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Pro-Posições

Print version ISSN 0103-7307

Pro-Posições vol.23 no.2 Campinas May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072012000200016 

LEITURAS E RESENHAS

 

A noção de fórmula em análise do discurso: quadro teórico e metodológico

 

 

Eduardo Caliendo Marchesan

Doutorando do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Unicamp, Campinas, SP, Brasil. ecmarchesan@gmail.com

 

 

[KRIEG-PLANQUE, Alice. São Paulo: Parábola, 2010. 144 p.]

O livro que aqui apresentamos, A noção de fórmula em análise do discurso, lançado em 2010, aponta um caminho bastante produtivo para pesquisadores de áreas diversas, incluindo as pesquisas em educação que se interessam pelo modo como a linguagem engendra perspectivas ideológicas, e revela posicionamentos políticos variados dentro de um mesmo campo. A autora é doutora em ciências da linguagem, professora de ciências da informação e comunicação na Université Paris Est Créteil e pesquisadora integrante do Centre d’étude des discours, images, textes, écrits et communications (Céditec). A divulgação de seus trabalhos no Brasil tem crescido e vem acontecendo primordialmente pela publicação de alguns artigos em periódicos especializados e de capítulos em livros, como As emoções no discurso (2007), organizado por Machado, Mendes e Menezes, e o recém-lançado Fórmulas discursivas (2011), organizado por Motta e Salgado.

As pesquisas de Krieg-Planque estão inseridas no que se convencionou chamar escola francesa de análise do discurso (AD), constituída no final dos anos 1960, principalmente a partir dos trabalhos de Michel Pêcheux. A formulação inicial desta disciplina, calcada na articulação entre o marxismo althusseriano, a psicanálise lacaniana e a linguística estrutural, sofreu modificações significativas, decorrentes de revisões feitas pelo próprio Pêcheux; de trabalhos como os de Courtine, Authier Revuz (a partir de leituras de Bakhtin) e Maingueneau; assim como da aproximação ocorrida com as teorias enunciativas.

O livro em questão deriva de uma publicação de 2003, intitulada "Purification éthnique": une formule et son histoire (2003), versão com cortes da tese de doutorado na qual Krieg-Planque desenvolveu uma análise discursiva acerca da guerra ocorrida na ex-Iugoslávia durante a década de 1990. Estudando a história de quatro palavras, "depuração", "limpeza", "purificação" e "étnica", nos momentos da história dos discursos em que elas entram em conjunção, formando os sintagmas "purificação étnica", "limpeza étnica" e "depuração étnica", Krieg-Planque teve por objetivo compreender o modo como a fórmula "purificação étnica" havia funcionado, para parte da mídia, como interpretante da guerra balcânica. Este trabalho provocou interesse em áreas diversas, não ficando restrito às ciências da linguagem.

Krieg-Planque retoma os estudos que se aproximam do constructo teórico de fórmula, buscando não apenas traçar a história de um conceito, mas, principalmente, marcar as diferenças e as aproximações em relação aos autores que a precederam, para, em seguida, realizar aquilo que é o grande mérito do trabalho: a delimitação da noção de "fórmula".

O primeiro capítulo mostra o tipo de investigação produzido pela pesquisadora, que se preocupa com a vida de uma palavra, ou de um sintagma, especialmente no período em que este sofre um adensamento, passando a condensar temas polêmicos e a ser objeto de disputas quanto ao seu sentido. Assim, o uso aparece como o critério sobre o qual está fundamentado este trabalho. É na história de seus empregos, marcada por turbulências, por proliferações, por rareamentos, inevitavelmente inscritos na história, que uma fórmula pode emergir enquanto tal.

No segundo capítulo, Krieg-Planque apresenta um estudo minucioso e crítico da análise que o filósofo Jean Pierre Faye faz da fórmula "Estado Total", no livro Introdução às linguagens totalitárias. A autora reconhece como principais contribuições dessa obra as atestações de uma gênese para as fórmulas1; de seu caráter cristalizado; do fato de que elas podem ser apreendidas por sua forma de circulação no discurso; e, principalmente, do modo como elas contribuem para um processo de aceitabilidade encaminhado por seus narradores, que as transmitem de formas diversas numa sociedade.

A partir de Faye, Ebel e Fiala (1983) realizam análises que interessam à autora, principalmente pelo fato de serem linguisticamente mais rigorosas. No terceiro capítulo, são apresentadas pesquisas conduzidas por eles a respeito dos termos "Überfremdung" (ou "influência e superpopulação estrangeiras") e "xenofobia". Nesses trabalhos, há uma delimitação mais precisa do que seriam fórmulas. Os autores reconhecem-nas como referentes sociais, mostrando, com isso, que, num determinado momento, todos os membros de uma dada sociedade sabem, ou pretendem saber, o que a unidade lexical em questão exprime. Isso não quer dizer que existe um significado único para a fórmula, mas que ela se torna passagem obrigatória para as pessoas, tendo uma massa discursiva considerável incidindo sobre si. Tal caráter se revela, principalmente, pelas paráfrases, o que atesta a produtividade lexicológica das fórmulas, e pela circulação dos termos.

