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Pro-Posições

On-line version ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.23 no.3 Campinas Sept./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072012000300010 

ARTIGOS

 

Mapas, dança, desenhos: a cartografia como método de pesquisa em educação

 

Maps, dance, drawings: cartography as a research method in education

 

 

Thiago Ranniery Moreira de OliveiraI; Marlucy Alves ParaísoII

IMestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículos e Culturas da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil. tranniery@yahoo.com.br
IIProfessora Associada e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículos e Culturas (GECC) da Faculdade de Educação da UFMG. Atualmente é também Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG, Brasil. Pesquisadora do CNPq. mparaiso@fae.ufmg.br

 

 


RESUMO

Escutar o universo filosófico de Gilles Deleuze e sua parceria com Félix Guattari e registrar possibilidades da cartografia como método de pesquisa em educação são os objetivos centrais deste artigo. É no trabalho sobre as linhas, no qual estão em jogo as metamorfoses da vida, que a cartografia se faz. A cartografia assume-se implicada na criação e na invenção, ao pensar uma pesquisa das multiplicidades que faz gerar multiplicidades. Traçar linhas, mapear territórios, acompanhar movimentos de desterritorialização, promover rotas de escape são alguns dos procedimentos que este estudo pretende registrar como possibilidades de pesquisar em educação. Discutindo a produtividade dessa coreografia do desassossego, esboçamos quatro movimentos que denominamos: olhares-ciganos, noite de núpcias, pintar um quadro, linhas bailarinas.

Palavras-chave: cartografia; linhas; movimento.


ABSTRACT

Listening to Gilles Deleuze's philosophical universe and his partnership with Félix Guattari and recording cartography possibilities as a research method in education are the main aims of this article. It is in the work on the lines, where the metamorphosis of life is at stake, that cartography is done. Cartography is related to creation and invention when thinking of a research on the multiplicities that generate multiplicities. Drawing lines, mapping territories, monitoring movements of desterritorialization, and promoting escape routes are some of the procedures that this study intends to register as research opportunities in education. By discussing the productivity of the choreography of the unrest, we have outlined four movements which we called: gypsy looks, wedding night, paint a picture, lines dancers.

Key words: cartography; lines; movement.


 

 

A vida de uma pesquisa é algo intrigante. Sujeita à sorte, ao tempo, aos lugares, à hora, ao perigo. O improviso vem sempre turbilhoná-la. Pesquisar talvez seja mesmo ir por dentro da chuva, pelo meio de um oceano, sem guarda-chuva, sem barco. Logo, percebemos que não há como indicar caminhos muito seguros ou estáveis. Pesquisar é experimentar, arriscar-se, deixar-se perder. No meio do caminho, irrompem muitos universos díspares provocadores de perplexidade, surpresas, temores, mas também de certa sensação de alívio e de liberdade do tédio. Nosso trabalho de pesquisa em educação lembra, às vezes, a Nau dos Insensatos1 que Michael Foucault (2008) descreve, mas que, em vez de vagar à deriva das águas, como na Renascença, aporta em solo acadêmico com todas as promessas e os riscos que isso implica. Uma nau atracada, um pouco como as barcas-casa nos canais de Amsterdã, um tanto flutuantes, mas já sedentárias, numa indecisão entre o fluxo do rio e a fixidez da cidade. A vontade de aportar com segurança faz corrermos o risco de restrição do potencial da viagem.

Parece-nos ser preciso irrigar a pesquisa em educação com virtualidades desconhecidas, para que o já conhecido não vire uma camisa de força, para criar muitos modos de pesquisar em educação, os mais diversos, variados, desconectados e até disparatados. Simplesmente, para que a pesquisa em educação possa bailar. Neste artigo, exploramos a Filosofia da Diferença de Gilles Deleuze e seu encontro especial com Félix Guattari, para trazer a cartografia como método de pesquisa em educação e poder, quem sabe, começar a estender a linha da feitura da multiplicidade. Pensar que, contida em um método de pesquisa, há uma variedade de sujeitos e processos do mundo da Educação que não cessam de escapar, de mudar de natureza; que vivem uma organização própria, sem necessidade alguma de um sistema que lhes dê uma unidade. Fazer escutar, então, os passos da cartografia, mediante um trabalho que a conecta e a faz encontrar com a pesquisa em educação.

 

A cartografia e sua sombra

Em relação a um filósofo cujo empreendimento provocou tantos ecos e aparentemente tão longe do ponto em que ele mesmo se colocava [...] toda comemoração é também traição, seja porque lhe prestamos a homenagem supérflua de nossos pensamentos, como para provê-los de uma garantia a que não tem direito, seja porque ao contrário, com um respeito que não se faz sem distância, o reduzimos por demais estritamente ao que ele mesmo quis e disse. (Merleau-Ponty, 1991, p. 91).

Essas palavras de "O filósofo e sua sombra", escritas por Merleau-Ponty (1991) a propósito de Husserl, podem muito bem aplicar-se à tarefa deste artigo. Lidar com Gilles Deleuze na pesquisa em educação a partir de nossos pensamentos ou reduzi-lo aos seus próprios? Essas seriam talvez duas formas possíveis de festejá-lo na pesquisa em educação. Apoiar-nos em Deleuze para defender as próprias ideias ou procurar fazer a exegese das dele? Essas seriam talvez duas formas de traí-lo. Mas, no limite, essas questões pressupõem outra, anterior e mais abrangente: em que consiste um método de pesquisa em educação? E, por conseguinte, como lidar com Deleuze enquanto parte tributária de um método de pesquisa em educação, ainda que seu pensamento constitua uma parte bem à parte?

