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Physis: Revista de Saúde Coletiva

Print version ISSN 0103-7331

Physis vol.21 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312011000400011 

TEMAS LIVRES

 

O corpo no processo terapêutico*

 

The body in the therapeutic process

 

 

Marisa Ferreira Mendes

Mestre em Psicologia (UGF), especialista em Terapia pelo Movimento Corpo e Subjetivação (Faculdade Angel Vianna), Endereço eletrônico: mmendesrj@hotmail.com

 

 


RESUMO

Reich foi o responsável por trazer o corpo para a compreensão do processo psíquico, por meio de suas pesquisas relativas ao ponto de vista econômico. Contudo, o trabalho corporal por muito tempo esteve relegado a uma população nem sempre reconhecida nos campos intelectual e social. Felizmente, essa situação vem mudando e o trabalho corporal vem ganhando reconhecimento e respeito. Se o trabalho sobre o psiquismo é sempre muito delicado, se faz ainda mais delicado quando envolve o corpo. As formas de subjetivação de nosso momento social favorecem adoecimentos psíquicos. Profissionais de saúde mental, especialmente psicólogos e psicanalistas, quando envolvidos no fenômeno transferencial, são chamados a interagir com todo o seu corpo, e não apenas com seus conhecimentos teóricos e técnicos referentes a uma abordagem intelectualizada. Por esses motivos, acreditamos que no preparo do profissional psi se fazem necessárias não apenas a aprendizagem teórica e sua análise pessoal, como defendido até então, mas também a sensibilização de seu corpo e de suas percepções. O método Angel Vianna de Conscientização do Movimento oferece a oportunidade de desenvolvimento criativo e expressivo através da pesquisa com o próprio corpo, com o movimento e com o corpo do outro. Neste artigo, optamos por compreender o corpo enquanto caminho para o inconsciente, a partir dos ensinamentos de Reich, para quem o ponto de vista econômico da psicanálise mereceu destaque. Dessa forma, pretendemos demonstrar o modo como o trabalho executado pela escola Angel Vianna é compatível com essa teoria e com a prevenção da saúde.

Palavras-chave: corpo, movimento, Angel Vianna, psicanálise, subjetivação.


ABSTRACT

Reich was responsible for bringing the body to understand the psychological process through their research on the economic viewpoint. However, the body work has long been relegated to a population not always recognized in intellectual and social fields. Fortunately, this situation has changed and the body work is gaining recognition and respect. If work on the psyche is always very delicate, is even more delicate when it involves the body. The forms of subjectivity in our favor social and psychological illnesses. Mental health professionals, especially psychologists and psychoanalysts, when involved in the phenomenon of transference, are called to interact with their entire body, not just with their theoretical and technical knowledge relating to an intellectual approach. For these reasons, we believe that in the preparation of psi professionals are necessary not only the theoretical learning and personal analysis, as advocated by them, but also the awareness of the body and its perceptions. The Angel Vianna method for Movement Awareness offers the opportunity of creative and expressive development through research with one's own body, with movement and with another body. In this paper, we chose to understand the body as a path to the unconscious, from the teachings of Reich, for whom the economic viewpoint of psychoanalysis deserved prominence. Thus, we intend to demonstrate how the work performed by Angel Vianna School supports this theory and health prevention.

Key words: body, movement, Angel Vianna, psychoanalysis, subjectivity.


 

 

De Freud a Reich1

Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir convence-se de que os mortais não conseguem guardar segredo. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com as pontas dos dedos; a traição força seu caminho por todos os poros.

(Freud, apud Peter Gay, 1989-p.17)

A descoberta da existência do inconsciente funda a psicanálise. Enquanto ciência, a psicanálise se constitui como um corpo de conhecimento teórico que se sustenta e é desenvolvido a partir de princípios fundamentais, sem os quais não pode ser reconhecida. De acordo com Wagner (1996), o principio básico da psicanálise, o seu elemento fundador, a partir do qual todos os outros são gerados e com o qual mantêm relação de dependência, é o principio da existência de processos anímicos inconscientes, ou seja, a existência de um inconsciente dinamicamente ativo.

