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Pro-Posições

Print version ISSN 0103-7307

Pro-Posições vol.23 no.2 Campinas May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072012000200001 

EDITORIAL

 

 

Nas últimas semanas, os meios internacionais de comunicação divulgaram imagens de François Hollande, recém-eleito, assumindo seu cargo de presidente da França, em breve e austera cerimônia, como convém em tempos de recessão e de grave crise econômica como a que atravessa aquele país. Logo após, ele apressou-se em homenagear Jules Ferry – ministro da educação que tornou, por leis de 1881-1882, o ensino primário gratuito e obrigatório na França -, colocando uma coroa de flores em seu monumento no Jardin des Tuileries; emseguida, visitou o Instituto Pasteur, famoso por suas investigações científicas, onde cumprimentou os pesquisadores dessa renomada instituição, entre os quais se encontravam alguns laureados com o prêmio Nobel. Com esses gestos simbólicos, o presidente manifestou, de forma enfática, a prioridade que o seu governo pretende dar à educação e à pesquisa e demonstrou publicamente a considerável distância que o separa de seu predecessor.

Por que lembrar essas imagens referentes a um acontecimento de outro país?

Antes de tudo, porque há uma estreita relação e grandes afinidades, historicamente constituídas, entre o Brasil e esse país europeu, no que concerne às questões de ordem política, mas também ao ensino e à pesquisa. É bem conhecida a grande influência que as ideias e os estudos dos filósofos e dos cientistas da França tiveram e continuam a exercer sobre nós, em particular, no campo das ciências humanas e sociais; não por acaso, evoca-se, com frequência, a própria criação/ fundação da USP, na primeira metade do século XX, como um exemplo concreto da presença de um grupo de jovens professores franceses que, com suas ideias e seus ideais contribuíram para a formação de pesquisadores por estas plagas. Nas últimas décadas, tornou-se corriqueiro acolher, em nossas universidades, muitos visitantes da França, e para lá se tem dirigido um número crescente de estudantes e pesquisadores de todas as áreas e de diferentes regiões do País, em busca de aprimoramento e/ou de implementação de projetos de cooperação de interesse mútuo.

Entretanto, além de lembrar as relações constituídas, ao longo do tempo, entre os dois países, essas imagens nos permitem refletir sobre a importância dos gestos simbólicos – prerrogativa humana, por excelência -, principalmente quando realizados pela autoridade máxima de um país, como é a de um presidente da República. Se, em si mesmos, tais gestos não resolvem diretamente os graves problemas dos setores afetados, eles encerram amplos significados do que se considera digno de ser valorizado e colocado em pauta em um primeiríssimo plano; indicam, de certa forma, um direcionamento e uma real vontade política de interferir positivamente no curso de acontecimentos. Quisera houvesse, por parte dos políticos do mundo inteiro, gestos dessa natureza que marcassem o prenúncio de medidas fundamentais a serem implementadas no campo da pesquisa e da educação.

No âmbito de nossa Faculdade, também houve a posse do novo diretor da Faculdade de Educação – Professor Luiz Carlos de Freitas -, que ocupará esse cargo pelos próximos quatro anos. Em seu belo discurso, assinalou alguns dos grandes desafios da educação no mundo contemporâneo, especialmente, em nosso país. Lembrou que, inseridas em um novo cenário socioeconômico, as Universidades e, em particular, as Faculdades de Educação são obrigadas a repensar o papel relevante que devem desempenhar, inclusive no sentido de analisar criticamente os novos eventos no campo educacional.

Neste número, o dossiê trata das "Novas Relações Estado e Sociedade: tensões entre o público e o privado na Educação" e é coordenado pela Dra. Theresa Adrião, professora da Faculdade de Educação-Unicamp. Entre os seis artigos que o compõem, três são de autoria de pesquisadores que desenvolvem seus trabalhos no Brasil, dois são provenientes do Chile e um da Argentina. Esse amplo tema recebeu, no quadro deste dossiê, um tratamento multifacetado: diferentes questões foram abordadas sob enfoques teórico-metodológicos variados, espelhando, assim, uma diversidade ligada igualmente ao fato de que "as relações entre as esferas pública e privada no campo educacional, bem como as tensões delas derivadas, consubstanciam-se regional e historicamente de modo diverso", segundo Adrião. À leitura dos textos, nota-se, em última instância, o quanto as propostas e os modos de solucionar os problemas dessa área se relacionam, estreitamente, a uma (re)definição do papel do Estado, às diferentes políticas públicas adotadas pelos governos, assim como às possibilidades de implementação e de concretização de planos na esfera educacional.

