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Physis: Revista de Saúde Coletiva

Print version ISSN 0103-7331

Physis vol.22 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312012000200019 

TEMAS LIVRE

 

A ausência de ciúme como um ideal cultural: reflexões clínicas sobre a fragilidade subjetiva frente ao amor na atualidade

 

The absence of jealousy as a cultural ideal: clinical reflections about the subjective fragility evoked by love in present times

 

 

Marília Etienne ArreguyI; Claudia Amorim GarciaII

IProfessora adjunta II da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. Endereço eletrônico: marilia.arreguy@pq.cnpq.br
II
Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio

 

 


RESUMO

Discute-se largamente, na literatura psicanalítica e no meio acadêmico, de modo geral, sobre o declínio das tradições, do respeito às e respaldo social das instituições, e sobre a desqualificação da autoridade paterna na contemporaneidade. Tributário do romantismo e do individualismo forjados na modernidade, o amor romântico enquanto valor cultural e último refúgio subjetivo também se encontra em ruínas. A sexualidade enquanto absoluto prazer, multiplicidade e busca de sensações, é projetada cada vez mais como condição para as relações ditas amorosas. Diante desse cenário, partimos de uma discussão teórica e de vinhetas clínicas, a fim de argumentar que o ciúme é um afeto "fora de moda", cujas manifestações sintomáticas podem ser associadas ao modo como o erotismo é regido na atualidade. A ausência de ciúme desponta como um novo ideal para o amor, não mais apenas romântico, porém, antes de mais nada, narcísico, erótico, múltiplo e excessivo. A partir de estudos psicanalíticos sobre o amor e o ciúme, pretendemos então refletir como o modelo cultural narcísico atual permeado pelos restos de um romantismo recrudescente afeta a subjetividade. De modo ambíguo, a "ausência de ciúme" e seu oposto correlato "ciúme primitivo" oscilam entre si como expressões marcantes da fragilidade nas relações amorosas atuais.

Palavras-chave: ciúme; erotismo; amor romântico; psicanálise clínica; atualidade.


ABSTRACT

The decline of traditions, institutions and paternal authority in present times has been largely discussed in psychoanalytical literature. Heir of Romanticism and Individualism forged in modernity, romantic love as a cultural value and the last subjective refugee, has ruined. Sexuality understood as absolute pleasure and multiplicity of sensations has been more and more considered as a condition for love relationships. Considering this state of affairs, and based on a theoretical discussion and clinical vignettes, we argue that jealousy is "old-fashioned". The absence of jealousy points at a new ideal for love, not so much romantic, but most of all narcissistic, erotic, multiple and excessive. Based on psychoanalytical studies about love and jealousy, in this paper, we intend to reflect about how today´s narcissistic cultural model, still permeated by the remains of Romanticism, continues to interfere with contemporary subjectivity. In an ambiguous way, the absence of jealousy and its opposite correlate "primitive jealousy" take turns in the field of contemporary love relationships.

Key words: jealousy, eroticism, romantic love, clinical psychoanalysis, contemporary society.


 

 

Retorno do romantismo recalcado: Oh! A romantic erotic love...

Uma infinidade de autores das mais diversas áreas de saber teorizaram sobre as diferentes concepções de amor ao longo da história. Desde as características metafísicas do amor traçadas por Sócrates no Banquete, suas relações com a amizade e o conhecimento filosófico (theleia philia, amictitia vera), passando pelas definições do amor místico cristão (ágape e caritas) no encontro etéreo com Deus, pelo trovadorismo e pelo amor cortês até, enfim, a interiorização do amor no auge do romantismo e do individualismo, essas diversas concepções vêm sendo erigidas de modo a culminar com uma idealização do amor como o principal aspecto da vida subjetiva.1

Representando uma corrente pessimista e trágica, Denis de Rougemont (1982), no livro O amor e o Ocidente, retoma o mito de Tristão e Isolda (e também Abelardo e Heloísa) para demonstrar um ethos amoroso em que o sofrimento implacável, o desencontro contínuo, a determinação do destino e a impossibilidade de manutenção da relação são decisivos – logo, obstáculos intransponíveis no amor. No período do trovadorismo (ibid.) há, de certo modo, a premissa da infelicidade na relação, pois a figura amada era considerada insubstituível, na medida em que a paixão era vista como uma realização transcendente, portanto, eterna. Assim, o modelo forjado nos séculos XI e XII como amor cortês constituiu a base do que se construiria como o cerne do "amor-paixão" ocidental, em que a poesia de exaltação, os ritos de comunhão com a terra e a idealização da dama são elementos sine qua non na emulação de um desejo erótico intenso, efêmero e, ao mesmo tempo, trágico, porque impossível. Em oposição, foi se consolidando o modelo do casamento cristão, substituindo a influência dos antigos cultos celtas, cátaros e provençais na Europa, no sentido de estabelecer um controle cada vez maior das relações amorosas, enrijecendo a paixão romântica dentro de um padrão moral religioso cristão. O amor supremo não mais poderia ser o amor pela Dama idealizada, mas deveria ser a devoção absoluta a Cristo e a seu Pai Divino.2 Toda dedicação poética (bem como o interesse erótico) à mulher perfeita e amada deveria ser substituída pelo investimento intelectual e afetivo no Sagrado implícito ao cânon judaico-cristão. Assim, com o combate a toda ordem de concupiscência, os ritos pagãos expressivos de um erotismo encarnado acabaram por ser paulatinamente esmaecidos até praticamente desaparecerem do cenário histórico, devido à hegemonia católica no Ocidente, uma das religiões mais repressoras em relação à experimentação da sexualidade.

Jurandir Freire-Costa (1998), no livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico, fez um estudo teórico das diversas formas em que o amor se apresentou no decorrer dos tempos, visitando diferentes concepções da relação amorosa e apontando como esses aspectos influenciaram a cultura romântica moderna, compondo o universo do que pretendemos discutir a respeito de certa "ausência de ciúme" na contemporaneidade. Tributário dos modelos anteriores, mas contendo também sua especificidade, o "amor romântico" (FREIRE-COSTA, 1998; 1999) se caracteriza basicamente por fatores como a entrega total ao objeto de amor, a intangibilidade desse objeto, a promessa de fidelidade eterna ao parceiro, a idealização da figura amada, mas também a submissão dos amantes a um conjunto de regras sociais que, inexoravelmente, impedem a gratificação erótica e levam ao sofrimento, na medida mesma em que essas regras são contraditórias, pois se situam entre as exigências de Eros e a moral cristã (FREUD, 1908) – conotando a inviabilidade da entrega total à paixão. Esses moldes foram realçados pelo rol de representações culturais no período do romantismo amoroso, erigido no final do século XVIII, início do século XIX, sobretudo na literatura de Schiller e Goethe e, também, no Romantismo francês de Hugo e Rousseau, produzindo efeitos nas artes, na literatura e, sobremaneira, na subjetividade contemporânea. Então, em que medida a utopia do "amor romântico" ainda representaria o ideal socialmente compartilhado para as relações amorosas na atualidade, ou melhor, até que ponto seria o último projeto ao qual a subjetividade poderia se apegar?3