Uma pista para perseguir essa questão talvez se encontre no próprio trabalho de Deleuze. No ensaio "Manifesto de menos", sobre o dramaturgo, encenador e cineasta italiano Carmelo Bene, Deleuze comenta que um autor pode ser objeto de dois tipos de tratamento. De um lado, em uma operação, "de um pensamento se faz uma doutrina, de uma maneira de viver se faz uma cultura, de um acontecimento se faz História. Pretende-se assim reconhecer e admirar, mas de fato normaliza-se" (Deleuze, 2010a, p. 37). Mas podemos conceber, ao contrário, uma outra operação: "para extrair devires contra a História, vidas contra a cultura, pensamentos contra a doutrina, graças ou desgraças contra o dogma" (Deleuze, 2010a, p. 37). Parece-nos que aquele que não explicitamente se debruçou sobre os problemas educacionais, sobre nossos métodos e metodologias de pesquisa, tem algo a nos dizer, mais do que podemos imaginar.

Nosso objetivo não será, portanto, situar daqui para frente um método "deleuziano" em um quadro geral do pensamento de pesquisa em educação. A razão disso é simples: não só a tarefa pode soar na contramão das ideias de Deleuze e Guattari, como não nos interessa retratar o pensamento, nem de um nem de outro, sob qualquer ângulo sintetizador para aproximá-lo do campo educacional. "Aproximar" da pesquisa educacional, aliás, pode ser um termo bastante impróprio. Compreender um pensador não é chegar a coincidir com o seu centro. É, ao contrário, deportá-lo, conduzi-lo a uma trajetória em que articulações se afrouxam e permitem um jogo. Seria possível desfigurar esse pensamento para refigurá-lo de outro modo, sair da restrição de suas palavras para enunciá-lo na língua da pesquisa educacional?

A cartografia é um meio possível de desatar esse novelo para deslocá-la na trajetória de uma questão que nos parece cara ao território educacional. Não que possa ser tomada como um articulador do vocabulário conceitual de Deleuze e Guattari; lançaremos mão, daqui para frente, apenas de alguns dos seus modos de conceituação que nos parecem solidários e potentes para dispor a cartografia na pesquisa em educação. Arriscamos um caminho de encontro: a conceituação de cartografia, implicada na filosofia da diferença de Deleuze e na sua parceria com Guattari, faz eco ao que há de ser pensado sob uma pesquisa em educação: a vida que pulsa e não para de movimentar-se nos territórios educacionais.

O que podemos, então, fazer da cartografia, quando estamos falando de métodos de pesquisa em educação? Contudo, não é de esperar que situemos o "discurso deleuzeano" no âmbito das metodologias de pesquisa em educação, concebendo o método de pesquisa como um caminho predeterminado, com seus objetivos, finalidades, objetos e até escolas de pensamento. Uma imagem comum de pensamento do método de pesquisa toma-o como uma figura de linha reta, um caminho que sabe previamente aonde vai e traça, entre ele e seu objeto, a linha mais curta, mesmo que tenha que passar por cima de montanhas e rios. Para nós, a palavra "método" não designa exatamente essa disciplina. Um método não é um caminho para saber sobre as coisas do mundo, mas um modo de pensamento que se desdobra acerca delas e que as toma como testemunhos de uma questão: a potência do pensamento. A cartografia é uma figura sinuosa, que se adapta aos acidentes do terreno, uma figura do desvio, do rodeio, da divagação, da extravagância, da exploração. Desdobramos, então, nas duas primeiras seções, como a cartografia desterritorializa, faz estranhar e potencializa os sistemas de pensamento da pesquisa em educação. Por fim, exploramos que, se a cartografia converte o método em problema, torna-se metodologicamente inventiva.

Uma das coisas mais fascinantes e mais difíceis de fazer na pesquisa em educação talvez seja, mesmo, multiplicar as formas de conexão, de linguagens, de abordagens. Subtrair, de um conjunto dado, a unidade que o totaliza, aquilo que vem territorializando as forças que movimentam seu campo de investigação e a própria pesquisa em educação. Pôr em xeque o fora e o dentro de um território, desmarcar as relações de propriedade e apropriação de um objeto de estudo com o qual podemos fazer este ou aquele tipo de pesquisa. E se for mesmo uma pesquisa de tipo nenhum? E se for uma pesquisa sem imagem do que é pesquisar? Gilles Deleuze (2006a) propôs, certa vez, substituir uma imagem do pensamento por um pensamento sem imagem. Imagem do pensamento significa uma forma à qual o pensamento está territorializado, impedido de dançar. Forjar, por sua vez, um pensamento sem imagem, isto é, sem uma imagem prévia do que seja pensar, implica abrir mão de um modelo seguro. Será possível nos fazeres da pesquisa em educação?

As impressões do cansaço e do peso do modelo positivista de ciência e da razão sistemática moderna bem podem funcionar como justificativas possíveis. Mas, em larga medida, não são as únicas. A questão a saber é, para seguirmos uma sugestão de Michael Foucault, se, em uma pesquisa, podemos "pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê [...] explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através de um exercício de um saber que lhe é estranho" (Foucault, 1994, p. 15). Sobre a pesquisa em educação, porém, é difícil saber se ela precisa de uma revolução dessas, se ela a deseja, se é capaz de provocá-la e, sobretudo, se ela a suporta. Como fazer uma pesquisa em educação sem um modelo de pesquisa, quando muitos de nós buscamos o melhor método ou o mais seguro? Mais do que abrir mão do método, a cartografia começa por repensar o estatuto da pesquisa em educação, injetando, na própria ideia de método, a precariedade que lhe é intrínseca, a fim de que ela possa liberar tudo aquilo que não cessa de escapar. Expressão de uma pesquisa errante que navega na embriaguez do movimento pela sua própria mudança. Partir. Sair. Deixar-se um dia perder a cabeça. Ir quebrar em algum lugar. A cartografia não dispensa a viagem.

