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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.30  São Paulo  2019  Epub Oct 17, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0103-6564e180011 

Artigo

Qual a matéria prima do aparato psíquico

Quelle est la matière première de l’appareil psychique

¿Cuál es la materia prima del aparato psíquico?

1Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Resumo

Investigar a especificidade dos padecimentos psíquicos na atualidade a partir da discussão sobre a matéria-prima da psicanálise, visando pensar formas de intervenção terapêutica para além do modelo que tem no universo representativo sua referência maior. Para tanto, vamos trabalhar a distinção entre realidade material e realidade psíquica e analisar os termos Vorstellung e Darstellung como indicadores das diferentes formas de elaboração psíquica.

Palavras-chave: psicanálise; elaboração psíquica; Darstellung; Vorstellung

Résumé

Investiguer la spécificité des souffrances psychiques dans la contemporaneité à partir du débat sur la matière première de la psychanalyse, afin de penser aux formes d’intervention thérapeutique au delà du modèle qui tient dans l’univers représentatif sa référence majeure. Pour ce but on va travailler la distinction entre realité matérielle et realité psychique et analyser les termes Vorstellung et Darstellung comme repères des différentes formes d’elaboration psychique.

Mots-clés: psychanalyse; élaboration psychique; Vorstellung; Darstellung

Resumen

Investigar la especificidad de los padecimientos psíquicos en la actualidad a partir de la discusión sobre la materia prima del psicoanálisis, con el objetivo de pensar formas de intervención terapéutica más allá del modelo que tiene en el universo representativo su mayor referencia. Para esto, vamos a trabajar la distinción entre la realidad material y la realidad psíquica y analizar los términos Vorstellung y Darstellung como indicadores de las diferentes formas de elaboración psíquica.

Palabras clave: psicoanálisis; elaboración psíquica; Darstellung; Vorstellung

Abstract

To investigate the specificity of the psychological distress nowadays, beginning this discussion in the psychoanalysis’ raw material. Thus, we are aiming at different kinds of therapeutic intervention which escapes from a model that has, in the representative universe, its biggest reference. Moreover, we will work out the distinction between material reality and psychic reality and analyze the terms Vorstellung and Darstellung as indicators of different forms of psychic elaboration.

Keywords: psychoanalysis; psychic elaboration; Darstellung; Vorstellung

A decisão sobre em qual perspectiva epistemológica a psicanálise se insere, tanto no âmbito conceitual quanto clínico, engendra uma discussão acalorada, transcendendo, inúmeras vezes, o próprio campo psicanalítico. Esta discussão remete e, de certo modo reedita, a querela estabelecida em fins do século XIX a respeito do privilégio do corpo sobre a alma ou vice-versa, expressa na famosa divisão entre Ciências da Natureza e Ciências do Espírito. A depender da opção, diferentes modelos de entendimento acerca do ser humano são estabelecidos. Como efeito desta concepção, presenciamos, na atualidade, tentativas de classificar a psicanálise dentro dos quadros mais diversos, ou, até, de situar momentos de sua trama conceitual segundo determinadas orientações, correndo-se o risco de considerar a psicanálise como uma visão de mundo. Neste registro passamos, por exemplo, de um Freud visto como adepto do vitalismo a um Freud partidário de uma leitura idealista das motivações inconscientes ou, ainda, a um Freud que teria concebido o inconsciente dentro de uma perspectiva eminentemente biológica. Certamente cada um destes pontos de vista implicam em um modo não apenas de pensar as perturbações psíquicas como também um modelo de intervenção clínica.

O objetivo maior deste artigo é, a partir da discussão sobre a matéria-prima da psicanálise, abordar uma série de indagações com referência à especificidade dos padecimentos psíquicos com que nos defrontamos na contemporaneidade. Com isso, buscamos alcançar, em última instância, modos de intervenção terapêutica para o profissional da saúde mental. Necessidade que se faz premente nos dias de hoje ante os atendimentos a pacientes inseridos no que se designa como psicopatologia contemporânea, a saber: compulsões, fobias, síndrome do pânico, dentre outras (Herzog & Pacheco-Ferreira, 2014), e isto tendo presente que também aqui um ponto de vista será privilegiado.

