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Physis: Revista de Saúde Coletiva

Print version ISSN 0103-7331

Physis vol.13 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312003000100006 

OTHER THEMES

 

Psicanálise modernista no Brasil: um recorte histórico1

 

Modernist psychoanalysis in Brazil: a historical approach

 

 

Cristiana Facchinetti2

 

 


RESUMO

O presente artigo partiu do pressuposto de que o discurso psicanalítico é sempre apropriado por um intérprete que se filia a uma tradição histórica e cultural. Nesta perspectiva, a produção de subjetividade, que tem lugar na clínica psicanalítica, será marcada por essa tradição privilegiada pelo analista. Assim, julgou-se de grande relevância a investigação das vias discursivas de entrada da psicanálise no Brasil, indicando os pontos de ancoragem da mesma na cultura e na história locais. Com este intuito, traçou-se o processo de urbanização e modernização do Brasil no início do século XX e a entrada da psicanálise em um campo de forças divergentes. Encontrou-se um embate pela hegemonia discursiva entre duas leituras que se constituíram como antagônicas e inconciliáveis, e que levaram a dois modos distintos de uso instrumental da psicanálise: de um lado, o discurso psiquiátrico-higienista, com sua leitura reformista e universalizante da psicanálise; de outro, o discurso da vanguarda modernista, com a leitura da subversão dos códigos estabelecidos e da busca de singularidade. Ambos se constituíram no rastro da busca de forjar o brasileiro que se desejava. Este trabalho percorre o viés da psicanálise modernista, com sua utilização singular para a análise da cultura e das subjetividades, bem como sua função de construção de novos mundos.

Palavras-chave: Brasil; história; psicanálise; modernismo.


ABSTRACT

The current article's basic premise is that psychoanalytic discourse is always appropriated by an interpreter thereof who belongs to a historical and cultural tradition. From this perspective, the production of subjectivity in psychoanalytic practice is marked by the analyst's prime tradition. Thus the major relevance of investigating the discursive routes by which psychoanalysis entered Brazil, identifying its anchoring points in local culture and history. The article thus outlines the urbanization and modernization process in early 20th-century Brazil, together with the entry of psychoanalysis in a field of divergent forces. What occurred was a struggle for discursive hegemony between two antagonistic and irreconcilable readings: on the one hand, psychiatric-hygienist discourse with its reformist and universalizing reading of psychoanalysis; on the other, that of the modernist vanguard, with a reading that subverted established codes in the pursuit of singularity. Both were constituted in the wake of a quest to forge what was viewed as the desired Brazilian. This study covers the modernist psychoanalytic bias, with its unique utilization in the analysis of culture and subjectivities, as well as its role in the construction of new worlds.

Keywords: Brazil; history; psychoanalysis; modernism.


 

 

1. Introdução

Investigar a entrada do discurso psicanalítico no Brasil implica contemplar o amplo horizonte de nossa história cultural. Essa imposição se coloca necessariamente, uma vez que compreendemos que o sucesso histórico da psicanálise no Brasil, como pensamento e prática, dependeu de sua associação a campos discursivos já estabelecidos. Afirmamos, deste modo, que a entrada do discurso psicanalítico dependeu de agentes que o reconhecessem como um discurso que poderia responder de forma nova às questões que circundavam os processos sociais brasileiros. Além disso, sua permanência e plausibilidade em nossa cultura dependeram de pontos de sustentação e de confirmação de sua validade no meio médico, social e cultural.

Neste trabalho, o foco a ser examinado é a apropriação modernista dos conceitos psicanalíticos: deseja-se demonstrar de que modo eles foram chamados a interpretar a sociedade e suas formas de subjetivação a partir desse viés realmente singular.

 

2. O Homem de Letras: do século XIX ao XX

A literatura no Brasil constituiu fenômeno de grande poder social, servindo, durante um longo período, de instrumento de influência da Inteligentsia nacional. A força de tal autoridade deveu-se, principalmente, a uma seqüência de motivos. O primeiro, mais conhecido, originou-se na colonização portuguesa - em especial, na educação jesuítica e na manutenção da França como modelo -, que manteve o prestígio das humanidades clássicas.

O segundo fator decorre da busca de se construir o sentimento de pátria e de unidade entre os brasileiros no século XIX. Inspirada no romantismo alemão, a literatura foi confirmada então como o campo de saber que mais informava o Volkgeist, o corpo simbólico do Estado-Nação (Moraes, 1999). Deste modo, a partir do Segundo Reinado, o homem de letras passou a ter a missão de elaborar a nacionalidade brasileira, sendo o patriotismo o pré-texto que dava legibilidade às obras literárias. Tal literatura deveria reunir sentimentos e bens culturais capazes de fazer ressoar uma imagem de visão naturalista, harmônica e sem tensões do Brasil e de seus habitantes.

Como último elemento importante a se enfatizar neste trabalho, o longo período de escravatura e a conseqüente cultura escravocrata não podem ser esquecidos quando vamos tratar da dificuldade de acesso à especialização. A tentativa imperial de construir escolas profissionalizantes e de incrementar o ensino técnico, por exemplo, fracassou durante muito tempo, prevalecendo a valorização das letras em detrimento das profissões "úteis", consideradas de menor status por estarem relacionadas às atividades manuais, mecânicas e à técnica, tarefas essas referidas à matéria impura e ao trabalho forçado dos escravos.

