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Pro-Posições

versão On-line ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.29 no.1 Campinas jan./abr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1980-6248-2016-0176 

LEITURAS E RESENHAS

Elza Freire, a figura feminina da pedagogia freiriana

Elza Freire, the female figure of Freirean pedagogy

Marina Milanez de Azevedo São Felicio(i) 

(i)Pedagoga. Integrante do GEPEJA – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, Campinas, SP, Brasil. marinamasaofelicio@gmail.com.

SPIGOLON, N. I.. Pedagogia da Convivência: Elza Freire, uma vida que faz educação. Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2016. 256pp.

Fiz o que queria, o que pensei, porque realmente fiz bem.

Elza Freire (citado por Spigolon, 2016, p.15)

Redescobrir, revisitar e reescrever a História da Educação. Foi partindo da palavra e do mundo de Paulo Freire que a pesquisadora Nima Imaculada Spigolon fez justiça a todo apelo e renúncia vividos em prol da Educação por Elza Maia Costa Oliveira que, depois de casada, passa a ser reconhecida como Elza Freire. Em um mundo onde os sujeitos históricos são protagonizados majoritariamente por homens, revelar Elza como sujeito de sua própria história e coautora da história de seu companheiro nos traz outro olhar para o legado deixado por Paulo Freire. Um olhar sensível com que somente a (também) poetisa Nima poderia nos presentear com esta belíssima dissertação de mestrado.

O livro Pedagogia da Convivência: Elza Freire, uma vida que faz educação, da Paco Editorial, com temática inédita e lançado justamente no centenário de sua estrela, é fruto de um trabalho sério, comprometido, crítico e incansável, desenvolvido a partir do interesse da pesquisadora pela Educação de Adultos e pela Pedagogia Freiriana. A inquietação por aperceber a presença intrínseca de Elza na obra de Paulo fez com que dedicatórias, manuscritos, entrevistas, iconografia e outras fontes assinadas por Freire e outros autores fossem esmiuçados, a fim de descobrir qual a real influência de Elza nesse processo histórico, político e pedagógico.

Elza requer ser pesquisada, ter sua trajetória pessoal e profissional aprofundadas, isso instiga a busca, a observação e a investigação. A pesquisa reafirma tal possibilidade devido à importância dos manuscritos produzidos por Elza, visto que os mesmos revelam o pensamento da educadora intelectual e sua prática político-pedagógica, bem como a sua presença na obra (pensamento e práxis) de Paulo Freire.

(Spigolon, 2016, p. 34)

O estudo da convivência político-pedagógica e amorosa de Paulo e Elza Freire teve como objetivo demonstrar as contribuições e as influências não apenas para a Educação Brasileira, mas também para a Educação de Adultos. Tendo como pano de fundo a cidade de Recife, o recorte temporal da investigação dá-se entre os anos de 1916 e 1964, com destaque para o período a partir de 1944, ano em que se oficializa a união do casal Freire e onde se concentra o cerne da pesquisa, que busca ampliar a compreensão em torno do trabalho de Paulo e a ambiência político-pedagógica e sociocultural da qual emerge o casal. É uma investigação sistemática do processo de elaboração, fundamentação e consolidação da Pedagogia Freiriana e, ao identificar a herança de Elza Freire para a Educação e sua participação no pensamento e na práxis de Paulo Freire, a pesquisa indica a ressignificação desse campo de estudos.

Para além dessa ressignificação, a meu ver, tão importante quanto a inserção de Elza na História da Educação, é o advento da perspectiva da Pedagogia da Convivência. Formulada pela autora (Spigolon, 2009b, 2014) a partir das relações estabelecidas por Elza e Paulo Freire no campo da educação após o casamento, a terminologia apresenta a convivência deles, que se encontram e se influenciam mutuamente também na Educação de Adultos e, juntos, desenvolvem equações teóricas, metodológicas e práticas inovadoras e emancipadoras. É o processo pedagógico como possibilidade dialética entre os sujeitos e a realidade existencial, tendo como referência o pensar, o fazer, o falar, e o sentir. É uma pedagogia “fundamentada nas categorias freirianas, às quais se agregaram ascategorias de análise denominadas elzianas” (Spigolon, 2009a, p.12). É a compreensão de que o conhecimento é compartilhado por meio da convivência e dos “saberes diferentes”, edificado pelo processo de ensino-aprendizagem e assentado na “amorosidade”, na “criticidade” e, sobretudo, na “conscientização”(p.12). Atualmente, a pesquisadora prossegue no aprofundamento desta perspectiva extremamente sensível.