Na seção Artigos, dois autores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apoiando-se em entrevistas de professores, diretoras e pais de alunos, realizadas na cidade do Rio de Janeiro, investigam os processos de escolha e de acesso escolar, em um contexto denominado pelos autores de "quase-mercado oculto"; um trabalho de pesquisadora da Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires analisa a expansão das universidades privadas naquele país, subdividindo-o em dois períodos: de 1989 a 1995 e de 1995 até os dias de hoje. Uma professora da Faculdade de Educação – Unicamp apresenta um texto no qual procura aproximar a Antropologia do percurso e itinerário de Mário de Andrade e suas relações com o universo infantil. Dois artigos abordam questões de gênero e sexualidade: um deles, de autoria de professora da Faculdade de Educação da USP, traz um levantamento da produção acadêmica sobre a introdução dessas questões nas políticas públicas brasileiras durante um período de quase vinte anos (1991 a 2009); e quatro pesquisadoras, também da UFRJ, tratam essa questão tal como se configura no quadro do trote universitário do curso de Farmácia de uma universidade pública, baseando-se em observações e em entrevistas com alunos.

A seção Diverso e Prosa apresenta duas pequenas notas de leitura de Edouard Claparède, pesquisador suíço que muito contribuiu para a elaboração de estudos empíricos na área de Psicologia, nas primeiras décadas do século XX. Esses breves textos, publicados originalmente em francês, em 1925, comentam os dois primeiros livros de Piaget (1923 e 1924) e algumas das ideias do jovem pesquisador, divulgadas rapidamente em outros países, uma vez que os livros logo foram traduzidos para outras línguas. Publicados em russo, em 1932, mereceram um prefácio de Vygotski, em texto bastante conhecido e integrado ao seu livro Pensamento e linguagem. Ao traduzir e publicar essas notas, homenageamos aquele que fundou, há exatos cem anos, em 1912, o Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, famoso pelo trabalho de formação de professores, em particular, daqueles que se dedicavam à educação de crianças pequenas.

Três resenhas completam este número da revista: uma delas apresenta a noção de "fórmula", tal como introduzida por Alice Krieg-Planque na análise do discurso; considerando-se o grande número de pesquisas, na área de educação, que se apoiam na vertente francesa da Análise do Discurso, as ideias dessa autora contribuem para um adensamento de questões relativas ao aparato teórico-metodológico de investigações realizadas nessa perspectiva. Outra é a respeito de uma publicação, com foco na Educação Infantil, organizada pelas Professoras Fernanda Müller e Ana Maria Almeida Carvalho, que traz três textos de William Corsaro, estadunidense bem conhecido por sua abordagem no campo da Sociologia da Infância, em diálogo com um pesquisador e 14 pesquisadoras brasileiras, oriundos das áreas de Sociologia e de Psicologia. Não deixa de ser interessante que o único homem a participar no livro seja Cesar Ades, especialista no campo da Etologia, que nos deixou há poucos meses. A terceira é sobre o livro Sociologia da Infância no Brasil, organizado pelas professoras Ana Lúcia Goulart de Faria e Daniela Finco, contando com cinco textos de pesquisadores brasileiros que trabalham nessa área. Em meio às particularidades de cada contribuição, a obra procura afastar-se de uma visão adultocêntrica de criança e infância, na tentativa de explicitar as especificidades e as diversidades das crianças brasileiras.

Temos ainda, neste número, o privilégio de contar com a última capa artisticamente elaborada pelo saudoso colega Milton José de Almeida para nossa revista. Entre as boas lembranças e o sentimento de falta que sua ausência desencadeia em todos os que participam da elaboração da Pro-Posições, seguiremos em frente, lembrando, com Cecília Meirelles, que "a vida é possível, sim, reinventada".

 

Luci Banks-Leite