A partir de 1850, entretanto, abriu-se uma rachadura entre aqueles que principiavam a discutir a escravatura e os que mantinham o discurso naturalista, que defendia a manutenção das oligarquias rurais. A geração de 1879 radicalizou o corte, afirmando um novo liberalismo democrático marcado pelas idéias positivistas e antiescravistas de Comte que propunham, em nome da verdade sustentada pelo rigor científico e pela crítica, a superação da ficção romântica para a definição da realidade brasileira.

Por trás da nova proposta, estavam as filosofias da história positivista e darwinista social; fixava-se, também, uma mentalidade evolucionista, que pensava a história como uma força implacável que comandava os homens. De acordo com esse ponto de vista, o homem precisava civilizar-se (i.e., europeizar-se), para ascender ao privilégio de modificar os fenômenos através de seus artefatos, construídos ao longo do tempo. O desenvolvimento seria então o equilíbrio e controle da força, produto exclusivo de povos desenvolvidos.

Neste cenário, a obra realista, concomitantemente literária, científica e de cunho social, cumpria agora a função de demonstrar os impasses para o desenvolvimento do país e explicitar as soluções. Euclides da Cunha (1902) espelha justamente essa direção em Os Sertões. A sociedade brasileira, caracterizada pela integração não-funcional de seres humanos muito primitivos, de agir impulsivo e irracional, precisaria passar por grandes transformações para ser capaz de submeter-se a uma organização política mais evoluída, isto é, que exigisse ordenação, regras, racionalidade e reflexão.

Todavia, como o progresso era considerado uma conseqüência da memória nacional e do acúmulo de experiências, o Brasil deveria, um dia, alcançar o desenvolvimento e a evolução necessários à construção de uma civilização nos trópicos. Para atingirmos o ápice da civilização humana e encontrarmos nosso verdadeiro destino, precisávamos, porém, transpor o grande obstáculo. Nomeado agora como luta entre as raças, o obstáculo redefinia o problema gerado pela abolição da escravatura.

Do darwinismo tomou-se a noção de seleção natural e se acrescentou um conteúdo racial, biologizando a história e elaborando a teoria do desequilíbrio essencial do homem mestiço, portador de contrastes raciais e expressão do princípio geral das transformações sociais. A superação desse empecilho passava a estar associada ao fim das trocas sexuais inter-raciais, produtoras da barreira à evolução das raças. O mestiço se tornara a figuração mor do obstáculo à civilização (Rodrigues s.d.).

A chegada do século XX encontrou ainda o entrelaçamento entre literatura, crítica e ciência, alinhado à tradição de ensaios sobre o Brasil, principalmente de base sociológica3. A ruptura com o naturalismo rumo à ciência não mudou esse horizonte: o pensamento científico também foi marcado pela retórica, pela preocupação com a linguagem, pelo preciosismo e o gosto pelas formas arcaicas do dizer.

É fato que, paulatinamente, o prestígio das profissões ganhava força. A importância adquirida pelos engenheiros com as modernizações promovidas pela administração de Pereira Passos e o processo de higienização, levado a cabo por Oswaldo Cruz na cidade do Rio de Janeiro, repercutiram em todo país. Ainda assim, a literatura não foi deixada de lado, servindo de instrumento para aumentar a autoridade desses profissionais em e para além das fronteiras restritas das profissões.

 

3. Pensamento Social Modernista

A maioria da intelectualidade nacional continuava, no início do século XX, a reafirmar a idéia de trazer a modernidade para iluminar o país e transformá-lo em uma civilização. Para tanto, apostava-se no padrão universalista e biologizante que a medicina havia estabelecido, pautado na questão racial e na aculturação ao modelo europeu. Mas parte dos homens de letras resistia ao processo acrítico de modernização, fazendo balançar a estrutura das verdades e aumentando a rachadura do edifício da inteligência nacional, rachadura essa que havia sido introduzida, no século XIX, pelos realistas e românticos.

A Primeira Guerra Mundial sacudiu ainda mais esse arcabouço, por desequilibrar de maneira mais violenta a imagem da Europa. Fomos pegos de surpresa pela barbaridade de uma guerra provocada por aqueles que eram nosso modelo de civilização. A sociedade urbana brasileira teve de encarar a vacilação de suas referências e vínculos tradicionais. Auxiliados pelos europeus que, com sua vanguarda, abriram uma discussão continental a respeito do estatuto de civilização, do belo e do bem, parte do velho mundo desabou, abrindo uma fenda para o novo. O que seria o Brasil sem o modelo europeu?

Quando a sociedade assume a perda da estabilidade das referências e se permite romper com a tradição (não custa lembrar que é nessa época que surgem o primeiro movimento feminista no país, a luta pelo voto, a organização dos sindicatos e outras mudanças nos costumes da população que se tornava mais fortemente urbana), acaba por se permitir um novo modo de olhar o país.

Vai-se alinhavando um discurso encorpante, produtor de singularidade e densidade subjetiva, relacionado à perda das certezas a respeito dos valores, da verdade e do si mesmo, e que acabaria por dar origem a um sujeito com uma crise de identidade crônica (Berger, 1975), resultante da falta de referências externas capazes de servirem de modelo. Por sua vez, é esse o sujeito que pode permitir a validação da psicanálise na sociedade urbana brasileira do início do século XX.

A nova perspectiva impulsionou um movimento de questionamento da consciência e da unificação nacionais, sendo denunciados os seqüestros4 que mantinham o pensamento brasileiro colonizado e imóvel. Por sua vez, esse processo permitiu a abertura para uma visão sobre o país marcada por forças econômicas, políticas e sexuais como produtoras de verdades, em um universo de possibilidades referido ao trio indicado por Oswald de Andrade (1992): Marx, Nietzsche e Freud.

