser si mesmo em sua singularidade pessoal (Alfieri, 2014).

Stein (1931/2003) se dedicou a discutir os fundamentos ontológicos da experiência. Logo no início da obra, levanta os questionamentos: “O que é o ser do qual sou consciente? O que é o eu que é consciente de seu ser? O que é o ato e o modo espiritual em que eu sou e no qual sou consciente de mim e dele?” (Stein, 1931/2003, p. 58, tradução nossa). Verifica-se que as perguntas que apontam para uma elaboração ontológica nasceram das análises fenomenológicas das vivências, do dar-se conta de um “eu” que vivencia algo, e este algo é o próprio ser.

A trajetória que vai da fenomenologia à ontologia não prescinde do exame da experiência concreta, ao contrário, busca os elementos formais e lógicos que lhe sirvam de compreensão. Foi nesse caminho que Stein assumiu, em sua discussão, que o ser do ser humano é caracterizado por algo que o individualiza, um modo individual de ser propriamente humano. Daí surge a discussão sobre como se dá na pessoa humana o caminho de tornar-se um indivíduo e o que é esse indivíduo humano. É essa discussão que remete ao processo de individuação.

O que é individual em um indivíduo? Como podemos chegar a acessar suas características mais singulares e irrepetíveis em relação a outro indivíduo? Em meu ser presente, identifica Stein (1931/2003), posso advertir uma maneira atual, mas também uma possibilidade de ser diferente do que estou sendo. Posso pensar no futuro e na possibilidade de ser diferente e isso o faço devido ao reconhecimento das maneiras diferentes que já fui no passado. O ser presente é a atualização de uma potência que está disponível e que existe antes. “Atualidade e potencialidade, como modos de ser, estão contidas no simples dado do fato de ser e são derivadas disso” (Stein, 1931/2003, p. 60, tradução nossa). É o núcleo pessoal quem carrega o conjunto de potencialidades possíveis a cada ser humano. A possibilidade de ser diferente está inscrita já no núcleo pessoal, assim como os limites de atualização. Para um ser humano, seu potencial carrega vários traços comuns da espécie ser humano, que podem ser atualizadas a cada momento, mas também os traços mais singulares, enquanto indivíduo, que podem ser realizados. Não é possível ser qualquer coisa que imaginarmos.

Compartilhamos com todos os seres humanos aspectos universais daquilo que é essencialmente próprio da espécie humana, mas, também, apreendemos na experiência um aspecto individual que nos diferencia dos outros. Essa potência que cada ser humano carrega em seu ser - os traços universais que carrega consigo - informam uma característica essencial própria que é concretizada em sua existência e adota traços individuais. Esse processo de tornar-se indivíduo vai sendo identificado por Edith Stein (1934-1936/1999, 1931/2003) como princípio de individuação. Por meio dele a pessoa se torna um indivíduo autêntico.

“O que está vivo jamais está terminado, está sempre no caminho que conduz à sua própria individualidade, porém, possui em si mesmo - em sua alma - o poder de formar-se a si mesmo” (Stein, 1934-1936/1996, p. 291, tradução nossa). O princípio da individuação acompanha a pessoa, permitindo o processo de configuração de sua autenticidade individual. Junto desse princípio, reconhecemos a liberdade de determinar-se, assim como uma vitalidade ou uma força que o acompanha na direção escolhida, diante das solicitações de posicionamentos que apreende em suas vivências.

O problema que se apresenta é: se o indivíduo é um exemplar do ser humano, corremos sempre o risco de tomar como singular aquilo que na verdade seria uma característica universal. Os nomes de características que reconhecemos em uma pessoa, acabam por nomear a idêntica característica presente em outras pessoas (Savian Filho, 2014). Assim, como é possível conhecer aquilo que é mais singular em um indivíduo e o torna diferente dos demais? Stein (1934-1936/1999) não concorda com a posição de que é a matéria que carregaria a diferenciação da individualidade, bem como não seria a forma, a delimitação de uma matéria, uma vez que a forma também é compartilhada com todos os outros seres humanos. Para isso, Stein (1934-1936/1999, 1931/2003) recorre ao termo forma vazia para se referir à possibilidade de conhecimento daquilo que é propriamente individual.