Uma vez aceita a noção de inconsciente, passa a ser necessário compreender de que forma ele funciona, sua dinâmica, e qual sua relação com a consciência. Nesta investigação, surge o segundo ponto fundamental da teoria psicanalítica: a hipótese de que o inconsciente está, em relação à consciência, dinamicamente reprimido, isto é, o inconsciente não pode chegar à consciência porque algo o detém. Surge a noção de uma dinâmica de forças antagônicas em lutas permanentes.

A hipótese de um inconsciente dinamicamente reprimido fez necessário compreender o que era reprimido. Nesse momento, a teoria psicanalítica chega ao conceito de sexualidade. O desenvolvimento da função sexual é considerado um ponto fundamental da obra freudiana. Por meio do complexo de Édipo, o conceito de sexualidade encontrou seu maior esclarecimento, abrindo para a psicanálise a discussão entre biologia e cultura. É no descompasso entre o desejo edípico e a impossibilidade de sua realização que se chega ao que Freud denominou de sepultamento do complexo de Édipo, momento no qual Reich vê a formação do caráter finalizada.

Para Reich (1989), a formação do caráter principia como um modo definido de superação do complexo de Édipo, diretamente ligado às condições sociais predominantes às quais a sexualidade infantil está sujeita. Essas condições apresentam em comum desejos genitais intensos e um ego fraco, frágil, que, por medo de ser punido, procura proteger-se por recalcamentos que conduzem ao represamento do impulso. Este, por sua vez, passa a ameaçar aquela que seria uma simples barreira com uma irrupção de forças recalcadas.

Na tentativa de manter tudo sobre controle, o resultado é uma transformação do ego em atitudes destinadas a amparar o medo, gerando uma restrição desse ego, ou, ainda, gerando os primeiros sinais do caráter. Por amparar situações perigosas, que poderiam estimular o que está reprimido, essas atitudes fortalecem o ego e se tornam por ele estimadas. Contudo, as primeiras transformações do ego não são suficientes para dominar a pulsão. O ego precisa enrijecer-se para ter a certeza de que as barreiras estão cimentadas, fazendo com que a defesa assuma um caráter cronicamente operante e automático.

A concepção de caráter será na obra Reichiana fundamental. É a partir do caráter do paciente que todo o trabalho do analista será desenvolvido, uma vez que, para ele, o modo típico de reagir torna-se a resistência à descoberta do inconsciente. Reich acreditava que as causas das reações típicas das pessoas, no dia a dia e durante o processo terapêutico, são as mesmas que determinaram a formação do caráter, consolidaram e preservaram o modo como elas reagem desde seu estabelecimento, constituindo-se num mecanismo automático, independente da vontade consciente. São, portanto, o encouraçamento, uma mudança crônica do ego, um enrijecimento contra os perigos do mundo exterior e as exigências pulsionais reprimidas do id, ou mundo interno, caracterizando-se como uma restrição a mobilidade psíquica da personalidade a partir de uma necessidade econômico-libinal, consequência do medo da punição.

De acordo com Reich (1989), a couraça de caráter será na maioria dos casos a base de reação de futuros conflitos neuróticos e neuroses de sintomas, uma vez que o impedimento do estabelecimento de uma regulação de energia econômico-sexual é, para ele, a condição prévia de uma doença neurótica futura. Ainda para o autor, uma vez estabelecida a base de reação do caráter neurótico, passa a existir um ciclo onde a estase aumenta e conduz a novas formas de reação. Porém, como a estase sempre aumenta mais do que o encouraçamento, em um determinado momento a formação de reação não consegue mais manter a tensão psíquica sob controle. Os desejos sexuais reprimidos irrompem dando origem à formação de sintomas.

