SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue3The teaching practice in health post-graduate programs using the Moodle platform: a social commitmentSchool education and the intercultural multiculturalism: critique from Simone de Beauvoir author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Pro-Posições

On-line version ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.22 no.3 Campinas Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072011000300012 

ARTIGOS

 

A influência de condições especiais de corporeidade na construção comunicativa de consensos

 

The influence of disabilities in the communicative construction of consensuses

 

 

Gustavo Luis GutierrezI; Marco Antonio Bettine de AlmeidaII; Renato Francisco Rodrigues MarquesIII

IProfessor titular da Faculdade de Educação Física, Unicamp, Campinas, SP, Brasil. gutierrez@fef.unicamp.br
IIProfessor da Escola de Educação Física e Esporte, USP - Ribeirão Preto, SP, Brasil. marcobettine@gmail.com
IIIDoutorando em Educação Física, Unicamp, Campinas. Professor da Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista e da Faculdade Jaguariúna - Centro Universitário Amparense, Amparo. SP, Brasil. renato.marques@yahoo.com.br

 

 



RESUMO

Este artigo parte do conceito habermasiano de ação comunicativa para, por meio de dinâmicas baseadas nos trabalhos de Bion e Kholberg, procurar ilustrar como a condição de deficiência física, visual e auditiva interfere nos processos argumentativos de construção de consensos, conforme apresentado na Teoria da Ação Comunicativa. Por meio de dinâmicas de grupos específicos - de não deficientes, deficientes visuais, auditivos e físicos -, motivadas por questões de discussão propostas, apresenta uma análise sobre as formas de comunicação entre tais sujeitos na busca por um consenso. Notou-se que os grupos, utilizando vias próprias de comunicação, apresentaram a mesma capacidade de discussão e comunicação, independentemente de suas condições. O texto conclui, apontando a existência do mundo da vida, como definido por Habermas, em diferentes formas de comunicação, ilustrando a grande capacidade de recursos de interação entre seres humanos, assim como a capacidade destes de adaptação a condições adversas.

Palavras-chave: deficiência; comunicação; interação; discurso; Habermas.



ABSTRACT

This paper is based on the habermasian concept of communicative action in order to, through dynamics based on works of Bion and Kholberg, try and illustrate how the physical, visual and auditory disabilities intervene in argumentation processes of consensuses construction, as presented in the Theory of the Communicative Action. Through specific group dynamics with non-defficient as well as visual, auditory and physically disabled people, motivated by proposed discussion topics, an analysis is presented focusing on the communication forms among such individuals in the search for a consensus. The groups, using their own communication strategies, presented the same discussion and communication abilities, regardless of their conditions. I could therefore concludeperceiving the existence of the lifeworld, asdefined by Habermas, in different forms of communication, illustrating the great capacity of interactive resources among human beings, as well as their ability to get adapted to adverse conditions.

Key words: disability; communication; interaction; speech; Habermas.


 

 

Introdução

Este texto procura apresentar os resultados de uma pesquisa a respeito da influência de condições diferenciadas de corporeidade na construção de consensos, em condições próximas às apontadas por Habermas para definir o Mundo da Vida. Utiliza como base a teoria apresentada pelo filósofo alemão nos dois volumes de seu livro intitulado Teoria da Ação Comunicativa (1988).

Para tanto, apresenta, em resumo, as categorias mundo da vida e ação comunicativa, conforme expostas pelo autor, e faz uma discussão sobre a questão da deficiência e alguns dos seus possíveis impactos na interação argumentativa em grupos sociais. A pesquisa de campo baseou-se nas dinâmicas apresentadas por Bion (1970) para o estudo de grupos, na evolução dos juízos morais desenvolvida por Kholberg (1984) e no próprio conceito de construção comunicativa de consensos de Habermas.

Foram realizadas cinco dinâmicas específicas, sendo duas com deficientes físicos (DF), uma com deficientes visuais (DV) e duas com deficientes auditivos ou surdos (DA). Foram realizadas também dinâmicas com não deficientes, utilizando, para tanto, o auxílio de alunos de disciplinas do curso de pós-graduação em Educação Física da Unicamp como grupo controle, para apontar diferenças possíveis com os outros grupos.

A melhor compreensão da relação entre condições específicas de corporeidade e a construção coletiva de consensos pode contribuir para facilitar a interação com a pessoa com deficiência, nos diferentes âmbitos de socialização possíveis. A intenção desta pesquisa era, tendo como referência central uma leitura da teoria da Ação Comunicativa de Habermas, apresentar dados e informações novas para auxiliar o desenvolvimento de áreas como educação especial, inclusão nos ambientes profissionais e interações no espaço da sociabilidade espontânea ou de lazer, sempre respeitando a construção conceitual de cada campo e sua própria história.