É evidente que muitas transformações sociais, políticas e econômicas ocorreram no chamado contexto pós-moderno (JAMESON, 1993; BAUMAN, 1997; 2003), acarretando importantes alterações na forma como a experiência amorosa é vivida, sobretudo entre as coortes mais jovens que, após as décadas de 1980-90, assimilaram e incorporaram as conquistas libertárias da revolução sexual alcançada pelas gerações anteriores nas décadas de 1960-70. Porém, essa apropriação se deu sem muito questionamento. Grande parte da nova juventude burguesa passou a usufruir de um "estado de bem-estar" cada vez mais pautado na crença de viver num estado de consumo total, como se isso fosse algo taken for granted, e um erotismo exteriorizado, por sua vez, se tornou a base das relações amorosas.

Para além dos efeitos inovadores do advento da psicanálise, mas também considerando a queda da luta de classes, o abafamento dos grandes ideais políticos revolucionários e a emergência de um modelo hegemônico neoliberal de economia de mercado e consumo globalizado, a realidade amorosa tomou novas cores, deslindada de compromissos políticos, realçada pela necessidade de realização imediata, distanciada da premissa de um sofrimento romântico inextrincável, passando a ser maciçamente apoiada no amor sensual como o principal fator a ser investido pela mídia de marketing e pela indústria cultural (Adorno, 1932/2011) – logo, atuado pelos corpos. Rapidamente emergiu um novo modelo do "amor-consumo", esgarçando uma vertente idealizada do amor que, por jamais ser plenamente realizada, conduz os sujeitos a repetidas frustrações.

As transformações na lógica do laço amoroso se fizeram bastante intensas ao realçar certa fetichização do corpo enquanto objeto de consumo, volátil e multiforme, sobretudo com a possibilidade de troca seriada e incessante de parceiro(a)s, como atestam os artigos presentes na mídia impressa, as músicas e videoclipes, os programas televisivos, mas também a simples observação corriqueira do ethos amoroso nos grandes centros urbanos. Fortalece o argumento, o crescente aumento na porcentagem de divórcios, bem como o adiamento da idade média dos casamentos, sendo cada vez mais tardios em homens e mulheres (IBGE, 2000), paradoxalmente, tendo aumentado o número de casamentos (IBGE, 2010), o que marca reviravoltas na amorosidade.4

No entanto, o ideal romântico não parece de todo abandonado (LEÃO, 1996), produzindo ainda manifestações subjetivas fantasmáticas que podem ser explicitadas a partir de dados clínicos presentes na literatura sobre o ciúme. Trabalharemos, portanto, sobre certa dialética. Por um lado, enfocando a hipótese da ausência de ciúme como um ideal cultural na atualidade, um ideal narcísico e midiático que supostamente livraria as pessoas do sofrimento pela disputa, pela ameaça, pela perda e pela competição inerente ao amor, na mesma proporção em que a sociedade se torna laudativa do recurso a jogos perversos que apagam a falta e a diferença, ao estimular a ilusão imaginária de um erotismo totalizante. Por outro lado, simultaneamente, é possível observar na clínica a recorrência do ciúme primitivo como representante de uma forma regredida de amar (uma forma romântica), que também encontra "saídas" no delírio, na melancolia, na atuação violenta e no masoquismo (ARREGUY; GARCIA, 2002; ARREGUY, 2008; 2011), formas sintomáticas de um romantismo remanescente fiador da relação subjetiva idealizada. Ambas hipóteses, ou seja, da supressão perversa do sofrimento no amor (ausência de ciúme) ao retorno do romantismo recalcado (ciúme patológico), são as expressões do mal-estar amoroso na contemporaneidade privilegiadas neste ensaio.

Oferecendo a descrição de uma "versão realista" do amor na atualidade, Jurandir Freire-Costa mostra que as escolhas amorosas, na verdade, são muito mais casuais do que parecem ser e, certamente, menos encantadoras do que o esperado. Por isso mesmo, ele assevera que "vivemos numa moral dupla: de um lado, a sedução das sensações; de outro, a saudade dos sentimentos. Queremos um amor imortal e com data de validade marcada: eis sua incontornável antinomia e sua moderna vicissitude (FREIRE-COSTA, 1998, p.21)". O "amor romântico" ainda é largamente investido como um ideal, embora seja abalado cotidianamente pelo imperativo do gozo das sensações e do consumo de amor. Numa espécie de paradoxo hipermoderno do amor, apesar de utopicamente desejado e buscado, mal se realiza, pois jamais corresponde ao nível das expectativas culturais atribuídas ao sujeito como sua responsabilidade individual.

Nesse sentido, Freire-Costa (1998, p.153) chama a atenção para a interferência da cultura de consumo sobre as relações amorosas:

Sexo e amor foram apropriados pela lógica econômica e se tornaram tão racionais e funcionais quanto qualquer outra atividade instrumental e produtiva [...] O desejo de adquirir objetos no mercado de consumo e o "desejo de ter ou possuir completamente outro ser humano" são, por assim dizer, isomorfos e isonômicos.

Essa condição do amor presente na atualidade assinala um "ideal descartável", ou seja, por um lado, vivenciamos o amor de maneira fortemente idealizada conforme construído no romantismo rousseauniano – por outro, a experiência amorosa é constantemente influenciada pelo imperativo das trocas, inerente à lógica de mercado, fazendo com que muitas vezes a relação amorosa seja pautada no mesmo modelo das relações de consumo. Tomamos posse dos nossos parceiros amorosos, da mesma forma que adquirimos objetos. Contraditoriamente, com a influência do romantismo somado ao apelo por consumo num modelo em que o objeto amoroso é tomado enquanto posse subjetiva, a ameaça de perda gera uma avalanche de ciúme, assim como era costumeiro nas paixões românticas antigas. Contraditoriamente, estar "em dia" com a ótica pós-moderna (BAUMAN, 1997; 2003) em relação ao amor significa aceitar que cada um é livre para agir como quiser, tornando-se inevitável a convivência com a liberdade, sobretudo com a individualidade do outro. A liberdade no amor é, portanto, uma exigência. Então, o ciúme característico de relações românticas idealizadas se coloca como entrave às expressões amorosas atuais, e demonstrá-lo passa a ser uma inadequação. Apesar dos "tributos sentimentais" devidos ao ideário romântico e à moral cristã em que fidelidade e ciúme são elementos cruciais, ironicamente, o ciúme estaria fora de moda na contemporaneidade. Na cultura de mercado atual, o objeto de amor deve ser descartado sumariamente, trocado, substituído, eliminado, quando não está de acordo com uma imagem idealizada de realização totalitária da paixão em nome de um prazer voltado para a exterioridade, ou seja, para a exibição narcísica de sua almejada completude, felicidade e realização.

