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Physis: Revista de Saúde Coletiva

 ISSN 0103-7331

     

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312007000100009 

TEMAS LIVRES

 

Processos de captação de dados: categorias e tendências na pesquisa brasileira em áreas da saúde

 

Data collection processes: categories and tendencies of Brazilian research in health areas

 

 

Guido RummlerI; Aracy Wittd de Pinho SpínolaII

IProfessor Doutor, Titular, disciplina: Metodologia da Pesquisa Científica. Departamento de Saúde, Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Bahia, Brasil. Convênio 249/2002, UEFS/FAPESB. Endereço eletrônico: rummler@uefs.br
IIProfessora Doutora, Titular, disciplina: Metodologia da Pesquisa Científica. Departamento de Prática de Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil. Endereço eletrônico: aspinola@usp.br

 

 


RESUMO

O presente estudo tem por objetivo caracterizar a pesquisa em áreas da Saúde quanto aos processos utilizados na captação de dados, propondo um sistema de categorias para sua classificação. Para isso foram analisados 1.741 artigos extraídos de fascículos editados entre 2001 e 2003, de 46 periódicos nacionais indexados. O sistema estabelecido define duas vias e seis categorias de processos. A via direta abrange as categorias de processo indagativo (IN), perceptivo (PE), analítico (AN) e experimental (EX), e a via indireta abrange os processos apropriativo–transcritivo (AP–T) e apropriativo–aplicativo (AP–A). Suas ocorrências em relação ao conjunto das publicações analisadas correspondem, respectivamente, na via direta, a 30,0%, 7,0%, 31,1%, 15,7%; e na via indireta, a 21,8% e 1,1%. Num agrupamento de 922 artigos de Saúde Pública/Coletiva, a ocorrência, por ordem decrescente da freqüência relativa de cada categoria, é: AN, IN, AP–T, EX, PE, AP–A. Noutro, de 369 artigos de Enfermagem, corresponde a: IN, AP–T, PE, AN, EX, AP–A. No de Odontologia, com 220 artigos: EX, AN, AP–T, IN, PE, AP–A; e no de Educação Física, com 134 artigos: AN, IN, EX, AP–T, PE, AP–A. De acordo com essas tendências, o escore de similaridade de cada grupo acima em relação aos demais corresponde a 8 em Saúde Pública/Coletiva, 3 em Enfermagem, 6 em Odontologia e 7 em Educação Física. Este estudo aventa a possibilidade de que o sistema classificatório identificado seja aplicável a pesquisas de outros campos disciplinares como uma forma de caracterizá–las operacionalmente.

Palavras–chave: Pesquisa; coleta de dados; metodologia; técnicas de pesquisa; Saúde.


ABSTRACT

This paper aims at characterizing research in Health areas in relation to the processes in use for the gathering of data, and it also proposes a system of categories for their classification. For that reason, 1,741 articles have been selected from fascicles edited between 2001 and 2003, of 46 indexed national journals. The classification system forms a matrix that identifies two ways and six categories of processes: the direct mode, comprising the categories of the inquiring (IN), perceptive (PE), analytic (AN) and experimental (EX) processes, and the indirect mode, comprising the appropriative–transcriptive (AP–T) and the appropriative–applicative (AP–A) processes. The occurrence of each category, in relation to the totality of publications, corresponds to, respectively, 30.0%, 7.0%, 31.1% and 15.7% in the direct mode, and 21.8% and 1.1% in the indirect mode. From the discrimination of process in the decreasing rank of relative frequency corresponding to four different groups of articles results the following profiles: Public/Collective Health group (n=922): AN, IN, AP–T, EX, PE, AP–A; Nursing group (n=369): IN, AP–T, PE, AN, EX, AP–A; Dentistry group (n=220): EX, AN, AP–T, IN, PE, AP–A; Physical Education group (n=134): AN, IN, EX, AP–T, PE, AP–A. According to these tendencies, the consonance scores for the above groups correspond to 8 (Public/Collective Health group), 3 (Nursing group), 6 (Dentistry group) and 7 (Physical Education group). This study suggests the possibility that the identified classification system could be applied to research in other fields as a type of operational characterization.