Finalmente, é fundamental expressar agradecimento a todas as pessoas que, com infinita paciência e boa vontade, colaboraram na realização do trabalho, seja participando das dinâmicas, seja ensinando e ilustrando aspectos da questão da deficiência. Vale destacar ainda os colegas do Cepre da Unicamp, pelo apoio à realização das dinâmicas com surdos, que exigem a sempre complexa tradução para Libras.

 

O consenso na Teoria da Ação Comunicativa (TAC)

A TAC, como o próprio nome diz, é uma teoria, ou seja, uma explicação abrangente das relações entre os seres humanos, visando sua compreensão a partir da utilização de um modelo explicativo específico. Fundamenta-se no conceito de ação, entendida como a capacidade que os sujeitos sociais têm de interagir intra e entre grupos, perseguindo racionalmente objetivos que podem ser conhecidos pela verbalização do próprio agente da ação, confrontando a análise do encadeamento lógico das suas intervenções com as diferentes alternativas que se apresentam. Habermas (1988) prioriza, para o estudo e a compreensão do ser humano em sociedade, as ações de natureza comunicativa. Isto é, as ações referentes à intervenção no diálogo desenvolvido entre vários sujeitos sociais. É, portanto, uma teoria da ação comunicativa.

As categorias habermasianas fundamentais são:

- O mundo da vida (MV), onde se dá a busca comunicativa de consensos através da ação comunicativa.

- Os sistemas dirigidos pelo meio poder (conceito próximo à esfera da política ou do Estado) e pelo meio moeda (ou seja, mercado), onde ocorrem as ações estratégicas na busca de um comportamento útil no ouvinte, por parte do sujeito falante.

Este texto concentra-se na construção comunicativa de consensos no mundo da vida ou em condições que buscam reproduzir, dentro dos limites de uma pesquisa, as características das ações no mundo da vida.

O MV é definido a partir dos processos de entendimento e constitui um horizonte formado pelas convicções de fundo, mais ou menos difusas, mas sempre aproblemáticas. Acumula o trabalho de interpretação realizado por gerações passadas; é o contrapeso conservador contra o risco de desacordo que comporta todo processo de entendimento.

É um grande acervo cultural, não apenas de referências simbólicas ou definições específicas relacionadas a objetos concretos com os quais os agentes da ação social convivem. Ele é, para Habermas, um acervo de concordâncias, de definições consensuais sobre as quais não é necessário debater para chegar a uma conclusão. As estruturas do MV fixam as formas de intersubjetividade de entendimento possível. É, por assim dizer, o lugar transcendental em que falante e ouvinte saem ao encontro. O MV constitui uma rede intuitivamente presente e, portanto, transparente e familiar; contudo, ao mesmo tempo inabarcável, de pressupostos que têm de ser cumpridos para que a emissão que se faz possa ter sentido, ou seja, para que possa ser válida. O MV, esfumado por trás do âmbito de relevância de uma situação de ação, comporta-se como uma realidade aproblemática que, por sua vez, se mantém na penumbra, não penetra no processo de entendimento que se efetua em cada caso, ou só o faz de forma muito indireta e, nesse sentido, permanece indeterminado.

O MV é um conceito complementar ao de ação comunicativa. Ambos só podem ser compreendidos em conjunto, pois as ações comunicativas ocorrem no MV. A linguagem é um meio de comunicação que serve ao entendimento, enquanto os atores, ao entenderem-se para coordenar suas ações, perseguem, cada um, determinadas metas. Trata-se de uma comunicação difusa, frágil, constantemente submetida a revisão e só alcançada por alguns instantes, na qual os implicados se baseiam em pressuposições problemáticas e não aclaradas, sempre se movendo de uma questão sobre a qual estão de acordo para o ponto seguinte sobre o qual deverá ser construído um novo entendimento.

Uma contribuição interessante do trabalho de Habermas é a concepção de que a possibilidade de sucesso da comunicação transcende o simples conhecimento de um código específico entre as pessoas: a comunicação só é possível a partir de um conjunto de experiências comuns, que ambos os sujeitos compartilham, no espaço da sociabilidade espontânea, denominado mundo da vida.

