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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.30  São Paulo  2019  Epub Nov 14, 2019

https://doi.org/10.1590/0103-6564e180081 

Artigo

Migração haitiana: o sujeito frente ao (re)encontro com o excesso

La migration haïtienne: le sujet devant le (re)trouvaille avec le excès

Migración haitiana: el sujeto frente al (re)encuentro con el exceso

Alexandra Garcia Grigorieff Nüskea  * 
http://orcid.org/0000-0003-3614-6231

Mônica Medeiros Kother Macedob 
http://orcid.org/0000-0001-9347-8537

aPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

bUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil


Resumo

Este artigo retrata uma pesquisa qualitativa a respeito do movimento migratório de sujeitos haitianos. Aborda-se a existência e/ou a fragilidade dos recursos de enfrentamento por parte do migrante, considerando-se que as condições do país de destino acabam, por vezes, reeditando o desamparo experimentado no país de origem. Participaram deste estudo três migrantes haitianos, que vieram para o Brasil após o terremoto ocorrido no Haiti e com os quais foram realizadas entrevistas. Os dados obtidos foram analisados por meio da Análise Interpretativa, proposta por Erickson, e explorados com colaborações teóricas da Psicanálise. Como contribuições da pesquisa estão o acesso à narrativa dos sujeitos a respeito de experiências singulares nas quais a complexidade se faz presente, bem como o destaque atribuído aos aspectos sociais, psíquicos e subjetivos a fim de que as intervenções no campo de fenômenos migratórios reconheçam o caráter imprescindível de consideração do sujeito migrante em sua complexidade.

Palavras-chave: migração haitiana; sujeito migrante; movimentos migratórios; psicanálise

Résumé

Cet article présent une recherche qualitative sur le mouvement migratoire des sujets haïtiens. L’existence et/ou la fragilité des ressources de confrontation du migrant est considerée, s’estimant que les conditions du pays de destination finissent parfois par rééditer l’impuissance expérimentée dans le pays d’origine. Trois migrants haïtiens, qui sont venus au Brésil après le tremblement de terre survenu au Haïti, ont participé de cette étude, avec lesquels ils ont été réalisée l’entretiens. Les informations obtenues ont analysées au moyen d’Analyse Interprétative, proposer par Erickson (1997), et exploités avec les contributions théoriques de la psychanalyse. Comme contribution de la recherche sont l’accès au récit des sujets concernant à propos des expériences singulières dans lesquelles la complexité se rend présente, ainsi que le clou attribué aux aspects sociaux, psychiques et subjectifs afin que les interventions dans les domaines des phénomènes migratoires reconnaissent le caractère indispensable pour la prise en compte du sujet migrant dans sa complexité.

Mots-clés: migration haïtienne; sujet migrante; mouvements migratoires; psychanalyse

Resumen

Este artículo retrata una investigación cualitativa sobre el movimiento migratorio de sujetos haitianos. Se aborda la existencia y/o la fragilidad de los recursos de enfrentamiento por parte del migrante, considerándose que las condiciones del país de destino acaban, por veces, reeditando el desamparo experimentado en el país de origen. Participaron de este estudio tres migrantes haitianos, que vinieron a Brasil después de que ocurriera el terremoto en Haití y con los cuales se realizaron entrevistas. Los dados obtenidos fueron analizados por medio del Análisis Interpretativo, propuesto por Erickson (1997), y explorados con contribuciones teóricas del Psicoanálisis. Como contribuciones de la investigación están el acceso a la narrativa de los sujetos sobre experiencias singulares en las cuales la complejidad de hace presente, así como el destaque atribuido a los aspectos sociales, psíquicos y subjetivos a fin de que las intervenciones en el campo de fenómenos migratorios reconozcan el carácter imprescindible de consideración del sujeto migrante en su complejidad.

Palabras clave: migración haitiana; sujeto migrante; movimientos migratorios; psicoanálisis

Abstract

This article is a qualitative study about the migration of Haitian subjects. This study approaches the existence and/or frailty of the migrant’s coping resources, considering that the conditions of the destination country sometimes reiterate the helplessness experienced in the country of origin. Three Haitian migrants participated in this study; they came to Brazil after the Haiti earthquake and provided interviews. The data obtained were analyzed through Interpretative Analysis, proposed by Erickson, and explored with theoretical collaborations of Psychoanalysis. As contributions, this study provided access to the subjects’ narrative about their unique and complex experiences, as well as the emphasis given to social, psychic and subjective aspects so that interventions on the migration phenomena recognize the importance of considering the migrant subject in his/her complexity.

Keywords: Haitian migration; migrant subject; migratory movements; psychoanalysis

Introdução

A complexidade presente no movimento migratório convoca a reflexão a respeito de elementos que denunciam as modalidades de enfrentamento do sujeito em uma condição que vai muito além de um deslocamento corporal. O migrante, ao sair de sua pátria, deixa um lugar no qual os elementos sociais e culturais eram acessíveis e chega em uma terra onde tudo é desconhecido (Daure, Reyverand-Coulon, & Forzan, 2014). Logo, a condição de estrangeiridade pode colocar o sujeito diante da consciência de não ter mais garantias a respeito de suas certezas, evidenciando uma experiência de desamparo por meio do encontro com o que não é reconhecido como familiar (Mallard, Cremasco, & Metraux, 2015).

De acordo com Hornstein (2009), o encontro com o novo provoca um necessário trabalho psíquico de administração no campo dos investimentos, demandando o enfrentamento da perda de alguns objetos e a vivência de escolha por outros. Nesse sentido, a experiência migratória impõe ao sujeito lidar não apenas com perdas reais e claramente identificadas, mas, também, com a experiência de se deparar com a complexidade no campo de seus investimentos psíquicos. Mais especificamente no fenômeno migratório de sujeitos haitianos, esse aspecto adquire singulares contornos.

