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Pro-Posições

versão On-line ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.29 no.2 Campinas maio/ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1980-6248-2016-0132 

ARTIGOS

A dança e a educação da feminilidade: Belo Horizonte – MG (1930-1960)1

Dance and the education of femininity: Belo Horizonte – MG (1930-1960)

Elisângela Chaves(i) 

Andrea Moreno(ii) 
http://orcid.org/0000-0002-3371-0282

(i)Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.elischaves@hotmail.com

(ii)Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.http://orcid.org/0000-0002-3371-0282, andreafaeufmg@gmail.com

Resumo

Em 1934, atendendo somente a meninas, foi criado o primeiro espaço privado e especializado no ensino da dança em Belo Horizonte – MG, o “Curso Natália Lessa”. O contexto histórico e cultural no qual viveram as alunas, a professora e a sociedade que acompanhou esse trabalho compõe cenas na cidade que, apesar das porosidades, suscita um rico conjunto de significados para a formação feminina no período em Belo Horizonte. A hipótese central do estudo é de que suas práticas no ensino da dança para meninas teriam proporcionado uma dada direção para educação da feminilidade em Belo Horizonte e se tornaram referência representativa nessa ambiência. A partir das análises de fontes diversificadas, foi possível identificar a intencionalidade pedagógica do Curso de educar, através da dança, a feminilidade, seguindo ideários em circulação. Desde o início de sua carreira, as declarações e as divulgações sobre o Curso o apresentavam como uma atividade educacional e feminina, com os objetivos de desenvolver qualidades e habilidades vinculadas a três eixos: a graça, a saúde e a beleza, que envolviam questões relativas à disciplina, ao ritmo e à eugenia. Percebe-se que a proposta de Natália Lessa gerava poucos estranhamentos e representava seguramente formas de educar, já legitimadas pela escola, reconhecidas e apreciadas pela sociedade local.

Palavras-chave ensino da dança; história da dança; educação feminina

Abstract

In 1934, serving only girls, the first private school specialized in dance in Belo Horizonte, MG, was established, the "Natalia Lessa Course ". The surrounding historical and cultural context of the lives of the students, the teacher and society compose certain scenes in the city which, despite being incomplete, elicit a rich assemblage of meanings for the female formation during this period. The central hypothesis of this research is that this school’s practices in dance education for girls led to a new direction for the education of femininity in Belo Horizonte, becoming a representative reference in this context. From the analysis of different sources, it was possible to identify, in the Course, the pedagogical intention to teach femininity through dance, following the ideologies in circulation. Since the beginning of her career, the statements and disclosures made by Lessa about the Course presented it as both an educational and a female activity, with the objective to develop qualities and skills related to three areas: grace, health and beauty, involving issues of discipline, rhythm and eugenics. It is observed that Natália Lessa’s proposal caused little strangeness and safely represented ways of educating, already legitimized by the school, which were recognized and appreciated by the local society.

Keywords dance education; dance history; female education

A dança e a feminilidade constituem uma “parceria” arraigada à história do ensino da dança no Brasil. As relações entre dança, história e memória têm permeado a construção de biografias de artistas e grupos artísticos, produções, temporadas, turnês, intercâmbios internacionais, metodologias de ensino e montagem coreográfica.2 Tais produções abordam diálogos com o meio artístico, com as políticas públicas, com o mercado de trabalho, com a profissionalização e com a formação do artista-bailarino, E, apesar de não tematizarem questões de gênero, registram em suas memórias a participação de mulheres e meninas na dança.

Há uma predominância do feminino nos espaços educacionais e formativos da dança, um fato ainda pouco investigado academicamente, mas socialmente legitimado na oferta de cursos de dança ou na própria história da educação. Programas de ensino, propostas pedagógicas apresentam a dança como uma prática corporal propícia ao feminino, como defendia, por exemplo, Fernando de Azevedo (1920). Ao discutir a educação física feminina, ele a cita como prática corporal ideal, exaltando os valores eugênicos, estéticos e higiênicos. Ela também aparece prescrita, ainda na primeira metade do século XX, como indicada às meninas e às mulheres, nos programas de ensino de Minas Gerais para educação primária e nas atividades da Universidade do Brasil, na formação das professoras de Educação Física (Chaves, 2002; Pacheco, 1998).

Em nossa trajetória de pesquisa histórica, inicialmente nos perguntamos: que percursos possibilitaram a destinação dessa prática corporal como parte da formação e da educação feminina? Como foi possível que essa manifestação da cultura humana, ao ser concebida como prática educativa, fosse marcada por uma adequação de gênero? Por que, apesar de as práticas sociais da dança serem vivenciadas por homens e mulheres, ao se pensar em seu ensino sistematizado historicamente, são as meninas as indicadas a usufruir de sua benesse educativa? Essas questões, problematizadas, contemporaneamente, são construções de um campo, o do ensino da dança, que ainda explora timidamente sua historicidade, em diálogo e conexão com outros campos temáticos, tais como os estudos de gênero e os aspectos metodológicos do ensino, sem fins de profissionalização.

Nesse sentido, buscamos neste artigo dialogar com o ensino da dança, seus usos na cultura, na educação e na formação social, especificando a intencionalidade e a destinação de seu ensino como uma referência para a educação feminina. Trilhamos esta análise através da primeira escola de dança de Belo Horizonte - MG, criada e mantida pela professora Natália Lessa, de 1934 a 1960, no salão nobre do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, somente para meninas. Analisamos suas implicações na educação da feminilidade, nos primeiros 30 anos desta instituição – nas décadas de 1930, 1940 e 1950.

As iniciativas de pesquisas historiográficas sobre dança no Brasil, que já foram escassas, são atualmente um campo de investimento na esfera acadêmica e em outros setores comprometidos com a valorização história da dança brasileira através da pesquisa, do registro e da memória sobre a produção artística nacional. Cabe destacar que a pesquisa que originou este artigo foi cunhada na diversificação de problematizações neste campo, buscando demarcar os usos e as apropriações da dança, para além de biografias, espetáculos, companhias de dança e produção artística na área. Uma demanda de novas questões e novos objetos de pesquisa a serem explorados.

O trato com as fontes está ancorado no debate de Carlo Ginzburg (1989) e de sua discussão sobre o paradigma indiciário e a necessidade de examinar os pormenores das possibilidades históricas. A procura por indícios constitui uma verossimilhança da realidade e não uma “falsa verdade”, iludida e pretensiosa na reconstituição do passado. Natália Lessa foi o fio condutor dessa busca, numa relação dialética entre ela e o espaço social; um constante exercício de percepção de onde ela está no contexto e onde o contexto está em sua trajetória. Através de um conjunto de “pistas” identificadas em pesquisas3, somaram-se fontes oriundas de instituições e acervos pessoais.

