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Physis: Revista de Saúde Coletiva

Print version ISSN 0103-7331On-line version ISSN 1809-4481

Physis vol.18 no.2 Rio de Janeiro  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312008000200003 

As Ciências Sociais e Humanas em Saúde na Associação Brasileira de Pós–graduação em Saúde Coletiva

 

Health Social and Human Sciences at ABRASCO

 

 

Ana Maria Canesqui

Professora adjunta, Doutora e Livre–docente, colaboradora do Departamento de Medicina Preventiva e Social, área de Ciências Sociais Aplicadas à Medicina. Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas e ex–coordenadora da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Associação Brasileira de Pós–graduação em Saúde Coletiva. Endereço eletrônico: anacanesqui@uol.com.br

 

 


RESUMO

Abordam–se a trajetória, estrutura, organização e implementação das atividades da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Associação Brasileira de Pós–graduação em Saúde Coletiva, no período 1981 a 2006, articulando–a aos contextos das diretorias que lhes forneceram maior apoio, destacando as diferentes gestões da associação e da comissão. Documentos, matérias divulgadas nos boletins da associação, relatórios de gestão e atas da comissão, pronunciamentos de ex–coordenadores e bibliografia específica sobre o assunto foram consultados, assim como dados informalmente obtidos de alguns ex–coordenadores ou membros da comissão. Conclui–se que, das dificuldades iniciais de fazer interlocução com a área da Saúde Coletiva, as ciências sociais se legitimaram, ampliaram seus objetos e disciplinas, firmando sua identidade, que requer novos espaços. A comissão organizou–se, estabeleceu normas informais, definiu e redefiniu o sistema de representação e seu formato, destacando: a promoção de eventos científicos, os diagnósticos e planos para solucionar os problemas da subárea, resposta às atribuições que lhe foram dadas pela associação e às iniciativas de seus intelectuais de delimitar o papel das ciências sociais e humanas na Saúde Coletiva, organizando seus profissionais e intervenções.

Palavras–chave: Abrasco; comissão; ciências sociais e humanas em saúde; atividades; estrutura; organização, planos diretores.


ABSTRACT

This paper analyzes the Social Science and Human in Health Commission at the Brazilian Collective Health Association and its trajectory, structure, organization and activities implemented from 1981 to 2006, within its administrative context, which gave major support to it, highlighting the different association and commission administrations. Abrasco's documents were used, such as journals, written reports, speeches from former coordinators and specific bibliography, such as reports from former coordinators or members. The paper allows concluding that from the initial difficult to communicate with the Collective Health area, the social sciences legitimated themselves and expanded their subject and disciplines, establishing their identity, which demands new fronts. The Commission organized itself, established informal rules, defining and redefining its representation system and shape. The commission's major activities were: promotion of scientific events; diagnosis and strategies to solve specific problems; accomplishment of goals established by the association and response to its intellectuals' initiatives to set up the role of the social and human sciences in the Collective Health, organizing its professionals and interventions.

Key words: Abrasco Commission; Social and Human Sciences in health; activities, structure; organization; directory plans.


 

 

Introdução

Reconstitui–se a trajetória da organização e implementação das atividades da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CCSHS), inserida na estrutura organizacional da Associação Brasileira de Pós–graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), ao lado de sua diretoria, conselho de associados institucionais e das demais comissões e grupos de trabalho. Este texto complementa esforços anteriores, como o de Belisário (2002), que pioneiramente reconstituiu a história da Abrasco, usando documentos e depoimentos de suas lideranças, como atores articulados em torno da instituição e alguns textos de autores da coletânea organizada por Lima e Santana (2006), comemorando os 25 anos da associação.

Ao percorrer a trajetória da CCSHS no período 1981 a 2006, articulam–se a organização e implementação das atividades aos contextos das estratégias das diferentes diretorias que lhe oferecem maior incentivo, selecionadas previamente a partir da leitura de bibliografia e documentos. O texto transcende o mero registro das informações, sendo que a organização da comissão responde simultaneamente às atribuições fixadas pela Abrasco e ao consenso e iniciativas dos cientistas sociais sobre a necessidade de marcar a identidade da subárea de conhecimento, de desenvolvê–la e aprimorá–la, uma vez constituinte e integrante da Saúde Coletiva, onde se entrecruzam distintos saberes e práticas. As atividades implementadas pelas diferentes gestões da comissão retratam as iniciativas e apoios de seus integrantes.