Key words: Research, data gathering, methodology, investigation techniques, Health.


 

 

Introdução

A coleta de dados representa importante etapa de uma pesquisa, pois aspectos referentes aos procedimentos, técnicas e instrumentos empregados estão relacionados com a acurácia e precisão dos resultados. Sua importância também se reflete no processo de validação de uma pesquisa, desde quando, das quatro instâncias identificadas por Samaja (1996), duas permeiam essa fase: a instância de validação empírica e a instância de validação operativa.

Questões epistemológicas pertinentes aos processos de coleta de informações sobre o objeto de estudo são evidenciadas sob diversas óticas. Encontram–se compreendidas na concepção de Marx e Engels, citados por Rocha e Silva (1987), segundo a qual a verdade seria sempre relativa a dois aspectos: o contexto onde emerge o objeto do conhecimento e os critérios utilizados para sua investigação. Encontram–se ainda nos processos de comunicação, em que, segundo citação de Larocca e Mazza (2003), Habermas identifica três mundos de referências nos quais se baseiam seus participantes: o mundo objetivo, o social e o subjetivo.

Por outro lado, haveria que ser considerado que, operacionalmente, no dizer de Gomes (2004), é impossível estabelecer uma separação asséptica entre o pesquisador e o objeto pesquisado. Nesse caso, ter–se–á o que, na expressão de Rocha e Silva (1987), constitui um hiato entre o objeto da investigação e as possíveis interpretações dele, que é o ser humano, agente do conhecimento.

Entretanto, considere–se também haver situações de pesquisa em que, conforme exprime Samaja (1996, p. 261), "o que é fonte para uma investigação pode ser produto elaborado de um processo anterior". Nesse caso poder–se–á dizer da existência de novo hiato, além do já estabelecido entre o objeto e suas possíveis interpretações, sendo agora aquele que aparece entre o objeto interpretado com as possíveis interpretações deste.

Tem–se, conseqüentemente, que a aplicação dos recursos para a captação de dados constitui, por suas diferentes relações e diferentes graus, fator capaz de eliciar vieses de apreensão do objeto de estudo. Logo, uma tentativa para caracterização epistemo–metodológica dos processos de captação de dados envolveria a necessidade inicial de identificar os aspectos envolvidos nesses procedimentos. Portanto, através de uma categorização desses processos, poder–se–ia constituir um sistema de classificação conceitual, de possível aplicação didático–acadêmica para o estudo de questões metodológicas da pesquisa científica relativas à fase de coleta de dados.

Por isso, na perspectiva do acima exposto buscou–se, através deste trabalho preliminar, alcançar os seguintes objetivos:

· elaborar uma matriz para classificação dos processos de coleta de dados, considerando um conjunto heterogêneo de pesquisas em Saúde;

· aplicar essa matriz na caracterização de um conjunto de publicações quanto à ocorrência das categorias de processos de captação de dados;

· estabelecer uma comparação entre as áreas de Saúde Pública, Enfermagem, Odontologia e Educação Física, considerando a proporção de trabalhos que utilizam esses processos.

 

Metodologia

Trata–se de um estudo de metodologia mista (CRESWELL, 1994), tendo uma fase de aproximação com a Teoria Fundamentada em Dados (STRAUSS; CORBIN, 1990) e outra de análise quantitativa.

 

Primeira fase

Esta fase compreendeu as três etapas abaixo discriminadas.

Etapa I: constituição do campo empírico

Foi realizada ampla busca a periódicos nacionais referentes à Saúde Pública/Coletiva, assim identificados de acordo com Rummler e Witt (2004), bem como de Enfermagem, Odontologia e Educação Física, tendo como critério de seleção o fato de serem indexados pelo sistema Lilacs, da BIREME1. Desta forma, obteve–se um elenco de 46 periódicos, cujos volumes e respectivos fascículos se encontram identificados na tabela 1. Desse elenco de revistas foram extraídos 1.741 artigos de pesquisa que abordam temáticas referentes ao Brasil e têm pelo menos a metade dos respectivos autores ligados a instituições nacionais. A tabela 1 também informa a quantidade de artigos provenientes de cada volume de revista.