O MV corresponde a três estruturas formadoras essenciais: cultura, personalidade e sociedade - que são seus componentes intrínsecos e indissociáveis. A linguagem é o meio de constituição e transformação das estruturas do Mundo da Vida, tendo como funções básicas fomentar o entendimento mútuo, permitir a coordenação de ações e promover a socialização. A linguagem, portanto, é o principal traço característico do ser humano, que o torna um ser individual, social e cultural e lhe fornece identidade, ao permitir-lhe compartilhar estruturas de consciência coletiva.

A intenção aqui não é discutir em profundidade a complexa obra de Habermas, mas destacar a importância da construção discursiva de consensos entre subjetividades intactas, enquanto elemento condicionante e explicativo da realidade social. A comunicação, para o autor, depende do ato de compartilhar um mundo da vida comum, que é o que vai dar sentido ao código expresso pela linguagem. O sucesso da comunicação no mundo da vida, onde o entendimento é orientado à construção argumentativa de consensos, depende de uma cadeia longa de significados à qual ouvinte e falante têm acesso privilegiado. Na teoria de Habermas (1988, 1989), a corporeidade é trabalhada de forma homogênea, enquanto elemento comum a todos os sujeitos sociais. Vamos tentar aqui avançar nesta reflexão a partir da observação das diferenças e de seu impacto nas ações comunicativas.

 

A teoria da ação comunicativa e condições específicas de corpo

Uma condição específica de corporeidade pode trazer novos elementos que interferem na comunicação, para além dos objetivos sociais e psicológicos já apontados por Habermas. O simples papel da fala, sempre presente na ação comunicativa habermasiana, transforma-se profundamente na presença, por exemplo, do DA, embora continue existindo a comunicação. Diante de uma condição de corporeidade diferente, os processos de entendimento sofrem uma interferência decorrente das condições específicas que atingem o falante agente da ação e o ouvinte do proferimento. Condições diferentes de corporeidade podem interferir nos recursos comunicativos e no próprio acesso à linguagem. Uma situação limite, como ocorre com o DA, passa a requerer, inclusive, o recurso de uma nova língua; neste caso, a Libras (Língua Brasileira de Sinais), em que o próprio corpo se torna instrumento da sua expressão.

A ideia central desta pesquisa partiu da aceitação das categorias habermasianas e procurou percebê-las, mesmo quando as condições de corporeidade fugiam à sua observação mais comum. A interação do deficiente no mundo da vida, assim como a do não deficiente, vai dotá-lo de uma percepção dos modelos culturais e das ordens legítimas nos limites de uma estrutura de personalidade onde estarão presentes aspectos específicos inerentes à sua condição especial de corporeidade. A deficiência, nesse sentido, cumpre um duplo movimento em que, ao mesmo tempo, soma mais uma diferença na construção do diálogo entre os sujeitos e esconde outras, previamente existentes, relegadas a um segundo plano pela forte presença da situação de uma diferença com relação aos recursos do próprio corpo.

A pessoa deficiente, no exercício da interação social, soma sua característica específica de corporeidade decorrente da deficiência às demais características que o completam enquanto ser humano, como, por exemplo, gênero, capital cultural, origem de classe, formação política, timidez ou capacidade de liderança. A condição de deficiência, portanto, articula-se com os demais elementos que compõem a estrutura de personalidade, reforçando alguns, suavizando outros e incorporando novas dimensões.

 

Materiais e métodos: Jogos Habermas/Kholberg/Bion

Para a análise proposta a respeito das formas de comunicação entre os grupos focalizados neste trabalho, foi desenvolvida uma série de dinâmicas, procurando compreender melhor a interferência de condições específicas de corporeidade no processo de construção de consensos. A ideia central foi retirada de Bion e suas dinâmicas com grupos. De Kholberg, e mais ainda da interpretação de Kholberg que Habermas apresenta à luz da TAC (1989), veio o intuito de apresentar dilemas cuja complexidade cresce conforme o grupo vai se conhecendo melhor, partindo de questões mais ou menos simples até situações que envolvem opções morais e religiosas. E de Habermas veio a proposta de que o grupo construa consensos através do debate argumentativo em condições de liberdade.

O propósito central do estudo foi verificar se há e quais são as diferenças observadas, numa situação de construção de consensos, entre grupos de pessoas que não têm deficiências e grupos de pessoas com a mesma deficiência.