Consultaram–se documentos específicos da comissão, como os relatórios, atas de reuniões (quando disponíveis), comunicações das gestões divulgados nos boletins da Abrasco, além de informações de ex–coordenadores ou integrantes da comissão que prestaram informações complementares à autora, por via eletrônica ou oralmente1.

 

Formulações das atribuições da comissão

Comissões e grupos de trabalho são "braços" da diretoria da associação, segundo um dos entrevistados de Belisário (2002), cujas finalidades, apontadas no início da estruturação da associação, eram duas: estabelecer políticas de ensino e pesquisa nas suas respectivas áreas e desenvolver programação editorial (BELISÁRIO, 2002).

Em 1986 acrescentaram–lhes as atribuições de divulgar a análise das políticas públicas e dos problemas das áreas; colaborar na organização dos eventos; desenvolver atividades de cooperação técnica; identificar recursos humanos, materiais e financeiros para viabilizar as iniciativas propostas, definidas ao longo de seus trabalhos (BELISÁRIO, 2002). Tanto é que se concedeu maior autonomia decisória e financeira às comissões, ao lado de centralizá–las no eixo das proposições da política pública de saúde, no diagnóstico e intervenções sobre os problemas identificados no ensino, pesquisa, embora reconhecidas as especificidades das distintas disciplinas da Saúde Coletiva.

Quando foi revisto o estatuto da associação, as comissões redefiniram–se como grupos assessores do processo de Saúde Coletiva e suportes para as reflexões e tomada de decisões da diretoria (BELISÁRIO, 2002), tornando–se orgânicas e compromissadas com o projeto da Saúde Coletiva, unificando as distintas áreas de conhecimento em torno da interdisciplinaridade e das atribuições e ligações delas com as estratégias das decisões da diretoria, interlocução e respaldo dos interessados.

Tomam–se estes enunciados, não apenas como referências formais, mas de concepções formuladas sobre as atribuições das comissões, pelas diferentes gestões da Abrasco, embora na implementação e funcionamento das atividades da associação e das próprias comissões pudessem aparecer outras concepções não–formalizadas sobre suas atribuições, cuja análise completa demandaria acionar mais amplamente as memórias do conjunto de atores ex–integrantes da CCSHS, o que foge às possibilidades imediatas.

 

Breve perfil da Abrasco

Desde sua criação, em 1979, e durante a década de 1980, a Abrasco implantou–se como associação articuladora dos interesses do campo da Saúde Coletiva no país; reuniu as instituições formadoras de recursos humanos e as diferentes correntes de pensamento político–ideológicas, científicas e partidárias presentes no campo. Primeiramente, implementaram–se avaliações e orientações do ensino da Saúde Coletiva e de suas diferentes áreas na graduação e pós–graduação sensu lato, que perderam prioridade posteriormente, exceto em áreas específicas. Avaliaram–se os cursos de pós–graduação stricto sensu e a política científica e tecnológica, desde a década de 1990, embora se verifiquem esforços anteriores de diagnosticar e orientar a política de recursos humanos neste nível na década de 1980 (BELISÁRIO, 2002; MINAYO, 2006).

A Abrasco participou ativamente da formulação da política de saúde, como ator político, marcando algumas diretorias a face política da associação (BELISÁRIO, 2002) na década de 1980, no contexto de redemocratização do país; da Assembléia Nacional Constituinte, da formação do Sistema Único de Saúde (SUS) e elaboração da Lei Orgânica da Saúde.

Fortaleceram–se, simultaneamente, as áreas específicas, organizadas em comissões próprias: Epidemiologia, Ciências Sociais e Planejamento, ao lado dos diferentes Grupos de Trabalho, contribuindo para demarcar suas identidades, cujos eventos próprios e os gerais da Abrasco – fóruns científicos, de reflexão e debate da política de saúde –, divulgaram as produções científicas, fornecendo visibilidade à associação, no espaço político–institucional.

