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Pro-Posições

versão On-line ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.29 no.2 Campinas maio/ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1980-6248-2017-0043 

LEITURAS E RESENHAS

Um estudo lapidar sobre mídia e Educação

Ezequiel Theodoro da Silva(i) 
http://orcid.org/0000-0002-6955-2036

Ludimar Pegoraro(ii) 
http://orcid.org/0000-0001-8824-5077

(i)Universidade Alto Vale do Rio do Peixe - UNIARP, Caçador, SC, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-6955-2036, silvasilva1948@gmail.com, emarthi@outlook.com.br

(ii)Universidade Alto Vale do Rio do Peixe, Caçador, SC, Brasil. https://orcid.org/0000-0001-8824-5077, pegoraro1963@hotmail.com

Paula, E. L. R.. 2016. Mídia e escola - Um estudo de recepção de reportagens de telejornal em sala de aula. 227p. Curitiba, PR: Appris,

Àqueles que desejarem conhecer um rigoroso exemplo de investigação qualitativa a respeito da interface mídia-Educação recomendamos, com todas as letras, a leitura deste livro. De fato, tendo como indagação básica saber como um grupo de estudantes reage a reportagens televisivas, o autor produz um trabalho quase perfeito de pesquisa. A obra em si representa um primoroso relatório, focando o desvelamento da presença – maior ou menor – do telejornal, com alunos de uma escola do estado do Paraná.

Além de um precioso prefácio (escrito pelo pensador Guillermo Orozco), de uma apresentação e um prólogo, o livro apresenta os seguintes capítulos: “Os fios que tecem a rede”; “Comunicação e educação: fundamentos e interconexões”; “Recepção de reportagens em sala de aula”; “Recepção e mediação na escola”; e uma parte de arremates, onde o autor delineia novos cenários para essa complexa relação. A bibliografia referenciada é extensa, com destaque a obras provenientes das esferas da Educação (escola) e da mídia (telejornal). Ainda dentro da parte estrutural, cabe destacar que se trata de um texto bem sequenciado, com linguagem lapidada, citações bem colocadas e revisão adequada – exceção feita à maioria dos gráficos, cuja legenda era colorida e passou a duas cores, dificultando, de certa maneira, o seu entendimento.

Fundamentando a importância de um estudo crítico sobre interconexão entre as duas áreas estudadas, à página 59 o autor diz que

a aproximação entre os campos Educação e Comunicação apresenta um espaço profícuo de atuação para a pesquisa e para o desenvolvimento educacional. São dois campos onde circulam saberes. Em sua gênese, em suas instituições, cada um tem uma lógica própria de produção e existência. Contudo seus efeitos e influências estão presentes nos mesmos espaços sociais. Escola e mídia são produtoras de sentidos, propagadoras de padrões e fazem parte da grande teia que compõe a sociedade.

O eixo em torno do qual se movimenta a investigação é a busca de conhecimento sobre como estudantes do Ensino Fundamental recebem, em sala de aula, as reportagens de telejornal no contexto de um projeto que aproxima televisão e Educação, ambas tomadas como agências produtoras de sentido. Assim, boa parte do livro é dedicada ao detalhamento ou esmiuçamento dos pontos em que essas duas entidades se cruzam e se apresentam, por isso mesmo, como mediadoras de aprendizagem. Daí que se procure na teoria das mediações, tecida principalmente por Guilherme Orozco Gomes e Martin Barbero, e da pedagogia libertadora de Paulo Freire, as lentes através das quais aborda as duas realidades em cruzamento. Os sustentáculos para o delineamento metodológico da investigação, essa qualitativa em sua natureza, foram buscados em Michelle Lessard-Hébert, Gabriel Goyette e Gérald Boutin (p.29).

O autor jamais perde de vista, no desenrolar dos capítulos, a sua pergunta básica, qual seja “Como os alunos recebem as reportagens do telejornal quando mediados pela escola e pelo professor? ”. Dessa maneira, o leitor é capaz de acompanhar as ideias sem se perder no emaranhado de conceitos que sustentam a arquitetura da obra. Fica mais fácil entender, por exemplo, que o interesse não se dirige para a mídia usada como um recurso didático na escola e muito menos para a mídia como um instrumento de análise crítica da realidade, mas sim para a mídia na sua integridade como um canal de expressão em sociedade. Quer dizer, o autor quis preservar na sua completude a linguagem e os mecanismos de produção do telejornal, sem torná-lo postiço ou didatizado, quando levado para o contexto escolar. Assim, o que se busca realmente é o tipo de apropriação que a escola, através do professor, faz dos conteúdos televisivos e as aprendizagens daí decorrentes. Esse objetivo é assim realçado pelo autor:

Tendo em vista a recepção como um processo culturalizado e mediado, cujo resultado está na produção de sentidos entre os sujeitos-audiência, é em busca dessas compreensões que este livro se lança. Parte-se do gênero televisivo telejornal, por meio das exibições de suas reportagens no espaço de sala de aula, mediadas pela ação institucional da escola e pela ação pedagógica do professor, tendo os estudantes como principais representantes da categoria sujeitos-audiência. (p.91)