Foram criados quatro cenários distintos, cada um com foco específico, para incentivar os grupos, apresentar desafios e iniciar a comunicação.

a) Cenário: distribuição de dinheiro

O grupo imagina uma quantia em dinheiro para ser gasta em conjunto, a partir do consenso de todos os membros. O foco é econômico e permite, de certa forma, uma aproximação com questões de interação social.

b) Cenário: machucado

Os membros do grupo devem colocar-se no lugar de alguém que machucou o próprio rosto, num acidente doméstico, de forma muito boba, como uma distração. Pede-se para construir consensualmente uma história mais glamourosa, que justifique o hematoma nos ambientes sociais que ele frequenta. A intenção é perceber as expectativas com relação ao meio e os aspectos relacionados a autoimagem e segurança.

c) Cenário: o (a) amigo(a)

A pessoa, vivendo uma situação conjugal estável, foi vista numa situação de intimidade com um(a) antigo(a) namorado(a). Ele(a), de fato, encontrou a tal pessoa e ficaram conversando num café. Pode ter havido algum contato físico, como segurar as mãos ou outro gesto de afeto, embora ele(a) não se lembre claramente se isso ocorreu. Diante da recusa do(a) atual parceiro(a) em acreditar nessa versão, o grupo deve construir um consenso sobre a melhor desculpa. A intenção é perceber as diferenças a respeito de sexualidade, relações estáveis e gênero.

d) Cenário: o testemunho

Os membros do grupo devem colocar-se no lugar de alguém que está iniciando uma relação com um(a) novo(a) parceiro(a). Acredita que a relação pode tornar-se, com o tempo, algo duradouro, mas ainda não tem certeza. O(A) novo(a) parceiro(a) é religioso(a) e frequenta uma igreja diferente daquela que ele(a) frequenta. Antes de o casal sair para um passeio, o membro do grupo é convidado a participar de um culto nessa igreja. Ele(a) sabe, por outras fontes, que é prática comum, nesses casos, o(a) recém-chegado(a) dar um depoimento pessoal. O grupo deve chegar a um consenso sobre que depoimento dar, levando em conta que, se a relação perdurar, o(a) depoente pode vir a ser cobrado(a) no futuro. A intenção é colocar o grupo diante da questão religiosa e institucional.

No período de março de 2006 a dezembro de 2008 foram realizadas cinco dinâmicas com sujeitos que apresentavam alguma deficiência e duas com sujeitos sem deficiência, autorizadas1 pelo comitê de Ética Médica em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, sem auxílio financeiro. Duas dinâmicas com deficientes físicos, uma com deficientes visuais e duas com deficientes auditivos. A coleta de dados deu-se com base na observação por parte dos pesquisadores, que realizavam anotações de acordo com sua percepção subjetiva das formas de comunicação. Como material de análise foram utilizados papel, caneta e uma câmera VHS para filmagem e gravação das interações, para posterior análise.

 

Resultados e discussão: análise da construção de consensos nos grupos

Grupo controle: dinâmicas com sujeitos não deficientes

Foram aplicadas dinâmicas com alunos de duas turmas - com perfis bem diferentes - de curso de pós-graduação em Educação Física: a primeira, mais heterogênea, com alunos jovens convivendo com outros com mais experiência profissional e política, num ambiente bem competitivo. A segunda, mais homogênea, em um grupo mais tranquilo em termos de integração.

A observação apresentou um padrão de encaminhamento das questões que se repetiu nos outros grupos. As dinâmicas serviram mais como preparação para o trabalho com os grupos de deficientes, pois o ambiente não era o mesmo. As pessoas já se conheciam, e cada grupo tinha uma cultura mínima constituída. O ambiente de pós-graduação pareceu mais competitivo que os outros sujeitos da pesquisa.

Grupo 1: Deficientes físicos cadeirantes e não-cadeirantes com dificuldade leve de locomoção (03/2006)

Local: Hospital da Criança Paralítica (Campinas/SP)

Grupo 2: Jogadores de basquete masculino sobre cadeiras de rodas (08/2006), cadeirantes que treinam basquete e participam de competições nacionais

Local: Ginásio Rogê Ferreira (Campinas/SP)

A deficiência física (DF), embora seja um elemento importante e presente, que atravessa toda a atividade, foi constantemente subordinada a outros aspectos de personalidade que interferem na dinâmica proposta. Ou seja, em ambos os grupos, na maior parte do tempo, havia algum aspecto de personalidade que chamava mais a atenção do que a condição de DF, chegando, inclusive, em alguns momentos, a sobrepor-se de tal forma que esta passava despercebida. Entre as características de personalidade que mais chamaram a atenção estão a condição de gênero, o espírito de liderança, a capacidade de raciocínio e expressão verbal, a maturidade moral e a condição econômica. Em termos gerais, as dinâmicas apontaram o fato de a condição de DF não se sobrepor às condições pessoais de personalidade, destacando que a DF não anula as demais características pessoais, mas articula-se com elas, ou seja, a condição de DF soma-se a um amplo leque de aspectos pessoais que constituem a identidade, podendo, inclusive, em alguns momentos, ser ignorada no contexto de uma vivência específica.