 

Cartografia: a criação e a vida da pesquisa

Esquizoanálise; Filosofia das Multiplicidades; Filosofia Rizomática; Filosofia Pragmática Universal: muitos podem ser os nomes da cartografia. Inventada por Gilles Deleuze em sua parceria com Félix Guattari (1977, 1996, 1997a), quando transportada para a pesquisa em educação, parece soar como "uma espécie de tecnologia de reconsideração das significações dominantes" (Guattari, 1988, p. 175) dos nossos fazeres lineares e unívocos da pesquisa científica. Bem menos que uma nova "metodologia" a compor nossas listas de procedimentos metodológicos, a cartografia está mais próxima de deslocar o estatuto de pensamento de uma pesquisa qualquer. Quem nunca sentiu que a corrida de uma pesquisa começa a seguir curvas de nível, segundo um perfil cada vez mais estranho, dependente, ao mesmo tempo, das pernas de quem a leva e do terreno que elas atravessam? Logo, percebemos que nunca ninguém contou do sofrimento, da coragem, dos tormentos, das rachaduras abertas que marcam o que chamamos de territórios de pesquisa.

Uma cartografia desliza as noções essenciais de objetos de pesquisa que estão em algum lugar desde já e para sempre. Eles, sejam quais forem, de onde forem ou vierem, de um mar ou de um deserto, de uma festa ou de um pântano, correm, são fluidos, quase gasosos: escapam. O objeto cartográfico é a dissolução da forma e a instauração da velocidade. Primeiro, porque um objeto a ser cartografado não é, assim, algo fixo (um objeto de dado empírico, organizado e fechado segundo as exigências da representação): ele é como alguma coisa que se estende sobre uma superfície, geográfico, geológico e que pode tomar emprestado um grande número de modos de existir. O que temos são processos de (des)territorialização, que se fazem nas conexões entre fluxos heterogêneos, dos quais qualquer objeto e seus contornos são apenas uma resultante parcial que transborda por todos os lados. Pura lógica da multiplicidade na qual fragmentos e fluxos se articulam, sem horizonte de totalização (Deleuze, 2006a). Segundo, o que importa a uma cartografia é o que um objeto de pesquisa pode ter de atributos, de componentes, "o que pode um corpo?" (Deleuze, 2002, p. 87). A cartografia tem uma linguagem especial, como os carpinteiros, só quer saber quais ferramentas usar, como elas funcionam, o que podem criar, nunca por que construir. Toma emprestado dos objetos apenas suas forças, não as formas, mas o material para fazer formas; não sua história e cenários, mas os elementos de sua matéria.

Em uma cartografia, um objeto de pesquisa é tomado apenas como testemunho de uma vontade de viver, de durar, de crescer e intensificar a vida. Em quais criações a vida pode entrar, que outros modos de existência em educação podem ser criados? A criação torna-se, mesmo, a gênese do método cartográfico. Método que varia "com cada autor" e "faz parte da obra" (Deleuze; Guattari, 1997b), criador de fluxos de experiências notáveis, de sensibilidades e ações sobre as disposições sensório-motoras e capacidades intelectuais. Linguagem, raciocínio, coordenação, explicação, medição, compreensão, notação, operações, relações simbólicas, geometrias das imagens, acordos e contrastes, sequências infinitas, equivalências, repetições, variações estão em jogo na criação de uma cartografia (Deleuze, 1988, 1999, 2006a; Deleuze; Guattari, 1997b). Embora, comumente, possamos ligar a criação da pesquisa em educação à resolução de problemas já dados, encerrando a invenção nos quadros da previsibilidade e da necessidade, indissociável de uma perspectiva instrumental, estando a serviço de oferecer ou encontrar soluções para as perguntas de pesquisa. O problema de uma cartografia não é um tesouro a ser descoberto em uma ilha perdida, é seu objeto de criação.

A criação está como que entranhada em qualquer pesquisa – "pesquisar é criar, e criar é problematizar" (Corazza, 2004, p.27), expressão do problema de uma pesquisa em toda sua potência e expansão. A criação, em seu sentido mais importante e livre, é a criação de problemas (Deleuze, 1999). O esforço da cartografia consiste frequentemente em suscitar problemas; em criar os termos nos quais elem se colocam; dar ao ser o que não era, podendo nunca ter vindo; em mexer, revolver, tirar o pensamento do lugar. Uma cartografia faz advir o desassossego, agitadora de interações violentas com o pensamento e formadora de novos mundos. Curiosa a situação de uma cartografia. Sobretudo, ambígua, ambivalente, dúbia. Ao mesmo tempo que se vê sob o signo da construção e da expansão da vida, também inclui o destruir, o aniquilar e o demolir, raspar e demover aquilo que pesa sobre a vida. Cartografar "implica alguma coisa que violenta o pensamento, que o tira de seu natu­ral estupor, de suas possibilidades apenas abstratas" (Deleuze, 1998, p. 56), que o mobiliza, que o potencializa em um plano de práticas.