Vale frisar que essa visão não se limitou ao campo da literatura brasileira, abrindo-se para diversos campos da interpretação sobre o Brasil e/ou o brasileiro. O modernismo surgiu e ampliou suas bordas para fora do movimento literário, estabelecendo-se como consciência crítica da modernidade. A cultura modernista promoveu "uma inversão dos eixos", "onde os reinos do eu e da razão são postos em questão" e a dispersão se instaura (Birman, 2000, p. 113-7).

Vejamos como Mário de Andrade, julgando não a Semana, mas o movimento em seu processo e amplitude, indica tal fato:

"Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional" (Andrade, M., 1943, p. 23.)

Destarte, os intérpretes modernistas passaram a julgar a cultura e sua história como um campo sempre provisoriamente definido pelos processos sociais. Vale dizer, o retorno ao passado passou a ser regido, principalmente, pela possibilidade de fundação de outros presentes, de novos futuros. Ao invés de cronológico e linear, o tempo pôde ser percebido como intensidade e irradiação, ampliando as discussões em torno das tradições culturais e das várias tendências que serviram de matéria-prima para as interpretações sobre o país. Atendendo à necessidade de ampliação do mundo, surgiram obras com interpretações inéditas e que soariam revolucionárias: entre elas, as de Mário e Oswald de Andrade, Gilberto Freyre (1999), Sérgio Buarque de Holanda (1994) e Roberto Simonsen (1978).

Nessa inversão de eixos do biológico para o cultural, deve-se sublinhar a associação dos modernistas a Freud (que também havia se afastado do biológico ao inventar a psicanálise) para articular um pensamento novo sobre a realidade brasileira. A partir de análises baseadas principalmente nas seguintes obras freudianas: Interpretação dos sonhos (1900), Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901), Três ensaios para a teoria da sexualidade (1905), O chiste e sua relação com o inconsciente (1905), A moral sexual civilizada e a doença nervosa moderna (1908), Cinco lições de psicanálise (1909-10), Totem e tabu (1912-3b), Contribuição à história do movimento psicanalítico (1914), Reflexões para os tempos de guerra e a morte (1915), Conferências introdutórias para a introdução na psicanálise (1915-1917), Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico (1916), Além do princípio do prazer (1920), Psicologia coletiva e análise do eu (1921), O eu e o isso (1923)5 , esses autores compreenderam a civilização ocidental como responsável por uma série de mazelas do país. Ainda mais: sua leitura deixa transparecer que acreditavam na idéia de que a memória brasileira foi forjada a partir de um recalque primordial (Lafetá, 1974, p. 11-2).

Com Freud, apesar de reconhecerem os avanços técnicos que facilitam a vida do homem moderno, tomaram consciência do ônus das exigências civilizatórias ocidentais na vida libidinal e no campo das subjetividades singulares, ao mesmo tempo em que denunciaram a fragilidade dos códigos fundamentados na ciência e na razão.

No campo da cultura, utilizaram-se da psicanálise para investigar o que se relacionava com o inconsciente. O primitivo, considerado excluído de influência ocidental, foi metaforizado no homem dos afetos, dos desejos, dos sentidos e das sensações, referido ao brasileiro e à sua sexualidade; a idéia de que a infância e a pré-história seriam pontos fundamentais na genealogia do sujeito, transformada na consideração da pré-história do Brasil, logicamente anterior ou externa à cultura imposta, como fonte de descobertas a serem feitas para que se constituísse o brasileiro apropriado de si mesmo.

O que era desconhecido pelo sujeito passa, então, a ser experimentado como referente ao inconsciente (ou subconsciente, como era também nomeado), matriz de processos psíquicos fundamentais para a compreensão acerca da subjetividade. A pulsão (o instinto, segundo a tradução da época) foi também valorizada, por estar intimamente vinculada a conteúdos inconscientes que, carregados de intensidade, passaram a ser considerados fundamentais no processo de subjetivação: criatividade, primitivo, sexualidade e infância tornam-se objeto de pesquisa literária e cultural.

Finalmente, e isso é algo que não deve ser desconsiderado, a cultura passava a ser assimilada em termos de um embate irreversível entre o movimento civilizatório repressor, europeu/ocidental e patriarcal, relacionado às regras, à razão e à consciência, e o sujeito/brasileiro, com sua dimensão claudicante e dividida, afetado pela sexualidade, pelo primitivo e pelo caos relativo ao inconsciente e à irracionalidade.

 

4. Arte é Psicanálise é Arte é...

Desde 1910, quando viajara para a Europa, Oswald de Andrade se interessara por Freud. Como resultado desse encantamento, a psicanálise passou a transitar por seus textos, atravessando seus encontros futuristas, dadaístas, seus poemas e romances e, mais ainda, seus Manifestos Pau-Brasil e Antropófago. Mário de Andrade, poeta, escritor, crítico de arte, também se aproximou profundamente da psicanálise, indo buscar nela não apenas compreensão sobre a sua própria subjetividade e sobre o mundo que o cercara até então, mas também de conteúdo para sua escrita e crítica literária, e como matéria-prima de criação de seu texto/de seu mundo.

Os modernistas, como um todo, debruçaram-se sobre os conceitos freudianos. Vemos referências à psicanálise em livros e revistas de Manoel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda, Alcântara Machado, Drummond, Milliet etc. Além deles, artistas plásticos, como Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Cícero Dias e Flávio de Carvalho.