Para Weinmann (2002), a questão de Reich era saber qual a fonte de energia das neuroses, ou seja, estudar o aspecto econômico da metapsicologia freudiana, segundo a qual os aspectos pulsionais são a fronteira entre o somático e o psíquico. Reich, afirma que os sintomas são a atividade sexual dos doentes. Logo, para ele, toda neurose possui um núcleo neurótico atual – um quantum de excitação pulsional que não é absorvido psiquicamente e que tampouco é descarregado pela via sexual, sendo responsável pelas manifestações vegetativas de angústia; o pulsional não admite a sublimação total: é necessária uma parcela de gratificação corpórea direta, a fim de aliviar a tensão residual nas zonas erógenas.

Segundo Reich, (1989) a resposta à dificuldade em se atingir a fonte de energia da neurose estava na teoria da libido de Freud, pois, topograficamente, não se atingiria o problema da resolução dos sintomas. Dinamicamente, os resultados eram promissores, pois a catarse do afeto relacionado à ideia inconsciente quase sempre aliviava a condição do paciente, mas, na maioria dos casos, apenas por algum tempo. Logo, restava apenas o ponto de vista econômico.

Na prática, foi observado que pacientes, mesmo tendo apenas uma análise parcial, quando conseguiam estabelecer uma vida sexual regular, atingiam uma recuperação duradoura, assim como a perspectiva de cura era tanto mais favorável quanto mais completamente se atingia a primazia genital na infância e na adolescência. Essas observações levaram à conclusão de que a existência de potência eretiva não fazia qualquer diferença, não dizia nada em termos de economia da libido. O importante, evidentemente, era se a capacidade de conseguir satisfação sexual adequada estava intacta.

Com isso estava estabelecida a importância do conceito econômico para a etiologia das neuroses, no qual a base para o estudo do fator quantitativo estava no conceito reichiano de potência orgástica e na incapacidade de atingir uma resolução de tensão sexual satisfatória para as exigências da libido. A essa base orgânica, Reich chamou de núcleo somático da neurose, a neurose real que resulta da libido contida.

O problema econômico da neurose, bem como sua cura, estava, em grande medida, na esfera somática, isto é,só era acessível por meio do conteúdo somático do conceito de libido" (REICH, 1989 - p.26).

A possibilidade de trabalho psíquico através do corpo passa a existir. Raknes (1988) mostra que se tornou evidente para Reich que a couraça muscular, entendida como espasmos, cãibras e tensões, é a expressão corpórea das emoções e das ideias, assim como a ancoragem somática das neuroses. Diluindo-se os bloqueios e as tensões, podia-se atingir a consciência das emoções e das recordações sublimadas, que muitas vezes não podiam ser previstas ou imaginadas através dos sonhos e associações livres dos pacientes (cf: RAKNES, 1988, p. 21-22).

Por meio do trabalho sobre o corpo dos seus pacientes, Reich chegou à descoberta das correntes vegetativas, sensações de correntes, que percorriam o corpo de seus pacientes todas as vezes que ocorria um considerável desbloqueio dos espasmos e das tensões, e permitiam ao paciente relaxar e respirar mais livremente, permitindo uma sensação de bem estar geral, sintomas de progressos terapêuticos (cf: RAKNES, 1988, p. 22).

Ao longo de sua obra, Reich manteve a questão econômico-energética no foco de seus interesses, e, consequentemente, o estudo da estase energética e do encouraçamento, assim como sua busca pelo modo de restaurar esse fluxo pelo corpo e recuperá-lo em sua potência.