Segundo Freire-Costa (1998, p.218), no contexto atual "a identidade amorosa se torna uma variação rotineira dos sentimentos cada vez mais modelados pelo gozo das sensações". Ao invés de a sexualidade ser severamente reprimida pela sociedade – ao contrário, passa a ser fortemente estimulada. Assim, nos sujeitos adequados à lógica midiática mercadológica do amor, o sofrimento subjetivo se deve muito mais a um excesso sexual do que a uma repressão cultural interditória e impeditiva.

Muito já se falou nos meios psicanalíticos, ao ponto de se tornar praticamente um consenso, sobre a ideia de um declínio da função paterna e, ainda, sobre certa fragilização das construções simbólicas na subjetividade pós-moderna (LACAN, 1997; CALLIGARIS, 1991; KEHL, 2000). Quando se considera o declínio da função paterna, é primordialmente a noção de castração, enquanto função instauradora da Lei, que está em jogo. O declínio do valor atribuído à função simbólica pode ser associado à atual desvalorização dos ideais coletivos e ao desmantelamento dos interditos historicamente cultivados. Nesse contexto, somados à hegemonia do sintoma social do narcisismo, os reflexos psíquicos apontam para uma intensificação do Édipo enquanto sexualidade incestuosa (GARCIA, 1999, p.98) e, ainda, para a perversão enquanto configuração bastante pregnante nas formas de subjetivação da atualidade (CALLIGARIS, 1985; 1991). Não sustentamos o fato de que vivemos em uma "sociedade essencialmente perversa", mas pensamos que o laço social contemporâneo e, do mesmo modo, a experiência amorosa, parecem cada vez mais apelar para uma solução perversa dos conflitos psíquicos (BIRMAN, 1998), o que pode ser identificado com uma nova posição subjetiva frente à ausência de parâmetros simbólicos tradicionais a que o sujeito possa recorrer para balizar sua ação. Esse enfraquecimento dos grandes metarrelatos (LYOTARD, 2004) e das normas sociais mais conservadoras encontra ressonância numa fluidez sem parâmetros e sem paragem, por vezes promovendo o novo e a criação, mas, por outras, produzindo uma grande carga de incerteza (BAUMAN, 1997; 2003), logo, de angústia, por não haver estofo subjetivo nem para suportar a frustração amorosa, tampouco para conter um evocado excesso libidinal.

Queremos ser profundamente amados, embora nossa predisposição para amar seja extremamente escassa. Somos impelidos, enquanto "pós" ou "hipermodernos", a nos lançar freneticamente na busca de "autorrealização" numa fruição narcísica compulsiva ancorada na promessa de sucesso e de pequenos "reforços" em prazeres imediatos. Na atualidade, uma erótica instável, espécie de pletora amorosa, parece muito mais avant-gard do que a reprodução da relação amorosa totalitária dentro das expectativas do cânon patriarcal. Em visão oposta, a experiência amorosa fundada na ideia de posse5 resiste em admitir transformações profundas do desejo e na ação subjetiva, embora essa mesma fruição esteja fragilizada pela injunção paradoxal da "liberdade de escolha", que simultaneamente interdita e autoriza, dada a onipresença no par antitético ameaça/gozo representado pela incitação à troca incessante de parceiro(a)s. Assim, o sujeito amoroso se apega aos frangalhos de um romantismo caduco e, ao mesmo tempo, se equilibra precariamente sobre a virtualidade de relações hiper prazerosas ou descartáveis, como acontece, por exemplo, nas redes sociais, onde as pessoas devem ser imediatamente apagadas ("deletadas"), caso seja rompido um status especular intersubjetivo de mímese do Outro, inconscientemente tomado enquanto objeto manipulável.

 

Ausência de ciúme enquanto sintoma social perverso

Baseando-se na lógica do capitalismo tardio que cada vez mais determina a transição dos valores subjetivos do lado do ser para o lado do ter, Calligaris (1991, p.117) acredita que:

A passagem do ser para o ter é um fenômeno decisivo da nossa modernidade pela sua implicação: quanto mais o que estamos perseguindo (o nosso ideal fálico) se situa ao lado do ter, tanto mais o saber paterno vai poder se apresentar (semblante) como saber sabido e compartilhado. Talvez já estejamos numa transformação do sintoma social dominante – que para Freud é um sintoma social neurótico – num sintoma social perverso. Quero dizer, com perverso, um sintoma no qual o saber paterno não é mais suposto, mas é culturalmente um saber sabido e compartilhado.

As leis, regras, interditos e limites que norteariam a vida coletiva parecem, assim, cheirar a perfume velho. A Lei, apesar de largamente conhecida, não produz efetivamente os efeitos que preconiza, soando como letra morta. É evidente que as leis existem, mas são cotidianamente burladas. Sua efetividade é que está em questão. Seria fácil concluir daí que a via para a construção de um novo ideal coletivo passa pela vertente da transgressão. Contudo, na pós-modernidade, parece que não se trata exatamente de subverter/transgredir uma moral dominante, mas de distorcê-la para que sirva aos interesses socioeconômicos de uma cultura que inverte o antigo padrão dos laços associativos. Muitas vezes, no lugar da transgressão criativa surge uma distorção perversa, pois a Lei se torna elástica, permissiva, contornável, na medida em que é interpretada de acordo com os interesses de sujeitos regidos pelo consumo de amor.

Numa lógica em que os valores e ideais coletivos se fragilizam diante de uma antinômica cultura narcísica voltada para a exterioridade e para o espetáculo, vemos se esboçar um novo campo de direitos no terreno amoroso, onde determinações anteriormente imperativas têm sua função francamente esvaziada. A nova moral sexual potencializa o predomínio de uma função superegoica que exige o gozo (FREUD, 1920; LACAN, 1972; ŽIŽEK, 1999, 2010), em detrimento de uma função do ideal do eu que visa a regulação e a interdição da sexualidade, via identificação e ternura (FREUD, 1910-2; 1914, 1921; 1924). O sujeito hipermoderno clama por um gozo incestuoso na medida em que recusa qualquer limite, fazendo semblant de ignorar o ímpeto de abrandamento para si de tudo o que é constituído como regra para o socius. Nesse sentido, o supereu enquanto instância socialmente constituída representa um "poder totalitário [que] avança ainda mais longe do que o poder autoritário tradicional" (ŽIŽEK, 1999, p.70), manifestando-se de um modo coercitivo em que "dever se torna prazer" e a obtenção de prazer se torna um dever (idem). Seguindo o estilo de Žižek (2011), é como se o sujeito além de abrir mão de toda fantasia incutida desde a infância do encontro amoroso perfeito, dividindo o(a) companheira com terceiros, além disso, tem de gostar, satisfazer-se, mais ainda, extrair o máximo "proveito" da situação. Mas quem teria tamanha desenvoltura amorosa?