Na década de 1990, debateram–se as conquistas constitucionais e a implementação do SUS, esforçando–se para garantir as bases legais obtidas e a implantação do modelo de gestão do SUS (universal, descentralizado e participativo). Isto resultou no comprometimento de articular a política de saúde às diferentes esferas executivas de governo–federal, estadual e municipal – para garantir o processo de descentralização, o funcionamento dos conselhos de saúde, juntamente com as conferências nacionais de saúde e dos congressos da Abrasco (FONSECA, 2006, p. 29– 30).

Ao lado do reforço à política de formação de recursos humanos na pós–graduação stricto sensu, as intervenções junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e aos setores de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde geraram instâncias decisórias próprias à Saúde Coletiva, como o comitê do CNPq e a representação da área de Saúde Coletiva na Capes, responsável pelo julgamento e avaliação dos cursos de pós–graduação. Formou–se o Fórum de Coordenadores dos Cursos de Pós–Graduação em Saúde Coletiva, no interior da Abrasco. O desenvolvimento da política editorial gerou novos canais à divulgação da produção científica, como as revistas Ciência & Saúde Coletiva e de Epidemiologia.

A associação, nos primeiros seis anos do século XXI, resgatou estrategicamente a intervenção na política de saúde, centrando–se na implementação do SUS e da própria Reforma Sanitária, em um novo contexto político e econômico. Após os progressos obtidos, persistem problemas, impondo obstáculos à maior eqüidade. Deu–se a maior flexibilidade e reforma do Estado, embora a condução da política de saúde e a implementação do SUS ainda não efetivassem inteiramente o direito universal à saúde dos cidadãos, proporcionando–lhes acesso e promoção da cidadania.

Simultaneamente, naquele período esforçou–se na articulação internacional da associação, com outras latino–americanas, mundiais e canadense de saúde pública, ou nas áreas específicas (Ciências Sociais; Epidemiologia; Gestão e Planejamento; Saúde Reprodutiva e Gênero; Saúde e Trabalho e outras) facilitando tanto as alianças e o intercâmbio acadêmico de algumas instituições do campo, de seus respectivos cursos de pós–graduação ou interesses de seus intelectuais, quanto à realização de eventos científicos conjuntos. Não é novidade a internacionalização da associação, à medida que a Abrasco, nas palavras de Noronha (BELISÁRIO, 2006, p. 58) "nasceu com uma visão internacionalista [...] uma vez fundada no final dos anos 70, o foi sob a égide de uma reforma democrática internacional da utopia de um mundo de irmãos".

A Abrasco continua contribuindo na consolidação dos cursos de pós–graduação e formulação dos conteúdos de ciência e tecnologia adotados na área (MINAYO, 2006), refletidos ainda no amadurecimento das ciências sociais e humanas em saúde, na formulação de ajustes e de novos parâmetros de julgamento de sua produção acadêmica, persistindo a meta atual de promover sua identidade nas instituições de ciência e tecnologia, sempre a partir da multidisciplinaridade. Questionam–se, pertinentemente, o relativo abandono de outros níveis de ensino, focos iniciais da associação, com possíveis reflexos na perda da renovação de quadros futuros para a área (CAMPOS, 2000, p. 3).

 

As diretorias e os incentivos às ciências sociais e humanas em saúde

A década de 1980

Os esforços da primeira diretoria deram–se em torno da organização e institucionalização da Abrasco, sob a presidência de Frederico Simões Barbosa e demais componentes, como Guilherme Rodrigues da Silva, Ernani Braga e José da Silva Guedes, no período 1979 a 1981.

Na segunda diretoria (1981–1983), estavam Benedictus Philadelpho de Siqueira (presidente), José da Silva Guedes, Jairnilson Paim, Ernani Braga e Paulo Buss. Dentre as atividades, destacaram–se: 1) a manutenção das residências de Medicina Preventiva e Social e a formação de especialistas em Saúde Pública; 2) constituição do campo da Saúde Coletiva e das diferentes disciplinas que o ancoram; 3) produção editorial (Série Estudos de Saúde Coletiva e Boletim); 4) organização do I Congresso Nacional da Abrasco e II Congresso Paulista de Saúde Pública, São Paulo, ocorrido em 17 a 21 de abril de 1983; 5) implantação dos grupos de trabalho sobre as residências médicas em Medicina Preventiva e Social, a avaliação dos cursos de Saúde Pública e do ensino de Medicina Preventiva e Social.