 

Subjetivação, adoecimento e criatividade

Peixoto Jr (2008) nos lembra que estamos vivendo num mundo globalizado e que os efeitos dessa globalização são cada vez mais percebidos através das novas formas de mal-estar que caracterizam a contemporaneidade. Para ele, esse processo não é irreversível, e a psicanálise precisa levar em conta essas questões suscitadas pelo pensamento contemporâneo. Ainda segundo esse autor, estamos diante de um mal estar da cultura concernente aos agenciamentos sociais, com suas imensas variedades, e não mais diante de um mal estar sexual, que passou de reprimido a ser incentivado, vendido e atiçado. O sintoma social dominante se deslocou da neurose para a perversão, trazendo entre outras coisas uma perda cada vez maior das manifestações singulares.

Perante esse quadro, o autor (op. cit), a partir dos conceitos de sociedade disciplinar de Michel Foucault e de sociedade de controle de Gilles Deleuze, apresenta sua reflexão sobre a psicanálise e a práxis psicanalítica no contexto contemporâneo. Nela, acredita ser imperativo pensar novas modalidades de cuidados sobre si e de estética da existência1 como possibilidades para a constituição de defesas contra a humilhação e submissão servil, num mundo onde a subjetivação do homem livre transforma-se em um processo de sujeição (cf.: PEIXOTO Jr, 2008, p. 50-51).

Maciel (2007) aponta a impossibilidade de agir de acordo com nosso desejo como sendo a responsável pelos novos sintomas psíquicos existentes na sociedade contemporânea, na qual a ausência de indeterminação é o traço mais característico e que desafia as diversas modalidades de técnicas e tratamentos psíquicos. Para Maciel (2007), na sociedade de controle, o biopoder2 passou a modular não só o tempo, ao retirar de nós cada vez mais o intervalo de questionamento e hesitação necessários à subjetividade, mas também os movimentos, ao exigir o cumprimento da regra geral de ação eficaz em um menor tempo possível. O novo imperativo social, o "agir a qualquer preço", é responsável pela emergência dos novos quadros sintomáticos da clinica atual, sendo a compulsão seu sintoma mais representativo.

Para Peixoto Jr (2008), a luta pela subjetividade nos dias de hoje apresenta-se no direito à diferença e à variação. No contexto atual, alternativas nas quais as minorias retomem a palavra escapando a um só tempo dos saberes constituídos e dos poderes dominantes são dotadas daquilo que, segundo o autor (op. cit), Deleuze denominou "espontaneidade rebelde" e que constituem novas formas de resistências ao biopoder nas sociedades de controle (cf: PEIXOTO JR, 2008, p. 52).

Também Borges (2009), a partir dos conceitos de Foucault, acredita que os dispositivos de poder atuais3, ao favorecerem a desapropriação dos modos singulares de perceber e realizar dos indivíduos e dos grupos, constroem um processo homogeneizante, no qual o silêncio das particularidades e das diferenças conduz ao empobrecimento da existência e ao sofrimento que se expressa nos diferentes sintomas atuais. Para a autora (op. cit), a dança e as técnicas de mobilização dos corpos que desenvolvem métodos de experimentação de movimentos e ritmos permitem acesso às condições sensíveis ao colocarem questões que ultrapassam o saber racionalizado. Funcionam, assim, como novos operadores cognitivos, ao sustentarem um fazer dos corpos, nos seus processos subjacentes, em que o paradoxo e alteridade podem emergir como resistência às formações decorrentes dos jogos saber/poder contemporâneos (cf: BORGES, 2009, p. 5).

 

Corpo, movimento e processo terapêutico

Nas práticas corporais, há alguns anos a Faculdade e Escola Angel Vianna vem sendo reconhecida como um pólo de atuação e discussão sobre o corpo (cf: MENDES, 2009, p. 1). Para Borges (2009), o significante Angel Vianna se construiu ao longo dos anos como um saber inventivo e único no meio da dança (cf: BORGES, 2009, p. 159). O trabalho realizado pelos Vianna (Angel, Klauss e Rainer) a partir década de 50, trouxe uma nova forma de ensino da dança que foi estendida a trabalhos de consciência e expressão corporal e à formação corporal de profissionais de diferentes áreas.