As fontes utilizadas para realização da pesquisa foram localizadas na cidade de Belo Horizonte nas seguintes instituições: Arquivo Público Mineiro (APM); Hemeroteca; Biblioteca Pública de Belo Horizonte; Centro de Referência do professor; Biblioteca da UFMG – Coleção Linhares; Arquivo da Escola Estadual Barão do Rio Branco e do Colégio Sagrado Coração de Jesus; Museu Abílio Barreto; Centro de Memória Brenno Renato - Minas Tênis Clube; Programa de História Oral da FAFICH/UFMG; revistas locais com grande circulação em Belo Horizonte e Minas Gerais, como a Revista Alterosa, a Revista Bello Horizonte, a Revista do Ensino de Minas Gerais, exemplares localizados no período de 1930 a 1960; jornais locais como o Diário de Minas, Correio de Minas, Minas Gerais, Diário da Tarde, Estado de Minas, O Tempo, com diferentes temporalidades; documentação escolar: registros de frequência, livros de movimento do pessoal docente, livros de ponto, catálogo da história da escola, todos referentes ao Grupo Escolar Barão do Rio Branco e Histórico escolar da professora no Colégio Sagrado Coração de Jesus; documentação de vinculação profissional na Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais: enquadramento funcional, processo de aposentadoria, movimentação de carreira; documentos da Câmara Municipal de Belo Horizonte: homenagens concedidas a Natália Lessa. E ainda acervos pessoais de alunas e da família de Natália Lessa como programas de festivais e fotografias (Martha Lessa e Leonardo Lessa, sobrinhos guardiões de aproximadamente 50 fotografias e recortes de jornais, alguns sem datação).

Elegemos como referência a produção da imprensa belo-horizontina nas décadas de 1930 a 1960, entendendo-a como um instrumento privilegiado nesse momento histórico de disseminação de ideários educacionais e com grande influência sobre os debates cotidianos em circulação na vida cultural da cidade.

A ambiência belo-horizontina e a educação de Natália Lessa

O contexto histórico e cultural no qual viveram as alunas, a professora e a sociedade, no recorte desta pesquisa, compõe cenas na cidade que, apesar das porosidades, nos suscitam um rico conjunto de significados para análise da educação feminina em Belo Horizonte. Pensada e planejada para ser um centro urbano republicano, irradiador da modernidade, com pretensões de destaque nacional, nesta cidade, para além de uma vitrine moderna de praças, ruas, avenidas e edificações, também os habitantes da capital mineira foram foco de atenção.

A materialização do projeto de modernidade só poderia se concretizar mediante o cultivo de novas maneiras e modos de se viver na cidade. Questões que passavam necessariamente pela adaptação, pela aprendizagem e pela (re)invenção de comportamentos. Os corpos que ocupavam os espaços necessitavam se mover e se postar em novos ritmos, com elegância, com higiene. As atitudes corporais singulares precisavam desenvolver um comportamento social de pertencimento a essa ambiência, principalmente quando observadas nos espaços públicos. Os sujeitos e seus grupos sociais careciam de outra sensibilidade para ser e estar na intencionada cidade moderna, naquele mundo urbano. (Moreno & Vago, 2011). Como nos lembra Sandra Pesavento (2005), “as sensibilidades são uma forma do ser no mundo e de estar no mundo, indo da percepção individual à sensibilidade partilhada” (p. 1). Assim, indagamos: teria Natália Lessa proporcionado, através de suas práticas no ensino da dança para meninas, uma dada direção para a educação da feminilidade em Belo Horizonte, uma referência representativa da feminilidade nessa ambiência?

No intuito de desvelar essa questão, buscamos compreender o termo “representação”, que é portador de múltiplos sentidos. A noção de representação apresentada por Roger Chartier (2002) foi orientadora para nossas análises, pois se ocupa de identificar como determinada realidade é construída, pensada e dada a ler. Para ele, as representações não podem ser percebidas de um ponto de vista simplificador, pois são parte constituinte do mundo social e, como tal, também podem refigurá-lo. As práticas e as apropriações se configuram em representações por meio das quais grupos e indivíduos dão sentido às suas criações e ao seu mundo. A trajetória profissional de Natália Lessa, seu curso, os registros na vida da cidade, foram reveladores para formulação de hipóteses sobre a dança e a educação da feminilidade no recorte pesquisado. Ela, a partir de suas apropriações dos conhecimentos em dança e ginástica, inaugurou, em seu curso em Belo Horizonte, práticas que geraram representações sobre o ensino da dança que reverberaram processos de socialização e produção cultural.

Mas como educar esses corpos? Como cultivar essas sensibilidades? Como identificar que feminilidade? A problematização dessas questões em um tempo passado nos levou cada vez mais a pensar nas ambiguidades contidas no entorno de nosso objeto de pesquisa. As sensibilidades evocam as relações entre as pessoas, as experiências comuns que permitem reações semelhantes, que não devem ser confundidas com uma simples reação automática ou uníssona. A vida afetiva é individual e subjetiva, mas manifestações compartilhadas se difundem, contagiando mimeticamente uns aos outros, não como reação automática ao mundo exterior, mas como sensibilidades relacionadas na manifestação de emoções. Nossas reflexões acerca da educação do corpo perpassam por essa noção, exposta por Soares (2006),

os corpos são educados por toda realidade que os circunda, por todas as coisas com as quais convivem, pelas relações que se estabelecem em espaços definidos e delimitados por atos de conhecimento. Uma educação que se mostra como face polissêmica e se processa de um modo singular: dar-se não só por palavras, mas por olhares, gestos, coisas, pelo lugar onde vivem. (p.110)

Diferentes estratégias foram disseminadas para promoção de uma educação corporal feminina, para constituição de uma “outra mulher” que, consequentemente, seria uma nova mãe, uma nova professora, capaz de educar em seu lar, em sua sala de aula, e nos espaços públicos por onde elas passavam a circular cada vez mais (Louro, 2001). Sensibilidades cultivadas individualmente, mas inter-relacionadas e que difundiriam um ideário. A vida feminina nessa primeira metade do século XX, intensamente infiltrada por discursos ao mesmo tempo moralistas e progressistas, tinha nos meios de comunicação um propulsor de informações. Com programas femininos e uma infinidade de orientações e informações, sobre as quais as gerações passadas não podiam sonhar em saber ou debater, eram postas em circulação temáticas de autoafirmação da mulher na sociedade que primavam principalmente pelos cuidados consigo própria e com a família.4 A nova mulher precisava estar na cena pública, bela, elegante, mas sem exageros, vulgaridades e sem nunca perder de vista sua principal função: seu lar, marido e filhos. As revistas e os jornais consultados traziam artigos sobre o casamento, a criação dos filhos e muitas histórias, trechos literários de fundo moral ou romântico. Se em algumas páginas a orientação era arrumar a casa e ficar bela e calma para a chegada do marido, em outras o incentivo era “modernize-se”, “seja independente”, “viva sua vida”.