Vida dupla a de uma pesquisa cartográfica. Cartografar em educação exige um dilaceramento que arranca uma parte do corpo de uma pesquisa, a parte que permanece aderente à margem do nascimento, à vizinhança do parentesco, à casa, à aldeia dos usos, à cultura da língua e à rigidez dos hábitos. Tomar um corpo, uma língua, uma alma a contrapelo. No mesmo movimento, esse caminho transversal inventa sua própria condução para um lugar inimaginável, "por meio de uma imóvel viagem que nos leva da identidade à multiplicidade" (Doel, 2001, p. 92). A cartografia faz recortes em determinado espaço ou em determinado tempo, povoa de muitos modos com sujeitos e objetos e a eles confere um ritmo. As coisas ganham tons, intensidades, luzes, cores, temperatura, volume. A cartografia torna-se a própria expressão do percurso: mapas, danças, desenhos. Percurso que nunca é dado, seja por sucessões estáticas, por fases pré-fixadas ou por palavras de ordem. Um exercício de dispor o trabalho de pesquisa como uma operação de invenção da vida, de virtualização da existência, de potenciação do estar no mundo da educação, transfiguração das coisas, das palavras, dos territórios educacionais. Invenção – do latim invenire – compor com restos arqueológicos (Prigogine, 1993). Despojada de qualquer imaginário instituído e cooptado pela norma, a cartografia é um incêndio; destrói e (re)constrói.

 

Um rascunho de mapa na mão: a dança das linhas

Um segundo rio corre neste que todo mundo vê. Atrás ou à frente, as margens desaparecem. Lá ou aqui, forças de velocidade infinita inundam a vida. Seus movimentos deixam rastros, marcas, traços, linhas. Qualquer um de nós pode ser testemunha de que as linhas – "elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos" (Deleuze, 1992, p. 47) — não são retas nem nas coisas, quem dirá na vida. Uma cartografia em educação segue e traça linhas que compõem seus mais diversos espaços, objetos, corpos; anima-se e constitui-se no traçado de linhas. Como sugere o próprio Deleuze (2006b, p. 48), "numa cartografia, pode-se apenas marcar caminhos e movimentos, com coeficientes de sorte e de perigo. [...] análise das linhas, dos espaços, dos devires". Fazer a cartografia é, pois, a arte de construir um mapa sempre inacabado, aberto, composto de diferentes linhas, "conectável, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente" (Deleuze; Guattari, 1996, p. 21). A vida da cartografia vem do seu trabalho sobre as linhas.

Ao sistema de pontos, entre os quais podemos traçar uma linha reta e curta, a cartografia deixa ver um mundo inundado de movimentos e forças, de traçados e linhas, suas virtudes elementares e seu jogo dinâmico de ressonâncias. As linhas, com efeito, de uma cartografia são muitas, infindáveis, multiplicam-se a cada novo olhar, sempre fogem antes de serem pegas. Linhas que não são do mesmo tipo. Em sua tipologia, Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997a) chegam a falar de três tipos: as linhas de segmentaridade dura ou de corte molar; as linhas de segmentação maleável ou de fissura molecular; e as linhas de fuga. As duas primeiras são as linhas de territorialização, estratificação, significação, as que tentam definir, dar uma rota segura, uma essência estática a um território. Já as últimas, as linhas de fuga ou de ruptura são linhas de desterritorialização pelas quais um pensamento foge sem parar, uma linha pela qual se foge e se "faz fugir todo um sistema como se arrebenta tubos. Fugir é traçar uma linha, linhas, toda uma cartografia" (Deleuze; Parnet, 1998, p.47). Essas linhas não são, pois, fáceis de desenredar, cada uma trabalha nas outras, interagem entre si. Trigêmeas siamesas, "as três linhas não param de se misturar. [...] Elas se transformam e pode mesmo penetrar uma na outra" (Deleuze; Guattari, 1997a, p. 77). Uma arquitetura inacessível de linhas submetida unicamente ao seu jogo, feita de dimensões, de direções múltiplas, de transformações tipológicas.

Tudo bem que seja o primado das linhas de fuga que a cartografia convoca, quando elas parecem tão sufocadas diante da dominância, da regularidade e do controle que impregnam os territórios educacionais. Cartografar é também uma operação de traçar linhas de fuga nos territórios, às vezes tão cinzentos, da educação; bailar por entre territórios; abrir-se; engajar-se; indicar vazamentos diante das forças que tentam direcionar os acontecimentos; enfim, fabular, criar, pintar outros mundos para a educação. Durante muito tempo, nós bem sabemos, a pesquisa em educação centrou-se na ideia de que seus procedimentos são caracterizados por uma dependência completa da existência prévia de uma realidade tomada como referente, na qual o pesquisador não faz nada, além de registrar de forma passiva e transparente seu funcionamento. A pesquisa tornar-se-ia resultado de um elo perfeito ou, pelo menos, próximo disso, entre a pesquisa e as próprias coisas do mundo, como realidade efetivamente capturada, para qual a fuga poderia passar por simples deserção. Uma cartografia corre o risco de ter a atividade criadora das linhas de fuga, "como uma espécie de mutação, de criação, traçando-se não na imaginação, mas no próprio tecido da realidade social" (Deleuze; Guatari, 1997c, p. 111). A cartografia é, ao mesmo tempo, ciência e arte, registro e enunciado, referência e composição, descrição e criação, aqui e lá, atual e virtual, documento e expressão, função e sensação.

