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Physis: Revista de Saúde Coletiva

Print version ISSN 0103-7331

Physis vol.20 no.2 Rio de Janeiro  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312010000200005 

ARTIGOS DO TEMA

 

Alimentação e cultura como campo científico no Brasil*

 

Food and culture as a scientific field in Brazil

 

 

Juliana Klotz SilvaI; Shirley Donizete PradoII; Maria Claudia Veiga Soares CarvalhoIII; Tatiane Freire Silva OrnelasIV; Patrícia França de OliveiraV

INutricionista; mestranda do Programa de Pós-Graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Alimentação e Cultura (NECTAR) do INU-UERJ
IIDoutora em Saúde Coletiva; docente do Programa de Pós-Graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde e pesquisadora do NECTAR, INU-UERJ
IIIDoutora em Saúde Coletiva; professora visitante do Departamento de Nutrição Social e pesquisadora do NECTAR, IN-UERJ
IVGraduanda do curso de Nutrição e Bolsista do Programa de Iniciação Científica do INU-UERJ
VGraduanda do curso de Nutrição do INU-UERJ e bolsista do Programa de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

 

 


RESUMO

Este estudo tem por objeto a constituição do campo científico da Alimentação e Cultura no Brasil, tomando por norte as concepções de Bourdieu. Descrevemos o parque científico a que esse campo corresponde, sua distribuição geográfica e institucional, sua inserção nas áreas do conhecimento, as questões investigadas, a qualificação dos pesquisadores, sua produção acadêmica e seus vínculos com programas de pós-graduação stricto sensu; suas sociedades e organizações científicas são objetivos mais específicos deste artigo. Três espaços sociais do mundo da ciência estão em jogo: "Sociologia e Antropologia", "Saúde Coletiva" e "Alimentação e Nutrição", que tem incorporado no habitus de seu agente principal, o pesquisador das Ciências da Saúde, as reflexões, potencialidades e recursos metodológicos oriundos das Ciências Sociais e Humanas. A teia de significados tecida nesse lugar de encontro entre distintos saberes se encontra marcada pela visão hegemônica biomédica, se ressente e demanda um domínio mais sólido de conceitos e métodos capazes de enfrentar a complexidade da realidade e dos problemas além das bancadas dos laboratórios, na vida em sociedade.

Palavras-chave: Alimentação; cultura; campo científico; pesquisa; Sociologia; Antropologia; Nutrição.


ABSTRACT

This study focuses on the establishment of the scientific field of Food and Culture in Brazil, guided by Bourdieu's concepts. We describe the science park corresponding to this field, its geographical and institutional distribution, its insertion in the fields of knowledge, the issues investigated, the qualifications of the researchers, their academic programs and its links with post-graduate studies, their societies and scientific organizations are more specific objectives of this paper. Three areas of social science world are analyzed: "Sociology and Anthropology," "Health" and "Food and Nutrition" which is incorporated into the habitus of its main agent, the researcher of the Health Sciences, reflections, potential and methodological resources from the Social Sciences and Humanities. A woven web of meanings in this meeting place of different knowledge is marked by hegemonic biomedical viewpoint, resents and demands a stronger field of concepts and methods capable of dealing with the complexity of reality and the problems beyond laboratory benchs in life in society.

Key words: Food; culture; scientific field; research; Sociology; Anthropology; Nutrition.


 

 

Introdução

Este estudo tem por objeto a constituição do campo científico da Alimentação e Cultura no Brasil. Faz parte de projeto mais amplo, denominado "A pesquisa sobre alimentos, alimentação e nutrição no Brasil" (PRADO et al., 2005), que desde 2005 vem sendo desenvolvido no interior do Núcleo de Estudos sobre Cultura e Alimentação (NECTAR) do Instituto de Nutrição da UERJ, integrando a linha de pesquisa "Políticas, saberes e práticas em Alimentação, Nutrição e Saúde" do Programa de Pós-graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde.

Segundo Bourdieu (1983a, 1983b, 2001), "campo científico" corresponde a um sistema de relações objetivas em que agentes conquistam posições em um espaço de lutas e de continuidades na história, no qual se articulam variados tipos de homologia, como dominante e dominado, maior e menor influência, conservador e vanguarda, guiados por interesses em disputas mais concorrenciais do que complementares. A luta no campo científico envolve o monopólio da competência científica, considerado uma forma de capital, o científico, ainda segundo Bourdieu, e que atribui valores como poder, prestígio e notoriedade a quem o detém, compondo uma hierarquia social que organiza a distribuição de recursos financeiros. As regras que determinam as pesquisas científicas são as de um jogo que se constitui processualmente na constituição do campo.

É por meio de disposições adquiridas ao longo do tempo, habitus, que os agentes sociais conquistam suas posições no campo, que podem ser reforçadas ou enfraquecidas no decorrer do jogo, dependendo das trocas simbólicas que podem conferir maior capital científico aos agentes nas suas relações com seus pares no campo. Portanto, assim como o habitus é estruturado socialmente, ele também é estruturante das ações sociais. Refere-se a um grupo social, mas também ao indivíduo, garantindo a interiorização de valores, crenças e normas, adequando o agente à sua posição social. Representa "'uma maneira de ser', 'um estado habitual', [...] uma 'predisposição', uma 'tendência', uma 'propensão' ou uma 'inclinação'" (BOURDIEU, 1983a, p. 61).

Esse capital é legitimado no campo científico, associado à produção no campo da pesquisa, que segue hierarquia de valores e de pontuação própria de cada área de conhecimento. Segundo Luz, a valorização de uma racionalidade segue critérios políticos na conquista de posições favoráveis em um embate de forças inerente à constituição do próprio campo, em que a racionalidade da biomedicina se manteve hegemônica através de estratégias e recursos científicos, das ciências naturais, para desacreditar as racionalidades emergentes, de modo a continuar em destaque na comunidade científica (LUZ, 2004). A grande produção científica de trabalhos de pesquisa na área da epidemiologia da Saúde Coletiva tem garantido sua posição de superioridade no campo, o que não implica desvalorizar a seleção de conteúdo, linhas e objetos de pesquisa, mas reforçar os critérios de seleção que seguem as regras do jogo em um campo, nos termos de Bourdieu.

Adotamos a noção de campo científico marcada pelo dinamismo, pela possibilidade de transformação e interação das regiões do conhecimento ao longo do tempo no espaço social, cientes de que vários são os elementos e as articulações possíveis que orientam a produção científica e que, portanto, em seu lugar de relevância merecem um olhar aprofundado e criterioso. Os agentes sociais que atuam nos campos científicos em questão se materializam por meio de: grupos de pesquisa, seus pesquisadores e lideranças respectivas; programas de pós-graduação stricto sensu; comitês de avaliação em agências de fomento à pesquisa e formação de pesquisadores; sociedades científicas; para citar alguns mais conhecidos e talvez os de maior repercussão sobre a ciência brasileira.

