SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 issue2Humanization and madness, in search of the Human who dialogues healthNew rules and old challenges in the regulation of drug advertising author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Physis: Revista de Saúde Coletiva

Print version ISSN 0103-7331

Physis vol.22 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312012000200015 

TEMAS LIVRE

 

A avaliação da produção intelectual e o declínio da interdisciplinaridade na Saúde Coletiva

 

Assessment of intellectual production and the decline of inter-disciplinarity in Public Health

 

 

Nilson do Rosário Costa

Departamento de Ciências Sociais/Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz. Endereço eletrônico: nilsondorosario@terra.com.br

 

 


RESUMO

O trabalho demonstra que a forma de divulgação científica dos periódicos biomédicos é dominante no campo da Saúde Coletiva. Defende-se a tese de que esse padrão institucional é completamente inadequado para as áreas interdisciplinares, como a Saúde Coletiva. A difusão do modelo biomédico de circulação tem gerado grandes distorções quando aplicado na avaliação da produção intelectual do campo das ciências sociais e humanas aplicadas à saúde.

Palavras-chave: avaliação; produção intelectual; bibliometria; programas de pós-graduação; CAPES.


ABSTRACT

This work shows that the form of scientific biomedical journals is dominant in the field of Public Health. It supports the thesis that this institutional pattern is completely inadequate for the inter-disciplinary areas, such as Public Health. The spread of the moving biomedical model has generated great distortions when applied to the assessment of the intellectual production of the field of humanities and social sciences applied to health.

Key words: assessment; intellectual production; bibliometrics; graduation programs; CAPES.


 

 

Introdução

Este trabalho discute a avaliação da produção intelectual no campo da Saúde Coletiva pela metodologia do Qualis Periódicos, e é motivado pelo recorrente debate suscitado pela avaliação dos Programas Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC) desenvolvida pela organização federal Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) na última década. Esse processo abrange a realização do acompanhamento anual e da avaliação trienal do desempenho de todos os programas e cursos que integram o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG).

Os resultados do processo, expressos pela atribuição de uma nota na escala de "1" a "7", fundamentam a deliberação do Conselho Nacional de Educação/Ministério da Educação (CNE/MEC) sobre quais cursos obterão a renovação de "reconhecimento", a vigorar no triênio subsequente. O roteiro da avaliação dos programas contempla cinco itens: proposta do programa (sem atribuição de peso na formação da nota), corpo docente (30% de peso), corpo discente, teses e dissertações (30%), inserção social (10%) e produção intelectual (30%). Em 2010, a avaliação dos 50 PPGSC atribuiu a dois programas nota 2 (4%), a 13, nota 3 (26% do total); a 16, nota 4 (32%); a 11, nota 5 (22%); a 6, nota 6 (12%) e a 2, nota 7 (4%). Como já assinalou Barros (2006), a avaliação da produção intelectual é a questão que gera maior controvérsia, por medir de forma mais contundente o desempenho acadêmico dos programas. Note-se que 30% dos programas da área – 15 em 50 - receberam notas 2 e 3 na avaliação de 2010.

A produção intelectual é avaliada predominantemente a partir da qualidade dos periódicos, ainda que a publicação em livros venha sendo residualmente considerada (Capes, 2011). A divulgação científica em livros e capítulos de livros não é significativa nos programas com melhor avaliação na área de Saúde Coletiva. Os periódicos são classificados pelo sistema Qualis em função de sua circulação e da repercussão medida pelo índice H (Capes, 2012). São definidos oito níveis de qualidade de periódicos: A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C. A mensuração da publicação nos periódicos de maior prestígio tornou-se o critério de aferição da qualidade da produção acadêmica dos programas de Pós-Graduação.

Os periódicos da Saúde Coletiva estão inseridos na grande área de Ciências da Saúde, que produz também classificação de Qualis específicas para as áreas de Medicina I, II, III, Enfermagem, Odontologia, Farmácia e Fisioterapia/Educação Física.