Este é um ponto importante: a ênfase, aqui, é dada à circulação, e não à produção. Há a ideia de que o mesmo significante atravessa discursos diferentes, ganhando sentidos variados. "Xenofobia", por exemplo, pode ser tomado de modos diversos, dependendo do posicionamento que se adota em relação ao tema da imigração. Isso está em consonância com a perspectiva de que os discursos não são fechados sobre si mesmos, mas permeáveis, atravessados por outros discursos, proposição esta que vai ao encontro das propostas de Courtine (2009) e Authier-Revuz (1998).

Assim, o sentido possui um caráter contextual, a despeito do fato de que é o mesmo significante que está em circulação. Isso faz com que a fórmula seja constitutivamente polêmica. Para revelar esse aspecto polêmico, Ebel e Fiala lançam mão de um modo de análise fundado na tradição lógico-filosófica. Para Krieg-Planque, tal abordagem, ainda que válida, mostra-se demasiadamente rudimentar, pois não dá conta de um aspecto que é fundamental para seu trabalho: a complexa relação entre os enunciadores e aquilo que é dito, possível de ser desvendada pelo modo como os locutores se posicionam em relação às palavras postas em relevo no debate público. Desse modo, Krieg-Planque se afasta deliberadamente do terreno da lógica, para se aproximar da enunciação, recorrendo, em sua análise, a um estudo do metadiscurso que recai sobre a fórmula, conforme será mostrado mais adiante.

A partir da retomada desses autores, o quarto capítulo é dedicado ao estabelecimento das propriedades fundamentais de uma fórmula. São elas: sua cristalização; sua inscrição discursiva; o fato de que funciona como um referente social; e seu aspecto polêmico.

Afirmar que a fórmula possui um caráter cristalizado significa dizer que ela circula sob a forma de um significante relativamente estável. A importância deste aspecto neste tipo de estudo não é secundária, na medida em que é preciso levar em conta o significante tal como ele aparece, considerando seu aspecto formal. Cada lexema deve ser levado a sério, o que implica uma escolha no que concerne à análise lexical.

No entanto, a noção de fórmula não é puramente linguística. Não é a mera aparição de uma determinada sequência ou a ocorrência neológica de um termo que garante a ele tal estatuto. É, como já foi dito, na história dos usos, na diversidade dos empregos, quando se comenta a sequência, quando há um posicionamento em relação ao termo empregado, que é possível seu aparecimento como fórmula. Assim, é bastante comum, se não regra geral, a preexistência da sequência em relação ao seu estatuto formulaico.

É um caráter discursivo, que pressupõe a forma, mas não se restringe a ela, que marca a fórmula. Como consequência dessa afirmação, faz-se necessário levar em consideração aspectos metodológicos típicos da AD para realizar uma pesquisa desse tipo. Uma análise de fórmulas só pode, então, ocorrer, caso esteja apoiada em um corpus saturado de enunciados atestados, o que retoma a ideia já mencionada de que a afirmação de uma unidade lexical ou um sintagma como fórmula depende de uma análise metódica e rigorosa.

Se tal inscrição discursiva é o que resulta dos usos efetivos que se fazem de determinadas sequências, tais usos devem reunir, necessariamente, outras duas características, tomadas de um modo interligado: seu caráter de referente social e seu caráter polêmico.

O aumento na frequência de uma sequência pode ser um bom indício, mas não é suficiente para garantir seu estatuto de fórmula, o mesmo ocorrendo com sua produtividade lexicológica. Tais indícios evidenciam uma maior circulação da sequência, mostram a notoriedade que ela passa a ter. No entanto, é na articulação entre esse lugar de destaque no espaço público e seu caráter polêmico que reside a questão.

A polêmica depende de um espaço comum, de um terreno partilhado. Maingueneau (1984) já havia apontado para isso, mostrando como é improvável que se estabeleçam disputas entre campos plenamente distintos. Desse modo, é exatamente pelo fato de se tornar um lugar necessário de passagem que a fórmula pode ser polêmica. É a retomada da clássica metáfora bakhtiniana do signo como arena de lutas.