A situação atual do Haiti, bem como todo o desenvolvimento de sua história, é marcada por frequentes excessos, que colocam os sujeitos, constantemente, em uma situação de desamparo. Trata-se de um cotidiano permeado por situações de violência, inúmeros conflitos políticos e frequentes catástrofes naturais, que corroboram para que o país caribenho seja considerado um dos mais pobres do mundo (Silva, 2015). O terremoto que atingiu o Haiti em 2010 comprometeu ainda mais a situação do povo haitiano, de modo que a fome, a precariedade da educação, os riscos à saúde e a violência se fazem presentes no dia a dia do país (Moraes, Andrade, & Mattos, 2013; Tisatto, 2016). Dessa forma, o dramático cenário no qual o Haiti se situa motiva a ocorrência de uma migração em massa para diversos países do mundo, sendo um destes o Brasil (Durans & Santos, 2016).

Ao deixar o país de origem e ir em busca de um novo lar, o migrante ver-se-á diante da necessidade de administrar as rupturas afetivas, linguísticas, culturais e profissionais que podem advir da experiência migratória, exigindo o enfrentamento do desconhecido. Ademais, o sujeito já em sua chegada precisará encarar o desafio da busca por um emprego a fim de garantir o seu sustento e o de sua família. Além disso, as condições mínimas relativas à moradia, à escola e à saúde irão resultar no enfrentamento com aspectos burocráticos próprios a um país sobre o qual pouco ou nada sabem. Assim, para além da exigência de tentar sanar as condições básicas de sobrevivência, caberá ainda ao migrante dispor de condições psíquicas para administrar os singulares efeitos em si mesmo decorrentes da saída de sua pátria e da chegada ao novo país.

Nesse sentido, o objetivo deste estudo, ao considerar essencial lançar o olhar sobre o sujeito migrante, foi investigar os processos de desinvestimentos e investimentos psíquicos inerentes à experiência migratória de sujeitos que vieram para o Brasil após o terremoto ocorrido no Haiti em 2010. Buscou-se explorar os efeitos psíquicos associados ao enfrentamento de diversas demandas decorrentes da vivência migratória, a partir de narrativas sobre o experienciado. Afirma-se a importância de estudar em profundidade aspectos relativos ao fenômeno migratório observado em território nacional, na medida em que não se pode desconsiderar que essa experiência interfere de forma marcante nas condições de vida de um sujeito que deixou muito para trás e precisará criar novas possibilidades de laço social.

Método

Participantes

Participaram desta pesquisa três haitianos, sendo duas mulheres e um homem, que vieram para o Brasil após o terremoto ocorrido no Haiti, em 2010. Os três haitianos são adultos e residem no país há mais de um ano. Com a intenção de garantir o anonimato das suas identidades, foram-lhes atribuídos nomes fictícios. Considerando-se a história haitiana, bem como os dados obtidos nesta pesquisa, os nomes escolhidos são de origem francesa e têm significados que se aproximam às características presentes na história dos participantes. Nesse sentido, esses nomes são: Eloi, que significa “o escolhido”; Mirela, que significa “aquela que admira”; e Charlotte, que significa “mulher do povo” (Dicionário de Nomes Próprios, 2019).

Quadro 1 Relação dos dados dos participantes obtidos nas entrevistas 

Participante Idade Tempo de permanência no Brasil Países pelos quais passou antes da chegada ao Brasil / tempo de permanência Trabalha atualmente Com quem mora
Eloi 25 anos 2 anos Equador / 8 meses Sim 1 amigo haitiano
Mirela 22 anos 2 anos - Não Marido e filho
Charlotte 40 anos 1 ano e 4 meses República Dominicana / 10 anos; Equador / 9 meses Não 6 amigos haitianos

Instrumentos para coleta de dados

Foram realizadas duas entrevistas semidirigidas com cada participante, as quais foram gravadas em áudio e exploraram os seguintes eixos temáticos: história de vida do participante com ênfase na experiência migratória; significados atribuídos à experiência migratória; experiência de afastamento do país e da cultura de origem; experiência de acolhida no novo país; sentimentos advindos desta experiência; dificuldades vivenciadas no processo migratório; elementos que auxiliaram no processo migratório; e recursos utilizados para lidar com as dificuldades da experiência. Todas as entrevistas foram posteriormente transcritas para assegurar a fidedignidade dos dados. Ao final delas, foi preenchida a Ficha de Dados Pessoais e Sociodemográficos elaborada para este estudo, a fim de acessar informações que não tivessem surgido durante a entrevista.

Procedimentos para análise de dados

As entrevistas foram analisadas por meio da Análise Interpretativa proposta por Erickson (1997), na qual cabe ao pesquisador descobrir diferentes estratos de particularidades e universalidades presentes nos dados obtidos. A partir das narrativas dos participantes, foram formuladas duas Asserções (Erickson, 1997). Em seguida, foi realizada uma revisão do corpus para testar e retestar as asserções a fim de encontrar evidências que confirmassem ou negassem a sustentação da assertiva apresentada. Por fim, foi feita a redação da análise, a qual é composta por tópicos das entrevistas acrescidos de comentários interpretativos (Erickson, 1997).

O desafio desta análise está, portanto, em alternar o que é específico de uma vinheta com o que é geral do comentário interpretativo (Kude, 1997). Nesta pesquisa, os dados foram interpretados a partir dos aportes teóricos da Psicanálise. Considera-se que a Análise Interpretativa vai ao encontro da proposição psicanalítica de buscar não a explicação aparente sobre um fenômeno, mas sim fomentar aprofundada investigação e interpretação de sua singularidade.

Resultados e discussão

Apresentação das Asserções

Após a análise dos dados coletados foram formuladas duas Asserções que contemplam aprofundada reflexão sobre os processos de desinvestimentos e investimentos psíquicos inerentes à experiência migratória. A primeira Asserção, intitulada “o singular mal-estar no enfrentamento de demandas intrapsíquicas e intersubjetivas”, decorreu da constatação da necessidade de problematizar as modalidades de enfrentamento do sujeito na experiência migratória, em uma condição que extrapola o mero deslocamento geográfico. A segunda Asserção, intitulada “o somatório de excessos nos diferentes tempos de (des)ilusão”, explora os impactos psíquicos no sujeito migrante decorrentes de experiências de violência e desamparo, vivenciadas tanto no Haiti quanto no Brasil. Apresentam-se a seguir as duas Asserções formuladas a partir dos dados obtidos junto aos participantes desta pesquisa, bem como os comentários interpretativos que essas temáticas despertaram.