Além de uma retrospectiva histórica do surgimento, do desenvolvimento e da penetração da televisão no Brasil, o autor apresenta uma meticulosa revisão sobre os estudos que analisaram os usos da televisão pela escola, mostrando que a quantidade é relativamente pequena e que muitas das dinâmicas das interfaces entre televisão-escola ainda estão por ser descobertas pelas investigações científicas. Afirma o autor: “há uma carência quando o assunto é estudo de recepção de reportagens de telejornal, e uma lacuna ainda maior quando se segue a perspectiva de escola e professor como mediadores da recepção em sala de aula” (p. 101). De certa maneira, essa situação precária na esfera da pesquisa pode ser considerada drástica, na medida em que a televisão no Brasil não se apresenta apenas como um veículo para entretenimento das massas, mas sim como um imenso complexo que fornece códigos e modelos de conduta para todos os brasileiros, em que pese a forte penetração da internet nos últimos tempos.

Foi utilizado o Projeto Televisando (RPC-Ponta Grossa, PR) para esquadrinhamento da realidade pretendida. A história desse projeto é recuperada, mostrando os seus objetivos, os seus métodos e os altos índices de participação das escolas da região. São selecionadas três reportagens (“Colheita e venda de pinhão movimentam o centro-sul do Paraná”; “Televisando 2015: em Ponta Grossa escolas se conectam para interação entre alunos”; e ”Televisando: crianças aprendem a cuidar de uma horta no computador e na vida real”) para observação do grupo de estudantes. Também nessa parte se percebe mais nitidamente o cuidado metodológico do autor, analisando a estrutura das reportagens e as recepções, não perdendo de vista a grade de matrizes teóricas com que trabalha. Assim, os telejornais são dissecados, as reações dos estudantes são explicitadas, os efeitos de sentido são revelados numa demonstração objetiva de um completo domínio das ferramentas da pesquisa qualitativa.

Uma das principais conclusões da investigação diz respeito à secundarização dos conteúdos dos telejornais quando entra em jogo a mediação feita pelos professores. De fato, “a pesquisa ... identificou certa lateralidade da atuação dos alunos, que deveria ser central. Isso revela que, embora ainda possam estar caracterizados entre as audiências, diante das circunstâncias da recepção os estudantes não foram os protagonistas do processo ” (pp.218-219); por outro lado,

os sentidos atribuídos, por não serem qualquer audiência e estarem condicionados, passam pela ação pedagógica docente, que escolhe, sem a participação da turma, as reportagens que serão assistidas. Dita as regras de televidência e define as características da ritualidade – que por vezes está voltada a mostrar o empenho da escola em promover a exibição das reportagens, outras vezes demonstrar a importância da sua compreensão para os alunos. Dá os encaminhamentos nas tarefas da apostila ou outras que complementem suas informações. (p. 219)

Arriscamos uma interpretação desse fenômeno, asseverando que a mediação docente, por didatizar os conteúdos televisivos, empobrece, ao invés de enriquecer, o processo de construção de sentidos. Esse processo de descaracterização acontece também no ensino da literatura: ao invés de propor a fruição das obras literárias, a escola cria uma série de pretextos didáticos e se desvia daquilo que é principal.

Não nos resta dúvida de que vivemos, hoje, num mundo mediado por múltiplos veículos (televisão, internet, rádio, etc.) e linguagens (verbais, imagéticas, sonoras, gestuais, etc.). As mediações múltiplas possibilitam aprendizagens constantes e diversificadas. Dentro desse mosaico midiático complexo, a escola não perde a sua função, mas se coloca ao lado de outros meios capazes de levar os indivíduos ao conhecimento. Isto posto, ganha maior significação a seguinte colocação de Orozco, citada pelo autor às páginas 73 e 74:

O ensino é restrito, a aprendizagem é aberta, quase interminável. O aprender não depende unicamente do ensinar, pois se aprende de muitas maneiras: pela descoberta, pela tentativa e pelo erro, tanto ou mais do que como resultado de algum ensinamento. .... É preciso romper com esse monopólio e crença generalizada de que educação só tem a ver com o escolar. Esse seria o caso dos meios de comunicação de massa e, hoje, das diversas tecnologias e das redes sociais que, sem reconhecer-se educadores, estão educando, e o produto de sua educação é o polêmico, pelo menos, e nem tudo o que conseguem vale a pena. Tampouco é essencial ou necessário, mas nem por isso inexistente.

Everton Luiz Renaud de Paula, que conjuga em sua formação conhecimentos de Filosofia, Educação, Administração e Empreendedorismo, nos brinda com uma obra de muito fôlego teórico-prático. O livro deveria ser leitura obrigatória para professores formados e aqueles em formação, preocupados com as transformações midiáticas dos tempos atuais – tempos que reclamam por novas atitudes e comportamentos docentes no sentido de transformar, para melhor, o ensino proposto nas escolas e chegar a um patamar de qualidade social em que todos, indistintamente, possam compreender e compreender-se no complexo mundo multimidiático em que estamos vivendo.

Referências

Paula, E. L. R. (2016). Mídia e escola - Um estudo de recepção de reportagens de telejornal em sala de aula (227pp.). Curitiba, PR: Appris [ Links ]

Recebido: 11 de Março de 2017; Aceito: 20 de Março de 2017

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