Quanto às ciências sociais, deu–se a I Reunião Nacional sobre Ensino, Pesquisa de Ciências Sociais na área da Saúde Coletiva, em São Paulo, no mês de julho de 1982, promovida por Abrasco/Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (ARCOVERDE, 2006). No foco das discussões sobre a formação de especialistas para a Saúde Coletiva, estavam as ciências sociais nos cursos de residência em Medicina Preventiva e Social e especialização em Saúde Pública, cujos problemas identificados foram: 1) dificuldades de inserção dos docentes de ciências sociais, devido às posturas críticas em relação aos saberes e práticas de Saúde Coletiva; 2) cargas horárias variadas dos cursos oferecidos; 3) coexistência de formações diferentes dos docentes: uns formados em ciências sociais (sociologia, economia e ciências políticas), enquanto outros formados em medicina, com mestrado em Saúde Coletiva; 4) os assuntos selecionados para o ensino das ciências sociais foram: os determinantes sociais do processo saúde/doença; condições de saúde da população, relações entre saúde e sociedade, organização social da prática médica, orientando–se pela corrente de Medicina Social. Havia forte tensão entre a aplicação do conhecimento e o ensino calcado nas teorias das ciências sociais.

As recomendações foram as seguintes: 1) promoção de cursos para atualização dos docentes; 2) criação de um programa editorial permanente; 3) divulgação ampla e sistemática das oportunidades formais de capacitação no Brasil e exterior, através dos Boletins da Associação e do Catálogo de Pós–Graduação; 4) ampliação do programa de bolsas da Capes e CNPq e outras instituições; 5) ampliação dos mecanismos de intercâmbio, apoio, coordenação e assessoria técnica entre os programas no biênio 1982/1983; 6) incorporação das ciências sociais na pesquisa em saúde (ABRASCO, 1983).

Formaram–se as comissões editoriais da Abrasco, incluindo a de Ciências Sociais, em função da necessidade de produzir textos e bibliografia para a Saúde Coletiva. Sem dispor dos resultados dos trabalhos dessas comissões e de suas políticas editoriais, divulgaram–se os Estudos de Saúde Coletiva, no período de 1982 até o final da década de 1980, contendo artigos, diagnósticos do ensino, programas de pesquisa (Peses/Finep), relatórios e recomendações das reuniões e seminários sobre o ensino das diferentes áreas da Saúde Coletiva, nos seus respectivos níveis.

Eleita a terceira diretoria no primeiro Congresso Nacional da Abrasco para o triênio 1983–1985, Hésio A. Cordeiro esteve na presidência com os demais componentes: José da Rocha Carvalheiro, Francisco Eduardo Campos, Tânia Celeste Matos Nunes e Paulo Buss. As diretrizes formuladas foram: 1) passagem da teoria à prática, tornando–se a Abrasco ator político na formulação da política de saúde; 2) fortalecimento do movimento sanitário no contexto da redemocratização do país; 3) reforço ao ensino e formação de recursos humanos; 4) construção do campo da Saúde Coletiva; 5) articulação com as agências de fomento; 6) criação da comissão de política de saúde na etapa preparatória da VIII Conferência Nacional de Saúde.

Realizou–se o curso de atualização dos docentes e pesquisadores da área de CSS (Salvador–Bahia, de 16 a 27 de maio de 1983), propondo–se "articular os diferentes centros de pós–graduação em Saúde Coletiva no país, estimulando–se a discussão e formulação, pelo conjunto dos docentes pertencentes aos programas e práticas de ensino e investigação na área de Ciências Sociais em Saúde" (ABRASCO, 1984, p. 145). Diagnosticou–se a situação do ensino das ciências sociais nos cursos de pós–graduação lato sensu, propondo–se a organização e aperfeiçoamento da residência e especialização em Saúde Pública. (ABRASCO, 1984).

Promovido por Abrasco/CNPq e Capes, o curso teve como organizadores Sebastião Loureiro (UFBA), Carmem Fontes Teixeira (UFBA) e Tânia Celeste Matos Nunes, com 50% dos participantes oriundos das regiões Norte e Nordeste e os demais da Região Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais), procedendo do corpo docente de várias instituições: Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, Faculdade de Medicina da Santa Casa, Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Federal da Bahia, Fundação Getúlio Vargas e Universidade Estadual de Campinas. Contou com a assessoria da Organização Pan–Americana da Saúde, através de Juan César Garcia, e da Universidade Autônoma do México, através de Asa Cristina Laurell.