Aqui é importante demarcarmos, conceitualmente (BOURDIEU,1983a; 1983b e STENGERS, 1990), a existência de dois campos científicos bem estabelecidos no Brasil: o dos Alimentos e o da Alimentação e Nutrição.

O campo dos Alimentos encontra-se centrado na qualidade química, sanitária e no desenvolvimento de produtos para o mercado interno e, em particular, para o exterior, atividades concebidas historicamente como uma certa vocação econômica nacional. Além dos aspectos químicos, sanitários, políticos e econômicos, o conceito de alimento é basicamente entendido "como coisa em si, desprovida de qualquer significado: mero veículo de substâncias químicas ou, mais especificamente, de moléculas complexas" (PRADO et al., 2009a, p. 3). Aparece na esfera da Natureza, como uma substância ou um carreador externo ao corpo destinado à saciedade da fome, voltado ao instinto biológico inerente à sobrevivência de todas as espécies. O alimento e o comer surgem nitidamente com características de satisfação das necessidades fisiológicas dos corpos humanos, como o seriam para qualquer representante de outra espécie vivente. Em termos empírico-institucionais, o lugar que protagoniza a produção de conhecimentos sobre o alimento corresponde às denominadas Ciências Agrárias, centralmente, através da chamada Ciência e Tecnologia dos Alimentos, havendo atividades correlatas em várias outras áreas do conhecimento.

Segundo Carvalho, Luz e Prado (2009), o campo da Nutrição atribui um sentido ao comer, que se torna racionalizado e biologicista característico da concepção biomédica da saúde. Neste universo, o alimento aparece abstraído em nutrientes e a Nutrição é vista essencialmente como a Ciência dos Nutrientes. O nutrir e a dieta são descritos como atos voltados ao funcionamento e à fisiologia do ser humano. A dieta é encarada de acordo com a sua função principal: de medicamento, necessário à prevenção e cura de doenças e à manutenção da saúde reduzida à sua dimensão biológica. Verificamos que os tratados que compõem a literatura científica neste campo específico da Nutrição se voltam para a análise dos nutrientes presentes nos alimentos e suas propriedades bioquímicas, retratando o processo de digestão e utilização, indispensável ao corpo biológico em estado normal ou patológico do organismo. Os estudos de Prado et al. (2006a, 2006b, 2007a, 2009), em afinidade com a literatura nacional (BOSI, 1988, 1996), corroboraram a afirmativa anterior. Evidentemente, há outras abordagens, outros olhares sobre a Nutrição e sobre o Alimento, mas certamente são minoritários nesse nosso enfoque sobre o campo.

Já o conceito da Alimentação encontra-se representado pelos inúmeros sentidos e significados, ritos e símbolos, saberes e práticas na criação histórico-cultural das sociedades, no decorrer dos tempos (CARVALHO; LUZ; PRADO, 2009; PRADO et al., 2009). A comida – alimento simbolizado –, o alimentar-se a si mesmo e ao outro ganham espaço na ordem do social, do cultural, do político, do filosófico e do psíquico. Tendo por referência as concepções sobre Ciências Humanas em Foucault (2000), de que o comer e o nutrir, como fenômenos humanos, se fundem no amálgama empírico e simbólico da alimentação deste ser único que, distintamente de qualquer outro animal, trabalha na produção, distribuição e consumo da comida, faz dela expressão de sua linguagem e a tem em suas representações. Esse complexo, por sua vez, se mantém em movimentos constantes de reconstruções e de ressignificações de seu próprio trabalho, de sua linguagem e de suas representações sobre essa comida que se transforma e compõe, profundamente, as mudanças no mundo. Em suma, a Alimentação corresponde às relações humanas mediadas pela comida (alimento simbolizado) e a Nutrição, seu desfecho biológico.

No plano institucional, o campo da Nutrição conforma-se tanto através do estabelecimento de um corpo disciplinar que se inscreve em vários outros espaços da ciência, como da formação de nutricionistas e de médicos nutrólogos (em suas disputas por mercado de trabalho, por exemplo) e de suas distintas sociedades científicas e de regulação das práticas profissionais; no plano do desenvolvimento de pesquisas e formação de pesquisadores, a Área da Nutrição encontra-se institucionalizada no interior das Ciências da Saúde. Não desfruta, porém, de posições tão mais favorecidas ou que angariaram mais sólido capital científico, como aquelas situadas nas Áreas da Medicina, da Saúde Coletiva ou na Grande Área das Ciências Biológicas e que se voltam para os mesmos objetos de estudo, disputando, com força excepcional, as possibilidades colocadas pelas instituições de fomento e de organização da ciência nacional.

A pesquisa sobre Alimentação – aqui excluído o desfecho de cunho estritamente nutricional da ordem do biológico ou com foco no alimento, como estrito mediador da ordem do químico, sanitário e econômico – tem suas bases na Antropologia, em suas etnografias extensas ou mesmo em abordagens folcloristas que cobriam, entre outros, aspectos relativos à comida no Brasil. Mais recentemente, as institucionalizadas áreas da Nutrição e da Saúde Coletiva, vêm-se dedicando a compreender a alimentação como fenômeno humano, resultando num crescente intercâmbio entre os campos biomédicos e humanísticos. Registramos, assim, um certo florecer das abordagens humanísticas nesse espaço social, como se pode inferir a partir da terminologia que vem sendo mais recentemente adotada para designar o campo: Alimentação e Nutrição.

Assim como Max Weber – que estabeleceu as bases teórico-metodológicas da sociologia compreensiva –, Geertz (1989) acredita que o homem está amarrado a teias de significados que ele próprio teceu. A cultura – inclusive a científica – faz parte dessas teias e de sua análise. Não como uma ciência em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. Se o significado é público, ou seja, se todos podem alcançá-lo, então a cultura também é assim. A cultura é uma rede de sistemas entrelaçados de signos (símbolos) interpretáveis. Faz parte de um contexto, dentro do qual os comportamentos sociais podem ser descritos e interpretados densamente. Assim, a análise cultural deve ser uma interpretação contextual dos significados e das ações sociais e simbólicas dos homens. Desde essa perspectiva, reconhecemos a existência de outras abordagens conceituais que se dirigem a esse mesmo objeto que serão consideradas, pois se fazem representar no cenário acadêmico. As Ciências Sociais e Humanas, em particular a Antropologia, conformam o lugar institucional que preside a pesquisa e formação de pesquisadores no que tange à cultura dos povos. O campo científico correspondente ao espaço social que se dirige ao encontro entre a cultura e a alimentação é foco de nosso interesse neste momento. É nosso propósito, aqui, investir na compreensão da Alimentação e Cultura como um campo de produção de conhecimentos e saberes no Brasil. Identificar o parque científico a que esse campo corresponde, sua distribuição geográfica e institucional, sua inserção nas áreas do conhecimento, as questões investigadas, a qualificação dos pesquisadores, sua produção acadêmica e seus vínculos com programas de pós-graduação stricto sensu, suas sociedades e organizações científicas são objetivos mais específicos deste artigo.