A obra oferece a apresentação da autora por uma amiga contemporânea e outra conterrânea e está organizada em prefácio, ricos quatro capítulos e as considerações finais sobre Elza. Muito bem observado pelo linguista e indigenista Wilmar da Rocha D’Angelis, responsável pelo prefácio, “o que o leitor tem em suas mãos não é uma obra simples” (Spigolon, 2016, p. 11), referindo-se não ao sentido do texto e de sua compreensão, mas àquilo em que a obra se constitui. O professor faz uma analogia simbólica interessante, ao dizer que os três sujeitos integrantes do livro – Elza, Paulo e Nima – seriam semelhantes a três estradas que se cruzam diversas vezes, cada um em sua “história”. O capricho e o carinho de Nima podem ser observados na abertura de cada etapa do livro: somos brindados com citações dos manuscritos de Elza Freire, fotos inéditas e pequenos textos que nos contam um pouco do período representado pelas fotografias expostas. Um verdadeiro primor!

O primeiro capítulo “Leitura do mundo e leitura da palavra” é intenso, ao ilustrar os cenários da época, e traz o “onde” e “quando” que acompanham a gênese e o percurso da pesquisa, conduzidos da mesma forma por algumas discussões e conceituações metodológicas. A autora faz uma leitura abastada do mundo de Elza, que se inicia em Recife e cuja palavra percorre o mundo, reescrita agora com a obra. O raciocínio lógico que precede a hipótese não deixa dúvidas quanto à sua relevância: “se há Paulo Freire, deverá haver Elza, mediada por outra, como seria Paulo Freire sem Elza ou ainda, Elza antes de Paulo Freire, mas sempre fundamentadas em Elza” (Spigolon, 2016, p. 30).

O segundo capítulo, intitulado “Elza: viver e conviver a vida, escrever a história” é dedicado aos aspectos de vida e trajetória de Elza, perpassando sua infância e adolescência em Recife, depois destacando sua escolarização, formação e atuação profissional. Ele tem como enfoque estender a discussão do contexto histórico e educacional, desdobrando-se às instituições e aos intelectuais da época. O último tópico encerra o capítulo, resumindo as principais atividades desenvolvidas e os cargos exercidos por Elza em Recife. Trajetória de uma verdadeira educadora política, Elza esteve à frente de seu tempo quando decidiu pela especialização e pela formação contínua como educadora. Atuou nas várias esferas educacionais, tanto como professora alfabetizadora – sua grande paixão e área de inovação, quando da experimentação da arte como prática de aprendizagem – quanto como diretora de escola na rede estadual de Pernambuco.

Na sequência de capítulos, temos o terceiro, como título “Pedagogia da Convivência”. Páginas intensas e tensas que abarcam o objeto principal da obra: o encontro e o casamento de Paulo e Elza Freire. Páginas que da mesma forma demonstram e analisam o contexto familiar e as multifaces de Elza: mulher, professora, educadora, pesquisadora, esposa, companheira de lutas, mãe de cinco filhos, e tantas outras que ela pode assumir. Neste trecho do livro, a discussão é ampliada por meio das primeiras aproximações político-pedagógicas realizadas pelo casal Freire, e explica-se e fundamenta-se, então, o termo cunhado pela autora “Pedagogia da Convivência”. Sobre as consequências da aproximação com Elza, Paulo Freire diz: “Ao conhecer Elza, amar Elza e casar com Elza, a influência dela me fez muito mais consciente daquilo que estava fazendo” (citado por Spigolon, 2016, p. 145).