No traçado de um mapa, como em toda geografia, uma cartografia precisa dar conta da constituição de paisagem; dar, pois, conta da longitude e da latitude (Deleuze; Guattari, 1997c). Do lado da longitude, um território já é um composto de partes, de espaços desconexos, que cabe à cartografia desenhar – do que é composto um território de investigação? Que linhas compõem um currículo, uma prática docente, uma metodologia de ensino, uma sala de aula, uma escola? Do lado da latitude, um território é somente medido em termos de potência e graus de afecção (Deleuze; Guattari, 1997c). Do que é capaz um território de investigação? O que pode um currículo, uma aula, uma escola, uma prática escolar? Que potência pode ser aí gerada? Seu pensamento pode levar uma vida? Pode uma pesquisa em educação transbordar? Crescer e inundar a vida de sentidos outros? Fazer com que as coisas percam sua fisionomia e adquiram a consistência de uma vida ou de uma obra? Ou, mesmo, de quem simplesmente solta os pés da terra e dança? A potência da cartografia não é apenas fazer da pesquisa partitura das linhas, dança e coreografia dos movimentos. Ela é coreógrafa do movimento das linhas e dos traços, como uma pesquisa-bailarina, que transforma a estética do movimento da vida em educação em pura intensidade.

 

Uma coreografia do desassossego

Mas que passos seguir? Há passos a seguir? Como proceder? Que movimentos traçar? Não há, em nenhum dos escritos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, uma lista de "procedimentos metodológicos". Se há uma coisa que eles se negam a dar são receitas-de-como-fazer, seja lá o que for. A cartografia sofre de "um desamparo radical dos princípios imutáveis, [...], de referenciais de como se orientar na pesquisa, de critérios a priori, [...] de diretrizes que forneçam a sua ação algum norte garantido" (Corazza, 2004, p. 69). Uma cartografia não adota a lógica do princípio e do fim; nem começa pelos princípios, pelos fundamentos, pelas hipóteses; nem termina com as conclusões, ou com o final, ou com a tese; ou tem a pretensão de ter esgotado o objeto ou tema de pesquisa. Uma cartografia se situa de entrada, no meio, no complexo, no jogo das linhas. Não segue nenhum tipo de protocolo normalizado, porque realizá-la depende muito mais da postura com a qual o cartógrafo permite experimentar seu próprio pensamento.

Seria possível fabular movimentos para uma cartografia? Ou seria descabido demais? E se fabulássemos, inventássemos movimentos para uma cartografia em educação, não como etapas, mas, simplesmente, como bem designa o nome, como movimentos, como passos e ritmos de uma dança que vêm se somar e se multiplicar, se dizer e desdizer, se fazer e se cozer, coexistir a partir de diversas estratégias. Convém admitir que, não obstante o pensamento quase indomável de Gilles Deleuze, continua o murmúrio constante e intenso de encontrar novas relações que nos expressem e expressem a vida da pesquisa em educação. Ao reconhecer que a cartografia se trata, pois, de uma inevitável coreografia do desassossego, propomos traçar quatro movimentos que nomeamos de: olhares-ciganos, noite de núpcias, pintar um quadro, linhas bailarinas. Espécie de esboço coreográfico, no qual congregamos um desejo de reunir cada traço, cada cor, cada som ou texto que nos transpassa no fazer analítico da cartografia, em uma geografia intensiva da pesquisa em educação. A cartografia tende a embaralhar a fronteira entre a pesquisa em educação e a dança, como se tivessem uma só carne — uma pesquisa compreendida em termos de coreografia e afecções, de ações e paixões.

Movimento I – Olhares-Ciganos. O olhar tem sido, mesmo, um sentido privilegiado na pesquisa em educação. Mas alguém já prestou atenção nos olhares de um cartógrafo? Peguemos, a título de empréstimo, a descrição de Machado de Assis sobre o olhar de Capitu. Do olhar de Capitu, o escritor disse: "são assim de cigana oblíqua e dissimulada" (Assis, 2002, p. 71). "Oblíquo" talvez seja, mesmo, um adjetivo interessante ao olhar cartográfico. Oblíquo: "Adj. 1. Não perpendicular; inclinado; de través 2. Torto; vesgo 3. Fig. Indireto. 4. Malicioso; dissimulado, ardiloso; sinuoso..." (Ferreira, 1986, p. 1.209). Oblíquo: não se define, nem define a priori sobre o que se debruçará, sempre atravessando sinuosamente pelo meio. Do mesmo modo, talvez seja potente também dispor do olhar de um cartógrafo, como os olhos de uma cigana, que

é ao mesmo tempo inquieto, penetrante quando se fixa, móvel, constantemente espiando [...]. Reflete, ao mesmo tempo, a doçura e a selvageria, uma imensa bondade e uma crueldade sem limites. Um olhar sempre fugidio, mas apesar disso se fixa aqui e acolá, num certo instante. Um olhar triste e altivo, amoroso e duro. Um olhar cheio de paixão, mas duma paixão contida, retida entre as pálpebras que deixam passar um estilhaço metálico, magnético, saltando de olhos paradoxalmente enevoados, velados, coalhados como mortos (Nunes, 1981, p.40-41).

A figura da cigana oblíqua e dissimulada dá corpo ao olhar cartográfico. Uma presença marginal, condenada a vagar entre as paisagens empreendidas pelos territórios, selvagem, indolente, bárbara, nômade, que, com sua maquinaria sibilante, mina todo tipo de sedentarismo e mutismo. Os olhares ciganos desconfiam da fixidez, preferem o devir. Devires são indóceis, não sabem respeitar a ordem e o jeito das coisas, nem conformar-se a um modelo de justiça ou de verdade (Deleuze; Parnet, 1998). Para os olhares ciganos – sim, porque os olhos de um cartógrafo são muitos e, acreditem, não precisam estar nem mesmo no rosto, espalham-se por todo corpo – não há pontos fixos, não há uma unidade principal, uma raiz, um encadeamento, uma ordenação. Os olhares ciganos da cartografia vão desterritorializando as formas e os territórios de uma vida, abrindo-a ao encontro com os devires. Surgem como um exercício de erosão de nossas vidas, do tempo e da história, que não permite às coisas se assentarem e persiste e insiste no meio delas.