Existem muitos indicadores para classificar os periódicos: fator de impacto do JCR, índice H da SC Imago Journal Ranking e indicadores do Scielo. Em função da forte dependência em relação ao campo das ciências naturais em geral, e à biomedicina em particular, o uso do índice H, por exemplo, não soluciona de forma satisfatória os problemas da avaliação da produção intelectual na área interdisciplinar na Saúde Coletiva, como problematizo em seguida.

 

A disjuntiva sobre o padrão institucional da difusão do conhecimento da biomedicina

A controvérsia diz respeito à impertinência da avaliação da produção intelectual das Ciências Sociais e Humanas na Saúde Coletiva (CSHSC) segundo o parâmetro do prestígio de periódicos do campo biomédico. O espaço intelectual das CSHSC compreende a produção da antropologia, sociologia, filosofia e economia aplicadas à saúde; a epidemiologia social e as linhas de investigação básica e aplicadas de políticas publicas, planejamento e gestão em saúde. O critério de qualidade da produção intelectual, no ambiente institucional da avaliação Capes, é determinado pelo modo de circulação da biomedicina. Nesse caso, os incentivos institucionais não visam apenas ao incremento da produtividade da ciência em geral, mas ao de um padrão institucional de difusão moldado pelas ciências naturais.

Caponi e Fonseca (2005) assinalam que um dos maiores desafios epistemológicos da Saúde Coletiva é o reconhecimento da interdisciplinaridade. Afirmam que é no espaço interdisciplinar que se deveriam situar as instâncias de avaliação para contribuir para a excelência do campo. Apontam, ainda, para a necessidade da criação de mecanismos institucionais capazes de avaliar a diversidade de produtos e processos.

Como produzir esse reconhecimento da diversidade diante da posição institucional dominante do campo da biomedicina em relação à difusão do conhecimento? A subordinação aos parâmetros de produtividade da biomedicina expressa nos periódicos tem acirrado a disjunção tradicional do campo científico em geral, assinalado por Camargo Jr. e colaboradores (2010), entre as ciências do homem e as ciências da natureza, com importantes repercussões para as propostas de avaliação da produção intelectual por meio de indicadores quantitativos.

Segundo os mecanismos de avaliação instituídos pela Capes, a produção intelectual mais valorada, no campo da Saúde Coletiva é a divulgada em periódicos com Qualis A1, A2 e B1. Como demonstrado adiante, observa-se que a biomedicina hegemoniza os periódicos classificados nessas categorias. Essa hegemonia naturaliza um padrão de circulação da produção intelectual. produção e a circulação científica das ciências sociais e humanas e das ciências naturais adotam lógicas substancialmente distintas, e que afetam o processo avaliativo.

O campo biomédico assimilou por completo o padrão institucional de divulgação conhecimento das ciências naturais. Como descreve Kuhn, nesse padrão, as pesquisas não são incorporadas a livros, e sim divulgadas sob a forma de artigos breves, dirigidos apenas à comunidade de especialistas. Os livros científicos são, geralmente, ou manuais, ou reflexões retrospectivas sobre um ou outro aspecto da vida científica. O livro é um produto da atividade intelectual considerado de menor qualidade nas ciências naturais. Segundo Kuhn:

O cientista que escreve um livro tem mais probabilidade de ver sua reputação comprometida do que aumentada. É somente naquelas áreas em que o livro, com ou sem o artigo, mantém-se como um veículo para a comunicação das pesquisas que as linhas de profissionalização permanecem ainda tenuamente traçadas (KUHN, 1962, p. 40, grifo meu).

A adoção do modelo de divulgação das ciências naturais de artigos sucintos de vida breve e a existência de formas padronizadas de investigação facilitaram o trabalho cooperativo nos laboratórios e nas subsequentes publicações nas ciências biomédicas (CAMARGO JR et al., 2010). O tempo de avaliação do impacto de um artigo na área biomédica é de três anos (GONZÁLES-PEREIRA, 2012). O atributo imediato de impacto de um artigo é dado pelo prestígio da revista em que foi publicado (OPTHOF, 1997; OPTHOF; CORONEL, 2002).