Husserl já havia discutido as formas ontológicas quando tratou de categorias lógicas e categorias formal-ontológicas (Alfieri, 2014; Savian Filho, 2014). “A forma é tudo aquilo que atualiza - no sentido de delimitar - qualquer conteúdo que faz parte da potencialidade de um indivíduo” (Alfieri, 2014, p. 55). Visando discutir o caminho para o reconhecimento do que é autenticamente individual, o conceito de forma se apresenta como uma via necessária de abstração do conhecimento, mas, se tomado da mesma maneira que Husserl havia feito, possibilitaria chegar apenas às características essenciais compartilhadas. Por isso, Edith Stein (1934-1936/1999; 1931/2003) falará de forma vazia: “O modo como Edith fala da forma é inequívoco: a forma individual é o ato individual de realizar a essência da espécie. . . . Essa maneira individual de realização da forma essencial será chamada por Edith de forma vazia” (Savian Filho, 2014, p. LIV).

A sua singularidade e irrepetibilidade que a diferenciam dos outros, chamamos de sua individualidade, o preenchimento qualitativo e quantitativo, à qual sua existência individual e sua concreção, estão unidas. Neste preenchimento há o que também podemos encontrar em outro lugar, que é retirado da concreção e consideramos de maneira abstrata. Mas, mesmo que tiremos todo seu preenchimento, mesmo que retiremos tudo o que o distingue de qualquer outro, ainda resta algo: algo que é. Nessa forma nos apresenta todo ente. Aqui temos essas formas de ser completamente vazias, as quais tem a ver com a ontologia formal. “Algo” ou “objeto”, por um lado, ser, por outro lado. No “algo” há também dois aspectos: o que é; o que é isso; o “objeto”, seu preenchimento e o seu ser. Sem preenchimento, não existe nenhum ser. É por isso que também é uma forma ontológica. Aliquid, quod quid est, esse: são as formas ontológicas fundamentais (Stein, 1931/2007, p. 260, grifos da autora, tradução nossa).

O conceito de forma vazia - discutido originariamente por Duns Scoto e apropriado por Edith Stein para se referir à pessoa - é utilizado como um recurso categorial ontológico fundamental para possibilitar a apreensão do princípio de individuação (Alfieri, 2014). No trecho acima, vemos em ato uma operação de redução fenomenológica aplicada por Edith Stein na análise do problema. Em outras palavras, é como se ela estivesse nos convidando a realizar uma parentização das características singulares, para acessar a ideia de forma vazia, aspecto essencial que nos possibilitaria conhecer o indivíduo. Se subtrairmos aquilo que é mais singular do indivíduo, chegamos à redução ao aspecto de seu ser. Simultaneamente, este se apresenta como um ser que deve ser preenchido por características qualitativamente singulares, seu potencial deve ser atualizado de alguma maneira. De que forma? Isso é justamente a individualidade. A forma é vazia porque ela traz a necessidade de ser preenchida na existência concreta individual, por meio dos atos do indivíduo.

A análise ontológica, realizada por Edith Stein, favorece o reconhecimento da autenticidade ao disponibilizar recursos categoriais, que permitem identificar a individualidade. Com o indivíduo, nos são dadas, ao mesmo tempo, sua singularidade e seus aspectos universais. Na unidade concreta, que é a pessoa, apreendemos sua presença enquanto “objeto” (Aliquid), seu preenchimento qualitativamente atualizado (quod quid est) e o seu ser dotado de uma potência humana que se atualiza a cada momento em seus atos (esse) (Alfieri, 2014; Savian Filho, 2014). A identificação desses três momentos torna preciso o reconhecimento da autenticidade enquanto objeto de discussão teórica que, posteriormente, pode sustentar empiricamente vários processos de pesquisa e intervenção no campo da psicologia. Trata-se de olhar para a presença pessoal e identificar como é preenchida qualitativamente a forma vazia com aspectos que são constitutivos do ser humano.