A fórmula põe em cena questões graves para uma sociedade, ela evidencia debates inscritos na História. Sendo assim, ela pressupõe posicionamentos e divergências, disputas em torno do seu sentido. As questões mobilizadas pelas fórmulas são variadas, assim como são variados os modos de os locutores se posicionarem em relação ao debate. Como mencionado anteriormente, as operações discursivas e metadiscursivas são reveladoras desses posicionamentos. É assim, por exemplo, que temos indícios de que "educação cidadã" emerge como uma fórmula na mídia impressa brasileira, em afirmações como "A problemática da integração por meio de uma ‘educação cidadã’, ou seja, por um saber sobre as instituições e os poderes estabelecidos, é um engodo, só podendo produzir mais frustração."2 (grifo nosso).

Depois de definir as propriedades essenciais de uma fórmula, a autora retoma, no último capítulo, os tópicos anteriores, prescrevendo precauções para o uso dessa noção. Vale chamar a atenção para o breve debate que ela realiza sobre a articulação entre espaço público e fórmulas, falando do papel das mídias na produção e na circulação desses elementos. Krieg-Planque afirma a grande mídia como o lugar forte de debate e circulação dos temas relevantes para uma dada sociedade. Ainda assim, ela menciona a importância crescente da internet, com suas redes sociais e fóruns de discussão.

O livro de Krieg-Planque, com a delimitação rigorosa que propõe, acaba por se configurar como uma importante referência teórico-metodológica. A noção de fórmula parece ter um poder interessante, especialmente no que se refere à elaboração de corpora no trabalho com unidades que Maingueneau (2008) caracteriza como não-tópicas, construídas pelo pesquisador independentemente de fronteiras preestabelecidas. Isso é especialmente válido no caso dos percursos, que exigem um trabalho de rastreamento de formas relativamente estáveis (fórmulas) que circulam no interdiscurso, condensando sentidos variados.

No caso da pesquisa educacional, esse tipo de trabalho pode ser profícuo. As disputas políticas e os posicionamentos ideológicos marcam o campo de forma evidente, e tais discussões ocupam tanto os acadêmicos quanto a grande mídia. Determinados termos, tornado opacos pela história dos seus usos, surgem, ao mesmo tempo, em lados opostos dos debates, revelando polêmicas e sendo marcados por sentidos variados.

Hipóteses de fórmula tais como "educação de qualidade", "escola inclusiva", "formação cidadã" e "educação para o trabalho" são largamente reproduzidas em enunciados que parecem atestar um sentido único, pacífico, para tais expressões. No entanto, tais sentidos são múltiplos e conflituosos. O que é uma "escola de qualidade"? Quais são as qualidades que uma escola deve ter? As respostas para tais perguntas se multiplicam de modo não explícito em textos diversos, e uma pesquisa que se proponha a estudar o funcionamento desses discursos a partir da noção de fórmula pode dar visibilidade a relações insuspeitas no interior do interdiscurso.

Sintagmas como os que foram mencionados podem, portanto, ser pontos de partida para investigações sobre questões fundamentais no debate contemporâneo, produzindo uma espécie de dicionário dos termos que atravessam o debate pedagógico. Análises desse tipo possuem um potencial heurístico bastante grande e encontram no livro de Krieg-Planque um bom referencial metodológico.

 

Referências bibliográficas

AUTHIER-REVUZ, J. Palavras incertas: as não-coincidências do dizer. Campinas: Editora da Unicamp, 1998. 200 p.         [ Links ]

CARMO, F. C. Folha de S. Paulo, São Paulo, 15 ago. 2009. Painel do leitor, p. A3.         [ Links ]

COURTINE, J-J. Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos: Edufscar, 2009. 250 p.         [ Links ]

FIALA, M.; EBEL, P. Langages xénophobes et consensus national en Suisse/ 1960 – 1980: discours institutionnels et langage quotidian; la médiatisation des conflits. Nêuchatel: Unversité de Nêuchatel, 1983. 432 p.         [ Links ]

KRIEG-PLANQUE, A. Purification ethnique: une formule et son histoire. Paris: CNRS, 2003. 520 p.         [ Links ]

MACHADO, I. L.; MENDES, E.; MENEZES, W. A. (Org.). As emoções no discurso Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. 336 p. v.1.         [ Links ]

MAINGUENEAU, D. Gênese dos discursos. São Paulo: Parábola, 1984. 184 p.         [ Links ]

MAINGUENEAU, D. Cenas da enunciação. São Paulo: Parábola, 2008. 184 p.         [ Links ]

MOTTA, A. R.; SALGADO, L. (Org.). Fórmulas discursivas. São Paulo: Contexto, 2011. 176 p.         [ Links ]

 

 

1 Vale lembrar que Maingueneau, ao escrever seu livro Gênese dos discursos, em 1984, apontava o modo como o estruturalismo, preocupado com "cortes" e "rupturas", deixou de lado a noção de gênese.
2 Exemplo retirado do "Painel do Leitor", do jornal Folha de S. Paulo do dia 15/08/2009.