O par amoroso ideal é, sabidamente, desde sempre, fracassado. No romantismo, o outro enquanto objeto amoroso era idealizado em função da expectativa de amor eterno, ao passo que na pós-modernidade o objeto de amor é escolhido, tomado e possuído em função da idealização do eu aos moldes de um eu ideal narcísico arcaico, cuja função superegoica é realizá-lo a qualquer preço. A Lei coletiva, portanto, é adaptada à lei do próprio gozo, seguindo a máxima perversa: Eu sei, mas mesmo assim...

No totalitarismo pós-moderno dos meios de comunicação de massa (JAMESON, 1993), da inflação do mundo privado (FREIRE-COSTA, 1999), da vertente de exibicionismo e exterioridade (BIRMAN, 1998), e ainda, da cultura de consumo, há o imperativo do prazer, ou seja, do prazer como um dever em todas as esferas da vida. Isso se faz presente, por exemplo, na busca pelo consumo de amor, quando o parceiro é desconsiderado em sua subjetividade, sendo tratado como um mero instrumento utilizado para fins próprios, no qual o amor do outro se torna cada vez mais um mero reflexo exacerbado do amor de si.

Na cultura de consumo, as trocas de parceiros amorosos se dão incessantemente. Os parceiros se multiplicam tanto para homens quanto mulheres, mas, principalmente em jovens e adolescentes, panfletários de um novo estilo de amor. O erotismo solapa a ternura, a instabilidade das relações se torna uma constante, e a necessidade de "ficar" com alguém, "pegar" alguém e renovar as sensações de prazer inviabiliza o par romântico tradicional, que apesar de ultrapassado, permanece idealizado. Para manter o(a) parceiro(a), o sujeito é impelido a abrir mão da fidelidade e, às vezes, a compartilhar o objeto de amor com outros. São as ditas "relações abertas" em que a fidelidade deixa de ser uma cláusula do acordo amoroso e a liberdade de diversificar as relações toma seu lugar, muitas vezes caracterizando relações múltiplas, através das quais, parafraseando uma leitura marxista de Lacan (1972), se obtém um mais gozar. Evidentemente, pode-se pensar que haja um ganho nessa nova lógica, na medida em que a liberdade é preconizada. Entretanto, esse ganho só se concretizaria caso os restos recalcados do romantismo não retornassem constantemente para atormentar e assombrar os novos pares "descolados". A incitação subliminar à eliminação do ciúme abre espaço para uma suposta excitação com a multiplicação dos parceiros, seja na presença concomitante do(a) rival na cena sexual, seja num deslizamento contínuo de parceiros(as) através da seriação de objetos de consumo erótico, como vemos figurar na conduta de Brandon (Michal Fassbender) no filme Shame (dirigido por Steve McQueen).

Freire-Costa (1998, p.23-27) criticou Reich e Marcuse por criarem uma utopia sexual calcada num erotismo colado ao sexo. Isso levaria a um empobrecimento da experiência amorosa, na medida em que reatualizaria a antiga cisão entre ternura e sensualidade (FREUD, 1912). Contudo, um erotismo livre de ciúme e de fidelidade está cada vez mais em voga em nossos dias.

Se por um lado, a expressão exagerada do ciúme esteve colada à psicopatologia desde as primeiras formulações freudianas, por outro, a expressão do "ciúme normal" (FREUD, 1922, p.237), signo corriqueiro da ameaça de rompimento da exclusividade afetiva do(a) parceiro(a), é ainda bastante presente na cultura e está longe de ser abandonada. Porém, o ciúme não é mais um sentimento que representa a prova cabal do amor, como foi outrora, quando era fundado na crença romântica hegemônica. Ora, em certos nichos sociais o ciúme sequer tem lugar. Quanto menos reprimidas, mais livres e eroticamente intensas as relações, mais o ciúme romântico deve desaparecer. Tal propensão à "ausência de ciúme" parece se coadunar com a dialética da dessexualização do objeto sexual, descrita por Žižek (2008a) no livro Órgãos sem corpos. A necessidade da "ausência de ciúme" surge numa cultura que exige o gozo erótico pleno. Então, o ciúme deve ser execrado, no sentido de tornar-se subjetivamente suprimido. Sugerimos, portanto, que certa coerção social para a multiplicação de parceiros e eliminação das manifestações de ciúme redefina parte da experiência subjetiva do amor na atualidade.

Demonstrar ciúme, numa cultura onde "ninguém é de ninguém", significa enfraquecer e incentivar o(a) parceiro(a) a olhar para o(a) rival como objeto desejável. Se demonstrar ciúme desperta o desejo de "traição", e as novas relações pós-modernas devem ser postas como livres, esse afeto em si mesmo serve como um estímulo adicional para a valorização objetificada do(a) parceiro(a). A inversão seria dada pela gramática inconsciente: "se tenho ciúme é porque o outro é desejável". Nesse sentido, "jogar" com o ciúme, ou seja, provocar ciúme no outro seria supostamente mais "lucrativo" do ponto de vista da totalização e posse do desejo alheio do que se mostrar frágil pelo próprio ciúme incontido. Deixar transparecer o ciúme é sinal de fraqueza e possessividade. O outro deve ser livre para aproveitar o que estiver a sua disposição, sobretudo novas experiências sexuais e/ou amorosas. Para chegar à hipótese sobre a "ausência de ciúme como um ideal cultural" é necessário, assim, mostrar o antagonismo entre o amor romântico burguês e as exigências contemporâneas para o exercício do jogo erótico das sensações. A princípio, se a ausência de ciúme surge como uma proposta revolucionária, subversiva, conforme apresenta Debourge-Donnars (1997), subsequentemente será cooptada pela lógica neoliberal baseada na estética de consumo erótico dos corpos:

Podemos citar também a corrente político-moralista marxista que despreza esta "paixão burguesa" ligada ao desejo de reduzir o ser humano a uma posse pessoal, inútil, alienante e nociva, uma tolice abundante. Deste ponto de vista, o ciúme bloquearia a energia erótica que deve circular livremente e desviaria o indivíduo dos únicos sentimentos louváveis: aqueles destinados a incentivar o élan revolucionário, a luta de classes e toda produção econômica! A supressão dos "pesares do amor" desembaraçaria a vida amorosa de todo constrangimento moral. Atualmente, de maneira mais sutil mas não menos ameaçadora, o ciúme não é menos desvalorizado. Contrário à conveniência, no politically correct, ele fere não somente nosso sentimento ético, mas sobretudo estético. (DEBOURGE-DONNARS, 1997, p.68-9, tradução e grifos nossos).