Que devires nos rondam? Em quais devires podemos entrar? O olhar cartográfico, ao enxergar proposições educacionais, sujeitos e objetos escolares, matérias e disciplinas, por exemplo, choca-se com o já feito. O atravessamento oblíquo do olhar cigano traz à tona que coreografia, passos e bailarinos não são dados de antemão, não estão na escola ou em qualquer outro lugar pedagógico, emergem do problema criado. O que está em jogo na pesquisa transforma-se, por sua vez, em uma unidade impossível, porque as formas e os conteúdos pedagógicos são esvaziados de elementos representacionais, questionados quanto à suposta generalidade e universalidade, interrogados sobre a especificidade, particularidade e contingência de suas existências. Tudo é uma questão de topologia, de superfícies, de escavações, de vazamentos, de linhas que não param de remeter umas às outras. "Essas meninas bulhentas/Mas de feição tão suave/ Não deixando de bulir/Por elas, passo tormentas" – ressoa um fado português sobre ciganas "Olhos de ressaca" (Marceneiro; Rego, 2007), visão de uma carne indomável.

Movimento II – Noite de Núpcias. Mas onde pousar a atenção nos diferentes movimentos que os olhares-ciganos podem fazer na pesquisa cartográfica? Como selecionar os elementos sobre os quais prestar atenção diante de um material desconexo e fragmentário? Se o que conta é uma espécie de concentração sobre os territórios sem focalização, uma atitude que prepara para o acolhimento do inesperado, o cartógrafo entra em campo sem conhecer os alvos a serem perseguidos, que surgirão de modo mais ou menos imprevisível, sem que se saiba nem de onde, nem muito bem para onde ou para quê. Aparecem de uma exploração assimétrica do território, regida apenas por sensações diretas, por ações de forças como pressão, estiramento, dilatação e contração, até que se seja tocado por uma rugosidade. Não se trata exatamente de ver "dados" em um território de pesquisa, mas, antes, desenhá-los, pintá-los, pôr para dançar a partir de um elemento qualquer que nos soe com certa extravagância.

Uma cartografia encontra-se com um território, "entra em núpcias" (Deleuze; Parnet, 1998). É exatamente um encontro entre dois amantes que marca toda a possibilidade de uma erótica desejosa de criação de mundos em uma pesquisa cartográfica. É por encontros que o corpo da cartografia se define. "Encontrar é achar, é capturar, é roubar [...]. Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias" (Deleuze; Parnet, 1998, p. 6). Sim, em uma pesquisa em educação, nós podemos encontrar pessoas, documentos, instituições, planos, "mas também [encontramos] movimentos, idéias, acontecimentos, entidades" (Deleuze; Parnet, 1998, p. 6). Aos olhares-ciganos somam-se os amantes em núpcias, que fazem da cartografia não um reconhecimento exatamente das informações de textos, das entrevistas, dos questionários, da etnografia ou de qualquer outro material de nossas pesquisas, mas, sim, das suas outformações, aquilo que elas movimentam e os agenciamentos que podem provocar.

No movimento de sua pesquisa, o cartógrafo encontra-se com coisas, corpos, ações, paixões, algo que o inquieta e que convém; mapeia movimentos de territorialização das linhas; indica movimentos de desterritorialização. Por fim, a cartografia combina "elementos heterogêneos, díspares, fazendo surgir algo de novo, que não se pode reduzir a nenhum dos elementos isolados que o compõem" (Tadeu, 2004, p. 157). Não cessa de medir as misturas, as capturas, as intercessões entre os elementos. Tudo isso com o estilo enunciativo e dançante de uma cigana, que se fixa aqui e ali de um modo nômade. Nesses encontros cartográficos, os elementos de determinado território de investigação estão sempre em relação de movimento, definem-se apenas pelo seu poder de afetar e ser afetado. Um sopro de coragem: podemos utilizar nossos objetos de investigação não como figuração, mas como potência? Não o aluno-problema, o professor-pesquisador, mas, sim, o devir-mestre, o devir-mulher, o devir-índio, o devir-animal, o devir-negro, o devir-criança?

A poética e a erótica dos encontros apontam para que olhemos para a escola, o currículo, a cultura, a pedagogia, a didática, a formação docente como experimentos, cujos elementos não são peças de um quebra-cabeça, mas pedras de um caminho ainda por trilhar. A cartografia vai criando as pedras de seu caminho, promovendo entre elas encontros clandestinos, conexões insuspeitadas, agenciamentos notáveis, sempre grávida de um devir fundamentalmente heterogêneo. A cartografia está tanto mais próxima da vida quanto mais abre e multiplica as conexões e traça linhas de movimento com "seus quantificadores de intensidade e de consolidação" (Deleuze; Guattari, 1997d, p. 227). Questão insaciável de uma cartografia: por que essa forma de existência e não outra? Com que outras forças, linhas, elementos, nossas formas de existir nos territórios educacionais podem entrar em relação? Que novas formas podem surgir daí?

Movimento III – Pintar um quadro. E como tratar os rastros dessa navegação? É nesses momentos que o cartógrafo se põe a pensar que alquimias de linguagem favorecem a passagem das intensidades que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretende cartografar. Procedimento que não tem nada a ver com "contemplar, refletir ou comunicar" (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 16), é a arte de criar mundos, de construir pontes, de bordar tapetes voadores, de pintar quadros, exercícios nos quais o movimento do cartógrafo, indissociável do desenho – expressão da cor, sutileza das linhas e traços, instabilidade sensorial –, tenta dar ao mundo que se pinta uma impressão bruta e uma existência efetiva. Mundos que, não reais, não ainda, todavia, não deixam de existir. Mundos que têm uma realidade própria, enquanto possibilidade de existir. Mundos que enfrentam e cortam a multiplicidade, mas que dela não saem jamais. Mundos que não preexistem ou existem fora da multiplicidade, mundos que só ganham consistência dentro dela. E esses mundos imaginados, imagéticos, fabulados, dançantes e mágicos são as regiões mesmas de uma cartografia, o solo no qual esta se inscreve.