O uso de artifícios estéticos, os cuidados com a saúde, com o corpo e sua beleza, de forma geral, eram estimulados através das imagens de moda, das atrizes americanas, dos cremes milagrosos, das belas modelos. Mulheres ativas, esportistas, elegantes, representações exemplares de uma modernidade, inclusive para as meninas criarem na infância suas referências para o futuro. Em relação à infância feminina, as meninas, futuras mulheres, precisavam de toda atenção para uma educação adequada à sua vida social.

As discussões sobre a educação feminina eram respaldadas com forte menção à saúde e à moral, uma definição clara de sua posição social no período em que a maternidade era o horizonte desejável para o sexo feminino. Na busca da constituição de uma mulher moderna, as práticas corporais tiveram importante destaque: traduziam inovações nos divertimentos, no esporte em ascensão e nas práticas cotidianas (Goellner, 1999).

Em Belo Horizonte, os espaços de entretenimento e possibilidades de diversão urbana compartilhavam na cena pública da cidade a presença de mulheres e crianças de forma mais corriqueira. Em 1947, a Revista Alterosa exaltava a juventude feminina da capital, relatando como sua presença nos espaços públicos se fazia notar:

O MAIOR encanto das grandes cidades não está somente nos jardins, nas praças cheias de flores, no movimento das ruas ou na imponência dos edifícios. Está em tudo isso e mais ainda na vivacidade e elegância das mulheres jovens. O que interessa é, na verdade a paisagem humana movimentada, e cada época, de acordo com os costumes em vigor, tem, em tal sentido, características próprias que lhe dão fisionomia especial. ... Quem sai à rua a qualquer hora logo nota como sabem se divertir, como são elas as irradiadoras da alegria e graça pela cidade. Enquanto os moços discutem política e têm muitas vezes aspecto macabros ou sombrio, as moças fazem esportes, andam de bicicleta, guiam automóvel, remam ou se entregam a uma alegria estouvada, que enche de ruído os bondes, os ônibus e os logradouros públicos. (p. 107)

Mas essa ampliação ainda era bastante tímida em comparação com as referências dos grandes centros da época: Rio de Janeiro e São Paulo. A ambiência cultural da cidade, em relação à dança, continuava incipiente em relação a artistas locais. O espaço urbano moderno se estrutura sob as simbologias e os significados diversos que os homens lhe imprimem. A cidade tanto é modelada quanto modela significados, porque, além de espacialidade significante, ela também é discurso espacializante, demanda produção de cultura e de comunicabilidade, atribuindo sentidos de representação individual e coletiva à cidade moderna. Como uma espécie de mosaico, a justaposição de espaços e significados estrutura a cidade a partir dos discursos produzidos pela e para a modernidade, estabelecem relações de uma dimensão estética, de marcos culturais e de intencionalidades na criação e na ocupação de seus diversos espaços e lugares. A nova capital mineira continuava a abrigar também a velha tradição mineira, tão cara às elites. Essa relação modernidade e tradição por vezes parece gerar um paradoxo, uma incompatibilidade composta por oposições e articulações entre a tradição e o moderno. A cidade de Belo Horizonte não abrigou historicamente uma disputa dicotômica entre tradição e modernidade, Thaís V. Cougo Pimentel (1996) defende uma ideia de face conservadora do moderno:

Belo Horizonte é moderna e, por isso, conservadora. É moderna, para conservar a dominação nas novas condições históricas. É moderna, porque o novo tempo burguês supõe e exige a modernidade, como forma ideal de organização do espaço urbano onde se trava a relação capital X trabalho. Nessa perspectiva, não há oposição entre moderno e tradicional e nem ruptura entre o novo e o velho. O discurso sobre Belo Horizonte é elemento importante no discurso ideológico da mineiridade onde a tradição e a modernidade não se constroem enquanto opostos, antes como complementaridade. (p. 114)

Essa face conservadora do moderno nos auxilia a pensar a cidade como cenário da trajetória de Natália Lessa, pois produz as brechas para entrada nos sentidos e nos significados de seu trabalho. Criado seu curso em 1934, somente em 1948, com a chegada do professor Carlos Leite em Belo Horizonte, é que identificamos outra proposta sistematizada de ensino de dança. Desde o final do século XX, é recorrente a vinculação de seu trabalho a notícias sobre a história da dança em Minas Gerais e na capital. Nos últimos anos de sua carreira, e após a sua morte em 1986, reverberaram de sua obra homenagens que exaltam sua competência, pioneirismo, autodidatismo e perseverança. Suas alunas eram em grande parte da elite local, como as filhas de governadores do estado, Juscelino Kubitschek, Benedito Valadares e Nisio Batista. Mas havia em suas turmas também meninas com poucos recursos financeiros, que recebiam dela desde os uniformes até as fantasias mais caras e sofisticadas. Suas apresentações inauguraram em Belo Horizonte a tradição dos espetáculos de escolas de dança nos finais de ano, ocupando espaços como o Teatro Municipal, o Cinema Brasil, o Teatro Francisco Nunes, o Instituto de Educação, entre outros, e cujas rendas ela destinava integralmente à Santa Casa, aos hospitais e às associações beneficentes da capital.

Natália Lessa iniciou seus estudos como normalista no Colégio Sagrado Coração de Jesus, à época somente para meninas, onde era interna, e cursou a Escola Normal de 1924 a 1927. Em 1928 foi contratada como estagiária para a cadeira de Gymnastica no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, o primeiro da cidade de Belo Horizonte, onde foi professora desde então, até sua aposentadoria em 1960. Era natural de Diamantina, mas viveu desde os 3 anos de idade em Belo Horizonte. Foi nessa cidade, criada no limite das transformações culturais do século XIX, com a missão de, a partir de 1897, ser a capital do estado de Minas Gerais, que Natália Lessa foi educada, se formou professora e lecionou durante 30 anos na cadeira de Educação Física e, durante 50 anos, em seu Curso de Dança, tendo falecido aos 78 anos de idade.

Criou o Curso Natália Lessa em 1934, o primeiro espaço privado e especializado no ensino da dança em Belo Horizonte. Ela ministrava aulas no salão nobre do Grupo Escolar Barão do Rio Branco.

Professora dedicada, desde o início da carreira atuou na ginástica, na Educação Física e na dança, áreas para as quais ela buscou formação e aperfeiçoamento. Como outras mulheres de sua geração, que se lançaram a uma vida profissional, Natália Lessa não se casou e não teve filhos. Segundo seus familiares, tornou-se uma mulher independente e sempre residiu na região central da cidade, próxima ao seu local de trabalho. Era considerada uma mulher séria, trabalhadora, recatada e discreta. Adorava cinema e era muito devota à igreja católica. De acordo seus familiares e alunas, não gostava de subir ao palco nem para receber flores ao final das apresentações. Ficava sempre fora dos palcos, nos bastidores. Não foi dançarina e não se apresentava, apenas ensinava a dançar. Seu envolvimento abrangia ser professora, coreógrafa, diretora, organizadora e idealizadora de seus festivais.