O que seria um avanço nas esferas erótica e política, dado o abandono do ideário romântico burguês em nome do revolucionário materialismo histórico, no entanto, emerge como um acréscimo de sofrimento pela exigência de sua supressão com fins hedonistas lucrativos. A ausência do ciúme passa a ser, para além de um valor ético de respeito à singularidade do desejo do parceiro, um valor estético que viabiliza a multiplicação metonímica dos relacionamentos amorosos, o renascimento das experiências orgiásticas e, por vezes, como consequência, o abandono sumário do outro. Essa ambiguidade afetiva por si só ativa o mercado da estética, na medida em que não há estabilidade amorosa e a conquista libidinal deve ser financeiramente investida com todos os fetiches, gadjets e cuidados com o corpo a que se tem direito, dado o posicionamento perverso (VALAS, 1990), consumista e exibicionista dos neuróticos pós-modernos. Não obstante, a presença do ciúme enquanto um sentimento humano, em certos momentos da vida, um sentimento como qualquer outro, como o amor, o ódio, a cólera, a raiva, a tristeza, a alegria, é algo inevitável. Resta portanto ao ciumento suprimir conscientemente o fantasma do ciúme para poder se enquadrar no mercado de consumo dos corpos e do amor com data de validade marcada. A esfera da paixão não reflete mais a expectativa de um amor duradouro, mas um hiperinvestimento do eu em função da relação especular com o outro, alçado à posição de objeto-fetiche, em que o objeto amoroso passa a ser um mero instrumento para a realização narcísica do sujeito. Caso contrário, deve ser eliminado.

Há estruturalmente na perversão uma ambiguidade entre a "cumplicidade libidinal da mãe" e a "complacência silenciosa do pai" (KAUFMANN, 1993, p.421), expressa numa forma de recusa da Lei Simbólica, ou seja, dos interditos primordiais ao incesto (LANTERI-LAURA, 1994, p.121-135) e à morte, estimulando a constante transgressão em relação à autoridade paterna. Em relação ao fantasma do ciúme, o sujeito vinculado à posição perversa desqualifica a castração pressuposta na dissolução do complexo de Édipo (FREUD, 1924, p. 191-202) e na diferenciação entre os sexos (FREUD, 1925, p. 273-288), pois não admite nem a ausência do falo na mãe, nem que esta possa desejar outro objeto a não ser o próprio bebê. Os sujeitos nessa posição conhecem a Lei, mas estão fadados a camuflar sua realidade, na medida em que se recusam a se declinar à falta inalienável, imposta pela castração, e a elaborar a diferença sexual – ou seja, não assumem o fato de que não se pode ter tudo... Tais sujeitos só aceitam o papel de vencedores no jogo amoroso, haja vista jamais terem saído da posição de falo da mãe e desqualificarem a rivalidade, pois qualquer ação é tida como válida para suplantar o rival e garantir o amor especular. O que melhor define essa posição subjetiva é a noção de recusa da realidade da castração, recusa da diferença entre os sexos, enfim, recusa da supremacia do pai no impedimento da relação incestuosa com a mãe (KAUFMANN, 1993, p. 415-423) – em última instância, recusa da Lei. Essa recusa é anunciada por Freud (1909) desde o caso do pequeno Hans, quando o menino afirma ao pai que o "pipi" da irmã é pequenino mas ainda vai crescer, ou seja, falseia a realidade da diferença entre os sexos.

Considerando os aspectos da cultura pós-freudiana, em que a castração é sabida mas escamoteada, haja vista o massacre da mídia em prol do consumo total com base em um erotismo desenfreado, toda a falta deve ser tamponada. A falta é insuportável e a diferença dever virar fetiche (VALAS, 1990). Desse modo, os objetos de consumo e o outro enquanto objeto de consumo, ocupam por excelência esse lugar fetichizado (FREUD, 1927) a partir do qual o sujeito deve gozar (ŽIŽEK, 1999; 2008; 2011).

 

Ciúme primitivo, olhar totalizante e defesa perversa no mutismo e na morte

Ao relacionar ciúme e perversão, Lachaud (1998) considera a existência de um ciúme primitivo que surge como recusa da castração (p.119). A autora conjuga diversos elementos em sua teorização sobre o ciúme, dando valor especial aos efeitos da relação especular. A função do olhar totalizante da mãe, vista como plena, e da identificação com o rival, confluindo com o desejo de destruí-lo, mantém uma imagem do Outro sem falha (p.99), pois a "imagem do espelho é totalizante, assim o semelhante é a via de acesso ao TODO, recusa da castração" (LACHAUD, 1998, p.121). A autora menciona a existência de um ciúme primitivo, a partir do qual o sujeito nega a possibilidade do desejo de se constituir a partir do triângulo amoroso e de seu interdito, fixando-se numa relação especular. Lachaud (1998) é respaldada por Vasse (1995), quando este afirma que o ciúme exalta um gozo narcísico, baseado na recusa de toda alteridade (p.91). Nessa mesma linha de argumentação, Vasse (1995) propõe que "o ciúme é perverso. Ele encontra sua fonte na fantasia de onipotência constantemente decepcionada. Esta decepção queima indefinidamente o ciumento (p.39)".

Vasse (1995) acredita ser através do vocábulo nãonão ao incesto, não ao monopólio materno – que o pai vem a fazer parte ativa da vida da criança. Nesse caso, o ciúme poderia levar a uma via estruturante (KLEIN, 1952; DEBOURGE-DONNARS, 1997, p.69; ARREGUY, 2001, p. 28-34), quando mediado pela castração. Mas é contrariando a lei paterna que se manifesta o ciúme primitivo aferrado à posição incestuosa. O outro é "objetificado" numa imagem idealizada, representativa do eu ideal. Vasse (1995) relata que "há na tentativa de congelar ou fixar pelo olhar uma maneira de possuir, destruindo aquilo que permite a alteridade (p.241)". O objeto de amor fica, então, preso por uma imagem idealizada de si mesmo, o que não deixa de ser uma maneira de "matar" o objeto em sua subjetividade, de congelar sua existência numa cena, ou seja, numa miragem que visa um gozo permanente.