 

Percurso metodológico

Um recorte empírico, em correspondência aos fundamentos teóricos assumidos, situa-se no espaço do Diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 2009), onde é possível identificar grupos de pesquisa que desenvolvem estudos sobre Alimentação em seus aspectos culturais, destacando suas articulações com programas de pós-graduação stricto sensu, conforme informações disponíveis na página eletrônica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, 2009).

O Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq corresponde a uma fonte privilegiada de informações sobre campos científicos, pois é um projeto desenvolvido desde 1992 com vistas a abarcar o universo da pesquisa nacional. O diretório realizou até hoje oito censos (1993, 1995, 1997, 2000, 2002, 2004, 2006 e 2008), cujos resultados estão disponíveis na Internet, sendo possível proceder a buscas relativas aos últimos cinco levantamentos e na base corrente de dados, que é atualizada continuamente a partir do último censo realizado.

A partir dessa base de dados, estudos já foram empreendidos no Brasil abordando Epidemiologia (GUIMARÃES; LOURENÇO; COSAC, 2001), Geriatria e Gerontologia (PRADO; SAYD, 2004a; 2004b), a temática da Segurança Alimentar e Nutricional (PRADO et al., 2010a; 2010b), entre vários outros (RAPINI, 2007; ANDRADE et al., 2007; FREITAS et al., 2009), todos resultando em avaliações e reflexões acerca da conformação desses campos de conhecimento, bem como em apresentação formal daqueles grupos ou redes de pesquisadores que se destacam pela qualidade de sua produção científica atual ou potencial.

Esses grupos de pesquisa se encontram ordenados no diretório conforme a Tabela das Áreas do Conhecimento, onde há uma área designada "Nutrição", vinculada às Ciências da Saúde, e outra denominada "Ciência e Tecnologia de Alimentos", vinculada à grande área de Ciências Agrárias. Não há meios que possibilitem identificar, diretamente, nessa taxonomia atividades científicas relativas à Alimentação, no entanto como são duas áreas com afinidade para essa temática foram delimitadas para estudo. Alimentação e cultura geram questões constantes e fortes em nossas vidas cotidianas e na história da humanidade, e orientaram a busca em um exercício empírico exploratório no Diretório do CNPq, a fim de identificar os grupos e linhas de pesquisa que de alguma forma têm discutido essas questões.

Estas buscas foram efetuadas por meio de combinações entre dois conjuntos de palavras-chave: o primeiro correspondendo a alimento, alimentação, nutrição, comida, culinária; e o segundo, a cultura, antropologia. Incluímos ainda as temáticas alimentação saudável e gastronomia. Eliminamos grupos que estudam culturas estritamente biológicas (de plantas, animais, bactérias, fungos e similares) e aqueles que, nem mesmo indiretamente, tratavam de Alimentação e Cultura para seres humanos (como alimentação de sistemas de energia elétrica). Percorremos todos os cinco censos disponíveis para consulta.

Com o propósito de identificar quais produções se voltam para a temática da Alimentação e Cultura, realizamos, em março de 2009, buscas nas bases de dados bibliográficos: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Incluímos revistas eletrônicas não indexadas nessas bases cujos assuntos e textos eram de nosso interesse. Consultamos também bibliotecas universitárias e de institutos de pesquisa. O próprio Diretório do CNPq traz informações sobre a produção científica dos pesquisadores, porém muitas delas são incompletas, especialmente nos quesitos que permitem identificar sua localização. A Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT, 2009) seria fonte importante de consulta, mas também encontramos muitas dificuldades nas tentativas que vimos fazendo para identificar as obras de nosso interesse no interior da base de dados. Observamos que há oscilações nos resultados recuperados em nossas buscas. Enfim, a produção identificada engloba o período que vai da década de 1970 até o ano de 2008; incluímos alguns estudos recentes que consideramos pertinentes ao estudo.

 

Atores sociais que compõem o campo

Os dados disponíveis nas Séries Históricas do Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil (CNPq, 2009) informam a existência, em 2008, de 22.797 grupos de pesquisa distribuídos em 422 instituições e compostos por 104.018 pesquisadores, dos quais 64% são doutores. Registram, ainda, 148 grupos que indicam a "Nutrição" como sua área predominante e 299 na Área "Ciência e Tecnologia de Alimentos".

Consideramos, entretanto, que a pesquisa, ao conformar o conhecimento dinâmico e complexo da realidade objetiva, não se realiza numa única área do conhecimento, tal como apresentado nessa taxonomia institucionalizada: um mesmo estudo pode estar vinculado a vários campos de saberes. Resultados preliminares do projeto global com buscas no mesmo diretório a partir de palavras-chave, desse modo mais ampliado, mostram que a pesquisa sobre Alimentos, Nutrição e Alimentação no Brasil corresponde a um universo bem maior – cerca de mil grupos, praticamente, o dobro do que está registrado nas Séries Históricas do Diretório – e presente em quase todas as Grandes Áreas do conhecimento. A pesquisa que se realiza no campo da Alimentação, por seus fundamentos conceituais e metodológicos, corresponde a estudos de natureza humanística, que se expressam em dois agregamentos bem específicos: um que diz respeito a abordagens sobre as Políticas de Alimentação, Direito humano à Alimentação ou Segurança Alimentar, principalmente; e um segundo, que têm a cultura por referência, completando o escopo desse campo. Dos 97 grupos identificados no censo de 2008 que dirigem seus esforços no âmbito da Alimentação (PRADO et al., 2009b), apenas 31 correspondem ao interesse específico deste estudo – Alimentação e Cultura – que apresentamos a seguir.

Os grupos de pesquisa

As dimensões básicas da pesquisa no campo da Alimentação e cultura no Brasil encontram-se apresentados na tabela 1.

 

 

Ainda que o espaço científico dos grupos de pesquisa em Alimentação seja pequeno, seu crescimento é muito evidente e bem mais acentuado que o observado para o conjunto da ciência brasileira, este que vem sendo objeto da admiração internacional dos últimos anos (GOIS, 2009), como se pode observar no Gráfico 1.