Esse processo está muito longe de ser observado no campo das ciências sociais e humanas. Se a durabilidade da publicação científica nas ciências biomédicas pode ser extremamente curta, nas ciências sociais e humanas sua repercussão e utilidade podem durar décadas e mesmo séculos. Disso são exemplos os autores clássicos em Filosofia, História, Política, Sociologia, Psicologia e Economia. As projeções de repercussão das publicações são, portanto, extremamente distintas nas diferentes áreas de conhecimento, demandando uma abordagem mais cautelosa em relação ao impacto ou prestígio dos trabalhos e publicações da área.

Ao contrário do observado nas ciências naturais, as ciências sociais mantiveram um padrão híbrido de divulgação em livros e em periódicos interdisciplinares nacionais e internacionais. A publicação de um livro ainda é um indicativo de autoridade e reconhecimento de mérito científico, e não constitui ainda uma ameaça à reputação do pesquisador, como observado por Kuhn nas ciências naturais.

Nas condições dominantes atuais, as idiossincrasias dos campos científicos que compuseram o projeto interdisciplinar da Saúde Coletiva estão sendo ignoradas nos processos de avaliação da produção intelectual, como assinalado por Luz (2005).

Loyola conceitua essa experiência como a substituição da forma de produção pelo modo de circulação do conhecimento: "Não é mais o conteúdo, a originalidade e a contribuição, mas o veículo e os índices de impacto que determinam a qualidade do produto e o mérito de seu autor." (LOYOLA, 2008, p. 259)

Segundo a autora, o padrão Qualis enquadra e formata o pensamento, sua expressão e conteúdo, pelas regras de circulação. Atributos essenciais do modo de produção do trabalho intelectual, como autonomia e tempo, são sacrificados em nome da circulação rápida e do texto sintético (2008).

A hegemonia do modelo de difusão intelectual das ciências naturais não deixa de ser paradoxal face às narrativas sobre a permeabilidade da orientação interdisciplinar da Saúde Coletiva, que facultaria a função transformadora das ciências sociais e humanas no campo biomédico (CAMPOS, 2006). Os trabalhos de Duarte desempenharam um importante papel na popularização, ao longo da década de 1990, da missão das ciências sociais e humanas no ambiente supostamente convergente de saberes científicos da Saúde Coletiva.

Segundo ele, a Saúde Coletiva seria fundada na interdisciplinaridade, que possibilitaria "a construção de um conhecimento ampliado da saúde." (DUARTE, 1994, p 19). Essa concepção ratificava a leitura de Birman sobre o papel das ciências humanas na reestruturação do campo da saúde, trazendo para o seu interior as dimensões simbólica, ética e política e relativizando o discurso biológico (BIRMAN, 1991).

Em 2006, Duarte voltaria ao tema ao afirmar que:

A presença das ciências sociais e humanas foi se consolidando, sendo consideradas como fundamentais para a compreensão do processo da vida, do trabalho, do adoecimento e da morte, assim como dos cuidados aos doentes e pacientes e das relações profissionais. Tais abordagens tornaram-se possíveis porque essas disciplinas utilizaram um arsenal teórico e conceitual orientando as investigações e a busca de nexos de sentido entre o natural (o corpo biológico), o social e o cultural (NUNES, 2006, p. 306, grifo meu).

Os principais mecanismos de divulgação identificados por Nunes na Saúde Coletiva seriam os periódicos Ciência e Saúde Coletiva, Revista de Saúde Pública, Cadernos de Saúde Pública, Physis e Revista Brasileira de Epidemiologia (NUNES, 2006).

Fleury e Carvalheiro indicam um caminho ainda mais específico e focalizado da divulgação científica ao afirmar que:

A Saúde Coletiva, como campo de produção de conhecimento interdisciplinar e de formação de sanitaristas, vem se desenvolvendo com intensidade e consistência nos últimos trinta anos. Nesse período, um notável apetite pelo debate marcou o campo, sempre baseado num esforço editorial, inédito até então. São exemplos a revista Saúde em Debate, a edição de livros nacionais e estrangeiros, (...) além de publicações 'menos formais', compondo uma imensa massa de folhetos, opúsculos, manifestos, cópias mimeografas e outras formas de expressão. (FLEURY; CARVALHEIRO, 2008, p. 13).