Vasse (1995, p.231) faz um jogo de palavras entre aquilo que seria um ato de passagem natural à triangulação do desejo com a passagem ao ato comum no ciúme perverso. No primeiro caso, do "ato de passagem", haveria o surgimento do ciúme nos moldes de um "ciúme normal" (FREUD, 1922), supondo a passagem para a "posição depressiva", conforme descrita em Klein (1952), com sua consecutiva etapa de assimilação da perda e início do processo de reparação. Já na "passagem ao ato", tratar-se-ia de um movimento intenso e abrupto, de sentido regressivo, apresentando de uma forma disfarçada, pela dissimulação, certa encenação inverossímil da dor insuportável.

Na atuação perversa, o ciumento se fecha, recusa a palavra e a entrada do terceiro enquanto rival que aponta para a falta. Para além da destruição factual do outro que ocorre enquanto uma forma de passagem ao ato, Vasse (1995) também teoriza sobre um ciúme que não se revela, pois "fecha o sujeito falante na escuridão do emburrar-se e do mutismo" (p.237). Esse autor compara o silêncio de pacientes ciumentos em análise a essa manifestação infantil de se fechar e emudecer, típica da criança "emburrada". Ela encena uma indiferença sentida, como se, narcisicamente ferida em seu ciúme, não precisasse mais do Outro e, assim, fosse autossuficiente. Essa postura é observável nas crianças ciumentas que ficam horas emburradas caso a mãe dê atenção para um(a) irmão(a), amigo ou colega.

Vasse (1995) considera que o ciumento não fala no sentido pleno da palavra, aquela que revela a verdade da sexualidade faltosa, pois permanece num mundo imaginário em que se satisfaz através da imagem do outro que congelou no espelho (VASSE, 1995, p.240). Ele apenas age, "podendo chegar ao fantasma de atacar a voz ou o interior do outro" (idem), caso seja frustrado em seu desejo onipotente. Assim, o desejo do ciumento, quando atrelado às manifestações perversas patológicas, pode implicar desde a impossibilidade de comunicação intersubjetiva com a anulação do outro pela recusa da palavra, até mesmo à saída aniquiladora como é o caso de um crime passional ou do assassinato virtual (ARREGUY, 2005; 2011). Ela afirma que "é para negar a palavra que a tendência incestuosa exclui o pai (o terceiro) e transforma o outro (a mãe) em objeto de gozo. Aquele que encarna esse gozo, por ele é cegado" (p.149), pois permanece numa posição incestuosa, mortífera pelo fechamento que comporta.

Essa dimensão "perversa" do ciúme focalizada por Vasse (1995) se refere a uma intensidade excessiva do ciúme que petrifica o sujeito na impossibilidade de falar sobre um sofrimento coerente com o antigo modelo de amor romântico. Assim, ao recusar admitir qualquer falha no amor, o ciúme primitivo busca totalizar o desejo do ser amado, apelando para um jogo perverso destrutivo.

 

A ausência de ciúme na clínica psicanalítica contemporânea

Para articular o descompasso entre o ideal cultural da ausência de ciúme e a supressão desse sentimento enquanto sintoma na clínica, partiremos de um caso que representa certa precariedade subjetiva nesse ethos de conduta amorosa.

Labrousse-Hilaire (1997) associa ciúme e traços perversos a partir da observação clínica da ausência de ciúme. Essa situação implica na eliminação completa do afeto, expressa através de relacionamentos amorosos onde não há regras definidas, ou ainda, em que a regra é a multiplicidade e não mais a fidelidade, mas também um semblant de não se importar com o outro. Nesses casos, a presença do rival se relaciona a um acréscimo gozoso, o que se articula ao reinvestimento da bissexualidade recalcada (ARREGUY, 2001, p. 21-27).

Labrousse-Hilaire (1997) apresenta o caso da paciente "Carla", em quem a ausência de ciúme se deve à falta de integração da função simbólica. Carla tem um prazer voyeurista nas "traições" do marido; ela praticamente o impele a ter outras relações e se compraz com isso. Sua relação amorosa se configura como uma relação perversa que recusa os interditos, mantendo "hiperinvestida" a bissexualidade primitiva pela incapacidade de recalcamento de uma sexualidade intrusiva forjada pelos pais (LABROUSSE-HILAIRE, p.88-9; 92-4).

Labrousse-Hilaire (1997, p. 87-8) discute ainda outros casos clínicos de pacientes que, assim como Carla, mantêm relações supostamente livres de ciúme, onde não há exigências de fidelidade e exclusividade. Contudo, são mulheres que vivem em estado de apaixonamento intercalados com depressão profunda, quando falha a postura perversa totalizante que assumem enquanto amantes. Elas também apresentam um "sintoma mudo" (VASSE, 1995), isto é, um silêncio recorrente em análise. Só se relacionam com parceiros do "tipo Don Juan", não se demonstrando atraídas por homens que lhes sejam fiéis. Segundo Labrousse-Hilaire (1997) essas pacientes apresentam um jogo homossexual inconsciente, advindo da problemática do duplo, pois "a presença das rivais parece necessária ao surgimento de seu desejo" (p.92), numa espécie de homossexualidade secundária que a autora considera "incontestável" (op.cit., p.92). Por trás dessas características, a autora vê uma profunda fragilidade narcísica que se mascara através da perversão, ponto também assinalado por Lachaud (1998, p.105) como falha no investimento narcísico dos pais. De fato, a ausência de ciúme pode ser determinada pela recusa de enfrentar a posição depressiva (KLEIN, 1952) e a quebra de um eu ideal onipotente. Assim, a supressão do ciúme se combina inequivocamente com a lógica contemporânea que busca eliminar a depressão, produzindo sujeitos onipotentes, necessariamente satisfeitos, "felizes" e "bem sucedidos". Ao invés de enfrentar as dificuldades do relacionamento, da diferença, da possibilidade constante do aparecimento de um rival, os supostos sujeitos sem ciúme apenas trocam sucessivamente de objeto de amor, mantêm relacionamentos com mais de um parceiro, ou ainda, como Carla (LABROUSSE-HILAIRE, 1997), ligam-se sempre a parceiros sabidamente infiéis tirando prazer do que seria a suposta dor inevitável na presença do terceiro enquanto rival ameaçador. A perda seria então camuflada pela potência orgástica da inclusão do outro.

Debourge-Donnars (1997, p. 67-82) também apresenta um caso em que a ausência de ciúme é patente. Trata-se de Jeannick, uma mulher que, assim como Carla, passou por dificuldades na infância devido ao fato de ter sido criada distante dos pais. Durante o primeiro ano de análise, Jeannick passa o tempo a falar de seus fracassos amorosos, da inveja que tem das amigas bem sucedidas e da sua dificuldade de atrair a atenção dos garotos. Ela tem por modelo romântico de sucesso uma irmã mais nova, casada havia três anos. Relata também um conflito que viveu quando era criança, quando seu pai chegou a deixar a mãe por causa de outra mulher. Jeannick foi a confidente da mãe na época, sofrendo junto o abandono e a traição, ao apoiar a mãe. Entretanto, seu pai voltara para casa e ela então perdeu o lugar de confidente que possuía, sentindo-se relegada ao segundo plano pelo casal reconciliado.