Em busca da ampliação de suas experiências e conhecimentos, fez cursos, estagiou no Rio de Janeiro e costumava viajar para São Paulo, onde assistia a espetáculos de dança. Como professora, atuou também ministrando aulas de dança em outras escolas da cidade, de forma temporária ou vinculada a eventos. Em todas essas experiências há um fator em comum: por toda sua trajetória ensinou práticas corporais para turmas femininas, como por exemplo, no período de 1939 a 1945, em que ministrou aulas no Departamento Feminino do Minas Tênis Clube, como professora de gymnastica e dansa.

Uma escola de graça, saúde e beleza

O Curso era abrigado no Salão Nobre do monumental prédio do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, inaugurado em 1914, situado na avenida Paraúna, atual avenida Getúlio Vargas, no bairro dos Funcionários, já região central e nobre da cidade. As aulas aconteciam após a finalização das aulas regulares do Grupo Escolar. O salão com espaço amplo, pé direito alto, piso de tacos de madeira, grandes portas de entrada e também grandes janelas retangulares com boa circulação de ar tinha ao fundo, um pequeno palco, elevado e com cortinas, onde aconteciam os auditórios do Grupo Escolar e outras festividades. Diferente das tradicionais salas de dança, não havia barras nem espelhos. Um local de arquitetura imponente, que ainda permanece em evidência como parte dos grandes prédios de sua época (Peixoto & Fonseca, 2006).

O uso do uniforme era obrigatório, e nas primeiras décadas era composto por um “calçãozinho” e uma camiseta, que se alterou ao longo dos anos até um collant nos anos 1950. Natália Lessa vestia-se para suas aulas sempre de saia e blusa ou um vestido na altura dos joelhos ou abaixo deles. Muito simples, usava vestimenta sóbria, elegante e discreta, sapatilhas de meia ponta nos pés e cabelos sempre arrumados, presos. Importante peça do uniforme eram os calçados, utilizados de acordo com a aprendizagem das alunas: a sapatilha de meia ponta, a sapatilha de ponta ou pontilha, o tênis e o sapato com chapinhas (sapateado).

As aulas eram organizadas por turmas, que eram divididas em períodos, de acordo com a faixa etária: de 3 a 6 anos – 1º período, de 7 a 10 anos – 2º período e de 11 anos em diante – 3º período. Não havia graduações por aprendizado, somente por idade (Reis, 2010). E a idade não avançava a adolescência e a vida adulta, as alunas permaneciam até seus 12, 13 anos de idade. Segundo suas alunas, as mais talentosas, depois de “mocinhas”, às vezes faziam participações especiais em festivais. As aulas do Curso tinham cerca de uma hora de duração e eram oferecidas de 2 a 3 vezes por semana. A música tocada nas aulas provinha do piano, que ficava ao fundo do salão, abaixo do palco, e teve ao longo do tempo diferentes pianistas.

Fonte: Acervo pessoal - Martha Lessa

Alunas uniformizadas. Década de 1950. 

A começar pela professora do Curso, Dona Natália, como era chamada por suas alunas, a disciplina em seu espaço de trabalho era uma exigência e um hábito. Pontual e assídua, não tolerava falta de compromisso. Os momentos das aulas e dos ensaios registraram na memória de suas alunas uma professora enérgica, exigente e correta. A disciplina e o respeito estão entre os aprendizados mais recorrentes nas falas de suas alunas. Dona Hermelinda de Morais Miranda, que foi secretária no Curso durante 10 anos, em entrevista, afirmou ao jornal O Tempo (2002) que “Ela nunca deixou de dar uma aula. Natália achava que a pessoa que assumia um compromisso deveria cumpri-lo. Isso servia para ela quanto para suas alunas”.

As referências ao seu trabalho apresentam códigos de sistematização muito próximos aos elaborados no espaço escolar e na Educação Física que se prescrevia nos Programas de Ensino e se praticava na escola mineira nas primeiras décadas do século XX. Dentre as prescrições educacionais, as preocupações civilizatórias, higiênicas e eugênicas circulavam dentro e fora das escolas através dos discursos, mas também das intervenções práticas na vida urbana. Nessa perspectiva, encontramos na imprensa local, além de elogios às atividades desenvolvidas pela professora Natália Lessa, a indicação e o apoio ao ensino da dança como prática adequada à formação da juventude, como identificamos na Revista Alterosa, ano X, n.93, 1948:

A moderna pedagogia considera a dança como fator primordial na formação espiritual da juventude. Na harmonia disciplinar dos gestos existe como que uma influência benéfica atuando sobre a personalidade humana, proporcionando-lhe um clima artístico preconizado pelos gregos através desta verdade eterna: mens sana in corpore sano. (p. 94)

Espaço propício para os exercícios físicos, com boa circulação dentro de uma escola, horários bem definidos das atividades, alunas organizadas por faixa etária, uniformes, exigências de disciplina eram práticas muito próximas às práticas escolares de Educação Física. Uma característica que coaduna com os projetos renovadores da educação escolarizada, sistematizada higienicamente, em prol da modernização cultural. Segundo Tarcísio M. Vago (2002), os padrões de corporeidade já não se prendiam mais ao primado da correção dos corpos como outrora, mas à eficiência desses corpos para a nova vida moderna e suas exigências em relação à mão de obra, para os mais pobres; e aos novos hábitos cotidianos, para os mais favorecidos. Uma educação que privilegie a formação de indivíduos detentores desta corporeidade é imperativa para os programas escolares desde a infância. Nesse sentido, Luciano M. Faria Filho (1997) defende que a escola ‘escolarizou’ conhecimentos e práticas sociais, buscou também apropriar-se de diversas formas do corpo e constituir uma corporeidade que lhe fosse mais adequada” [ênfase no original] (p. 52). A constituição dessa nova sensibilidade corporal, que se pretendia disciplinada, científica e eficiente, era embasada no pensamento médico-higienista, que vinha desde o final do século XIX, e nas primeiras décadas do século XX, influenciando as prescrições sobre a Educação Física na escola (Soares, 2001). O pensamento eugênico, presente nos discursos para aquisição da corporeidade ideal para vida moderna e a regeneração da raça, era incorporado às orientações sobre essa Educação Física eficiente, que fez parte da formação e do período de atuação profissional de Natália Lessa.