Primeira Asserção: o singular mal-estar no enfrentamento de demandas intrapsíquicas e intersubjetivas

A primeira Asserção decorre de problematizações narradas pelos participantes da pesquisa a respeito da migração como uma busca por um lugar próprio. A complexidade presente no movimento migratório faz com que seja necessário explorar elementos que denunciam as modalidades de enfrentamento do sujeito em uma condição que vai muito além de uma deslocação territorial. Constata-se que, muitas vezes, no movimento migratório, o sujeito vai em busca de soluções para as dificuldades vivenciadas no país de origem. Tratam-se de dificuldades que aludem a escassas condições de trabalho, ao predomínio da violência, a poucas oportunidades de estudo e qualificação e, na maior parte das vezes, a riscos importantes à sobrevivência (Fernandes & Castro, 2014).

Nesta pesquisa, esses elementos foram identificados como fatores motivadores da migração para os três participantes. Por meio da narrativa de Eloi pode-se identificar essa condição de precariedade, que fomentou a busca pelo Brasil como um país de novas oportunidades:

Eu tava morando no Haiti [há] muito tempo, e Haiti é um país que não dá muito oportunidade pros haitiano. Porque o haitiano pode terminar [de] estudar, . . . não conseguir achar um serviço, . . . não conseguir achar nada porque não tem. Serviço tem pouco. Também os governos não tão dando oportunidade pros haitiano. Daí tem haitiano que deixa o Haiti, daí quer vir lá pro Brasil pra conseguir achar uma vida melhor. (Eloi)

Na fala de Eloi, o Brasil surge como uma saída diante das precárias condições de vida disponíveis no Haiti. Assim, o singular enfrentamento a ser realizado por esse participante em seu movimento migratório alude a encontrar em uma terra distante aquilo que não encontra em sua pátria. A partir da tomada de decisão pela migração, caberá ao sujeito migrante enfrentar-se psiquicamente com a necessidade de desinvestir expectativas quanto ao seu país de origem, bem como buscar recursos financeiros em sua parca realidade a fim de viabilizar o deslocamento, no caso, para o Brasil.

Denuncia-se, assim, tanto o valor concretamente despendido quanto a enorme expectativa atribuída à vinda para o novo país. Conforme Da Silva e Lima (2016), elementos como a pobreza, a guerra e as catástrofes naturais fazem com que o haitiano, pela esperança de resgatar a sua condição de sujeito, migre em busca de uma melhor qualidade de vida. Na escuta das narrativas das participantes Mirela e Charlotte, esses elementos também são identificados, havendo a esperança de encontrar no Brasil melhores condições de vida e melhores oportunidades de estudo e emprego.

Após a chegada ao contexto brasileiro, segundo narrativas dos participantes, passa a se presentificar intensa frustração, na medida em que suas expectativas não são correspondidas pela realidade. Além das dificuldades inerentes ao processo migratório, como a imposição de uma nova cultura, um novo território, um novo idioma e novos costumes, os migrantes ainda se deparam com dificuldades que incrementam as impossibilidades de alcançar o singular objetivo da migração. Tal situação pode ser ilustrada por meio da fala de Mirela a respeito do Brasil:

Não tem universidade. Eu vim aqui pra vir pra escola, depois vai pra universidade. Agora eu não consegui porque eu não consegui creche pro meu filho, só isso. (Mirela)

Diante da frustração de não estar realizando seus planos, visto que não conseguiu ingressar na universidade, nem encontrar emprego, e tampouco uma creche para o filho, Mirela reage com tristeza, mostrando-se muito queixosa em relação à sua ociosidade. Pode-se observar, na narrativa dessa participante, como a mudança migratória associada à posterior experiência de decepção provoca importantes efeitos no psiquismo, constituindo uma especificidade em sua condição de mal-estar. A singularidade do mal-estar e sua relação com as expectativas que provocaram o movimento migratório podem ser observadas na narrativa dos três participantes da pesquisa:

Lá no meu serviço não deram vale-alimentação, não deram muita coisa lá, só vale-transporte e deu. E deu. Daí ficou muito difícil pra mim. Mas não tem o que fazer, não tem. Não é fácil pra achar outro serviço, não é fácil. Daí é muito difícil pra mim, eu não to gostando do meu serviço, daí. (Eloi)

Ah, eu tô com tristeza, porque eu sinto. . . . Todo dia na minha casa sem fazer nada, sem estudar nada, só minha tristeza, só isso. (Mirela)

Esse é o meu problema, eu sempre com dor de cabeça. Às vezes eu [estou] fazendo comida e, ai, não quero comer, pensando, pensando. (Charlotte)

A partir das diferentes nuances na enunciação do mal-estar que se apresenta nessas narrativas, se faz evidente a singularidade dos efeitos intrapsíquicos decorrentes das experiências no campo intersubjetivo. Essas diferenças terão, no caso da migração, importantes consequências no que se refere aos elementos identitários do sujeito migrante, bem como suas possibilidades de nova inserção no laço social. Segundo refere Bleichmar (2005), a produção de subjetividade implica a maneira como se constitui a singularidade humana no cruzamento de demandas universais, particulares, bem como os aspectos históricos e políticos que produzem o sujeito social. Mais especialmente em relação ao sujeito migrante haitiano, constata-se que também a vinda ao Brasil, na contramão de suas expectativas, passa a fomentar a continuidade do desamparo social experimentado no Haiti.