Mundos traçados na imanência de uma vida, na instauração de um plano de imanência na cartografia. Plano que enfrenta "a imagem do pensamento, a imagem que ele se dá do que significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar no pensamento..." (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 54). Nele, os traços diagramáticos instituem em território investigado certos elementos próprios, recitam uma organização, definem o que é pensar naquele terreno. Mas os quadros que uma cartografia traça pulsam no coração de uma vida e não se deixam confundir com uma retrospectiva, uma pesquisa de estado da arte, uma análise sócio-histórica de um campo de pesquisa. A imanência desses mundos desenhados pelo cartógrafo "não se define por um Sujeito ou um Objeto capazes de o conter" (Deleuze, 2010b, p. 2). Aqui, "pensar e ser são uma coisa só" (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 34). Sua característica mais elementar "é funcionar mais como uma geografia que propriamente uma história" (Machado, 1990, p. 25), não enlatar o pensamento em uma história linear e progressiva, mas privilegiar a constituição de espaços, de imagens de pensamento, de paisagens de viver a vida, de modos de vida.

Cartografar "tem que passar pela destruição, fazer toda uma limpeza, toda uma raspagem do inconsciente. [...] Destruir crenças e representações, cenas de teatro" (Deleuze; Guattari, 2004, p. 325, p. 328), porém não implica "somente se desviar, mas enfrentar, voltar-se, retornar, perder-se, apagar-se" (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 53). Se for para a invenção cartográfica mostrar aquilo que se encontra demasiadamente estriado em um território de pesquisa educacional, os movimentos do cartógrafo se dão a partir do que se definiu como próprio daquele território. A cartografia não parte do nada, mas de algo preexistente — sobretudo, das paixões, dos encontros, do amor pelo que se toca e pelo que se vê. Tomando a contrapelo, desfazendo e recriando o material que lhe é disponível, embarcando o cartógrafo em uma linha que o toca, seus movimentos fazem transbordar as opiniões correntes, seus traços intensivos rompem o pensamento para construir novas composições mundanas para a educação. O mundo de uma cartografia não tem nem mesmo uma essência ou uma descrição de um estado de coisa que o defina. Com um mundo múltiplo e composto na imanência, é um processo de produção, uma geografia da circunstância, quadros multidimensionais, desenhados na complexa rede de linhas que sugerem sua incompletude.

As figuras da bailarina, da cigana e do amante que circulam no fazer cartográfico somam-se à do pintor. Aquele que dá consistência e materialidade para um mundo que pinta. Podem até convocar histórias, personagens que não têm muito a ver com interpretações, personificações abstratas, símbolos, alegorias. A pintura da cartografia não é nem mesmo uma forma, mas um modo de enfrentar as forças. Trama a correspondência entre os mundos fabulados e a multiplicidade do mundo da educação. Em seus traços, juntam-se as linhas territorializantes do pensamento e as linhas intensivas da criação, conjuram-se sua atenção sobre movimentos virtuais vividos em um território educacional. Inventam-se os personagens mais produtivos para descrever tais movimentos, procuram-se traçar as linhas sobre a multiplicidade do pensamento curricular. Traz-se uma série de variações que desmontam as imagens dogmáticas dadas a um território, de modo que um se veja liberto para outros pensamentos. Para tanto, o cartógrafo pinta um mundo que será seu próprio problema de pesquisa na completa expressão de suas condições. Um mundo que, ao recusar toda a profundidade analítica ou transcendência conceitual, permite ao cartógrafo estender-se sobre o horizonte do território de pesquisa, procurando detectar com qual força exterior atual seu objeto de pesquisa "faz passar alguma coisa, uma corrente de energia" (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 62). A cartografia faz da pesquisa uma experimentação de todas as espécies de fugas que escapam e as forças que eles tentam captar.

Movimento IV – Linhas bailarinas. Nesse working in progress, o cartógrafo não se priva de caminhar por entre intercessores (Deleuze, 2006a). Os intercessores são quaisquer encontros que fazem o pensamento sair de sua imobilidade, quaisquer coisas que lhe permitam fazer cruzamentos. "Fictícios ou reais, animados ou inanimados, é preciso fabricar seus próprios intercessores" (Deleuze, 2006a, p. 156). Na escrita de uma cartografia, os elementos são exatamente "como sons, cores ou imagens, são intensidades que lhes convêm ou não, que passam ou não passam" (Deleuze; Parnet, 1998, p. 4). Por isso, cartografia não tem o menor racismo de linguagem, gênero ou estilo. Todo e qualquer alimento que lhe possa servir, mesmo que não seja escrito ou teórico, será bem-vindo.

A hora da escrita aproxima-se, é por meio dela que a cartografia finalmente se faz. A escrita é a forma de pensamento da cartografia. Uma escrita radicalmente vertiginosa: não é contadora de histórias; não ilustra nem narra o que se passou. Algo passa por ela: traços, linhas, setas, devires, personagens, movimentos, corpos. É a escrita o corpo no qual a cartografia é chamada a produzir-se. Aqui, não se perguntará qual o sentido da escrita cartográfica, pois a escrita faz advir o próprio sentido da cartografia. Esquiva-se de todo presente, porque está livre das limitações de um estado de coisas, ou, antes, "não tem outro presente senão o da mobilidade e do fluxo constante" (Deleuze, 2000, p. 47). Para uma cartografia, não há como pensar a pesquisa de outro modo, fazer da pesquisa, enfim, fabulação, invenção e pintura de mundos para a educação, que não seja, também, um outro modo de nos relacionarmos com a escrita e com o que ela nomeia. Uma operação próxima ao fazer artístico.