A representação da interdisciplinaridade marcada pela função articuladora das ciências sociais e humanas é sempre reiterada nos diversos tratados sobre os fundamentos da Saúde Coletiva (CAMPOS et al., 2006). A experiência da avaliação dos PPGSC pela Capes não ratifica integralmente o projeto de divulgação e validação de sua produção intelectual. Pelo contrário, ela tem contribuído para o enfraquecimento da produção científica nos marcos da interdisciplinaridade na Saúde Coletiva.

A avaliação dos PPGSC tem significado, em termos práticos, o predomínio do isomorfismo organizacional para a validação de qualidade, mérito e relevância acadêmica da produção científica da área. Este descreve a imposição de padrões institucionais dominantes no campo organizacional. A simples cópia dos padrões hegemônicos e o processo inovação-imitação contínuo são motores fundamentais de tal isomorfismo (DI MAGGIO; POWELL, 1991).

A Capes tem atuado por instrumentos de coerção isomórfica observáveis nas situações em que autoridades governamentais induzem à escolha de um determinado desenho organizacional. O modelo de validação da produção acadêmica com base no prestígio de periódicos especializados da biomedicina é o principal instrumento de constrangimento da produção intelectual. O padrão institucional da ciência adotado pela Capes na avaliação da produção intelectual parece ser incompatível com a diversidade das culturas epistêmicas.

 

A hegemonia biomédica e o Qualis da Saúde Coletiva

A descrição do perfil dos periódicos do Qualis da Capes na Saúde Coletiva sob a ótica dos campos de conhecimento reforça essa suspeita. Os periódicos do triênio 2007-2009 são classificados em três categorias a partir do tipo de documentos que publicam: 1) biomédicos; 2) interdisciplinares ou de ciências sociais e humanas e 3) ambientais e das engenharias. Os periódicos foram divididos em nacionais e internacionais.

A Tabela 1 comprova a afirmação sobre o predomínio do campo biomédico na composição das publicações científicas da área: 70% dos periódicos do Qualis da Saúde Coletiva do triênio 2007-2009 divulgaram exclusivamente resultados de pesquisa de acordo com as questões e o desenho de estudo da investigação clínica, gerando uma barreira metodológica aos produtos resultantes de pesquisa não experimentais, ensaísticos ou qualitativos.

 

 

A Tabela 2 mostra que os periódicos com classificação de maior prestígio (Qualis A1, A2 e B1) são também predominantemente biomédicos e da área ambiental e de engenharias. A proporção dos periódicos de ciências sociais e humanas é residual entre aqueles nas categorias A1, A2 e B1: respectivamente 2,5 %, 7% e 17, 3%. A Tabela 2 mostra também que, quanto menor o Qualis, maior é a proporção de periódicos das ciências sociais e humanas.

 

 

A Tabela 3 demonstra que, no campo da Saúde Coletiva, os periódicos publicados em português no Brasil são, por consequência, residualmente representados nos estratos do Qualis A1, A2 e B1 da Capes. Nenhum periódico brasileiro alcançou o estatuto de Qualis A1 na área de Saúde Coletiva no triênio 2007-2009. No estrato de Qualis A2, apenas 1,1% são publicados no Brasil. Os periódicos brasileiros estão majoritariamente representados nos Qualis inferiores (B3 a C).

 

 

No triênio 2007-2009, a área da Saúde Coletiva atribuiu escores para os periódicos de acordo com o prestígio no Qualis, como mostra a Tabela 4. Um periódico estratificado com o Qualis A1 recebeu o escore 100. O periódico com Qualis B5 recebeu o escore 5. Os periódicos com Qualis C não receberam pontuação. Podem ser observados na terceira coluna os exemplos de periódicos que, apesar da alta pontuação no Qualis, tinham um perfil de divulgação da produção intelectual exclusivamente biomédica. Por outro lado, importantes jornais nacionais e internacionais com um perfil de divulgação não biomédico receberam uma pontuação baixa ou quase nula.