 

 

Atribuímos fenômeno tão marcante, ao menos em parte, a uma certa percepção crescente – particularmente entre nutricionistas – de que levar informações quanto às recomendações nutricionais à população, embora muito importante, não é suficiente para que se possa dar conta de questões como fome e desnutrição, e mais recentemente, obesidade ou transtornos alimentares. Isso tem levado ao interesse crescente por outras abordagens, distintas daquelas presididas pelo modelo biomédico que marca sua formação dessa categoria profissional; os horizontes mais humanísticos se descortinam, então, como uma alternativa ou um caminho de novas buscas para o pensamento e para a ação. Esse movimento estaria relacionado com a aproximação do campo nutricional com a Saúde Coletiva, que vem sendo uma das principais fontes de disseminação de pensamentos críticos ao paradigma clássico da biomedicina, além de constituir um pilar para investimentos acadêmicos, em busca de outras visões de mundo.

Em sustentação a nossa hipótese, observamos que esses 31 grupos de pesquisa concentram-se, particularmente, nas áreas da Antropologia, da Saúde Coletiva e da Nutrição, conforme a indicação dos líderes desses grupos de pesquisa (tabela 2).

 

 

Quanto à distribuição geográfica, a formação de grupos acompanha os padrões nacionais, com maior número de grupos nas Regiões Sudeste e Sul até 2006. A interiorização dessas atividades parece se intensificar quando se tomam os dados de 2008, como se pode observar na tabela 3. Isso pode estar associado tanto ao crescente interesse pela temática em questão, quanto às recentes políticas federais de investimento em pesquisa nas regiões Norte e Nordeste do país.

 

 

Quanto à sua inserção institucional, encontram-se instalados de forma rarefeita em 29 instituições (tabela 4).

 

 

Os pesquisadores e os estudantes

Nossos resultados indicam a existência de 261 pesquisadores e de 279 estudantes atuando com Alimentação e Cultura em 2008. A titulação doutoral é similar aos padrões da pesquisa nacional. De todos os líderes de grupos de pesquisa no país, 90% são doutores e 53,2% dos pesquisadores não líderes são doutores. Na tabela 5, estes dados podem ser mais bem visualizados. São indicações de uma formação adequada para a implementação de pesquisas, compatíveis com o cenário nacional, que é de crescimento.

 

 

De acordo com Guimarães, Lourenço e Cosac (2001), para avaliar a intensidade da reprodução da força de trabalho nesse campo (capacidade de formação de novos pesquisadores), utilizamos o indicador de dinamismo de uma pesquisa, que pode ser expresso pela relação entre o número de doutorandos e pesquisadores doutores, cujos valores são 0,35 para o Brasil e 0,23 para o campo da Alimentação e Cultura, no ano de 2008. Outro indicador para avaliação da constituição da massa crítica em pesquisa corresponde à sua consolidação científica, que pode ser determinada a partir da relação entre o número de doutorandos e o de estudantes em todos os graus de qualificação, desde alunos de iniciação científica até doutorandos. Também em 2008, esses valores correspondem a 0,15 e 0,13 para o Brasil e para o campo em tela, respectivamente.

Esses resultados – aquém das médias nacionais – nos levam a pensar que, embora haja crescimento intenso no número de grupos de pesquisa em questão, fica ao mesmo tempo identificada a necessidade de investimentos em aproximação desses grupos de pesquisa aos programas de pós-graduação stricto sensu, especialmente no que tange à formação de doutores, num movimento que se encaminhasse para o aumento no número de futuros pesquisadores e docentes de cursos de mestrado e de doutorado no campo.

Os programas de pós-graduação

Partindo dos curricula vitae Lattes, verificamos que 115 pesquisadores referem inserção em programas de pós-graduação; alguns dos quais encontram-se listados na tabela 6.

 

 

Registramos o importante vínculo dos pesquisadores com programas bem conceituados nos campos antropológico e da Saúde Coletiva. E também aqueles inseridos em programas criados mais recentemente e ainda em fase de estruturação e/ou implantação de cursos de doutorado, situados principalmente no que a CAPES denomina "Nutrição".

Proximidades epistemológicas entre os campos da "Saúde Coletiva", em especial no que concerne às Ciências Sociais e Humanas em Saúde, e da "Alimentação e Nutrição" – o que poderíamos situar no âmbito da reflexão crítica sobre saberes e práticas em alimentação e nutrição em saúde – têm operado como ponte que favorecedora para a formação de nutricionistas em cursos de mestrado e doutorado no campo sanitário. Menos buscada tem sido a fonte direta das Ciências Sociais e Humanas, o que talvez esteja vinculado às exigências de formação anterior no campo das Humanidades por parte desses programas e/ou às expectativas desses profissionais, que desde o início de seus estudos mostram uma tendência pela biologia na opção pelo curso de graduação em Nutrição (PRADO; ROTEMBERG, 1991) e, também, às insuficiências na formação graduada quando se trata de disciplinas como Sociologia, Economia, Antropologia, Psicologia (CANESQUI; GARCIA, 2005a). Assim, a Saúde Coletiva parece se colocar como um meio termo, como um solo mais seguro, como um saber de certo modo mais próximo e conhecido, e bastante confiável, como uma ponte entre a Nutrição e as Humanidades. No corpo docente dos programas de pós-graduação stricto sensu da área Nutrição, predominam nutricionistas, muitos dos quais com formação pós-graduada em Saúde Coletiva e, em menor proporção, em Antropologia ou Ciências Sociais, cabendo indicar o movimento crescente desta última alternativa nos anos recentes.

De um modo geral, a concepção de pesquisa qualitativa, inspirada sobretudo nos trabalhos de Cecília Minayo (1999) e Maria Lucia Bosi (2004), identifica muito da produção, que busca considerar aspectos culturais nos investimentos dirigidos à compreensão de saberes e práticas em alimentação, nutrição e saúde e, frequentemente, com vistas à intervenção alimentar-nutricional. Trata-se de uma produção acadêmica marcadamente distinta daquela oriunda da Antropologia ou da Sociologia ou da Filosofia atenta à análise dos fenômenos sociais, não tendo aí presentes, necessariamente, questões relativas à saúde ou preocupações de cunho intervencionista.

Enfim, esses nutricionistas que investem na pesquisa sobre alimentação e cultura vêm buscando aproximações, de forma militante, com aqueles que se vem mostrando abertos a colaborações no campo antropológico em torno da temática alimentação, saúde e cultura. Ainda que iniciais e tênues, esses laços vêm-se expressando através de publicações, cursos e eventos que têm impactado favoravelmente no campo científico, como abordaremos no tópico seguinte.

