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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.24 no.2 Santa Maria  1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781994000200017 

PERFIL SOROLÓGICO EM EQUINOS INTOXICADOS EXPERIMENTALMENTE POR SENECIO BRASILIENSIS COMPOSITAE. PARTE II BILIRRUBINAS, ALBUMINAS E PROTEÍNAS1

 

EQUINE SEROLOGICAL PROFILE IN EXPERIMENTAL SENECIO BRASILIENSIS (COMPOSITAE) POISONING. PART II. BILIRUBIN, ALBUMIN AND PROTEIN.

 

Sonia Terezinha dos Anjos Lopes2 Luis Carlos Ribeiro Fan3 Celso Pilati4 Maria Luchese5

 

 

RESUMO

As parte aéreas dessecadas de senecio brasiliensis, colhidas no período de brotação, foram administradas a 14 equinos de raça mista, com idade de 4 a 22 anos e pesos de 230 a 475kg. A planta era misturada à ração dada aos animais ou moída, misturada em água e administrada por sonda nasoesofágica. Foram realizadas colheitas de sangue periodicamente nos 14 equinos para avaliação dos níveis séricos de bilirrubina, albumina e proteína. Oito cavalos desenvolveram a intoxicação, três morreram por causas outras e três sobreviveram sem apresentar quaisquer sinais clínicos durante o período em que foram observados. Nos animais que desenvolveram a doença os sinais clínicos tiveram evolução de um a seis dias e caracterizaram-se por anorexia, icterícia e distúrbios neurológicos. A bilirrubina total e indireta apresentam-se elevadas na fase terminal da intoxicação e a albumina e proteína mostram níveis abaixo dos valores de referência num equino que desenvolveu a forma crônica da enfermidade. Conclui-se que dentre as provas laboratoriais usadas, a bilirrubina indireta apresenta melhor indicação da alteração hepática causada por intoxicação pelo senecio brasiliensis.

Palavras-chave: bilirrubinas, albumina, proteína, intoxicação, equinos, senecio.

 

SUMMARY

In experimentally studies fourteen crossbred horses with ages between 4 to 22-year-old and weighing from 230 to 475kg were fed the dried aereal parts of Senecio brasiliensis during its sprouting period. The plant was administered to the horses either mixed with the ration or grounded, admixed with water and force fed through a nasaesophagic sound. Blood samples were collected periodically in fourteen horses to evaluate serum biochemical parameters. Eight horses died due to the intoxication whereas three horses died of unrelated diseases. Three horses survived without any clinical signs during the experiment. The clinical disease induced by the plant in the eight intoxicated horses had a neurological disturbance. Total bilirubin and unconjugated bilirubin were increased in the terminal stages. Albumin and protein decreased levels of the one horse that developed chronic form of the disease. It was concluded the variation of serum levels of the unconjugated bilirubin gave a better picture from liver alteration in horses intoxicated by Senecio brasiliensis poisoning.

Key words: bilirubin, albumin, protein, poisoning, horses, Senecio.

 

 

INTRODUÇÃO

senecio brasiliensis é uma planta tóxica, invasora comum das pastagens no Rio Grande do Sul, conhecida vulgarmente por maria-mole, flor-de-almas e vassoura-mole.

A intoxicação expontânea por senecio brasiliensis em equinos ainda não foi documentada no Rio grande do Sul. Em São Paulo foi relatada por CARVALHO E MAUGÉ (1946) e no Paraná, doze equinos morreram com lesões microscópicas hepáticas características da intoxicação por alcalóides pirrolizidínicos - APS (CURRIAL & GUINMARÃES, 1958). O modo da intoxicação por Senecio spp, em equinos está geralmente associado à ingestão de feno contaminado (QUALLS, 1980) embora tenha sido documentado casos de intoxicação em animais a campo (GILES, 1983).

A principal lesão na intoxicação por Senecio spp é uma hepatopatia crônica progressiva (MOLYNEUX et al, 1988).

As alterações clínicas de insuficiência hepática são várias, entre elas a colestase e a icterícia. A bilirrubina é um teste laboratorial também usado para avaliar a insuficiência hepática. Quando a produção de bilirrubina exceder a capacidade de excreção do fígado ocorrerá hiperbilirrubinemia. Esta capacidade de excreção pode estar diminuída devido a disfunções hepatocelulares ou na obstrução do trato biliar (TENNANT & HORNBUCKLE, 1980). No cavalo tanto a hiperbilirrubinemia colestásica como a hemolítica caracterizam-se por ter mais de 50% da bilirrubina total no soro, na forma não conjugada. Os mecanismos não são conhecidos (DUNCAN & PRASSE, 1982; KANECO, 1989).

QUALLS (1980) encontrou níveis elevados de bilirrubina conjugada (direta), não conjugada (indireta) e total, na fase terminal da intoxicação por Senecio vulgaris em eqüinos. No entanto, LESSARD et al. (1986), trabalhando com a mesma espécie, não encontraram aumento da bilirrubina total.

Doença hepática crônica difusa reduz a concentração de albumina, uma vez que a vida média dessa proteína é de 12 a 18 dias, seus níveis declinam gradualmente, chegando de 1 a 2g/dl em processos crônicos (WILKES, 1981).

Segundo QUALLS (1980) a diminuição na taxa de albumina encontrada na intoxicação por Senecio vulgaris em equinos é atribuída ao efeito tóxico direto dos metabólitos dos alcalóides pirrolizidínicos nos ribossomos, inibindo a síntese de albumina. LESSARD et al. (1986) não encontraram alterações nos níveis plasmáticos de proteína total em eqüinos intoxicados por Senecio vulgaris.