Tendo na escola a fonte de suas experiências profissionais e a concessão do espaço do Grupo Escolar para o funcionamento de seu Curso, as práticas de Natália Lessa parecem ter sido acolhidas com confiabilidade por parte dos pais, que matriculavam suas filhas, e pela imprensa, que divulgava seu trabalho. O Curso funcionou nesse local por quase três décadas. A utilização desse espaço durante tantos anos para essas atividades ainda é uma incógnita em relação às suas condições de uso: se sob contrato de pagamento de aluguel ou como simples concessão. Quando se mudou de lá, o Curso foi para o Clube Belo Horizonte e depois para outros endereços na região central da cidade. As alunas matriculadas pagavam mensalidades, com exceção das meninas que, sem boas condições financeiras, eram dispensadas dos pagamentos e subsidiadas pela própria professora. O funcionamento do curso era acompanhado por uma pianista e uma auxiliar, uma pessoa que desempenhava funções de secretaria do curso e acompanhava as viagens e as produções dos festivais.

Diferentes gerações de meninas viveram em Belo Horizonte as experiências corporais proporcionadas pelo Curso Natália Lessa. Experiências múltiplas, nos estilos de dança, na variação dos ritmos, nas formas e nos lugares de apresentação, mas não nos propósitos do ensino oferecido pela professora. A intencionalidade captada como proposta dessa professora foi continuamente o ensino da dança e da ginástica como parte da educação feminina.

Em 1939, após cinco anos de funcionamento do Curso de Natália Lessa, a Revista Alterosa, ano I, n.4, n.p., publicou uma matéria intitulada Uma escola de saúde, arte e beleza: Curso Natália Lessa, em que denomina o curso de “escola”. Uma escola, uma respeitada professora, e ensinamentos de saúde, arte e beleza para meninas da capital mineira. Sua proposta de curso, estruturação, organização e metodologia de trabalho apresentavam-se como uma prática que proporcionava viabilidade para complementação da educação feminina. O texto foi publicado entre duas fotografias das alunas organizadamente posicionadas e com o olhar direcionado para o fotógrafo. Assim dizia o texto, sem explicitação do autor:

Belo Horizonte, a exemplo do que acontece nas grandes capitais, conta também com uma escola de saúde, arte e beleza – Curso Natália Lessa.

Dirigido pela senhorita Natália Lessa, que também exerce, com raro brilho, as funções de professora técnica de educação física do Departamento Feminino de Cultura Fisica do Minas Tenis Club, o curso funciona com uma média de 60 alunas, no período de março a novembro.

O “Curso Natália Lessa”, sem nenhum favor, realisa obra de verdadeira brasilidade, preenchendo, desde há muito, uma grande lacuna que existia na capital.

Com aulas de ginástica, dansas clássicas, típica e regional; e sapateado, ensina a meninas de 3 e 12 anos de idade.

Belo Horizonte tem assistido, ultimamente, a espetáculos de rara beleza e graça, proporcionados pelas alunas desse curso. Ritmo e beleza, encantamento e raça, é o que temos presenciado, em diversas oportunidades, nas belas exibições que o “Curso Natália Lessa” tem oferecido á nossa sociedade.

Os clichês que ilustram estas notas, dão-nos uma idéia bem expressiva da educação física que a senhorita Natália Lessa proporciona, com notável eficiência, á infância da Capital.

O “Curso Natália Lessa”, pela relevante obra que realisa em Belo Horizonte, bem merece a simpatia da nossa população. (s.p.)

O texto, que descreve, caracteriza e qualifica o Curso, também contextualiza seu lugar na cidade e os efeitos positivos que essa professora proporcionava através de seu trabalho dedicado à infância na capital. A diversidade de práticas oferecidas; o direcionamento dado ao público feminino; a faixa etária a que se destina; a valorização da iniciativa delineia a intencionalidade pedagógica de Natália Lessa. A abordagem artística da dança, apesar da menção a uma escola de arte, não se evidencia no texto. São colocadas em relevância a “expressiva educação física”, a “verdadeira brasilidade”, o “ritmo, beleza e encantamento da raça” que, através de “belas exibições” à sociedade local, merecem a simpatia da população. A valorização da brasilidade estava presente nas danças regionais e folclóricas, importante abordagem para o período de implantação do Estado Novo no País, de apelo nacionalista. A junção da ginástica, das danças clássicas e do sapateado compunha um programa moderno, eclético; representava uma conciliação entre identidade e civilidade para a educação da infância feminina.

A relevância dada ao trabalho é defendida através da eficiência da professora, da qualidade das práticas vivenciadas e apresentadas pelo Curso e da identificação de uma proposta afinada como escola inovadora na capital. A menção ao fato de que Belo Horizonte, como as grandes capitais, também conta com uma escola de arte, saúde e beleza nos parece mais um indício para compreender a formação da própria Natália Lessa, que foi buscar no Rio de Janeiro um estágio em dança para ampliar seus conhecimentos.

A dança e a educação da feminilidade

O Rio de Janeiro, capital federal à época, constituía-se em referência nacional das inovações urbanas. Desde a década de 1920, professores de balé já tomavam iniciativas semelhantes na sociedade carioca. Nos idos de 1926, os professores e bailarinos Pierre Michailowsky e sua esposa, Vera Grabinska, russos que estavam trabalhando em Buenos Aires, resolveram fixar residência no Rio com a proposta de criar a primeira escola de bailados do Brasil, nos moldes das escolas europeias. A proposta de uma escola pública de bailados não obteve sucesso, devido ao desinteresse por parte dos órgãos públicos, mas os dois partiram para a criação de cursos de balé em clubes, onde atendiam moças da sociedade sem ambição de formação profissional. Segundo Roberto Pereira (2003), “no dia 13 de outubro de 1928, ele [Pierre Michailowsky] apresentou o primeiro espetáculo das alunas do Curso de Ginástica Plástica e Danças Clássicas, no principal palco da cidade” (p. 99).

Interessante notar que menos de dez anos antes da iniciativa de Natália Lessa em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, o formato de curso para moças envolvendo a ginástica e a dança já era desenvolvido e ocupava lugares de destaque cultural na cidade com apresentações no Teatro Municipal.