Etapa II: análise qualitativa

A partir de uma leitura informativa (LAKATOS; MARCONI, 1992) sobre os 1.741 artigos compilados, foram identificadas as variáveis de expressão dos resultados e delimitados os campos textuais contendo descrição dos procedimentos utilizados na captação dos correspondentes dados. A esses segmentos de texto foi aplicada a Análise de Conteúdo Clássica (BAUER; GASKELL, 2002), identificando e resumindo, em protocolo, características dos eventos associados à coleta dos dados. Esse conjunto de informações constituiu, por sua vez, o corpo de dados do presente trabalho. A ele foram aplicados passos de ordenação e análise, na perspectiva operacional da Teoria Fundamentada em Dados, ou Grounded Theory, em que "conceitos são identificados e as suas propriedades e dimensões são descobertas nos dados" (LOPES, 2003, p. 68).

Etapa III: construção de uma matriz classificatória dos processos de captação de dados

A partir da identificação de categorias de processos, reconhecidas através da análise por codificação das características que compõem o corpo de dados, foi elaborado um formulário cujas colunas a serem assinaladas representavam as diversas propriedades que definiam categorias.

A aplicação daquele formulário pelo mesmo examinador aos 1.741 artigos do estudo constituiu uma fase de replicação de dados, cuja análise propiciou redimensionamentos das categorias antes definidas. Pelo paulatino reconhecimento das relações de conexão ou de mútua exclusão estabelecidas entre os agrupamentos categóricos, e descobrimento de uma nomenclatura conceitual para os mesmos nessas relações, ficou caracterizado um sistema genérico de representação dos processos de coleta de dados. Os enunciados das propriedades definidoras das categorias e subcategorias finais, associados a uma representação diagramática destas, configuraram um constructo teórico–metodológico utilizado como matriz para classificação dos artigos. Visando a melhorar a praticidade dessa matriz, a disposição diagramática das categorias foi simplificada na forma de uma tabela, passando também a servir como protocolo para cômputo de dados (tabela 2).

 

Segunda fase: coleta e análise dos dados quantitativos

A partir da retroaplicação da matriz classificatória aos 1.741 artigos do estudo, foi executada a contagem do número de publicações identificadas em cada categoria desse sistema e calculada a respectiva freqüência relativa. Pelo ordenamento dessas freqüências foi estabelecida uma escala sobre a ocorrência dos processos, no conjunto estudado.

Do conjunto acima foram então separados quatro grupos de publicações pertinentes a: Saúde Pública/Coletiva, com 922 artigos; Enfermagem, com 369 artigos; Odontologia, com 220 artigos e Educação Física, com 134 artigos. Foram estabelecidas as respectivas freqüências relativas de ocorrência das categorias de processos nesses grupos, e elaborada uma tabela para compará–los de acordo com o ordenamento decrescente das respectivas freqüências.

Com base no posto ocupado por cada categoria em cada grupo, conforme ordenamento estabelecido no procedimento anterior, foi construída uma matriz de similaridade, por análise cruzada dos grupos, computando o número de postos em que cada grupo apresenta as mesmas categorias que cada um dos demais, ou com relação a todos os demais.

 

Resultados

Da análise referente às relações entre fonte de informação e pesquisador na prática da captação de dados, resultou um constructo teórico–metodológico representado por uma matriz classificatória dos processos de coleta de dados, à qual está associado um conjunto de propriedades que delimitam as respectivas categorias, identificadas por uma nomenclatura conceitual que define a natureza dos processos representados.

A matriz de classificação foi composta por duas ordens de categorias: a da via de apreensão e a do processo de captação da informação. A via direta compreende as categorias de processos indagativo, perceptivo, analítico e experimental. A via indireta compreende os processos apropriativo–transcritivo e apropriativo–aplicativo. A essas vias e processos associa–se o seguinte referencial de propriedades.

· Via direta e via indireta. Representam modos de relação entre pesquisador e sujeito/objeto da pesquisa, sendo diferenciadas na medida em que se define como indireto o "que se faz ou recebe por intermédio de outrem" (DIRETO, 1999, p. 688). Nos processos da via direta os dados são resultantes de apreensão dos fenômenos, enquanto nos processos da via indireta ocorre a captação de dados já produzidos sobre esses fenômenos.