Em artigo escrito anteriormente (Herzog, 2011b), examinamos a questão sob uma perspectiva epistemológica, analisando como os vários ismos - materialismo, idealismo, vitalismo e outros - operam, antes de tudo, como chaves de leitura com as quais se pratica e se pensa a psicanálise. Levando em conta a subversão promovida por Freud ao questionar algumas dicotomias presentes no pensamento de sua época - tais como normal/patológico, palavra/coisa, logos/pathos, representação/irrepresentável - defendemos a ideia de que seu pensamento se encontraria mais afinado com a perspectiva materialista. Vários caminhos se prestam para respaldar tal posição e, na ocasião, optamos por abordá-la a partir da concepção freudiana de realidade. Desde os primórdios da psicanálise, Freud se vê às voltas com essa questão, buscando legitimar o inconsciente e lhe conferir uma forma de existência. Com esta finalidade, procedeu à distinção entre realidade psíquica e realidade material, utilizando os termos Realität e Wircklichkeit.

Em função desta disposição, e como decorrência da discussão empreendida na época, nos vimos diante do desafio de lidar com a seguinte indagação: qual a especificidade da distinção entre realidade psíquica e realidade material? Trata-se de uma simples relação de oposição? Ou esta distinção teria como objetivo maior ratificar seu dualismo tópico? Quiçá ontológico? A que serve tal diferenciação? E, independentemente da resposta, que estatuto tem a matéria sobre a qual essas duas realidades atuam/operam? Tais perguntas emergiram da perspectiva materialista que defendemos com relação à trama conceitual freudiana e que, no texto, tentamos responder.

Entretanto, vale aqui uma ressalva: na obra freudiana não se verifica um emprego sistemático dessas duas palavras para marcar a distinção entre duas espécies de realidade, ainda que termos diversos tenham sido adotados. Assim, apesar de preferencialmente empregar o termo Wircklichkeit para designar a realidade material, Freud não o utiliza com tanto rigor ao longo de seus textos. E, aqui, outra interrogação: como esta aparente falta de rigor coaduna com o cuidado do autor quanto a ceder sobre as palavras? Afinal, sua postura a este respeito nos é bem conhecida: “me apraz evitar fazer concessões à pusilanimidade. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará; cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também” (Freud, 1921/1976, p. 117). Diante disso tendemos a considerar que este uso de termos sem tanto rigor é expressivo de sua recusa em manter uma divisão cerrada, ou mesmo uma relação de oposição conceitual, entre estas duas realidades. Nunca é demais lembrar que, ao buscar legitimar o inconsciente, o alvo maior de Freud (1915/1974) não era a realidade exterior; em outros termos, não se tratava de contrapor psíquico a físico ou a biológico, mas distinguir pensamentos inconscientes de processos psíquicos conscientes. Com efeito, para implementar esta legitimidade, Freud chega a fazer várias referências à realidade material, aproximando-a da realidade psíquica, ao dizer que o inconsciente é tão desconhecido para nós quanto o mundo exterior (Freud, 1900/1972); ou ao afirmar, em 1915, fazendo uma alusão a Kant, que o psíquico, assim como o físico, não é tal como nos aparece (Freud, 1915/1974).

Feita esta digressão, retomemos nossa argumentação. Mesmo não se tratando de simplesmente contrastar realidade material e realidade psíquica, pensamos que alguma marca/singularidade pode e deve ser conferida a cada uma delas. Para discernir esta singularidade, faz-se necessário proceder a um aprofundamento sobre a materialidade contida nos termos Realität e Wircklichkeit. Para tanto, é preciso ter presente que esta última, de acordo com os estudiosos Chauí (1994) e Jaeger (1936/1952), se aproxima da noção grega de physis, comportando as ideias de fonte, força, movimento; enquanto a palavra Realität, remete à realidade como coisa.