Ficou no ar uma dimensão que não pôde ser mais explorada, mas que talvez seja relevante: a importância subjetiva da prática esportiva adaptada para o portador de necessidades especiais. Toda prática esportiva pressupõe certa dose de superação de obstáculos, de onde advém parte da sua emoção e de seu atrativo. No caso do deficiente, essa superação pode ser, ou pelo menos parece ser, maior do que em outros casos. No mesmo sentido, a sua importância enquanto elemento subjetivo componente da vida emocional pode ter uma dimensão distinta.

A dinâmica do machucado não foi aplicada ao segundo grupo por problemas de tempo.

Grupo 3: Deficientes visuais jogadores de Goalball (09/2006)

Local: Clube Esportivo de Paulínia/SP

A questão fundamental, que mais chamou atenção durante toda a dinâmica, foi a forma ordeira com que se deu o debate. Raríssimas vezes duas pessoas falaram juntas, e, a partir de um critério inicial, não explicitado, todos se manifestaram ou foram incentivados a manifestar-se em todas as dinâmicas. Foram expostos argumentos e contra-argumentos, e, pelo menos duas vezes, nas dinâmicas 1 (dinheiro) e 3 (o/a amigo/a), a solução só foi encaminhada através do voto. É preciso, portanto, distinguir forma de conteúdo. Houve dissenso e confronto de opiniões, mas num contexto ordeiro e organizado.

A construção argumentativa de consensos neste grupo lembra, dentro de limites, uma concepção ideal de ação comunicativa habermasiana, em que o debate se dá entre subjetividades intactas, em condições de liberdade, esgotando todas as possibilidades de ações alternativas, percebidas pelos sujeitos participantes. Pode-se notar também certa descorporificação do debate, já que o DV não apenas deixa de perceber o uso que os outros fazem do corpo, como tampouco usa seu próprio corpo enquanto elemento ostensivo que auxilie seus argumentos. A forma que o grupo apresenta para solucionar as dinâmicas ilustra uma situação despoluída de argumentação, em que a exposição racional de argumentos não sofre, ou sofre muito menos que em outras condições, a influência do uso do corpo. O fato de os DV terem uma percepção parcial do corpo dos demais participantes da dinâmica limita não só os recursos da busca de liderança, mas também todo o conjunto mais amplo de referências que podem confundir a evolução lógica da sucessão de argumentos.

A forma ordeira e organizada de argumentação apresentada pelos DV pode ser decorrente também de fatores como: (a) um treino, inclusive escolar, para que eles se concentrem em ouvir; (b) um consenso intragrupo de que a confusão nas falas prejudica a todos, levando a um acordo tácito no sentido de que argumentar de forma ordeira beneficia a todos; e (c) o fato de o DV precisar organizar mentalmente o espaço ao seu redor, para poder movimentar-se, pode levar a uma disciplina intelectual que se estende às outras atividades, como a construção de argumentos lógicos.

Grupo 4: Deficientes auditivos ligados às atividades do Cepre

Local - Cepre, Unicamp - Campinas/SP (09/2008)

Grupo 5: Deficientes auditivos ligados às atividades do Cepre

Local - Cepre, Unicamp - Campinas/SP (12/2008)

A compreensão das dinâmicas levou o mesmo tempo que com os outros grupos, considerando que precisaram ser traduzidas. Talvez até menos, já que houve poucas resistências formais e debates paralelos. O grupo era o mais homogêneo em termos de educação formal, apresentando o maior nível de estudo entre todos os portadores de deficiência participantes. A intenção aqui foi não associar aspectos que pudessem dificultar a construção argumentativa de consensos com a questão da deficiência como, por exemplo, baixo nível de formação educacional, ausência de capital cultural familiar ou falta de hábito de discussão em grupo. É claríssimo para os observadores que o uso da Libras (Língua Brasileira de Sinais) permite o debate e a construção de consensos da mesma forma que nos outros grupos.