· Processo indagativo. Compreende procedimentos dirigidos à obtenção de verbalizações (escritas ou orais), que são emitidas pelo sujeito em situações indutoras dessas manifestações. Refere um contexto em que o pesquisador aguarda uma emissão do sujeito, o qual sabe que, via de regra, sua palavra constituirá testemunho registrado do que expressa.

· Processo perceptivo. Refere dados captados por observação do investigador frente ao sujeito/objeto da pesquisa. Isto é, os dados são produzidos pelo pesquisador como agente do conhecimento.

· Processo analítico. Corresponde a contextos em que o sujeito é passivo da ação examinativo–avaliativa do pesquisador, visando à obtenção de dados que dimensionam, quantitativa ou qualitativamente, atributos do objeto de estudo, produzindo uma diagnose (diagnóstico clínico–laboratorial, descrição morfológica, análise de texto, estudo bibliométrico ou similares).

· Processo experimental. Refere relação de interferência propositada e controle de variáveis, por parte do investigador, na produção de respostas. Os dados resultam, portanto, de uma ação reativa do sujeito/objeto a partir de intervenções do pesquisador. Via de regra, diz respeito a pesquisas em situação laboratorial.

· Processo apropriativo–transcritivo. A relação investigador–sujeito preexiste, não sendo de controle do pesquisador, visto que sua relação se faz com registros já existentes a serem incorporados em novo contexto. Refere–se à captação de dados, constantes de documentos, publicações ou sistemas de recuperação de informação, dos quais o pesquisador se apropria para elaborar um texto próprio.

· Processo apropriativo–aplicativo. É análogo ao anterior, porém diferenciado quanto ao fato de os dados preexistentes serem reutilizados para fundamentar proposições de novos procedimentos, técnicas, novas aplicações, métodos, regras ou similares. Assim, enquanto no processo anterior a captação de dados se faz na perspectiva de manutenção de seu caráter informativo, aqui o dado é captado como matéria–prima para construção de um objeto de função aplicada.

A tabela 2 ilustra as relações entre as categorias que integram a matriz classificatória e os resultados obtidos por sua aplicação na segunda fase deste estudo.

Na tabela verifica–se a predominância generalizada do uso da via direta na captação de dados, bem como a predominância de uso do processo analítico nos grupos de trabalhos de Saúde Pública/Coletiva e de Educação Física, assim como do processo indagativo em Enfermagem e do experimental em Odontologia.

O quadro 1, por outro lado, discrimina os perfis de cada grupo quanto à ordem decrescente de ocorrência dessas categorias de processos, permitindo constatar, por exemplo, três semelhanças entre os grupos Saúde Pública/Coletiva e Educação Física: utilização, em maior escala, do processo analítico; em segundo lugar, do indagativo; e na menor das proporções, o apropriativo–aplicativo.

De análoga confrontação de cada grupo em relação aos demais, resultam os escores de concordância apresentados na tabela 3.

De acordo com os escores constantes da tabela 3, os grupos Saúde Pública/Coletiva e Enfermagem situam–se em posições opostas, pelo fato de o primeiro apresentar escore total 8 e ao segundo corresponder o menor escore de concordância com os demais. Essa concordância do grupo Enfermagem com os demais reside naquilo em que todos os grupos se assemelham, que é, conforme a tabela 2, a menor utilização do processo apropriativo–aplicativo.

 

Discussão

O critério estabelecido quanto ao período de publicação dos artigos a serem examinados teve como objetivo referir o perfil das pesquisas a um recorte temporal. Este e outros aspectos – a exemplo da não–regularidade de editoração, interrupção na vigência ou falhas no acervo de bibliotecas quanto a diversos títulos constantes da lista prévia de revistas – constituíram fatores de delimitação do universo de acesso. Entretanto, o alcance a 46 periódicos configurou a possibilidade de constituir um compilado de artigos e, a partir deste, subgrupos heterogêneos, representando diferenças peculiares a crivos editoriais diversos.