Essa militância político-acadêmica tem implicado a promoção de debates sobre o objeto do campo "Nutrição", de suas bases teóricas no âmbito das instituições e organizações que estão à frente das atividades do campo. A tradição hegemônica da "Nutrição" vai aos poucos, ainda que com alguma resistência, assistindo e assumindo a parceria da "Alimentação". Observemos que apenas um dos programas de pós-graduação e bem recente se identifica utilizando a expressão "Alimentação". Em 2009, a entidade que representa os cursos de mestrado e doutorado do campo formaliza sua denominação: Fórum Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Alimentação e Nutrição. Nesse mesmo ano, foram retomadas as atividades de um dos Grupos de Trabalho da Abrasco, que passou a denominar Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva.

Toda essa movimentação está intimamente relacionada aos interesses voltados para alimentação e cultura em busca de investimentos no sentido do incremento dessa pesquisa no interior dos programas de formação de pesquisadores stricto sensu no Brasil.

Sociedades e organizações científicas

Dentre as sociedades e organizações científicas que abordam o campo da Alimentação e Cultura destacamos a Associação Brasileira de Antropologia (ABA, 2009) e a Rede de Alimentação e Cultura (REDE A&C, 2009).

A ABA teve início há 50 anos, tendo organizado várias reuniões científicas (já foram realizadas 26 em diversas capitais brasileiras) e forte expressão nacional e internacional. Nas reuniões organizadas pela ABA, tem havido a participação de um grupo de trabalho denominado "Patrimônio, memória e saberes e práticas da alimentação" que pesquisa temas relacionados à comida1 (ASSOCIAÇÃO, 2009). Nomes com os da antropóloga Eunice Maciel, de Renata Menasche, encontram-se citados em quase todas as publicações por nós identificadas, ambas responsáveis também por atividades da International Commission on the Anthropology of Food (ICAF, 2010) no Brasil.

Já na Rede A&C predominam nutricionistas, lideradas por Denise Oliveira. A rede abarca diversas instituições do Brasil, como FIOCRUZ, UFRJ, UFBA, UFRGS, USP, UERJ e também de outros países, como a Universidade de Barcelona, na Espanha, e a Universidad Autónoma Metropolitana, no México. Destaca-se pela organização de eventos como palestras, encontros e cursos que buscam articular a alimentação e cultura, com ênfase em aspectos relativos à saúde e nutrição (REDE A&C, 2009). Algumas nutricionistas, como Rosa Wanda Diez Garcia, Maria do Carmo Soares de Freitas, Ligia Amparo da Silva Santos, Silvia Gugelmin, Gilza Sandre-Pereira e Mirian Baião, vêm-se destacando através da publicação de artigos e especialmente de livros com importante repercussão no campo.

Devemos dizer da presença frequente no Brasil, nos últimos anos, dos pesquisadores Jesus Contreras e Mabel Gracia, da Espanha, e Mirian Bertran Vilà, do México, tanto em conferências como em publicações bastante citadas, além da recente movimentação no sentido Brasil-Espanha de recém-doutores interessados em investimentos acadêmicos no campo da Alimentação e Nutrição.

Destacamos, ainda, a presença crescente do tema Alimentação e Cultura em eventos científicos situados no campo da Saúde Coletiva, a saber, Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva e Congresso Brasileiro de Ciências Humanas e Sociais em Saúde organizados pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO, 2010a). Pesquisadores com formação em Ciências Humanas e Sociais são referências importantes na formação de novos pesquisadores e na produção acadêmica, como Ana Maria Canesqui, Cecília Minayo e Madel Luz. No interior da Abrasco, o Grupo de Trabalho Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva (2010b), que conta com a presença ativa de pesquisadores que também são lideranças acadêmicas expressivas nessa interseção específica de campos em tela, como a nutricionista e psicóloga Maria Lucia Magalhães Bosi, entre outros já mencionados anteriormente.

No campo Alimentação e Nutrição, cabe mencionar a Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN, 2010), que vem incluindo a temática em seus últimos congressos para recepção de trabalhos, tem investido em oficinas pré-congresso, mesas-redondas, simpósios e similaridades. Um crescente número de trabalhos vem sendo apresentados por nutricionistas, evidentemente, muitas(os) com formação em andamento em programas de pós-graduação stricto sensu em Saúde Coletiva e em Alimentação e Nutrição. A Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) enfatiza abordagens de cunho mais biomédico nos eventos que organiza; mesmo assim vale registrar a presença do tema em questão em seus últimos congressos (SBAN, 2009), o que, ao menos em parte, foi resultado da ação do Fórum Nacional de Coordenadores dos Programas de Pós-Graduação em Alimentação e Nutrição – lugar onde também alguns pesquisadores do campo em tela têm se expressado – que passou a contar com espaço na programação desse evento e propôs algumas atividades nesse campo (FÓRUM, 2010). Devemos registrar a participação da nutricionista Rossana Proença, que vem fazendo uso do arcabouço teórico-metodológico próprio dos estudos sobre cultura para abordagem de práticas em restaurantes e outros espaços alimentares similares, entre outros nomes já mencionados acima.

Finalmente, devemos mencionar a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS, 2010) que, desde sua criação, em 1977, lida com a temática em tela em seus eventos e publicações, ainda que forma mais pontual, talvez.

Essas lideranças acadêmicas vêm atuando de modo firme e articulado no interior dessas entidades científicas. São, aproximadamente, essas mesmas pesquisadoras circulando em postos estratégicos, construindo bases, abrindo frentes novas de atuação, bem em conformidade com o que Bourdieu coloca em suas teses sobre a ação política que marca a conformação de campos científicos. Ao mesmo tempo, nesse habitus, vai-se enredando, como nos diz Geertz, uma teia cada vez mais complexa de significados que conferem sentidos a essa ação intrinsecamente social e cultural: a construção do campo científico Alimentação e Cultura.

 

A produção do campo

A produção científica identificada a partir do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq proveniente do campo da Alimentação e Cultura está descrita na tabela 7. Trata-se de uma aproximação com superestimações por conta de dupla contagem originária do próprio Diretório (coautorias de um mesmo trabalho publicado são contadas tantas vezes quantas forem os coautores) e, ao mesmo tempo, subestimada porque o uso de palavras-chave no preenchimento dos formulários eletrônicos do diretório não apresenta a mesma qualidade (alta) na identificação de artigo científico, dissertação ou tese, por exemplo.