Da Silva e Lima (2016) apontam que os migrantes haitianos, ao chegarem no território brasileiro, deparam-se com a fome, com o desemprego e, por vezes, com um ambiente hostil e discriminatório. A expectativa de chegada e de encontro com condições “salvadoras” de vida vão perdendo espaço na mesma proporção em que cresce o risco à vulnerabilidade psíquica. Ou seja, instala-se como importante eixo de reflexão sobre o sujeito migrante a vulnerabilidade em relação à temática da identidade. A identidade, conforme Bleichmar (2009), refere-se a uma estrutura constituída por invariantes que se repetem, possibilitando o funcionamento psíquico. Trata-se do sentimento de si, que corresponde a uma noção de permanência e continuidade, de maneira que as modificações em suas referências identificatórias são sentidas com estranheza (Rother Hornstein, 2006). O sentimento de si, de acordo com Hornstein (2009), necessita de um investimento contínuo do outro, supondo “um compromisso entre aquilo que permanece e aquilo que muda, entre um núcleo de identificações e de representações objetais e as recomposições que exigem os encontros” (p. 54). Assim, mesmo que a temática identitária essencialmente diga respeito ao sujeito, a importância dos investimentos recebidos do outro é imprescindível. No que se refere à necessidade de reorganização psíquica do sujeito migrante, também é preciso considerar, junto às demandas intrapsíquicas, as experiências do campo intersubjetivo, as quais sofrem evidente influência das exigências culturais. Cabe destacar que a chegada ao território brasileiro, ao instaurar a reprodução de precárias condições no que tange à atenção e cuidado à integridade física e psíquica do migrante, falha consideravelmente em suas possibilidades de auxílio acerca da experiência de encontro humano, no qual se ofertam efetivas capacidades de recomposição frente à vulnerabilidade do sujeito.

Um dos principais desafios que se apresenta ao migrante na chegada ao Brasil diz respeito à obtenção de emprego. O sujeito migrante encontra, atualmente, no contexto brasileiro, um cenário econômico que não favorece nem a população local, quanto mais a estrangeira (Da Silva & Lima, 2016). Tal dificuldade parece estar relacionada ao momento de crise do país; porém, também alude a questões próprias do sujeito migrante, como o tema da aquisição de idioma e, no caso do migrante haitiano, ainda as características étnicas. Mirela narra sua busca por trabalho a partir da seguinte reflexão:

Aqui se tem cinco pessoas [que] vão buscar trabalho, tem bastante brasileira. A gerente falou [que] aqui, agora [no] Brasil tem uma crise, e só brasileira que vai trabalhar, não tem vaga pra haitiano, só isso. (Mirela)

A vantagem atribuída à contratação de brasileiros em detrimento dos estrangeiros haitianos provoca importantes questionamentos em relação ao seu próprio valor e expectativas de vida. Nessa mesma direção, também passam a ser questionados os investimentos e projetos relativos ao que fora experimentado no Haiti, como é ilustrado na fala de Eloi:

Não to muito satisfeito porque eu tenho ensino médio completo, eu tô trabalhando de construções, ahn, ahn, tipo assim, tô trabalhando na limpeza, tira os lixos na rua, mas eu eu fiquei muito tempo estudando lá no Haiti. Gastei bastante dinheiro lá no Haiti ... pra ser educado lá no Haiti. (Eloi)

A partir da narrativa do migrante, percebe-se sua intensa insatisfação no que concerne ao trabalho desempenhado no Brasil, na medida em que considera que investiu financeiramente em sua educação para ser mais bem reconhecido. Da Silva e Lima (2016) apontam que os migrantes chegam ao Brasil, na maioria das vezes, com poucas economias, acabando por se abrigar em lugares insalubres e tornando-se alvo de propostas para trabalhos degradantes. Assim, ainda que possuam algum grau de qualificação profissional e falem português, muitas vezes são explorados pelo mercado de trabalho brasileiro, submetendo-se a mão de obra barata e a poucos direitos trabalhistas (Moraes et al., 2013).

Cabe ressaltar a centralidade que ocupa o tema da obtenção de trabalho na vida dos migrantes haitianos. Para além do desejo de um ganho salarial como garantia mínima de sobrevivência, a busca por trabalho e sua consequente remuneração financeira está atrelada não apenas ao sustento próprio, mas também ao sustento da família. Assim, por mais que a migração seja considerada uma ação particular, o migrante pode ter sido pressionado por familiares para migrar em busca de melhores oportunidades de emprego e, assim, enviar remessas de dinheiro para auxiliá-los (Diehl, 2017). Trata-se de garantir o mínimo de sobrevivência tanto para familiares que os acompanharam na condição de migração como àqueles que permaneceram no Haiti sob precárias condições de vida.

Essas considerações são ilustradas com a história de Charlotte, que deixou o Haiti visando a obter “uma vida melhor pra minha família, porque lá no Haiti não tem emprego”. Assim, a migrante busca uma vida melhor tanto para sua família no Brasil (marido e filha) como para a família que deixou no país de origem (sua mãe e seus outros cinco filhos, deixados ao cuidado desta). Charlotte conta sua experiência de trabalho em um hotel brasileiro:

Quando eu tava trabalhando na limpeza do hotel, eu trabalhou 3 meses. Eu tava um pouco feliz, porque todo mês eu manda pra minha mãe, tá. Eu sei que [se] eu mandar [dinheiro], ela vai comer. (Charlotte)

Evidencia-se, na narrativa de Charlotte, o lugar central dos recursos financeiros decorrentes de seu trabalho enviados ao Haiti, uma vez que as já precárias condições experimentadas lá seguem vigentes, apesar de sua migração para o Brasil. Os participantes deste estudo dão testemunho da condição na qual passam a ser demandados por duas condições fundamentais: assegurar o próprio sustento e assegurar o sustento daqueles membros da família que permanecem no Haiti. Eloi também precisa enviar seu ganho salarial para garantir condições de sobrevivência à sua família.

Daí eu tenho que ficar lá trabalhando e quando recebo dinheiro tenho que mandar pra ela e pagar o aluguel e depois eu fico sem nada, é assim a vida pra mim. (Eloi)

Eloi apresenta-se muito frustrado diante dessa condição, e oscila entre momentos que reclama desse envio de dinheiro para o Haiti e outros nos quais evidencia completa concordância com a dependência materna e fraterna em relação aos seus ganhos. As narrativas dos migrantes ilustram a manutenção de certo cerceamento à autonomia do sujeito, uma vez que no próprio ato de migrar já está incluída a assunção pela sobrevivência dos que ficam, sendo também os que ficam aqueles que financiaram sua condição de sair. A família apresenta-se, portanto, como fator que ocasiona a migração e também influencia diretamente na forma como o migrante passa a viver no novo país, bem como nas possibilidades de planos e desejos para o futuro. Sobre seu projeto de vida, Mirela refere que:

Se eu tô trabalhando eu vou fazer tudo, realizar o meu sonho. . . . Meu sonho é grande. . . . Ter uma casa confortável e pra ajudar o meu filho também. Ajudar ele na escola, na creche. (Mirela)

Nessa perspectiva, as relações familiares têm fundamental influência nos investimentos do sujeito, percebendo-se seus efeitos na própria condição de desejar do migrante. Vale salientar a linha tênue existente entre o desejo em ajudar a família e a indiscriminação de fronteiras entre o Eu e o objeto, quando parece ser impossível trazer para o campo intersubjetivo a noção de diferença.