Vale começar acompanhando o caminho trilhado por Freud acerca do conteúdo (a matéria) da realidade psíquica. Talvez possamos mesmo indagar: qual a substância da realidade psíquica? Importante lembrar que esta pergunta não deve remeter a uma ideologia materialista, mas cabe salientar que, se estamos falando de materialismo, estamos necessariamente referidos à ideia de que “o real é constituído pela matéria” (Birman, 2011, p. 17). Afinal, com Einstein (1916/1999), sabemos que a matéria é uma das formas de a energia se manifestar.

Vejamos como Freud vai encaminhar sua argumentação. De saída, ele não se cansa de repetir que o inconsciente é povoado por traços mnêmicos. Qual o estatuto destes traços? O fio que conduz a esta resposta alinhava alguns textos de sua elaboração conceitual. Tem início em uma fase pré-psicanalítica, quando constrói, no texto das afasias (Freud, 1891/1987), um aparelho de linguagem; em seguida nos oferece, no “Projeto para uma psicologia científica” (Freud, 1895[1950]/1977), um aparelho neural e, adiante, na famosa “Carta 52” (Freud, 1896/1977), um aparelho de memória. Estes são os antecedentes do aparelho psíquico da primeira tópica (Freud, 1900/1972); cerca de vinte anos depois somos brindados com uma nova configuração deste aparelho (Freud, 1923/1976).

Depreende-se deste percurso que a matéria da realidade psíquica é o traço mnêmico? Ou, dizendo de outro modo, trata-se das representações, englobando representação-coisa e representação-palavra? Afirmar que a realidade psíquica é composta por traços mnêmicos não significa uma grande novidade. A grande inovação da elaboração freudiana foi justamente dizer que a realidade psíquica é a realidade do inconsciente e, neste registro, ela é composta tão somente pelos pensamentos inconscientes, mais precisamente, de acordo com a primeira tópica, pelas representações-coisa. Além disso, neste viés, a concepção freudiana de aparelho psíquico se distingue de qualquer outra por comportar duas características que promovem uma inflexão fundamental em relação a todo o pensamento que o antecedeu. Primeiramente, pelo relevo dado ao registro da memória - a memória é inconsciente - e, em segundo lugar, pelo fato de ter concebido o aparelho psíquico se formando diante de um outro aparelho. Este aparelho é constituído, em 1900, pelos sistemas consciente/pré-consciente e inconsciente.

Outra observação importante concerne ao seu funcionamento. Para que este aparelho funcione, é preciso algo mais: articulando os três aparelhos (neural, de linguagem e de memória) Freud forjou o aparelho psíquico como um aparelho de retardo das excitações (pulsionais) que o acometem (de dentro e de fora); estas excitações, capturadas, seriam inscritas e transcritas como traços mnêmicos, visando impedir que a descarga se efetue de forma direta. Sob esta perspectiva, a pulsão é tomada como exigência de trabalho imposta ao psíquico pelo somático (Freud, 1915/1974). Na condição de conceito limite entre o soma e a psiché, ela se faz representar, no psiquismo, por meio de dois delegados: os representantes-representação (Vorstellung) e a representação afetiva (Affekt) (Freud, 1915/1974). Trata-se então de uma energia pulsional que vai ensejar - tendo como finalidade a descarga - um aparelho. Resumindo, um aparelho que comporta uma realidade psíquica - a realidade do inconsciente - e que opera na relação com outro aparelho, tendo como função a busca da satisfação.

Mais um aspecto, ainda, a ser acrescido a esta trama: sabemos que Freud passou da consideração de uma sedução factual (da ordem de uma invasão) para a questão da fantasia como o meio através do qual a realidade se inscreve no inconsciente. Diga-se de passagem, trata-se de um modo bastante singular de inscrição da realidade e, neste registro, a sexualidade deu o tom necessário para que se “explicasse” a perturbação nervosa. Esta montagem esclarece, até 1915 pelo menos, a dinâmica envolvida no conflito psíquico. Remetido à necessidade de equilibrar a tensão interna ao aparelho, sua descarga será efetuada segundo o princípio de prazer/desprazer.