Durante o período de análise, Jeannick namorava X..., um garoto por quem não era apaixonada, como usava dizer em análise, embora o considerasse gentil e solícito. Ela o traía e ele suportava. Num determinado momento da análise, X... ficou com uma amiga de Jeannick, chamada Jeannine. Neste momento, Jeannick viu-se tomada de um ciúme violento e passou a perseguir X..., buscando situações em que via X... e Jeannine juntos, atacava-os e se humilhava diante da escolha determinada de X... pela amiga. Esse episódio denotava uma mudança na disposição psíquica de Jeannick, da ausência de ciúme para o surgimento violento de um ciúme ativo, revelando uma primeira passagem na elaboração do afeto perverso que exclui o terceiro, para a percepção da alteridade do amor, embora esse avanço se desse através da passagem ao ato revelador de uma destrutividade pungente. Ainda que esse movimento não represente nenhuma "cura", dado o potencial agressivo e, quiçá, destrutivo presente no ciúme ab-reagido, ele aponta para um deslocamento de sua atitude em relação ao namorado, a princípio tomado como objeto de uso narcísico quase "indiferente", para um objeto amoroso "perdido", portanto, desejável. Após ter sido "trocada" pela amiga, Jeannick se tornou sensível à situação triangular, não prescindindo de comparecer raivosamente em momentos em que saberia encontrar os dois, atuando numa espécie de identificação projetiva (KLEIN, 1952) com Jeannine, sua quase xará e rival, que nela estimulava a assunção do duplo especular.

Essa situação passional durou meses até que Jeannick pôde transferir o ciúme em análise e, assim, pode reconhecê-lo enquanto um sentimento próprio, passando a elaborá-lo e, finalmente, se desligando de X.... Essa segunda passagem, em que se desapropria da cólera e assume o ciúme pode representar, por sua vez, do ponto de vista pulsional regressivo, a entrada na posição depressiva através do surgimento consciente do ciúme, sendo a amiga-rival posta, então, no lugar impeditivo e simbólico do ideal do eu (FREUD, 1921), logo, impulsionando o desejo. Debourge-Donnars (1997) interpreta esse movimento de abrandamento da paixão súbita e do ciúme perverso primitivo com a afirmação: "Enfim ciumenta?" (p.70), referindo-se a essa transposição consecutiva da ausência de ciúme, para a atuação destrutiva e, enfim, para a elaboração do ciúme consciente. A autora apoia-se em Melanie Klein (1952) ao acreditar que a percepção do próprio ciúme tenha sido o sentimento que levou Jeannick a se diferenciar de uma situação amalgamada que vinha desde o triângulo familiar infantil até a reedição dessa história no âmbito da amizade adulta. O fato é que, anteriormente, Jeannick dizia não amar X..., e só passa a idolatrá-lo quando o objeto de amor a abandona e começa a namorar com sua amiga, Jeannine. Desse modo, Debouge-Donnars afirma que o ciúme surge como uma espécie de auxiliar no tratamento:

Em certos casos, o ciúme pode também ser estruturante na dinâmica de constituição do sujeito e se torna, desse modo, um motor sobre o plano pulsional, ao passo que se torna destrutivo quando ele é integrado num mecanismo de recusa. (DEBOUGE-DONNARS, 1997, p.75)

Em três etapas sucessivas da economia pulsional, Jeannick vivencia primeiramente a ausência de ciúme e, em seguida, com a perda real do namorado, passa ao ato apoiada num ciúme primitivo perverso, algo que será elaborado em análise com a possibilidade de falar desse ciúme. Os referenciais dinâmicos das instâncias que preponderam em cada um desses momentos seriam, respectivamente, o eu ideal que pretende uma fusão total com o outro na ausência de ciúme pela própria desqualificação do conflito; o supereu sádico que exige a visão do terceiro e o gozo do rival, mas também, na dialética dessa ausência/presença do sentimento, a atuação destrutiva, e, por fim, a figuração do ideal do eu que impele à culpa, à identificação simbólica e ao reconhecimento do ciúme (e do potencial castrador do Outro) pela percepção da insuficiência narcísica, libertadora para a criação de novas posições subjetivas do Eu.

 

Em vias de concluir...

Tendo em vista tais formulações clínicas, seria a ausência de ciúme uma maneira mais realista de lidar com um amor pós-moderno fluido e sem fronteiras? Ainda que a ausência de ciúme seja bem adequada aos moldes narcísicos do consumo de amor, a dinâmica psíquica de Jeannick ainda está intrinsecamente atrelada a uma expectativa tamponada em relação ao amor romântico. O surgimento do ciúme como um "auxiliar do tratamento", mesmo que não solucione de todo a análise de Jeannick, traz à tona o conflito psíquico e, consequentemente, um esboço de resposta diante do congelamento da imagem do outro aos moldes do eu ideal com a ausência de ciúme.

Esse caso ilustra aquilo que vemos assomar em nossas clínicas enquanto uma série de sujeitos sofrendo, por um lado, por excesso de ciúme, e por outro, pela tirania de sua ausência culturalmente reforçada e subjetivamente suprimida. Assim, o amor se redefine por uma espécie de romantismo que ainda não se esgarçou completamente frente à falta de parâmetros típica dos ideais de consumo, inclusive de consumo de amor. Nesse contexto, a ausência de ciúme surge como novo ideal utópico a ser perseguido, sofrido e, quem sabe, elaborado em análise através de sua inclusão pela fala.

Enquanto um sentimento que traz dor, insegurança e incerteza para o sujeito, o ciúme pode ter inúmeros destinos. Na concepção de Vasse (1995), haveria a necessidade de eliminar a presença do rival, a ser rechaçado através do gozo incestuoso. Ele aponta também outra manifestação perversa do ciúme atuado no mutismo. Contudo, na atualidade, desponta o fenômeno dúbio em que se elimina a própria rivalidade em sua potência, neutralizando o potencial constrangedor do rival, e passando a atuar com ele [ITÁLICO] como mais um na esfera erótica. O ciúme seria, assim, o "filme negativo" da cena erótica potencializada pela introdução do terceiro.