Por outro lado, diferenças quanto ao número de periódicos referentes às áreas subagrupadas, diferenças quanto ao número de fascículos que as revistas editam anualmente, assim como diferenças quanto ao número de artigos que constam em cada fascículo, contribuíram para que os subgrupos formados na segunda fase do estudo se diferenciassem quanto ao número de artigos que os compõem. Assim, por exemplo, para a disparidade do subgrupo referente à Saúde Pública/Coletiva frente aos demais, contribuiu o grande número de artigos publicados em apenas quatro revistas (números 5, 10, 16 e 36 da tabela 1). Talvez a desproporção quanto ao número de artigos referente aos quatro subgrupos corresponda a uma desproporção real quanto ao que seja publicado nacionalmente nas respectivas áreas.

Embora a abrangência do presente estudo tenha sido limitada pelo interesse preliminar e específico aos campos disciplinares da Saúde Pública/Coletiva, Odontologia, Enfermagem e Educação Física, a matriz de classificação dos processos de captação de dados, que resultou da primeira fase deste trabalho, aparentemente atingiu estágio de esgotamento quanto às possibilidades de ocorrência de algum outro processo vigente na pesquisa científica em Saúde. Entretanto, sua aplicação como tal pode ainda ser objeto de testes em investigação continuada e extensível a outras áreas de pesquisa, possibilitando não só estabelecer comparações entre essas áreas, como confirmar sua validação como ferramenta de análise, além da utilização de sua nomenclatura no âmbito da atividade didática em estudos sobre metodologia da pesquisa.

Ainda que não se tenha pretendido estabelecer, no âmbito do presente trabalho, uma discussão epistemológica relacionada aos elementos da aqui produzida e aplicada matriz, parece pertinente destacar que as propriedades que dimensionam as categorias que esta contém, seja com referência às vias ou aos processos, mostram aspectos específicos ou gerais que permeiam os diferentes contextos, os quais sugerem questões a serem consideradas na validação empírica e operativa de uma pesquisa, conforme já citado de Samaja (1996). Assim, a impossibilidade de uma separação asséptica entre pesquisador e objeto, já referida de Gomes (2004), embora possa apresentar–se de forma mais evidente e em diferentes graus na via direta, também apresenta, possivelmente em grau menor, correspondência nos processos de via indireta.

Nos processos, sobretudo o indagativo e o perceptivo, interagem questões dos três já mencionados mundos de Habermas, conforme citados por Loracca e Mazza (2003): o objetivo, o social e o subjetivo. Associadas ao processo indagativo, as propriedades que o definem sugerem, particularmente, questões intervenientes refletidas pela "[...] crença questionada, da univocidade da palavra, a qual pode comunicar por quem fala ou escreve, aquilo que quer dizer" (SCHITMAN, 1996, p. 11). No processo perceptivo ressaltam questões que se situam no que Rocha e Silva (1987) denominam de hiato entre o objeto e as interpretações do mesmo, representado pelo pesquisador, agente dessas interpretações.

Com referência ao processo analítico, pode–se enfatizar, dentre os três fatores indutores de erro apontados por Pereira (2001), questões relativas ao instrumento, entendido aqui como o recurso intermediador, elaborado para a caracterização dos atributos do objeto de estudo. Por outro lado, ao fator "observador", apontado pelo mesmo autor, correspondem diferenças de participação, que, segundo Silva (1996), diferem em grau, segundo os paradigmas metodológicos que sejam empregados. Exemplificando, a autora aponta que essa interferência é menor em abordagens fenomenológicas, histórias de vida e estudos de caso do que em pesquisa antropológica/etnológica/participante e pesquisa–ação.

Considerando, por outro lado, que não haja técnica ou método isento de possíveis interferências, a caracterização do processo de aquisição dos dados pode estabelecer referências quanto a eventuais cargas de contaminação associadas a essa etapa da pesquisa. Assim, as denominações atribuídas às categorias, conceitualmente estabelecidas nesse sistema, são indicadoras de possíveis ocorrências subjacentes às relações entre investigador–sujeito/objeto da pesquisa. Considerando, entretanto, que muitos processos de apreensão de dados nas Ciências Humanas não são exclusivos desta ou daquela metodologia, nem mesmo do quantitativo ou do qualitativo, e considerando ainda a heterogeneidade dos trabalhos, dos quais emanaram as categorias aqui identificadas, é factível que a aplicação de tal sistema não se restrinja às pesquisas das áreas em questão.