 

 

Ainda assim, esses dados nos dão indicações de que, embora numericamente pequeno, esse campo temático parece se instalar com força acadêmica, o que possivelmente mantém relação com a inserção de pesquisadores em programas de pós-graduação. Confirmam, ainda, a cultura de publicações de cunho mais humanístico que tradicionalmente privilegia a publicação de livros e artigos no Brasil em relação às produções de artigos em periódicos internacionais, o que é mais característico daqueles que lidam com objetos universais: o biológico da vida e da saúde humana, por exemplo.

Buscamos comparar os dados do Diretório com os de outras bases de dados bibliográficos, realizamos buscas na Scientific Electronic Library Online ou Biblioteca Científica Eletrônica em Linha (SciELO) e na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs). Utilizamos as mesmas palavras chave com as quais trabalhamos no Diretório dos grupos de pesquisa do CNPq. Encontramos, inicialmente, um total de 567 trabalhos. Até agora, incluímos 109 trabalhos; foram excluídos os que se referiam a alimentação ou cultura de microorganismos, de plantas, de outros animais e similaridades e aqueles em que, apesar de o título parecer pertinente, o conteúdo diz respeito a estudos epidemiológicos, clínicos ou biomédicos sem o mínimo elo conceitual ou metodológico com o tema em tela. Da página eletrônica SciELO, todos os artigos identificados com o nosso estudo foram considerados. Do sítio Lilacs, utilizamos apenas os trabalhos disponíveis para leitura na Internet.

Nessa linha de estudos, destacamos as discussões realizadas por Canesqui acerca dessa literatura que se volta para alimentação e cultura, com algumas ênfases na questão saúde. Essas leituras englobam estudos esparsos das décadas de 1940 a 1960 e textos, principalmente dos anos 1970 e 1980, a produção bibliográfica para a década de 90 e início dos anos 2000 (2005). Nesse esforço, a autora identifica temas, a saber: (a) estudos de comunidade; (b) hábitos e ideologias alimentares; (c) organização da família, sobrevivência e práticas de consumo alimentar; (d) alimentação, corpo, saúde e doença; (e) comida, simbolismo e identidade e (f) representações sobre o natural. Antropólogos e profissionais de saúde, isoladamente ou em parcerias, desenvolveram estudos a partir de diversas abordagens teóricas e metodológicas, com críticas às perspectivas funcionalistas que marcaram algumas das primeiras iniciativas e, depois, àquelas de cunho estruturalista, encaminhando-se, o conjunto mais recente, para lidar com a alimentação não restrita ao âmbito econômico e buscando, no caso de nutricionistas, ultrapassar o biológico, valorizando

a marca da cultura, da aprendizagem e da socialização, assim como são permeadas pelo simbolismo, pelas crenças, pelas identidades sociais, pelas condições materiais e pelo acesso. Alguns estudos contribuíram para elucidar o universo de classificações alimentares, não como sistemas fechados em si mesmos, mas nos seus usos, ainda que outros procurassem os princípios ordenadores das formas de pensar os alimentos (CANESQUI, 2005, p. 41).

Os estudos situados mais nos inícios dessa trajetória mantiveram cunho conceitual e metodológico numa perspectiva socioantropológica. A eles, seguiram-se investimentos que envolveram antropólogos e também profissionais de saúde (nutrólogos, notadamente) em inquéritos estruturados a partir múltiplos desenhos teórico-metodológicos, uma vez que tratavam de objetos nutricionais e de seus enlaces sociais, econômicos e culturais. Entre esses pesquisadores, não podemos de deixar de destacar alguns participantes da fundação das bases da Nutrição brasileira, como lugar de desenvolvimento de pesquisas, de profissionalização de nutricionistas e de chamamento à reflexão e proposição de intervenções diante da fome que importava tamanhos sofrimentos a grandes contingentes da população – e até os dias de hoje, ainda que em proporções menores.

A partir desse solo, os estudos de escopo alimentar e cultural passam a florescer nos anos 1970 e 1980, em ambiente de fortalecimento da pesquisa e da pós-graduação brasileiras e num cenário nacional de fortes adversidades políticas e intensas reflexões críticas acerca do presente e do futuro do país. As aproximações entre Nutrição e Saúde Coletiva, vão se constituindo, seja pelo viés epidemiológico que busca estudar – e também denunciar – a fome e a desnutrição, seja pelo olhar das Ciências Sociais e Humanas (via formação de pesquisadores de cunho sanitarista) nas discussões sobre as políticas de alimentação e nutrição e sobre os saberes e práticas nutricionais, em suas dimensões ideológicas e de reprodução do status quo. Ainda que em condição minoritária, as Ciências Sociais e Humanas, pelas mãos da Saúde Coletiva, principalmente, vão ganhando espaços no interior da Nutrição, em esforços de valorização do "sujeito" em relação à "coisa", de constituição da efetiva interdisciplinaridade no lugar da altíssima especialização, tão em voga e desejada por muitos.

As transições demografia, epidemiológica e nutricional trouxeram novos desafios aos pesquisadores que ainda se debatiam com as mazelas da fome; no rastro das transformações, da dinâmica da vida, as constatações relativas aos limites do modelo biomédico para responder aos problemas decorrentes das mudanças que marcam o mundo contemporâneo. Talvez essas constatações tenham também contribuído para o incremento nas buscas por horizontes humanísticos que virtualmente teriam mais chances de subsidiar respostas para a obesidade, as doenças crônicas e degenerativas, para os transtornos do comportamento alimentar que perseveram, escapando aos modelos naturalizantes de explicação para sua gênese e aos tratamentos convencionais.

Nesse novo cenário sanitário, Canesqui revisita o tema, analisa artigos publicados entre 1985 e 2007 na página eletrônica SciELO e identifica novas áreas de interesse para "nutricionistas, enfermeiros, cientistas sociais, médicos sanitaristas ou especialistas em Saúde Coletiva/Saúde Pública, predominando os primeiros" (2009, p. 26): (a) dimensões sociais, culturais, cognitivas e psicológicas da alimentação e nutrição (b) educação/orientação nutricional, (c) política e programas de alimentação e nutrição, (d) profissão, formação de recursos humanos e campo da Nutrição; e (e) estudos teórico-metodológicos sobre alimentação e sobre a pesquisa nesse campo. E coloca, com muita clareza, a forte tendência de assunção das perspectivas da pesquisa qualitativa, em especial, fazendo uso das representações sociais para sua implementação, fenômeno que vem se dando no interior de todo o campo da Saúde, quando este se dispõe a aproximações com as Ciências Humanas e Sociais.