O quarto capítulo, “Elza Freire: educadora dos educadores”, nos leva a uma leitura profunda acerca da participação de Elza no surgimento do “Método Paulo Freire”. A princípio, a autora contextualiza a Recife dos analfabetos, ponderando que “alfabetizar as classes populares não era uma tarefa meramente técnica. Constituía, desde o início, uma atitude humanista de solidarização, e uma atitude política de desafio” (Spigolon, 2016, p.179). Discute-se desde o “Sistema Paulo Freire de Educação” até a saída para o exílio; destacando a participação de Elza, a pesquisadora avança para o SESI, para os Movimentos MEB e MPC, em Recife e Angicos, depois São Paulo e Brasília com o Plano Nacional de Alfabetização. O capítulo ilustra o posicionamento político e solidário de Elza, após 1964, com o Golpe Civil-Militar, em relação à prisão de Paulo Freire, e os bastidores da saída do Brasil com os filhos.

Nas considerações “Elza sempre”, tidas também como um capítulo final do livro, mas não como o findar das pesquisas sobre Elza, a autora compartilha da ideia de Paulo Freire (citado por Spigolon, 2016) que diz “aí se encontram as raízes da educação, mesma, como manifestação exclusivamente humana. Isto é, da inconclusão que dela têm. Daí que seja a educação um que fazer permanente” (p. 226). As conclusões prévias acerca de Elza são as de que ela sai da abstração e torna-se algo concreto, no que se refere ao cenário freiriano. Considera-se que a limitação do trabalho é positiva, ao passo que revela outras nuances, ao abrir perspectivas de pesquisas futuras. O capítulo se encerra com uma breve biografia de Elza, contemplando o período proposto de 1916 a 1964.

A leitura vale tanto pelo ineditismo como por seu riquíssimo e apurado trabalho investigativo no sentido de trazer ao nosso conhecimento um novo sujeito histórico: uma figura feminina, uma mulher de fibra, força, movida pelo amor à vida, à profissão, ao companheiro e ao próximo e que muito contribuiu para a História da Educação Brasileira e, por que não, mundial, ao ser coautora do “Método Paulo Freire”. O texto é guarnecido por farto referencial teórico e recheado de informações históricas, reflexões sobre as obras freirianas e interações acerca das produções do casal, intercaladas com citações do educador que ressignificou a pedagogia dirigida aos oprimidos e, que, junto de Elza, engendrou o movimento político-histórico em favor da liberdade do ser humano por meio da leitura, entendendo que ler e escrever não só o fazem compreender e interpretar o mundo onde se vive, mas também são ferramentas que permitem transformá-lo, através do pensamento, da reflexão sobre o que se faz e da ação crítica.

Como mulher, leitora, estudante e fã da práxis freiriana, agradeço à professora Nima a oportunidade de apresentar obra tão significativa e marcante na esfera acadêmica, na Educação e na vida de quem acredita em uma Pedagogia para um mundo melhor e mais justo para todos. O livro nos enche de esperanças e nos faz acreditar no calor e no valor das relações humanas. E, assim, encerro essa resenha com uma fala de Paulo (citado por Spigolon, 2016), sobre Elza:

Acho que uma das melhores coisas que podemos experimentar na vida, homem ou mulher é a boniteza em nossas relações mesmo que, de vez em quando, salpicadas de descompassos que simplesmente comprovam a nossa gentetude [ênfase no original]. Foi esta experiência que com Elza vivi... a vida, com amor. (p.153)

Referências

Spigolon, N. I. (2009a, 13 de julho a 2 de agosto). O legado de Elza Freire: entrevista. Jornal da Unicamp, ano XXIII, 435, 12. Recuperado em 12 de dezembro de 2016, dehttp://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/julho2009/ju435pdf/Pag12.pdf. [ Links ]

Spigolon, N. I. (2009b). Pedagogia da Convivência: Elza Freire, uma vida que faz educação. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Campinas. [ Links ]

Spigolon, N. I. (2014). As noites da ditadura e os dias de utopia – o exílio, a educação e os percursos de Elza Freire nos anos de 1964 a 1979. Tese de Doutorado, Universidade Estadual de Campinas. [ Links ]

Spigolon, N. I. (2016). Pedagogia da Convivência: Elza Freire, uma vida que faz educação. Jundiaí: Paco Editorial. [ Links ]

Recebido: 14 de Dezembro de 2016; Aceito: 06 de Março de 2017

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