O viés discursivo das obras propunha uma apropriação singular da psicanálise que trazia um novo olhar sobre o ato da escrita e sobre o si-mesmo, e se voltava para o Brasil. Tratava-se de analisar o brasileiro não mais a partir de um modelo biologizante das raças e da higiene, ou através da proposta evolutiva cujo cume era a Europa e, sim, pela via da sua própria cultura e singularidade. A uma concepção anterior de mundo unívoca superpôs-se a plurivocidade: mundo e linguagem em transformação incessante.

Na ruptura com a estabilidade do mundo natural dado de antemão, os modernistas rejeitaram, ao mesmo tempo, a literatura romântica referida à tristeza, o darwinismo, o positivismo, o evolucionismo e a psicologia da alma dos povos e das multidões, contra os quais brandiu a bandeira de um novo homem marcado por desejos e intensidades. À pergunta "quem sou eu?", que fervilhava no pensamento intelectual da época, se juntou a psicanálise, com seus conceitos de divisão, inconsciente e enigma, que passaria a representar um novo discurso. Assim, seus textos deixam entrever uma análise de si e do mundo claramente traspassada pela psicanálise.

"Assim incapaz e frágil diante da vida (...) era natural que a poesia de Carlos Drummond de Andrade se alargasse em uma maior detalhação individual. De fato: a caracterização psicológica de Alguma Poesia não assume apenas as verdades totais do indivíduo (...). Dois seqüestros tem no livro, pelo menos dois, que me parecem muito curiosos: o sexual e o que chamarei 'da vida besta'. Ao seqüestro da vida besta, Carlos Drummond de Andrade conseguiu sublimar melhor. Ao sexual não; não o transformou liricamente: preferiu romper adestro contra a preocupação e lutas interiores, mentindo e se escondendo. (...) onde o seqüestro explode com abundância provante é no livro estar cheio de coxas e especialmente de pernas (...)" (Andrade, M., 1943, p. 35).

A aproximação dos modernistas ao surrealismo de 1924 intensificou mais ainda o diálogo entre a psicanálise e a arte. A partir de Bresson e Dali, os modernistas experimentaram o método crítico, a escrita automática ou o desenho automático, como é o caso de Tarsila do Amaral e Ismael Nery, de modo a sobrepor-se à razão. Vale, entretanto, salientar que o que antes era pura cópia ligada à necessidade de nos igualar ao modelo idealizado, tornava-se uma absorção parcial, deglutida pelo espírito crítico, conforme sugere o manifesto da revista Klaxon (n. 1, 1922). Além disso, esse novo modo de assimilação estava associado a uma busca de temas locais, oposta a todo movimento de vanguarda europeu.

De fato, se a busca era do que havia de mais recôndito no corpo e na mente, ao que só poderia se ter acesso através da ruptura com o pensamento reflexivo e racional, com as regras formais da linguagem e com o bom comportamento, o mais recôndito levava os modernistas ao Brasil, que merecia ainda ser descoberto.

"(...) Estamos matando a literatura. Estamos acabando com o domínio espiritual da França sobre nós. Estamos acabando com o domínio gramatical de Portugal. Estamos esquecendo a pátria-amada-salve-salve em favor dessa terra de verdade que vai enriquecer com o seu contingente característico a imagem multiface da humanidade" (Andrade, M., 1925, p. 33-5).

O carro-chefe das aspirações modernistas era a emancipação do homem de toda a lógica da razão6, bem como de suas relações aprisionadas pela transplantação cultural. Neste compasso, passariam a ser explorados o inconsciente, a narração dos sonhos, os "causos", o folclore local, o humor e também, com Marx, a atividade revolucionária e o protesto contra as instituições alienantes.

Na linguagem, tal aspiração desdobrou-se na subversão dos códigos lingüísticos. As inovações atingiram vários níveis, desde os caracteres materiais da pontuação e do traçado gráfico do texto até as estruturas fônicas, léxicas e sintáticas do discurso.

Nesse contexto, a guerra declarada contra a fraseologia gramatical pode ser compreendida como estratégia para a realização de uma nova estética expressa pelas idéias de impulso, pontualidade e simultaneidade: "Tínhamos que quebrar tudo, destruir, matar, enterrar, cremar. Foi o que fizemos de 1921 até 1932, mais ou menos" (Milliet, 1945, p. 241).

A destruição das antigas barreiras da linguagem e do bom-tom, a intensidade ampliadora e libertadora do folclore e da literatura popular pretendiam romper o bloqueio imposto pela ideologia oficial e promover o fluir de forças até então recalcadas. A partir da aceitação dos componentes recalcados da brasilidade, surgia o problema da expressão, da linguagem. Também ela se tornava ouvida: "Nós já tínhamos uma língua surrealista" (Andrade, O., 1928, p. 3).

Pode-se dizer, portanto, que a psicanálise participou também como meio para uma nova linguagem, no que diz respeito tanto à formação de novos vocábulos (falava-se em inconsciente, sonho, sexualidade, associação livre, recalque, sublimação, regressão, fixação etc.) e ao ato de escrever, quanto ao conteúdo, ou seja, seu desenvolvimento imbricou-se com a arte modernista, sendo meio de suporte e da expressão dos afetos.

"O seu noturno é o que gosto mais. Assombração, analogia, a mesma idéia. Após lê-lo me seqüestrei. Esqueci do assunto. O poeta está triste; o psicólogo em mim, encantado" (Andrade, M., 1958, carta de 11/09/1934).