Nesses trabalhos, Canesqui nos coloca diante de algumas questões bastante relevantes para a alimentação e cultura. Uma delas diz respeito à necessidade de investimentos na permanente qualificação dos pesquisadores que se dirigem aos estudos qualitativos com vistas à superação de limitações conceituais e metodológicas, com destaque para os esforços interpretativos, que marcam a produção originária do campo da Saúde como um todo. Outra questão importante, o fato de que o campo "Alimentação e Nutrição" conta com uma única revista no site SciELO: a Revista de Nutrição; os demais artigos estão divulgados, principalmente, através de revistas oriundas da Saúde Coletiva ou da Enfermagem, que marcam presença em número substancialmente maior nessa base indexadora de periódicos científicos.

Prosseguindo no caminho de Canesqui, em nossas buscas, agregamos aos temas de investigação identificados até então, outras abordagens, que se vêm colocando no cenário acadêmico com crescente vigor: (a) comida e religião, (b) estudos de cunho histórico sobre a alimentação no Brasil (RIAL, 2003) (c) estudos sobre alimentação e nutrição de povos indígenas (WELCH et al., 2009), (d) e de quilombolas (SILVA; GUERRERO; TOLEDO, 2008), (e) consumo alimentar e publicidade (ANDRADE; BOSI, 2003; ARAÚJO, 2006; VILLAGELIM, 2009), além de (e) um vasto conjunto de estudos voltados para grupos específicos da população, principalmente, gestantes, crianças, adolescentes e idosos e portadores de alguma doença crônica (BAIÃO; DESLANDES, 2006. CARVALHO, 2000; FONTES, 2008).

O crescimento de publicações envolvendo alimentação e cultura está em afinidade com as tendências de incremento das publicações científicas no Brasil, o que tem implicações não somente positivas, como indicaria um primeiro olhar superficial. Esse fenômeno certamente mantém fortes vínculos com os rumos dos processos avaliativos da pós-graduação stricto senso no Brasil, com destaque para determinações relativas ao tempo de conclusão dos cursos de mestrado e doutorado que, no caso dos campos humanísticos, tem se mostrado problemáticos, como nos diz Barata, referindo-se à Saúde Coletiva, o que se aplica plenamente para a Alimentação e Cultura.

Entre 1996 e 2006, o tempo médio de titulação para os alunos de mestrado em Saúde Coletiva caiu de 41 meses (praticamente três anos e meio) para 26 meses (praticamente dois anos); e, para os alunos de doutorado, de 63 meses (cinco anos) para 41 meses (menos de quatro anos).

Os tempos mais curtos, se por um lado contribuíram para aumentar a proporção dos alunos que concluem sua titulação, por outro geraram uma série de impactos não necessariamente desejáveis sobre a estrutura curricular e o grau de exigência em relação ao trabalho de conclusão. Se para algumas ciências o prazo de 24 meses para o mestrado e 48 meses para o doutorado parece suficiente e adequado, para outras, eles são claramente insuficientes. Os docentes das áreas de Ciências Sociais e Humanas constantemente apontam a dificuldade de cumprir o programa de créditos e desenvolver a pesquisa nesses prazos, considerados exíguos para a formação teórica e metodológica exigida (BARATA, 2008, p. 192).

Também operam no cenário das avaliações da CAPES as perspectivas de internacionalização da ciência produzida no Brasil por meio da participação em revistas indexadas em bases de língua inglesa (nomeadamente a do Thomson Institute), tida esta forma como universal para veicular tais conteúdos. No campo da Saúde, hegemonicamente instaurado e constituído pelo ideário médico, onde disciplinas humanísticas são tidas como "auxiliares" e "menos nobres" (LOYOLA, 2008) e onde predomina a pesquisa sobre a vida e as doenças na sua expressão biológica, publicar livros em português, habitus das Humanidades, para efeito de avaliação da pesquisa e da formação de pesquisadores, chega a ser considerado, em alguns casos, inadmissível. Assim, para atender a essas exigências institucionais, tem impulso a produção de artigos em revistas nacionais e iniciam-se os encaminhamentos para as internacionais. Se esses procedimentos têm o mérito de ampliar a divulgação de dissertações e teses, antes de difícil acesso, correspondem também à imposição de critérios que esvaziam, acadêmica e politicamente, o trabalho daqueles que investem em articulações entre os campos da Saúde e das Humanidades, como é o caso dos loci interdisciplinares como a "Saúde Coletiva" e a "Alimentação e Nutrição", e também o lugar em que vem se estabelecendo a "Alimentação e Cultura".

Conforme assinalamos anteriormente, a atenção à qualificação adequada de pesquisadores é necessária num cenário institucional conceitualmente mais permeável aos saberes e práticas humanísticos e, certamente, seria favorável à produção mais sólida, vigorosa e duradoura no que se refere à alimentação e cultura. As palavras de Loyola vêm bem a calhar para a discussão que tomamos neste artigo.

Este produtivismo estimulado e modelado pela globalização ou internacionalização do conhecimento, levado a cabo por uma burocracia estatal desejosa de garantir critérios objetivos e democráticos para a avaliação de mérito, mas também (de forma menos consciente ou explícita) de controlar o trabalho dos cientistas e de limitar sua autonomia – vale notar, com a cumplicidade dos próprios cientistas –, produz também efeitos perversos, como os descritos por Luz (2005), sobre o nosso tempo, nossa capacidade de pensar, nossa saúde, em suma, sobre nossa vida profissional e pessoal. E, naturalmente, sobre as exigências metodológicas, a qualidade e a integridade dos trabalhos. Numa verdadeira "multiplicação dos pães", estes são recortados, requentados e apresentados a diferentes periódicos e veículos de circulação. E nessa corrida ganham sempre os mais espertos, os mais articulados e com maior capacidade de exercer pressão sobre os editores. No caso do livro, aqueles com recursos para bancar, em parte ou na totalidade, sua edição. Nas ciências sociais isto tem produzido o que Ana Reis, uma acadêmica feminista, chama de "fast social sciences": trabalhos rapidamente fabricados, facilmente reconhecíveis e rapidamente consumíveis.

Problemas e dificuldades maiores passam a existir, de forma crescente, nas áreas multidisciplinares e de forma especial naquelas que conjugam ciências médicas/biológicas e ciências humanas e sociais, como é o caso da Saúde Coletiva, uma vez que são aquelas ciências que vêm levando ao paroxismo esse produtivismo (2008, p. 259-260).

Nesse sentido, embates entre forças no campo científico marcam disputas orientadas por um jogo e suas regras no campo específico da Alimentação e Nutrição, que não só privilegiam o critério quantitativo de produtividade, em um ranking de pontos por publicações em periódicos, como também desqualificam uma produção que se faz importante segundo um critério qualitativo, o livro. O que propomos com esse mapeamento é pensar sobre as classificações que, embora sejam parte atuante, ou nos termos de Bourdieu, estruturantes do jogo e de suas regras, também podem ser estruturados, modificados no decorrer do processo de consolidação e legitimação, que se dá no campo.