A descrição tópica e dinâmica do aparelho psíquico serve de base para circunscrever a matéria (ou a substância) que lhe dá sustentação: são os pensamentos inconscientes (ou seja, traços mnêmicos imantados de desejo sexual). Descrição regulada por uma dimensão econômica da maior relevância nesta dinâmica. Tornando a questão mais complexa, além de dizer que o inconsciente é povoado por traços mnêmicos, Freud declara que não temos acesso ao núcleo do inconsciente. O que significa isso? Existiria uma espécie de substância original, logo, uma matéria-prima que não seria representável? Em outros termos, que não se configuraria como representação-coisa? Que não seria inscrita? Neste núcleo duro teríamos “traços” para os quais não há representação possível? Como tais traços diferem entre si? Ou ele estaria se referindo a algo diverso da representação e, ainda, de outro modo de registro? Não mais em termos de inscrição nem com a característica de traço.

Para tentar esclarecer estas indagações, fomos buscar subsídios em duas passagens de sua elaboração conceitual. A primeira aparece no texto “Interpretação dos sonhos” (Freud, 1900/1972) e remete aos mecanismos da produção onírica: condensação, deslocamento, figurabilidade e elaboração secundária. A segunda, na “Carta 52” (Freud, 1896/1977), concerne à designação de signo de percepção no quadro do aparelho de memória. Com respeito aos mecanismos do sonho, vemos que condensação e deslocamento aludem à grande possibilidade de transcrições e retranscrições dos traços mnêmicos já inscritos (o que corresponderia, na “Carta 52”, à inconsciência em que se procede “de acordo com outras relações (talvez causais)” (Freud, 1896/1977, p. 318). Já relativamente à elaboração secundária, tudo indica que remeta ao registro da consciência, na medida em que rearruma as imagens sensoriais do sonho, visando uma certa coerência. Nas palavras de Freud (1900/1972): “A consideração que se segue torna altamente provável que a função psíquica que empreende o que descrevemos como elaboração secundária do conteúdo dos sonhos deva ser identificada com a atividade de nosso pensamento em vigília” (p. 533).

Conforme salienta Hanns (1996), “trata-se de um trabalho psíquico sobre o material ainda em estado bruto, para dar-lhe forma apreensível” (p. 196), e isto “de acordo com as regras do processo secundário: inteligibilidade, consideração pelas regras do pensamento adequadas ao princípio de realidade, etc.” (p. 196).

A este propósito cabe considerar, acompanhando os comentários de Hanns (1996), que Freud vai dispor de pelo menos três palavras para se referir à ideia de elaboração: Bearbeitung, Durcharbeitung e Verarbeitung. Todas possuem o radical arbeitung do verbo arbeiten (trabalhar), mas guardam algumas diferenças entre si. Com relação à formação dos sonhos, é utilizado o primeiro termo. A segunda palavra tem a conotação de um esforço, de um embrenhar-se em um trabalho, buscando superar as resistências; a última é utilizada “em conexão com os processos de resolução do excesso de estímulos gerados por acontecimentos potencialmente ameaçadores” (Hanns, 1996, p. 203). O que este autor nos ajuda a entender é que, para Freud, o trabalho (Arbeitung) ganha nesta trama uma dimensão bem mais abrangente do que a restrita aos processos do pensamento consciente. O trabalho é visto como construção que exige um esforço visando dar um destino a um excesso.

Resta situar a figurabilidade (Darstellung). A que registro este mecanismo se refere? Se acompanhamos a “Carta 52” e a articulamos à questão da formação do sonho, vemos que a figurabilidade em Freud aponta para o primeiro registro no aparato psíquico. Segundo suas palavras: “Wz [Wahrnehmungszeichen] (indicação da percepção) é o primeiro registro das percepções; é praticamente incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade” (Freud, 1896/1977, p. 318). Nestes termos, é por meio da figurabilidade que se dá forma às imagens sensórias. Com esta perspectiva, consideramos que a figurabilidade não estaria remetida ao traço mnêmico, mas sim a uma impressão sensível. Uma impressão sensível que compõe, juntamente com os traços mnêmicos, o aparelho psíquico. Aqui, novamente, vamos nos servir do Dicionário comentado do alemão de Freud (Hanns, 1996) para explicitar este termo.

