SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23 número2ESTUDO DAS CORRELAÇÕES ENTRE COLORAÇÃO DA LÃ LAVADA (Y-Z) E CARACTERÍSTICAS DA SUARDAEVOLUÇÃO DA COR DURANTE A MATURAÇÃO DAS UVAS TINTAS índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Ciência Rural

versão impressa ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.23 no.2 Santa Maria maio/ago. 1993

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781993000200019 

CONTROLE DO DESENVOLVIMENTO FOLICULAR NA ÉGUA ATRAVÉS DA ULTRA-SONOGRAFIA1

 

FOLLICULAR GROWTH CONTROL IN THE MARE BY ULTRASONOGRAPHY

 

Flávio Desessards De La Côrte2 Inês Nicoloso Castro da Luz3 Joaquin Lopez de Alda4 José Henrique Souza da Silva5 Carlos Antonio Mondino Silva6

 

 

RESUMO

Setenta e cinco éguas Puro Sangue de Corrida (PSC) foram submetidas a exame clínico e ecográfico durante o cio para se avaliar o crescimento folicular. Os exames ecográficos foram feitos com transdutor de 5Mhz e arranjo linear. O controle folicular pode ser feito por ultra-som. Um diâmetro folicular de 41 mm (77% das éguas) aliado a uma alteração de forma do folículo (60% das éguas) e das imagens uterinas (70% das éguas) foram parâmetros que permitiram prever com acuidade a ovulação (P < 0,01).

Palavras-chave: égua, ultra-som, desenvolvimento folicular.

 

SUMMARY

Seventy-five Thoroughbred mares were submit-ted to echographic and clinical examination during oestrus to evaluate follicular growth. A Scanner with a 5Mhz linear-array transdutor was used. Follicular growth control can be carried out by ultrasonography. A follicular diameter of 41 mm (77% of mares), follicular shape-changes (60% of mares) and the variations in uterine image (70% of mares) were the findings which permitted ovulation prognosis with accuracy (P < 0.01).

Key Words: mare, ultrasound, follicular growth

 

 

INTRODUÇÃO

A palpação retal é o método mais prático e eficaz para o acompanhamento do crescimento folicular durante o cio na égua, tendo como fatores limitantes a habilidade do examinador e a presença de folículos adjacentes.

Alguns estudos foram conduzidos para descrever o aspecto ecográfico dos ovários (PALMER &o DRIANCOURT, 1980; GINTHER & PIERSON. 1984a; PIER-SON & GINTHER, 1985), bem como a dinâmica folicular durante o estro. Os folículos apresentam-se com diâmetro variado, aumentando até ao redor de um dia antes da ovulação. Foi descrito também que uma percentagem significativa desse folículos alteram sua forma enquanto se desenvolvem (PIERSON & GINTHER, 1985).

O objetivo do presente trabalho foi de verificar até que ponto pode-se fazer a previsão do momento da ovulação através do controle folicular pela palpação retal e com o ultra-som, levando em consideração o tamanho e a forma dos folículos assim como outros dados que possam ser identificados.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Durante as estações de monta de 1987 e 1988, 75 éguas Puro Sangue de Corrida (PSC) sediadas no Haras Santa Maria de Araras - São José dos Pinhais-PR, foram examinadas durante o cio, por palpação retal è ultra-sonografia, a intervalos de 24 horas, totalizando 85 períodos de cio controlados. Para os exames ecográficos foi usado um aparelho3 equipado com um transdutor de 5Mhz, adaptado para uso transretal em eqüinos.

Rotina dos exames

As éguas em cio foram examinadas diariamente por palpação, registrando-se o grau de flutuação e o tamanho dos folículos. Seus diâmetros foram registrados através do ultra-som, assim como outras imagens que poderiam estar relacionadas com a ovulação. Esta foi diagnosticada pela ausência do folículo que estava sendo controlado ou pela identificação de uma massa gelatinosa, representando o coágulo pós-ovulatório. O útero foi examinado paralelamente ao controle folicular. As suas imagens receberam valores numéricos caracterizando a aparência da parede uterina como de diestro (valor 1,0) e estro (valor 3,0); valores intermediários representaram as diferenças entre os dois extremos.

Os dados colhidos nos exames foram submetidos à análise de variância e ao teste qui-quadrado.

 

RESULTADOS

Os ovários foram identificados através dos folículos que apareciam na tela com caráter não-ecogênico, geralmente arredondados e de tamanho variável (Figuras 1 e 1a). O diâmetro médio dos folículos está descrito na tabela 1. Nos primeiros dias do cio os diâmetros variaram de 23 a 43mm, chegando à média de 33mm. Seguiu-se um crescimento significativo durante o período de controle (P < 0,01). Vinte e quatro horas antes da ovulação o diâmetro médio era de 45mm, oscilando entre 32 a 57mm. Em 24% dos casos, o folículo pré-ovulatório apresentou uma diminuição do diâmetro nos últimos exames.