De acordo com Barbosa (2009), Angel Vianna propõe a união de práticas que valorizem e intensifiquem cada momento vivido. Citando a mestra, nos diz que esta nos lembra que devemos ter consciência do corpo para termos consciência da vida. Angel relaciona a construção do corpo à consciência plural de sua linguagem, potencializando e valorizando sempre as questões pessoais, no sentido mais vasto desse entendimento, respeitando com muita propriedade os limites e possibilidades de cada corpo.

Liberar os movimentos corporais de suas amarras, entender o corpo como corpo vibrátil (ROLNIK, 2001) em comunhão com o coletivo, expandir-se na sua expressão mais singular, buscar espaço para expressar-se como existente – estes eram alguns dos caminhos abertos pela escola de dança de Klauss e Angel Vianna (BORGES, 2009, p. 158).

Angel Vianna (2009) esclarece que o trabalho, utilizando-se da conscientização do movimento, desenvolve os sentidos, a percepção, a motricidade e a integração de áreas físicas, psíquicas e sociais de cada indivíduo. Para a autora (op cit), criatividade e processos de criação não são propriedades exclusivas de alguns e sim de todo ser humano.         

De acordo com Imbassaí (2006), a dessensibilização pode ser entendida como um fenômeno que vem atingindo, de forma significativa, o indivíduo nas sociedades contemporâneas urbanas, e pode ser compreendido como uma atrofia da faculdade sensório-perceptiva, com a consequente mecanização do indivíduo (cf: IMBASSAÍ, 2006, p. 39).

Após 25 anos de prática com o método Angel Vianna, Imbassaí (2006), aponta o desenvolvimento da consciência, a partir do trabalho sobre si, como uma possibilidade de escape para o rompimento do muro de mecanicidade que nos separa de nós mesmos e do(s) outro(s). Esse trabalho, para ela, pode ser facilitado ao se tomar o corpo como ponto de partida (cf: IMBASSAÍ, 2006, p. 38).

O método de conscientização do movimento, de Angel Vianna, se iniciou em pesquisas realizadas em conjunto com seu marido Klauss Vianna, mas se distinguiu desse ao longo dos anos. Recentemente, esse método foi cuidadosamente documentado através da dissertação de mestrado de uma de suas alunas, a psicóloga Catarina Resende, no Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ/RJ. Embora a sistematização das práticas sobre o corpo seja aparentemente contrária a ideia pregada pelos Vianna, que a todo tempo nos lembram que o trabalho sobre o corpo se faz sobre o corpo, no texto de Resende (2008) pode-se encontrar uma proposta de sistematização do trabalho de Angel que oferece àqueles que buscam conhecer essa prática um referencial e um porto seguro para discussões.

A proposta do método de conscientização do movimento, segundo Resende (2008), é estar em contato com uma filosofia tanto de movimento como expressão de vida quanto de vida como expressão de movimento, possibilitando o desenvolvimento de um conhecimento fundamentalmente experiencial do corpo, que deve ser conquistado através da sua escuta e da pesquisa do movimento. O método concilia num mesmo plano a consciência corporal e a dança, em atividades muitas vezes lúdicas e prazerosas, visando à restituição do corpo vivo pela condução do campo intensivo. De acordo com Resende (2008), primeiramente, é preciso sensibilizar, desbloquear o corpo, proporcionar uma desconstrução dos padrões sensório-motores. Num segundo momento, trabalha-se sobre as direções ósseas e a qualidade do movimento, preparando o corpo para a última etapa a ser vivenciada: o processo criativo.

Podemos identificar no trabalho de Angel semelhanças com as propostas de Reich. Em ambos, existe a compreensão de que o homem, ao longo de sua história, pode perder a conexão com sua capacidade de livre expressão e criatividade, assim como a busca de transformação de padrões fixos através do restabelecimento de fluxos corporais através do próprio corpo.