Os modernistas encontraram na obra freudiana uma fonte fundamental de pesquisa, de reflexão e de crítica em relação à concepção da subjetividade. De fato, a apropriação do discurso do inconsciente, da centralidade da sexualidade e a busca do primitivo em sua produção afetaram fortemente a construção dos personagens e o próprio ato da escrita. A substituição do idealismo decadente pelo inconsciente servia à proposta de libertar os mais diferentes recalques históricos, sociais, estéticos e étnicos do país. Dito de outro modo, passava-se a considerar como diferença positivada o que tivera valor de menos - ou seja, aquilo que fora denominado de incompetência, quer por questões raciais, genéticas, quer causada pela fome e pelos vermes.

Foi assim que as expressões populares que haviam sido emudecidas e descartadas da memória da intelectualidade brasileira puderam ser positivadas no contexto cultural. E, com elas, outras questões ligadas ao excesso e à fragmentação passavam a "existir" como elementos da cultura: a sexualidade, a sensualidade, a sedução, a alegria e a embriaguez dos sentidos, atribuídas à herança índia e negra, que não apenas perderam a mordaça secular como expressão subjetiva, como também se tornaram elementos de representação da brasilidade.

A invenção do país que se desejava e o intuito de libertação dos grilhões do colonialismo cultural e do passadismo abriam espaço para a criação do novo, enchendo o artista de alegria. Assim, para saber se estava no caminho certo, o poeta passava a "escutar" o que produzia: "a alegria é a prova dos nove" (Andrade, O., 1928, p. 7).

As mais diversas revistas modernistas trouxeram Freud à baila, seja nas citações e traduções, seja na pena de seus poetas e escritores. O homem e a morte, de Menotti Del Picchia (Klaxon, n. 1, 1922, p. 6), é tão fortemente marcado por sua relação com a psicanálise, que Mário de Andrade, ao estabelecer sua crítica, escreveu que "quanto ao Homem poderá dizer-se que é filho legítimo de Freud" (Klaxon, n. 8-9, 1923, p. 27-9). No terceiro número de Terra roxa e outras terras (n. 3, 1926, p. 4), há uma nota chamada "A Conversão de Freund" (sic), um comentário sobre a revista de psicanálise Psyche, de Londres, que trata da adesão de Freud à telepatia. Além disso, em todos os números da revista, está transcrito o romance Naturezas mortas, de Sérgio Milliet, impregnado de referências à psicanálise e a Freud. Do mesmo modo, a concepção de Mário de Andrade sobre o processo de criação em "Prefácio Interessantíssimo": "Ribot disse algures que inspiração é telegrama cifrado transmitido pela atividade inconsciente à atividade consciente que o traduz. Essa atividade é que pode ser repartida entre poeta e leitor (...)" (Andrade, M., 1980, p. 27). Confirmando essa tendência, Oswald escreveu o romance Serafim Ponte Grande, no qual Freud é chamado a falar:

"Prezado e grandíssimo Sr. Sigismundo. De regresso a Paris encontrei minha ex-amante, Dona Branca Clara, inteiramente nervosa. Vive sonhando que tem relações sexuais com Jesus Cristo e outros deuses. Isto é demais. Peço socorro à psicanálise (...)" (Andrade, O., 1972, p. 218).

No conto O Peru de Natal (Andrade, M., 1946), a paródia ao Édipo de Sófocles expressa o dilema freudiano entre a morte do pai e a morte do peru, e se liga às considerações feitas em Totem e tabu (Freud, 1912). O gozo dos vivos depende da luta entre os dois mortos, vencendo afinal o peru, que é comido com alegria pelos vivos.

Os exemplos são intermináveis e demonstram que a interação entre o chamado modernismo de 1922 e a psicanálise não se limitou ao plano intelectual, sendo encontrada também nas relações dos artistas com seus próprios processos de criação e produção, bem como em seus posicionamentos pessoais e políticos para com o país.

"Os futuros historiadores chamarão, talvez, à nossa época:
o SÉCULO DO SUBCONSCIENTE"

(Carpeaux, 1946, p. 347).

 

5. Tupsicanalista Mário e seu Alaúde

Nos poemas de Mário, encontramos muitas vezes a busca e o sentimento de uma transformação e mobilidade incessantes:

"Minhas obras todas (...) são procuras. Consagram e perpetuam esta inquietação gostosa de procurar. Eis o que é, o que imagino será minha obra: uma curiosidade em via de satisfação" (Andrade, M., Advertência, 1980, p. 67).

Para o Mário dos anos 1920, fazer arte moderna era satisfazer uma dessas curiosidades, o que parece ser uma leitura de si-mesmo já marcada pelo texto freudiano. E essa curiosidade o levava à descoberta de seu próprio país: escrever um poema como estratégia para o primitivismo e as pulsões é, para esse autor, buscar uma nova forma de escrita e, sobretudo, usar a língua falada pelo brasileiro, integrando a poesia e a música populares ("Pregão da Batata-Doce", paródia do Hino Nacional etc.). Como sugere Telê Ancona Lopez (1979), o vanguardismo de Mário em Paulicéia desvairada é traduzido pelo estético procurando exprimir uma verdade de caráter social que resistia às "verdades" socialmente assimiladas.

