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Pro-Posições

Print version ISSN 0103-7307

Pro-Posições vol.22 no.3 Campinas Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000300002 

DOSSIÊ
PEDAGOGIAS, RACIONALIDADES E REPRESENTAÇÕES DO/SOBRE O CORPO NOS SÉCULOS XIX E XX

 

Apresentação

 

 

Luciano Mendes de Faria Filho

Organização

 

 

Pode-se dizer, hoje, que já existe, no Brasil, no campo das ciências humanas e sociais, uma tradição de estudos sobre o corpo. Se, em boa parte dos dois últimos séculos, as perguntas sobre o corpo foram elaboradas no interior, sobretudo, das ciências médicas, a partir dos anos de 1970 tem havido um sistemático interesse das ciências humanas e sociais pela temática. A emergência do tema se dá, não por acaso, na confluência de múltiplas variáveis, tais como as novas configurações teóricas possibilitadas pela crítica ao estruturalismo e ao marxismo, pela exacerbação do culto ao corpo e das práticas para mantê-lo saudável, pela emergência dos movimentos feministas, dentre outros.

Assim, como demonstra uma gama de estudos, o corpo vem sendo constituído como problema em vários domínios. Nas mais diversas esferas, como a religiosa, a militar, a médica, a jurídica e a pedagógica, por exemplo, os discursos a respeito do corpo não cessam. No fundo, o que se pretende é proporcionar o corpo mais ajustado aos interesses que comandam cada um desses domínios. Percebe-se, contudo, que os comandos se deslocam, se rearticulam, se transformam sob os resíduos daquilo que se pretende ultrapassar, o que torna complexa a tarefa de quem deseja apreender os agenciamentos que se produzem a partir de cada um e/ou do conjunto desses domínios.

O saber construído nas esferas assinaladas encontra-se associado a instituições correlatas, nas quais o corpo seria fabricado em sintonia com as forças em ação. Tal saber, por sua vez, vem sendo submetido a uma crescente especialização, criando nichos específicos em cada uma das esferas, investindo em uma espécie de autonomização, com esforços voltados para a construção de uma legítima ciência dos corpos. Movimento que, de sua parte, não abandona os laços com aquilo que se aloja nos campos nos quais o corpo ainda se constitui em matéria pensada, calculada, projetada.

Foi esse ambiente que reforçou a interlocução acadêmica de duas áreas que, há muito, vinham estabelecendo um produtivo diálogo sobre as questões concernentes à educação dos corpos: a educação e a educação física. Superando, muitas vezes, constrangimentos institucionais e acadêmicos1, os pesquisadores dessas duas áreas têm estabelecido uma profícua colaboração para elaborar ricas questões e complexos objetos de pesquisa acerca da educação do corpo.

Este dossiê reúne pesquisadores brasileiros, argentinos e mexicanos que, juntos, indagam sobre o corpo e sua relação com a educação numa perspectiva de análise específica: a histórica. No conjunto dos textos, o corpo é interrogado a partir de estudos que se ancoram numa forma particular de interrogação, a história. Os artigos, no entanto, buscam explorar ângulos disciplinares e histórico-geográficos específicos, considerando experiências singulares desenvolvidas na Argentina, no México e no Brasil em fins do século XIX e ao longo do século XX, a partir de uma base documental que permite refletir cada um dos presentes examinados.

O artigo escrito por José Gonçalves Gondra, "Temperar a alma, retemperar os músculos - corpo e História da Educação em Afranio Peixoto", busca interrogar as representações do corpo construídas nos tratados de pedagogia voltados para a formação de professores. Cabe ressaltar a regularidade dessa presença nesse tipo de material. No caso deste estudo, privilegiou-se o exame daquele que é considerado o primeiro manual de História da Educação brasileira. O artigo analisa o livro Noções de História da Educação, publicado por Afrânio Peixoto em 1942 - testemunho do curso de História da Educação ministrado pelo autor no Instituto de Educação em 1932 -, e termina por formular uma espécie de grade de inteligibilidade para a História da Educação, ao mesmo tempo que apresenta e defende princípios doutrinários que deveriam ordenar a educação da casa e da escola. No artigo, José Gondra busca perceber a adesão e a campanha do autor por uma educação integral, na qual os aspectos físico, moral e intelectual deveriam estar presentes, articulados e equilibrados.

Do mesmo modo, o segundo estudo, assinado por Lucia Martínez Moctezuma, focaliza as representações do corpo infantil em livros mexicanos destinados à escola primária. Nesse caso, a prioridade incide sobre os discursos de autores de livros escolares - professores, em sua maioria, mas também doutores, pedagogos e membros da administração escolar -, que serão os responsáveis por consolidar o conhecimento sobre a criança em um contexto positivista. A autora toma como objeto de análise as imagens e os textos dos livros que circularam na escola primária mexicana entre os anos de 1882 e 1940.

Numa outra chave de leitura - a que busca indagar sobre a relação corpo-cidade -, dois estudos procuram tornar visível o incremento das atividades corporais associadas a projetos de urbanização. O primeiro deles, de autoria de Carlos Fernando Ferreira da Cunha Junior, examina o caso da cidade de Juiz de Fora (MG), com base na análise do jornal de maior circulação da referida cidade. O exame desse impresso permite ver práticas corporais diversas que articulam esporte e entretenimento, tais como o carnaval, o circo, o teatro e as touradas, mas também as corridas a pé, a ginástica e as lutas e os seus efeitos na construção e no funcionamento do urbano. O artigo busca analisar o desenvolvimento das práticas corporais em Juiz de Fora entre 1876 e 1915, através do jornal O Pharol. A ginástica e os esportes estiveram presentes nas páginas d'O Pharol entre 1876 e 1915. Incentivadas por médicos, devido a sua relação positiva com a saúde ou ainda por seu caráter espetacular, essas práticas corporais caíram no gosto da população juiz-forana e passaram a ocupar lugar relevante em seu cotidiano.