Vários sentidos são atribuídos ao termo Darstellung; em português se traduz tanto por representar quanto por figurar. O autor repertoria alguns dos sentidos: “explicar, descrever, apresentar, expor, representar, mostrar, exibir, constituir, significar, caracterizar” (Hanns, 1996, p. 376); e frisa estar em jogo “um duplo movimento de ‘dar uma forma captável’ e ‘mostrar’” (Hanns, 1996, p. 376). Para o que nos importa, cabe cotejar este termo com a palavra representação (Vorstellung), a qual, como vemos, também é utilizada para traduzi-la. Todavia, diversamente desta última, Darstellung não comporta a ideia de “estar no lugar de”, nem a acepção de “ser um símbolo de”; e também não implica: (1) uma representação mental de imagens; (2) a ideia de uma encenação; (3) a função de representação de posição social elevada; ou (4) um significado, um valor. O aspecto mais importante na noção de Darstellung é seu caráter de presentificação, no sentido de “trazer o não representado para o mundo da representação e constituí-lo” (Hanns, 1996, p. 381). Todavia trazer o não representado para o mundo da representação não significa necessariamente transformar o não representado em representação.

Uma observação se torna imperiosa com respeito à distinção entre os dois termos (Darstellung e Vorstellung). Primeiramente, Freud não reduz a ideia de figurabilidade ou presentificação aos mecanismos da formação dos sonhos. Além disso, Darstellung remete à ideia de dar uma forma, constituir e expressar algo que se encontra em um estado não representado, sem forma. E a forma é expressa por meio de imagens (imagem sensório-motora). Entretanto, como salienta Hanns (1996), a referência ao visual-plástico e à própria “contiguidade com a imaginação e a fantasia” (p. 384) não é prerrogativa da Darstellung; ela também está implicada na ideia de Vorstellung. Então, qual a diferença? O primeiro termo difere do segundo porque este, nas palavras do autor:

Aponta para a atividade de “invocar”, “imaginar” e “combinar” algo que já habita a dimensão das coisas apreensíveis e representáveis e que pode ser descrito como reevocar imagens obtidas a partir de experiências anteriores e colocá-las em cena. Enquanto em darstellen se trata de “constituir” ou “produzir” uma imagem, em vorstellen se trata de “re-produzir” uma imagem. (Hanns, 1996, p. 386)

Deste modo, a primeira é constituinte da imagem enquanto a segunda “pressupõe a evocação da ideia a partir de imagens já constituídas e disponíveis” (Hanns, 1996, p. 385); assim, a presentificação não se refere a “visualizar internamente imagens” (Hanns, 1996, p. 376), mas, de acordo com o prefixo da(r), a “tornar presente-existente num aí partilhado” (Hanns, 1996, p. 386).

Poder-se-ia dizer, e certamente esta é uma leitura que faz sentido na trama conceitual freudiana, que prevalece nesta distinção uma relação de precedência entre (Darstellung) e (Vorstellung). Uma imagem que se presentifica e depois é ligada formando traços mnêmicos para que seja possível descarregar a energia que acomete o aparelho - assim se apresenta o primeiro modelo de funcionamento do psiquismo, em 1900. Antes desta data, na “Carta 52” (Freud, 1896/1977), a descrição feita por Freud de um aparelho de memória também referenda esta ideia, mas com isso arriscamos reforçar uma leitura desenvolvimentista/evolucionista que acaba por dar relevância à dimensão representacional, o que não é absolutamente nosso propósito aqui.