O presente trabalho teve por objetivo determinar experimentalmente o valor dos testes bioquímicos na intoxicação por planta do gênero Senecio e o reconhecimento precoce dos efeitos hepatotóxicos da planta.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram usados 14 eqüinos de diferentes idades e ambos os sexos. A quantidade de planta administrada e os métodos de administração encontram-se resumidos na Tabela 1.

Os 10cm superiores da planta Senecio brasiliensis em brotação foram colhidos no município de Santa Maria, RS, Brasil, em junho e julho de 1988; após a colheita, foi secado à sombra e após estocado em local arejado, em temperatura ambiente.

A relação do peso entre a planta verde e a planta dissecada foi de 5:1. As administrações em todos os experimentos foram feitas com a planta em estado seco, porém, todos os dados de quantidade de planta, mencionados neste estudo, referem-se ao correspondente em planta verde.

De cada animal foram retirados 10ml de sangue, por punção na veia jugular, antes de iniciar a administração da planta e por vários períodos após o início do experimento. O soro foi separado a 3000rpm, por 15 minutos e as provas de bilirrubinas, proteína total e albumina foram dosadas imediatamente, sendo utilizados kits Labtesta e as absorbâncias determinadas no Spectronic 21b.

Animais que morreram foram necropsiados imediatamente após o óbito, sendo colhidas amostras de vários órgãos para exames histopatológicos rotineiros.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos estão apresentados na Tabela 2. Valores usados como referência estão expressos na Tabela 3. O eqüino n° 9 morreu três dias após a administração da planta, sendo realizada apenas a colheita pré-experimento.

Na fase terminal ocorreu aumento acentuado na concentração sérica da bilirrubina total nos eqüinos 10, 11, 13 e 14 (Tabela 2). Achados semelhantes aos de QUALLS (1980). É possível que estes animais tenham desenvolvido hemólise intravascular, achado freqüente em eqüinos com insuficiência hepática (TENNANT et al., 1973; DOXEY, 1985), confirmada pela elevação da fração não conjugada (indireta) que representou mais de 60% da bilirrubina total, o que corrobora com a afirmação de DUNCAN & PRASSE (1982) e KANEKO (1989). No equino 6 os nívies de bilirrubina não conjugada (indireta) foi superior a 90% da bilirrubina total. Esse animal desenvolveu hemoglobinúria, confirmando a possibilidade de ter ocorrido hemólise intravascular. No eqüino 7, 60% da bilirrubina total estava na forma não conjugada. O equino 3 apresentou pequeno aumento na concentração sérica da bilirrubina direta. Atribui-se esse pequeno aumento à megalocitose. encontrada nos exames histopatológicos do fígado, conforme descrevem TENNANT et al. (1973) e TENNANT & HORNBUCKLE(1980).

Os eqüinos 3, 4, 5, 7, 8 e 12 apresentaram aumento nos níveis séricos de proteínas (Tabela 2) comparados aos valores de referência conforme Tabela 3. Essas alterações ocorreram, no decorrer do experimento, sem que os animais apresentassem quaisquer manifestações clínicas da doença. Provavelmente esses aumentos estejam relacionados com desidratação que possa ter ocorrido. Nos equinos 3, 6, 7. 11 e 12 foram observados níveis séricos de albumina (Tabela 2) abaixo dos valores de referência (Tabela 3), o que indica o comprometimento da massa funcional hepática. O equino 3 apresentou um maior período de sobrevivência, entre os animais que desenvolveram a intoxicação (284 dias após a administração da planta), o que confirma a descrição de WILKES (1981) o qual afirmou que os níveis de albumina diminuem gradualmente em processos crônicos. Também esse achado está de acordo com os resultados encontrados por QUALLS (1980).

Os eqüinos 13 e 14 apresentaram um declínio nos níveis séricos de albumina e proteína, em relação à amostra inicial, permanecendo dentro dos valores de referência (Tabela 3). Provavelmente essa diminuição poderia ter sido maior se os animais tivessem um maior período de sobrevivência, visto que os mesmos morreram no 5° e 8° dias após administração da planta. Os equinos 4 e 5 apresentaram um leve aumento na concentração de albumina no decorrer do experimento, embora esses animais não tivessem desenvolvido a doença.

 

CONCLUSÃO

Para o diagnóstico da intoxicação aguda por Senecio brasiliensis, que se apresente na forma terminal, está indicada a análise da bilirrubina. Nos quadros de evolução crônica estão indicadas as análise de albumina e proteína.

 

FONTES DE AQUISIÇÃO

a - Labtest Sistemas Diagnósticos Ltda: Av. Isabel Bueno, 948. Belo Horizonte, MG.

b - Milton Roy Company/Analytical Products Division: 820, Lunden Avenue, Rochester, NY14625.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Parte da Dissertação de Mestrado apresentada pelo primeiro autor ao Curso de Pós-Graduação em Medicina Veterinária da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). 97119-900 Santa Maria, RS.

2Médico Veterinário, Mestre, Laboratório Clínico do Hospital de Clínicas Veterinárias da UFSM.

3Médico Veterinário, Mestre, Professor Titular, Departamento de Clinica de Pequenos Animais, UFSM.

4 Médico Veterinário, Mestre, Bolsista do CNPq.

5 Farmacêutico Bioquímico, Laboratório Central, Hospital Universitário, UFSM.

 

Recebido para publicação em 02.07.93. Aprovado em 16.03.94.

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