Em 1936, no lançamento do jornal O Esporte, em Belo Horizonte, como matéria de capa, intitulada “A Educação Physica entre as moças: o Esporte visita o curso “Nathalia Lessa”, são apresentados de forma elogiosa os avanços da Educação Física feminina na cidade, destacando com uma fotografia de meia página as alunas do Curso com a seguinte legenda abaixo da imagem: “Um expressivo flagrante das lindas jovens do Curso “Nathalia Lessa” colhido pela objetiva de O Esporte”, vinculando o Curso ao ensino da ginástica, com os dizeres:

Mas não vae só nisto todo o progresso das filhas de Eva na educação physica. Ellas se destacam com especial brilhantismo na gymnastica. Neste ramo da educação physica, conforme temos constatado, as moças da capital fazem grande progresso. Veja-se por exemplo as alumnas do Curso “Nathalia Lessa. (p. 5)

Essa foi a primeira publicação desse periódico que, em sua primeira página, apresentava o Curso como uma prática feminina de educação physica e gymnastica. No início de suas atividades, a proposta ministrada por Natália Lessa parece ainda não ter uma identidade firmada com a dança; a divulgação de suas práticas recebe forte menção à ginástica. Supomos que, a princípio, foi sua atuação docente na educação physica e na gymnastica, em locais de referência educacional e social na cidade, o Grupo Escolar e o Minas Clube, que proporcionaram a divulgação de sua proposta entre as elites da capital. Associando essas práticas às apresentações publicizadas, a dança parece ter sido uma construção ao longo do tempo no Curso Natália Lessa. A começar pelo próprio nome do curso. A especificação Curso de Dança Natália Lessa foi identificada com as fontes nos anos 1950; antes disso a referência era somente seu nome. Mas cabe ponderar também que essas práticas passavam por constantes ressignificações no período, recebendo inovações do campo científico e artístico e, mais do que se definirem ou se distanciarem, se comunicavam e se complementavam. Há que considerar que, na capital mineira, a incipiência das manifestações de dança no campo artístico não possibilitava ampla ambiência para comparações; restava à elite local, detentora de capital cultural e econômico, emitir parâmetros de comparação ou identificação de práticas possíveis ou já desenvolvidas com o intuito educacional para meninas. Esses parâmetros podiam ser identificados através das experiências de viagem ou do acesso a filmes, revistas e jornais de outras localidades. No Arquivo Público Municipal de Belo horizonte e na Hemeroteca, por exemplo, encontramos significativo número de revistas do Rio de Janeiro que trazem reportagens também sobre a dança na capital nacional5.

As práticas promovidas por Natália Lessa nos remetem à apropriação desses ideários em circulação sobre formas e possibilidades de se educar o corpo e a feminilidade. Ela oferece para parte da população, a elite local, potencialmente, uma metodologia de ensino e um espaço para o desenvolvimento da educação corporal de meninas em consonância com princípios higienistas e eugenistas. Apesar de essas questões já fazerem parte das prescrições e das práticas acerca da educação do corpo desde o século XIX em meio à implantação do Estado Novo, esses princípios foram reforçados nas noções de nacionalismo.

É na congregação de valores educacionais, eugênicos e estéticos que a relevância do curso é exaltada, como um meio possível, uma prática capaz e adequada para gerar uma representação social da cultura da feminilidade a ser cultivada nesse locus. Como argumenta Roger Chartier (2002), é nas apropriações que se configuram as representações materializadas no próprio corpo e, nesse caso, apropriar-se dessas práticas era um imperativo de diferenciação para a formação cultural das futuras mulheres da capital mineira. A Revista Alterosa, ano X, n. 93, de janeiro de 1948, contextualiza a educação feminina e a cultura física na cidade:

Belo Horizonte, centro de cultura e civilização, possui educandários femininos que se recomendam ao conceito público da mentalidade moderna de seus dirigentes. Mens sana in corpore sano é a legenda fulgurante dêsses estabelecimentos de ensino, numa perfeita consonância com as mais aperfeiçoadas diretrizes educacionais em vigência nos centros culturais do mundo.

Compreendem os mentores do nosso ensino o elevado valor eugênico da cultura física no seu tríplice aspecto – o bailado, a ginástica e o esporte racional – como fator imprescindível da grandeza de nosso futuro racial. (pp. 94-99)

Os discursos em circulação e as práticas oferecidas por Natália Lessa parecem provir da mesma matriz. A dança, ou os bailados e a ginástica, aparecem atrelados à educação corporal da feminilidade, que se revela nesses discursos como a possibilidade de aquisição de graça, beleza, saúde e eugenia.

Fonte: Acervo pessoal - Leonardo Lessa.

 Alunas no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, 1942. 

A vida social da mulher ao longo da história tem sido temática de intensas abordagens, em estudos clássicos que, dentre outros, resgatam o complexo processo de apropriação dos espaços públicos pelas mulheres, como um ponto de tensão no qual ao mesmo tempo em que aconteciam algumas emancipações, eram desencadeados discursos oriundos de diferentes campos de saber em defesa das restrições ao sexo feminino. O papel da mulher na sociedade passava por revoluções influenciadas pelos hábitos modernos incorporados dos países europeus, principalmente da França, dos quais a formação cultural feminina também recebeu estímulo. Como apresenta Silvana Goellner (1999), o desejo feminino deveria se resumir em: Ser Bela, Maternal e Feminina. E essa feminilidade foi subsidiada por uma estética corporal a ser aprendida. Não se tratava de simplesmente vestir o figurino, mas também postar-se nele. E a dança é constantemente referenciada na imprensa e nos programas de ensino como uma prática capaz e adequada à educação feminina.

Há, nas primeiras décadas do século XX, um terreno nebuloso que legitima novos territórios femininos na sociedade moderna, mas que adverte também a todo tempo sobre os perigos e os riscos desse processo em prol do equilíbrio social dependente da mulher progenitora e educadora (Louro, 2001).

A escolarização das meninas continuava assim sendo uma solução viável e propícia para atender amplamente à população e garantir a inculcação desses ideários sociais (Durães, 2002). A educação social e escolar deveria “moldar” a menina, tendo em vista sua pouca intimidade com a vida e os espaços públicos, e o já citado equilíbrio necessário a uma conduta honesta e respeitável, facilmente corrompida pelos excessos advindos da intensidade do moderno.

Em 1944, na Revista Brasileira de Educação Física, a professora Maria Helena Pabst de Sá Earp, catedrática de Ginástica Rítmica da Escola Nacional de Educação Física e Desportos da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, escreveu em defesa do potencial educacional das atividades rítmicas: “As atividades rítmicas que se consideram sob um ponto de vista educacional são a Ginástica Rítmica, as Dansas Naturais, livres, modernas ou nova dansa e as Dansas Características, regionais ou folklóricas” (p. 22). Há uma compatibilidade entre essas orientações e os conteúdos oferecidos por Natália Lessa em seu Curso. Dentre os vários conceitos e orientações sobre as atividades rítmicas, a ginástica e a dança, a professora expõe:

A Educação é o equilíbrio entre a absorção de impressões e experiências e a sua manifestação ou expressão. A dansa se enquadra nesta definição, mais do que qualquer outra arte; porque serve para todos os fins do desenvolvimento individual: ajuda a desenvolver o corpo; estimula a imaginação e agita o intelecto; contribui para se cultivar a beleza, aprofunda e purifica a natureza emocional. Entretanto, a diferênça existênte entre a dansa natural como arte pura, e a dansa natural como objetivo educacional não é claramente percebida como acontece entre duas atividades diferentes.