Possibilidades e limites de conhecimento da autenticidade

Uma vez que Stein disponibiliza as ferramentas teóricas para o conhecimento da autêntica individualidade, trata-se de perguntar sobre o que é possível conhecer dela.

O que sou, segundo minha essência geral, disso posso ter conhecimento em um amplo trabalho intelectual, isto é, conseguir conhecimento compreensível em conceitos gerais e palavras. Porém, a consciência imediata de mim mesmo não é esse conhecimento, mas só um dos pontos de partida para chegar a dito conhecimento. O que sou como indivíduo espiritual não é geralmente acessível a nenhum conhecimento racional (em um sentido que acabamos de estabelecer). Enquanto coisa simplesmente única, o indivíduo não pode ser reconduzido a conceitos universais, no máximo pode ser chamado com um nome próprio. Porém, por essa razão, não é completamente irreconhecível e desconhecido. O que sou, ou eu com o que sou, sou para mim (e também para outros) de uma certa maneira. Este quid [o que] se encontra em como. Estou em cada momento em uma certa atualidade, inclinado a esse ou àquele objeto, mas ao mesmo tempo eu me “sinto” disposto emotivamente desta maneira ou de outra (Stein, 1931/2007, p. 364, tradução nossa).

É possível percorrer um caminho de autoconhecimento para acessar aquilo que somos. A isto podemos captar a partir de uma reflexão intelectual das vivências internas e expressivas, mas também somos ajudados pelos relacionamentos interpessoais, via empatia, a colher algumas informações que não nos seriam imediatamente acessíveis (Stein, 1917/1998, 1922/1999).

Sobre o primeiro aspecto, a tomada de consciência pessoal das próprias vivências, isto é, a consciência pessoal de mim mesmo, ocorre em um gradativo processo de apreensão. Contudo, o conhecimento das especificidades tem limites. Não é possível esgotar o conhecimento de si mesmo, uma vez que sempre carregamos um conjunto de potências inerentes ao nosso núcleo que ainda não foram atualizadas, um dever ser que só pode ser conhecido na medida em que a realidade nos solicita. Ao mesmo tempo, carregamos na interioridade de nossa alma aspectos profundos que sedimentaram em si um conjunto de sentidos que se apresentaram em alguma situação e que podem estar motivando implicitamente as decisões, sem que tenhamos consciência desses aspectos que nos formam (Stein, 1934-1936/1999). Tudo que entra na alma a partir das vivências pode chegar a modificar várias disposições afetivas e motivar ações bem distintas. Ao escolher uma possibilidade de ação, escolhe-se uma entre várias possibilidades de atualizar o próprio potencial humano, escolhe-se uma direção para o que se pode ser não aleatoriamente e não sem limites. Esses aspectos podem ocorrer de maneira velada, não apreendida imediatamente ou facilmente pela pessoa. Trata-se de aspectos mais profundos, ora sombrios, de nossa alma, como nomeia Stein (1934-1936/1999).

A especificidade da pessoa pode ser conhecida por meio de sua ação. Nela, as possibilidades são atualizadas a cada momento. É pela maneira como a pessoa vive a si mesma e se expressa que podemos captar interiormente ou exteriormente aquilo que ela é (Stein, 1917/1998, 1934-1936/1999). No autoconhecimento, a maneira como somos tocados pela experiência e a ela respondemos nos disponibiliza o reconhecimento do momento em que estamos sendo nós mesmos.

Sente [a pessoa] a compatibilidade ou incompatibilidade do que acolhe em si com seu ser próprio, se é proveitoso ou não, se suas ações vão ou não no sentido de seu ser. A isso corresponde o estado em que ela se encontra depois de todo contato com o mundo exterior e de toda tomada de posição diante deste último (Stein, 1934-1936/1996, p. 455, grifos da autora, tradução nossa).