 

 

A medição do índice H tem um papel crucial no Qualis atribuído aos periódicos. Essa classificação mede o prestígio destes em todas as áreas de conhecimento. O índice H é fortemente relacionado ao número de citações por artigo publicado obtido por um periódico em um intervalo de dois ou três anos. O gráfico A mostra a forte associação do índice H dos periódicos em 2009 com a quantidade de citações dividida pela quantidade de documentos divulgados por periódico no biênio 2007 e 2008, segundo o país onde a publicação é editada.

 

 

Em relação à nacionalidade, cabe assinalar que 97,5% dos 200 periódicos líderes segundo o índice H de 2009 foram editados em inglês e no campo das ciências naturais. O gráfico acima revela também que Estados Unidos, Reino Unido e Holanda centralizavam a publicação das revistas científicas de maior prestigio. Alemanha, China e Áustria eram os demais países representados nesse universo restrito. A publicação nessas revistas revela a escala de internacionalização das pesquisas alcançada pela comunidade científica nacional (LISSONI et al., 2011). A divulgação a produção intelectual em língua inglesa é, portanto, crucial para o prestígio científico alcançado pelo periódico.

Reagindo à hegemonia da língua inglesa na mensuração do prestígio dos periódicos, Bresser-Pereira chama de colonialismo cultural o fato de não haver, por exemplo, no Qualis da Capes da Economia, uma única revista nacional classificada como Qualis A (BRESSER-PEREIRA, 2011). Para o autor, se, no campo das ciências naturais a situação pode ser normal, na área das ciências sociais essa condição leva à alienação dos interesses nacionais e à ideologização do conhecimento pela aderência sem crítica às metodologias formalistas e abstratas. O autor defende a adoção de cotas de periódicos nacionais nos estratos de Qualis A. Diz ele:

Quando revelo à Capes minha indignação com o colonialismo cultural, dizem-me que estão traduzindo a visão da comunidade acadêmica. Mas quem consagra tal monstruosidade é o Estado brasileiro, que existe não para traduzir, mas para afirmar valores. Para resolver esse problema, a Capes deveria estabelecer para as ciências humanas um percentual mínimo de periódicos nacionais A. Um número de 20% como é o caso da antropologia é aceitável. Inaceitável é o que ocorre na Economia (BRESSER-PEREIRA, 2011, p. 12)

Deverão as ciências sociais e humanas aplicadas à saúde acompanhar a agenda proposta por Bresser-Pereira? A requalificação da produção em formato de livros e capítulos de livros aliviará a situação dos pesquisadores e docentes afetados pelo viés biomédico do Qualis da Saúde Coletiva? Creio que as opções são interessantes, mas insuficientes para enfrentar o desafio do campo da Saúde Coletiva em relação ao padrão institucional de reconhecimento da produção intelectual moldado nas ciências naturais, especialmente da biomedicina.

A reprodução do conhecimento intelectual da biomedicina desfruta de vantagens institucionais dificilmente confrontáveis. A Tabela 5 mostra que, em 2009, entre os 925 periódicos de maior prestígio científico medido pelo Índice H, apenas 2% eram classificáveis como de saúde pública ou ciências sociais aplicadas. Nenhum era de ciências humanas (filosofia, sociologia, ciência política ou antropologia). Os periódicos de Economia contemplavam unicamente 0,2% do universo. Por mais que tenha buscado mimetizar os procedimentos de uma "física aplicada aos problemas sociais", dificilmente a Economia neoclássica alcançaria, nas condições de repartição do capital simbólico do conhecimento de fins da década passada, o status científico de ciência normal sonhada pelos seus ideólogos. A dura realidade é que, em 2009, o campo da Medicina concentrava 60% dos 925 periódicos de alto prestígio, seguindo pela Física, Química, Biologia e outras ciências naturais com 38%. A hegemonia dos periódicos biomédicos já fora alertada por Braun e colaboradores (2006), que defenderam a classificação dos periódicos por campo disciplinar.