A cartografia é também um composto de sensações, um composto de afectos e perceptos (Deleuze; Guattari, 1997c) que não tem dívida nenhuma com estados subjetivos de sensibilidade. Não estão no cartógrafo, nem mesmo nas coisas por ele pesquisadas, surgem no agenciamento notável que a cartografia promove em sua escrita. Tanto os perceptos, as paisagens desenhadas pela escrita da cartografia, "são independentes daqueles que as experimentam" (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 213), como os afectos, os devires que a escrita mobiliza "transbordam aqueles, são atravessados por eles" (Deleuze; Guattari, 1997c, p. 213). A escrita cartográfica é situada no eixo de uma economia de afectos e perceptos que embaralham os códigos das palavras e fazem dos seus sentidos ações e paixões, afecções de um corpo. O cartógrafo povoa, então, sua escrita com outras instâncias, outras entidades poéticas, romanescas, ou mesmo cinematográficas e musicais. Um trabalho de composição, no qual o cartógrafo labora sobre a escrita para misturar, mesclar, somar os mais diversos materiais advindos dos mais diversos territórios.

A cartografia desdobra e tece afectos e perceptos, entrelaça temas e relações em fragmentos esparsos, em blocos dispersos, em desassociações de ideias, precisando as palavras nesse desdobramento e nas relações que estabelece com as palavras, levando-as até o limite do que podem dizer, deixando-as à deriva. O espaço da escrita emerge do desvio da linguagem, faz as palavras aparecerem como estrangeiras em sua própria língua (Deleuze; Guattari, 1977). "Há apenas palavras inexatas para designar alguma coisa exatamente. Criemos palavras extraordinárias" (Deleuze; Parnet, 1998, p. 4). A escrita cartográfica se deixa viajar na língua e nas palavras, sem começo ou fim, sem vontade nenhuma de chegar a algum lugar. Escreve pelo meio, sem arborescências ou raízes. Uma escrita feita de devir, uma composição de signos para traçar linhas de fuga, querer fluxos, lançar flechas, provocar abalos, abrir alas, até valas, para uma língua desviante que fia e engendra multiplicidades e singularidades. É deixar o verbo fazer-se carne para insuflar a vida. Afinal, não é este um dos sonhos do pensamento educacional – insuflar a vida que habita seus espaços pedagógicos?

 

Cartografar em educação a potência de uma vida

O cartógrafo em educação está atento à vida que se faz, desfaz e refaz nos espaços educacionais. Sua pesquisa cheira a vida, como ela se torna e pode tornar-se. Seu eterno por vir. Seu método de pesquisa se constitui, assim, em uma coreografia do desassossego, porque se interessa pela dança da vida e é também capaz de pôr a vida para dançar. Por acreditar que a educação, a escola, a pedagogia, os currículos, os sujeitos educacionais podem ser alvos de um permanente processo de reinvenção de si e do mundo. Por acreditar que seu texto de pesquisa pode movimentar as linhas que vêm compondo e pintando os territórios da educação — um método que inspira e logo conspira por outras composições, animado pelo trabalho de mapear as linhas de um território de investigação e que outras linhas podem ser aí agenciadas.

Em sua dança, o cartógrafo põe seus olhares-ciganos sob seus objetos de estudos, constituindo-os e dando-lhes forma. É seu olho que desenha sobre a folha de papel seus dados, abre espaços aos traçados e às linhas dos devires. É cigano porque está atento àquilo que escapa aos códigos dominantes da educação e da pedagogia. Agencia a noite de núpcias com o material que ele toma para analisar, arranca dele sua potência, planta multiplicidades onde a estrutura padecia, estriada demais, promovendo encontros insuspeitos e inesperados para o território educacional. Traça uma pintura de quadro, quadro não é o mesmo que planejamento ou organização, não vem antes da pesquisa, nem transcende a ela ou lhe dá profundidade. Um quadro pintado, que se instaura na e com a pesquisa, conjurando em seu horizonte que imagens de pensamento têm sido dadas a um território da educação e que vazamentos podem ser perseguidos e traçados para a constituição de outras imagens.

Atividade que ganha força na criação e na evocação de mundos, pois o cartógrafo em educação fabula, pinta, borda mundos. Não descreve mundos preexistentes, sugere a invenção de novos mundos para a educação. Faz, em linhas bailarinas da escrita educacional, uma máquina de afectos e perceptos, reinscrição em um império dos sentidos, de sensações e signos. É na escrita que o movimento da pesquisa, finalmente, ganha seu sopro de vida, seu ritmo e sua música. A cartografia nos lembra que a pesquisa em educação tem a função de atualizar a potência de uma vida. Pode-se, realmente, querer mais?

 

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Recebido em 27 de setembro de 2011 e aprovado em 15 de maio de 2012.

 

 

1. A Nau dos Insensatos é uma antiga alegoria usada na cultura ocidental em composições literárias e pictóricas dos séculos XV e XVI, retomada por Michael Foucault (2008). A Nau dos Insensatos, uma paródia da Arca da Salvação da Igreja Católica, transportava passageiros perturbados mentais, expulsos das cidades, em uma grande viagem simbólica e levados para territórios distantes sem saber, sem se importar para onde estavam indo.

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