Os conteúdos desse curso deixaram nítida a tendência de articular teorias sociológicas ao exame dos determinantes do processo saúde/doença, sob o materialismo histórico; diagnosticar e analisar as condições de saúde da população; desenvolver a Epidemiologia Social e analisar a organização social da prática médica e de setores específicos, como a saúde do trabalhador e os movimentos sociais em saúde. Foram conteúdos do curso: 1) fundamentos teóricos das ciências sociais, correntes de pensamento, sua incorporação às práticas de pesquisa em Saúde Coletiva e métodos e técnicas de investigação; 2) evolução histórica das condições de saúde das populações; 3) desenvolvimento das Ciências Sociais no estudo da saúde; da determinação do processo saúde/doença e no enfoque teórico da análise do social em saúde; 4) técnicas de investigação na epidemiologia social; 5) pesquisas em políticas e práticas de saúde; 6) política de saúde ocupacional e movimentos sociais e saúde.

Esboçou–se uma proposta para uniformizar os propósitos, conteúdos e metodologia do ensino das ciências sociais que conduzisse o aluno a tomar consciência do contexto em que se insere e dos limites do saber e das práticas médicas tradicionais; capacitá–lo a elaborar uma descrição distinta da realidade, incorporando a visão crítica do social e não apenas ideológica, e produzir conhecimentos sobre a conjuntura de saúde. A metodologia de ensino deveria partir de textos de medicina social e não das ciências sociais disciplinares. Os debates sobre a proposta recusaram uniformizar aquele ensino em torno do projeto da corrente de medicina social, em função da diversidade das ciências sociais e de sua desejada articulação com as demais disciplinas (Planejamento em Saúde e Epidemiologia) na redefinição das práticas de saúde coletiva (ABRASCO, 1984).

Em janeiro de 1986, criou–se a Comissão de Ciências Sociais (CCS), junto com as comissões de outras subáreas da Saúde Coletiva e da Comissão de Políticas de Saúde (ARCOVERDE, 2006), permanecendo a primeira a cargo de Everardo Duarte Nunes e Amélia Cohn. A força da conjuntura política e o forte empenho da associação no processo de Reforma Sanitária priorizaram a implementação das atividades da Comissão de Política de Saúde, que funcionou autonomamente às demais ciências sociais, atuando fortemente na formulação e vocalização da política de saúde, defendida pela associação e pela militância do movimento sanitário, tendo permanecido, posteriormente, apartada das primeiras.

A década de 1990

No período 1989 a 1991, José da Silva Guedes presidiu a associação ao lado de Nilson do Rosário Costa, Carmem Fontes Teixeira, Alina Maria Almeida de Souza e Péricles Silveira da Costa, componentes da diretoria que implementaram as seguintes atividades: 1) ampliação da representação política da Abrasco no Conselho Nacional de Saúde; 2) organização, identidade e atuação da área de Epidemiologia, realizando seu primeiro congresso específico; 3) estímulo à organização das demais comissões, elaboração de seus respectivos planos e atuação da comissão de política na análise da Saúde no Governo Collor; 4) desenvolvimento e aprimoramento da pós–graduação.

A "dura sobrevivência da Abrasco" foi a expressão utilizada por Belisário (2002) para caracterizar esta diretoria, que enfrentou uma conjuntura marcada por contradições em torno dos sucessos obtidos nos amparos legais para a implementação do SUS (Lei Orgânica da Saúde e instalação do Conselho Nacional de Saúde) e da forte redução do financiamento das políticas públicas (GOLDBAUM; BARRADAS, 2006, p. 89).

Iniciativas de agregar os cientistas sociais da área da saúde e realizar encontros nacionais ocorreram em 1990, pelo Grupo de Trabalho Saúde e Sociedade, que pretendia atuar junto à Associação de Pós–Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), o que não teve êxito. O GT fez o I Encontro de Cientistas Sociais do Rio de Janeiro no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob a coordenação de Madel T. Luz (UERJ) e Maria Tereza Ewbank (ENSP), assim como outro encontro durante a 43ª Reunião da SBPC (LUZ; EWBANK, s/d).