 

 

O campo biomédico é também dominante nas ciências em geral, impondo um padrão sistêmico de reprodutibilidade do conhecimento intrinsicamente associado à quantidade e à notável diversidade dos seus periódicos. Esse padrão não pode ser alcançável pelas ciências sociais e humanas porque é diretamente associado à escala quantitativa de periódicos e à volatilidade de circulação do conhecimento biomédico. Na última década, dois veículos de divulgação da Saúde Coletiva sustentados operacional e financeiramente pela Universidade Estadual de São Paulo e pela Fundação Oswaldo Cruz – respectivamente a Revista de Saúde Pública e Cadernos de Saúde Pública - têm adotado um viés favorável à produção científica da Epidemiologia. Essa opção, aliada à ampliação da frequência de edições anuais, tem permitido a estabilização do índice H das duas publicações em um patamar bastante diferenciado no país. A Tabela 6 mostra elevada média do índice H dos periódicos brasileiros da Saúde Coletiva em comparação às revistas conterrâneas. Mostra também que, de modo geral, as ciências naturais atingem médias relativamente maiores no índice H do que as ciências sociais e os periódicos interdisciplinares.

 

 

A Tabela 6 exemplifica, sobretudo, a inadequação da aplicação linear dos indicadores bibliométricos aos periódicos de ciências sociais e humanas, mesmo em um contexto de comparação nacional: a média do índice H dos periódicos brasileiros da Saúde Coletiva é seis vezes maior do que a das ciências sociais e humanas.

 

Conclusão

A avaliação da produção intelectual dos programas de mestrado e doutorado tem adotado como uma força isomórfica o padrão institucional da difusão do campo biomédico, que combina a alta oferta de periódicos, rápida reprodutibilidade e fugaz circulação do conhecimento. A produção intelectual no campo da ciência depara-se com um cenário bem diferente do descrito por Kuhn há cinquenta anos. A legitimação do conhecimento não se realiza em pequenos grupos de cientistas autônomos orientados em produzir a ciência descompromissada com o mundo e divulgados em periódicos isolados, como descreve Kuhn (1970). A legitimação contemporânea é sustentada por uma robusta estrutura sistêmica de periódicos associada aos interesses da pesquisa clínica e do complexo econômico da saúde (SMITH, 2005).

As evidências sobre o perfil assimétrico dos periódicos que divulgam a atividade acadêmica ratificam a conclusão de Camargo Jr. e colaboradores sobre as "diferenças estruturais importantes e incontornáveis na forma de produção intelectual das diferentes subáreas da Saúde Coletiva" (CAMARGO JR et al., 2010, p. 5).

Os resultados da avaliação dos PPGSC no campo da Saúde Coletiva têm aprofundado as discrepâncias estruturais: as avalições anuais e trienais reiteram a valorização da produção intelectual convergente com o padrão do campo de divulgação das ciências do campo biomédico, desconsiderando as particularidades das condições de difusão das várias culturas epistêmicas. Essa hegemonia tem aguçado o desconforto da convivência de culturas científicas aparentemente inconciliáveis. Ao contrário da destemida proposta para a área da economia - aumento da cota nacional de periódicos Qualis A - defendida por Bresser-Pereira, na Saúde Coletiva, as diferenças estruturais na forma de produção e divulgação indicam a exigência de mudanças mais desconfortáveis. A área defronta-se com o esgotamento da aliança epistêmica implícita - e nunca reconhecida - que manteve a unidade do campo das Ciências Sociais e da Epidemiologia até os dias atuais.

Constata-se que as condições de avaliação da produção intelectual vigente reproduzirão infinitamente um jogo de soma negativa entre os PPGSC do país. De um lado estará o polo bem sucedido dos Programas de Mestrado e Doutorado em Saúde Coletiva que demonstram elogiável capacidade de reprodução da pesquisa epidemiológica clínica e da oferta aparentemente sustentável de publicação nos periódicos biomédicos internacionais e nacionais. De outro, estarão os PPGSC de perfil interdisciplinar, caracterizados pelas publicações predominantemente em periódicos nacionais das Ciências Sociais e Humanas, que não alcançam níveis elevados de prestígio por força das características da circulação científica dessas disciplinas. Esses dois polos utilizam, ademais, metodologias e desenhos de estudo para analisar as questões da saúde substancialmente diferentes ou mesmo antagônicas. Nessa situação, pode-se defender a tese de que estamos diante da situação narrada por Kuhn: "há escolas nas ciências, isto é, comunidades que abordam o mesmo objeto científico a partir de pontos de vista incompatíveis" (KUHN, 1962, p. 221).