O papel do educador é justamente conhecer estas diferênças e aplicá-las convenientemente, no sentido de prover o aluno da capacidade de conhecer a si mesmo, as experiências estéticas e o seu próprio potencial de criação. Si se ampliar esta escala de valores, aplicando-se na produção espetacular, teremos um dansarino. Si for restringida a uma análise, a uma explicação, a um treinamento de possibilidades, a uma adaptação física, teremos um homem física, emocional, intelectualmente formado, sem ser necessariamente em dansarino. Possuirá coordenação, desejo de cooperação, mentalidade criadora, capacidade de colher e transmitir impressões ligando deste modo a vida com a arte, num sentimento puro ou quimicamente puro como diz Huxley. (p.25)

A apropriação da dança em seu potencial educativo, como propõem Pierre Michailowisky no Rio de Janeiro e Natália Lessa em Belo Horizonte, é legitimada e diferenciada da formação profissional nesse artigo. Helenita Sá Earp destaca importantes questões para o ensino da dança com objetivos educacionais. Uma delas diz respeito ao papel do educador, que deve conhecer as diferenças entre a formação na dança como arte pura, geradora do dançarino, e a dança com objetivo educacional. Caberia ao professor conhecer essas diferenças e aplicá-las em diferentes escalas, promovendo no aluno a capacidade de conhecer a si mesmo, de ter experiências estéticas e explorar seu próprio potencial de criação para o desenvolvimento saudável e da intelectualidade. Tais atitudes se revelam ao longo da trajetória de Natália Lessa na caracterização metodológica de suas práticas.

Essas reflexões nos levam a pensar que os conhecimentos advindos da Pedagogia e da Educação Física, que fizeram parte da formação inicial de Natália Lessa, na escola Normal, na escola de Aperfeiçoamento e na Inspetoria de Educação Física, creditaram condições metodológicas de ensino diferenciadas a ela. Além de seu contínuo exercício docente na Educação Física, no Grupo Escolar, espaço de acessibilidade às inovações pedagógicas na educação mineira, como, por exemplo, a instauração de propostas escolanovistas a partir de 1927, com a Reforma Francisco Campos.6 A dança a ser ensinada às elites mineiras da capital não se propunha à formação artística, assim como Natália Lessa também não era referenciada como artista. A menção ao seu nome é sempre a de professora e educadora; e suas práticas, relacionadas à educação das meninas e não a uma formação artística. Não temos indícios de aperfeiçoamento técnico ou de formação profissional advindas de seu curso. Pelo contrário, a ênfase dada é à intenção educativa que não avança a idade adulta das alunas, nem as direciona a uma carreira artística.

A expressão criativa era uma atividade constante no curso, como exercício e como parte dos concursos coreográficos internos entre as alunas. Esta metodologia de Natália Lessa, em sua proposta de ensino, inspira pensar nas “frestas” possibilitadas por esse espaço de educação feminina. De como liberdades de expressão puderam conviver concomitantemente aos controles, à seriedade e à rigidez que faziam parte das características da professora e de suas práticas, mas também dos princípios morais da localidade. O espaço destinado à complementação da formação de meninas das elites mineiras da capital era sério, mas permitia liberdades, ainda que vigiadas; expressões femininas de uma infância. Essa parte não é comentada nas divulgações do Curso. São as falas das alunas que resgatam a memória dessas práticas no interior dele.

Considerações finais

Em 1960, após 26 anos de criação do Curso, em funcionamento ininterrupto, mais uma vez ele é caracterizado a partir de sua história e de suas intenções educativas. No jornal O Diário, publicou-se um texto, acompanhado por uma fotografia com apenas uma menina, de uniforme (colant, meia calça e sapatilha), com a perna flexionada sobre a barra, fazendo um cambré derrièrré7, fotografada do alto. A matéria está dividida em tópicos com subtítulos, dentre eles o texto a seguir:

Finalidade Educativa Do Curso

O Curso Natália Lessa foi fundado há 26 anos. Ensina danças de vários tipos, inclusive folclóricas, e passos de ballet. Apesar de ter sido o primeiro curso a usar em Belo Horizonte de técnicas como da “pontinha” até hoje não formou nenhuma bailarina profissional. - “Esta não é nossa intenção” afirmou-nos D. Natalia Lessa. “O que procuro é fornecer elementos para que as crianças tenham maior desenvolvimento, graça a sociabilidade. Sempre tive vontade de ensinar danças. Para isso fiz um curso de oito anos: com o Professor Sacha Fischer e estive também no Rio, em período de estágio. Minha obra tem, portanto, finalidade essencialmente educacional. Para isso procuro formar um meio cristão e social. As meninas podem dançar em qualquer lugar. Já se exibiram, inclusive, para o Santíssimo, diante da Igreja da Boa Viagem”. (p. 5)

Dentre as tradições da família mineira, a religiosidade compõe outra referência de significância para as práticas da professora. Em todos os relatos registrados por esta pesquisa, Lessa é identificada como mulher religiosa, dedicada, frequentadora assídua da Igreja católica e praticante da caridade. Mas, para além do referencial educacional que acompanha toda sua carreira, a socialização das alunas, a aquisição de graça e desenvolvimento aparecem como uma justificativa que é trabalhada perante sua crença nos princípios morais e religiosos da Igreja católica. Uma característica apreciada pela sociedade local do período. Sua vinculação religiosa também era expressa nos aniversários do Curso, onde criou e manteve a tradição de realizar uma missa comemorativa, da qual participavam as alunas e os familiares.

A aceitabilidade e o sucesso de Natália Lessa, que tornou seu nome conhecido e seu trabalho reconhecido, ocorreram em meio a um conjunto de características relacionadas à sua personalidade e à maneira como desenvolvia seu trabalho8. Mulher discreta, comportava-se socialmente de forma adequada ao que se esperava de uma professora de sua geração. Detentora de um comportamento exemplar, próprio do conservadorismo mineiro, era uma professora de boa índole, respeitadora da moral e dos bons costumes em relação à religiosidade e ao recato feminino. Pertencia ao grupo das mulheres que não deveriam exercer sua sexualidade, pois não se casara; gastava suas energias no ofício da docência. Não frequentava lugares públicos, com exceção da Igreja e dos eventos sociais familiares. Bares e festividades boêmias não faziam parte de seu cotidiano. Extremamente dedicada ao trabalho, ela agregava o ideário das qualidades pertinentes a uma professora de seu tempo, que, além de seu competente trabalho, também podia oferecer seu exemplar comportamento feminino de celibatária.