Assim é que, a partir desta perspectiva, no âmbito da clínica ao se identificar “elaborar psiquicamente” a “representar”, a relação de precedência entre estes termos é, indubitavelmente, consistente, e acaba por autorizar a afirmação (para não dizer a denúncia) de que a psicanálise teria privilegiado, em seu modelo clínico-conceitual, as psiconeuroses, apoiando-se basicamente em uma teoria da representação. Consequentemente, acaba por deixar de lado uma dimensão que tem no trauma sua força maior. Acreditamos que abordar a questão do que designamos no presente artigo como “a matéria-prima” da psicanálise possibilita reformular esta questão. Para nós, reformular a questão implica não só dar subsídios para abordar a especificidade dos sofrimentos psíquicos na atualidade, como também procurar outros modos de intervenção terapêutica. Em outras palavras, nosso interesse é interpelar a metapsicologia freudiana, com vistas a conferir relevo à questão do traumático nas modalidades de padecimento psíquico que caracterizam a psicopatologia contemporânea e que tem sido hoje alvo de discussão. E que conduz, inclusive, a uma reconfiguração de como se pensar o funcionamento neurótico em seu senso estrito.

Na atualidade, a frequente designação de que estamos confrontados com “uma nova economia psíquica” aponta para a ruptura com este modelo clínico-conceitual que se sustenta na concepção de um conflito entre proibição e desejo; ruptura que interroga uma leitura ancorada na ideia de soberania da ordem fálica como emblemática do conjunto do pensamento freudiano. Segundo nosso ponto de vista, seria mais correto dizer que a complexidade da trama conceitual da psicanálise indica outras possibilidades de leitura que a distinção entre Darstellung e Vorstellung permite referendar.

Com este intuito, o que nos levou a buscar aprofundar a questão da “substância” da realidade psíquica não foi tanto defender a ideia de que esta realidade não se reduz a uma realidade fictícia ou ficcional, mas a necessidade de lidar, no âmbito da clínica, com situações que “questionam” a proposição de que em análise devemos poder colocar em palavras o que é da ordem do mal-estar. Ou, em termos metapsicológicos, de que se trataria apenas de ligar representação-coisa à representação-palavra.

No dispositivo psicanalítico clássico, duas regras fundamentais estão presentes: a associação livre por parte do analisando e a escuta flutuante, do lado do analista. O que a associação livre traz para a cena é a constatação de que o sujeito “é capaz de observar o seu mundo interno para fazê-lo objeto de sua narrativa” (Andrade, Mello, & Herzog, 2012, p. 233). Verifica-se, com isso, que este método pressupõe a produção de associações entre as representações, permitindo, por sua vez, a liquidação de um sintoma por meio da elaboração simbólica. Ou seja, ligando representação-palavra à representação-coisa mediante a associação, o sujeito alcançaria a resolução do conflito psíquico. Esta capacidade lança o sujeito em busca de uma “lembrança” situada em um tempo passado. Seria como se a busca se desse em direção a uma “verdade material” da lembrança patogênica. Resumindo, trata-se de um processo que tem lugar no universo representacional de acordo com o princípio de prazer.

Ora, o que vemos nos chamados “pacientes difíceis” que configuram os quadros clínicos típicos das “subjetividades contemporâneas” é justamente, no dizer do psicanalista, uma dificuldade de “associar” nestes moldes. O que acarretaria a impossibilidade de proferir uma narrativa de si. Em outras palavras, “uma dificuldade de representar, questionando a possibilidade de elaboração simbólica” (Andrade, Mello, & Herzog, 2012, p. 229). Neste sentido, o impasse colocado por estes pacientes indica que, em lugar de uma experiência que encontra na narrativa um canal de comunicação com o outro, estamos diante de uma vivência fragmentada. Em outras palavras, estamos diante de uma vivência desconectada do próprio sujeito, que se expressa de várias maneiras: seja por meio de uma narrativa literal, seja por uma timidez radical ou nos atos compulsivos; ou, ainda, por uma vivência de ansiedade implacável. Qual o seu estatuto, dada a impossibilidade de um deslizamento na cadeia associativa?