Com relação à segunda fase do presente estudo, em que foi retroaplicada a matriz classificatória sobre o total dos artigos compilados, a análise dos resultados, assim como sua apresentação na tabela 2, foi baseada no cômputo das freqüências relativas em razão da já discutida diferença quanto ao número de componentes referentes a cada subgrupo. Entretanto, o fato de aquela tabela apresentar totalizações maiores que 100% se deve a que, embora as seis categorias de processos sejam mutuamente exclusivas, podem não ser de ocorrência única em um trabalho, visto que o pesquisador pode valer–se de mais de um dos processos para sua coleta de dados.

Por outro lado, diferenças de perfil que são estabelecidas no caso de os trabalhos serem considerados com referência a áreas permitem evidenciar as peculiaridades e tendências de operacionalização referentes às abordagens dessas áreas, conforme mostrado no quadro 1. É destaque nisso o grupo referente à Enfermagem, onde mais da metade dos trabalhos resulta do processo indagativo. Este fato e o reduzido escore de concordância com os demais lhe conferem a característica de singularidade. Mas é também esse grupo que, embora em escala pequena, o que mais utiliza o processo perceptivo. Essa caracterização do grupo Enfermagem estabelece um paralelismo com o que é mencionado por Rosa, Lucena e Crossetti (2003), referente a uma área da Enfermagem, a Etnoenfermagem, em que os principais métodos de coleta de informações são a observação participante e a entrevista, embora outras técnicas, como conversas informais, análise documental e história de vida possam ser conjuntamente utilizadas. Já a heterogeneidade da constituição do grupo referente à Saúde Pública/Coletiva, por ter interfaces com áreas representadas pelos demais grupos, tendo também semelhanças quanto a fundamentações teórico–metodológicas, têm possivelmente nisso razões que determinam a maior similaridade operacional deste grupo com os demais.

Considerando o dizer de Minayo (2004, p. 251), de que "qualquer ser humano, qualquer grupo ou classe social é uma multiplicidade de relações e de relações entre relações", a possibilidade de associar a essas categorias questões da intersubjetividade é assunto a ser posto no caminho de uma subseqüente e aprofundada caracterização epistemológica que considere teorias da percepção e outros aportes de diversas áreas, além da Psicologia e da Sociologia, que evidenciem aspectos que devem ser da atenção do pesquisador na análise dos dados resultantes de qualquer dos processos aqui identificados.

 

Conclusões

A matriz classificatória, obtida a partir da análise de um conjunto heterogêneo de publicações em Saúde, resultou num instrumento aplicável à identificação de pesquisas segundo características genéricas referentes à captação de dados, considerando duas vias (direta e indireta) e seis categorias de processos (indagativo, perceptivo, analítico, experimental, apropriativo–transcritivo e apropriativo–aplicativo). Sua aplicação a grupos de artigos referentes à Saúde Pública/Coletiva, Odontologia, Enfermagem e Educação Física demonstra diferenças ou convergências entre as respectivas áreas quanto às tendências de utilização desses processos. De outro modo, tais tendências peculiarizam os grupos examinados quanto à escala de uso desses processos, em que o indagativo predomina na pesquisa em Enfermagem, o analítico em Saúde Pública/Coletiva e Educação Física, e o experimental em Odontologia.

Tal caracterização corresponde a um período recente da pesquisa brasileira naqueles campos, podendo modificar–se na medida em que sejam praticadas mudanças na escala de uso de paradigmas metodológicos que levem, por sua vez, a mudanças na escala de uso daqueles processos.

 

Referências

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NOTAS

1 Sistema Latino–americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde. Disponível em: <http://www.bireme.br>.

 

 

Recebido em: 10/03/2006
Aprovado em: 04/09/2006