Numa confidência a Fernando Góes (Andrade, M., 1946, p. 91), Mário de Andrade revelou como seu processo de criação da poesia modernista começou influenciado pela poesia de Verhaeren (ressalte-se que o livro de Charles Badouin sobre Verhaeren [1924] freqüentaria as revistas e estantes modernistas!). Segundo eles, ao ler os poemas de Verhaeren, foi tomado por uma angústia tremenda que o emudeceu por vários dias. Até que, numa noite, de um só golpe, transpôs para o papel poemas que lhe corriam pelos dedos desenfreadamente. Sem controle, sem sentido, palavras novas, frases truncadas ou interrompidas derramavam-se num discurso desarticulado, sem métrica ou rima: nascia Paulicéia. Desatinou ou, como o verso quis, atingiu o desvairismo.

"Leitor: Está fundado o Desvairismo.

Este prefácio, apesar de interessante, inútil. (...)

Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem

Pensar tudo o que meu inconsciente me grita.

Penso depois: não só para corrigir, como para

Justificar o que escrevi. Daí a razão deste

Prefácio Interessantíssimo (...)"

(Andrade, M., 1980, p. 27).

No dizer de Mário, o desvario é um dos elementos positivados como estratégia de quem se propôs ir além das aparências do bom comportamento para tornar-se o primitivo de uma nova era. Tal visão de antiescrita e anticonvencionalismo advém não só do processo de associação-livre e da ação do inconsciente, mas também da abertura para o popular/bárbaro, fonte da impulsão lírica.

Há poemas em que ele produz sua escrita em dois planos simultâneos: consciente e inconsciente, como, por exemplo, em "A Escalada" (Andrade, M., 1980, p. 33). Em outros, apenas associa suas "alucinações-livres".

"(...) sem nenhuma seleção deverá expor tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe pareça errôneo, despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável a vinda dessas idéias à mente. Pela observância dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao roteiro do complexo reprimido (sic)" (Freud, 1909-10, p. 31).

Tal desvario, portanto, é a nova força motriz para o ato de escrever, que foge aos padrões estabelecidos e denuncia, com a ironia daquele que enxerga o antes seqüestrado, a urgência da mudança:

"Oh! minhas alucinações!

Vi os deputados, chapéus altos, (...)

Mudavam-se pouco a pouco em cabras! (...)

se punham a pastar

rente do palácio do senhor presidente...

Oh! Minhas alucinações!"

(Andrade, M., "O Rebanho", 1980, p. 36).

Em "O trovador" (Andrade, M., 1980, p. 32), há a colocação da profissão de fé do poeta: a brasilidade e a assimilação crítica de aspectos das diferentes vanguardas da Europa, passando o último verso a valer como síntese de seu processo de criação: "Sou um tupi tangendo um alaúde!".

"Esse verso é fundamental na medida em que caracteriza o papel de Mário de Andrade em nosso modernismo. O poeta reconhece aí sua dupla condição de primitivo: aquele que cria e difunde uma estética nova e particular e o que descobre sua condição de ser brasileiro, diferente do europeu e portador de seu modo próprio de ver o mundo" (Lopez, 1979, p. 98).

Assim, o tupi, ao entrar em contato com os instrumentos estrangeiros, faz uso deles, subvertendo-os em uma apropriação singular que modifica sons e objetivos. Sem dúvida, uma boa metáfora para responder àqueles que criticavam o modernismo como pura cópia.

Mário privilegiou a ingenuidade, o infantil e o primitivo para romper com os limites do tabu ocidental. O caminho para "saber saber" passava pelo modo de harmonizar o popular, o prazer mental e o corporal numa comunhão marcada por Eros, em que, supunha, as barreiras entre a língua falada e a escrita, o povo e o escritor, o nacional e o universal desapareceriam. Nessa perspectiva, a alegria harmoniza-se com a blague e com a seriedade. Ainda que o posicionamento mais disruptivo e de chiste mais fosse tarde questionado pelo autor, em Prefácio interessantíssimo ele define sua posição singular:

"Aliás muito difícil nesta prosa saber onde

termina a blague, onde principia a seriedade.

Nem eu sei" (Andrade, M., 1980, p. 14).

De todo modo, sua tentativa de reinterpretar o legado europeu alia-se a novas proposições. Em Losango caqui (1980), Mário de Andrade diz que procura "realizar a poesia mais psicológica possível7 (...) Não há verbo, palavra, pontuação que não se justifique pela psicologia" (Andrade, M., 1958, p. 16). A produção transborda pela via da alegria, na fruição de si e na expansão para o mundo que ultrapassam dissabores:

"Ela não veio com certeza...

Que bem me importa!

Saiba a cidade de S. Paulo

Que nela vive um homem feliz!"

(Andrade, M., 1980, p. 97).

De fato, um dos elementos centrais desta fase de Mário é a alegria posta em questão: ela deriva da consciência de liberdade de uma servidão moral milenar, da busca de novamente promover a junção entre corpo, alma, vida, morte, dor, prazer e poesia. Um savoir vivre que suportaria as contradições e tensões inerentes à existência: "a própria dor é uma felicidade" (Andrade, M., 1980, p. 82), dizia sob os empuxos do "espírito livre" nitzscheano.

Em Clã do Jaboti (Andrade, M., 1980), mergulha no experimentalismo da fala brasileira, buscando "reachar a (...) ingenuidade" (Andrade, M., 1958, p. 123) Com esse intuito, "empobrece[u]" seus meios de expressão (Andrade, M., 1958, p. 90), escreve[u] "língua imbecil", pensou "ingênuo" (Andrade, M., s.d., p. 71), construindo uma linguagem em que se fez primitivo, irônico, carnavalizado.