O cenário que se constrói para a produção de Alimentação e Cultura no Brasil se associa à de Saúde Coletiva e nos espaços institucionais universidades e centros de pesquisa e agências de fomento à pesquisa e formação de pesquisadores se mostra de predominância biomédica. Outro lugar para a produção e disseminação de saberes sobre alimentação e cultura corresponde àquele que se mantém situada nas suas origens mais ancestrais, por assim dizer: a Antropologia e os campos próximos, quando estes investem em etnografias ou outras modalidades estudos que têm a comida e a alimentação em seu foco de interesses acadêmicos. Se, de um lado, ela não vivencia essas relações tão próximas com o mundo do olhar biomédico e pode investir com mais conforto acadêmico nos seus estudos, de outro, a interação com o campo alimentar-nutricional, bastante centrada nas questões relativas à Saúde, fica mais frouxo ou esgarçado ou distanciado. Uma aproximação na qual valem maiores e mais intensos investimentos.

 

Considerações finais

Três espaços sociais do mundo da ciência estão em jogo quando se coloca em foco a constituição do campo cientifico "Alimentação e Cultura": "Sociologia e Antropologia", "Saúde Coletiva" e "Alimentação e Nutrição". E dois caminhos afiguram-se no desenrolar do jogo social em questão.

Numa primeira perspectiva, a Saúde Coletiva atua como mediadora entre as outras duas esferas do saber, trazendo nessa articulação conceitos e procedimentos para discutir a saúde, as doenças e os cuidados na realidade da vida. Boa parte desses recursos, de matriz biomédica garantem sua hegemonia metodológica nesse campo, subsumindo outros saberes, como os oriundos das Ciências Humanas e Sociais. No que concerne à "Alimentação e Nutrição" esse mesmo fenômeno se materializa com feições bem mais intensas. Assim, a "Alimentação e Cultura", quando debruçada por sobre a saúde, vê-se diante de duplo enfrentamento em face da hegemonia biomédica manifesta nesses dois berços originais e, no ritmo acelerado da contemporaneidade, busca seu lugar institucional com a finalidade de acolher as abordagens humanísticas. Em que pese a existência de trabalhos sólidos e bastante referenciados, o conjunto desses esforços vêm-se identificando por meio da utilização de arcabouço conceitual e metodológico próprio das Ciências Sociais e Humanas que parece, em muitos casos, carecer do rigor que o exercício científico impõe. Apresenta-se, então, o campo fragilizado em seus estudos qualitativos, observando-se que essas limitações estão presentes em grande parte da produção originária do campo da saúde, não sendo exclusividade do campo Alimentação e Cultura.

Um segundo caminho tem sido o do contato direto entre os domínios da "Alimentação e Nutrição" e a "Sociologia e Antropologia", que tem se revelado fértil, embora pouco trilhado, talvez porque, nesta via, nem sempre está em pauta a questão "saúde", o que parece exercer forte centralidade no interesse dos nutricionistas. Devemos registrar, complementarmente, que a saúde não se encontra entre os objetos de interesse predominante nas Humanidades.

Os grupos e linhas de pesquisa vêm demonstrando interesses no aumento de produção científica na interface dos três domínios em tela, o que representa um investimento na interdisciplinaridade e dá margens a transformações nas regras no campo científico, especialmente, no que diz respeito às regras e critérios de qualificação de material de pesquisa, artigos e livros, assim como à qualificação de periódicos. Isso nos leva a uma emergência: é necessário investir em revistas – redefinir linhas editoriais e criar novos periódicos – para dar conta desse perfil que a pesquisa passa a demandar.

Enfim, o que pudemos observar até agora é que os estudos mais robustos e melhor fundamentados teorica e metodologiacamente são provenientes de programas de formação de pesquisadores mais bem conceituados junto às agências de fomento. Portanto, para que o presente campo de estudo se fortaleça e se constitua como espaço maior nas discussões científicas sobre a temática na qual se especializa parece bastate razoável priorizar investimentos nos programas que estão se monstrando ativos, dinâmicos e inovadores. O aprimoramento das disciplinas sociais nos espaços de formação humana e pesquisa é via de eleição, observando suaa importância desde o envolvimento de estudantes de graduação até o doutoramento.

Pretendemos, desta forma, estabelecer um mapeamento capaz de motivar, ampliar e aprofundar o debate acerca da constituição da Alimentação e Cultura como um campo científico específico que tem incorporado no habitus de seu agente principal, o pesquisador das Ciências da Saúde, as reflexões, potencialidades e recursos metodológicos oriundos das Ciências Sociais e Humanas. A teia de significados tecida nesse lugar de encontro entre distintos saberes encontra-se marcada pela visão hegemônica biomédica, se ressente e demanda um domínio mais sólido de conceitos e métodos capazes de enfrentar a complexidade da realidade e dos problemas além das bancadas dos laboratórios, na vida em sociedade.

 

Agradecimentos

Nossos agradecimentos pelo apoio financeiro recebido do CNPq, através do processo 473853/2007-8 e da FAPERJ, por meio do processo E-26/110.393/2008.

 

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Nota

1 Ver, a seguir, trechos do texto que descreve a atuação do GT "Patrimônio, memória e saberes e práticas da alimentação" para a 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, a realizar-se em agosto de 2010: "Este Grupo de Trabalho se propõe a discutir aspectos da relação entre universos cognitivos tradicionais e a memória e patrimônio alimentar, definindo a comida como expressão de códigos consuetudinários ou 'habitus'. Desde essa perspectiva, a comida "fala" de hierarquia, religião, gênero, grupo étnico e etário, organização e concepções de trabalho, desuso e incorporação, interdição e indicação de produtos alimentares, no tempo e espaço. A proposta consiste em estimular a reflexão a respeito de saberes e práticas alimentares tradicionais em contextos plurais. Desse modo, busca-se colocar em evidência a análise de processos de produção, consumo e ideário alimentar de grupos tradicionais – tais como indígenas e ribeirinhos, grupos camponeses de apropriação comunal e privada de terras, quilombolas, imigrantes históricos, além de grupos urbanos tradicionais –, mas também sua articulação com práticas de consumo crescentemente observáveis em centros urbanos. Assim, tomamos por objeto de análise também os processos e manifestações de valorização, por consumidores urbanos, de produtos alimentares originários de grupos tradicionais".

 

 

Recebido em: 01/02/2010.
Aprovado em: 10/05/2010.

 

 

* Artigo derivado da dissertação de mestrado de Juliana Klotz Silva, em andamento no Programa de Pós-Graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde, Instituto de Nutrição, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (INU-UERJ).