Mendes (2008) preconizou como uma das possibilidades de utilização do método de conscientização do movimento de Angel Vianna a diminuição do estresse e o aumento da qualidade de vida e de prazer em população idosa, em coerência com os objetivos públicos para esse grupo, ao aplicar a metodologia nessa população. Essa observação, para a autora (op. cit), corrobora a afirmativa de Resende (2008) de ser o método Angel Vianna uma potente terapia corporal alternativa e complementar para quem deseja uma maior funcionalidade corporal, ou mesmo o resgate do prazer na experiência de viver.

Embora nem todos os processos terapêuticos levem em conta o fenômeno transferencial, para nós, ele deverá ser considerado e estar presente mesmo nos trabalhos corporais. Nesse sentido, o texto de Reis (2004), ao compreender a transferência como um processo criador, que ocorre a partir da presença real e corporal do analista, é de fundamental importância para compreensão da necessidade de trabalho sobre o corpo desse profissional.

Para Reis (2004), o perceber, ato intrincado ao papel de terapeuta e ao processo transferencial, não é um ato neutro. Para ela, esse processo é um investimento de forças e afetos por meio de nosso corpo real e por agenciamentos que criam espaços de desejo e possibilitam a criação de canais de sintonia dos fluxos de forças que se encontram congestionados. Dessa forma, defende a autora (op. cit.), o corpo percebido é expressivo, transmite imediatamente afetos e movimentos subjetivos, e cria uma conexão afetivo-cognitiva entre dois corpos, duas subjetividades, em uma transferência que se faz no circuito das pequenas percepções, numa referência ao trabalho de Daniel Stern (REIS, 2004, p. 120).

Citando o texto de Latour (1996), Reis (2004) afirma que, para ele, uma relação de cura é uma fabricação de subjetividade, uma dobra no tempo e no espaço subjetivo, cuja potência de metamorfose se faz com violência e intensidade. Violência e intensidade, que, podemos dizer aqui, estão presentes em todo processo criativo, capazes de mobilizar forças muitas vezes desconhecidas, que precisam encontrar um caminho e se revelam como algo transformador. 

Mendes (2009) acredita que o preparo do profissional psi se faz não apenas através de sua análise pessoal e aprendizagem teórica, mas também pela sensibilização de seu corpo e de suas percepções. Para a autora, o método Angel Vianna possibilita o desenvolvimento criativo e expressivo possibilitando a abertura dos campos perceptivos e expressivos, e por isso deve ser experimentado por esses profissionais.

 

Conclusões

Como vimos, Reich parte da Psicanálise para o entendimento do corpo como fonte de compreensão e transformação de uma pessoa. Para ele, é através da couraça que podemos apreender e melhor atuar no psiquismo. Por sua tradição psicanalítica Reich acreditava ser a libido a fonte de energia do ser humano, libido essa entendida como sua energia sexual, que se encontrava desorganizada nas tensões crônicas da couraça. Todo trabalho Reichiano foi, então, a busca do entendimento biológico dessa energia no corpo, para possibilitar o livre fluxo energético através do organismo, o que ocorreria quando as couraças deixassem de ser crônicas e passassem a ser flexíveis, permitindo, assim, uma existência mais qualitativa com a vida.  O que se conhecia como doença psíquica estaria, então, associado ao fluxo de energia contido ou mal distribuído pelo corpo. Esse pensamento, que muitos julgam ser proveniente de uma sociedade repressora, poderia ser questionado nos dias atuais através das discussões bioquímicas e comportamentais, ou mesmo através das discussões sociais. Contudo, trabalhos como o desenvolvido pela escola Angel Vianna nos fazem perceber que um corpo livre, liberado de suas tensões crônicas é um corpo fluido, capaz de se expressar e se colocar no mundo de forma mais potente.