"Brasil amado não porque seja minha pátria,

Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...

Brasil que eu amo porque é ritmo do meu braço aventuroso,

O gosto dos meus descansos,

O balanço das minhas cantigas amores e danças. Brasil que eu sou porque é minha expressão muito engraçada,

Porque é o meu sentimento pachorrento,

Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir"

(Andrade, M., 1980, p. 109).

O pulsional toma seus olhos novamente e impulsiona seu corpo-escrita na polifonia poética de "Carnaval carioca":

"Os negros sambando em cadência.

Tão sublime, tão áfrica!

A mais moça bulcão polido ondulações lentas lentamente

Com as arrecadas chispando raios glaucos oiro na luz peluda

Só as ancas ventre dissolvendo-se em vaivens de ondas em cio.

Termina se benzendo religiosa talqualmente num ritual"

(Andrade, M.1980, p. 110).

Em "Amar, verbo intransitivo" (1927), a narrativa baseada na iniciação sexual de um jovem revela grande liberdade de escrita, num estado atemporal em que presente, passado e futuro se embaralham em planos que se confundem. Nela interrompe o narrador aqui e acolá, que medita sobre as cenas que se desenrolam.

Nesse livro, a influência da psicanálise pode ser percebida não só no modo de escrita e na simultaneidade temporal, como também na personalidade dos personagens e na mistura entre fantasia e realidade8. Freud é citado quer diretamente (1927, p. 50 e 123), quer na invocação de seus conceitos, quando libido (1927, p. 46) e complexo edípico (1927, p. 144) surgem nas divagações do narrador. Em outras passagens, notam-se atos falhos: por exemplo, Carlos não consegue lembrar do (significado de) Geheimniss - segredo (1927, p. 89), e troca pérolas por péloras (1927, p. 43).

Mas é Macunaíma (1928), escrito de um só fôlego e revisitado algumas vezes antes de sua publicação, que imprime ao texto de Mário um corpo distinto de tudo o que havia produzido até então, e é a obra que melhor representa o modo como Mário compreendia a escrita modernista e seu outro elemento: a brasilidade na década de 1920.

No texto carregado de primitivismo, podemos reconhecer que o uso do popular e do folclórico, como material de construção do discurso, foi elaborado a partir da idéia de uma leitura do inconsciente e do funcionamento do processo primário nos mitos e costumes. Para tanto, ele se baseou no automatismo psíquico, na associação-livre e nos elementos do primitivismo.

Em Macunaíma, tempo, realidade, espaço externo e interno misturam-se na valorização da fantasia. A narrativa mágica importa mais do que o aprofundamento dos personagens. Ainda assim, transborda dessa escrita um "novo mundo", sem o verniz das caravelas européias; um "novo mundo" que está sempre por se fazer, num eterno trabalho de elaboração, sempre aquém das intensidades que o invadem.

Este modo de escrita coaduna-se com o movimento pulsional incessante que não permite a escrita fechar-se. Se "Freud [1926] trata da questão da angústia do real como aquilo que (...) advém do encontro com essa intensidade traumática para o psiquismo, que mostra claramente a necessidade do aparato de manter um processo de elaboração constante na tentativa de absorver o impacto traumático da pulsão" (Facchinetti, 1996, p. 91), Mário de Andrade seguirá estes passos para a produção de sua escrita-acontecimento:

"(...) se você já teve por acaso na vida um acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se do tumulto desordenado das idéias que neste momento tumultuaram no cérebro. Essas idéias, reduzidas ao mínimo telegráfico da palavra, não se continuavam, porque não faziam parte de frase alguma, não tinham resposta, amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância aparente - embora nascidas do mesmo acontecimento - formavam, pela sucessão, rapidíssima, verdadeira simultaneidade, verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica do acontecimento" (Andrade, M., 1980, p. 25).

A exigência de trabalho, porém, não é apenas daquele que escreve. Macunaíma demarca a construção de um discurso em que os processos do narrar devem ser reconstituídos a cada momento nas duas pontas do traçado: escritor e leitor. O texto abre novas Bahnungen (trilhamentos) a partir de presenças riscadas dos mapas da história do Brasil e essas presenças são superpostas e justapostas em planos que impelem o leitor ao trabalho contínuo de dar novos sentidos, e de certo modo contam com sua cumplicidade para construir as novas histórias do texto.

Vale dizer, a história a ser escrita não é pura reconstituição do passado, já que, a partir de Freud, que aponta a viagem de um trem sempre desviante, Mário "nega o passado como exigência do presente" (Fonseca, 1994, p. 68). Afinal, "O passado é lição para meditar, não para reproduzir" (Andrade, M., 1980, p. 29). A meditação que Mário propõe, portanto, não pretende recuperar a memória dos fatos como eles aconteceram. Para ele, o que é passível de recuperação não são os fatos, mas sim as "assombrações daquilo que chamamos de 'passado'"9.

"Quando permito que o passado se lembre de mim, às vezes sinto esses pés huitotas andando na minha memória. E à medida que o tempo me afasta deles, vão ficando cada vez mais passos e cada vez mais memória. (...) Só eu os posso identificar com a minha memória e só pelo que está neste papel é que os homens podem saber o que foram esses passos" (Andrade, M., 1976 - 10/5/1929).