Como manter, então, a unidade nas condições atuais de avaliação de comunidades científicas que detêm condições institucionais de difusão do conhecimento tão assimétricas? O Plano Nacional de Pós-Graduação da Capes reconheceu, surpreendentemente, a camisa de força que esse processo de avaliação da produção científica tem imposto aos diferentes campos de conhecimento. Ele reconhece, ainda, a hegemonia ou a predominância de critérios, culturas e procedimentos das ciências exatas e naturais, as quais migraram para outras áreas e funcionaram como uma camisa de força, e afirma que

No curso dos anos, o taylorismo intelectual e o imperativo do publish or perish invadiram todas as áreas e isso refletiu na avaliação, com o predomínio da quantidade sobre a qualidade. A periodicidade da avaliação continua sendo excessivamente curta para as necessidades dos programas. É necessário introduzir corretores de rota no conjunto, em atenção à sua complexidade, à sua maturidade e à sua dinâmica interna, com vistas ao plano decenal 2011-2020. (CAPES, 2011, p. 127)

Esse diagnóstico é perfeitamente adequado à Saúde Coletiva. O perceptível predomínio do taylorismo intelectual da pesquisa clínica observado na área tem enfraquecido as bases interdisciplinares originais do campo. Diante desse quadro, é legítimo buscar critérios específicos de avaliação que sejam adequados às várias tradições intelectuais da ciência, abandonando a convivência insustentável como o modelo biomédico de reprodutibilidade do conhecimento. Knorr Cetina oferece argumentos convincentes a favor do esforço de desunião da ciência, explorando a categoria da "cultura epistêmica": os sistemas científicos e os especialistas são separados pelas fronteiras institucionais profundamente enquistadas nos padrões de educação, de organização da pesquisa, de escolha de carreira e nos sistemas de classificação (KNORR-CETINA, 1999). Essas estruturas organizacionais revelam a fragmentação da ciência, exigindo a necessidade de reconhecer que não existe apenas um tipo de ciência, um tipo de método científico – derivado das ciências naturais – que possa ser aplicável para todas as áreas. Mesmo no campo das ciências naturais – e essa é a principal contribuição da autora – as bifurcações das fronteiras, as maquinarias e monopólios epistêmicos são reconhecidos como arranjos sociais singulares construídos no interior da ciência. A identificação da impossibilidade da unicidade do campo científico é convite para reconhecimento das diferentes culturas epistêmicas no campo da Saúde Coletiva e a construção de um novo formato de avaliação da produção intelectual.

Nesse contexto, Camargo Jr. chama atenção para o fato de que a avaliação da produção intelectual é imprescindível. Entretanto, ele sublinha que os indicadores bibliométricos, ainda que úteis, são pobres e perigosos para a avaliação da qualidade da produção científica. O conforto ilusório de uma medida "objetiva" não dá conta das complexas dimensões da tarefa legítima e necessária da avaliação. Esse texto compartilha a ideia do autor de que "o debate sobre formas de avaliação deve permanecer aberto e os sistemas institucionais devem ser repensados e aperfeiçoados" (CAMARGO JR., 2010, p.8).

 

Referências

BARROS, A.J.D. Produção Científica em Saúde Coletiva: perfil dos periódicos e avaliação pela Capes. Revista de Saúde Pública, v.40, n. especial, p.43-49, 2006.         [ Links ]

BIRMAN, J. A Physis da Saúde Coletiva. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v.1, n.1, p.7-11, 1991.         [ Links ]

BRAUN, T.; GLANZEL; W.; SCHUBERT, A. A Hirsch-type Index for Journals. Scientometrics, v.69, n.1, p.169-173, 2006         [ Links ]

BRESSER-PEREIRA, L.C. O colonialismo cultural. Jornal Folha de São Paulo, São Paulo, 1 ago 2011. Primeiro Caderno, Mundo, p. 12.         [ Links ]

CAMARGO JR., K.R. et al. Produção Intelectual em Saúde Coletiva: epistemologia e evidências de diferentes tradições. Revista de Saúde Pública, v.44, n.3, p.1-5, 2010.         [ Links ]