Os participantes desta pesquisa relatam muitas vezes essa sensação de “ter que” ajudar, e também junto a ela a impossibilidade de usufruir de qualquer sensação de bem-estar frente ao reconhecimento da precariedade na qual vivem os familiares. Assim, passa a imperar um mal-estar que os impede de desfrutar de condições mais favoráveis no novo país, como pode ser ilustrado por meio da narrativa de Eloi:

Eu tava saindo com eles [amigos brasileiros], agora eu parei um pouco de sair. Tô pensando, porque a minha mãe tá doente, daí não da pra sair. A minha mãe tá triste lá no Haiti e eu to aqui no Brasil feliz? Não. Não. Daí eu parei um pouco de sair. Parei um pouco e também não to feliz, não to feliz. (Eloi)

A condição precária do outro familiar que segue na pátria abandonada os confronta continuamente com a capacidade de administrar psiquicamente tanto seus desinvestimentos (o que fica para trás no Haiti) como seus investimentos (projetos e realizações na nova condição). Observa-se, assim, a possibilidade de instauração de um prejuízo na balança energética (Freud, 1915/2006), uma vez que o sujeito é convocado a estabelecer um delicado equilíbrio entre os investimentos no si mesmo e aqueles destinados aos objetos. Na condição de migração, ao se encarregar intensamente das demandas do outro, que ficou no lugar de onde o sujeito desejou sair, podem imperar impossibilidades de investimento em projetos e desejos relativos ao si mesmo, dificultando a condição de desfrutar de novas possibilidades e experiências no campo alteritário.

O compromisso em ajudar o outro se mostra como uma predominante característica haitiana e se estende à concepção de um espírito comunitário de cuidado com o próximo, para além de familiares. Conforme Alexis (1970), as intenções relativas a ajudar o próximo e a pensar o coletivo surgem como característica do povo haitiano, que pode ser observada desde a conquista pela independência do Haiti, criando um modelo identitário regido pelo sentimento de fraternidade. Pode-se ilustrar tal valor por meio da narrativa de Charlotte, que cuida de filhos de amigas, acompanha amigos em consultas médicas e entrevistas de emprego:

Eu ajudo a outra pessoa. Eu tô há um ano e quatro meses aqui e tem outras pessoas que tão há um mês, dois meses, seis meses, que não fala, que não entende nada. Eu ajudo, se essa pessoa vai para o hospital eu vou com ela, eu ajudo. . . . Eu ajudo com o meu esforço. Às vezes eu tenho outra enteada pra procurar emprego, eu vou com ela. (Charlotte)

Fica evidente a solidariedade como um valor próprio da cultura haitiana. Barbosa (2015) refere que a ajuda ao próximo pode ser observada entre os migrantes, na partilha de seus bens, do espaço físico e da comida, ou até mesmo com os brasileiros pobres. Mirela narra uma experiência que vivenciou na parada de ônibus em uma capital brasileira:

Haitiana viu num ônibus uma mulher que tem uma criança de três anos. Ela chama o brasileiro: “Oi, por favor, me ajuda com 5 reais”, [o brasileiro diz] “Eu não tenho dinheiro”. Eu eu vou levar 20 reais pra ela, porque ela falou [que] a menina tem um problema, ela vai pro hospital que é muito longe com a filha dela. . . . Eu vou levar 20 reais pra ela. Porque todos os haitianos têm um coração muito bom, têm sensibilidade também. (Mirela)

Percebe-se a preocupação com o cuidado do próximo e a empatia existentes nas narrativas das migrantes. Essas características estão presentes de forma tão asseverada, que podem ser explicitadas por meio do provérbio haitiano “manje kwit paguem mét” (a comida preparada não tem dono), ou seja, é para todos (Barbosa, 2015). Evidencia-se, assim, a referência na literatura sobre o compromisso haitiano com a inclusão e com o cuidado para com o outro.

Vale salientar, porém, a tênue linha existente entre o que pode ser definido como solidariedade e o que, por vezes, alude a uma condição de obediência e submissão que, inclusive, prejudica o sujeito na luta por seus direitos. Nesse sentido, assevera-se a urgência de uma reflexão que contemple tanto aspectos da subjetividade quanto os impactos da realidade sobre o sujeito. Problematizam-se, portanto, na próxima Asserção, os efeitos psíquicos que incidem no sujeito migrante advindos da violência experienciada no Haiti, bem como do contexto brasileiro.

Segunda Asserção: o somatório de excessos nos diferentes tempos de (des)ilusão

A história haitiana é marcada por uma crise política que, conforme Lucenna (2014), é constituída por 34 golpes de Estado, característica histórica tão importante quanto a conquista da sua independência. Nesse sentido, ao longo de todo o desenvolvimento do Haiti, ficam evidentes os intensos efeitos advindos da sequência de vivências de ditadura e autoritarismo, das recorrentes disputas de poder, bem como das frequentes catástrofes naturais, colocando o Haiti na posição de país mais pobre das Américas (Silva, 2015).

Atualmente, conforme estudo desenvolvido por Tisatto (2016), a população da antiga colônia francesa sofre de subnutrição e vive abaixo da linha da pobreza estipulada pela Organização das Nações Unidas, sendo considerado um dos países mais pobres do mundo. Durante o processo de recuperação frente a três furacões que atingiram o país em 2009, o Haiti sofreu um imenso terremoto em 2010, agravando a condição de miséria do povo haitiano, de forma que a fome, a precariedade da educação e a violência se fazem presentes no cotidiano do Haiti (Moraes et al., 2013; Tisatto, 2016). Além disso, as terras haitianas são utilizadas pelo tráfico como via de passagem aos Estados Unidos, o sistema político é desorganizado e há uma epidemia de vários tipos de enfermidades, como aids e cólera (Moraes et al., 2013; Tisatto, 2016). Nesse sentido, a população haitiana enfrenta, na contemporaneidade, importantes dificuldades na luta pela sobrevivência e pela garantia de direitos humanos, na medida em que o país encontra-se em um grave estado de miséria (Tisatto, 2016).