Nesse sentido, acreditamos que trabalhar o corpo é possibilitar transformações sociais profundas. Ao se oferecer ao individuo a chance de estar com o seu próprio corpo, criamos a abertura para novas experiências com suas sensações e relações. Acreditar no corpo como fonte de transformação do ser humano não é para muitos. Reich talvez tenha sido o primeiro dentro de nossa cultura ocidental a defender essa possibilidade, e por isso passou a ter inúmeros problemas. A dança através de seus desenvolvedores mostrou essa capacidade em um reduto específico, no qual muitas vezes foi entendida como algo para poucos e excêntricos. Angel teve a ousadia de desconstruir essa verdade ao oferecer seu trabalho a qualquer pessoa que por ele se interessasse, construindo, assim, um universo de descobertas através do movimento. 

Em um momento histórico em que a individualidade é privilegiada, trabalhar com o corpo é desafiar uma política de segregação e distanciamento e convidar a uma possibilidade de encontro, na qual o contato, a expressão e a confiança possam se estabelecer nas relações. É permitir a experimentação da sensação, tão em falta nos dias atuais, em vez da razão. É poder perceber que as relações e os movimentos se fazem a partir de estímulos, que a relação com o nosso corpo é a mesma que mantemos com o mundo. 

Corpo, mente, arte e poesia unidos possibilitam um novo lugar, uma nova oportunidade de ação que nem sempre se encontra de acordo com a nossa sociedade, mas que talvez seja a chance de se fazer ser diferente. Assim como Borges (2009), acreditamos que o trabalho com o corpo permite o acesso ao sensível. Mais que isso, ao se construírem novas chances para o corpo, acreditamos estar atuando como resistência ao modelo social dominante, uma vez que o trabalho corporal estabelece, para quem o experimenta, a construção de fronteiras claras sobre o próprio corpo, o encontro com as diferenças e a possibilidade de se responsabilizar por sua vida, enquanto gesto, ação e relação.

Se o biopoder de que nos fala Foucault (1988), citado por diferentes autores ao longo deste artigo, busca a modulação dos movimentos, o trabalho corporal a que aqui nos propomos busca a livre experimentação desses mesmos movimentos. Ao incluir em nossas práticas corporais a experiência do ritmo e do fluxo, facilitamos a percepção do tempo interno e não mais o tempo do outro, permitindo e reconstruindo a subjetividade. Por fim, estamos reconstruindo o contato com o desejo, como queriam Freud e Reich; estamos eliminando sintomas. 

Acreditamos que o mal estar do mundo atual é fruto das formas de agenciamento social existente e do novo paradigma social, que nos impõe agir a qualquer preço e sem tempo para nos subjetivarmos, como nos aponta Peixoto Júnior (2008). Porém, acreditamos que essas formas de agenciamento, por sua vez, encobrem o mal-estar sexual do qual nos falava a psicanálise em suas bases, e negar isso é negar a oportunidade de trabalho com o corpo. Assim, para o profissional de saúde, principalmente aqueles envolvidos com a psicanálise, o experimentar seus corpos é fundamental para auxiliar na percepção desse novo mal-estar da civilização, sob todas as suas formas, em sua própria vida. Somente assim acreditamos ser possível pensar em novas possibilidades de construção de agenciamentos dentro e fora da clínica.

 

Notas

* Este artigo foi desenvolvido a partir da monografia de conclusão do curso de pós-graduação "Terapia Através do Movimento, Corpo e Subjetivação" da Faculdade Angel Vianna. Orientadora: Professora Dra. Hélia Borges.

1 Conceitos de Michel Foucault.

2 Conceito desenvolvido por Gilles Deleuze a partir da obra de Michel Foucault. Tipo de ordenamento político-social em que o poder toma a forma de um biopoder e incide diretamente sobre as potencialidades da vida (cf: MACIEL, 2007, p. 55).

3 "procedimentos de poder e de saber" que tentam controlar e modificar a vida (FOUCAULT, 1988, p. 134).

 

Referências

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Recebido em: 07/09/2010.
Aprovado em: 08/09/2010.