A possibilidade de conhecimento de si emerge no encontro com a realidade. A maneira como a pessoa vem tocada, se em sua superficialidade ou profundidade, bem como a maneira como responde ao sentido captado, informa se estamos sendo nós mesmos ou não. O núcleo pessoal comparece sempre nas vivências como um critério que permite o autorreconhecimento pelas ações, não sempre sem dificuldades. Stein (1934-1936/1999) afirma que, podemos ter nossa interioridade iluminada em nossa profundidade por intermédio dos acontecimentos da própria vida. Isso pode ocorrer se a pessoa está atenta a si mesma e busca esse conhecimento, ainda que provisório, de si mesmo, mas também pode ser ajudada nesse caminho pelos relacionamentos significativos, que transmitem um conjunto de informações que podem favorecer - ou dificultar - o conhecimento dos aspectos mais profundos de si mesmo. Nesse processo formativo, especial atenção é dada por Stein à educação religiosa, uma vez que o conhecimento revelado nos dogmas pode trazer à luz aspectos pessoais, que não seriam acessados apenas a partir de um esforço intelectual humano (Coelho Júnior & Mahfoud, 2013; Stein, 1932-1933/2000, 1934-1936/1999).

Quanto ao conhecimento da individualidade do outro, de sua autenticidade, Stein (1917/1998, 1919-1932/2001) alertou sobre a possibilidade de limites e de enganos. Quando apreendemos a expressão do outro, captada por meio das mudanças em sua corporeidade, intuímos que o outro vivencia algo que motiva essa expressão. Contudo, o conhecimento seguro sobre a experiência vivida pelo outro possui limites, uma vez que a expressão do outro, verbal ou não verbal, pode ser resultado de uma decisão que esconda os sentidos e os motivos vivenciados pelo sujeito da experiência. Apesar de ser possível o reconhecimento de características estáveis da personalidade alheia, a ponto de reconhecer mudanças que informem o quanto o outro estaria sendo autêntico ou não em suas ações e vivências afetivas, a certeza desse conhecimento apenas pode ser atingida na medida em que o outro expresse o sentido de suas ações e nos dê acesso à sua interioridade. A busca isolada de componentes da personalidade não é suficiente para captarmos a individualidade alheia. Apenas em um contexto em que a unidade do outro seja captada, completada com uma analogia pessoal e com uma expressão de seu próprio autoconhecimento, podemos acessar com segurança alguma parte de sua individualidade (Stein, 1917/1998, 1922/1999, 1919-1932/2001). Podemos intuir que, em cada ação alheia, algo de seu núcleo pessoal possa estar sendo expresso, mas o reconhecimento seguro dessa expressão não garante a previsão dos comportamentos alheios. Dar-se a conhecer em sua profundidade é um ato de liberdade e não pode ser violado sem seu consentimento.

Considerações finais

Assim, chegamos ao reconhecimento de que, para examinar a autenticidade de um indivíduo é indispensável a consideração dos aspectos universais, sem os quais qualquer individualidade não faria sentido. Considerar a pessoa em ato pode ser um caminho de aproximação da captação da autêntica individualidade própria e da alheia. Isso significa que os relacionamentos significativos, comunitários, de caráter formativo, cumprem um papel fundamental no processo de individuação e conhecimento da autenticidade. O corpo comparece como a condição de possibilidade do processo de formação da personalidade autêntica, já que é por ele que captamos, por meio de vivências afetivas, os valores disponíveis na realidade compartilhada e, por intermédio dele, colocamos em ato nossa existência a partir de posicionamentos pessoais autênticos fundados no núcleo pessoal.

Tornar-se autêntico é o processo pelo qual cada pessoa se apropria daquilo que é universal em sua humanidade.

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1Este trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - Código de Financiamento 001.

Recebido: 22 de Setembro de 2018; Aceito: 08 de Outubro de 2018

*Endereço para correspondência: achillescoelho@gmail.com

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