 

 

 

 

Observa-se na tabela 2 que, 48 horas antes da ovulação, 77% dos folículos pré-ovulatórios apresentavam diâmetros iguais ou superiores a 41 mm; 24 horas antes da ovulação este percentual subiu para 85%. Aproximadamente 54% dos folículos pré-ovulatórios apresentavam, no mesmo momento, diâmetro igual ou superior a 45mm (Figura 2).

 

 

 

 

A maioria dos folículos apresentou no início do cio uma forma arredondada e a medida que se aproximava a ovulação, houve uma tendência a que modificassem sua forma para uma mais alongada, cônica ou semi-circular. A tabela 3 mostra a freqüência da alteração de forma em relação ao momento da observação.

 

 

Aproximadamente 60% dos folículos apresentaram alteração na forma dentro de 24 horas antes da ovulação (Figura 3). Nesse período, cerca de 90% dos folículos apresentavam modificações da flutuação e, em 50% dos casos essa flutuação estava associada a alteração de forma.

 

 

Com o ultra-som foram encontrados 2 tipos de corpos hemorrágicos. Em 68% dos casos eles apresentavam ecos de textura uniforme (Figuras 4 e 5). Nos 32% restantes, a imagem era heterogênea, com uma área central escura, delimitada por uma área com reflexos de intensidade variável. Estas áreas não-ecogênicas ocupavam diferentes proporções da superfície total (Figura 6).

 

 

 

 

 

 

Verificou-se uma diferença entre os exames feitos por palpação retal e ultra-sonografia. Na palpação dos folículos pré-ovulatórios de grande flutuação, ao ultra-som 9,4% deles eram corpos hemorrágicos. Palpava-se uma ovulação, verificava-se que, pela ecografia 7,1% delas eram folículos pré-ovulatórios.

Foi identificada uma variação entre duas imagens ecográficas do útero, uma característica do estro e outra de diestro. A primeira possuía textura variada (partes ecogênicas e outras não-ecogênicas alternadas) e a segunda era homogênea. Em 71% dos períodos de cio observados ocorreram variações na imagem uterina; no início do cio as imagens receberam, em média, valor 1,5 (Figura 7c), aumentando para 2,0 e chegando a 2,5 em torno de 72-48 horas antes da ovulação; ao final do cio, estes valores decresceram para 2,0-1,5 nas 24 horas antes da ovulação (Tabela 4).

 

 

 

 

Em 29% dos casos não ocorreu esta variação. Em 70% dos casos, 24 horas antes da ovulação, os valores eram iguais ou inferiores a 2,0. Esta freqüência é significativamente superior aos 40% encontrados nos exames 40 horas pré-ovulação (P < 0,01).

 

DISCUSSÃO

Os ovários e, principalmente os folículos são facilmente identificados na ecografia pelo contraste das imagens que produzem. Seu caráter não-ecogênico é resultante da ausência de reflexo das ondas sonoras que se propagam através do líquido folícular (Figuras 1 a 3). Imagens idênticas a estas foram descritas por PALMER & DRIANCOURT (1980), GINTHER & PIERSON (1984a) e PIERSON & GINTHER (1985).

No início do cio o folículo que apresentava maior diâmetro foi identificado como o folículo pré-ovulatório (Figura 2), sendo mais fácil sua diferenciação a partir dos 5 dias antes da ovulação. A variação no diâmetro dos folículos pré-ovulatórios apresentados na tabela 1 foi uma característica marcante no controle do desenvolvimento folicular (P<0,01). Os resultados descritos por HUGHES et al (1975) na palpação retal e PIERSON & GINTHER (1985) com a ultra-sonografia se assemelham aos aqui obtidos. A ecografia permitiu a avaliação mais precisa do tamanho folicular porque o mostrou em toda a sua dimensão, oferecendo uma vantagem em relação a palpação retal que permite estimar o tamanho pela palpação de sua superfície.

O diâmetro folicular é um bom indicador da proximidade da ovulação (Tabela 2), uma vez que 77% das ovulações ocorrem até 48 horas após os folículos atingirem em média 41 mm. O diâmetro folicular, associado à uma redução no número de outros folículos maiores é muito útil no prognóstico da ovulação. PIERSON & GINTHER (1985) chegaram a mesma conclusão. A redução no diâmetro de alguns folículos pré-ovulatórios (24% dos casos) ocorreu, provavelmente, associada a alterações de forma durante sua progressão em direção à fossa de ovulação (Figura 3).

Pode-se concluir que no prognóstico da ovulação deve-se considerar a relação entre o diâmetro, a alteração da forma e a flutuação dos folículos pré-ovulatórios.