Em Žižek (2008), vemos a maestria de uma leitura dialética do sintoma, em que uma forma de defesa não exclui a outra, o que se coaduna com uma visada mais complexa das manifestações do ciúme. Não se trata aqui de uma injunção teórica sobre ou esse ou aquele tipo de ciúme exclusivamente predominante, mas de uma disjunção entre um e outro enquanto acontecimentos simultâneos, em que a ausência de ciúme ao mesmo tempo recusa e desmente sua presença inexorável. Quando a imagem narcísica de um amor perfeito não pode ser manchada pela ameaça de um terceiro, o rival é incluído no jogo especular na tentativa de que não ofereça impedimentos à realização imaginariamente concebida. Assim, a presença (outrora intrusiva) do rival passa a desmitificar o ciúme e a reforçar o gozo.

Ao contrário do ciumento delirante (FREUD, 1922; CLÉRAMBAULT, 1999 [1921]) que hiperinveste imaginariamente o rival como um algoz, ou do ciumento melancólico que supervaloriza o rival colocando a si mesmo numa posição masoquista inferiorizada (ARREGUY; GARCIA, 2002), o ciumento cuja defesa perversa prevalece, recusa-se em admitir o poder castrador do rival, neutralizando-o na medida em que ambos atuam na cena amorosa em prol de um gozo a mais (LACAN, 1972). Com efeito, trata-se de pensar a crescente presença do jogo perverso como uma defesa contra o ciúme primitivo (delirante ou melancólico), na medida em que o sintoma social aponta para essa tendência. O rival é tomado como mais um em cena, cuja inclusão se dá com a eliminação da premissa de fidelidade e com sombreamento da ameaça de perda, aspectos manifestos através da suposta ausência de ciúme. A supressão perversa do ciúme combinada à introdução do rival no ritual sexual permite um mais gozar (LACAN, 1972), de modo que não haja nada a se definir como um "não" ao gozo especular incestuoso. Não se trata aqui de dizer que esse ou aquele tipo de ciúme é melhor ou pior, ou sequer de ter uma nostalgia das tradições, nem tampouco de imaginar que um erotismo perverso nunca tenha existido ou que seja mais ou menos patológico, mas apenas de constatar as características de suas manifestações e figurações num enquadre contemporâneo.

Ora, a dimensão desse jogo que pretendemos salientar aqui, é a ausência de ciúme enquanto uma saída narcísica forjada para suportar as frustrações do amor na atualidade. Na verdade, o aparente antagonismo entre o amor romântico e as relações amorosas narcísicas na contemporaneidade parece ser atenuado quando o ciúme primitivo perverso surge como uma chave de resolução do impasse amoroso. Uma vez que o ciúme primitivo não é pronunciado, nem elaborado, sua supressão na ausência de ciúme, então, parece confeccionar uma nova "roupagem", uma solução de compromisso conscientemente invertida, como se a ausência da expressão do ciúme preservasse a ilusão narcísica de ser Um com o objeto amoroso, logo, congelando a imagem do outro no espelho (VASSE, 1995; LACHAUD, 1998).

A vertente da bissexualidade psíquica constitucional defendida por Freud (1922) encontraria, então, uma força especial na atualidade, à proporção que toda diferença, anatômica e subjetiva são recusadas, inflacionando a onipotência do ideal narcísico enquanto sintoma social. O que estaria por trás disso, de forma inconsciente e recalcada, é justamente o amor romântico, já que constitui um ideário que comporta em si mesmo sofrimento e falta, ou seja, a própria condição de impossibilidade como potencializadora da paixão. Ora, na contemporaneidade, a dor inerente às falácias do amor não é jamais aceita, pois deve ser atuada, suprimida ou anestesiada. Numa análise que combina aspectos psíquicos e culturais, haveria, por assim dizer, uma saída bipartida para o ciúme: de um lado, o isolamento sintomático no mutismo emburrado, representando a onipotência do sujeito, e, de outro, a ausência de ciúme enquanto jogo perverso representando o ideal narcísico individualista contra o retorno do romantismo recalcado. A ausência de ciúme, então, seria pautada nas trocas incessantes de parceiros, na pornografia prêt-à-porter, na inclusão do terceiro, na totalização fetichista do olhar e na multiplicação de cenas de consumo erótico do outro na cena cotidiana.

Pela valorização do exercício dialético e na tentativa de não sermos dogmáticos, ao invés de concluir com certezas, ainda, perguntaríamos: poderia, de algum modo (fantasiado ou mesmo factual), a ausência de ciúme e a inclusão do terceiro na cena sexual surgirem como saída criativa para as relações amorosas? Afinal, o papel do psicanalista não seria o de julgar, mas apenas o de tentar abrir saídas criativas, menos sofridas, para o sujeito na relação com seu entorno.6

 

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______. Primeiro como tragédia, depois como farsa. São Paulo: Boitempo, 2011.         [ Links ]

 

Notas

1 Este trabalho é uma versão modificada e ampliada do artigo "Ausência de ciúme: notas sobre consumo de amor" (ARREGUY; GARCIA, 2001), fruto da pesquisa de mestrado de M. Arreguy, orientada por C. Garcia.
2 Evidentemente, esse movimento encontra raízes em momentos históricos mais arcaicos. Podemos citar a obra do bispo Agostinho de Hipona como exemplo da incitação à troca do apelo erótico pelo afã cristão nos séculos III-IV.
3
Atualmente, está cada vez mais em voga um "ideal ecológico" que, por um lado, surge nas mentes ingênuas devido a certa nostalgia da natureza perdida. Por outro lado, esse mesmo ideal aparece distorcido pelo uso do marketing de "preservação do meio ambiente" (vide ŽIŽEK, 2008; 2011).
4
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, disponível em <www.ibge.org.br>.
5
É importante fazer aqui uma distinção entre posse e propriedade. Tomaremos o modelo monogâmico de família presente em Engels (1991 [1884]), característico do surgimento do Estado Moderno. A necessidade de manutenção da propriedade privada gerava uma estabilidade nas relações conjugais, cuja escapatória dessa injunção recaía no apelo à necessidade de produção da crença no modelo romântico. Com a exacerbação da lógica de interiorização dos sentimentos na pós-modernidade, a "propriedade" vista no sentido econômico-financeiro do homem sobre a mulher cedeu espaço para a imposição de uma "posse" do desejo do outro fadada à transitoriedade, ou ainda, à "descartabilidadade", na medida em que não há uma exigência tácita, como havia outrora, de sustentação eterna do laço conjugal. O que se possui pode ser perdido a qualquer momento, portanto, os aspectos simbólicos do laço amoroso são suplantados por aspectos imaginários, ou seja, pelo fantasma da totalização do outro enquanto um objeto de posse pervasiva da existência.
6
M.E. Arreguy e C.A. Garcia participaram igualmente de todas as etapas de elaboração deste artigo.

 

 

Recebido em: 27/09/2011.
Aprovado em: 08/06/2012.