Chamou a atenção o fato de o encaminhamento seguir os mesmos passos das outras dinâmicas, ou seja, não só a linguagem atendeu às necessidades da construção do consenso, como também o grupo apresentou características de raciocínio individual e de interação muito parecidas. Na primeira dinâmica, as dificuldades foram as mesmas que encontraram todos os grupos que não compartilham uma atividade em comum. Na segunda, além da questão individual de liderança, apareceram as questões de gênero e faixa etária. Na terceira, o encaminhamento foi praticamente padrão, não só nas soluções apresentadas, mas também na ordem em que apareceram e no tempo gasto. A última dinâmica foi condicionada, no primeiro grupo, pelo fato de todos serem evangélicos, o que limitou as divergências. No segundo grupo, as dificuldades foram inerentes ao fato de serem católicos e estarem pouco acostumados à prática de testemunhos. Esse fato reforça a importância do mundo da vida compartilhado para o sucesso da comunicação.

A Libras parece funcionar basicamente numa estrutura tópico/comentário e utiliza uma gama enorme de recursos, desde o símbolo de cada letra até expressões faciais e mímicas. A dinâmica demonstrou claramente a possibilidade de interação com a Libras nas mesmas condições que os participantes de grupos oralizados. O fato de o grupo ter apresentado um desempenho tão parecido com os outros reforça a ideia de que a comunicação se baseia na existência de um mundo da vida compartilhado entre os membros.

 

Observações finais

As dinâmicas apontam alguns aspectos que confirmam a ideia central de Habermas sobre a importância do compartilhamento do mundo da vida como elemento que permite a comunicação entre os sujeitos sociais. A evolução das discussões foi muito parecida em todos os grupos, o que aponta para uma base cultural comum que permitiu o debate e delimitou as alternativas propostas. Nas atividades desenvolvidas com surdos, muitas vezes a comunicação através da Libras se inicia apontando um aspecto da realidade, a partir do qual o grupo consegue desenvolver, eventualmente, num processo de tentativa e erro, uma concepção complexa do real, recorrendo justamente às suas próprias vivências. Nesses casos, o observador tem a nítida impressão de que não é o código o elemento fundamental que permite a comunicação, mas o MV compartilhado pelo grupo.

Em termos gerais, as dinâmicas ilustram que:

a) Deficiências que interferem mais fortemente na comunicação, como DV e DA, não impedem a construção de consensos em padrões e limites de tempo muito próximos aos dos outros grupos, inclusive os não deficientes.

b) Existem elementos recorrentes que interferem na construção de consensos nos grupos, como capacidade de liderança, gênero, nível de instrução formal, capital cultural familiar e até mesmo beleza. A pesquisa passou a impressão de que o obstáculo à comunicação leva o grupo a centrar-se no sucesso do intercâmbio de informações.

c) Deve-se destacar a dinâmica com DV. Nesse caso, a ausência da visão leva a que o grupo articule as falas de forma muito organizada. Na verdade, a observação do grupo ilustra quase um tipo ideal habermasiano de busca comunicativo de consenso.

Os recursos de comunicação dos seres humanos são enormes. São tão ricos que possibilitam a construção argumentativa de consensos, mesmo diante de alguma condição de deficiência, chegando a conclusões parecidas, usando mais ou menos o mesmo tempo. A condição de deficiência incorpora mais um elemento no desenvolvimento da pessoa, que se soma e se articula com as demais características de personalidade. Nesse mesmo sentido, o ambiente que o rodeia pode tanto potencializar sua evolução, levando-o a atingir todas suas potencialidades, como limitar essa evolução por meio do reforço das dificuldades inerentes à sua condição. A observação que parece mais interessante nesta pesquisa é que as condições de deficiência aqui estudadas não podem ser consideradas como responsáveis pela falta de uma interação social plena da pessoa, embora possam, sem dúvida, tornar mais difícil o desenvolvimento pessoal, quando somadas a outras situações de carências materiais, culturais ou políticas.

 

Referências bibliográficas

BION, W. R. Experiências com grupos. Tradução de Walfredo Ismael de Oliveira. Rio de Janeiro: Imago, 1970.         [ Links ]

HABERMAS, J. Teoria de la accion comunicativa. Tradução de Manuel Jiménez Redondo. Madrid: Taurus, 1988.         [ Links ]

HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Tradução de Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.         [ Links ]

KHOLBERG, L. The psychology of moral development: essays on moral development. São Francisco: Harper and Row, 1984.         [ Links ]

 

 

Recebido em 09 de setembro de 2010 e aprovado em 31 de março de 2011.

 

 

1. Parecer do projeto número 330/2005 - CAAE: 0148.0.146.000-05.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License