Os haitianos entrevistados nesta pesquisa denunciam as precárias condições do país, bem como a ausência de condições mínimas de moradia e de sobrevivência, que impossibilitam alimentar projetos e expectativas a respeito de seguir vivendo no Haiti. Charlotte descreve com exatidão a forma como as precárias condições de vida adentram o cotidiano dos haitianos e tornam o Haiti um país do qual seus cidadãos buscam sair.

Lá não tem, não tem segurança. Eu não podia andar em, não podia andar como anda aqui, qualquer rua de noite, eu não podia andar de dia também. Lá não é assim, lá não tem, eu digo que não tenho, não tem nada bom. Tudo, tudo é difícil lá. Vou sempre vivendo preocupada, preocupada. . . . É sempre como uma, é como uma guerra. . . . Tudo é difícil lá, tudo, tudo é difícil. . . . Lá não tem, não tem elétrica, não tem luz, não tem hospital, não tem nada bom. E governo não fazer nada por ninguém. (Charlotte)

A partir da narrativa da migrante, percebe-se a condição de desamparo vivenciada no país de origem, de forma que deixar o Haiti torna-se a saída possível para encontrar uma sensação de segurança e bem-estar. Eloi e Mirela, assim como Charlotte, também referem os efeitos desconcertantes das intensas dificuldades vivenciadas no país de origem, no que diz respeito à desigualdade social, à desesperança política, à precária educação e às oportunidades de emprego.

Salienta-se que além das dificuldades econômicas e políticas, o Haiti depara-se, com frequência, com importantes desastres naturais, que incrementam a miséria já vigente no país. Bleichmar (2003) refere que até mesmo uma catástrofe natural, bem como seus impactos, podem ser decorrentes de situações de descuido e negligência do governo, quando um país se vê devastado. A autora ilustra tal constatação por meio do terremoto ocorrido no México, no qual grande parte dos edifícios destruídos tinham sido construídos na época da corrupção e, portanto, não cumpriam as normas de construção. Da Silva e Lima (2016) afirmam, em relação ao terremoto ocorrido no Haiti que, apesar de o país estar situado em uma região geograficamente vulnerável, isso não justifica a proporção do desastre. Essa situação permite constatar como na ocasião de um desastre natural passam a ser implicados, necessariamente, fatores sociais e políticos. Constata-se que tais fatores se evidenciam tanto na fragilidade das áreas devastadas pelo fenômeno natural como também nos parcos recursos destinados ao atendimento das necessidades da população.

Nesse sentido, o terremoto ocorrido no Haiti parece ter deixado ainda mais evidente a precariedade das condições de vida da população. A forma como as instituições administraram a tragédia ocorrida ilustra novas faces da violência. Charlotte reage com tristeza ao falar sobre o terremoto que devastou sua pátria em 2010, denunciando a persistente manutenção de precárias e deficientes condições de vida e de sobrevivência da população haitiana. Além disso, Charlotte refere que após o terremoto as dificuldades aumentaram:

Antes era um pouquito melhor . . . las pessoas que planta arroz, feijão, fazer comida, como se chama? . . . . Agricultor, antes havia muito e agora não tem porque não tem água, não tem coisa pra ajudar a fazer comida. Tudo tem que ser importado. . . . Depois do terremoto, se levara tudo. (Charlotte)

A devastadora catástrofe natural agravou, portanto, o caos no país caribenho, o qual efetivamente não tem, em sua história, períodos marcados pela estabilidade política e pelo estabelecimento de cuidado e atenção à sua população. Diante dos intensos impactos da violência advinda de um lado das catástrofes naturais e, de outro, do comprometimento da garantia de direitos básicos do ser humano, acaba por resultar um penoso processo de desilusão por parte do sujeito a respeito das possibilidades de encontrar em seu país possibilidades mínimas de moradia, sobrevivência física e sobrevivência psíquica. Nessa perspectiva, a partir de 2010, os haitianos encontraram na migração uma tentativa de fugir da miséria do país de origem e buscar melhores condições de vida (Durans & Santos, 2016).

O Brasil apresentou-se como potencial país de destino, na medida em que já havia estabelecido um vínculo com o Haiti, por meio da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), facilitando a vinda dos haitianos (Moraes et al., 2013; Rosa, 2015). Vale destacar que o Brasil não recebeu os haitianos na condição de “refugiados”, visto que a Lei brasileira 9474/97 e a Convenção de Genebra não consideram as motivações da migração haitiana causa de refúgio, já que não são abarcadas nas categorias de perseguição, guerras ou ameaças de vida.

Nesse sentido, conforme Moraes et al. (2013), a entrada dos migrantes haitianos no Brasil se deu por meio de um visto humanitário, emitido em número limitado, com fins de condições de trabalho e de estudo. Em 2013, depois de sofrer críticas e ações jurídicas a respeito da forma de acolhida dos migrantes, o Brasil passou a emitir vistos ilimitados para os haitianos (Moraes et al., 2013). Além da facilitação de acesso às terras brasileiras, Diehl (2017) constata que o país se tornou um dos destinos preferidos, devido à construção de um imaginário positivo acerca do Brasil, visto assim como “um país aberto para receber os imigrantes, onde não existe racismo e preconceito e que todos são bem-vindos” (p. 45). A partir disso, constatou-se o aumento do fluxo migratório de haitianos para as terras brasileiras.