Já o estudo de autoria de Andréa Moreno e Tarcísio Vago tem por título "Nascer de novo na cidade jardim da República: Belo Horizonte como lugar de cultivo de corpos (1891-1930)" e analisa uma cidade planejada e construída para ser a capital das Minas Gerais, vitrine da República, com suas praças, ruas e avenidas projetadas a régua e compasso, com a pretensão de obrigar seus habitantes a nascer de novo, como escreveu Carlos Drummond de Andrade. Segundo os autores, o advento da República envolveu Minas Gerais em uma experiência até então inédita em seus domínios, na última década do Oitocentos. Em apenas seis anos, protagonistas diversos envolveram-se em eventos marcantes, em torno da construção de uma nova capital, que redefiniram lugares de sociabilidade e modos de viver. Assim, o início da década (1891) assistiu a um intenso debate sobre a transferência da Capital, então Ouro Preto, para outro lugar, ainda indefinido. À decisão favorável à mudança seguiu-se a escolha do lugar considerado apropriado e, depois, durante quatro anos, de 1893 a 1897, o planejamento e a construção de uma nova cidade, edificada sobre um arraial, nos moldes das reformas urbanas levadas a efeito em países como a França e a Argentina. Experiência que marcou profundamente costumes, hábitos, sensibilidades de habitantes tão diversos - políticos e funcionários públicos, bacharéis e intelectuais, médicos e professores, mulheres, crianças, pobres e ricos, maltrapilhos, mendigos e todos quantos experimentaram aquele tempo e seus lugares, da velha Ouro Preto ao arraial de Curral D'el Rey.

Os exercícios físicos e os esportes são o foco do quinto estudo, "As roupas destinadas aos exercícios físicos e ao esporte: nova sensibilidade, nova educação do corpo (Brasil, 1920-1940)", de Carmen Lúcia Soares, a partir do exame de três periódicos. Essa reflexão encontra-se ancorada no exame da roupagem imposta às modalidades esportivas, procurando problematizar as dimensões científicas, comerciais, higiênicas, morais e estéticas contidas nos argumentos mobilizados na documentação examinada. Para a autora, as roupas possuem lugar privilegiado na história da humanidade, e sua especificidade sexual, étnica, religiosa, política ou cotidiana revela esse lugar. A vestimenta constitui característica fundamental dos seres humanos, e o ato de vestir-se obedece a determinações sociais, sendo resultado de um laborioso processo de transformação de sensibilidades em relação ao corpo e a sua exibição, de tolerância à nudez e à natureza corporal. Por isso, a partir da análise de três revistas - Educação Physica: Revista de Esporte e Saúde (1932 - 1958); Sport Illustrado (década de 1930); Revista de Educação Física (1930-1939) -, esse trabalho dedica-se ao levantamento, à seleção e à análise de reportagens e imagens publicadas em revistas brasileiras pertencentes ao domínio da educação física e do esporte entre os anos de 1930 e 1950 e tem como objetivo compreender as justificativas elaboradas para o uso de roupas específicas nessas práticas em suas dimensões higiênicas, morais e estéticas, presentes nos argumentos desenvolvidos no período.

Por fim, numa outra tópica, o estudo de Pablo Ariel, "Cuerpos femeninos en movimiento o acerca de los significados sobre la salud y la enfermedad a fines del siglo XIX en Argentina", utilizando como fonte de análise as teses médicas sobre fisiologia, ginecologia, patologia e higiene - entendidas pelo autor como parte central de uma episteme que circulou, foi ensinada e transmitida no interior da corporação médica argentina no período -, analisa as práticas corporais escolares e não escolares desenvolvidas na Argentina no fim do século XIX como um terreno conflitivo em que atores e grupos sociais distintos estabeleceram um jogo complexo e heterogêneo de tópicas vinculadas ao corpo e seu funcionamento, à saúde e à doença, à diferença sexual e à definição do ser feminino.

Como se vê, nas chaves corpo-cidade, corpo-esporte, corpo-ciência e corpo-mulher, estabelecidas a partir de uma prática comum, a de historiar, corpos de diferentes idades e pertencimentos são interrogados no conjunto dos estudos aqui reunidos. Como eles, o dossiê aqui apresentado pretende dar a ver e tornar pensável o arbitrário das medidas voltadas para a educação do corpo e, do mesmo modo, o imponderável que emerge das múltiplas ações dirigidas a ele e a seus titulares.

Por fim, uma informação que me parece muito relevante: os textos aqui publicados foram, todos eles, apresentados e discutidos no Congresso Ibero-Americano de História da Educação Latino-Americana, realizado no Rio de Janeiro no final de 2009. Chamo a atenção para isso pelo fato de que a Pro-Posições, ao acolher a nossa proposta de publicação do dossiê, permitiu, também, que o Congresso, pelo menos para estes autores e seus textos, pudesse, de fato, significar uma singular experiência de interlocução e intercâmbio acadêmico e, ao mesmo tempo, possibilitou que tal experiência possa, pelo menos em parte, ser compartilhada pelos leitores da revista.

 

 

1. Não se pode esquecer, por exemplo, que, no Brasil, a área de pesquisa em educação física é, tradicionalmente, avessa aos aportes das ciências humanas e sociais, pois está organizada no interior das ciências biológicas.