Esse movimento em muitas direções, tradução da curiosidade de conhecer a si e aos outros, impõe novos sentidos, desaguando, em seu extremo, na análise de seu próprio modo de criar, expansivo e multiplicador. E para além da novidade radical de sua escrita e da abertura para novos sentidos, há uma importante análise a respeito do brasileiro sintetizada na figura de Macunaíma: o retrato trágico do homem sem qualidade, sem qualquer referência de saber, que Mário posteriormente veria com certo horror e estranhamento, como se pode verificar nesta carta a Augusto Meyer:

"(...) Se foi escrito brincando, ou melhor, divertidamente, por causa da graça que eu achara no momento entre a coincidência dum herói ameríndio tão sem caráter e a convicção a que eu chegara de que o brasileiro não tinha caráter moral, além do incaracterístico físico duma raça em formação, se foi escrito divertidamente, a releitura do livro me principiou doendo fundo em seguida. Hoje ele me parece uma sátira perversa. Tanto mais perversa que eu não acredito que se corrija os costumes por meio da sátira" (Andrade, M., 1968, p. 58).

O horror de Mário poderia dizer respeito aos descaminhos do personagem brasileiro que rejeita a si mesmo e aos seus, não mais se reconhecendo nesse jogo de espelhos, sendo levado a submeter-se ao poder de um terceiro. O reconhecimento desse outro, por sua vez, não implica um retorno para um novo reconhecimento de si, mas aponta para a negação ou mutilação de si mesmo, equacionada em transplantação e colonização culturais, eternizadas pelo deslumbramento especular e pela perda das próprias referências.

Mas o horror de Mário fala também das mudanças fundamentais nos movimentos culturais enlaçados aos do autor, que aos poucos retornava de suas muitas viagens de ruptura. Com o fim da década de 1930, vemos um Mário cada vez mais engajado na ação social e na idealização da síntese do brasileiro e, com isso, próximo do universalismo e da utopia de trocas harmônicas, igualitárias, em que desapareceriam as fronteiras entre nações e raças.

O discurso psicanalítico que procurara a decomposição e o questionamento do articulado e eternizado foi substituído pela preocupação com a adaptação e com as questões coletivas que visavam a fornecer fundamentação teórica para as novas formas de intervenção no campo social, em sua vinculação essencial às temáticas da "correção" e da "salvação". Sua contraparte foi o silenciar da linguagem e do sentido que aproximavam o discurso estético à ruptura, subversão e revolução. Foi o fim do enlaçamento do movimento modernista com as respostas advindas do campo psicanalítico.

"Ultimamente, dei para achar paupérrima a psicanálise. Não acho errada, não, acho paupérrima. Esse mundo imenso do ser humano ficou reduzido a meia dúzia de noções gerais e genéricas, que não esclarecem nada, são mesquinhas, tipo de generalizações conformistas e acomodatícias da pequena burguesia" (Andrade, M. 1983, p. 66).

 

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NOTAS

1 Este trabalho faz parte da pesquisa de doutoramento documentada em Facchinetti (2001).

2 Psicanalista, doutora em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Pesquisadora-visitante da Casa de Oswaldo Cruz (convênio CNPq/FIOCRUZ). Professora da Pós-graduação em História das Ciências da Saúde (COC/FIOCRUZ).

3 Sílvio Romero é um dos ensaístas que vê a literatura como capaz de revelar a sociedade, devendo estar associada ao processo social do qual se origina. Por outro lado, sua sociologia é também marcada pela questão estética. O olhar que o autor lança sobre a sociedade como um todo é influenciado e matizado pelo viés de seus critérios literários" (Campos apud Cândido, 2000, p. 139-40).

4 O termo Verdrängung, ou melhor, Refoulement, já que veio da leitura de Freud em francês, foi traduzido inicialmente por Mário de Andrade e depois, sob sua influência, por Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Milliet como seqüestro e pela medicina psiquiátrica da época de repressão. A diferença de nomeação já contém em si sinais da diferença de interpretação. Enquanto que a repressão aponta para a ordem do Estado e de seus mecanismos de controle, o seqüestro aponta para modos de operação limitados que impossibilitam a produção de novas formas de subjetividade.

5 Grande parte desses textos está na Biblioteca de Mário de Andrade, situada no IEB-USP, hoje com sete volumes das obras de Freud: Introduction à la Psychanalyse (1922), La Psychopathologie de la Vie Quotidienne (1922); Totem et Tabou (1923), Trois Essais sur la Théorie de la Sexualité (1923), Cinq Leçons sur la Psychanalyse (1924), Essais de Psychanalyse (1927), Le Mot d'Esprit et ses Rapports avec l'Inconscient (1930).

6 Eduardo Jardim de Moraes (1978) mostra que as categorias de intuição e integração se encontram na base dos projetos brasilianistas do Modernismo, o que os difere de modo importante do pensamento nacionalista da ordem e da razão.

7 Cabe aqui uma lembrança importante: em 25/3/1928, numa carta para Tristão de Athayde, Mário (s.d., p. 23-5) afirmava que, sempre que estava tratando de questões psíquicas em sua obra, estava referido a Freud.

8 O uso do jargão e dos conceitos psicanalíticos não passaria despercebido: As críticas foram tantas que Mário acabou por tirar de seus textos alguns termos psicanalíticos nas edições seguintes. No IEB/USP - São Paulo, há a edição revista por Mário, toda riscada e assinalada. A edição de 1930 viria com vários seqüestros.

9 Sobre o modo como Mário compreende a questão da memória, seu texto "Memória e Assombração", de 10/5/29 (1976), é bastante esclarecedor.

 

 

Recebido em: 30/09/2002.
Aprovado em: 02/06/2003.