Os participantes desta pesquisa narraram a experiência de viver no Brasil, apontando uma melhora em relação ao Haiti. Mirela, apesar das importantes dificuldades que encontra no seu cotidiano em solo brasileiro, demonstra esperança de que sua vida melhore no futuro:

Todo mundo que vem aqui e não conhecia o país fica tranquilo, depois vai melhorar. (Mirela)

Diante do caos vivenciado no país de origem, a vinda ao Brasil parece oferecer certa continência por alguns momentos. Sobre a vida no Brasil, Eloi narra:

Eu fiquei gostando de Brasil, porque a gente tá falando que no Brasil lá tem oportuni, muita oportunidade, daí eu vim pra cá. Mas. . . . Mas nem, não muda nada. Eu gosto mais do Brasil só porque, não, só porque, no Brasil é o serviço mais seguro, é mais seguro no Brasil. . . . Se eu volto lá pro Haiti não vai ter nada melhor pra mim. Mesma coisa. . . . Mas eu, eu gosto do Brasil, daí eu vou ficar, eu vou ficar aqui, mas se não melhorar daí eu vou mudar de país, porque assim a gente não consegue ajudar nada. Não consegue fazer nada. (Eloi)

A partir das narrativas de Mirela e Eloi, observa-se que a permanência no novo país não está prioritariamente vinculada ao objetivo inicial de encontrar novas possibilidades de vida, mas sim de evitar o retorno ao país de origem, que apresenta piores condições do que aquelas encontradas no Brasil. Nesse sentido, percebe-se o predomínio e a manutenção de certa ilusão na escolha do Brasil como sendo um país que poderia dar conta do intenso desamparo vivenciado no Haiti e oferecer oportunidades para um futuro melhor.

No decorrer do tempo, os migrantes haitianos passaram a se deparar com diferentes formas de serem recebidos pelos brasileiros, que variam desde um cuidadoso acolhimento até discursos racistas e xenófobos. Charlotte refere que se sente mais bem tratada no país estrangeiro do que no país de origem:

Eu tava lá no [nome do supermercado], quando eu tava trabalhando no [nome do supermercado], todo mundo me trata bem. Quando eu vou a hospital, quando eu to aqui no curso, no ônibus, toda gente me trata bem. (Charlotte)

Por outro lado, Mirela e Eloi referem frequentes situações de preconceito e racismo por parte dos brasileiros. Conforme Almeida e Brandão (2015), é comum os migrantes se depararem com dificuldades de sociabilidade, em razão do preconceito e do racismo, bem como pela veiculação de notícias a respeito de um número expressivo de haitianos ingressando no Brasil. Sobre uma situação racista que vivenciou no país de destino, Mirela narra da seguinte maneira:

Quando eu vim aqui, tem uma guria que tem só onze anos . . . ela tá rindo “você é muito feia, você não tem cabelo bonitinho”. . . . Eu falei nada, porque eu tava no país dela, não falei nada. (Mirela)

Percebe-se, a partir da narrativa de Mirela, o silêncio diante das explícitas ofensas dirigidas a ela. Rosa (2010) aponta que o silenciamento dos haitianos indica uma ação política que visa a garantir sua permanência em solo estrangeiro. Nesse sentido, evidencia-se claramente na fala da migrante a sensação de não-pertencimento ao novo país, e uma consequente postura marcada pela submissão. Eloi também demonstra intenso incômodo em relação às situações de xenofobia e racismo que vivenciou no Brasil.

Ai, não sei como falar isso porque, ah, tipo assim, uma coisa tipo racista. Daí, tipo racista, só que eu sou haitiano, todo haitiano, se haitiano aparece, se um haitiano aparece aí todo mundo fica, sabe que é um haitiano porque haitiano é preto, tem cabelo . . . . Daí fica falando mal dos haitianos, daí nem falam nada mas eu fiquei muito triste, as vezes eu chorei, eu não gostei isso . . . . Até no ônibus, ahn, ahn… Muitas, muitos lugares acontece isso. Quando tu entra e todo mundo fica, fica, tipo assim, segurando . . . bolsa, segura e, e, humilha a gente. Eu não gosto muito disso. (Eloi)

O sentimento de tristeza de Eloi denuncia a precariedade das relações alteritárias estabelecidas no novo país, bem como evidencia o impacto no migrante da manifestação de aspectos racistas do imaginário brasileiro que tem a figura do negro como “perigoso”. Em relação ao imaginário brasileiro, Rocha (2014) refere que o migrante bem acolhido no Brasil é aquele cuja origem é europeia, e ao qual são atribuídas contribuições na urbanização e modernização do país, nos séculos XIX e XX.

Neste estudo, observa-se claramente, nas narrativas dos participantes, uma comparação advinda de um intenso incômodo entre migrantes europeus e migrantes haitianos. Os entrevistados afirmam que os migrantes europeus têm seus direitos reconhecidos, enquanto os haitianos não os têm. Eloi, Charlotte e Mirela expressam sua incompreensão e indignação da seguinte maneira:

E os haitianos não têm todos os direitos. Não tem tudo. Daí… Isso daí é um problema que nós somos humanos também, que nem os brasileiros, alemão, italiano, tudo. Somos mesmo, e, mesma coisa. Somos humanos. . . . Tem que tratar todo mundo igual, igual. Eu não to gostando muito isso aí. . . . Somos todos humanos, todo mundo tem que tratar todo mundo igual. Não é porque eu sou haitiano que tu tem que me tratar diferente. Não. Daí os alemão, italiano, e. . . eles também, também, também. (Eloi)

Não sei porque. . . porque somos todos humanos. (Charlotte)

Porque todo mundo é igual, todo mundo tem sangue, não tem diferente. (Mirela)

Diante das falas dos haitianos, evidencia-se a dor advinda de experiências de indiferença no novo país, que colocam em cena formas de recepção xenófobas e racistas de migrantes por parte dos brasileiros. Diehl (2017) considera tais discursos pelo fato de ter ocorrido uma “migração em massa”, ocasionando o estranhamento da população em relação à presença desse grupo migrante que aumentava progressivamente. Nessa perspectiva, Freud (1930/2006), no período entre guerras, já referia como, por vezes, um grupo de iguais pode ter como escoadouro para a agressividade própria de seus membros outro grupo marcado pela condição de estrangeiridade. Ao escolher o estrangeiro como alvo da hostilidade, o grupo parece preservar seus próprios membros.