Em artigo que trata do tema da escrita e da figurabilidade, Antonello e Gondar (2013) alegam que “a escrita já denota um processo de figuração (Darstellung), porque desenha uma imagem da coisa, estabelecendo uma relação figurativa com o objeto” (p. 175). Mostram, ainda, que no pensamento freudiano “o termo Darstellung remete à possibilidade de dar um formato captável (na forma de uma linguagem sensorial, pictórica, cinestésica, auditiva - da ordem do sensível) a algo que ainda é inapreensível no campo da representação” (p. 175).

Se, conforme eles argumentam, acompanhando Botella e Botella (2002), figurar é da ordem de um trabalho psíquico, podemos depreender que figurar é um modo de elaborar apoiado em uma linguagem sensível, e não em uma linguagem formal. Noutra ocasião (Herzog, 2011a, p. 243), também defendemos a ideia de uma dimensão afetiva da linguagem afirmando que:

ousar dizer que a ordem do vivido não é um fato linguístico, é tão somente na acepção de que o vivido não se encontra articulado a uma dimensão da linguagem que remete à arbitrariedade linguística. E é a partir desta configuração que se pretende tornar este vivido (da ordem do literal) em experenciado, da ordem do figurativo.

Este trabalho, segundo os autores Antonello e Gondar (2013), é comparável à regressão que ocorre no sonho: “O resultado é a produção de uma imagem sensorial ou uma percepção interna próxima da alucinação do sonhador, o que implica a contenção dos elementos traumáticos” (p. 175). Não é sem razão que se diz que o aparelho psíquico é, antes de tudo, um aparelho de alucinar. Neste sentido, poderíamos acompanhar Pontalis (1994) ao falar desta experiência, na relação transferencial, como uma “aparição” que tem “afinidade não com a alucinação, mas sim com o alucinatório do sonho?” (p. 96). Assim como no sonho os pensamentos são decompostos em imagens sensórias (Freud, 1900/1972), por meio da figurabilidade nos é franqueado o acesso a elementos ditos irrepresentáveis, impressões dos signos de percepção, matéria-prima do aparato psíquico.

No âmbito da clínica, uma diferença marcante se faz notar. Dissemos anteriormente que tanto os traços mnêmicos como as imagens sensório-motoras habitam o aparelho psíquico, melhor dizendo, o inconsciente. Quando se trata dos primeiros, a plasticidade dos traços mnêmicos vai viabilizar um deslizamento de sentido que tem na associação livre sua expressão. No entanto, com relação às imagens sensório-motoras, sua “aparição” comporta uma literalidade que implica outra forma de abordagem, franqueando também um deslizamento de sentido, mas de outra envergadura. Nestes termos a intervenção terapêutica não prioriza um modo de elaboração que comportaria uma interpretação, derivada da ligação entre representação-coisa e representações-palavras. A intervenção terapêutica deve permitir também que imagens sensório-motoras apontem e despontem, apareçam e desapareçam, tal qual vagalumes, configurando, por meio de lampejos do desejo, um outro modo de sentir a vida (Didi-Huberman, 2011), formando uma rede na qual é possível se agarrar para não cair.

Dada a dificuldade que alguns pacientes apresentam de “empreender um diálogo verbal” (Herzog & Pacheco-Ferreira, 2014, p. 115) cabe ao analista buscar “outros planos de comunicação”. Assim, para além da via discursiva, podemos estabelecer “uma comunicação por meio de gestos e sinais figurados no corpo” (Herzog & Pacheco-Ferreira, 2014, p. 115). Nestes casos, conforme salientamos na época, “o conteúdo psíquico é ‘apresentado’ mais que dito” (Herzog & Pacheco-Ferreira, 2014, p. 116). Esta ideia dá (clínica e conceitualmente) uma positividade às sensações, sentimentos e angústias ao ampliar o modo de expressão de cada ser singular.

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Recebido: 16 de Janeiro de 2018; Aceito: 18 de Agosto de 2019

*Endereço para correspondência: rherzog@globo.com

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