As professoras elaboraram o documento "Quem é quem em ciências sociais e saúde", identificando 77 profissionais da área, demonstrando sua alocação não–exclusiva no Rio de Janeiro. Esse número saltou para 158 no Catálogo de Cientistas Sociais em Saúde (ABRASCO, 1995), organizado após o I Encontro de Ciências Sociais em Saúde, realizado em 1993 em Belo Horizonte2.

A idéia de traçar um programa de trabalho para as ciências sociais gerou um outro grupo de trabalho, reunido no mês de dezembro de 1990 (ABRASCO, 1990), com as presenças de Madel T. Luz (IMS), Amélia Cohn (USP/CEDEC), Nísia Trindade Lima (COC/FIOCRUZ), Regina Célia Bodstein (ENSP), Rubens Adorno (FSP–USP), Fabíola Zione (FSP–USP), Everardo Duarte Nunes (UNICAMP) e Nilson do Rosário Costa (ENSP), além de Péricles da Silveira, da secretaria executiva da associação, que colocaram na pauta de suas discussões a seguinte questão: o que se constitui a área de ciências sociais em saúde?

As respostas demarcaram suas características: as diversidades profissional, teórica e temática; distinção entre militância política e a contribuição das ciências sociais à Saúde Coletiva, cujo "chamado à prática" e à reinvenção social ocuparam a década de 1970; a necessidade de dar visibilidade à produção científica; a superação do saber militante e vigilância epistemológica. Impuseram–se os seguintes desafios: a releitura do corpo teórico das ciências sociais; a maior qualificação dos cientistas sociais; a captação de novos profissionais; a maior articulação das ciências sociais com as disciplinas da Saúde Coletiva; a produção de metodologias e práticas de pesquisa; o estabelecimento de uma agenda de pesquisas sobre a cidadania, direitos, desigualdades sociais e não apenas sobre a reforma setorial (ABRASCO, 1990).

A sexta diretoria (1991–1993) teve Arlindo Fábio Gómez de Souza na presidência e, como demais integrantes: Maria Cristina Lodi Guedes, José da Rocha Carvalheiro, Júlio S. Muller Neto e Péricles da Silveira, cujas atividades recuperaram a representação da Abrasco no Conselho Nacional de Saúde. Organizaram–se outros grupos de trabalho (informação em saúde, comunicação em saúde e saúde do trabalhador); realizou–se o III Congresso de Saúde Coletiva, assim como o II Congresso Brasileiro de Epidemiologia e IV Congresso de Saúde Coletiva, além da I Reunião Nacional dos Conselheiros de Saúde; planejou–se, ainda, avaliar os cursos de pós–graduação stricto sensu.

A conjuntura financeira adversa para a associação não impediu a realização do I Encontro Brasileiro de Ciências Sociais em Saúde, realizado de 28/9 a 1º/10/1993 em Belo Horizonte, promovido por Abrasco e Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de Minas Gerais. O encontro propôs congregar os cientistas sociais em fórum próprio, reconhecendo a ausência de reunião como lacuna que impedia a discussão e o equacionamento dos problemas, a identidade profissional, o aperfeiçoamento dos métodos de pesquisa e ensino e o estabelecimento de interface com outros grupos da Saúde Coletiva, assim como o debate sobre a crise da saúde no país (ABRASCO/UFMG, 1993).

As palavras de Arlindo Fábio Gomes no discurso de abertura daquele evento retrataram as primeiras dificuldades de introduzir as ciências sociais no campo da saúde, nos seguintes termos:

[...] nas discussões intermináveis, na busca da interdisciplinaridade os planejadores eram muito claros ao nos dizer que o planejamento não tinha nada a ver com a Sociologia e muito menos entendiam o que a Sociologia Política poderia dar de contribuição [...]. Os epidemiólogos simplesmente desconheciam a sua mãe, a Antropologia, e nós costumávamos dizer de que o problema de reconhecimento da mãe é da ordem de cada um [...]. A Sociologia mostrava a determinação social das enfermidades, o sistema econômico, a organização econômica do país, mas as questões da saúde eram vistas absolutamente isoladas do social [...]. Cecília Donangelo [...] nos mostra a possibilidade de utilização das categorias sociais na sua forma mais pura, digamos assim [...]. Outros procuravam de alguma maneira a aplicação desse conhecimento na área mé