A partir das intensas vivências de indiferença quanto a sua condição de sujeito experienciadas no país de destino, percebe-se, no deslocamento migratório, a ocorrência de um (re)encontro com a violência, denunciando, assim, o necessário enfrentamento com uma situação de sobreposição de crises. Nesse sentido, são identificados neste estudo três diferentes tempos como inerentes ao processo da migração haitiana, segundo o vivenciado pelos participantes. O primeiro tempo diz respeito à desilusão com a própria pátria. Nesse momento, o sujeito reconhece a impossibilidade de reverter as condições de miséria e a extrema violência que permeavam seu cotidiano no Haiti. A desilusão com a pátria fomenta a busca por novos rumos, tanto para atender suas necessidades como para promover condições de bem-estar a entes próximos. O segundo tempo alude à ilusão quanto ao devir, ou seja, a expectativa de que um novo país, no caso o Brasil, ao tornar-se depósito de expectativas relativas a um futuro pleno de possibilidades, ofereça condições para que os projetos se transformem em realidade. Porém, na medida em que o migrante passa a conviver com a realidade brasileira, cujos desdobramentos lhe impõem o enfrentamento com o preconceito, com dificuldades de acessar emprego, custos efetivos para se estabelecer no novo país e impasses para realização de seus projetos, passa a imperar o reencontro com a desilusão. Nesse terceiro tempo, o efeito da desesperança se faz evidente, expondo com crueza o desamparo e a vulnerabilidade do sujeito migrante. Trata-se, agora, da dificuldade de identificar no tempo futuro algo que lhe dê condições de suportar o presente. Percebe-se, assim, que as conflitivas relativas à desilusão com a própria pátria voltam a assombrar e restringir as condições de planejamento do futuro.

A dificuldade do sujeito migrante de metabolizar os impactos desse terceiro tempo no processo de deslocamento se fez evidente nas entrevistas realizadas nesta pesquisa. No desenvolvimento de suas narrativas, uma expressão frequentemente se repetia. Seja na alusão ao que havia motivado a saída do Haiti ou nas expectativas relativas à experiência de estar em solo brasileiro, chamava a atenção a repetição de “só isso”. Eloi, Charlotte e Mirela, ao usarem a mesma expressão em narrativas diversas, põem em evidência o quanto o enfrentamento com as adversidades do processo migratório exige constantemente do sujeito transpor barreiras e denuncia tanto o desamparo como as diferentes faces da vulnerabilidade psíquica.

Daí eu quero começar a viver minha vida, porque eu to trabalhando aqui só pra ajudar minha família, só pra minha família. Cada mês eu recebo eu tenho que mandar dinheiro lá direto pro Haiti. O dinheiro não vai ficar pra mim. O que que vai ficar pra mim, só o dinheiro do aluguel e comida. Só isso. (Eloi)

. . . . Eu sempre pensei que sair do Haiti, conseguir outro país pra ir, conseguir um emprego e [trazer] minha família. Só isso. (Charlotte)

Eu ficar aqui sem fazer nada agora. Só isso. (Mirela)

Percebe-se, na expressão que insiste nas narrativas dos migrantes, uma redução que esconde a complexidade presente nos impactos da experiência migratória. Trata-se de uma complexidade cuja extensão nem eles mesmos conhecem e, portanto, parecem tentar manejá-la com o uso da expressão “só isso”. A escuta dos migrantes haitianos nesta pesquisa possibilitou a aproximação a conflitivas decorrentes de um deslocamento cuja intensidade não deve ficar à margem de estudos e reflexões sobre a condição dos sujeitos migrantes.

Nesse sentido, por meio da escuta ofertada no processo investigativo, evidencia-se a relevância de considerar a singular condição de sujeito presente na experiência migratória. Trata-se de atentar para o fato de que, além dos impactos políticos, jurídicos e sociais envolvidos nas situações de migração, é fundamental considerar os efeitos psíquicos na subjetividade do migrante. Esta segunda Asserção permitiu explorar o inestimável valor de dar espaço, em um processo de pesquisa, à narrativa do próprio sujeito sobre a singularidade do que experiencia. Entende-se, dessa forma, que o convite ao participante da pesquisa para que possa narrar sua experiência permite uma produção de conhecimento, que inclui e reconhece a contribuição que advém da forma como um sujeito experiencia um dado fenômeno.

Considerações finais

Os movimentos migratórios portam uma complexidade que demanda um trabalho de reflexão a respeito dos recursos de enfrentamento do sujeito, em uma condição de vida que vai muito além de uma transição geográfica. Assim, o estudo sobre o fenômeno migratório de sujeitos haitianos descortinou singulares implicações na forma de aproximação a essa temática.

O desafio de administrar o que deixa para trás, bem como o que se apresenta como nova possibilidade de vida, incide, inevitavelmente, nos aspectos identitários do sujeito migrante. Nesse sentido, este estudo objetivou investigar a problemática concernente a esses processos, que passam a ser inerentes à experiência migratória. Por meio das narrativas dos três participantes da pesquisa, foi possível explorar os efeitos psíquicos que neles operaram, associados ao enfrentamento de demandas identitárias decorrentes da experiência migratória.

Após obterem o êxito de chegar em um novo país, os migrantes são exigidos no enfrentamento de dificuldades que não imaginavam encontrar. Trata-se, portanto, de encarar as consequências da decisão tomada frente à constatação, por vezes, da disparidade entre as expectativas que moveram o deslocamento e as efetivas condições encontradas no país de chegada. A dramaticidade desse cenário denuncia as precárias relações alteritárias estabelecidas no processo migratório. Configura-se, nessa dinâmica, inegável impacto decorrente do (re)encontro com as condições de violência e desamparo já experienciadas cotidianamente no Haiti. Assim, a experiência migratória haitiana convoca os estudiosos de tal fenômeno a considerar tanto a singularidade do sujeito migrante como também o efeito que este provoca ao apresentar-se como estrangeiro no Brasil.

Por meio do espaço de escuta ofertado aos participantes desta pesquisa, foi possível lançar luz e resgatar a condição de sujeito que pode narrar-se a partir da singularidade do que experiencia. Através da reflexão a respeito das motivações do deslocamento migratório, dos impasses com os quais se depara e das reais condições de acolhida ofertadas ao migrante haitiano, passa a ser possível e urgente articular ações e intervenções que possam efetivamente dar conta da complexidade do que motiva um sujeito a deixar tudo para trás e buscar outras formas de convívio alteritário.

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Recebido: 18 de Abril de 2018; Aceito: 06 de Setembro de 2019

* Endereço para correspondência: alexandra.grigorieff@hotmail.com

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