Na proposição de lei (1986, n. 300-86), que nomeia uma via pública com seu nome em Belo Horizonte, no ano de 1986, essas características são exaltadas no texto que acompanha o documento: “Na sua conhecida modéstia que toca a humildade cristã ela jamais se envaideceu com os sucessos de suas apresentações sempre muito concorridos e aplaudidos”. Foi sobre essas referências positivadas pela sociedade belo-horizontina, e atestadas pela rede de sociabilidade criadas a partir do Curso, e demais locais de trabalho, que seu nome abarcou a representatividade da proposta educacional que desenvolvia.

Natália Lessa foi detentora de uma inovação nessa localidade, de uma proposta de ensino para meninas que se estabelecia em outras ambiências, mas que chegou a Belo Horizonte por sua iniciativa. Havia um conjunto de valores engendrados a essas práticas, o que possibilitava a aquisição de muitas das prescrições em circulação do que seria uma boa educação para formação da mulher moderna na capital mineira. Assim a trajetória de Natália Lessa nos desafia a pensar e a problematizar como o ensino da dança em Minas Gerais se imbrica aos processos de construção de uma feminilidade ancorada em tradições sociais, pensada desde a infância, e bombardeada por ideais modernizantes. Captar esses indícios da experiência sensível de um indivíduo também exige das pesquisadoras o trabalho de contextualização múltipla. Nesse sentido, articulamos discursos acerca da localidade, dos pensamentos pedagógicos, dos ideários sociais sobre a feminilidade e a educação do corpo em circulação nas décadas de 30, 40 e 50. Caminhamos sob orientação do pensamento de Jacques Revel (1998), de que cada ator histórico, como é o caso de Natália Lessa nesta pesquisa, está envolvido e participa do todo, se inscrevendo nesse contexto, de maneira próxima ou distante, nos processos de dimensões variáveis, indo do mais local ao mais global. Para o autor,

o que a experiência de um indivíduo, de um grupo, de um espaço permite perceber é uma modulação particular da história global. Particular e original, pois o que o ponto de vista micro-histórico oferece à observação não é uma versão atenuada, ou parcial, ou mutilada, de realidades macrossociais. (p.28)

Assim sendo, a lente objetiva desta pesquisa buscou realizar uma análise mais restrita, mas em comunicação com o global; que caminha junto com a biografia de Natália Lessa, mas que não se restringe a ela, ampliando a lente para identificação de detalhamentos da trama referentes às experiências coletivas possibilitadas, produzidas e originadas em sua experiência individual.

O Curso foi uma nova atividade que, em suas primeiras décadas de funcionamento dentro do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, gerou poucos estranhamentos. O ensino proporcionado por Natália Lessa representava seguramente formas de educar já legitimadas pela escola e de condutas disciplinares e morais reconhecidas e apreciadas pela sociedade local. A criação do curso, em 1934, foi uma inovação na cidade que, com o passar dos anos, firmou-se como tradição local. Nada que pudesse incomodar a moral e os bons costumes mineiros, mas reforçar e ampliar valores importantes para a rede de sociabilidade a ela ligada e formada fundamentalmente pelas elites locais.

A dança, no período analisado, foi divulgada por artistas, professores, intelectuais, sob a ótica da saúde, como uma prática corporal segura, adequada ao desenvolvimento corporal da mulher. Uma prática capaz de proporcionar a aquisição da graça feminina, do corpo saudável, e da disciplina necessária para bem se portar socialmente e cumprir a função da maternidade. Os princípios ensinados pela dança foram compreendidos como códigos de civilidade e adaptadores úteis para os novos tempos femininos. Natália Lessa, a seu modo e condições, proporcionou em seu Curso uma dança de múltiplas expressões junto com a ginástica, em consonância aos discursos dominantes na cultura e na educação. Contemplando arte e ciência, educação estética e educação física, ela investiu na dança como expressão de feminilização de suas alunas, apresentando à sociedade local suas meninas graciosas, saudáveis e belas.

1Apoio: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG)

2São obras de referência historiográfica para este artigo: Pereira, R. (2003). A formação do Balé brasileiro; Alvarenga, A. L. de (2009). Klauss Vianna e o ensino de dança. uma experiência educativa em movimento (1948-1990); Cerbino, A. B. F. (2001). Nina Verchinina. um pensamento em movimento; Seminários de Dança (2008). Coletivos de autores: História em movimento. biografias e registros em dança. Personalidades da Dança em Minas Gerais (2010); Chaves, E. (2002). A escolarização da dança em Minas Gerais (1925-1937); Alvarenga, A. L. de (2002). Dança moderna e educação da sensibilidade. Belo Horizonte (1959-1975); Cerbino, A. B. F. (2007). Ballet da Juventude. entre a tradição e o moderno.

3Referimo-nos aos relatos de familiares e ex-alunas, que estão registrados a partir de 11 entrevistas realizadas para esta pesquisa em 2011 e 2012 e de outras quatro publicadas na coletânea Missão Memória da Dança – Natália Lessa, prazer de dançar e no banco de dados do projeto: História dos artistas mineiros – Dança, do Núcleo de História oral da FAFICH/UFMG (entre 1999 e 2002). A seleção e a identificação de fontes para realização desta pesquisa contou com um conjunto de “pistas” identificadas em duas obras. Alvarenga, A. L. de. (2002). Dança moderna e educação da sensibilidade: Belo Horizonte (1959-1975). Dissertação de Mestrado em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, onde a primeira citação acadêmica sobre a professora Natália Lessa no cenário da história da dança mineira aparece. E na biografia escrita por Glória Reis, como parte da coletânea Personalidades da Dança em Minas Gerais, vinculada ao Projeto Missão Memória da Dança no Brasil: Reis, G. (2010). Natália Lessa, uma vida para dança. Belo Horizonte.

4Importantes contribuições para este tema podem ser encontradas em Goellner (2003), Campos (2009), Schpun (1999) e em Maluf e Mott (2008)

5No recorte temporal da pesquisa, foram identificados os periódicos Revista Para Todos, Carioca, O Cruzeiro, com menções aos acontecimentos artísticos no Rio de Janeiro e algumas poucas reportagens sobre a dança no Teatro Municipal ou nos Teatros de Revista.

6Foi a Reforma Francisco Campos, em 1927, que legalmente implantou a proposta escolanovista em Minas Gerais. A Reforma almejava a modernidade pedagógica, englobando o avanço científico e tecnológico em diferentes áreas que compõem o universo pedagógico.

7Movimento do balé clássico: inclinação do tronco para trás.

8Roberto Pereira (2008), historicizando os nomes próprios da dança brasileira, chama a atenção para como, na virada do século XX, a ideia de uma dança que ganha nomes próprios, que leva o nome do bailarino ou do coreógrafo, toma novas dimensões. O nome é atado à dança como uma identidade, uma referência

Referências

Fontes

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Recebido: 02 de Setembro de 2016; Revisado: 09 de Fevereiro de 2017; Aceito: 21 de Abril de 2017

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