CAMARGO JR., K.R. O rei está nu, mas segue impávido: os abusos da bibliometria na avaliação da ciência. Saúde & Transformação Social, Florianópolis, v.1, n.1, p.3-8, 2010.         [ Links ]

CAMPOS, G.W. de S. Clínica e Saúde Coletiva Compartilhadas: Teoria Paidéia e reformulação ampliada do trabalho em saúde In: CAMPOS, G W. de S. et al. (Ed.). Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec, 2006, 53-92.         [ Links ]

CAPES. Diretoria de Avaliação. Qualis: concepção e diretrizes básicas. Revista Brasileira de Pós-Graduação, n.1, p.149-151, 2004.         [ Links ]

CAPES. Qualis. Disponível em <http://www.capes.gov.br/avaliacao/Qualis>. Acesso em: 22 dez. 2011.         [ Links ]

CAPES. Documento de área. Disponível em: <http://www.capes.gov.br/images/stories/download/avaliacao/SAU_COL15out2009.pdf> Acesso em: 2 jan 2012.         [ Links ]

CAPES. Plano Nacional de Pós-Graduação. V. I. Brasília: Ministério da Educação, 2011.         [ Links ]

CAPONI, S.; REBELO F. Sobre Juízes e Profissões: a avaliação de um campo disciplinar complexo. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v.5, n.15, p.59-82, 2005.         [ Links ]

DI MAGGIO, P.J.; POWELL, W.W. The Iron Cage Revisited: institutional isomorphism and collective rationality in organization fields. In: ______. The New Institutionalism in Organizational Analysis. Chicago, The University of Chicago Press, 1991.         [ Links ]

FLEURY, S.; CARVALHEIRO, J.R. Prefácio. In: GIOVANELLA, L. et al. (Org.). Políticas e Sistemas de Saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008, p.13-16.         [ Links ]

GONZÁLEZ-PEREIRA, B.; GUERRERO-BOTEB, V.P.; MOYA-ANEGÓNC, F. The SJR Indicator: a new indicator of journals' scientific prestigie. SCImago Research Group. Disponível em <http://www.scimagojr.com>. Acesso em: 2 jan. 2012.         [ Links ]

KNORR-CETINA, K. Epistemic Cultures. In: ______. How the Sciences Make Knowledge. Cambridge: Harvard University Press, 1999.         [ Links ]

KUHN, T. Reflections on my Critics. In: LAKATOS, I.; MUSGRAVE, A. (Ed.). Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge: Cambridge University Press, 1970.         [ Links ]

KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1982.         [ Links ]

LIZZONI, F. et al. Scientific Productivity and Academic Promotion: a study on French and Italian physicists. Industrial and Corporate Change, v.20, n.1, p.253–29, 2011.         [ Links ]

LOYOLA, M.A.R. A Saga das Ciências Sociais na Área da Saúde Coletiva: elementos para reflexão. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.18, n.2, p.251-275, 2008.         [ Links ]

LUZ, M.T. Prometeu Acorrentado: análise sociológica da categoria produtividade e as condições atuais da vida acadêmica. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v.15, n.1, p.39-57, 2005.         [ Links ]

NUNES, E.D. Saúde Coletiva: história de uma idéia e de um conceito. Saúde e Sociedade, v.3, n.2, p.5-21, 1994.         [ Links ]

NUNES, E.D. Saúde Coletiva: uma história recente de um passado In: CAMPOS, G W. de S. et al. (Ed.). Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec, 2006, p.295-315.         [ Links ]

OPTHOF, T.; CORONEL, R. Productivity in Science: more, more and more? Cardiovascular Research, n.56, p.175-177, 2002.         [ Links ]

OPTHOF ,T. Sense and nonsense about the impact factor. Cardiovascular Research, n. 33, p.1-7, 1997.         [ Links ]

SMITH, R. Medical journals are an extension of the marketing arms of pharmaceutical companies. PLOS Medicine, v.2, n.5, p.346-66, 2005.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 30/01/2012
Aprovado em: 06/04/2012