Na palpação retal a ovulação é detectada pelo desaparecimento do folículo que estavam sendo controlado. Observou-se que na ultra-sonografia o diagnóstico é feito a partir da visualização do corpo hemorrágico (Figura 4), que poderá apresentar textura variada, no mesmo ovário onde se encontrava o folículo pré-ovulatório; essa aparição de 2 tipos de morfologia de corpos hemorrágicos deve-se à fase de organização do coágulo no momento do exame (Figuras 5 e 6), não tendo maior significado, TOWNSON & GINTHER (1988) e ALLEN et al (1987) chegaram a observação semelhante.

Outra importante contribuição da ultra-sonografia é a possibilidade de diferenciação entre um folículo pré-ovulatório de acentuada flutuação e um corpo hemorrágico formado a poucas horas. A discordância ente os achados da palpação retal e o exame ecográfico aqui encontradas justifica o uso da ecografia também para o diagnóstico da ovulação. Embora o percentual de erro clínico seja reduzido (9,4%), se tornaria significativo quando, no auge da estação de monta, as éguas fossem cobertas e a ovulação já tivesse ocorrido.

Verifica-se na tabela 4 que não somente os parâmetros de crescimento folicular podem ser úteis no prognóstico da ovulação. O exame do útero é também importante referência para o controle folicular. Seus 2 tipos de imagens (Figuras 7a e 7b) coincidem com as descrições de CHEVALIER & PALMER (1982) e GINTHER & PIERSON (1984b). A variação da imagem pode ser usada para a estimar o momento da ovulação e indicar o melhor momento para a cobertura (Figura c). A presença ou não de edema das dobras endometriais é conseqüência dos níveis de estrógenos, estando relacionada também com a manifestação comportamental de cio (HAYES et al, 1985).

O prognóstico da ovulação têm sido efetuado com base somente nos achados da palpação retal. Propõe-se aqui a utilização da ultra-sonografia como método auxiliar na rotina do controle de desenvolvimento folicular. O diâmetro e a alteração de forma do folículo pré-ovulatório associados à redução do edema das dobras endometriais são parâmetros muito úteis na previsão do momento da ovulação.

 

AGRADECIMENTOS

Nosso agradecimento ao Sr. Antonio Guilherme Schmitz Filho pela reprodução fotográfica apresentada neste estudo.

 

FONTE DE AQUISIÇÃO

a - SCANNER 450 - Pie Medical Inc., Holland

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALLEN, W. E., ARBEID, P. E., KOOROS, K, et al. Ultrasonic appearence of the equine Corpus haemorragicum. Vet Rec, v. 121, p. 422-423, 1987.         [ Links ]

CHEVALIER, F., PALMER, E. Ultrasound echography in the mare. J Reprod Fert, v. 32, p. 423-430, 1982.         [ Links ]

GINTHER, O.J., PIERSON, R.A. Ultrasonic anatomy of equine ovaries. Theriogenology, v.21, p. 471-483, 1984a.         [ Links ]

GINTHER, O.J., PIERSON, R.A. Ultrasonic anatomy and pathology of equine uterus. Theriogenology, v.21, p. 505-516, 1984b.         [ Links ]

HAYES, K.E.N., PIERSON, R.A., SCRABA, S.T, et al. Effects of oestrus cycle and season on Ultrasonic uterine anatomy in mares. Theriogenology, v. 24, p. 465-477, 1985.         [ Links ]

HUGHES, J.P, STABENFELDT, G.H, EVANS, J.W. The oestrus cycle of the mare. J reprod Fert, v.23, p. 161-166, 1975.         [ Links ]

PALMER, E., DRIANCOURT, M.A. Use the ultrasound echography in equine gynecology. Theriogenology. v. 13, p. 203-216, 1980.         [ Links ]

PIERSON, R.A., GINTHER, O.J. Ultrasonic evaluation of the pre-ovulatory follicle in the mare. Theriogenology, v. 24, p. 359-368, 1985.         [ Links ]

TOWNSON, D. H., GINTHER, O.J. The development of fluid-filled luteal glands in mares. Animal Reprod Sci, v. 17, p. 155-163, 1988.         [ Links ]

 

 

1Financiado peto Banco Bozano Simonsen S/A

2Médico Veterinário, Mestre, Professor Assistente do Departamento de Clínica de Grandes Animais, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 97119-900 Santa Maria, RS.

3Médico Veterinário Autônomo, Mestre, Bagé.RS

4Médico Veterinário Autônomo, Haras Santa Maria de Araras, São José dos Pinhais.PR.

5Engenheiro Agrônomo, PhD, Professor Titular Departamento de Zootecnia, - UFSM.

6Médico Veterinário, Doutor. Professor Titular do Departamento de Clínica de Grandes Animais. UFSM.

Recebido para publicação em 29.10.92. Aproado para publicação em 03.03.93.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons